O Reboliço começa as férias cansado. Cabisbaixo, de olhos vagos, entrega-se às férias. Acredita que tudo virá a ser melhor, menos feio. Suspira e entra nas férias.
segunda-feira, 31 de julho de 2006
sexta-feira, 28 de julho de 2006
Uma janela que dá para Sul
Detrás das grades de uma janela do antigo Convento da Conceição, em Beja, Soror Mariana terá existido e amado. É incerto, porém, que tenham sido escritas por si as cartas de amor ao oficial francês Noel Bouton, Conde de Chamilly. Um talento estilístico, uma sofisticação e clareza de frases e de sentidos, uma excelência literária inultrapassável e comentada com rasgos elogiosos por Rilke, um dos seus muitos tradutores, reclamam antes um autor nativo, francês, para punho das linhas amorosas.
De si para si mesmo.
terça-feira, 25 de julho de 2006
"Ansiedad...
... de tenerte en mis braços", cantarola o Reboliço a pensar no Isa. E de abraçar o LM e mais todas as memórias de Barcelona e de Paris, de livros e de música, de boa comidinha e doces palavras, de tudo o que trarão com eles. Entre amanhã e o início de Agosto, só por acaso ou milagre me apanharão a "postar".
domingo, 23 de julho de 2006
Nunca
Na aldeia do Reboliço, a palavra "nunca" significa outras coisas além do seu sentido mais corrente. "Nunca fui à da Nita" quer dizer "Acabei por não ir à da Nita". Pergunta-se "Ali... Nunca viste o Tói Galego?" (Ou seja: "Ouve lá... Chegaste a vê-lo?")
Actualização...
...da narrativa sobre os amanheceres do Reboliço. O avô chamava-o para perto da sua cama e, depois de lhe coçar o lombo com a bengala, dava-lhe duas bolachas Maria que trouxera para a mesa de cabeceira na noite anterior. Era por isto, com a coçadela de lombo, que o Reboliço se pelava.
sexta-feira, 21 de julho de 2006
A minha vida dava um filme
"Está descansada que eu estou a registar tudo na minha memória para depois te ajudar a fazer o guião." Como é bom ter quem não se esqueça dos momentos que a nossa história vai empurrando para longe do pensamento... A Zabelinha é uma guardiã do melhor. Como é que se agradece isto?
"Profissão: Desatento"
Isto hoje (incluíndo o título do post) é do Mano. Deliciai-vos:
"Ontem fui ao cinema com a Giulia [uma amiga italiana], ela perguntou-me assim: "joá", já viste um filme que se chama Os Edukadores? E eu disse que não (tu já?). Ok, então vamos, então fomos... Era no Nimas e eu meti na cabeça que o Nimas era onde era o Cinestudio 222 (vá-se lá saber porquê...) mas ia com uma sensação que podia não ser aí... Bem, lá descobrimos que não era mesmo aí, era aquela sala onde fomos ver o Roger Rabbit! Lembras-te?
Bem, a sessão era às 21.30, chegámos mesmo ao pêlo! 9.27 (da noite). Quando estávamos a chegar à bilheteira, estava vazia! (Já por si a coisa era estranha, mas... nao há meio de uma cabeça - nem duas - se porem a pensar um bocadinho...) lá fui para dentro do foyer à procura da sra ou do sr... que lá apareceu...
Quando voltei para a posição de aquisição dos bilhetes, olho para o lado e vejo um cartaz a preto e branco incrível! Era com o Jack Nicholson (ou lá como se escreve) muito novinho e assim com uma paisagem bastante árida por trás... e fiquei flashado! Pensei, é este o tal filme que não sei qual é, só pode ser, um com o Jack Nicholson a viajar por Espanha e em cima da Pedrera do Gaudì! Só pode ser!, este é que era fixe, ó julia (Giulia)! Nisto, enfio a cabeça naquele vazio do vidro da bilheteira e peço 2 bilhetes! E a sra (era uma sra) - 10 euros. E a julia (Giulia) 5 euros? Mas não era 3 e meio? Agarrando uma folhinha manhosa com Os Edukadores... (enquanto o drama dos euros prosseguia, eu desviei a atenção de novo para o cartaz e pensava... fod!... tenho que vir ver este... e descia os olhos pelo cartaz a fora, quando dou de caras com Michelangelo Antonioni! Minchia! (que é assim uma parolacia em italiano... quer dizer pixa!) Impossível, então sou mesmo parvo! O misterioso filme de que vi partes algures no mundo algures numa idade que já tive era deste doce mistério do silêncio! m.a.!... ah...
Extasiado, volto à realidade da bilheteira e apercebo-me que a Giulia 'tava com aquela cara assim meio de cruzamento entre rato e gato zonzo... Tinha-se apercebido que Os Edukadores era afinal no King! Coitada, estava mesmo desapontada (não 'tava a apontar nada...) Yesss, em meio segundo apercebi-me que o que estava ali era este filme que eu estava a rever nos fragmentos da minha cabeça - Profissão Repórter!
Bute! Bute.
E entao lá bute.
Concluímos a transacção e entrámos a correr (assim por trás ainda ouvi a sra dizer: os bilhetes já não precisa cortar...)
Entramos no escurinho do cinema... já tinha começado... sacanas... e lá estava o Jack a acender um cigarro e a deitar-se numa cama numa tarde quente e andaluza com uma camisa de manga curta estreitinha a deixar ver umas manchas de sovaco... ah!
Depois, esta incrível cena vista a partir da grelha andalusa de uma janela, quase abstracta, super geométrica e super bucólica, ao mesmo tempo...
O desenrolar de uma acção de que não se percebe nada (o que é sempre uma maravilhosa sensação... é onde se vê que o filme que se tem diante é um verdadeiro peso pesado! É muito importante nao perceber nada!) patati, patata... e lá aparece, "directed by Michelangelo Antonioni" e penso, ah então aquilo era uma cena tipo prelúdio, agora é que vai começar... e acendem as luzes!
acendem as luzes?
ACENDEM AS LUZES!
Olhámo-nos ao mesmo tempo, eu e a julia (Giulia) e com cara de parvos dissemos - o filme acabou!
A lucidez que restava só foi suficiente para fazer crescer uma raiva (de que não tinha vontade) para ir obrigar a mulher a engolir o bilhete que nos vendeu!
Foi quando olhei, ainda incrédulo, o bilhete, e, sem atenção (ou com a atenção em automático), lá os olhos caíram sobre um n°. 22.00
... (acho que já deu para perceber, não?...)
Disse, vamos giulia, ofereço-te uma cerveja aqui na Versailles, ainda temos um quarto de hora...
O filme?
ah...
ah...
mas que grande filme!"
"Ontem fui ao cinema com a Giulia [uma amiga italiana], ela perguntou-me assim: "joá", já viste um filme que se chama Os Edukadores? E eu disse que não (tu já?). Ok, então vamos, então fomos... Era no Nimas e eu meti na cabeça que o Nimas era onde era o Cinestudio 222 (vá-se lá saber porquê...) mas ia com uma sensação que podia não ser aí... Bem, lá descobrimos que não era mesmo aí, era aquela sala onde fomos ver o Roger Rabbit! Lembras-te?
Bem, a sessão era às 21.30, chegámos mesmo ao pêlo! 9.27 (da noite). Quando estávamos a chegar à bilheteira, estava vazia! (Já por si a coisa era estranha, mas... nao há meio de uma cabeça - nem duas - se porem a pensar um bocadinho...) lá fui para dentro do foyer à procura da sra ou do sr... que lá apareceu...
Quando voltei para a posição de aquisição dos bilhetes, olho para o lado e vejo um cartaz a preto e branco incrível! Era com o Jack Nicholson (ou lá como se escreve) muito novinho e assim com uma paisagem bastante árida por trás... e fiquei flashado! Pensei, é este o tal filme que não sei qual é, só pode ser, um com o Jack Nicholson a viajar por Espanha e em cima da Pedrera do Gaudì! Só pode ser!, este é que era fixe, ó julia (Giulia)! Nisto, enfio a cabeça naquele vazio do vidro da bilheteira e peço 2 bilhetes! E a sra (era uma sra) - 10 euros. E a julia (Giulia) 5 euros? Mas não era 3 e meio? Agarrando uma folhinha manhosa com Os Edukadores... (enquanto o drama dos euros prosseguia, eu desviei a atenção de novo para o cartaz e pensava... fod!... tenho que vir ver este... e descia os olhos pelo cartaz a fora, quando dou de caras com Michelangelo Antonioni! Minchia! (que é assim uma parolacia em italiano... quer dizer pixa!) Impossível, então sou mesmo parvo! O misterioso filme de que vi partes algures no mundo algures numa idade que já tive era deste doce mistério do silêncio! m.a.!... ah...
Extasiado, volto à realidade da bilheteira e apercebo-me que a Giulia 'tava com aquela cara assim meio de cruzamento entre rato e gato zonzo... Tinha-se apercebido que Os Edukadores era afinal no King! Coitada, estava mesmo desapontada (não 'tava a apontar nada...) Yesss, em meio segundo apercebi-me que o que estava ali era este filme que eu estava a rever nos fragmentos da minha cabeça - Profissão Repórter!
Bute! Bute.
E entao lá bute.
Concluímos a transacção e entrámos a correr (assim por trás ainda ouvi a sra dizer: os bilhetes já não precisa cortar...)
Entramos no escurinho do cinema... já tinha começado... sacanas... e lá estava o Jack a acender um cigarro e a deitar-se numa cama numa tarde quente e andaluza com uma camisa de manga curta estreitinha a deixar ver umas manchas de sovaco... ah!
Depois, esta incrível cena vista a partir da grelha andalusa de uma janela, quase abstracta, super geométrica e super bucólica, ao mesmo tempo...
O desenrolar de uma acção de que não se percebe nada (o que é sempre uma maravilhosa sensação... é onde se vê que o filme que se tem diante é um verdadeiro peso pesado! É muito importante nao perceber nada!) patati, patata... e lá aparece, "directed by Michelangelo Antonioni" e penso, ah então aquilo era uma cena tipo prelúdio, agora é que vai começar... e acendem as luzes!
acendem as luzes?
ACENDEM AS LUZES!
Olhámo-nos ao mesmo tempo, eu e a julia (Giulia) e com cara de parvos dissemos - o filme acabou!
A lucidez que restava só foi suficiente para fazer crescer uma raiva (de que não tinha vontade) para ir obrigar a mulher a engolir o bilhete que nos vendeu!
Foi quando olhei, ainda incrédulo, o bilhete, e, sem atenção (ou com a atenção em automático), lá os olhos caíram sobre um n°. 22.00
... (acho que já deu para perceber, não?...)
Disse, vamos giulia, ofereço-te uma cerveja aqui na Versailles, ainda temos um quarto de hora...
O filme?
ah...
ah...
mas que grande filme!"
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Mano
quinta-feira, 20 de julho de 2006
Interregno brevíssimo
Sao dias de grande azáfama. Não pelas motas que invadiram a cidade (a Tiaga entretém à janela o tédio de gata caseira - a vê-las passar, avenida acima e avenida abaixo, motas-sapato e tudo, penicos forrados a veludo por capacete, lenços encarnados a cobrir boca e pescoço, casacos de cabedal e demais convenção motoqueira), mas pelos dias derradeiros de trabalho antes das férias. O corpo pede-lhe a folga, mas o trabalhinho não deixa. Só faltam uns dias, Reboliço: só mais uns dias. Depois disso, talvez não aumente o ritmo da publicação das Cartas (ai, como anseio estar longe de computadores...), mas certamente o da sua escrita poderá aumentar.
sábado, 15 de julho de 2006
O cão do vizinho António
Nem de propósito: quando se acumulam as perguntas sobre a sua identidade, aparece o cão do vizinho António e faz o Reboliço recordar-se dos dias no Moinho em que o avô ainda vivia.
Todas as manhãs, cedo, mal a avó abria a porta do quarto, levantava-se da cozinha onde passara a noite, sobre os ladrilhos frescos se era Verão ou aninhado junto ao borralho, no tempo frio. Espreguiçava-se, dava o salto pequenino para passar o degrau que separa a cozinha do resto da casa, atravessava a sala e ia sentar-se, sossegado, sem latir nem nada, mesmo no vão da porta do quarto do avô. Até que ele lhe desse licença, não se mexia. Tardava pouco: "Preguiçoooooso... Anda cá, Preguiçooooso." A cauda dava em abanar-lhe, erguia o rabo do chão e avançava, patinha ante patinha, até à beira da cama do avô. Lá perto, só subia o focinho. Nunca se empoleirava nos lençóis nem se chegava muito às mantas. Esperava que o avô alcançasse a bengala, ainda adormecida ao alto, entre a cama e a mesa de cabeceira, e com ela lhe coçasse o lombo. Aquilo sabia-lhe pela vida toda. Hoje, ouve a Tiaga e pensa "Ah, se eu naquela altura soubesse ronronar...".
Take 2 (ou "Mais tarde" é "Já a seguir")
Atadas à bebida, ideias de liberdade.
A vida perfeita tem uma taberna
Onde nos sentamos e falamos – ou pensamos, só,
Tudo sem medo da serpente anoitecida;
Ou ainda outra taberna onde pareça
Não haver placas de Não se Fia
Onde, além das cervejas sem fim,
Sentados, totalmente bêbedos, loucos de inventar
As linhas de uma terra mesmo melhor onde
Se possa beber, ah, mais fino vinho por destilar
Que intoxique subtil, sem dor,
Teçamos a visão da inigualável estalagem
Onde possamos beber para sempre sem pagar
De porta aberta, com o vento a soprar.
(Malcolm Lowry)
Hum... A ver...
A vida perfeita tem uma taberna
Onde nos sentamos e falamos – ou pensamos, só,
Tudo sem medo da serpente anoitecida;
Ou ainda outra taberna onde pareça
Não haver placas de Não se Fia
Onde, além das cervejas sem fim,
Sentados, totalmente bêbedos, loucos de inventar
As linhas de uma terra mesmo melhor onde
Se possa beber, ah, mais fino vinho por destilar
Que intoxique subtil, sem dor,
Teçamos a visão da inigualável estalagem
Onde possamos beber para sempre sem pagar
De porta aberta, com o vento a soprar.
(Malcolm Lowry)
Hum... A ver...
O Nada
O Reboliço passou a tarde esticado - estirado, deitado ao comprido no chão, a imitar a Tiaga. Queria estar imóvel, deixar completamente de sentir. Mas, quanto mais o calor lhe apertava o pêlo junto ao corpo, colando-o com um suor odioso e pouco fluído, mais o coração lhe batia e a língua obrigava a boca a abrir-se, no arfar canino e irritante. É isto o Nada, pensou. Isto de não ser além de corpo, sangue a pulsar e gotas de água com sal. O Nada do pensamento, o Nada das ideias, a aniquilação toda da vida espiritual, a...
Soa o telefone e a Fatinha diz: "Anda já, os músicos já chegaram. Deixa-te de ronhas."
Take 1
Atadas à bebida, ideias de liberdade.
A vida ideal tem uma taberna
Onde nos sentamos e falamos – ou pensamos, só,
Tudo sem medo da serpente anoitecida;
Ou ainda outra taberna onde pareça
Não haver placas de Não se Fia
Onde, além das cervejas sem fim,
Sentados, totalmente bêbedos, loucos de inventar
As linhas de uma terra mesmo melhor onde
Se possa beber mais fino, ah, vinho por destilar
Que subtilmente intoxique sem dor,
Tecemos a visão da inigualável estalagem
Onde possamos beber para sempre sem pagar
De porta aberta, com o vento a soprar.
(Malcolm Lowry)
Pode ser que mais tarde a mude. Logo vejo.
A vida ideal tem uma taberna
Onde nos sentamos e falamos – ou pensamos, só,
Tudo sem medo da serpente anoitecida;
Ou ainda outra taberna onde pareça
Não haver placas de Não se Fia
Onde, além das cervejas sem fim,
Sentados, totalmente bêbedos, loucos de inventar
As linhas de uma terra mesmo melhor onde
Se possa beber mais fino, ah, vinho por destilar
Que subtilmente intoxique sem dor,
Tecemos a visão da inigualável estalagem
Onde possamos beber para sempre sem pagar
De porta aberta, com o vento a soprar.
(Malcolm Lowry)
Pode ser que mais tarde a mude. Logo vejo.
"De porta aberta, com o vento a soprar"
Notions of freedom are tied up with drink.
Our ideal life contains a tavern
Where man may sit and talk or just think,
All without fear of the nighted wyvern;
Or yet another tavern where it appears
There are no No Trust signs no No Credit
And, apart from the unlimited beers,
We sit unhackled drunk and mad to edit
Tracts of a really better land where man
May drink a finer, ah, an undistilled wine
That subtly intoxicates without pain,
Weaving the vision of the unassimilable inn
Where we may drink forever without owing
With the door open, and the wind blowing
(Malcolm Lowry)
Ando a pensar na tradução mais feliz para este poema. Logo volto cá para dizer o que terei encontrado.
quinta-feira, 13 de julho de 2006
Ao Goldmundo, ao Laio e a outros mais do Teatro
Na Les Inrockuptibles da semana passada (numa página, a 25, com a data "gralhada" de 4 de Agosto :D), leio um artigo de opinião de Frédéric Martel, jornalista e escritor especializado em estudos teatrais. Chama-se "Comment Mickey a mis le pied sur le théâtre américain" (qualquer coisa como "A história da invasão do teatro americano pelo rato Mickey"). É um artigo breve, de duas colunas, que reflecte sobre a "disneyficação" do teatro comercial, associada ao declínio do teatro americano e que, avisa Martel, pode indiciar um semelhante descalabro no teatro francês. Retenho daquelas linhas duas questões, não por serem as mais relevantes, mas por traduzirem problemas que têm vindo a ser discutidos não só nos estudos teatrais mas, por exemplo, e não apenas marginalmente, em debates sobre os actuais públicos do cinema:
1) "Haverá ainda lugar para o teatro, na era dos écrans gigantes dos jogos de vídeo e dos infinitamente pequenos dos iPods?"
2) "Como se poderá seduzir os jovens e as minorias [a irem ao teatro] quando os actores brancos interpretam no palco textos de autores mortos?"
quarta-feira, 12 de julho de 2006
Os seus aos seus donos
De puro, o Reboliço tem muito pouco (enfim, alguns charutinhos que já lhe têm oferecido...). Mas sim, foi sem maldade que errou. Reponha-se a justiça, a partir da informação mais autorizada de um dos muitos injustiçados, e logo o Mano! A Mostra "Desenhos nas Cidades", comissariada por Álvaro Siza, foi co-comissariada por Maddalena D'Alfonso, Antonio Madureira, João Gabriel Soares (o Mano) e André Tavares. A responsável pelo esquema gráfico da dita foi a Mana, Gabriela Soares. Foi isto que o Reboliço viu na sexta-feira, último dia em que esteve aberta ao público na Faculdade de Arquitectura do Porto. O Mano reenvia os leitores para este artigo, com fotos, mais cuidado que aquele que ficara aqui linkado (o Reboliço confessa que nem sempre tem tempo para uma selecção mais atenta do que escolhe, entre as listas que o Google oferece sobre determinado tema).
Mil quinhentas e setenta e nove desculpas, aos Manos e aos outros responsáveis pela Mostra (que, além do mais, está muito bem feitinha)!
terça-feira, 11 de julho de 2006
O Reboliço está de volta!
Eh lá! Quatro dias sem dar notícias... Já havia quem pensasse que o pobre do Reboliço se finara debaixo das rodas de alguma carroça, ou se enleara nas cordas grossas do velame do moinho. Nada disso - primeiro, porque não é canito de se andar a oferecer aos fados nefastos das estradas carroceiras; segundo, porque o velame... (suspiro...) está ainda parado. E, fosse como fosse, as cordas são demasiado grossas para agarrar o corpo franzino do Reboliço - uma vantagem, portanto.
Não. Andou de passeio. Foi ao Norte. 1) Ver a Mostra de Arquitectura que o mano e a mana ajudaram a montar. 2) Ver a peça Vatzlav no Estaleiro Teatral em Aveiro, encenada pelo Fraga. 3) Conhecer o Nelson. 4) Ver filmes no Festival de Curtas de Vila do Conde. Tudo cumprido, e ainda deu para andar no Metro do Porto e passar uns bons bocados com os Cabrais.
Quando chegou a casa, a Tiaga olhou para ele, espreguiçou-se muito, bocejou longamente e sussurrou-lhe, lânguida: "Não imagiiiinas o calor que tem estaaaaado..."
quinta-feira, 6 de julho de 2006
Parabenizar
Um dos trabalhos do Nelson foi reconhecido como Novo Talento FNAC. É bem, muito bem. Para o bem. Parabéns.
Alminha carota
A música de hoje, para complementar o Scarlatti, é dos Expensive Soul. Um dos versos: "A vida é as férias qua a morte nos dá." Go search ;)
quarta-feira, 5 de julho de 2006
A altas horas
Passava da meia-noite. O Reboliço apagara a luz da casa de banho e preparava-se para se aninhar na alcofa, enroscar-se e, de focinho a tocar o quadril, adormecer. Ia desligar o telefone, quando soou; viu no pequeno visor os corações a indicar quem telefonava. "Mano? Ainda não estás deitado, meu?" "Não, vou sair agora do escritório. Vou para casa." "Sim. E então? Diz coisas." "Era só para te dizer que o Scarlatti é lindo." "Pois é, também gostei muito." "Não - mas é lindo, lindo - mesmo lindo!" (risos do Reboliço) "Está bem, mano. Ainda bem que gostaste. Vai dormir. Até amanhã." "Até amanhã. Um beijo."
>
Mano
Escola 2
Leio, no número mais recente da Ler , um artigo de Humberto Brito. O título causa-me um erguer de sobrancelha, de reconhecimento: "Leitores em Série - Sobre as almas malsãs e livros que não existem." É o segundo de quatro artigos "sobre extravâgancias da bibliomania"; o primeiro saiu há dois números atrás. Reli-o agora, para confirmar suspeitas. Desde o título, então, que desconfiei - este tipo é do Programa. Lido o segundo e relido o primeiro artigo, fico com a certeza: este tipo só pode ser do Programa. Consulto a lista dos alunos do Programa. Lá está: doutorando.
Haverá uma "escola" do Programa em Teoria da Literatura? As afinidades são óbvias? Só para quem faz parte do Programa? Sê-lo-ão também, para quem está de fora? Sinto-me ao mesmo tempo em júbilo e profundamente incomodada com isto ("ao mesmo tempo" é uma expressão minha, ou será do Programa?).
segunda-feira, 3 de julho de 2006
Mal agradecido
Depois de dizer muitas vezes "Obrigado, senhor Lönnrot, obrigado!", o Reboliço desabafa: era um grande mal agradecido, esse Lönnrot, é o que era! Quantas vezes os heróis trabalham, labutam, lutam, laboram, conseguem os feitos, só para o romântico médico lhes rematar as falas com um "Louve-se Deus." Nestes versos, o herói maior, Väinämöinen, ferido com um machado no joelho, contorce-se com dores e recebe, finalmente, a ajuda de um velho deitado ao lume:
"O velho expulsou a dor,
o sofrimento empurroupara o meio de Kipumäki,
para o pico de Kipuvuori,
para dar a dor às pedras,
entregar à rocha a dor."
(Canto IX, vv. 523-528)
Pois não querem lá ver a resposta do herói, depois de o sangue estancar?
"Bendito sejas, ó Deus,
bendito, Criador único,
que a mim tanto ajudaste,
me trouxeste protecção
a mim nestas grandes dores,
do férreo aço a ferir!”
(Canto IX, vv. 571-576)
Assim, não dá!...
(Elias Lönnrot foi o médico que, entre 1833 e 1853, viajou pela Carélia e reuniu cantos, rezas e lengalengas populares, que haveria de publicar como cancioneiros e como a epopeia Kalevala. Nesta, compôs uma história a partir de várias camadas de histórias, passadas oralmente, de geração em geração. Um dos debates literários mais prolixos ainda hoje na Finlândia prende-se com saber em que medida o compilador foi ou não autor dos versos, isto é, terá interferido na construção das narrativas, nomeadamente no que a atitudes religiosas diz respeito. Um dado é certo: há muitos momentos de incongruências narrativas, e os versos acima dão conta de uma apenas.)
Post de Sábado à noite
Então, sentou-se na cama. E, à falta de um ouvido humano - ouvido silencioso, que não o julgasse, não lhe fizesse perguntas e se limitasse, isso sim, a escutar com toda a atenção possível -, ditou para o bloco de folhas. Sabia que a caneta tinha pouca tinta. Sabia que escolheria mal as palavras; que buscaria nelas a clareza, a nitidez que nelas amava, mas cuja luz precisa haveria de cegar o emaranhado de tudo.
Lembrou-se de imagens, de partes de dias. De uma vez em que seguira alguém, num autocarro de subúrbio, e acabara a entregar em beijos a vida que lhe sobrava. De uma vez em que alguém se despedira de si com a calma do reencontro e a certeza da última conversa. De algumas vezes em que o amor soçobrara à raiva, às ganas do que os dias não deixam ser. Lembrou-se disso e recordou a proximidade que vira entre o desespero mais arrepiante e a euforia de se sentir vivo. Como se um nascesse do outro.
(17 de Janeiro de 2006; recordado este sábado.)
>
o que li
domingo, 2 de julho de 2006
sábado, 1 de julho de 2006
Flow
Desde há uns tempos que o Reboliço tem vindo a pensar sobre o assunto: o flow. Não acredita que seja acontecimento exclusivo da física, nem só da química. Aplica a ideia ao amor e à música, por exemplo. Mas, e quê? Intrigado e um pouco nervoso, coça a parte de trás da orelha com a pata, sentado debaixo da parreira carregadinha, enquanto conclui: se não é só químico, se náo é só físico, se não é uma soma directa de fenómeno físico e químico, deve ser aquilo a que Alberto Caeiro chamava " a metafísica das coisas". Se assim for (passam-lhe pela cabecinha as palavras, pousa a pata, aquieta-se), é as coisas não terem metafísica nenhuma. Dá volta e meia, deita-se outra vez, respira fundo e volta a fechar os olhos, como se o peso das uvas ainda verdes o ajudasse a repousar. "Posso dormir descansado."
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