quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Remédio santo para azedumes e angústias

O Reboliço vai, patinha ante patinha, até ao armário por cima do lava-loiça, tira o bule, ferve água quanto baste, junta-lhe umas ervinhas secas e enche uma chávena de chá. Só isto.

Automóveis

Enquanto estive fora, o meu carro não andou. Quando lhe pegaram, por despeito, suicidou-se. Com um ataque de coração. Penso num transplante, mas não sei se valerá a pena. Se o fizer, ou se arranjar um novo, não me apetece pagar a gasolina. Além de me irritar o preço a que está. Não me apetece andar de autocarro. Além de me irritarem as horas que levaria a percorrer pequenas distâncias e os atrasos nos horários. Caio sempre, quando ando de bicicleta. Além de me irritar não haver ciclovias. Ninguém tem por aí um daqueles aparelhinhos de teletransporte, por acaso, não?

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

De noite, dentro do carro, a ver o céu

Acabei de chegar de uma viagem pequena – de Alcoutim até Faro. Vim no banco de trás, a olhar para o céu nocturno cheio de estrelas. A lua está minguante, durante um bom bocado a estrada não é iluminada e há poucas cidades grandes no caminho. Céu negro, portanto, e muitos pontinhos brilhantes. Fez-me lembrar as viagens de Beja até casa, no R12. Vínhamos os três cá atrás, os meus irmãos a dormir e eu sentada, de testa encostada ao vidro do carro, a olhar para as estrelas. Quando havia lua, entretinha-me a vê-la mudar de lugar conforme a estrada virava numa direcção ou noutra. Entre esses dias e o de hoje, a diferença que mais notei foi que no R12, como os comandos não eram iluminados, a escuridão era quase total. Os carros hoje têm luzinhas por todo o lado, reflectem-se irritadamente nos vidros – dá uma trabalheira tapá-las com a mão e olhar lá para fora, para um céu preto em que os únicos pontos iluminados sejam as estrelas.

terça-feira, 23 de agosto de 2005

Para se ver como é verdade...

A foto já é antiga (terá uns sete dias, mas a distância do tempo nas ideias também conta), mas a atitude continua a mesma. Sem conduzir nem nada.

(Foto: Tatita, como se vê no espelho.)

De férias

Ainda não é hoje que transcrevo as tais linhas. Mas tenho saudades de deixar aqui mais do que estas palavras de adiar o pensamento. Tenho muito que dizer sobre o que me deixou mais feliz nestes últimos dias, sobre o que mais me desiludiu, o que me fez ter dúvidas, o que me fez confiar nos dias que vêm. Mas não será hoje ainda.

segunda-feira, 22 de agosto de 2005

Retorno breve

Voltei e desta vez tão cedo não sairei de cá. Tenho um monte de letras alinhadas em cadernos, estradinhas de pensamentos à espera de serem revisitadas. Tenho as patinhas cansadas mas, enquanto passo por elas a língua molhada na água familiar, vou transformando o cansaço na lembrança dos dias diferentes e bonitos. Ajuda ter tido vozes que perguntaram por onde andei.

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

De regresso, por momentos

Estou em casa. Em casa, a ver o mar. A ver a luz do sol a branquear as paredes das casas, mais forte ainda por causa das nuvens (choveu ontem, uns salpicos, por aqui). Mas tento fazer tudo para dispensar o uso das cedilhas e dos acentos. Custa um pouco regressar.

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

Ate ja.

Last Day

O ultimo dia nesta cidade so teve coisas estranhas. Demorei 15 minutos (15!) entre sair de casa com dois caixotes de livros, chegar aos correios, ser atendida por um tipo muito gordo e muito antipatico, oferecer-lhe o meu melhor sorriso e os desejos de um dia melhor, e voltar a casa. Fui fazer outros recados (metade saiu gorada) e, no regresso, entro no metro na estacao da Spring Street (estupidamente, deveria ter andado mais uns quarteiroes e ter entrado logo na Canal). Ha um comboio parado mais a frente, na mesma linha. Ao fim de 20 minutos (ja estou a perder, com o que tinha "ganho" nos correios), decido sair e reentrar na Canal, para apanhar o expresso. Quando saio na Fulton, ja perto de casa, a rua esta fechada e um grande carro dos bombeiros irradia luzinha por todos os lados. Nao vejo fogo, nao ha sirenes. So as luzes e o carro enorme. E muitos bombeiros a uma porta, a falar com alguem. Quando me aproximo, reconheco quem: o Homem-Aranha (ok, alguem vestido com o fato de, mascara e tudo... Que aborrecimento!...). Refreio-me para nao lhe perguntar, "Diga la, senhor Homem-Aranha, quem foi que salvou desta vez?"

Roger Fenton (1819 - 8 de Agosto de 1869)

A esta imagem, captada e revelada em 1855, chamou Fenton "The valley of the shadow of death", o bíblico Vale da Sombra da Morte. Foi a maneira crua que encontrou para documentar a guerra da Crimeia. Seca, quase abstracta, a imagem funde as pedras daquele deserto com as balas de canhão de uma batalha recém-travada e sugere que, afinal, os trilhos da estrada que os pés dos homens traçaram não vão dar a nenhum lado. A exposição é irrepreensível.

domingo, 7 de agosto de 2005

"We will wate for you"

Mais um bocadinho, "nos regamos por si". Foi das mensagens mais poeticas que ja recebi.

sábado, 6 de agosto de 2005

Death of a chair

Fico no sétimo andar de um prédio com mais de trinta, uma residência universitária. O sétimo andar é o único que tem varanda (e o único em que se alojam professores), um espaço que se estende por um comprimento igual ao do estúdio que é a casa. Tem pouco mais de um terço da largura. Esta é a varanda mais ampla do andar; as outras são-lhe contíguas e vão diminuindo gradualmente de comprimento, embora algumas sejam mais largas. A face dos andares por cima alinha com as janelas e as portas das varandas deste. Sem varandas, nenhum dos andares de cima tem porta, mas todos têm janelas. Quase sempre fechadas, sem deixar fresta na superfície verde-vidrada do prédio, mas que se podem abrir.
Ontem cheguei a casa já era escuro e limitei-me a inclinar as bandas das persianas, já descidas, para evitar a luz (não a claridade, enfim...) matinal. Não ouvi nada de estranho. Fiquei até às três da manhã a ver filmes com a Katherine Hepburn no TCM. Descansadinha.
Esta manhã acordei eram oito horas. Tentei voltar à cama, mas já não havia sono. Dei os cinco passos curtos que levam da cama à parede janela-porta-janela e fiz girar o canudinho que inclina e desinclina as bandas finas das persianas. A meio da varanda estava uma caixa de cereais, vazia, com a abertura a mostrar-se. Ainda ali está, parada, a dizer que não há vento na cidade. Junto à janela da esquerda, de espaldar no chão e pernas traseiras viradas para mim, uma cadeira sem fundo e sem as pernas da frente. Assim, a menos de um metro da janela. Esta é a altura do ano em que os alunos antigos deixam a residência e chegam os alunos novos. Os que saem alugam camiões de mudanças, os SUV dos primos, táxi-vans ou atrelados, para tentarem levar as miudezas e os móveis maiores que usaram enquanto aqui viveram. O que já não lhes serve, defenestram. Ou isso ou a cadeira tinha uma vida demasiado infeliz.

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

Pra le di veiz in quandu

Um novo portal de blogs. Coisa de gente nova e brasileira. Muito seria e divertida.

Os Dias do Desespero

Gus van Sant fez-me reconciliar com o cinema. O seu Last Days e um exemplo de sensibilidade e bom gosto. E, ou me engano muito, ou tem das imagens mais bonitas dos momentos de uma morte. Fecha a trilogia que comecou em 2002 (muito bem) com Gerry e seguiu em 2003 (igualmente bem) com Elephant. Em Last Days vi, alem de elementos dos dois anteriores, um olhar desconfortavel com a inadequacao das almas aos lugares, dos lugares as pessoas, da natureza ao homem de hoje, do homem de hoje aos outros, dos outros a si mesmos... Cada imagem e tratada com um cuidado que chega a ser ternura. Tal como nos outros dois filmes, as palavras, os sons e o silencio sao introduzidos com o rigor de uma partitura barroca. Chego a ter receio de usar a palavra "perfeito", mas nao compreendo bem porque.

quinta-feira, 4 de agosto de 2005

Esta e imperdivel!

Que me perdoem os mais puritanos... Sabem qual a sigla do Conselho Nacional das Artes e da Cultura no Mexico? :-)

terça-feira, 2 de agosto de 2005

PG

Ando entranhada de Peer Gynt. Adoro o estouvado, tenho pena dele, zango-me com ele, apaixono-me por ele. Daqui para O Homem sem Qualidades sera um passinho de formiga.