quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Hyvä Kalevalanpäivä!


Akseli Gallen-Kallela, "A defesa do sampo," xilogravura, 1896.
(Hoje celebra-se na Finlândia o Dia do Kalevala e da Cultura Finlandesa.)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

("Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?" ou "Quem sabe da poda é o podador.")

Quem sabe da arte é o artista, por isso aqui se corrige a posição do quadro na parede (ou melhor, na parede onde agora não está). Perdera o sono o artista por imaginar aqueles espaços vazios, que disse incompletos. E quis de novo nas suas mãos a tela, o vazio e a tinta. Agora, diz que "o quadro está resolvido", o que sabe sempre bem ouvir. Transformou-se, nessa resolução, "numa outra obra" que "continua a ser a mesma, tendo passado de OVER a OR." De "quadro agressivo" passou a "orgânico" - "much like life!" Obrigada e parabéns, amigo!


O "R" já ontem voltou ao lugar. Falta o "O" - mas nem todo, como se vê:

(Fotos: Reboliço. O retrato do artista dentro do "O" foi tirado às pressas: da porta de uma casa atrás da esplanada onde estavam, frente à igreja de Estoi, saiu uma luzidia e tricolor gata gorda que o Reboliço, cutucado, quis sair a perseguir. Alçou a cauda curta, atirou as orelhas para trás e assustou as andorinhas com latidos de caça.)

Outros quadros do Otelo, além deste e dos da sua página, podem ser vistos na Galeria Saatchi.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O Reboliço colecciona calendários (2)

(Foto: Reboliço. Este foi comprado numa lojeca de um centro comercial no meio da cidade de Ithaca, NY, em Junho ou Julho de 2005. Se se clicar na imagem, percebem-se bem as letrinhas e os números, que aqui estão minúsculos.)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

E, já agora...

(Disse ao Mano das palavras do post abaixo, algumas foram para ele e para a Mana. Reacções, editadas:)

Mano:vamos lá a ver
hum
and what is it supposed to be? [o conjunto das 12 palavras]
me: a sem-se-ver mandou-me uma daquelas cadeias das 12 palavras de que mais gostamos
Mano: ah
assim já faz mais sentido
(é pena)
uma coisa muito bem organizada, sem sentido é sempre fascinante
me: claro
Mano: sabes aquele gajo, o "keucha"
me: mas a ppia cadeia não faz mto sentido; aliás, eu quebro-a pq não envio a ninguém
quem?
Mano: (não sei escrever, só sei "pronunciar")
me: sim, mas quem diabo é isso?
Mano: o do Mozart
me: pois sei lá...
Mano: quando se apresenta um concerto ou uma peça do Mozart diz sempre K... 543
no Bach é bwv
são as iniciais dos arquivistas
os gajos que compilaram lá as músicas deles
me: espera aí
Mano: (que eles tinham mais que fazer do que andar a compilar as músicas, eles eram compositores, não compiladores!)
querchel da silva!
exactamente
pois, vai-se a ver, o gajo era biólogo ou assim e o trabalho dele era classificar plantas
vê lá as cenas
vai ao encontro da minha teoria da paranóia humana classificacionista!
altamente
pois, era para dizer que lhe podias pedir que compilasse e classificasse as tuas palavras
ele haveria de ser capaz de lhes encontrar uma bela de uma ordem!
me: vai ver isto
Mano: que é isto?
me: clica e lê, q é curtinho
Mano: botânico
era isso
fixe
me: mas quem é q não era botânico na Alemanha do séc XIX???
Mano: hum
também é verdade
é como dizer, quem é que não é passador de droga na baixa lisboeta no séc XXI?
me: tento conhecer agora o mais possível do Romantismo na Alemanha, onde começou
Mano: foi nalgum desgosto de amor
me: não, que aquilo nem tem só a ver c desgosto nem só c amor
Mano: eu tenho cá umas teorias
mas são do género de ser-se feliz na Austrália por nunca se lá ter ido
me: aliás, por exemplo o Kleist, q se matou e todos dizem q era p males de amor, eu acho q ele sabia muito mais do q isso ("he knew better than that")
Mano: (tirando Berlim, não conheço aquele país)
mas até tas posso contar
me:conta, vai!
Mano: não sei bem onde, mas tinham um problema de identidade (ou de curiosidade)
e então para tentar descobrir a própria identidade até estavam dispostos a fazer pactos com o diabo...
(aquele senhor que sofria de "gota"...)
me: qual deles?
Mano: depois, como não encontraram nada de jeito lá nos lugares onde moravam foram fazer escavações arqueológicas para os egiptos, sírias e assim...
depois como continuaram sem descobrir, nem perceber nada lá para essas bandas voltaram para casa e começaram a desconfiar uns dos outros...
e começaram a espiolhar tudo e quem era quem e de onde é que vinha...
depois isso já se sabe no que deu...
me: :D
Mano: mas no fim de contas, o que interessa é tentar perceber o porquê do tal problema de identidade!
o que nos devolve à questão dos desamores
me: achas mesmo?
Mano: havia uma alemã de quem um alemão se tinha apardalado (graufshungen, em alemão)
mas ela não lhe dava troco e dizia
"mas quem és tu para me andares a moer?" (molinstrugen, em alemão)
e, vai daí, ele ficou mesmo tramado, tipo paralisado, a tentar perceber quem era
(coitado)
e ninguém se lembra do seu nome
(conveniente para a criação de um mito desidentitário)
era desdentado, era a única coisa que se sabia.
por hoje já chega. mas agora a sério as campanhas arqueológicas e uns tipos tipo schinkel têm a ver com os romances...
até logo, tenho que ir
me: bem, isto vai mesmo é pró blogue, q já está a ficar elevado demais!
até logo e beijos!
obrigada!!!
Mano: tchau
bloighen!
tag
bau
bsugen
trau!

Uma dúzia delas

É disparate teu, sem-se-ver. Pensei em negociar (a minha alma de merceeiro...), a ver se ganhava alguma coisa com isto, mas ainda por cima pediste-me uma dúzia, com certeza por saberes que sairia mais barato. Como convivem, neste meu corpinho de muito coçado pêlo curto, forretice com mão-larguice, aqui as tendes. Com explicação e tudo (enfim, não tudo...), pela ordem pela qual me foram assomando. E foi por ser hoje e por não estar a chover.

........granzoal........azul........ (Por mor de fazer o Cesário 153 aninhos hoje. Que bem conservado!)
................agora...................(Em dois enunciados, que isto tem de ter o seu quê de wittgensteiniano: 1) "Now is the winter..." [e só na voz do Al Pacino no Looking for Richard] e 2) "agora a gente escondia-se ali e vinham as pessoas e não viam a gente e depois a gente ria-se, mas sem fazer barulho").................. gnomos..... (em "brincar aos gnomos," directamente ligada à alínea 2 da palavra anterior; vai buscar!)

alguidar
(Não é minha, foi-me dada esta palavra por um professor que tive; nem, quando ma deu, tinha nada a ver com pão ou amassar.)


canivete (Ou navalhinhas, como em "arroz de lingueirão.")
...........................................................................................................
moinho
(Em "as velas do moinho, ú-ú, ú-ú..."; vai buscar, que está ao pé das outras.) ......... e reboliço, não rebuliço! Já agora, tender. Em português e em inglês - conta como duas?

Estas três parecem quatro, mas são mesmo três, acredita: pinguim .................................
amarrar..............anda-cá



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

"De uma forma geral, sou sempre sensível ao humor. É uma questão de inteligência. Alguém que não tem humor é parvo, acabou. Só um parvo acha que a vida é infinita. É preciso ser inteligente para perceber que a vida já é penosa, que é muito curta, portanto se ainda por cima não nos rimos, é a merda. Portanto, a falta de humor é uma prova de estupidez. O humor é o mais alto grau de compreensão de outra pessoa. Choramos sozinhos, mas para rir, a não ser que sejamos loucos, é preciso sermos dois. É algo de comunicativo. ... o humor é uma forma muito bonita e respeitosa de falar das coisas."

(Marjane Satrapi entrevistada no Ípsilon, Público de hoje. O Reboliço lê e vai sorrindo: "Chorar sozinho? Era o que faltava!" Além disso, interroga-se sobre se, no original - a entrevista foi conduzida em francês -, "bonita" teria sido "belle".)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Render do olhar


Sai este:


Entra este:

(Fotos: Reboliço, de cabecinha à banda a ver se ficou torto o "OVER" na parede.
E indeciso sobre onde há-de pendurar agora o da rosa.)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

(Foto: Reboliço na Praia das Maçãs, a pensar se haverá quem leia nos sulcos que a água deixa na areia a chuva que cai dois dias depois.)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

(Para o Isaías)

.....Chegou à plataforma. O ar arrefecera e apertava o casaco mais contra a lã da blusa única que vestira. Valia-lhe que não bulia vento. Estariam umas quatro pessoas, além de si mesma, à espera. Sentada num dos bancos, uma mulher jovem tentava ler o jornal à luz fraca que vinha do interior da sala das bilheteiras, um edifício que, por estranho que parecesse e por mais que frequentasse a estação em horas diferentes, jamais vira de portas abertas. Dentro, nos anúncios luminosos corriam as letras de manhã à noite. Os candeeiros nunca se apagavam. Os relógios funcionavam e estavam certos. Apesar disso, a sala de espera, assim como o espaço por trás dos guichets das bilheteiras, não tinham ninguém. Um vazio iluminado, aquele lugar. A plataforma, pelo contrário, o lugar habitado, quase não tinha luz. Duas lâmpadas davam a pouca claridade ao chão cinzento e às costas escurecidas dos bancos de madeira corridos. A mulher lia o jornal, sentada ao lado de uma bicicleta, enquanto o filho dava gargalhadas estridentes ao colo do pai, que lhe fazia cócegas e vozes divertidas. Nem por uma vez, das muitas em que o homem se chegou demasiado à faixa amarela de segurança, a um pé do fosso da linha, a mulher fez um gesto sequer de verificar que o filho não corria perigo. Chegou a pensar que não seria a mãe, mas as fisionomias eram claras; a mulher confiava.
.....Afastou-se um pouco de onde estava para deixar passar um rapaz com outra bicicleta, cujo cadeado acabara de libertar. No momento em que descia o túnel, a pé ao lado da bicicleta, subia pelo mesmo caminho um casal: ambos vestidos de negro, fato e vestido elegantes. Entraram na plataforma a dançar e, por um momento, imaginou que se ouvia alguma música a que não prestara atenção. Mas não havia música naquela plataforma, apenas a dança das duas figuras, encantadas no final de um jantar enamorado, que se entregavam ao silencioso arrefecimento dos minutos. Olhava para as silhuetas quase imóveis quando deu pelo homem, o mendigo veterano que costumava ver todas as manhãs e que agora lhe estendia a tampa de uma garrafa cheia de um whiskey qualquer. - Brindamos? - "Brindamos," concordou em pensamento. Afinal, era a noite de catorze de Fevereiro. E quase, quase Carnaval.

(Foto: Reboliço, a medir pela antena a esquadria da estátua com a ponte.)

Imagens e palavras

Há alguns blogues que visito de raro em raro tempo e que muito gosto me dá, acima de tudo, ver. Dei hoje com a porta do "E Deus Criou a Mulher" encostada - do lado de dentro, uma mão pesada quase a encerrava e alertava-me para o perigo de "conteúdo reprovável." Empurrei com mais força a dita, "Compreendo e desejo continuar," e entrei. Como sempre, para gostar de ver - mas desta vez também para gostar de ler. O desagravo do autor do blogue levou-me a visitar outro, onde encontrei poemas ecfrásticos (ui, palavrinha arredia...), entre outra poesia*. Deixo linkado este último, agora descoberto, e o de belíssimo conteúdo, para corrigir a reprovável falta de o ter na lista aqui da direita.
(*ADENDA de clarificação, depois de ler o comentário do Rui.)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Liberdade exegética

....."A Agustina Bessa-Luís pôs na boca da personagem Fanny Owen [...], durante um baile, esta afirmação: 'A alma é um vício.' Com este dito, o que teria ela querido expressar? Verdade é que eu, para mim, não atinava. Porém, soava-me bem ao ouvido. E, sem conseguir um significado plausível, a minha curiosidade não se detinha. Apesar de ninguém me explicar esta insólita afirmação, sem eu próprio lhe encontrar razão de ser, ficou-me tal dito latente até hoje. Cheguei mesmo a perguntar à própria Agustina por que razão teria ela posto na boca da Francisca tal afirmação. E que significado poderia ter. Mas a Agustina declarou-me candidamente 'Não sei. Foi coisa que me saiu ao escrever. Que se me soltou.'
.....Continuei desolado, porque o dito me tocava e me despertava uma forte curiosidade. Até que, ultimamente, me ocorreu uma certa ideia que me parecia ajustar-se a esse dizer 'A alma é um vício.' O que é que então me ocorreu? Justamente, o vício. Porque ele mesmo, pela sua característica de ser vício, dum corpo que, uma vez possuído, só com enorme dificuldade esse mesmo corpo se liberta dele. Ora, quando a personagem Francisca diz 'A alma é um vício,' teria a Agustina inconscientemente querido dizer que o corpo enquanto vivo jamais se liberta da sua própria alma. Numa tentativa de compreensão, tombei finalmente nesta ideia: o vício caracteriza-se por ser algo de que o corpo, uma vez possuído por ele, só muito dificilmente dele, vício, se liberta. E assim, de conclusão em conclusão, acabei por chegar a esta ideia peregrina: a de que a alma é a rainha dos vícios. Será assim? Mais: assim sendo, tal como agora me estou a perguntar, e dada a consciência constitutiva do dito vício, não será então que o meu cinema é o vício da minha alma?"
(Manoel de Oliveira, 15 de Janeiro de 2008. Relembrado ontem e transcrito daqui, a propósito cá de coisas.)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Um quadro "agressivo"

Está o Reboliço zonzo de viagens e recebe mensagem do querido amigo que faz desenhos e imagens lindos. "Terminei o teu quadro e quero entregar-to."
- Acho que não vais gostar, é um bocadinho agressivo demais.
- Otelo, foste tu quem o fez: que agressão poderá haver num quadro teu, num quadro que ofereces por amizade? A dos teus dias solitários, da tua raiva nos pincéis? Não a diriges a ninguém que o veja. É o bom que têm os quadros: a gente rasga, risca, fura, enche de cor, apaga, fere... e o final é sempre um retrato silencioso, uma matéria quieta a querer ser olhada. Chama com mais ou menos força o olhar, mas, por si, não o violenta. Dá-mo cá e toma lá uma patadinha.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Fala Pascoaes ao Reboliço:
"O narcisismo é caso grave, Reboliço; é o sentimento da nossa própria divindade. Só mais tarde abdicamos dela, trasladamo-la para Outrem... É quando desconfiamos da nossa pessoa muito adâmica e a entremostrar a cauda... Mas não abdicamos da nossa primazia ou do nosso egoísmo imperativo. Primeiro está o indivíduo ou o instinto alimentar, e, enfim, o sexual ou colectivo - o complexo de Lúculo e o de Édipo... O instinto alimentar, com todas as aberrações alcoólicas e gastronómicas, predomina até certa idade. Depois, é o lupanar e a sífilis, o casamento e o aborrecimento. Depois, são horas de dormir."*

Fala o Reboliço a Pascoaes:
- Se tal dizes da tua raça, Joaquim, não serei quem te desdiz. Horas de dormir, para mim - e como sabes - têm o ar do sagrado. Mas antes de recolher pergunto-me se essa cauda muito adâmica (tão adâmica, afinal, que te faz suspeitar de ti mesmo) que entremostras, essa cauda de demoniozinho egoísta, saberá fazer como a minha e abanar de felicidade por um passeio entre as azedas que agora enfeitam os montes. Livrava-te de algumas amarguras uma festa assim - mas entendo que te desse menos o que escrever... Não se poderá ter nunca tudo? Ora boa noite!...

(*Teixeira de Pascoaes, "Duplo Passeio," 1942; Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, Introdução e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, X volume, IV da prosa, Lisboa, Bertrand, 1975, p. 141.)