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domingo, 29 de abril de 2018

Ruínas de Milreu


   É muito fácil, em Milreu, pisar involuntariamente uma formiga agigantada, embora pequena se comparada com o que resta do templo ou com as douradas transcritas para mosaicos cuja cor se foi esbatendo. Também é fácil tocar ou pisar pedrinhas soltas ou conchas dispostas em espiral no que seria o centro exacto do templo. Mais difícil é perceber o que herdámos realmente de tantos séculos, o que aprendemos ou desaprendemos com aquilo a que chamamos história. Deus, caso andasse por ali, habitaria as laranjeiras, separado de nós por umas grades.
(Manuel de Freitas, Sob o Olhar de Neptuno, edições 50Kg, Porto,  2018, p. 5.)

Sob o Olhar de Neptuno

(Foto da capa de Sob o Olhar de Neptuno, de Manuel de Freitas, edições 50Kg, Porto, Abril de 2018:
Reboliço, a pensar como é bom receber prendas dos amigos aniversariantes.)

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Moinhos na poesia (63) - e, escondidos, na fotografia


JANELA BAIXA

Lembra-me a janela do último
filme de Béla Tarr, mas
agora somos muitos – e a realidade
(desculpem o termo) faz-se de cores
fortes, que o calor sublinha ou desfoca,
à revelia de quaisquer intenções estéticas.

Apaixonei-me logo por este rectângulo
onde fulgura um horizonte dourado,
cruamente medido pela rotina de rebanhos
ovinos, caprinos ou humanos – semelhantes
no destino, mas desiguais no esplendor.

Ao lado, entre a ruína de dois moinhos,
pessoas vivem ou morrem
dos seus ordeiros rebanhos, da música
que emoldura tardes felizmente iguais,
debaixo de um sol inclemente.

Esta janela, afinal, não precisa de comparações.
Durará enquanto houver silêncio. 
                                                          (Manuel de Freitas, Ubi Sunt, Averno, 2014, p. 63. Obrigada.)

(Foto da "Janela Baixa", com moinhos escondidos: ID. O Reboliço vê-se, como, pior ainda, ao espelho, perante o platónico dilema de saber se lhe agradam mais os versos, a fotografia da janela, a janela-em-si, ou a lembrança dela. Indecidido e agradecido a todos quanto sejam, de dilemas, provocadores.)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

"O tititi das aves"

(No dia em que foi saudar o Manuel de Freitas, que recebia o prémio do PEN Clube de Portugal pelo seu lindo Cólofon, o Reboliço saiu da SPA com um livrinho na mão, e de poesias de um senhor poeta chamado Julian Tuwim. Uma das poesias era sobre "O tititi das aves", que é como quem diz uma guerreia entre elas. As aves.)


A gansa e a marreca, vizinhas,
Reprocham os pés das galinhas.

A perua e a galinha, a sós,
Criticam a pata sem dó.

A galinha d'angola e a pata
Desancam a perua chata.

Outra pata quaquá se esgoela,
Essa gansa, ahn, gue guer dela?

A gansa na hora revida:
Pata beberrona, bandida.

Dona angola peita a perua:
Sua linguaruda, urubua.

Que rebuliço no quintal!
Tem pena voando geral...

(Tradução de Marcelo Paiva de Souza. In Tuwim,
Babel Studio/Embaixada da República da Polónia em Lisboa, 2013, p. 39.)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Prémio de Poesia PEN Clube Português

CAMPO GRANDE

                                                para o Jorge Roque

Portugal era, no teu livro por vir,
um alvo a abater, enquanto
na muda televisão se discutia
o Orçamento Geral do Estado
(talvez nem tenhas dado por isso).

Pior ainda: não se podia fumar
e fingíamos aceitar mais uma tarde
de Novembro, sem regresso.
Também não podia saber que seriam
estes, e não outros, os versos de Bingre
que me levariam hoje a casa:

«A Morte é sempre a vida que logramos,
Pois morte são os dias que vivemos

Manuel de Freitas, Cólofon, Fahrenheit 451, 2013, p. 13.
(É um livro que não é um livro, tem poemas mas são abraços aos amigos que todos temos.)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Moinhos na poesia (45)

SALDOS

Fugi muito novo da prisão
com Edmundo Dantés
e saboreei a vingança antes
de a conhecer de facto.
Fui acossado e cuspido
ao lado de Gwynplaine nas aldeias
de lama por onde passámos.
Numa tarde de Inverno, Lúcio
despertou-me para a morte
e deu-me a conhecer palavras
que eram chuva e relâmpagos
num céu que não tinha nuvens.

Estive na cama com Odette de Crécy
quando Swann espreitou
à procura da desilusão do amor.
Vesti-me de rapariga breve
em frente àquele espelho antigo
que revelou a Malte a sua androginia.
E ouvi as ondas quebrarem-se
como se a angústia chamasse
devagar pelo meu nome de água.
Senti com Fabrício a fome, a certeza
do veneno, o sol no rosto de Clélia.

Fui Quixote e Sancho e os moinhos
também. Passei muitas noites
ordinárias a folhear cartas devolvidas,
cartas de amor somente.
Em Quauhnahuac vi vulcões de álcool
arderem e abutres ternos
que esperavam pelo meu corpo.
Enrolei serpentes de tédio
ao meu colo nu de princesa
e comprei um vestido vermelho
para que reparassem no meu desespero.
Conheci o amor porque o li em Kavafis
e nalguns apressados corpos
que não posso voltar a ler.

Estive na Ponte de Pin a escrever
um longo testamento, «belo
como o tremor de mãos de um alcóolico».
Bebi do mesmo samovar que Kirilov,
mas decidi não partir tão cedo.
Conheci Malone & Molloy, meus próximos,
meus irmãos. Também tive dezassete anos,
também soube que não valia a pena tê-los.
Fui esses todos que não pude ser,
em Veneza e em Trieste, em Buenos
Aires e em Boston, ou no mar da Islândia.

Chorei lágrimas míopes, de tinta e de pouca
terra – para que não me ouvissem
os vizinhos e a posteridade.
Inventei a dor, desdisse-a, voltei.
Bebi loucamente com Anne Desbaresdes,
julgando que o vinho curava a doença da morte.
Vendi o corpo em Barcelona, na Calle
Carmen e na Calle Mediodía, só
para te comprar esta camisa – gostas?
Cheguei ao fim da noite mais cedo do que pensava.
(Manuel de Freitas, Game Over, Lisboa, &etc, 2002.)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

THE SKY'S GONE OUT


No future, just a little past.
Sim, até os punks podem ter saudades.
Regressavam ao esmo de uma
obscura cidade da Alemanha
e não encontravam o Gingão,
o Gráficos, o Esteves da taberna homónima.
Também não encontravam, claro,
o fulgor bêbedo dos quinze anos
(fenómeno bastante natural).
Raio de povo este, que nem ao futuro
consegue pôr os cornos,
injectado de pavor e de memórias.

Não,
não é feliz aquilo a que chamamos noite.
Os mais jovens (e mais estúpidos) substituem
distraidamente aqueles que a idade
tornaria ainda piores. "All we ever got
was cold" - não duvidem.
O Esteves, por exemplo, nunca
ouviu falar do parente literário
que talvez tivesse sido dono de uma tabacaria.
Preferia segurar a porta nos ombros
de betão armado e sacudir a cinza, desconfiando
sempre dos novos guerrilheiros urbanos.
Nenhuma navalha o matou; atropelado na aldeia,
acedeu em trespassar sabedoria e esquecimento.

Outro caso de que me lembro: o do Manel
do Estádio. Não sei, aliás, como enterrá-lo.
Morreu como ninguém morre,
faltou-me todo inteiro numa tarde de Novembro.
Chegou de um Norte qualquer, o meu Manel
somente, e trouxe menos fundura ao poço
da minha e de tantas outras vidas.
Só foi pena ter doído assim a última cerveja,
no maior desconhecimento de me estar a despedir.

Batemos a portas fechadas, sentimos nos ouvidos secos
a penumbra de um vinho impartilhável.
E é, afinal, tão simples: destronada a música,
ninguém ousará sequer convidar-nos para dançar.
Que nos murassem as certezas, estava bem.
As dúvidas, contudo, deixaram de ter onde nos ferir.
Olhos impávidos vêem o cão da noite recolher-se,
abrir por curiosidade as veias, saborear a derrota.
"All we ever wanted was everything" - mas
deram-nos sopa de nada, restos num prato vazio.

(Manuel de Freitas, A Flor dos Terramotos, Lisboa, Averno, 2005, pp. 48-49.
Hipsta-foto da contracapa de Tabernas de Lisboa, livro com fotografias de
Luís Pavão e texto de Mário Pereira, Lisboa, Assírio & Alvim, 1981: Reboliço, sedento.)

domingo, 6 de novembro de 2011

(Hip-foto do interior da contracapa de Aforismos do Estádio: Reboliço. O Reboliço pensa que cada uma das frases aforísticas ali reunidas, e ilustradas por desenhadores da Oficina do Cego, poderia fazer parte de qualquer poema de Manuel de Freitas, que, afinal, foi quem fez a selecção e lhes chamou, no prefácio, "versos sem poema nem poeta". São de muitos poemas, sim. São, pelo menos, de um poeta.
Este livro cheira aos cigarros fumados dentro de outro estádio, de outra arena.)