sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Resoluções para o Ano Novo

1. "We think each one of our beliefs to be true, and, indeed, it is mere tautology to say so." (Charles Sanders Peirce, "The Fixation of Belief", p.100)
2. "Todavia existe imensa coisa que a consciência histórica terá dificuldade em restaurar, por exemplo, a forma desordenada e sem lei em que o lado elementar e o lado ordenado do nosso poder se alternam tal como o fogo e a água." (Ernst Jünger, O Coração Aventuroso, Cotovia, 1991, trad. de Ana Cristina Pontes, p.105)
3. "Read madness: watch self; accept nothing; accept all." (Malcolm Lowry, "The Comedian", p.56)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Querida Anabela:

Repito aqui, o mais publicamente que puder, o que te disse ontem em surdina. Estás tão, tão, tão, tão de PARABÉNS!!!
(E vai lá ler o outro blogue, fáxavor...)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

Actualização

= AVISO – Este texto denuncia a intriga do filme; e tem muito pouco de "post"... =

Fui ver, finalmente, o filme de Jim Jarmusch. Para pensar nele, preciso de pensar em três elementos dele: a dedicatória a Jean Eustache, a estética dos fatos de treino e Homer Murray.

É no último destes elementos que vejo concentradas as perguntas mais sérias que Jarmusch ajuda a colocar com Broken Flowers. Homer Murray é filho de Bill Murray. Parece-se com ele e tudo. Surge numa única cena, a cena final e, dentro das fronteiras formais do filme, nada traz de surpreendente ou novo à acção: Don Johnston corre pela rua à procura de um rapaz a quem deu de comer e beber por pensar (desejar?) que fosse o presumível filho. No momento em que começa a conformar-se com a ideia de que, na verdade, nada naquele rapaz lhe confirmaria a suspeita e a sua busca não terá fim, atravessa a cena um VW carocha – azul bebé, pormenor relevante – e, ao lado do condutor, um outro rapaz olha-o fixamente, da janela aberta do carro. Traz vestido um fato de treino e parece-se com Don/Bill Murray. O olhar de Don não permite conclusões (é igual, aliás, durante todo o filme, com ligeiras subtilezas nas cenas em que tem de consubstanciar cumplicidades do passado com as mulheres em quem procura a – novamente, presumível – mãe do filho). Assim sendo, é apenas fora do filme, na ficha técnica, que o espectador encontra uma pista: a personagem do rapaz no carocha é interpretada pelo filho do actor principal. Tratar-se-á de um mecanismo de imposição da realidade na arte? (Evidentemente, salto por cima da hipótese de se tratar de coincidência.) Será marca de um programa realista (entendo por "realismo", aqui, tentativa de mostrar a realidade, evitando artifícios que possam indicar distorções na percepção que dela têm quer quem faz a arte quer quem a recebe.)? Porque é um road-movie tem de ser um filme realista? Penso nestas perguntas porque o final me fez questionar se o filho de que se anda à procura durante todo o filme será o filho da personagem ou do actor. Por outras palavras, no final, e por conta desta “intromissão” de Homer, o filme escancara-se para fora de si mesmo e força o extravasar da narrativa para fora dos seus limites representativos. Não creio que apenas coloque a questão da diferença entre uma realidade representada contraposta a uma outra, criada na e pela arte. A estratégia de Jarmusch complexifica essa duplicidade e cria uma espécie de nó, de trança, entre uma, outra, e um obscuro produto das duas. Respostas a estas perguntas, aliás, haverão de se encontrar no cruzamento com a dedicatória do filme a Eustache.

Neste momento, julgo que os fatos de treino fazem parte de um conjunto de marcas formais precisas e muito claramente utilizadas no filme para demarcar a realidade que se mostra: a vida no subúrbio americano. De certa forma, são um artifício demasiado óbvio para desenhar o lado caseiro e o verdadeiro carácter de Don – é só quando está de fato de treino, confortável em casa (mas de sapatos nada casual, note-se), que Don é confrontado com a sua vida: é quando a mulher o deixa e é quando, presumivelmente, o filho aparece. Este óbvio, porém, não traz necessariamente alguma coisa explicativa. Pelo contrário: da mesma maneira que Jean Eustache subscrevia uma espécie de meta-realismo que, por se expor, se anulava, também Broken Flowers rejeita a evidência do realismo (como o entendi acima) à força de a vincar. Como quem faz pressão sobre a pele a mostrar que é pele o que se vê e gera, nesse gesto, a ideia de sangue, de dor, ou de teimosia. É assim que compreendo as sequências do pensamento de Don nos aviões (não são sonhos, também isso é óbvio e será interessante reflectir sobre a maneira que Jarmusch encontrou de a representar no filme), é assim que leio o olhar de surpresa de Don quando Lola aparece nua - ou seja, sem o cor-de-rosa do roupão - na sala; é assim que vejo a máquina de escrever sobre a relva gasta ou a maçaroca de milho quebrada pela chuva, pelo esquecimento no meio do restolho e pela roda do carro. É assim que gosto de pensar nos filmes.

(Deixo este mesmo texto no outro blogue.)

Dois linques novos

"Linquei" dois blogues hoje. Um é recente, o outro nem por isso.

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

Sal da vida

O Reboliço teve uma prenda de sal, que muito apreciou e que retribui com uma história.
Há dois anos, viajou de visita a um amigo. Jussi Huovinen mora longe, numa povoação isolada do leste da Finlândia, quase em cima da fronteira com a Rússia. No Inverno, ele e a mulher são os únicos moradores do lugar, que tem mais seis ou sete casas. A menor distância que têm de percorrer para encontrar outras famílias é quarenta quilómetros. Nessas alturas, o que lhes vale é a neve, o frio e o recorte branco das árvores e do lago que desenham a linha política que não divide a Carélia. No Verão, o lugarejo anima-se com as outras famílias, a variação entre o azul do céu e o verde da água e das árvores, o castanho da madeira das casas.
O Reboliço tinha-o conhecido no Inverno, e voltou a visitá-lo num Verão. Saudou-o com pedras de lugares longínquos, prendas de outras mãos amigas: levou-lhe um frasco pequeno, cheio com flor de sal das ilhas Selvagens. Quando lhe explicou o que era, o velho Jussi chamou a mulher, o filho, a nora e os netos - "Vejam, é sal do oceano." O Reboliço não se lembra de distinguir entre o brilho daquelas pedras brancas sobre a mesa de madeira e os olhos de todos os que as observavam e nelas viram a espuma branquinha no azul das ondas.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

Manos... (2)

Há mais de vinte anos, o pai do Reboliço trabalhava numa casa velha, que já tinha sido residência do Reitor do Liceu de Faro. Era uma casa térrea, de corredor comprido e salas distribuídas ao longo dele. Tinha uma cozinha de onde se acedia ao quintal e às escadas para a açoteia. Ao fundo do quintal havia uma casa de arrumos e lá dentro coisas que metiam medo. O mano do Reboliço lembra-se de lá haver, pendurada numa das paredes, uma bota ortopédica com armação de ferros, que o amedrontou até já depois de ele pensar sobre o assunto e ganhar coragem para a enfrentar; a mana diz que não se lembra de bota nenhuma. O Reboliço lembra-se e tinha medo - não tanto pela bota, mas pelo medo do mano. Já não existe, a casa.

Manos... (1)

O mano do Reboliço diz que não lê o blogue porque o que lá se escreve é quase sempre sussurrado e não se passa nada. O Reboliço não gosta de andar aos berros e há muito poucas coisas que, na verdade, o aborreçam. O mano é um doce.

(Queria sussurrar este post.)

Sento-me na cidade à luz do sol que se põe, dentro de uma casa antiga. Sento-me aqui, em Lisboa, e a luz instala-se à minha volta. Estou sentada numa sala de Lisboa, que dá para ocidente, e olho para fora. O ferro da varanda e o cinzento das nuvens carregadas repetem a luz.

domingo, 25 de dezembro de 2005

Ilusão de óptica

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

A vida triste dos livros

De alguns que lemos cedo, pelo menos, em "idades desprevenidas", como disse a um amigo. Lêmo-los, ficamos com a imagem das emoções que nos deram, recordamos os nós na garganta, a vontade de esconder as lágrimas dos outros que, pensamos, nunca entenderiam a nossa comoção. Depois de levarmos com a p... da vida em cima e de nos fartarmos de desilusões, optamos por uma de duas atitudes em relação a esses livros: ou não voltamos a lê-los, com receio de que tenha desaparecido deles o poder das palavras em nós, ou os relemos e nos desiludem mesmo. Raros, muito raros, são os verdadeiramente bons: resistem, persistem e não desistem de nos encantar. Passam pelas nossas vidas como se não existissemos; nesses casos, seremos nós os livros de vida fraquinha lida pelas linhas dos que não esmorecem?

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Respirar

"Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo."

O piano de Bernardo Sassetti faz o mesmo que os jogadores de Ricardo Reis, revolve-se no ar e esquece o desespero do pai de Alice.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

Maçãs na piscina

Chegavam ao final do dia. Cada manhã escolhiam o parque onde pernoitariam e chegavam lá no final de cada dia. Aquela era uma tarde de Setembro, com o sol a cair cedo e o ar a arrefecer mais depressa. O parque ficava no cimo de um monte íngreme que a carrinha custara a subir, numa encosta do Gerês. Lá em cima, silenciosos do cansaço da viagem, montaram a mesa e prepararam o jantar. Depois disso e antes de comerem, tinham-se afastado com a gata, para uma espécie de reconhecimento do lugar ao lusco-fusco. Junto à rede que os separava da queda da encosta havia uma piscina pequena. Àquela hora quase não viam a água, mas só o seu brilho, coberto de mosquinhas que se afogavam. O que as atraía era o cheiro, dulcíssimo e intenso, das centenas de maçãs a boiar.
Canto-a desde que acordei. Sticks into your mind and won't let go: "Life goes on - long after the thrill of living is gone."

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Recortes

Junto papéis e papéis... Volta e meia, decido desfazer-me daqueles que já não vejo há mais tempo. Mas o balanço vai quase sempre para o excesso: deito fora uns, agarro noutros novos, que julgo, no momento, serem essenciais à minha compreensão do mundo. Espanta-me como poderei, alguma vez, dispensá-los. Por estes dias, já juntei mais três. Se não falar deles aqui, fechá-los-ei numa gaveta e só voltarei a lê-los quando chegar o dia em que me parecerão obsoletos; estranharei, então, como pude alguma vez ter querido conservá-los. Deve ser a isto que se chama passagem do tempo. Seja. Penso também que, dada a sua efemeridade, talvez não seja boa política chamar a atenção para eles aqui, já que não o faço no dia em que os leio, mas uns tantos dias depois. Que se dane.
1. O primeiro faz amanhã duas semanas. É um artigo de opinião de Walter Rossa publicado no "Mil Folhas" de há quinze dias. Chama-se "O paradoxo americano". Como o Público virtual é, como o impresso, a pagantes (onde é que já escrevi algo parecido com isto?), deixo um resumo (mesmo mesmo resumidinho): é o elogio de uma edição sobre o Terramoto de 1755 que, no geral, o autor considera muito boa; é uma crítica à maneira submissa e cega com que em Portugal se aceitam artigos de investigadores americanos (no caso, segundo Rossa, é precisamente um desses artigos e a arrogância intelectual nele revelada pelo seu autor a pecha do volume recenseado).
2. O segundo é da semana passada, saiu no meu semanário favorito. Lê-se um livro sobre a morte da literatura, tema inesgotável. Outro paradoxo.
3. O terceiro tem uma palavra linda! Saiu anteontem no Público, crónica de Álvaro Domingues sobre as cidades: "A cidade é um bezidróglio". Fala de urbanismo, arquitectura, geografia humana - e lexicografia.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

A insónia do deus

Era ainda madrugada quando o deus acordou, despertado pelo chapinhar de alguém nas ondas lá fora. Algum outro deus enganava a insónia àquela hora temporã, ou entretinha-se ainda a vigiar com a sua a claridade da lua cheia.
Acordara, fosse o que fosse, e parecia-lhe não haver imperativo – divino ou humano – que o devolvesse aos sonhos. Voltou-se na cama para um lado, depois para o outro, indeciso sobre se haveria de erguer-se e fazer daquela uma hora de início ou dar ao corpo, por mais uns momentos, o torpor da preguiça. Tentou pensar nesse corpo. Mexia devagar os dedos dos pés, encantado com o movimento que alastrava às pernas, às coxas e ao ventre. Forçava-o tronco acima, até se estender aos braços, tornar ao espaldar dos ombros e redemoinhar-lhe pela cara. Divertia-o preencher com a lembrança da matéria aquele espaço agora docemente amorfo.
Do lado de fora, a deusa escorregava para fora do mar, agora calmo, e dirigia-se à parede que dividia aquele cenário do interior onde jazia o deus. Encostou o rosto à parede, fechou os olhos e, em silêncio, ordenou ao corpo deitado que adormecesse de novo. Foi clara na ordem: aos dedos dos pés, às pernas e coxas, ao ventre, ao tronco, aos braços e ao espaldar dos ombros. Quando, por fim, entrou no quarto, ainda viu o brilho do seu sopro a fazer círculos sobre a almofada.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Os livros do amigo

O amigo do Reboliço tem sobre a sua mesa um livro que se chama A Causa das Coisas (sim, o do M.E.C.) e outro que se chama O Significado das Coisas. O Reboliço olha para as capas de ambos e pergunta ao amigo: "Se ler os dois, fico a saber tudo sobre as coisas, não é?"

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Ena, ena!

Nos últimos dias linquei quatro novos blogues, uma fartura!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Conversa de mulheres

YERMA. ¿Te has dado cuenta de ello?
MARÍA. Naturalmente.
YERMA. (Con curiosidad.)¿Y qué sientes?
MARÍA. No sé. (Pausa.) Angustia.
YERMA. Angustia. (Agarrada a ella.) Pero... ¿cuándo llegó? Dime... Tú estabas descuidada...
MARÍA. Sí, descuidada...
YERMA. Estarías cantando, ¿verdad? Yo canto. ¿Tú?..., dime
MARÍA. No me preguntes. ¿No has tenido nunca un pájaro vivo apretado en la mano?
YERMA. Sí.
MARÍA. Pues lo mismo... pero por dentro de la sangre.
(Federico García Lorca, Yerma - Poema trágico en tres actos y seis cuadros, 1934)

domingo, 11 de dezembro de 2005

Cedência

"Que filmes recordas de 2005?" Respondi-lhe assim:
"Confesso que tive de recorrer à caixinha onde guardo os bilhetes de cinema, o meu recurso para enganar a preguiça da memória. Houve alguns que vi no Cineclube de Faro e esses tenho de memorizar (não tenho direito a bilhete); além disso, por força de ser por vezes eu a projectá-los, também se distinguem na atenção com que os vejo.
Houve filmes que vi este ano mas não são de 2005. Aqueles que me vieram à ideia assim que pensei em “filmes que vi em 2005” foram Sideways, Last Days e Saraband (ordenados pela data em que os vi; o último, em duas partes, há precisamente três meses). A partir daí, só com maior esforço de re-memória e os tais "aides-mémoire" consegui listar os outros. Creio que esse esforço teve de acontecer devido a dois factores: um, que já nem tento contornar e me pertence como a pele do corpo, é a minha má memória; o outro, que piora muitas vezes o primeiro, a indistinção das obras que me passam pelos olhos – isso já é culpa delas. No final, aparecem os que ainda não vi e acredito que farei por ver."
Notas: 1) Não estão nestas listas todos os filmes que vi em 2005. 2) Tirando os três primeiros títulos, nenhuma ordem subjaz à listagem. Talvez um psicanalista... 3) Só deixo links para aqueles cuja busca pelos títulos resulte em indicações de outras coisas, algumas sem nada a ver com os filmes.
Sideways
Last Days
Saraband
Collateral
Melancholia 3 Huonetta
The Motorcycle Diaries
Vera Drake
Un Long Dimanche de Fiançailles
Mondovino
D'Est
The Aviator
The Incredibles
Finding Neverland
Born Into Brothels
História do Camelo que Chora
The Life Aquatic with Steve Zissou
História Trágica com Final Feliz
Alimentation Générale
Mllion Dollar Baby
Mar Adentro
Lemony Snicket's Series of Unfortunate Events
Inside Deep Throat
Charlie and the Chocolate Factory
Rois et Reine
L'Esquive
Léolo
9 Songs
De Battre Mon Coeur s'est Arrêté

Ainda por ver:
Alice; Brasileirinho; Broken Flowers; The Constant Gardener; A History of Violence; Manderlay; Match Point; Melinda & Melinda; Odete; O Quinto Império - Ontem como Hoje; Le Temps qui Reste

sábado, 10 de dezembro de 2005

Dar a ver a leitura

(Helene Schjerfbeck, Jovem a ler, 1904)

Uma amiga trabalha no projecto de recolher imagens (na pintura de todo o mundo) do acto da leitura. Alguns dos temas em que organiza o que vai encontrando: "mulheres leitores: interiores/exteriores; leitura solitária; leitura para outro(s), etc etc". Acrescento eu, sem saber: leitores representados de costas. Continuo com esta fixação, desde que assisti na Gulbenkian a um colóquio sobre esse tema inusitado que é a representação do ser humano de costas, na pintura, no teatro, na dança. Lembro-me de conclusões empolgantes sobre o assunto; mas, acima de tudo, ficou-me a ideia de que encontrar um vértice concreto, uma ideia condutora de outras ideias para analisar a arte, é muito mais entusiasmante do que eternamente buscar (e raras vezes conseguir) os "universais", os "aparelhos teóricos mais vastos". Gumbrecht também viria a ser culpado deste meu pendor.
Diz a minha amiga que este trabalho de recolha e dispositio é fascinante. Acredito. Se alguém aí fora souber de imagens destas, diga aqui ao Reboliço. Fáxavor...

Deflexão

Tinham passado muitos meses desde que se tinham encontrado, e nem uma palavra haviam trocado desde então. Um e outro confiaram o entusiasmo ao tempo e imaginaram que o reencontro seria igualmente exultante. Quando, finalmente, se reviram, o desengano apanhou-os de surpresa. Apesar disso, e pela felicidade das recordações não partilhadas, sentiram-se gratos quando, num cordial aperto de mão, se despediram.

Estudos Culturais

Os finlandeses dizem “vem um bebé para nós”; os portugueses, “vamos ter um bebé”. Uns possuem as crianças, outros acolhem-nas.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

cu.rio.so

http://del.icio.us/immrs

Yerma

Sento-me para escrever algumas das coisas que direi sobre Yerma, mas não há meio. A fotografia do filme era a única referência que tinha antes de o ver: Acácio de Almeida, que produziu e fotografou no Trás-os-Montes, no Rosa de Areia e que iniciou a sua colaboração com o cinema espanhol nos anos 80. Mas o filme deu-me mais do que isso: deu-me o texto de Lorca, os olhos de Aitana Sánchez-Gijón e os gritos mudos, de dentes cerrados, de uma alma tacanha e fatal (discreto, mas assim a personagem o exigia, Juan Diego).

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

(Este post é para a Zabelinha, leitora atentíssima!)

"O poema na parede"

Ninguém via o meu poema desajeitado, na parede da estalagem.
As letras desapareciam sob os dejectos dos pássaros e o musgo que crescia.
Veio um hóspede de coração tão cheio que, mesmo sendo pajem da Corte,
não se importou de limpar com a manga bordada do casaco a sujidade, e leu.

Po Chü-i, ano 810 d.C.
(Yäun Chen escreveu que descobrira, no caminho para o exílio, na estalagem de Lo-k'ou, um poema inscrito por Po Chü-i.)

Ui!...

O tempo de silêncio nestas cartas tem sido gasto em quase nada. Salvam-se Schiller, a casa nova da mana (que é do mano) e Nitin Sawhney (obrigada, cunhadão!).

sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Onde andará o andarilho?

Otelo Fabião (2005)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

Ele olhou-a com um ar interrogativo. “Em que é que estás a pensar?”, perguntou-lhe ela. “Estou a pensar no que o destino não nos diz.”

1640

Há 365 anos, a vitória foi afastar deste canto o jugo espanhol. Hoje, a vitória é ir daqui a Espanha fazer compras, que lá não é feriado.