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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A filha-gata

(Foto da Perdida com a filha-gata no quintal: Prima Luísa, à pressa, à pressa, depois de o Tio Chico, seu pai, a ter chamado, "Anda cá ver isto, a gatinha mamando na Perdida." O Tio explica hoje: "Já não a apanhou a mamar, mas foi um instante de nada, entre a gatinha largar a mama e a Luísa fazer o retrato: não vês a posição dos bichos?" A Perdida era, como já se disse aqui, um bicho muito particular. Um dia, uma gata teve por ali crias e ela perfilhou-lhe uma: teve leite e tudo. Em chegando por lá o Isidro, que era visita regular e dado à brincadeira, metia-se com ela: "Eu levo-ta, Perdida. Fico-te com a gatinha." Parecia que o entendia, aquela mãe. Ficava possuída, ladrava-lhe com uma fúria que ninguém lhe conhecia e mordia-lhe os canos das botas altas, rosnando, enquanto ele avançava e ria, está claro. [Depois da morte da Perdida, foi o Isidro quem lhe recolheu a filhota.])

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A eles, a eles!

O Reboliço sempre se espanta com as qualidades da tecnologia - as dos bichos como ele não o surpreendem tanto, se tanto o encantam. Quando soa o telefone móvel e a chamada é de um determinado dono, toca como o grasnar de um pato, e soa alto, para se distinguir de outros que liguemNum dia sossegado, havia uma visita para o almoço e trouxera um companheiro, o Iron. O Iron é um cão de caça, dinamarquês grande, como lhe chamam. É jovem, pêlo cinza escuro, cor de ferro, elegância pura de corrida, treinado em cheiros e sons de bicheza de mato. Estava a família muito descansada a terminar à mesa o cafezinho e o Iron refastelava-se, pacífico e obediente, dormitando no chão da sala do apartamento urbano, instalado na enfiada da aragem que a varanda, àquela hora, deixava entrar. No meio da paz, o pequeno aparelho de comunicação anima-se e grasna um forte grasnar. Foi um microssegundo: as patas do Iron erguidas, o bicho disparado, seta direita, cauda rígida como o horizonte, orelhas em riste, faro no máximo do regulador, correu cada canto da casa,  pisou cada mosaico, parou à porta de cada divisão, querendo divisar - o pato.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Feijanito

(Desenho do canito Feijão, a assinalar o seu quinto ano de felicíssima e amada existência aos cuidados do Zé e da Lurdes: Liliana Sequeira, do outro lado do mundo. Parabéns do Reboliço!)

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Natacha




Do lado de fora das salas, casinhotas de madeira entre os pinheiros, o Reboliço observa o desplante, o atrevimento com que a gata Natacha* invade uma aula e se deixa ficar, quase duas horas inteiras, para desfrute de alunos, impaciência da professora e beleza, afinal, de todos. Olha de fora, o Reboliço, e vê-a procurar o canto mais morno do lugar: onde entra a réstia do sol da manhã, onde um colo de calor se lhe oferece, onde o aparelho que bafora o ar aquecido ronrona. Olha de fora e ouve a voz da professora, esforçada entre as deleitadas risadas e a desatenção do grupo, ler, a propósito, Vítor Silva Tavares: "Gosto e não gosto de gatos. Gato felino, gosto; gato gordo, não gosto; gato maluco, gosto; gato molenga, não gosto. Gato é companhia. Cão também, mas gato é outra companhia, companhia especial. Gato não é amigo, não é fiel; gato é egoísta, é ditador; gato não lambe botas, não arremelga o olho; gato é senhoria, é sua excelência, é mimalho, é lascivo. E tem ronha, tem muita ronha: faz das patas algodão ou garra, conforme a sua conveniência."(**) Ouve a voz que lê e observa a Natacha, gata melíflua, dengosa no que lhe convém, que é o ameno da sala a escondê-la do frio da rua - e vê-a a escapar-se, indiferente, mal lhe foge o sol do vão da porta, para outra sala com gente e calor.
(Fotos da gata sobre uma das mesas da sala de aula e do corredor entre as salas, no campus pinheiral: Reboliço)


(*)"Natacha" foi o nome que ganhou a gata porque o dia em que fez a sua aparição marcou o aniversário da aluna com aquela graça.
(**) Vítor Silva Tavares, "o gato", in revista Cão Celeste, nº 9, Julho de 2016, p. 123.
Originalmente publicado no jornal Diário Popular, 19/6/1963.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os Bichos

O Reboliço gostaria de dar a ler à Professora Maria Esthel Maciel as histórias sobre bichos, que Miguel Torga escreveu. E de ler o que ela, então, escrevesse.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Não abandonar a comédia

O Reboliço ouve falar pessoas como Jon e Tracy: Jon Stewart não abandonou a comédia; esta é a razão por que, desde logo, é inteligente e cómico e um bom exemplo.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

"Mise-au-point"

Casada a rica prima com seu Zé (e amadrinhada!), terminado mais um dos muitos trabalhos de casa, coçado o pêlo do lombo e contemplada a formosa Ria, senta-se o Reboliço a ouvir sobre como se deve dar nome aos gatos.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

"O mamute malhadinho"

                      com a sua lã       cheirava tudo a novinho
                        de carneiro       como vida a estrear
   cheirou as ondas do mar       vinham as ondas e iam
mais ou menos em Janeiro      era o mar, mamute, era o mar

(Versos: FRD para o Simba. O Reboliço agradece a permissão de publicar, que lhe encantam as cantigas a cães.)

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Pelos começados

(Foto dos dois páussros saídos da casca, mais do ovo de recuerdo - que já lá está há quase dois meses e não há meio de o descartarem - no ninho da mãe Laranjinha: Reboliço, encantado com o afã, os gorjeios de papos cheios e os regurgitares para entregar no bico aberto a papa, com os banhos de água fresca, as sacudidelas de penas e o olhar e olhar, mirar e remirar com a cabecinha de lado para não pisar nenhum, o saltinho breve e o amanhar de penas, da mãe, sabe lá quem vê o que vai debaixo da asa, debaixo do colo quente e dos trinadinhos muito baixos, para não acordar quem come mesmo a dormir.)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Parar nos ovos

As férias dos donos levaram os pássaros até Linda-a-Velha. A canária ia já com um ovo no ninho - gorado, por certo, havia umas três semanas no quente e nem estalava nem era rejeitado - e deitou outros dois. Destes, viu o Reboliço hoje eclodir um e sair o segundo filho da Laranjinha e do Branquinho. É feio, o bicho, mas bonito. Juninho, o mano velho, ainda nem deve ter-se apercebido. A mãe anda pé dentro e pé fora, a comer, a lavar-se, na lida, e a ver se não deixa o novo apanhar nenhuma corrente de ar. Uma estafa, os pássaros, Reboliço. (Se este for macho, é Lindinho; se fêmea sair, fica Lindinha, e pronto.)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Da maldade bem vestida

O Reboliço inteira-se das notícias dos outros bichos e consome-se: o futuro não é radiante, os dias chegarão obscuros. Mas, oh!, a roupagem da informação!

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Juninho Astronauta


A mãe canária chama-se Laranjinha, por ter as penas da cor de uma laranja pálida; o pai é o Branquinho. Quando saiu do ovo, o Juninho não tinha pena nenhuma. De nada. Ganhou as penas à medida que os dias se ganhavam, e foram brancas. Foi, pois, chamado Branquinho Júnior e, daí, Juninho. Dois dias depois de ter duas semanas de saído da casca, foi o Reboliço espreitar a gaiola e viu-o, meio tremeliques, de patas assentes sobre o bordo do ninho, tem-te-não-caias, o bico projectado para a frente, a meia página de livro de auto-ajuda de saltar. Ficou a vê-lo, a adejar uma asa, alongada, esticadas, a experimentar, as penas, depois a outra. Juninho salta, não salta, ali de manhã não saltou. Passou um tempo de gente sobre o relógio e o bicho voltou ao afago nidal, de estoirado de querer fazer o esforço. À noite, quando foi ver dele o Reboliço, estava outra vez em pé sobre a beira do ninho - mas a dormir. Dormia em pé, como fazem os pássaros já grandes, cabeça e bico debaixo da asa, virados para trás e tudo. Menos mal, pensou o Reboliço: se está lá em cima, talvez não se tenha ainda aventurado. Mas nem uns poucos momentos depois de se ter distraído longe da sala, voltou e achou o ninho vazio, bordo sem nada. Virou o olhar para o chão da gaiola - vazio. No poleiro de cima, pai Branquinho e mãe Laranjinha abriam os olhos pequeninos, mas nem nada. Lá em baixo, encostado ao canto da caixinha de plástico onde o Reboliço lhe deixava uma papa reforçada, sobre a macia clara de ovo de galinha cozido, o Juninho respirava lentamente, cabeça e bico debaixo da asa. A partir daí, chamou-se Juninho Astronauta. Já tinha dado o salto.

Entrada de diário

É dia 13 de outubro, ia escrever o Reboliço, com consciência forte de ser agosto, de estar calor, de ser Verão. Mas a palavra seria outubro, é como é. Nada no que o levava a escrever teria relação com o que o faz andar, uma patinha à frente da outra, quando não se trocam e o empurram para o chão. Ia escrever que é 13 de outubro, que muitos dias já o separavam do que tinha escrito em último, mais recente lugar, mas não é outubro e não há tantos dias assim que escreveu. Faltou foi dizer tudo o que sucedeu entre o que por mais recente publicou nas Cartas e o que agora quer descrever. Um pássaro nasceu, dentro da gaiola onde habita, penado de branco, com o pai canário e mãe canária (na varanda da casa, porém, mora encostado ao muro um ovo de tamanho médio, será de pombo de rua, enjeitado por algum que ali o deixou; nem uma fenda possui e está sobre chão rijo, encostado a rijo muro). Isto foi o que sucedeu: nasceu um pássaro e houve quatro - três que seriam canários e um que talvez pombo - os quais não.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Na oficina do tio Pardal

O sapateiro Miguel levanta a cabeça do trabalho e cumprimenta. É de manhã cedo, mas já coseu e remendou sapatos e fez um cinto novo. Quando chegou, deu água e alpista aos pássaros. "Este canta que se regala", comenta o Reboliço - "Mas é canto novo, tem estado muito calado: morreu-lhe o companheiro, só anteontem é que voltou a cantar", diz o tio Chico, encostado ao balcão. A gaiola do canário desentristecido fica mesmo por cima da cabeça do sapateiro Miguel. "O outro ainda não se manifestou." O outro é outro canário, enfiado numa gaiola igual, do lado oposto do balcão, que trouxeram para substituir o finado. "Temos de os pôr assim afastados, sem se verem, senão não cantam," explica o tio Manuel Pardal, levantando o queixo da bengala. "Está tão calado...", diz o Reboliço. "Ainda está estranho", responde o tio Chico. "Tem de se habituar ao novo apartamento."

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

"O tititi das aves"

(No dia em que foi saudar o Manuel de Freitas, que recebia o prémio do PEN Clube de Portugal pelo seu lindo Cólofon, o Reboliço saiu da SPA com um livrinho na mão, e de poesias de um senhor poeta chamado Julian Tuwim. Uma das poesias era sobre "O tititi das aves", que é como quem diz uma guerreia entre elas. As aves.)


A gansa e a marreca, vizinhas,
Reprocham os pés das galinhas.

A perua e a galinha, a sós,
Criticam a pata sem dó.

A galinha d'angola e a pata
Desancam a perua chata.

Outra pata quaquá se esgoela,
Essa gansa, ahn, gue guer dela?

A gansa na hora revida:
Pata beberrona, bandida.

Dona angola peita a perua:
Sua linguaruda, urubua.

Que rebuliço no quintal!
Tem pena voando geral...

(Tradução de Marcelo Paiva de Souza. In Tuwim,
Babel Studio/Embaixada da República da Polónia em Lisboa, 2013, p. 39.)

domingo, 8 de dezembro de 2013

Ah!, são eles!

(Foto das páginas 92 e 93 das 96 maravilhosas páginas do nº 4 da Cão Celeste: Reboliço, em reconhecimento absoluto - da Carolina e do Sorna, que são tal igualitos ao que desenhou a Bárbara Assis Pacheco, e dela!, claríssima leitora, que só naquelas palavras os viu a eles, e ao Reboliço nem isso, nem isso.)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Petite histoire illustrée

(Dezenho do mundo de F., a quem o Reboliço munto agradefe.)

Era uma vez um coelho-lebre disfarçado de ratazana satisfeita. O coelho-lebre disfarçado de ratazana satisfeita nunca estava satisfeito. (Era ele e o anjinho Plum, que em infância do Reboliço se chamava Plúm, com pronunciado acento no "u", e depois, agora, se percebe que nada mais seria do que anjo com nome de quase plüma, ou, vá lá, de ameixa. O tal anjinho Plum é que nunca estava satisfeito.) O coelho-lebre disfarçado de ratazana satisfeita passava a vida a cheirar o ervaçum, de cabeça baixa, as compridazorelhas descaídas e o pêlo sem graça nenhuma. Nem dava conta de passarem por si outros bestiais animais a si iguais. Era farejar, farejar, andar, andar, e pouco parar. Um dia, passou por ele um animal bestial - que não identificou, pois olhá-lo mal lhe olhou -, que vinha a ser uma animala, de nome Epifânia por que alguém em alta voz chamou. Nesse momento, e ouvindo vozeado o nome, o coelho-lebre disfarçado de ratazana satisfeita, que demonstrara, além da estima baixa que possuía, deter fraco entendimento da acentuação palavreira, teve a mal dita cuja, e desatou a subir muros, como os gatos, ao invés de.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

De madrugada

O Reboliço espreguiça-se: primeiro as patas da frente, depois as de trás, lombo esticado, roçado contra o umbral da porta, boceja um bocejo longo e, num gesto que o surpreende, levanta uma das orelhas, direita, fuso erguido e aberto. "Shhhrriiippshrrr," escuta o melro da árvore. Nem um raio de sol ainda, nem a claridade: um arrepio só foi o que fez o pássaro reagir e produzir som, um tremer de penas com a aragem que a gota de chuva provocou a passar de uma folha a outra, nada mais. Nada mais poderia ser, que nenhum insecto ainda vive, nenhum verme se arrasta, nenhum raspelhinho acordou. Arrepio, pensa o Reboliço. Pobre melro, que se calou, só com duas patas tão finas para dar sobre algum ramo pequeno uma volta, meia volta, e escolher de novo a posição do sono.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Urban farmers

O Reboliço entra no táxi e mal percebe uns ruidozinhos baixos. Assim que o motor arranca, ouve, mais distintamente, duas ou três linhas de som, de uns sons ritmados, trri trri, trri, alguma peça solta, para trás do banco de trás, ouve melhor e sabe que quer identificar. Procura o ritmo, que afinal não há, enquanto o som se vai tornando mais persistente, mais alto. Um som quase metálico, mas só metaforicamente metálico, desalinhadas as linhas, o ritmo anulado, não é som de peça, é som de alma - até que distintamente escuta alguma coisa que toca nalguma outra coisa que é metal sem ser maneira de dizer. A grade de uma gaiola, de certeza. E o trrtrri, trri, trri contínuo. São pintainhos, pensa o Reboliço. O táxi leva pintainhos. "Parece que leva pintos aqui no carro..." - "Diga?..." - "Pintos, ouço como se fossem pintos, aqui atrás." "Ah. São melros - três melros. Tenho que andar com eles, que são novos e precisam de estar sempre a comer e não tenho com quem os deixar. São três melros. Eu gosto de ouvir cantar os melros, não sabe? São pequeninos - ontem não tinham nenhuma, nem cantavam ainda; hoje já estão todos tapadinhos de penas, assim que ligo o motor pedem-me comida. Em parando já vou ali atrás, já lhes dou mais um bocadinho. São três melros, que eu gosto muito de os ouvir cantar."