Domingo passado ouvi pela primeira vez esta versão deliciosa do "Bolero" de Ravel. Num espectáculo de dança/teatro, coreografado por Paulo Ribeiro e dançado, graciosa e incrivelmente, por Miguel Borges, Peter M. Dietz, Romeu Runa e Romulus Neagu. Se tivesse mesmo mesmo de escolher o que me prendeu mais o olhar, escolheria o homem-elástico que é Romeu Runa. Se tivesse de escolher mesmo mesmo o que mais me surpreendeu porque, não sendo bailarino, suou e cumpriu sem envergonhar nenhum dos outros, escolheria o Miguel Borges. Ainda bem que não tenho de escolher.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
terça-feira, 30 de outubro de 2007
Bolo de cenoura - a pedido de muita gente, e com licença de mana Rosa
Misturam-se duas chávenas de farinha (com fermento, e há quem use uma porção de Cérelac, mas não experimentei essa inovação) com duas chávenas de açúcar (usei açúcar escuro - faz mais grumos, mas prefiro-lhe o sabor ao branco) numa tigela grande. À parte, de preferência num liquidificador, passam-se três cenouras médias, boas, com quatro ovos e uma chávena de óleo vegetal (tudo à temperatura ambiente, dá melhor resultado). Quando esta mistela estiver bem líquida, junta-se na tigela ao pó de açúcar e farinha. Não se bate o preparado, mas envolve-se, com uma colher de pau, mexendo devagar desde o fundo da tigela até acima. Quando estiver bem homogéneo, deita-se numa forma para ir ao forno. Da primeira vez, com a Rosa a comandar, usámos uma daquelas formas de buraco no meio. Desta vez utilizei um tabuleiro de alumínio. Resultou bem das duas vezes. O importante é que esteja a forma muito bem untada de margarina. Coze no forno, para onde entra com ele já quente, durante uma meia hora a temperatura média. Nada de abrir o forno a meio da cozedura. Normalmente, depois de começar a cheirar, aguenta mais dez minutos. Também é importante verificar que não haja nenhuma corrente de ar ou janela aberta na cozinha, que possa arrefecer de repente o bolo ao sair do forno. Se ao fim da meia hora ainda estiver pouco seco (use-se o palito para avaliar se já estará cozido), dê-se-lhe mais uns dez minutitos, controlados para não queimar.
A Rosa ensinou-me a cobertura de calda de maracujá (que ontem não usei, foi singelo), que fiz com polpa de maracujá congelada, batida no liquidificador e acrescentada de açúcar a gosto, misturado ao lume com a calda e um pouco de água, conforme se quiser mais ou menos espessa. Quando o bolo sair do forno já a calda deve estar pronta, para se lhe espalhar por cima e entranhar, depois de se lhe fazer furinhos com um palito. Hum... além do truque de mexer o preparado com muito carinho, de se agasalhar bem a cozinha e de não abrir a porta do forno enquanto o bicho dorme e cresce, a outra condição para isto sair bem é que não pode haver vozes altas na cozinha. Só risos. A comer podem ser mais alarves.
(Foto: Reboliço, um segundo antes de abocanhar os dois pedaços de bolo e desfazer em pasta de papel o livro do Mano, desconsoladíssimo por não lhe saber a nada.)
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
"Salute her when her birthday comes"*
O Reboliço não entende o rebuliço deste dia. "Toda a gente faz anos, qualquer pessoa, qualquer rafeiro, faz anos. Por que raios é que esta tipa se há-de pôr assim maluca e fazer andar tudo num virote só porque chega o dia 29 de Outubro! A sorte é que este ano há obras no moinho, senão já estou mesmo a imaginar o desassossego que seria." Raspa-se porta fora, aninha-se debaixo do tanque, que hoje está uma calma a fazer lembrar os Verões, cobre com as patas da frente as orelhas e tenta adormecer.
* Bob Dylan, "She Belongs to Me", cujos versos mais importantes são " She never stumbles, she's got no place to fall." Nesta versão ao vivo, o anel egípcio é vermelho.
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Esclarecida
- Como viste, não foi preciso que falasse. Começaram a convencer-se do meu estado quando, por baixo do pêlo, em vez dos ossos e da minha tradicional elegância, deram por estes lumps incómodos. Já nem me dou empinada para lhes saltar para os joelhos.
- E quantos são? -, perguntou o Sorna com ânsia arfada.
- Ah, mas achas que fiz alguma fotografia do ventre? Nã... alguma coisa terá de ser surpresa. A Mana e o Cunhadão agora andam ó-tio-ó-tio à procura de quem fique com os canitos todos. Parece que já há candidatos a donos, uns três.
- Deixa estar, Luca, que eu hei-de perguntar ao Reboliço se conhece quem os queira: "Cães de água portugueses, racinha pura. Nascem daqui a quinze dias. Someone?"
- E quantos são? -, perguntou o Sorna com ânsia arfada.
- Ah, mas achas que fiz alguma fotografia do ventre? Nã... alguma coisa terá de ser surpresa. A Mana e o Cunhadão agora andam ó-tio-ó-tio à procura de quem fique com os canitos todos. Parece que já há candidatos a donos, uns três.
- Deixa estar, Luca, que eu hei-de perguntar ao Reboliço se conhece quem os queira: "Cães de água portugueses, racinha pura. Nascem daqui a quinze dias. Someone?"
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
O que quero dizer quando digo entardeceres outonais
(Foto: Reboliço na esplanada do café Aliança. Com a Mana. Para o Vasco Vidigal, que pediu a fixação da imagem.)segunda-feira, 22 de outubro de 2007
Aforismo
"A má memória é essencial para escrever romances e para os poder viver; na vida e nos romances, tudo se repete" (p.12).
Repito a leitura de Fanny Owen. Tenho muito má memória.
Repito a leitura de Fanny Owen. Tenho muito má memória.
A dúvida
- Mas por que é que não lhes dizes?, - pergunta o Sorna. - Os coitados andam desnorteados.
- Ora, são tolos. Deixá-los estar, sempre se divertem. Quando se lhes acaba o tema de conversa, lá malham de novo, Então a Luca está prenha ou não? Haverá tempo de eu ter tido umas três ninhadas e os gajos sem saberem. São mesmo imbecis.
- Também não é caso para os ofenderes. Tratam bem de nós. Já viste os melhoramentos que têm feito na minha casa?
- Reparei, sim. Nada mal. Posso fazer-te uma visita de cortesia?
- Como se precisasses de licença...
- Ora, são tolos. Deixá-los estar, sempre se divertem. Quando se lhes acaba o tema de conversa, lá malham de novo, Então a Luca está prenha ou não? Haverá tempo de eu ter tido umas três ninhadas e os gajos sem saberem. São mesmo imbecis.
- Também não é caso para os ofenderes. Tratam bem de nós. Já viste os melhoramentos que têm feito na minha casa?
- Reparei, sim. Nada mal. Posso fazer-te uma visita de cortesia?
- Como se precisasses de licença...
Domingo
Drlim, drlim, drlim, drlim - a esquilinha ouve-se, foge da porta da casa até ao fundo do c'runchoso e sossega por baixo da figueira pequena. "Nada mau," pensa o Reboliço, "se os Outubros vierem a ser assim: pode ficar o amanhecer claro, uma ou duas nuvens em fiapos, rastos de aviões e mais nada, e os fins de dia como sempre foram no Outono, os mais lindos do ano. A noite pode ser fresca, não tem mal. Ajuda a temperar o dia morno." Baixa o focinho para cima das patas da frente, já dobradas, esquece-se do zumbido das vespas no monte de pedras ao seu lado e adormece. Sonha com a areia da praia e fica a fazer de conta que está mais a Sul. O cheiro da maré vaza embala-o, as vozes de quem atira salpicos de água, o barulho dos aviões, outro avião. Dormita, quase acordado, até deixar de perceber se o ruído baixo que lhe entra nas orelhas é o das ondas a rolarem devagarinho ou o do vento manso a dar no arbusto de alecrim.
sábado, 20 de outubro de 2007
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Para a Mana
(Desenho e design de Erik Bruun. Encontrei pouquíssima informação sobre ele online. Nasceu em Viipuri (hoje Viborg, cidade russa) em 1926. Ainda vive e trabalha na Finlândia. Fez as imagens de publicidade de várias marcas finlandesas - além da Finnair, as bebidas Hartwall ou meias de nylon. Trabalha quase exclusivamente com imagens da fauna e da flora finlandesas. É um verdadeiro homem da floresta.)
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Design,
Finlandeses,
Mana
Blogar
A revista Books from Finland publica (no nº 2 deste ano) três opiniões sobre o que são blogues e o que é blogar. Aqui a da Leena Krohn, aqui a do Jukka Kemppinen e aqui a da Lola Rogers.
sábado, 13 de outubro de 2007
Outono bom
O Reboliço pensa: "Tem estado tão brilhante e calmo o mar esta semana, que apetece mergulhar a gozá-lo. Como se me vestisse de Esther Williams, ...
... elegante manita à minha frente e a companheira sincronizada atrás. Vou-me deixar ficar aqui ao olhinho de sol a imaginar qual seria o resultado..." Entretanto, quando fecha os olhos, em vez da voz maviosa da sereia a disparatar sobre estar frio lá fora, cantarola uma série de pecados anacrónicos, deslocados ("Pegar carona nessa cauda de cometa / Ver a Via Láctea estrada tão bonita / Brincar de esconde esconde numa nebulosa / Voltar pra casa nesse lindo balão azul..." - "Você pirou! e o diabo gostou!")
... elegante manita à minha frente e a companheira sincronizada atrás. Vou-me deixar ficar aqui ao olhinho de sol a imaginar qual seria o resultado..." Entretanto, quando fecha os olhos, em vez da voz maviosa da sereia a disparatar sobre estar frio lá fora, cantarola uma série de pecados anacrónicos, deslocados ("Pegar carona nessa cauda de cometa / Ver a Via Láctea estrada tão bonita / Brincar de esconde esconde numa nebulosa / Voltar pra casa nesse lindo balão azul..." - "Você pirou! e o diabo gostou!")terça-feira, 9 de outubro de 2007
Pessoinhas
Na primeira vez que visitei Paris, na Primavera de 2001, levei uma maquineta descartável e fiz este boneco da Place des Vosges. Gosto muito da fotografia e ponho-me às vezes a olhar para ela à procura de alguma pessoa em quem ainda não tenha reparado. A Place des Vosges é dos meus lugares favoritos; lá e no Café des Anges tenho cumprido os rituais de revisita.
Este fim de Verão passei por Newport e saquei este, já com uma digital. Será da mistura de palacetes com gente, acho-a parecida à de cima. Também me ponho a olhar para cada uma das pessoinhas - estas, como são menos, já as conheço a todas.sábado, 6 de outubro de 2007
De onde vêm os raios de Júpiter?
Lembras-te, irmão, de uma tarde há muitos anos, na clareira de uma mata de pinhal, estarmos acordados ao calor, a imaginar como seria o infinito além da copa daquelas agulhas? Estaríamos com o pai e a mãe, acabados de almoçar uma arrozada com carapaus fritos e salada com alface, cenoura e beterraba. Eles os dois estirados cada um na sua cadeira articulada, à sombra dos pinheiros, e a gente, mais a mana, não sei já se em cima da manta retalheira onde comêramos, se sentados no banco do carro – parece-me que recordo estar de costas, a olhar para o céu muito parado, as copas sem movimento num dia de Verão. “Já imaginaste, se...,” e fomos por ali afora. Dizes-me que ficaste tonto. Tonto? “Sim, uma cena horrível – pensar que está o mundo, depois a galáxia, o universo, essas coisas, e o que é que vem depois? Fiquei tonto.” Se o meu pensamento teve algum nascer localizável, foi naquela hora. Nunca deixei de lembrar a sensação aberta de haver alguma coisa que não se via, que estava algures num sítio fora dali, que teria de ir ao seu encontro e ser esse o desafio que me abriria caminho ao resto.
(A ler Forests e, nele, Gianbattista Vico sobre as clareiras e a origem do pensamento humano.)
(A ler Forests e, nele, Gianbattista Vico sobre as clareiras e a origem do pensamento humano.)
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
O melhor da arte, o melhor dos homens
Minutos antes de tocar uma das suas composições num concurso televisivo em 1960, John Cage retorquiu ao apresentador, que o avisava, com ar lacónico, "Inevitably, Mr. Cage, these are nice people, but... some of'em are gonna laugh. Is that alright?" - "Sure. I consider laughter preferable to tears."
(via A Invenção de Morel)
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