O Reboliço levanta-se de debaixo da cadeira, arrebita as orelhas, sacode o pescoço, fazendo tinir a esquila e vai, patinha ante patinha, até à porta. O ar está fresco e, parado sobre a pedra da soleira, alonga o focinho na direcção da rua. Depois, baixa a cabeça e observa as formigas que caminham rápidas sobre a calçada e as folhas de videira que nela arrojam com o vento. Volta a levantar o focinho, a cheirar. Mas nada. Nem sinal da Lagarta.
quarta-feira, 28 de setembro de 2005
Vento
(Está a ventar nas frestas das janelas de alumínio.)
Entre as velas do moinho, atadas às cordas que se esticavam de uma vara a outra, havia umas cabacinhas de barro. Quando fazia vento, mesmo com o moinho parado, ouvia-se a zunir dentro daquelas paredes finas de barro escuro. Às vezes, com uma pedra que saltasse ou a pressão mais forte do ar a passar nelas, as cabacinhas estalavam - partiam-se e eram logo substituídas por pequenas garrafas de Sagres, com a mesma abertura estreita e corpo bojudo. Não sei se conseguia distinguir o zunido, entre o vento no vidro e o vento no barro. Do que me lembro era disto: as luzes dos faróis reflectidas na parede do moinho, quando chegávamos à noite, o barulho só do vento, que amplificava aquele silêncio todo, a mãe e o pai a levarem-nos para dentro da casa, ao colo, embrulhados, de orelhas bem cobertas, nas mantas de lã colorida que a avó Mariana tricotara. Isso e abrir a porta, ver a lareira acesa e os velhotes quase adormecidos, de braços e cabeça sobre a mesa. Ali, o silêncio era um ruído semelhante ao das garrafinhas com vento, a vir do candeeiro a gás que dava à cozinha uma luz tão própria.
O avô levantava a cabeça devagar, virava-se para nós e dizia "Olh'ólhólha...", muito devagar, como se a surpresa de estarmos ali fosse aquilo por que esperava, entre o zunido e o silêncio.
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Moinho
segunda-feira, 26 de setembro de 2005
Primeiro dia de aulas
Oito horas quase seguidas de encontro com caras novas. Olho para eles (quase todos "elas") e antevejo a desilusão. Mas tenho de impor essa imagem de desilusão, a que trago da experiência, à impressão que recebo dali - de esperança, novidade, entusiasmo. Como quando vejo o sol subir no céu e me forço a convencer que não, que não se mexe e que é de onde estou que há movimento.
Para me/os inspirar, levei Cavell à procura da felicidade: "the way to overcome theory correctly, philosophically, is to let the object or the work of your interest teach you how to consider it."
domingo, 25 de setembro de 2005
No eternal reward will forgive us now for wasting the dawn
Dizia Jim Morrison. Tinha razão: nada existe que valha um amanhecer, nada que consiga compensar a sua perda. Mas ganhar um amanhecer destes de início de outono é como se recuperasse todos os que deixei passar e todos os que não verei.
A rosa já floriu, é cor de fogo.
sexta-feira, 23 de setembro de 2005
A mana
Além de ser a moça "mai' linda q'a todas", a mana do Reboliço é muito prendada: foi à Experimenta Design aprender a fazer letras e tudo!
quinta-feira, 22 de setembro de 2005
Sushi
Conta-me um amigo da sua "primeira vez com sushi". E, a propósito de primeiras vezes, lembro-me de um texto de Patrick Süskind, um conto-ensaio chamado "Amnesia in litteris", sobre a maneira como esquecemos os livros que lemos e isso nos faz lê-los, segundas e terceiras vezes, como se fossem a primeira. Quanto aos livros, a minha má memória dá-me muitas alegrias. Já o sushi, uma vez experimentado, não consigo esquecê-lo. Quem me dera estar a experimentar sushi pela primeira vez - outra vez!
quarta-feira, 21 de setembro de 2005
Cheiros
De cada vez que saio do trabalho para casa, ou na volta contrária, dou pelos cheiros. Normalmente é a sair do campus. Penso, nessas alturas, que deveria escrever sobre os cheiros. Mas raramente o faço: quando escrevo, esqueço-me disso e já só me lembro na vez seguinte. Saio do gabinete, passo o corredor, saio do edifício e entro nos cheiros: o pinheiro, o rosmaninho, às vezes a maresia. Na cidade, a relva acabada de cortar. Quando chovia, a terra molhada.
terça-feira, 20 de setembro de 2005
Manifestos
Fui ver o espectáculo de encerramento da Plataforma de Dança Contemporânea (PDC) que a Faro 2005 encomendou a coreógrafos portugueses. Um deles, João Fiadeiro (notável e persistente criador de arte), manifestou-se antes de começar a iniciativa, nas páginas do Expresso. Chamou ao seu manifesto "(Não) é assim a vida..." (está no suplemento Actual de 3 deste mês, não posso linkar porque o Expresso na rede, tal como o impresso, é "a pagantes"...) e nele denuncia o seu cansaço - a "exaustão" - perante o sistemático desrespeito das estruturas, principalmente as governativas, institucionais, pelos artistas "intermitentes", como coreógrafos e bailarinos - e anuncia a sua não participação na PDC. No espectáculo que se apresentou hoje em Faro, foi lido um manifesto, subscrito por duas associações de bailarinos e coreógrafos, a REDE e a PLATEIA. Trata-se de uma versão abreviada do que se encontra disponível para quem quiser ler e assinar.
O caso é complexo e não é num pequeno post que conseguirei entendê-lo ou fazê-lo entender. Mas tento perceber alguma coisa, entre o ruído que se vai criando de vários lados. Há uns três ou quatro anos comecei a tomar consciência mais crítica dela, a partir da situação de crise dos profissionais do espectáculo em França, que lá teve fortes repercussões políticas e sociais e se viu discutido pela sociedade civil, principalmente na imprensa, e de que tive conhecimento através da Les Inrockuptibles. Sei que, sempre que penso sobre esta questão, vejo a necessidade - cada vez mais uma urgência - de ouvir tomadas de posição claras, de ver assumidas as políticas de que só se vai sabendo (a sociedade civil, as pessoas que, como eu, estão alheadas das vicissitudes dos meios profissionais que não os da sua própria profissão) quando já os factos são consumados e irrevogáveis as (quase sempre más) decisões. Por isso, independentemente do sentido do seu conteúdo, considero de uma coragem infelizmente não costumada a atitude dos coreógrafos que hoje, a uma só voz, deram a conhecer ao público o que os inquieta na profissão e aquilo contra o que estão, desta maneira, em luta. Diz Fiadeiro, no seu texto, que "estamos a anos-luz dessa [...] consciência cívica", o que é verdade e me entristece. Como é possível que se continue a viver o dia-a-dia à sombra de um conceito político que ninguém discute? Como se sentem as pessoas do meu país quando vão a um espectáculo, sabendo que 1) o Estado que os governa tem como orientação política uma ideologia que prevê o apoio a actividades culturais; 2) o Estado que assim pensa (e se chama, por isso, "socialista"), não age de acordo com as palavras com que se define e se demite desse apoio? Como saberemos tornar este lugar, em que nos vai sendo dada a cada dia a sorte (o acaso) de vivermos, num PAÍS, mais do que um lugar de vivência casual, o verdadeiro resultado de escolhas conscientes e de visão mais do que imediata, se não temos opinião, não manifestamos, não dizemos o que pensamos acerca de assuntos que nos dizem, queiramos ou não, respeito? Não seria positivo que pelo menos se discutissem alternativas a esta forma ideológica? Qualquer coisa que se diferenciasse, por ser uma definição de papéis? Não sei muito bem a quem faço estas perguntas. Talvez o facto de as escrever aqui, num blogue pessoal, seja revelador desta espécie de sombra a que também acabo por me sentar, na esperança de que o mal não seja muito, de que não me incomodem do cantinho em que me meti e de que amanhã, quando acordar, já não me lembre destes desvarios. Desconfio, porém, que não será bem assim.
E percebo agora que, enquanto não existirem formas de cultura CONSCIENTEMENTE (da tal consciência cívica) criadas e CONSCIENTEMENTE recebidas, é indiferente apreciar o espectáculo que hoje vi: não existindo essa base cívica, espelho de uma comunhão social, com quem posso dialogar?, a quem digo, que o entenda, que gostei ou não gostei, e quais as minhas razões?
segunda-feira, 19 de setembro de 2005
Entre a confusão da rentrée (escolar)
Na preparação do ano lectivo, reencontro duas personagens, régias ambas, que me encantam desde o final do liceu: Isabel I de Inglaterra e a Rainha Vitória. Duas mulheres, com dois percursos de vida muito diferentes e muito marcantes. O mundo ocidental de hoje é como é muito por conta delas. Ou melhor, o mundo todo: Nerhu referiu-se, em 1947, aquando da independência da Índia, a "this One World that can no longer be split into isolated fragments"; antes dele, John Ruskin falava em 1870 de "one kingdom of the habitable globe" - era o Império Britânico, mas na verdade poderia já imaginar-se aquilo a que hoje tanta gente se refere como a uma grande novidade, a globalização.
sexta-feira, 16 de setembro de 2005
Uma flor
A roseira grande tem tido dificuldade em adaptar-se ao meu regresso. As folhas maiores, no topo do tronco espinhado, estão quase todas enroladas - como se tivessem falta de água, apesar de as regar amiúde e de ontem até ter pingado chuva. Hoje levantei-me a pensar: "Tenho de ter uma conversa séria com ela, saber o que quer da vida". Peguei numa cadeirinha, abri a porta da varanda e instalei-me. Quando estou para começar uma conversa séria, fecho os olhos. Quando os abri, já sentada, ela mostrou-me, no terceiro tronco que sai do principal, uma série de folhas verdinhas e um botão que há-de dar flor daqui a uns dias. É para aprender a estar mais atenta.
quinta-feira, 15 de setembro de 2005
"E tu, Ana, já encontraste Deus?"
Fiquei-me. Não é pergunta que me façam todos os dias, embora seja coisa em que me apanho a pensar, de vez em quando. Mas é uma pergunta de intimidade, que não se deixa fazer a qualquer pessoa e, ou exige de quem a faz grande familiaridade com a pessoa a quem é feita (ou alguma saudável ingenuidade), ou então exige àquele a quem é feita grande poder de encaixe e coragem para a aceitar (que já para lhe dar resposta são "outros quinhentos"...).
O caso foi uma mistura de tudo isto. Não deixei resposta definitiva, nem sei como o faria. Fui-me esquivando com "Deus é isto", em que acredito ainda, mas que não me deixa totalmente satisfeita. Depois, já sozinha, fui acrescentando (algumas vezes a corar da minha própria ingenuidade): "Deus é tudo o que é belo", "Deus é a poesia que leio e me deixa em êxtase", "Deus é o mar e o meu encontro nele", por aí adiante. Nada feito: não me basta. Acima de tudo, não basta como resposta.
Voltei-me para fora de mim (mas não poderei dizer "Fiquei fora de mim", engraçado...). Fora de mim há Wittgenstein, cujas frases me bastam muitas vezes. Mas o meu Wittgenstein viaja agora pelo Atlântico, há-de estar prestes a chegar, num caixote com mais outros. Aguardo. Aqui mais perto tenho Baudelaire, que também me ajuda. Releio as frases de "LÉcole Païenne" e relembro a sua ira: "Depuis quelque temps, j'ai tout l'Olympe à mes trousses, et j'en souffre beaucoup ; je reçois des dieux sur la tête comme on reçoit des cheminées. Il me semble que je fais un mauvais rêve, que je roule à travers le vide et qu'une foule d'idoles de bois, de fer, d'or et d'argent, tombent avec moi, me poursuivent dans ma chute, me cognent et me brisent la tête et les reins." Que é como quem diz (e a tradução é libérrima), "Anda o Olimpo todo a atirar-se a mim, a perseguir-me. Estou como num vazio, num pesadelo e caem-me em cima os ídolos de madeira, de ferro, de ouro e prata, caem comigo, empurram-me e continuam a perseguir-me, fuga adentro, atacam-me a cabeça e os rins."
Deixei de fora a minha frase favorita, a que me oferece alguma luz como resposta à pergunta inicial: "recebo os deuses na cabeça, como se recebem chaminés". Deus, para mim, é também a possibilidade de imaginar que sou uma casa.
quarta-feira, 14 de setembro de 2005
Mark Rothko
Está aqui, fotografado por Hans Namuth nos idos de 64. Sentado numa cama, olha para baixo, para o fósforo aceso que encosta à ponta do cigarro. Na outra mão, assente sobre a coxa do lado para onde o corpo descai ligeiramente, segura a pequena carteira de fósforos. A coberta da cama tem, na extremidade onde Rothko se senta, sete listas de cores diferentes (ou serão mais, que esconde com o seu corpo). É um quadro seu: uma cor quase única, riscada ao largo com interferências rectas, de onde sai, assim corpórea, a massa do humano que o criou.
segunda-feira, 12 de setembro de 2005
11.Set.2005
E os dias prosseguem, impassíveis, como nos últimos vinte, trinta anos, vinte séculos. Como se não tivessem albergado as horas mais inesperadas, minutos longos de surpresas e (re)descobertas. (Pergunta-se o Reboliço: "Nota-se...?")
sábado, 10 de setembro de 2005
Mas, regressando à conversa...
Quando já não percebo, para além das sensações, porque é que gosto de Paris, visito esta página e leio as legendas das fotografias. Ou então recordo três ocasiões.
1) Da primeira vez que visitei Paris, tive como cicerone um grande amigo, parisiense e historiador da civilização urbana. Mostrou-me o hotel onde eu ficaria, num quarto alcatifado não só no chão, mas no tecto e nas paredes, e saímos para a rue Sedaine (que continua a ser, de alguma maneira, a das sedas, com as lojas indianas, porta sim porta sim, de venda de tecidos a retalho). Sem tentar fixar o caminho, que hoje conheço de olhos fechados, segui-o até à Bastilha e, dali, pela rue Saint Antoine. Parámos numa ruela, de Birague, onde me explicou o sentido das fachadas, dos tamanhos das janelas, diferentes em cada andar, e das distinções sociais que significavam. Andados uns metros, desembocámos na Place des Vosges. Até hoje, é essa a minha ideia de "entrada triunfal".
2) Da segunda vez que visitei Paris, guiou-me outro historiador, mas da pré-história das cidades. Vínhamos da Bvd Haussmann, seguimos pela Montmartre e entrámos depois na Poissonière. A noite ia caindo e acendiam-se as luzes. Numa esquina, acendeu-se um néon monumental com as letras R E X uma por cima da outra, iluminadas sobre o cilindro que fechava a aresta do prédio. Por baixo das letras gigantes um cartaz desporporcional anunciava: Apocalypse Now Redux (passava na capital ao mesmo tempo que, nesse ano, era exibido em Cannes)! Despedi-me do cicerone, que não é cinéfilo, até ao dia seguinte, e pensei na aventura que seria ver AQUELE filme; tremia só de pensar que não houvesse bilhetes. Coppola é grande; Apocaypse Now é grande - tudo isso já eu sabia. O que não poderia saber, porque tinha dado com aquela sala sem imaginar sequer que existia, era que o Rex tem lugar confortável para 2750 loucos como eu, um écran publicitário que me fez pensar não ter olhos que chegassem e um écran para os filmes propriamente ditos ainda maior. I was in for an experience, pois estava. Nem sabia para onde me havia de virar: eram as paredes da sala, eram os espectadores, eram os vendedores de doces, era o écran a descer; e, depois disso, foi o filme, a emoção de o ver num tamanho imenso e de entoar, com o coro dos milhares que ali estavam, no momento exacto e sem ensaio, "Charlie don't surf!"
3) Foi há pouco mais de três anos, dia 5 de Setembro de 2002. O meu amigo parisiense levava-me ao hotel depois de um jantarinho bom ali perto de Les Halles. Decidimos ir a pé, como ambos gostávamos, para passarmos por ruas que ele conhecia desde a infância. Numa das praças, parámos e ele ia explicando: "Esta é a Place de la République, a minha mãe morou aqui"; de repente, a face fez-se-lhe cenho, enrugou a testa. A placa com o nome da praça dizia, sem sombra nenhuma de dúvida, "Place Vivendi". Jurava a pés juntos que aquilo era a Place de la République, que sempre ali passara, como poderia não ser?, que diabo teria acontecido, e ia ficando mais e mais confuso. Seguimos, mesmo assim, ele a pensar que estava a ficar velho e com medo já de se ter perdido; eu, indecidida sobre a veracidade daquela confusão, que no entanto parecia verdadeira, sem coragem para tirar o mapa da mala e já sem saber se acabaria por chegar ao hotel naquela noite... A notícia apareceu no Libération, dois dias depois: um “comando” civil de seis equipas de operacionais (que incluíam antigos urbanistas de Paris, directores de revistas de arte, arquitectos, realizadores de cinema, litografistas, galeristas e publicitários) fez a ronda de mais de dez praças da cidade e trocou as tradicionais placas azuis com os topónimos por outras, em cartão mas de resto semelhantes às oficiais, com nomes de empresas cotadas na Bolsa e protagonistas recentes de escândalos financeiros, em França e não só. A operação chamou‑se “Liberalismo, até onde?” e foi organizada pelo pintor Bruno Macé. Os participantes vestiam fatos‑macaco azuis com a inscrição “Cidade de Paris Arte Pública”. Para aprendermos a não confiar nas aparências e a suspeitar, suspeitar sempre do que dizem as letras.
O Centésimo
Nada de especial. Reparei agora que ia escrever o centésimo post e resolvi deixar passar a ocasião em branco, ou seja, marcar a "efeméride" com um post vazio. Que não diz mais do que isso: este é o centésimo post. Assim, mato dois coelhos de uma cajadada só.
sexta-feira, 9 de setembro de 2005
De (boa) surpresa em (má) surpresa
(Ou: "Sem surpresas", o que seria ao mesmo tempo mais verdadeiro mas, num terço, mais desanimador.)
Compro o nº 31 da revista Os Meus Livros porque leio na capa que tem um artigo sobre/entrevista a José Carlos Fernandes, paixão confessadíssima, sempre que possível ao próprio JCF. Faço então o que costumo fazer quando como um bolo: começo pelas camadas menos apetecidas, para aumentar o prazer de encontrar aquilo que já espero. Artigo sobre Luiz Pacheco, sempre bom, apontamentos sobre editoras e bibliotecas, destaques bibliográficos... a cada passo, vão-me irritando mais e mais os descuidos, a muito evidente falta de revisão em toda a revista. Mas, tal como quando saboreio o bolo, perdoo calada os pedaços azedos, na expectativa da cereja lá em cima. A primeira surpresa é feliz: as fotografias e a extensão (6 páginas) do artigo. Porém, à medida que entro letras adentro, cresce o desânimo: lá vêm as gralhas, os descuidos, as frase construídas sem atenção às que vieram antes e ao que se segue e algum atabalhoado nas perguntas. Que mal tem cuidar daquilo de que se gosta? Se se quer homenagear alguém que se admira, acredito eu que se lhe deve ao menos o respeito da forma da homenagem. Estarei errada? Fico até a saber, como se uma imprópria inconfidência mo fizesse saber, que JCF "pratica intertextualidade" com "diversos autores" - assim como quem vai ao ginásio praticar aeróbica, ou se dedica a práticas que mais avisado seria deixar no desconhecimento público. Abano a cabeça. Não abano a cauda.
terça-feira, 6 de setembro de 2005
A tempo
"You walk and walk, and you never get home on time, because you are lost to time, and it to you." (The Magic Mountain, p. 536.) O Reboliço anda estonteado: nestes dias em que já nem se lembra de como é estar de férias, só lhe vem à ideia esta frase de Thomas Mann. Cadelo do tempo...
segunda-feira, 5 de setembro de 2005
Outro ângulo da Finlândia
Um conjunto de artigos mais ou menos recentes no Washington Post conta a viagem de um americano pela sociedade finlandesa. Incisivo, encantado e realista, o autor compara a sua sociedade à finlandesa e pergunta-se porque não se consegue na América o sucesso daquele país nórdico. Algumas das conclusões poderiam aplicar-se (com as devidas re-proporções), a uma comparação entre a Finlândia e Portugal.
sábado, 3 de setembro de 2005
Diálogo entre Peer Gynt e um Homem Magro
Peer Gynt - E pode saber-se que espécie de pecado cozinhou esse homem?
Homem Magro - Tanto quanto percebi, tem persistido em ser ele mesmo, dia e noite; e é isso que está na base de tudo o resto.
Peer Gynt - Ele mesmo? E o vosso domínio inclui gente dessa?
Homem Magro - É como lhe digo; a porta está sempre escancarada. Lembre-se que existem duas maneiras de um homem ser ele mesmo; um tecido tem o direito e o avesso. Sabe, inventaram recentemente em Paris um método para fazer retratos através da luz do sol. Podem fazer uma imagem semelhante ao original ou aquilo a que chamam um negativo - neste último, a sombra e a luz estão invertidas; para o olhar desavisado, não é muito bonito; mas, seja como for, a semelhança está lá e basta apenas revelá-la. Se, na conduta da sua vida, uma alma se fotografar para produzir um negativo, não será poir isso que destruirão a placa; enviam-na para mim. Tomo em mãos o resto do processo e avanço com uma transformação. Lanço-lhe vapor, mergulho-a, queimo-a, limpo-a, com enxofre e outros ingredientes, até obter a semelhança que a placa deveria ter - ou seja, aquilo a que se chama um positivo. Quando, porém, como no seu caso, está meio apagada, não há enxofre nem lixívia que sirvam.
Peer Gynt - Então, chegam até si cobertos de fuligem e abalam como neve? - Posso saber qual o nome desse negativo que o senhor agora está à beira de transformar em positivo?
Homem Magro - Sim - Peer Gynt.
Homem Magro - Tanto quanto percebi, tem persistido em ser ele mesmo, dia e noite; e é isso que está na base de tudo o resto.
Peer Gynt - Ele mesmo? E o vosso domínio inclui gente dessa?
Homem Magro - É como lhe digo; a porta está sempre escancarada. Lembre-se que existem duas maneiras de um homem ser ele mesmo; um tecido tem o direito e o avesso. Sabe, inventaram recentemente em Paris um método para fazer retratos através da luz do sol. Podem fazer uma imagem semelhante ao original ou aquilo a que chamam um negativo - neste último, a sombra e a luz estão invertidas; para o olhar desavisado, não é muito bonito; mas, seja como for, a semelhança está lá e basta apenas revelá-la. Se, na conduta da sua vida, uma alma se fotografar para produzir um negativo, não será poir isso que destruirão a placa; enviam-na para mim. Tomo em mãos o resto do processo e avanço com uma transformação. Lanço-lhe vapor, mergulho-a, queimo-a, limpo-a, com enxofre e outros ingredientes, até obter a semelhança que a placa deveria ter - ou seja, aquilo a que se chama um positivo. Quando, porém, como no seu caso, está meio apagada, não há enxofre nem lixívia que sirvam.
Peer Gynt - Então, chegam até si cobertos de fuligem e abalam como neve? - Posso saber qual o nome desse negativo que o senhor agora está à beira de transformar em positivo?
Homem Magro - Sim - Peer Gynt.
(Henrik Ibsen, Peer Gynt, Acto V, Cena X)
sexta-feira, 2 de setembro de 2005
Intrigado
O Reboliço anda a tentar perceber se perde ou ganha quando se desilude ou desencanta. Em princípio, qualquer destes acontecimentos (poderá considerá-los assim, se não tomam forma específica nem se instalam de repente nos dias ou no meio de uma sala?) é negativo; mas muito do que tem aprendido (considera positivo aprender) vem de situações de desencantamento ou desilusão. Será a resposta a esta questão o que explica que seja optimista ou pessimista?
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