Mostrar mensagens com a etiqueta José Miguel Silva. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Miguel Silva. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 3 de maio de 2018

MUSA, SINCERAMENTE

Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.
Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,
aguados humoristas e demais fomentadores
de pestilência moral? Que valor pode ter
uma metáfora sem preço, por brilhante
que seja, neste mundo de sementes apagadas
em lameiros de cimento? Tu não vês
o telejornal, Musa? Nunca ouviste falar
da impermeabilização dos solos na cidade
de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?
Pensas que estás no século XIX? Mais,
julgas-te capaz de competir com traficantes
de desejos, decibéis e abraços? És capaz
de fazer rir um desempregado, de excitar
um espírito impotente? Consegues marcar
golos geniais como o Ricardo Quaresma,
proteger do frio as andorinhas, ir buscar
as crianças à escola? Se achas que sim,
faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.
Mas não contes comigo para te levar à praia.
Sabes perfeitamente que detesto areia, sol
na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.
Pela parte que me toca, ficamos por aqui.
(José Miguel Silva, Últimos Poemas, Averno, 2017, p. 21.
Muito bem lembrado pela Inês e lembrando ao Reboliço versos da Rita Ann Higgins.)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

"A dog's life - Charlie Chaplin (1919)"

1.
Charlie Chaplin, nosso Deus e Senhor, criador de todos
os gags, vendo a nossa rigidez, a nossa militância
nas fileiras do orgulho, enviou-nos o Seu Filho bem
amado, a fim de nos salvar da parvoíce, libertar-nos
da empáfia, pondo à prova a nossa agilidade,
a nossa paciência. Servindo-se de gestos, de cinéticos
enredos, quase sem palavras, Charlot desceu à terra
e pregou pelo exemplo. Assumindo mil disfarces
e parábolas, perseguiu-nos com amor, padeceu no surdo
gelo da nossa indiferença, mostrou-nos com que modos
se suportam os maus tratos, instou-nos a romper
com o barril das enteléquias. Não é um deus de amor,
mas de conflito, o nosso Charlie. Por isso é que
Seu Filho nos soterra sob sacos de centeio, nos derruba
de escadotes, nos atira com tijolos e com tartes,
ananases aguçados; por isso nos abate com tábuas e
martelos, ou nos bole com os nervos nas portas giratórias
dos hotéis. Charlie sabe como a dor nos acrescenta,
sobrepondo novos pisos à morada interior, elevando
o sentimento à dimensão da piedade. Por isso é que
Seu Filho veio a nós, neste século de trevas, disfarçado
de ninguém e decido a instalar a confusão por onde
passa. Pois só da confusão pode nascer a liberdade.


2.
Sabei que Charlot, o nosso Salvador, abomina
sobretudo a servidão. Um só mandamento
exprime a sua doutrina: Não te prendas ao pesado.
Que significa, Não te prendas ao pesado?
Significa: Aceita a mudança e livra-te
de converter em velório o festival dos acidentes.
A vida é uma torrente de oportunidades: moeda
no chão, cigana bonita, perna de presunto,
um par de patins. Atentem nestes exemplos,
concedidos pelo nosso Salvador, e compreendam
que não é nos grandes mas nos pequenos lances
que a vida se joga e se transforma e retribui.
A desmesura é o pecado dos pacóvios.
Se o almoço te trouxe meias-solas, alegra-te
primeiro porque não as roubaste a um mais pobre
do que tu; alegra-te segundo porque foram
de graça, e só o que é de graça tem autêntico
sabor; alegra-te terceiro porque a tarde está de sol,
ou de chuva ou de neve, e nada é importante,
nada é decisivo. Neste circo dos graves,
neste palco rotativo, ri melhor quem ri a fundo
e por mais tempo. Até que a morte, de bigodes
retorcidos, nos apanhe e nos aparte do sorriso,
nos expulse do vestíbulo, nos corra a pontapé,
nos desfaça na cabeça o violino.
(José Miguel Silva, 2005. Achado nos Achaques, inédito fora da rede. Obrigada, JMS.)

segunda-feira, 21 de março de 2011

3.

Não sei que horas são no teu relógio.
No meu é cedo/tarde - está parado
vai fazer uns vinte anos. Não importa,
pois as coisas vão e vêm, e de novo

se levanta o mês de Março nesta era
da ironia, com seus truques estafados
e promessas desfolhantes. Juntamente,
tudo passa e tudo volta, mas diverso.

Só por isso, justamente, tem piada
estar aqui, abrir os olhos, conferir
ainda e sempre, na vitrina da manhã,
a produção da Primavera.
(José Miguel Silva, Erros Individuais, 2010, p. 13.)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Moinhos na Poesia (32)

CORREIO AZUL

Caro amigo, fazes bem em desertar
desta guerra de postiços ideais,
onde o trigo é disputado por moinhos
desleais. De que vale o esconjuro
de um esgar, face ao íntimo perigo
que este curso de poeira representa?
É melhor guardar distância desses fumos,
sob o risco de perder um património
de perguntas inquietas, de deslumbres,
no contágio com a lepra dos canalhas.

Prometeram-nos os livros cedo lidos
um jardim de solitários reunidos
sob a força de palavras acendidas;
um lugar além do mundo, onde as farpas,
as escarpas, os gorazes, os algozes,
não teriam padroeiro nem mercado
pra vender o vasilhame de batidos
elixires, cujo gás lhes alivia
não sabemos que negócios intestinos.

Custa muito, no final, abrir os olhos
face ao foco da verdade: este charco
dos letrados não difere do paul
onde Dédalos estudam, mandatários
do betão, dos piratas mais felizes.
Uma furna de lacraus, onde tudo
se resume à traficância
de postais de boa-morte, à gerência
dos gemidos, a galantes vernissages
e bebidos mecenatos, ao pecado
de servir a mais senhores.

É ver quem mais se move a reunir
sua tropa de palavras mercenárias,
à conquista de colinas de dejectos
em Paris e Nova Iorque levantadas,
em Atenas, em Uruk, Jericó,
em qualquer sub-instituto de lusófonos
pagodes. Tudo serve, quando serve
sua glória de esculpir em pó de giz.

Não há tule para tanta fantasia.
Dramatontos, remancistas, poetantos
que não custa quase nada perceber
porque varam as revistas, os secretos
corredores do ministério, ou se jogam
por atalhos de cartão e cortesia
para o céu das editoras e colóquios
outdoors, para grémios e prebendas,
embaixadas, galardões de prime-time,
golden card e viajados, reputados,
deputados e, por fim, sepultados
em unives, de Aberdeen a Zanzibar,
pelos cúmplices de sempre.

Fazes bem em exilar-te, pois o cheiro
que se ouve, neste cais de filistinos,
só convida a desistir. Estás a salvo,
pelo menos, da peçonha dos olhares,
dos abraços inimigos, do aplauso
rebuçado, desta vida que nos mente.

Vê se guardas um lugar para este
teu amigo, que te abraça, a caminho.
(José Miguel Silva, Dezembro de 2000)