sábado, 28 de junho de 2008

A "bulldogueira"

(Foto: Reboliço, com autorização do dono do veículo
e muita pena por se dar conta de que,
da carrinha branca, se calhar já nem fotografias existem.)


No passeio da tarde, à hora de maior calor, o Reboliço deu de focinho com isto, uma sósia da Citröen H a que a gente chamava "bulldogueira", por razões muito aparentes se se olhar bem para a frente da bicha. Lembrou-se logo da Carolina, a gata vesga que ia de férias com a família ali dentro. De dia, durante as viagens, andava inquieta. Assim que se parava, para comer ou para dormir (e a carrinha estava muitíssimo bem preparada para ambas as coisas, à conta de muita carpintaria do pai na oficina do Sr Bota), lá se escapulia a Carolina: zarpava para o primeiro tronco de árvore que via e, naquelas quatro elegantes patas de gata siamesa, agarrava-se, punha as orelhas para trás e ficava assim um bocado, como se fosse esquilo ou macaco voador a meio de um salto. A carrinha, branca, ria-se.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Malta, atenção!

Isto hoje é um fartote: no destaque à iniciativa Allgarve, das páginas 8 a 12 do "Ípsilon", tirando o retrato de João Fernandes (entrevistado por Óscar Faria), é tudo bonecos do Cunhadão. Allgarve ou Nothingarve, a mim dá-me gozo é ver o bom trabalho dele ali à vista de muita gente. Ah, e as Vespas junto ao Palácio da Fonte da Pipa, que me vão fazer visitar o sítio pela terceira vez na vida.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

A calma

Nos dias de Verão como tem estado, na aldeia do Reboliço era costume fechar-se a mercearia a meio da manhã. Não se cumpria nenhum horário antes estabelecido; fechava-se porque toda a actividade humana e animal se suspendia. Por conta do calor. Começava a ouvir-se com mais nitidez os passos de quem quer que fosse na rua, era possível contar as moscas só pelo zumbido que faziam e, se assomássemos ao postigo, viam-se as ondas do ar pesado a distorcer a imagem das fachadas das casas em frente, do outro lado do largo. Fechada a porta, que desde umas horas antes já era só uma nesguinha mal aberta a projectar nos ladrilhos cor de vinho a tira cegante a luz, ia-se ao quintal encher o balde de água - às vezes o metal da torneira queimava - e espalhava-se com a esfregona pelo corredor, refrescando todos os quartos, a despensa e as cozinhas à passagem. Era a calma. Não se podia estar.
***
Quando comecei a aprender matemática, lembro-me de o meu pai, em casa, ler comigo os exercícios que a D. Antónia tinha mandado fazer. Quase sempre os dois em pé, no meio da cozinha. Depois desses, em que eu por norma já estava versada e a que respondia com acerto, colocava-me perante outros, semelhantes mas novos, a testar-me. As primeiras respostas, com o entusiasmo de responder e a confiança de ter acertado nos problemas "oficiais", dava-as apressada e afoitamente; queria despachar o assunto e ir brincar, ou o que fosse. Mas, nas mais das vezes, errava a resposta. Ao fim de duas ou três tentativas goradas, o meu pai punha-me a mão em cima do ombro, de frente para mim, e apertava um bocadinho, mal uma pressão. Dizia-me: "Não podes responder à pressa, tens de ter calma e pensar." Sempre associei o ter calma à segurança daquela mão sobre o meu ombro. E ainda hoje, quando me precipito nalguma resposta, lhe sinto a falta. (Segreda-me o Reboliço que é assim aprender: criar a partir de nós a força de uma mão que não aperta desde fora.)

quinta-feira, 19 de junho de 2008

À Adélia, à Adriana, ao António, ao Carlos, à Helena, à Hélia, à Joana, ao Paulo (e também ao Nuno, mesmo assim...)



............................The trail is dark and dusty
............................The road is kind' o' rough,
............................But the good road is a-waitin'
............................And boys it ain't far off.
............................Trails of troubles,
............................Roads of battles,
............................Paths of victory,
........................ ...We shall walk.
............................I walked down to the valley,
............................I turned my head up high.
............................I seen that silver linin'
. ..........................That was hangin' in the sky.
............................Trails of troubles,
............................Roads of battles,
.. .........................Paths of victory,
............................We shall walk.
............................The evenin' dusk was rollin',
............................I was walking down the track.
............................There was a one-way wind a-blowin'
............................It was blowin' at my back.
............................Trails of troubles,
............................Roads of battles,
............................Paths of victory,
.... .......................We shall walk.
............................The gravel road is bumpy,
............................It's a hard ol'road to ride,
............................But the clearer road is yonder
............................With the cinders on the side.
............................Trails of troubles,
............................Roads of battles,
. ..........................Paths of victory,
............................We shall walk.
............................
The mornin' train was movin',
.. .........................The hummin' of its wheels,
............................Told me of a new day
............................Comin' across the fields.
............................
Trails of troubles,
............................Roads of battles,
............................Paths of victory,
............................We shall walk.......................................................(Bob Dylan, 1964)

Havereis de seguir os trilhos de muitas vitórias. Sois os melhores.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Tiveste um gato chamado Gabriel, não foi?

O meu amigo maravilhoso Otelo fabuloso ofereceu-me uma música. E eu lembrei-me, a ouvi-la, da ternura com que o via fazer festas na cabecinha do Gabriel (e havia outro, não havia?), logo quando nos conhecemos. E não sei fazer as contas bem ao tempo, mas parece que o conheço há uns sete mil e vinte nove anos (é capaz de ser, mais coisa menos coisa, não achas?). Obrigada.

terça-feira, 17 de junho de 2008

O melhor de muitos mundos

A página web da National Gallery de Londres é portentosa. Uma das possibilidades que oferece é o zoom nas obras de destaque ("highlights") da colecção. É aqui, uma alegria.

(Foto: Reboliço mesmo antes de entrar para a LNG, a cauda quase a desenroscar-se, com a antecipação.)

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Para arquivo

O João Espinho faz fotos do moinho de lugares de onde o Reboliço nunca o viu. Do ar, por exemplo, como a que tem no Praça da República.

terça-feira, 10 de junho de 2008

art faith flux

[buda.jpg]
Buddha on the moon, 1999
Leather, paper, glue, metal nail, acrylic paint on canvas over wood
17x17 cm
Private collection Portugal


O Otelo passa a ter as suas obras em linha através de um blogue. Reproduções e descrições da pintura aqui. Continua também na Saatchi.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Solene ocasião

Fala o bar: "Agradeço a quantos me apoiaram a existência, me deram alento para continuar, de pé, no meu canto destinado. Agradeço aos que alguma vez me elogiaram, me fizeram festas, se olharam aos meus espelhos. A quantos livros, garrafas, bibelots, pousaram nas minhas estantes, obrigada. Não sei para onde irei e ouço rumores de que um contentor de metal ou uma fogueira me esperam. Tremo de pensar, mas, nesse tremor, nenhum parafuso meu se desloca. Afinal, sou móvel de canto, espelhado, e cheio de orgulho."

(Foto: Reboliço, a pensar "Sim, sim, abelha. A maravilha é que me livrei de ti. Ora adeus!")

sexta-feira, 6 de junho de 2008

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Os sabujos

Há coisa de dois meses ou menos terminou uma fase da minha vida. Caracterizava-se pela busca permanente - silenciosa, mas permanente - de um livro que lera, em volume emprestado, por volta de 1996 e que nunca encontrara à venda para levar para casa e ler quando me desse vontade. Na Esquina, livraria de alfarrábio no Porto, entrei uma manhã alegre e corri a ver se havia livros do Aquilino Ribeiro: havia, uma fileira longa a ocupar mais de uma das tábuas da estante. Pus os dedos sobre as lombadas, a cabeça mal um bocadinho torcida para ler o que estava ao alto, e foi-se-me conformando o pensamento de "não, nem aqui o verei...", à medida que passavam os segundos e as lombadas. Até que um dedo pousou sobre uma das mais gastas - tão gasta pelo sol, comida da luz, que do título não se via nada. Céptica, a primeira ideia foi "só faltava que fosse... Mais nada querias, não?" Por teima, só por teima comigo, saquei da prateleira o volume. E li na capa, de surpresa cortada pelo jogo da expectativa, Andam Faunos Pelos Bosques. Por baixo, em letra mais pequena e amarela, Romance.

Hoje peguei-lhe de novo um instante (pois sou incapaz de o acometer de uma leva, de lhe esgotar num fôlego as páginas; gozado e terminado o jogo da procura, é como se quisesse, afinal, continuar nele por força de não chegar ao fim da leitura) e parei num pedacinho de parágrafo onde copulam os cães dos pastores com dois podengos da aldeia por onde passam:

"Já os sabujos, circunspectos uns, pisamansinho outros, desfrutavam na Farrusca do tio Olaia e no Kaiser do Cirilo Tendeiro, ela amolecida, mas airosa, êle muito triste e encaramonado, o cómico e nauseabundo enliçamento a que a natureza obriga os cães. À beira dos muros estendiam-se, da côr da lousa, longuíssimos panos de sombra."
(p.14 da 4ª edição da Bertrand)

Fiquei a pasmar, não do espectáculo dos cães mas do estendal ensombrado na pedra dos muros.

domingo, 1 de junho de 2008

Dia Mundial da Criancinha

Se o meu sobrinho já lesse, oferecia-lhe hoje um livro do Petzi. Para o gajo aprender a comer panquecas.