sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Tlinta e tlês vezes dois!

(Parabéns à Mana e ao Mano.
"Deus Nosso Senhor vos dê paciência," pensa o Reboliço.)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Avoa-avoa

(Foto: Reboliço, a cantar à joaninha a lengalenga e a rir-se entre dentes.
"Vai, vai para a rua, vai ser comida de pombos, vai.")

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Amuleto

(Foto: Reboliço, a escrever sobre o urso e o kantele.
Pingente em ferro, feito na forja e pelas mãos de Antti Nieminen.)

Filosofia canina (2)

O Reboliço decidiu fazer alguma coisa pela educação das quatro crias da Luca. O Petaner (ainda não se desmaginou de que é o pai) sentou-se a ouvi-lo, pois os pequenos nem os olhos abrem, quanto mais os ouvidos.
- A grande questão é o binómio acção/pensamento. Quando uma ideia nos chega, devemos ficar muito quietos à espera que assente. Ouve-se dizer que se deve fazer exercício físico, para oxigenar o cérebro, e dislates do mesmo calibre. Nada disso.
- Ora toma... E eu que pensava...
- Precisamente, Petaner. Tu és dos cães que mais pensam. Mais do que tu, só o Sorna, que se mexe apenas em caso extremo de urgência. Vê a Luca, que já não pára nos ovos outra vez: aquela bicha pensa? Não pensa, só age. Claro que, como não pensa sobre nada, não pensa sobre as suas próprias acções; logo, nada do que faz lhe parece mal feito - nem lhe parece sequer . Um gajo quando quer pensar é pensar só.
- Hum... Quer dizer que aqui o Preto 1, o Preto 2, o Preto 3 e o Pincel têm estado este tempo todo a pensar?
- Ah, seguramente. O pior é que, não tarda nada, acaba-se-lhes o período de reflexão.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

"Reminisce (Part 1)"

"- Hey, does anybody remember 82?
- Yeah, yeah. - Yeah, I remember 82.
- You're there?
- Yeah, yeah, sure do.
- I mean, can I remember this?
- Yeah. - Sure, go ahead.
- You don't mind, or anyth'ng...?
- If you want to.
- Can I get personal?
- Yeah, man, do what you wanna do.
- I don't want to offend anybody, or...
- What? - What? No. Sure... Go on.
- Ok. One, two."
[MUSIC]

Isto é o princípio de um dos temas dos Dexys Midnight Runners, uma "conversation over music" no sentido literal, uma conversa tida em cima da música, não acerca da música. O assunto desta é uma busca. Kevin Rowland conta como em Agosto de 1980 andava pelos bares de Dublin à procura do espírito de Brendan Behan: "Huh... I mean, at this point, you know, I had... I had bit of a reputation, something of a searcher, I say, I say. - Alright. - I mean, I still have it, for that matter, perhaps even more at this point anyway."
O Reboliço senta-se e fecha os olhos, a pensar neste "reminescer". Quando foi a última vez que andou à procura dos young soul rebels?

You see, Robin... ?

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Os fantasmas de Serralves

O André Tavares escreveu sobre "as peripécias da construção da casa e dos jardins de Serralves, sucedidas algures entre os anos de 1927 e 1941." Quem por lá estiver na terça que vem, há-de contar-me de todos os sustos.

Kuchinska

A condessa Kuchinska é a minha personagem favorita no filme Cortina Rasgada. Por três razões: a écharpe, os óculos escuros e a maneira como fica caída nas escadas. Por esta ordem.

(À data da saída do filme, o crítico Bosley Crowther [what a name...] escreveu no NY Times sobre as cenas breves com Lila Kedrova : "It's as though Mr. Hitchcock stopped his picture—stopped the chase, stopped everything—and gave the virtuoso Miss Kedrova a chance to do her stuff." O filme não parou, mas é verdade que os olhos de Hitchcock parecem ter-se fixado, como em hipnose, sobre o rosto vasto daquela personagem.)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Funâmbulo

"Acting is an activity that's halfway between literature and athletics."

(Depoimento de Norman Mailer sobre o seu trabalho com Matthew Barney em Cremaster 2, em que fez de Harry Houdini. Mailer começara por recusar o papel, pois tinha 75 anos e o mais que a artrite lhe deixava parecer-se com Houdini era quando desatava os cordões dos sapatos. p. 491)

Quatro fuminhos negros

O Reboliço alçou-se todo, muito sério e esticado, para pôr a patinha sobre a patorra enorme do Sorna, quase a chegar-lhe à omoplata.
- É triste, sim, Sorna, mas sabes?, ouvi dizer que com as primeiras ninhadas, ainda mais quando são grandes, acontece com frequência. Não chores, vá.
- Ai, pobrezinhos... Foram definhando, definhando... Estes quatro que ainda mexem são uns lobos. Tomara que não se fique mais nenhum. Coitadinhos, coitadinhos, ai ai...
- Anda, vai assoar-te ali atrás do monte da lenha. Com um tamanhão desses e a fungar dessa maneira, ainda me fazes levantar voo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Primeira ninhada

"Já está tudo encaminhado," pensa o Reboliço ao carregar no botanito da máquina fotográfica. "Dos nove que nasceram na noite de São Martinho, há oito sobreviventes, o que é uma percentagem bonita."
- Sorna, anda cá. Já os viste?- Já vi, sim, mas de longe. A Luca está no recobro e não quero interrompê-lo. O tolo do Petaner, para espanto meu, também se armou em respeitoso.
- Sabes, Sorna? Acho que está convencido de que é o pai.
- Não serei eu a estragar-lhe a ilusão. Assim como assim, será o pai social, ou não?

"Quando a estrada acaba"

O cunhadão, babado das oito crias da Luca e ansioso pela chegada da sua, mostra este sábado mais uma série de lindos bonecos. Será na ARTADENTRO (Rua Rasquinho, 7, em Faro).

Foto: Vasco Célio, da série "Quando a estrada acaba"

Inauguração da exposição: 17 de Novembro de 2007 às 22h00.

De 17 de Novembro a 15 de Dezembro de 2007 e 22 de Janeiro a 2 de Fevereiro de 2008.
De 3ª a Sáb. das 15h às 19h. (Encerra: Dom. e 2ª e Feriados)

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Pasolini e a analogia

"Como não queria reconstituir cenários, filosoficamente pouco rigorosos [...], fui obrigado a encontrar tudo - personagens e o ambiente - na realidade. Por isso, a regra predominante na realização do [Evangelho Segundo Mateus] era a regra da analogia. Ou seja, encontrei cenários que, não sendo reconstituições, eram análogos à antiga Palestina. A mesma coisa para as personagens - não reconstitui personagens, tentei encontrar indivíduos análogos."

(Entrevista de 1965, dada a James Blue e publicada no número de Outono desse ano da Film Comment.)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O Verão no Outono

Canta la cicaleta

Quand’è 'l Sol più cocente,

E si more cantando e non lo sente,

Io canto, e vivo,

E pur sento nel core

Di lei caldo maggiore.

Cosi vuole il mio fato,

S’io morissi cantando,

O me beato.

Muove Orfeo l'empia Dite;

Piange, prega e sospira

Et impetra pietate al suon di lira:

Io piango e prego una crudele e bella,

D’amor troppo rubella.

Cosi vuole il mio fato,

S’io morissi cantando,

O me beato.


("Canta la cicaleta", Sig. B. Saracelli, 1637. Daqui.)

sábado, 3 de novembro de 2007

Peixe fresco

As mulheres do monte
quando vão à vila
levam cestos de ovos,
galinhas em cima.

O Reboliço esta manhã foi ao mercado de Olhão. A desculpa de sempre, o peixe. O tempo que mais demorou foi numa banca onde vendiam tamboril. Empinou-se, susteve-se com as patinhas da frente no mármore branco da banca e ali ficou, embasbacado, a ver o homem da t-shirt preta do motoclubedefaro a arrancar a pele aos bichos feios e a golpear-lhes a carne. Nem fome lhe dava, só espanto. Ao fim, foi-se dali e acabou por trazer diospiros madurinhos madurinhos madurinhos, de comer com o suco a escorrer queixadas abaixo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Lowry, outra vez

"de onde ao longe se vislumbrava uma velha rua de calçada e uma figura solitária a atravessar um baldio como quem atravessa três séculos, da casa para os carris do comboio"
(Malcolm Lowry, "Strange Comfort Afforded by the Profession", p. 106)

Retraduzo. É curioso observar o trabalho que fiz há mais de onze anos e descobrir o que então não sabia. E imaginar quais serão os lugarinhos do texto que hoje não conheço.