sábado, 31 de maio de 2008

A propósito de moinhos holandeses

The image “http://www.metmuseum.org/toah/images/h2/h2_41.1.12.jpg” cannot be displayed, because it contains errors.
(O Moinho, 1641; Rembrandt Harmensz. van Rijn; gravura.
Oferta de Felix M. Warburg e família ao
Museu Metropolitan de Nova Iorque em 12 de Janeiro de 1941)

A propósito de moinhos holandeses

The image “http://www.metmuseum.org/toah/images/h2/h2_41.1.12.jpg” cannot be displayed, because it contains errors.

(O Moinho, 1641; Rembrandt Harmensz. van Rijn; gravura.

Oferta de Felix M. Warburg e família ao
Museu Metropolitan de Nova Iorque em 12 de Janeiro de 1941)

Moinhos na poesia (13)

(É o segundo poema consecutivo nesta série em que os moinhos são da Holanda. O avô mantinha na casa do moinho, e mesmo sobre as paredes do moinho nos tempos em que já deixara de moer, calendários que lhe enviavam turistas holandeses quando regressavam às suas terras. Tinham passado ali, conversado longamente sobre as moendas, diferenças e semelhanças e, chegados a casa, metiam nuns grandes envelopes os tais calendários: doze fotografias muito límpidas das velas de madeira, dos prados cheios de flores ou erva muito verde atrás, dos canais ali à beira. Passava o ano do calendário e ele ficava na parede, até o papel, lustroso e forte, se amarelar e enrolar nas pontas.)

...................."uma paisagem da holanda"

....................Há, em todos os poemas de Pessoa, uma paisagem
....................da Holanda. As vacas pastam nos campos; e os moinhos
....................de Delft rodam sobre elas, como asas, fazendo-as
....................voar ao longo dos diques. Mas não chega meter
....................uma vaca no centro do poema, nem espremê-la para que
....................o seu leite se derrame nos aventais das holandesas
....................de Vermeer, ajoelhadas para escaparem ao refelxo no
....................espelho da janela. É preciso pôr rodas nas vacas,
....................e empurrá-las, como bicicletas, ao longo dos canais
....................de Amsterdão. "Por que não montas na tua vaca?"
....................perguntam os barqueiros. E só para os irritar salto
....................para cima dela, agarro nos chifres, como se
....................fossem um guiador, e viro-a para a direita e para
....................a esquerda, empurrando os vendedores de queijo
....................flamengo para o rio, onde as bolas de queijo se
....................transformam em bóias a que eles se agarram,
....................flutuando durante horas. O problema é quando
....................a fome os obriga a comer o queijo; e quanto menos
....................queijo têm, mais se afundam, até se afogarem,
....................sob o olhar melancólico das vacas do Pessoa.

...........................(Nuno Júdice, revista Egoísta, número especial, Junho 2008, contracapa.)

terça-feira, 27 de maio de 2008

Sydney Pollack.

Não é costume aparecerem aqui obituários. Nem isto é um. A quem passar, remeto para a excelente peça que o NYTimes tem online. Na primeira foto vejo aquilo que associo a Pollack: um jovem sorriso genuíno, um olhar maravilhado e complexo. Atrás dos inevitáveis óculos de lentes grossas.

Sentir e pensar

"Aquela estátua, a tantos metros de distância, é apenas um bloco de mármore. E se eu fechar os olhos e a tocar, a Vénus de Milo ficará reduzida a uma pura resistência fria, a uma espécie de impenetrabilidade ou limite. A sensação do tacto é de limite, de não mais além, um alto lá! gritado pelos penedos, que se erguem, diante de nós, na posse absoluta do seu vulto. [...] Em nosso olhar, todas as resistências se iluminam e se esculpem, numa colecção de fisionomias. O indefinido do tacto define-se na visão. Esta é intelectual, como aquele sensorial. A emoção vem da pancada; a ideia é de origem luminosa"
***
"Vemos como se ouvíssemos, e pensamos como se sentíssemos. A sensação obscurece-nos o raciocínio, e o raciocínio adultera a sensação. [...] O grande erro é este: os nossos sentimentos misturarem-se aos nossos pensamentos, que perdem a serenidade e a lucidez."

(Primeiro excerto: O Homem Universal [1937], p.42 da edição da Assírio & Alvim; segundo excerto: O Penitente (Camilo Castelo Branco) [1942], p. 131 da edição da Assírio & Alvim. Desenho de Teixeira de Pascoaes, sem data, com a inscrição "O morto e o seu fantasma"; foto do desenho [mazinha, com reflexo de vidro e bocado de moldura]: Reboliço.)

domingo, 25 de maio de 2008

Moinhos na poesia (12)

............................2.

De Rembrandt a Van Gogh a tinta és tu
Em rosa de bateira e sol de vinho.
O tempo fez-se-me fome,
Mas levantas os braços - e é o moinho.

Como a corça na Haia plo rebento
E a ponte levadiça,
Vais em maneira, amor e movimento,
Vela da tarde, dique do meu sangue:
Afinal só um pouco de mulher
Que a palavra detém e águas cultivam.

Graça do vento em céus inesperados,
Gaivota és para mim que nasci delas;
No milagre de sermos encontrados
Já de Amesterdão são nossas as janelas.

Taça a taça trocámos anéis áureos
De vinho português sobre holandilha:
Quem via - como saber
Se era braço de noivo ou mão de filha?

Mas sempre tinta à tarde! Eras a Lua
Que em foice adestra os calmos céus dos pôlders:
Eu ceifava a manhã nos teus cabelos,
Contava-os um a um,canal abaixo,
E, deitado nos verbos que te evocam,
Feliz com um pintor que vende pouco,
Era holandês por ti...

Que, bem pensando,
O que eu cá sou, céus de Van Gogh, é louco!
29.1.1963

(Vitorino Nemésio, "Andamento Holandês", Obras Completas, Vol. II - Poesia, INCM, Lisboa, 1989, pp. 378-379.)

sábado, 24 de maio de 2008

"no voice can hope to hum"

Tenho cinco canções de Dylan para escolher uma que lhe oferecesse de parabéns. A primeira chama-se "It Ain' Me, Babe". A segunda, "Positively 4th Street". A terceira, deixa ver, será "Baby, Let Me Follow You Down". A penúltima, "I'll Be Your Baby Tonight". A quinta, "I'll Keep It With Mine". Ouço-as, uma a uma ("Estás a ouvir?"): afinal, são prendas para mim. Não estás cansado, pois não, Bob?
Descubro, através do The Kitchn, esta maravilhosa receita de bolo de cenoura. Aparece em grafitti numa rua que venho a saber ser de Helsínquia. (Aonde me levam estes passeios...)

The image “http://farm1.static.flickr.com/202/507626404_ac5d77cf35.jpg” cannot be displayed, because it contains errors.
(Foto: daqui.
Em finlandês, "bolo de cenoura" seria
qualquer coisa como "porkkanakakku".
Mais uma versão do bolo
neste sítio de receitas em finlandês.)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

"It's poetry."

É a frase que fecha este excerto de entrevista de Rauschenberg (que descobri por aqui).

terça-feira, 13 de maio de 2008

Rauschenberg

Robert Rauschenberg morreu hoje (ontem, em NYC).
(Esta manhã assisti a uma aula sobre Ulysses e Hamlet; à falta de bloco de papel, tomei notas em três dos postais que trouxera de Serralves, quando visitei a sua exposição. No final ofereci-os a quem me emprestara o livro para seguir a aula.)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

- Luca, Petaner!, venham cá depressa! - ladra o Sorna do fundo do seu quintal. Os outros dois aparecem esbaforidos do canto da alfarrobeira:
- O que foi? O que é, Sorna?
- São os donos. Estão de volta e trazem um cesto pequenino. Vão lá vocês ver o que traz dentro, vão já e digam-me.
- Está bem, espera aí. E pára de ladrar, ainda te engasgas!
(...)
- Já vimos!, já vimos!!! - O Petaner repete com latidos roucos. - Já vimos!!!
- E o que é, então?
- É o dono novo, meio metro de gente, encolhido no cesto. Dizem os donos velhos que agora estamos proibidos de entrar na casa.
- Grande novidade: a mim nunca me lá deixaram ir.
- Ah, mas agora é por conta do doninho novo. Eu nem me aborreço. Assento o rabo no xisto do lado de cá do vidro e passo o dia a vê-los, para cá e para lá, aquece biberão, tira fralda, engana a insónia, olha para o relógio.
- Estou mesmo a ver-te, Luca. Tu? Sossegada mais do que um minuto a olhar pela janela?...
O Reboliço ouve-lhes as conversas e vai ele, muito discreto, pôr-se de guarda à porta. Encosta-se bem à ombreira: não quer apanhar as gotas poucas de chuva que agora começaram a cair.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

A Europa como rainha, c'est ça?

Ora aqui está um novo link. Para "mapas estranhos."

(Mapa antropomórfico da Europa, feito em Basileia
em
1570 pelo cartógrafo Sebastian Munster.)

(Hey, gostei de ouvir isto.)

[E agora, um ano depois de ter escrito este post, sei lá que cantiga era...]

O opúsculo mais recente da Dafne...

... é do Mano!!! Chama-se O Suporte da Moral Difusa e é desembarcável aqui.
(Para o catálogo com todos os opúsculos vai-se por aqui.)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

(Foto: "M" de "sobrinho", por Reboliço.)

Meu sobrinho:
Fartei-me de andar à procura de coisas importantes que tenham acontecido neste dia. Que morreu Napoleão, que nasceram Marx e Kierkegaard, mais dois reis portugueses, que se fundaram Academias de Artes e se fizeram testes nucleares, que Gandhi foi libertado, que o Sol, Mercúrio, Vénus, Marte e Júpiter estiveram em conjunção... São todas coisas importantes, ser pequenino, e nada, à vista do que és e do que serás.

domingo, 4 de maio de 2008

"Some journeys cannot be put into words."

(Foto: Reboliço)

Se digo em voz alta as coisas em que penso, deixo de poder escrevê-las. É melhor que feche a boca e escreva. Se, quando ler o que escrevi, não me parecerem bons pensamentos, terei ainda a satisfação de saber que não as disse em voz alta, que ninguém fora de mim as soube ou foi por elas ferido.
É no que penso enquanto leio, muito devagar, O Penitente. Leio devagar porque em cada parágrafo me maravilho da fuga de Pascoaes ao seu biografado, Camilo Castelo Branco. Da fuga de Pascoaes ao Camilo homem, para (re)encontrar o Camilo Alma. Leio devagar também porque fujo eu dos parágrafos e me ponho a olhar para lá do granito que me suspende numa varanda, junto ao quarto onde dormiu Teixeira de Pascoaes. Leio que Camilo deve ter atravessado o Marão “montado numa azémola, fustigada de relâmpagos, excitada a urros de trovão, como se a montasse o próprio Júpiter” – e fujo para a serra à minha frente, abro os olhos a procurar nela os trovões, o céu fendido de raios, o medo na mula, Camilo afoito e Pascoaes sentado à janela a partilhar com um tecto de vidro e o tecto do mundo a energia da trovoada. Sigo e paro de novo, quando o Marão é Camilo que Pascoaes diz que o encontra, “escultura em bronze da mesma tempestade.”

quinta-feira, 1 de maio de 2008

É o Maio, Reboliço.

"Hum...," pensa o Reboliço. "Condiz. Está tudo verdinho." Antes de subir o sol, atacara o Maio com uma dentada numa laranja verde-espanha. Depois ficara ainda a matutar: este seria o mês do nascimento do primeiro sobrinho. Prestes, prestes.