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quinta-feira, 3 de maio de 2018

MUSA, SINCERAMENTE

Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.
Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,
aguados humoristas e demais fomentadores
de pestilência moral? Que valor pode ter
uma metáfora sem preço, por brilhante
que seja, neste mundo de sementes apagadas
em lameiros de cimento? Tu não vês
o telejornal, Musa? Nunca ouviste falar
da impermeabilização dos solos na cidade
de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?
Pensas que estás no século XIX? Mais,
julgas-te capaz de competir com traficantes
de desejos, decibéis e abraços? És capaz
de fazer rir um desempregado, de excitar
um espírito impotente? Consegues marcar
golos geniais como o Ricardo Quaresma,
proteger do frio as andorinhas, ir buscar
as crianças à escola? Se achas que sim,
faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.
Mas não contes comigo para te levar à praia.
Sabes perfeitamente que detesto areia, sol
na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.
Pela parte que me toca, ficamos por aqui.
(José Miguel Silva, Últimos Poemas, Averno, 2017, p. 21.
Muito bem lembrado pela Inês e lembrando ao Reboliço versos da Rita Ann Higgins.)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Não dá

A poesia não dá / Poetry Doesn’t Pay
Estão sempre a dizer-me:
Sabes, os teus poemas,
tens mesmo ali qualquer coisa,
isto é, mesmo.

Quando liga o homem da renda,
ajoelho-me e, pela
caixinha da consciência digo-lhe,

'Quem fala é alguém,
chamada local, sabia
que tenho qualquer coisa aqui nos meus poemas?
É o que me dizem.'

'O que quero são as catorze libras
e dez pence, deixe lá a poesia.'

'Mas não percebe,
tenho aqui qualquer coisa.'

'Se não me aparece depressa
com as catorze libras e dez pence,
aparece-lhe é qualquer coisa aí na rua,
a que um bocadinho de neve há de dar cor.'

'Mas.'

'Mas nada,
não me pode pagar com poemas, nem com rezas,
nem piadas do seu marido,
nem fotografias dos filhos
de camisolas cor de bom limão,
tricotadas pela tia da avó morta,
que tinha amnésia e crupe.

‘Eu cá sou da Companhia,
queremos lá saber da poesia,
ou das amnésicas tias mortas!’

‘Mas as pessoas dizem-me.’

‘Mentiras.’

‘Se não se tiver catorze libras e
dez pence, não se tem nada
além da luz da escassa lua.’
(Tradução: AIS)

People keep telling me:
Your poems, you know,
you’ve really got something there,
I mean really.

When the rent man calls,
I go down on my knees, and through
the conscience box I tell him,

‘This is somebody speaking,
short distance, did you know
I have something here with my poems?
People keep telling me.’

‘All I want is fourteen pounds
and ten pence, hold the poesy.’

‘But don’t you realise
I’ve got something here.’

‘If you don’t come across
with fourteen pounds and ten pence soon
you’ll have something at the side of the road,
made colourful by a little snow.’

‘But.’

‘But nothing,
you can’t pay me in poems or prayers,
or your husband’s jokes,
or with photographs of your children
in lucky lemon sweaters
hand-made by your dead grand aunt
who had amnesia and the croup.

‘I’m from the Corporation,
what do we know or care about poesy,
much less grand amnostic dead aunts?’

‘But people keep telling me.’

‘They lie.’

‘If you don’t have fourteen pounds
and ten pence, you have nothing
but the light of the penurious moon.’

Rita Ann Higgins, Goddess of the Mervue Bus, 1986