O Reboliço encosta o focinho ao vidro da janela, morno ainda da noite. À volta, embacia-se um bocadinho do mundo, enquanto o bicho vê e escuta a chuva, que cai miúda nas pedras da rua do moinho. Toda a noite, mansa, foi caindo, por fim. Agora, os telhados arranjados de novo, os beirados muito direitos, inteiros e caiadinhos, venha o tempo fresco, a água, as nuvens mais escuras. Foi um Verão longo, estendido: o Reboliço não fecha os olhos, a seguir o trânsito de cada gota no vidro, nem recolhe as orelhas, desabituadas já daquele canto mole que a terra acolhe.
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017
sexta-feira, 7 de julho de 2017
Ma Loute
Do que o Reboliço gosta mesmo é de descobrir novidades. De cada vez que viu um filme de Bruno Dumont, ficou estupefacto, extasiado, feliz, com as descobertas. Ma Loute viu-o ontem, no pátio da Sé da cidade, a lua quase cheia a subir e a entranhar-se nas nuvens e a tela animada pela aragem da noite e pelo vento da costa norte da França, onde, em 1910, aconteciam as aventuras de uma família de veraneantes no seu lugar de veraneio, as investigações de dois polícias perante misteriosos desaparecimentos e a vida, dura, canibalesca vida, da escassa gente do quartier St. Michel. Descobriu, nele, os rostos perturbadores de Raph e de Brandon Lavieville (e do seu pai, Thierry Lavieville), areia e cascalho, tempestade e céu azul, a melodia de Guillaume Lekeu - e o Typhonium, casa que rende homenagem ao tifo que levou o jovem compositor belga. E confirmou (o que é uma maneira de repetidamente descobrir), entre o talento de Juliette Binoche, de Valeria Bruni-Tedeschi e de Fabrice Luchini, que o amor é a única força que pode salvar.
sábado, 17 de junho de 2017
Moinhos na poesia (84)
"Sangue Latino"
Jurei mentiras e sigo sozinho,
assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino,
minha alma cativa
Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino,
minha alma cativa.
Jurei mentiras e sigo sozinho,
assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino,
minha alma cativa
Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino,
minha alma cativa.
(Ney Matogrosso, colosso de homem que ontem o embasbacado Reboliço ouviu e viu cantar e bailar na Praça da República, em Beja.)
quarta-feira, 14 de junho de 2017
As mulheres do fim do mundo
O Reboliço encantam-no as vozes femininas. A Janis Joplin, por exemplo, a quem o produtor Paul Rothchild disse, pouco antes de ela morrer, sozinha num quarto de hotel, que dali a 30 anos estaria a gravar o seu melhor álbum. Ou a Elza Soares, que já gravou tantos dos seus melhores álbuns 30 anos depois, 30 anos depois, 30 anos depois, e segue, acariciando a cabeça lisa de um malandro, garantindo, de punho fechado, que ele vai se arrepender de levantar a mão para ela e cantando que "daria a sua vida a quem lhe desse o tempo".
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
"EM PROPÓSITO DA TRADUÇÃO"
"Em casos muitos discute-se se tradução é para ser mais fidel a originalis ou se deve torcer a modos de encaixar na língua que traduz. As posições ambas partem aos porém da ideia de que há duas línguas, uma + uma, y que o trilho de uma a altra se debuxa em reta linha. Esta tradução não brota de ideia tal, pero de que língua há muita, mesmo que só com nome um. Ou seja, é português lusitano o destino do doc deutsch de Wedekind, mas o que é isso está em aberto. Faz-se donc uso de gramática e vocábulo recognescíveis, mixando tempos, geos, origens e por fora aí, esfocinhando-se por tirar tapete de norma, o que é idêntico a intentar ilimitar e dar força à variedade. Em não havendo linha, não se sabe adonde vai aportar a frase que vem após, e assi, ao menos, vive-se menos previsível, move-se o peso de conhecimentos sabidos e queda-se mais leve leve. Népia más que questo. É só apenas poder e aos porque poder assi, crê-se, mais bom é. Com bom, entenda-se livre."
(Nota sobre a tradução de O Despertar da Primavera, Uma Tragédia de Juventude, uma re-elaboração linguística que fez José Maria Vieira para o Teatro Praga, peça apresentada no Centro Cultural de Belém este fim-de-semana e que o Reboliço, muito contente, foi ver e aplaudiu.)
terça-feira, 21 de junho de 2016
O senhor Young
Correram oito anos desde que o Reboliço assistira a uma ocasião das mais engrandecedoras da sua alma minusquinha. Nesse dia de 2008, viu e ouviu num palco junto ao rio Tejo o senhor Neil Young - and his Electric Band - cantarem e tocarem música e outra coisa qualquer que achou ser mais do que música e luz e movimento, mas até hoje não consegue designar por nome que se conheça. Quando, no começo deste ano, se apercebeu que aquela pessoa estaria dentro do espaço da sua Península, ou seja, perto, a fazer coisa que prometia semelhante, decidiu no segundinho que haveria de estar presente. Depois de pensar noutros animais de som, e da tal outra coisa, que já não podem fazer disso estando vivos, como o senhor David Bowie, ou o senhor Prince, mais se agradeceu ter-se decidido andar. Andou. E ouviu. E veu. No fim do sábado 18 do mês em que está, o senhor Young entrou e saiu do palco sem tirar o seu chapéu em ocasião alguma, o que, podendo ser visto como sinal de má educação, ali era modo de o sinalizar a ele e de o proteger de alguma corrente de ar - isto foi tudo em campo aberto, junto a um rio outro, chamado Manzanares, e nunca se sabe ao fresco do anoitecer. A uns dez minutos de ter começado a função que ali o levava, perante o universo que o via, no palco e numas gigantescas telas de imagem aproximada da perfeição, apontou o senhor Young um indicador à lua cheia que subia do outro lado do céu, em frente a ele. Não precisou de cantar "Harvest Moon", que o coração do Reboliço ali logo ouviu no seu ouvido interior e gostou. O senhor Young esteve no palco sozinho mais de meia hora, cantou e tocou harmónica, a sua old guitar e órgão, e só depois entraram na convivência musical dele os meninos filhos de Willie Nelson (Lukas e Micah Nelson, e a banda deles chama-se Promise of the Real), todos cumpridores do serviço que ali lhe faziam e de corpos em permanente sobressalto pela incredulidade de estarem a alinhar acordes com o senhor Young. O senhor Young serviu duas horas e meia, mais minuto menos minuto, repetiu (chama-se "encore"), o que, naquele festival, se acontecera, não fora perante a atenção do Reboliço, e mais teria ficado, não fosse a clemência do aplauso lhe perdoar os 70 anos, apesar de em vão os tentar ver num corpo de camisa aos quadrados, mas acima de tudo a consciência de que, se somos viventes criaturas de uma divindade qualquer, ela nos possui e não nós a ela, e lhe devemos, portanto, obediência e respeito: o que nos der, pouco que seja, é o mais e o melhor, e tem um fim. Quem parece ter-se apercebido também do que se passou neste fim de dia ao pé do rio de Madrid foi o Fernando Navarro, que escreveu no jornal El País.
(Foto das telas onde apareciam duas meninas que lançavam sementes e regavam flores no palco, a preparar a entrada do senhor Young: Reboliço, lembrando-se que os trabalhos mais recentes do senhor Young têm sido dedicados, também, a alargar a consciência sobre a modificação genética de sementes - sementes de plantas que as pessoas comem.)
(O Reboliço teve ainda, neste verdadeiro festival, o reencontro com um menino de belas cordas e voz, Gary Clark, Jr., e apanhou outra surpresa com o inacreditável e maluco senhor Perry Farrell, que além do grupo chamado Jane's Addiction levou ao palco senhoras semi despidas e tudo e tudo e gostou muito de tocar música e de cantar e via-se que sim; e conheceu uma Band of Horses que provou que, se há animais pelo nome, é que são gente boa.)
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Simenon sim!
(Foto do Miguel Martins, enquanto na sexta-feira passada discursava, na Universidade do Algarve, sobre Georges Simenon, a sua vida e obra: Reboliço, a lembrar-se de Balzac, outro prolixo escritor.)
sexta-feira, 1 de abril de 2016
Morse > Lewis
(Foto da televisão a mostrar Lewis que se despede de Morse: Reboliço, a pensar no trabalho dos actores, no carinho das personagens, na inteligência do olhar de quem fez aquela série e viria a fazer Inspector Lewis. Morreu Morse [em 2000] e morreria John Thaw dois anos depois, de um cancro no esófago. Paz às almas dos homens cuja vontade é só beber muito, comer bem, pensar melhor, right the wrongs of the world e achar alguém a quem amar. Lewis sobreviveu-lhe, mas, como o seu carácter só excedia o de Morse em gentileza e a bonomia, teve de achar um parceiro que de Morse herdasse, ao menos, o wit.)
terça-feira, 29 de março de 2016
Fazer caras
O Reboliço não se cansa de gente divertida. Pensa que os donos do Bo e da Sunny são assim, divertidos. Séria gente divertida, que gosta de ler, de dar a ler, de fazer ler, de animar leituras. Num dia de Páscoa, como os que agorinha mesmo passaram, soube que juntaram moços pequenos e lhes leram, animados, sobre onde estão as coisas selvagens. O que se riu!
sábado, 30 de janeiro de 2016
Lewis < Morse
Foto de dois wasted men em momento inspiracional: Reboliço. Depois de Inspector Lewis, o Reboliço assiste aos episódios de Inspector Morse. Pela ordem, portanto, inversa à da narrativa da série. Mas como gosta de descobrir a verdade do que o velho Lewis conta sobre o antigo chief-detective, vendo-o (a Lewis) em novo!
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
(Cada vez que contamos uma história esquecemo-la mais e mais.)
Em 1925, Mikhail Bulgakov escreveu uma novela alegórica chamada Coração de Cão. (Só viria a ser publicada em 1987, e em Portugal teve, pelo menos, três edições - a primeira, nos Estúdios Cor, sem data de publicação, mas certamente anterior a 87 e feita, provavelmente, a partir de uma versão que circulava clandestina; as mais recentes na Vega, em 2008 e na Alethêia, em 2014.) A história de Bulgakov tem pouco a ver com o filme de Laurie Anderson, mas os títulos coincidem e a realizadora faz, nisso, mais uma remissão a uma constelação de obras que iluminam o céu canino do filme. Onde o perfeito texto de Bulgakov é satírico, dorido de denúncia, de comunidade, dá o olhar de Anderson uma visão privada, íntima e doce. É um filme sobre contar histórias, ao passo que o livro de Bulgakov é uma das muitas histórias que podem ser contadas.
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
Ondas do mármore
(Foto do sub-inspector Hathaway a contemplar a estátua mortuária de Percy Bysshe Shelley, em Oxford: Reboliço. O corpo do poeta aparece reclinado, como terá dado à costa perto de Viareggio, depois de uma tempestade em que naufragou. O Reboliço vê os episódios de Inspector Lewis como quem assistisse ao serviço religioso e ouvisse, dos poetas, "Fazei isso em memória de mim.")
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
"To sleep, perchance to dream"
O Reboliço vê o capítulo inicial da série policial Lewis, adaptação da tragédia Hamlet, e pensa na permanência das histórias.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
"Fronteira"
As flores pelo chão
Pisadas desde o baile,
O vento frio,
Só mulheres de xaile:
Tudo me contaram
Quando eu dei aos ares de Espanha
Uns desceram para Sul
Eu fiquei a ver Idanha.
Ai de mim, não faço nem ideia -
Prometi partir na lua cheia.
Páro p'ra um bagaço na estação,
Nos olhos de um beirão
Vejo a fera da fronteira.
Ir pra Angola
Pode mesmo ser a salvação.
Ou São Paulo -
Receber calor de um povo irmão.
Ir abastecer-me onde há quem dance.
Promessas de Verão
Os marinhões as quebram:
Praia fora vão
Se águas-más lhes pegam.
Não posso mais esperar
Que a terra se alevante;
“Ser firme a procurar”,
Quero ir para diante.
Ai de mim, se tudo é ao contrário...
Tenho de ir cumprir nosso fadário.
Acabo de engolir num repelão -
Pergunta o bom beirão
Se isto era necessário.
Ir embora pode mesmo ser a solução:
Ver trabalho, brio, recompensa pela aflição.
Mas se isto não mudar eu não descanso…
E se eu for -
Quem te espera, Mariana?
Vais dormir nas guardas quentes de que cama?
Se eu for -
Quem vê paz na tua estampa?
P'ra onde irás se eu só voltar p'ra pôr cá a minha campa?
Ai de mim, não faço nem ideia...
Prometi partir na lua cheia.
Páro p'ra um bagaço na estação,
Nos olhos de um beirão
Vejo a fera da fronteira.
(Jorge Cruz, Diabo na Cruz, Roque Popular, 2012.
Quantas vezes, quantas, já o Reboliço, noutros lados, replicou as frases desta cantiga, que lhe faz pensar nos Zés Rebelos do mundo da diáspora portuguesa. O poema, bonito, faz-se ouvir muito bem e os rapazes são generosos a cantá-lo.)
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Outro, outro pressentimento
(Foto do quadro de Gerolamo Induno, de título enganador, exposto na Pinacoteca de Brera: Reboliço. Diz a explicação junto à imagem que se trata de um "Triste Pressentimento". Explica que, "num quarto em grande desordem, uma jovem acaba de acordar e contempla, apreensiva, aquilo que é, provavelmente, um pequeno retrato do seu amado, jovem patriota na frente de batalha". Ora, vendo o pormenor do que segura a linda e desarrumada menina, é muito óbvio que está antes a ler as notícias do dia no telefone portátil.
[É a segunda imagem, no menu inferior; a página demora alguns segundos a abrir, mas o zoom que permite impressiona.])
terça-feira, 3 de junho de 2014
O lugar
"a árvore é mais do que um produtor de sombra, é uma memória que virá sempre associada àquela arquitectura, àquele lugar"
(António Belém Lima sobre o que o cinema pode ensinar à arquitectura, a propósito de Trás-os-Montes. No mais recente fascículo da colecção "O Lugar dos Ricos e dos Pobres na Arquitectura e no Cinema em Portugal". Da Dafne.)
terça-feira, 23 de julho de 2013
Mirar e voltar a mirar
O Reboliço lembra-se de há uns anos ter andado pela costa vicentina, parte alentejana, a cheirar as rochas das praias, levar com vento no focinho e comer do bom percebes. Não percebeu nem metade do que por lá existe. Muito atencioso, o cunhadão ajuda (e, pelo caminho, semeia uma comichão de cobicinha):
(Atenção:
Abri o vídeo em janela autónoma, ou vereis não mais do que 4/5 do que foi filmado.)
Abri o vídeo em janela autónoma, ou vereis não mais do que 4/5 do que foi filmado.)
quarta-feira, 19 de junho de 2013
domingo, 13 de janeiro de 2013
Interface Makonde
O Reboliço esteve cara a cara, face a interface, focinho a focinho com o Otelo fabuloso Fabião, o Grande. Entrou na Galeria de justo nome de Espírito Santo, que foi santo o espírito das fotografias que juntou nas mãos e no pensamento do Otelo fabuloso Fabião as canas, as borrachas das câmaras de ar e as cortou, os arames e a tinta branca. Com os achados, acharias, Otelo, nas praias onde andas, desta África, o santo espírito dos que nas fotografias aparecem; com o achado, Otelo, da tua ideia, as tatuagens a fogo saltariam do corpo para o acetato, sobre tanto papel. Ai de quem, ai de quem não vir as máscaras, não vir as pinturas, as armas, não vir as estátuas que fizeste.
(Interface Makonde é uma exposição de peças - escultura, desenho a tinta e a fogo, e mais, e mais - de Otelo Fabião, tudo instalado com o cuidado de Nuno Faria, que cuidou. Está na Galeria de Arte do Convento Espírito Santo, na terra de Loulé, a Norte de África, até ao 30 do mês terceiro de 2013.)
domingo, 30 de setembro de 2012
Bartleby interrompido.
(Foto do chão da caverna do nº 116b da Rua da Imprensa Nacional: Reboliço, à espera.)
deveríamos ter
bebido cada gota até não haver mais
do que o vidro
secado cada caco até o gume
lhe ficar cortante
riscado cada tábua do chão até descobrir
onde mora o espírito dos lugares e como faz
para nos prender
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