quarta-feira, 30 de novembro de 2005

Meus manos

Levaram-na de carro os quase vinte quilómetros desde a casa até ao hospital. Era um carocha amarelo que fazia um barulho engraçado com o motor, conduzido pelo Sr Duarte. Ia no banco de trás, sem cinto nem cadeirinha (não era coisa que se usasse há 31 anos). De meias de lã, um gorro de borla grande na cabeça e o casaco de pano forte a agasalhar-lhe o corpo. Chegaram à cidade: a senhora que a levava abriu a porta do carro e deu-lhe a mão. "Anda, vamos ver os teus manos." Pôs os pezinhos no passeio, via a mão pequenina na mão rechonchuda da senhora e olhou para cima, para o rosto dela longe do seu. Uma das orelhas começava a destapar-se e ajeitou o gorro com a mão livre. Estava calma e ia no passinho curto, mas a senhora quereria talvez mais desembaraço: pegou-lhe ao colo, para seguirem mais depressa. Dali, sentada sobre o antebraço dela, via-lhe a cara muito maior, vermelha do frio e alegre. "O teu pai já lá deve estar."

O carro parara perto da entrada e não tiveram de percorrer muito até estarem de novo a coberto do ar de Inverno. Viu-se outra vez no chão, um chão de ladrinhos pretos e brancos - ou, antes, cinzentos e amarelados, do desgaste dos pés sobre aquelas pedras. À frente havia uma escadaria alta, de degraus largos acastanhados (ou seria da obscuridade do interior, comparada com a luz que estava lá fora?). Tinha de levantar bem cada perna para ir subindo, degrau a degrau. A senhora distraía-se a conversar com o Sr Duarte e a ela segurava-lhe apenas na mão e conduzia-a. O pé da senhora, ao seu lado, quase não se levantava de um degrau para o outro; olhava para o seu e parecia-lhe desmesurado o esforço que tinha de fazer para conquistar mais outro pedaço de escada. Quando, ao fim de algum tempo , o corredor apareceu, era longo e mais iluminado. Na sua ideia, pensou em correr por ali fora, mas ficou quieta - não sabia onde estaria a mãe, era melhor que fosse seguindo o passo da senhora. Ao longo do corredor havia portas abertas, por onde via as pernas das pessoas junto a umas camas altas. Mas, embora lhe parecesse haver muita gente naqueles quartos com paredes às quais não via o fim, à sua volta tudo estava em silêncio. O que o quebrava, num compasso que a mantinha alerta, eram os passos de alguém com saltos mais afirmativos, uns rápidos, outros menos velozes. Ao seu lado, a senhora usava sapatos com sola de borracha, que chiavam um nadinha, mas só quando pensava nisso.

Quase pararam em frente a uma porta e, antes que se apercebesse de mais, entraram por um dos quartos. Levantou um pouco o queixo, endireitou-se para ficar mais alta e conseguiu ver a cabeça da mãe, sentada na cama grande igual às outras que vira antes a partir do corredor. "Vai lá vê-los. Estão ali naquela caminha pequenina. Estão lá os dois." Teria ouvido estas palavras, mas o silêncio era que lhe dominava as ideias. Não parecia ter sido comandada por aquela ordem. Apesar disso, contornou devagar a cama grande e, ao fim de uns dez ou doze passinhos, quando alcançou a outra cama, levantou os braços curtos, a querer chegar à beira das grades brancas. Era isso que via: o branco das grades e alguma coisa fofa e quente, de lã. Num dos extremos da cama entendeu que o montezinho de lã era interrompido, mas não conseguia ver por quê. A senhora que a trouxera deu dois passos para chegar até si e levantou-a no ar. Dali de cima viu os dois pontos que interrompiam a manta de lã clarinha: duas partes de esferas cor de castanho avermelhado, cobertas por uma penugem; em cada uma destas parcelas de esferas via uns risquinhos rasgados. Fez girar a cabeça para um lado e para o outro, sem se convencer ao certo do que tinha perante os olhos. Não foi porque percebesse de repente, não por uma qualquer iluminação extra-humana. Foi só que as palavras lhe saíram porque se lhe tinham formado à beira da boca, instigadas por tudo o que ouvira e vira naquele dia, e não souberam conter-se. Disse-as, e o espanto com que as ouvia acentuou a força com que as pronunciou: "Eles são só meus, são meus e de mais ninguém!"

Contam-lhe, que não tem memória disso.

A felicidade do Reboliço

Quando está feliz, o Reboliço sustenta-se nas patinhas de trás, põe-se em pé com as da frente encolhidas junto ao peito, arfa com algum ruído, abre os olhinhos e estica muito as orelhas. Se estiver muito, muito feliz, gira assim, à roda à roda. It's disgusting!

Um amigo a caminho de Budapeste

O Otelo diz-me - "O desgosto de amor é a marca quente que tatua a alma a vapor." Em Budapeste há muito vapor, pelos tantos banhos em toda a cidade. Não conheço os desgostos de amor de Budapeste, mas recordo as imagens arrepiantes que Matthew Barney filmou em 1997 na Ópera de Budapeste e nos jardins em redor, com uma - arrepiante! - Ursula Andress a encarnar a Rainha das Correntes. A Rainha, de enormes esferas de vidro a cercar-lhe o rosto, assiste sozinha à sessão da Orquestra na sala oitocentista. À sua volta, nada mais do que fadas, pombas reais e, a escalar a boca de cena pelos panos, o mágico Barney - "Something rich and strange".
Não existem desgostos de amor. Só encanto. E viagens.

Post atrasado nº 4 [Música]

Não planeio o domingo. Levanto-me e, conforme olho o céu e o vejo muito limpo e de azul a brilhar com a luz excessiva do céu, sigo a vontade e faço-me à água, aos canais da ria.
Mais tarde, se o tempo das horas permitir, fecharei os olhos ao som de Händel, Purcell e Telemann. Fui afortunada e entrei na sala de bancos forrados a cor de laranja. Conhecia bem aqueles bancos, quase sempre na tua presença, de toque macio. Quando as vozes me enlevam, é a ti que recordo, quando os olhos se fecham é a ti que ouço.

Post atrasado nº 3 [Música]

No sábado, 130 pessoas encheram o salão do Clube Farense, para ouvirem partes de um longo poema e um instrumento de sonoridades inauditas. Ao que parece, alguém da RUA-FM também ouviu e terá no ar depois de amanhã um apontamento sobre o kantele. De Lisboa, vieram amigos habituados a outros sons, mas deliciados com o poder das cordas de pêlo de cavalo.

No domingo, segui para norte (obrigada, Luís e Carla!), à procura de outras músicas. "Está esgotado... [... 10 minutos e todas as unhas roídas depois...] Mas, é só um bilhete que quer?" "Sim. Quanto é?" "Leve o bilhete e agradeça ao senhor que estiver sentado ao seu lado, na coxia."
[...no final do concerto]
"Então adeus e obrigada. Tenha muita saúde."

Post atrasado nº 2

O Reboliço ainda está atarantado: pensa, pensa, pensa, e não há meio de se desfazer da ideia de que este será o Natal mais egoísta que jamais terá passado.

Post atrasado nº 1

Não existe surpresa. Só encanto.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

Pausa para respirar

O Reboliço anda atarantado. À sua volta, o mundo começou a andar mais depressa, as pessoas parecem ter saído de uma cena de perseguição pelas ruas da cidade num filme mudo e os automóveis já nem os vê, de rápidos que se movimentam. Abana a cabeça de olhos fechados, a ver se, quando os abre, o ritmo terá abrandado: ouve o som da esquilinha e fica a escutá-lo. A cabeça abana cada vez mais devagar, só o que precisa para que o pequeno guizozinho se ouça. Fica assim, esquecido de abrir os olhos.

[Daqui a umas horas retomo as cartas. Tudo fervilha...]

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Papagaio de papel

Saiu da escola, aliviado por sentir nas costas o peso da mochila e dos livros já fechados. Pôs-se a caminho de casa. Pensou na largura da avenida e nas fases em que, hoje, a atravessaria. Primeiro, as passadeiras à direita. Olhou para os carros que vinham, indiferentes a si como estava indiferente a eles e, quando nenhum se aproximava, deu os passos largos a tentar pisar só as bandas brancas da zebra. No final, o lancil de pedra enquadrava a relva, amolecida a terra depois da chuva. Decidiu seguir a pisá-la até à outra passadeira, mais adiante. Só já a meio do caminho se apercebeu que não fora ele quem decidira, mas um pequeno chapéu de chuva aberto, fixado com duas varetas na terra mole e com o tecido amarelo-vivo a esvoaçar, as pontas já só cosidas no topo do bastão. Era aquele amarelo que o chamava, por cima do verde alegre da relva. Quando lhe tocou, a sentir o tecido, esqueceu-se do branco sobre o cinzento do asfalto e do caminho de casa. Visto de trás, pelo espelho retrovisor, era quase só uma mochila quadrada com pernas fininhas e uma grande roda amarela a enquadrá-las.

Sempre

Conheço cada vez mais pessoas que me alertam quando uso a palavra "sempre". Dizem-me coisas como "eh pá, eu cá não me arrisco a dizer isso, um gajo sabe lá o que está p'ra vir!" Às vezes ainda ponho um ar humilde, de condescendência. Chego a dizer, em dias de maior hipocrisia, "pois é, tem razão". Na maioria das vezes, porém, faço como a Luca: a cabeça, atiro-a um nadinha para trás, só o suficiente para abrir mais os olhos; inclino o pescoço para um dos lados, de maneira a deixar a orelha desse lado mais pendida e, mentalmente, pergunto-me: "como é possível recusar uma palavra destas? Pensará que se livra da eternidade por não lhe chamar o nome?"

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Para esquecer

É um lembrete.

terça-feira, 22 de novembro de 2005

Cãs

A avó do Reboliço tinha o cabelo todo branquinho. Não daquele branco que se diz "como a neve" - era um branco que brilhava, era mais prata polida. Nas raras vezes em que lho viu solto, espantava-o como era fino. Quando deixou o moinho, a avó cortou o cabelo ("Assim é melhor de arranjar," dizia) e espantou-o como pôde ser ainda mais bonita!

Invernia

A mulher parou à saída do prédio, indecisa alguns segundos se haveria de aguardar que a chuva parasse ou avançar. No passeio, à sua frente, um rafeiro pequeno correu, de pêlo encharcado, focinho baixo e cauda encolhida. No céu, muito por detrás da imensa nuvem única, o sol não era mais do que um halo de luminosidade esbranquiçada.

Atrás de si, o homem preparava-se para abrir um chapéu-de-chuva. Olhou para ela, num aceno simpático. "Como chove...", disse ela, a responder ao cumprimento silencioso. "Chove ouro," tornou ele. "Venha, minha senhora, levo-a até ao outro lado da rua."

Foi, como se a carregasse o disco luminoso do céu.

sábado, 19 de novembro de 2005

Música do Rajastão

Uma vez por outra, a mulher pensava nele. Tinham passado tantos anos juntos, cumprido tantos rituais, que agora lhe parecia estranho não ter a sua presença. Não era sempre - era um pensar intermitente, desencadeado por circunstâncias triviais.

Sentou-se do lado de dentro da janela aberta. Encostou a cadeira ao parapeito, para se chegar mais à aragem, enquanto olhava para dentro da casa, de cabeça para trás, inclinada a sentir no cabelo o fresco daquele dia. Trouxera um livro para sentar-se a ler, mas mantinha-o fechado por baixo das mãos, no colo. Ouvia música vinda de uma casa mais abaixo na rua, de alguém que tinha também aberto a janela depois da chuva de toda a semana. Fechava os olhos e ouvia-a, a entrecortar o "shhhhhhh" dos automóveis sobre o asfalto ainda molhado: "shhhhhhhhhhhh". Alguém corria no passeio do outro lado da rua; deste, alguém levava pela mão uma criança, que cantarolava uma lengalenga qualquer. Mais acima, talvez na casa onde vivia o casal de reformados, a mulher podava as rosas em silêncio, enquanto o marido lhe ia falando dos homens com quem conversava todas as manhãs a caminho da padaria. "Shhhhhhhhhhhhhhhh", passava outro carro. Passavam lentos, sempre. Tomou consciência do peso da cabeça sobre o pescoço e quis libertá-la. Sentou-se mais confortável na cadeira, endireitou-se, ficou com todo o corpo mais dentro da casa e logo os sons da rua ficaram distantes, a ecoar como numa caverna. Deixou-se escorregar, esticou as pernas e repousou a cabeça nas costas da cadeira. Deixou o livro no colo, pousou as mãos sobre o peito, os dedos cruzados, e fechou os olhos.

"Tharé to lié tchoramé oubiré oubijo ro ouni ré", cantava a melodia. "Quando penso em ti já não sei onde estou, porque sinto tanto a tua falta."

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

Árvores às cores

O Reboliço passa semáforo atrás de semáforo, a percorrer a avenida longa. A meio, os olhinhos distraem-se-lhe com as duas árvores altas decoradas de lâmpadas coloridas. Sem mesmo querer, sorri muito e, por segundos, não está na estrada. Nem pensa que as luzes gastam muita energia; nem pensa que são prenúncio e engodo de todos os impulsos consumistas. Não quer saber. Ali, quando passa, sente-se muito feliz com as luzes coloridas. Sente que gosta da avenida, que é bom estar naquele lugar e que quereria muitos olhos, como os seus, não mais do que a olhar para aquelas luzes.

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Azeitonas

Hoje apetece-me andar ao rabisco. E apanhar só as mirradinhas.

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Figurões

Vermeer e Lemminkäinen. Pensava eu que eram um pintor e o herói de uma epopeia... Hoje sei que, pelo menos na Finlândia, é comum as empresas, seja quais forem os ramos em que operam, terem nomes que vêm do Kalevala. (Agora Vermeer...)

Primeiro voo sem rede

(Akseli Gallen-Kallela, esboço para A mãe de Lemminkäinen, 1899.)
Dia 26 à tarde (17h30) no Clube Farense, na Rua de Santo António. Alguns amigos, actores do Teatro Análise de Loulé, farão a gentileza de ler dois dos 50 Cantos do Kalevala. Virá das terras do Norte uma menina, Vilma Timonen, tocar kantele, e a coisa terminará com sabores (sim, de comida) da Finlândia. Se andarem pelo Sul, venham ver.

domingo, 13 de novembro de 2005

Passagem por Espinho

(Os comentários aos filmes hão-de aparecer - repare-se no futuro! - noutro lugar.)

O restaurante onde janto é uma marisqueira. Tem nome, aquário com lagostas vivas, empregados, fregueses e ritmo de marisqueira. Ou seja: os pratos levam a mesma eternidade a aparecer na mesa que num restaurante não-marisqueira, mas todos os empregados se mexem como num snack-bar ali ao Campo Pequeno em hora da bica dos mangas-de-alpaca, como se o amanhã já não viesse e tivessem de fazer naquele segundo tudo o que não haviam feito até à hora de hoje. Um deles, o mais lesto, que dança à minha frente e me entontece o sentido, treina a encher copos de imperial: deixa a correr no copo a torneirinha, enquanto avia mais três ou quatro pedidos, que termina mesmo a tempo de, com um toque coreografado e ligeiro do punho sobre o manípulo, cerrar o fio de cerveja, erguer o copo até à entrada do tubo metálico e travar o derrame da espuma. Nem no circo!

Inscrição em WC

"Es mt pa mim lindo
Je t'adore
puk es nota 10...
puk es um máximo...
puk es tu mesmo..."

Depois disto, arranco os olhos a quem me disser que: a) a poesia está morta; ou b) a língua francesa está em decadência.

Vamos com calma...

Conrad é um degrau direitinho, virado para Lowry. Pode haver na leitura os tais saltos de tigre, pois claro. Mas quem está em Conrad deixe-se estar mais um bocadinho. Vá-se desassossegando devagar e, mais adiante, quando já estiver na fase de levitação, retire com a segurança de um inconsciente o tapete voador e, então sim, agarre-se ao vulcão.

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Lowry, once more

Olha, olha! A Lagarta anda a levar o Lowry por maus caminhos... É muito bom saber que o autor que mais acarinhamos passa entre outras mãos, afaga outras almas (é afagado por outras almas). Aqui pelo moinho, o Lowry anda quase sempre de sorriso sarcástico nos lábios e garrafa de gin na mão. Ou será grappa? Ou mescal?

Numa interessante edição portuguesa de material epistolar e crítico sobre Under the Volcano (boa, querias um link para um livro português publicado pela Hiena em 91! Lírica...), Pedro José Leal, o tradutor (e, presumo, organizador da edição) escreve na cronologia introdutória que October Ferry to Gabriola é uma "selecção e «restauração» de um manuscrito com cerca de 700 páginas em estado embrionário" e, logo a seguir, que "os resultados são decepcionantes". Pois bem, será decepcionante para quem não entenda Lowry, a sua teimosia e a perplexidade (às vezes, sim, o atabalhoado) de um autor perante a força da sua escrita. Uma vez, ainda no liceu, tive uma crise terrível por não reconhecer como minha a escrita que sem dúvida produzira e admirava. Talvez por isso tenha a veleidade de pensar que o entendo. Gabriola é, como a nascente de "The Forest Path to the Spring", como o vulcão, como a cidade americana vista desde a Itália em "Strange Comfort Afforded by the Profession", um destino, um final de viagem aonde se custa a chegar.
O epitáfio que Lowry escreveu de si mesmo é delicioso (se me recordar, deixo-o aqui em breve, tenho o livro noutro lugar).

"Reencontros"

"Ao contrário do que é costume dizer, reencontros, ao fim de muitos anos de separação, são, em tantíssimos casos, mais fonte de ilusões perdidas do que de redescobertas sentimentais. Isto de pessoas muda muito e mesmo quem muito amámos raramente regressa tão amável como outrora. Ou mudámos nós ou mudaram eles ou mudámos ambos e não há auroras futuras para crepúsculos passados." É assim que começa a crónica de João Bénard da Costa do último dia 30. Li-a nesse domingo e tenho pensado nela a propósito de um texto de Süskind a que já aludi antes por aqui. Mas agora regresso a Bénard e vejo quanto é possível discordar deste início - vejo, aliás, como ele mesmo encontra modo de discordar, ao levar o assunto, ao longo da crónica, para a perda do rasto e o reencontro com os livros. Como com todas as crónicas deste grande homem, como com todos os discursos que lhe ouvi (preparados com minúcia, como nos últimos dois anos nas comemorações do 10 de Junho, ou de relativo improviso, como no início de cada ciclo da Cinemateca Portuguesa) encanta-me escutá-lo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Escadas e respirar

Lá atrás, há mais de quinze anos, vi um filme: Camille Claudel. Vi-o no Fórum Picoas (se me recordo bem) e no final saí da sala a correr, entrei no túnel do metro a correr, subi a correr a rua de escadas que sempre me deixavam sem fôlego a caminho de casa, subi as escadas de madeira do prédio, a correr, e entrei a correr em casa. A correr, para não dar tempo ao pensamento de parar e tentar entender as lágrimas. Corria para me esquecer depressa do que vira, para que não assentasse aquela poeira maldita entre as ideias que mantinha arrumadas.
Hoje vi um filme: Les Temps Qui Changent. Saí da sala à pressa, caminhei de passo apressado (em Lisboa, naquela altura, ninguém sabia quem era e não se supreenderiam nem reparariam numa pessoa a correr pelas ruas, pelo metro, pelas escadas; aqui, correr seria fazer exactamente o contrário do que queria e chamar a atenção de todos), meti à pressa a chave na porta do prédio, galguei então os degraus da escada de pedra e entrei de rompante em casa. Para ter de ouvir a respiração ofegante, para tornar audível em mim a perturbação dos pensamentos.

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

Adendas

Os manos avivaram-me a memória: quando chegávamos à adega do Caiado, recebíamos pacotinhos de alcagoitas e Sumóis frescos: era o que quiséssemos, de uma montrazinha que havia a meio do balcão, com vidro que dava a ver as tais guloseimas. "Olhós algarvios!", dizia ele. Os homens que estivessem encostados ao balcão viravam-se lentamente. Dois ou três eram sempre da família próxima; faziam-se os cumprimentos e corríamos para a parte de trás, onde havia um estrado de madeira. Em cima dele, quase chegávamos ao bordo do mármore.
No feriado passei ao portão da adega. É muito mais pequeno do que recordava. E, no passeio, o garrafão desenhado nas pedras é branco a contrastar com a calçada escura (contrário do que tinha lembrado). Quem me dera conseguir desenhá-lo aqui.

Fitas

Às vezes, como hoje, escrevo sobre os filmes que vejo. Inscrevo essas impressões num outro blogue, colectivo. Foi ali que escrevi, por exemplo, sobre o Last Days, sobre documentários que vi na extensão em Faro do DOCLISBOA ou na Festa do Cinema Francês (entre outros que já nem lembro, estarão para os arquivos). Tenho aqui nas Cartas um link para o dito blogue, para quem lhe apetecer espreitar.

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

Contra a escassez das imagens





Primeiro, o topo do moinho visto de debaixo da videira em frente à casa. A seguir, quase em contra-luz, a indiferença do Sorna perante a insistência impertinente da Luca, observados pelo pai e pela mana do Reboliço. O senhor a cavalo, na silhueta do cata-vento, chama-se Rafael.

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

"A Lagarta diz que tem..."

Era a barata, mas não faz mal. E não deve ser mentira dela: se a Lagarta já os tem, que os aproveite o melhor que puder e vá colhendo neles chão fora.

Dia dos Mortos

É hoje o dia dos finados. O Reboliço antecipou-lhes as visitas, como todos os anos. Os da mãe foi ver ao cemitério da aldeia, na segunda. O cemitério fica perto de uma reserva de caça a que se chama "mata", por ser o pouco arvoredo que há por ali. Há uns anos, era de acesso livre. Agora está vedada. Lá dentro há veados novos, vêem-se algumas vezes, de manhãzinha cedo. Não me lembro de ver ali tristeza.
Os mortos do pai viu-os ontem, no cemitério da cidade. Cheio de gente, polícias e tudo, aos pares, a observar que os estacionamentos se faziam sem novidade. O muro poente dá para uma bomba de gasolina e uma das vias principais de saída da cidade. O avô do Reboliço não se torce nem se amola. Sempre disse, em vida, que ficaria virado para o moinho quando morresse. Lá está, desde há quase seis anos. Por isso, quer lá saber.

Esclarecimento

Quando digo "moinho" digo mais do que o moinho. Digo a casa onde se mora, onde se está e se dorme, digo o jardim em frente à casa, digo a horta (o "crunchoso", como lhe chamava o avô), digo o poço, a casa do motor, a casa da amassaria, o alpendre do forno, o lugar das três pedras na esquina da casa de morar, de onde, em dias de um certo céu, se avista a serra de Monchique; digo a garagem, o cantinho do limoeiro e de uma das oliveiras, o pombal deslocado, o monte grande de pedras à beira do ferro-velho, a rua entre a casa e o alpendre do forno. Digo a esquina nas traseiras do forno, onde há três pedras de sentar e olhar o pôr-do-sol.
(É na casa que existe linha telefónica e foi de lá que escrevi o post anterior.)