Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Cesariny. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Cesariny. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O Reboliço é um nefelibata (77)

"Uma Certa Quantidade"

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro
(Mário Cesariny, 1957, Pena Capital,
Lisboa, Assírio e Alvim, p. 27.)

terça-feira, 26 de julho de 2011

Moinhos na poesia (36)

"Moinho"

Tantos pintores

A realidade comovida agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem

Tantos escritores

A realidade comovida agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros, na cidade, e algures

Tantos mortos no rio

A realidade comovida agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
Mas não agradece muito

Ela sabe que os pintores os escritores e quem morre
não gosta da realidade
Querem-na, para um bocado
Não se lhe chegam muito - pode sufocar

Só o velho moinho do acordeão da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade.

(Mário Cesariny de Vasconcelos, Diário de Notícias, 16 de Julho de 1964. Re-publicado em Poesia Portuguesa do Pós-Guerra 1945-1965, antologia organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira, Lisboa, Editora Ulisseia, 1965, p. 329.)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

As patinhas na água, o focinho no mar*

(Hip-foto-tela da areia por baixo da água: Reboliço, em modo Verão, a gozar as curtas noites e à espera que comece o jogo de escondidas.)
*Título roubado a Cesariny, the young.

terça-feira, 12 de abril de 2011

PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

(Mário Cesariny, Nobilíssima Visão, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1975, 2ª. edição, que inclui "só os poemas escritos sob esse título em 1945-46, anos que correspondem a uma leitura do 'país real' topado pelo autor à saída da adolescência linda mas já desconfiada da terra em que assentara os seus projectos de poesia civil: lírica, inocente: dramática.", pp. 18-19.)

quarta-feira, 10 de março de 2010

AUTORIDADE E LIBERDADE SÃO UMA E A MESMA COISA

Autoridade é do que é autor.
Só a autoridade confere autoridade.
A autoridade não é uma quantidade.
Todo o homem é teatro de uma inexpugnável autoridade.
Aquele que julga ser possível autorizar ou desautorizar a autoridade de outrem não sabe no que se mete.
Liberdade.
A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só. Mas são mais reverbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moda* corrente do libertino.
Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água. Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar a água. Pode-se pô-lo a morrer, pendurado no ar, ou à dentada, com cães. Mas é impossível tirar-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.
Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime. Quanto mais perseguido mais perigoso. Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver de um homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro - nunca sairá um escravo.
Autoridade e liberdade são uma e a mesma coisa.

(Mário Cesariny, as mãos na água a cabeça no ar, Assírio e Alvim, Lisboa, 1985, p. 75. 
Lembrado a propósito de François Poirier, que morreu livre a semana passada 
e viveu como se fosse quatro ou mais. 
Também a propósito de um livro que saiu por aí e não tem porque não 
haveria de ter saído, com aquele título e tudo, 
para tornar mais difícil procurar por ele nos motores de busca.)


[*Não será "moeda"? JMM diz que não.]

domingo, 26 de novembro de 2006

Uma "bejeca" à saúde do poeta!

Se for Saison, ainda melhor. Cesariny reencontrou Rimbaud e ergueu um brinde à tolice que vai pelo mundo.