Mostrar mensagens com a etiqueta Aquilino Ribeiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Aquilino Ribeiro. Mostrar todas as mensagens
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
quinta-feira, 17 de agosto de 2017
"glebas floridas"
Ainda não integra o Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental (que, pensa o Reboliço, deveria deixar cair já já o "Continental" para aceitar, almenos, os lugares de Nemésio), mas lá irá parar, seguramente. Enquanto não, zune - zune nas orelhas do Reboliço como o zumbido reconfortante do histórico, sempiterno estio.
Neste sertão tão pouco espectacular e desolado da serra da Nave, uns homens raros e temerários vieram um dia com os seus tractores, os seus catterpillers Diesel, as suas charruas e grades de discos. E, muito provavelmente a primeira vez depois que o Mundo é Mundo, lavraram o solo adusto, o solo baço, não caldeado do suor do homem, numa longa área, onde apenas de Inverno se ouviam os lobos uivar de altinho para altinho a combinar a sua táctica de bandoleiros, e nas noites de luar as lebres dançavam nas panasqueiras.As aldeias serranas Alvite, Carapito, Aris, Semitela deitaram às gargalhadas. Por pouco não se ouviam os ecos dos valeiros repercutir o riso sardónico, o riso alvar das mandíbulas desdenhosas. Ali batatas!? Esse manjar que vai à mesa dos reis, tão adstringente e nutritivo, tão democrático mas delicado, poderia produzir-se no meio das fragas onde só medra a sarça e o tojo alvarinho?!E, ó milagre, os tubérculos maravilhosos germinaram, deitaram para fora do solo inóspito suas orelhinhas de gato, que só o não parecem de todo pelo belo tom esmeraldino, retoiçaram, altearam-se e, em regos simétricos nas longas vessadas, deram a impressão das vagas de um mar roleiro soprado pelo velho amigo Bóreas. Aos cépticos inteligentes foi dado o prazer inefável de contemplar uma destas glebas floridas. A polvilhação branca por cima do verde compacto tinha o seu quê de bucólica muito original e intraduzível, miríades de borboletas pairando por cima dum lago, ou uma neve irisada e fátua a derreter ao Sol.
Aquilino Ribeiro (1954), Introdução a O Homem da Nave, Bertrand Editores, 2017, p. 15.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Os sabujos
Há coisa de dois meses ou menos terminou uma fase da minha vida. Caracterizava-se pela busca permanente - silenciosa, mas permanente - de um livro que lera, em volume emprestado, por volta de 1996 e que nunca encontrara à venda para levar para casa e ler quando me desse vontade. Na Esquina, livraria de alfarrábio no Porto, entrei uma manhã alegre e corri a ver se havia livros do Aquilino Ribeiro: havia, uma fileira longa a ocupar mais de uma das tábuas da estante. Pus os dedos sobre as lombadas, a cabeça mal um bocadinho torcida para ler o que estava ao alto, e foi-se-me conformando o pensamento de "não, nem aqui o verei...", à medida que passavam os segundos e as lombadas. Até que um dedo pousou sobre uma das mais gastas - tão gasta pelo sol, comida da luz, que do título não se via nada. Céptica, a primeira ideia foi "só faltava que fosse... Mais nada querias, não?" Por teima, só por teima comigo, saquei da prateleira o volume. E li na capa, de surpresa cortada pelo jogo da expectativa, Andam Faunos Pelos Bosques. Por baixo, em letra mais pequena e amarela, Romance.
Hoje peguei-lhe de novo um instante (pois sou incapaz de o acometer de uma leva, de lhe esgotar num fôlego as páginas; gozado e terminado o jogo da procura, é como se quisesse, afinal, continuar nele por força de não chegar ao fim da leitura) e parei num pedacinho de parágrafo onde copulam os cães dos pastores com dois podengos da aldeia por onde passam:
"Já os sabujos, circunspectos uns, pisamansinho outros, desfrutavam na Farrusca do tio Olaia e no Kaiser do Cirilo Tendeiro, ela amolecida, mas airosa, êle muito triste e encaramonado, o cómico e nauseabundo enliçamento a que a natureza obriga os cães. À beira dos muros estendiam-se, da côr da lousa, longuíssimos panos de sombra."
(p.14 da 4ª edição da Bertrand)
(p.14 da 4ª edição da Bertrand)
Fiquei a pasmar, não do espectáculo dos cães mas do estendal ensombrado na pedra dos muros.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

