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sábado, 18 de agosto de 2018

O Reboliço olha para os astros

En la tranquila noche, mis nostalgias amargas sufría. 
En busca de quietud bajé al fresco y callado jardín.
En el obscuro cielo Venus bella temblando lucía,
como incrustado en ébano un dorado y divino jazmín. 
A mi alma enamorada, una reina oriental parecía,
que esperaba a su amante bajo el techo de su camarín,
o que, llevada en hombros, la profunda extensión recorría,
triunfante y luminosa, recostada sobre un palanquín. 
«¡Oh, reina rubia! -le dije-, mi alma quiere dejar su crisálida
y volar hacia ti, y tus labios de fuego besar;
y flotar en el nimbo que derrama en tu frente luz pálida, 
y en siderales éxtasis no dejarte un momento de amar».
El aire de la noche refrescaba la atmósfera cálida.
Venus, desde el abismo, me miraba con triste mirar.

Rubén Darío (1867-1916)

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Outro post longo [Eh! os poemas são assim, vou fazer o quê?...]

Epístola a Madame Lugones
Madame Lugones, J'ai commencé ces vers
en écoutant la voix d'un carillon d'Anvers...

Assim comecei, em francê
s, pensando em Rodenbach
quando fiz para o Brasil uma fuga... de Bach!

No Rio de Janeiro já eu prosseguira,
pondo em cada verso ouro e safira
e a esmeralda desses pássaros-moscas
que melificam entre as áureas sestas foscas
que temem os que temem o cruel vómito negro.
Já ali nã
o existe febre amarela. Alegro-me!
Et pour cause. Pan-americanizei
com um vago temor e muito pouca fé
na terra dos diamantes e da alegria
tropical. Encantou-me ver a vera maxixa,
mas vi também grande núcleo cordial
de almas cheias de amor, de sonhos, de ideal.
E se fazia um calor atroz, também havia
todas as consequê
ncias e vantagens do dia,
em panorama igual ao dos quadros e at
é
igual ao que imaginar se pudera... Basta.
Meu ditirambo brasileiro é ditirambo
que seu marido
aprovaria. Arcades ambo.
II
Mas o calor desse Brasil maravilhoso,
t
ão fecundo, tão grande, tão rico, tão formoso,
apesar da Tijuca e do céu opulento,
apesar desse foco vivaz de pensamento,
apesar de Nabuco, embaixador, e
dos delegados panamericanos que
fizeram o possível por fazer coisas boas,
saboreei o ácido do saco das minhas penas;
quero dizer, adoeci. A neurastenia
é um dom que me veio com a minha obra primeira.
Tenho vivido t
ão mal, e tão bem, como e tanto!o bom comedor guardo sob meu manto!
E t
ão bom bebedor sob esta capa!
Provei bocados de cardeal e de papa!...
E espremi o úbere
cerebral tantas vezes,
que estou grave. Isto é muito ruído e poucas nozes,
ao que dizem doutores de sapi
ência suma.
As doenças v
ão-se, em ilusão e espuma.
Receitam-me que n
ão faça nada, não pense em nada,
que me retire no campo a ver a madrugada,
mais as calhandras e com Garcilaso, e com
o sport. Bravo! Sim. Bem. Muito bem. E o La Nación?
E o meu trabalho diário e preciso e fatal?
N
ão se sabe que sou cônsul, como Stendhal?
É preciso que o médico que tal receite d
ê
também o livro de cheques do Crédit Lyonnais,
e mande um automóvel devorador de vento,
onde se passeie o meu egrégio aborrecimento,
farto de profilaxia, de ci
ência e de verdade.
III
Enfim, convalescente, cheguei à nossa cidade
de Buenos Aires, n
ão sem ter escutado
mister Root a bordo do Charleston sagrado;
mas a convalesc
ência durou pouco. Que digo?
A emoç
ão, o entusiasmo e o lembrar amigo,
o banquete do La Nación, que foi estupendo,
as minhas velhas seringas com seu pâ
nico estrondo,
e esse fervor portenho, esse perpétuo arder,
e o milagre de graça que brota na mulher
argentina, e minhas â
nsias de gozar essa terra,
puseram-me de nuevo com os nervos em guerra.
E regressei a Paris. Regressei ao inimigo
terrível, centro da neurose, umbigo
da locura, foco de todo o surmenage
onde faço muito bem o papel de sauvage
fechado na minha cela da rue Marivaux,
confiando só em mim e resguardando o eu.
E se o resguardei, senhora, que n
ão fui
o que chamam os parisienses uma p
êra!
Ao meu canto me v
êm buscar as intrigas,
as pequenas misérias, as traiçõ
es amigas,
e as ingratidõ
es. A minha maldita visão
sentimental do mundo aperta-me o coraç
ão,
e assim qualquer malandro me explorará a gosto.
Sou assim. Podem-me enganar com calma. É justo.
Por isso os astutos, despachados, dizem que
n
ão conheço o valor do dinheiro. Já sei!
Que ando, nefelibata, pelas nuvens... Entendo.
Que n
ão sou homem prático na vida... Estupendo!
Sim, confesso: sou inútil. N
ão trabalho
para arrancar a outro a sua pitança; n
ão desço
para levar a vida sórdida de certos adivinhadores.
N
ão poupo em seda, nem em champanhe, nem em flores.
N
ão combino subtis pequenezas, nem quero
tirar da boca o p
ão ao companheiro.
Compraz-me ver em colos brancos os diamantes.
Gosto de gentes de maneiras elegantes,
de palavras finas e nobres ideias.
Pessoas sem higiene nem urbanidade, de feios
tra
ços, avaros, torpes, ou malignos e rudes,
deixam, confesso, os meus entusiasmos mudos.
N
ão conheço o valor do ouro... Sabem esses
que tal dizem o amargo do jugo dos meus sisos,
do suor da minha alma, do meu sangue, da minha tinta,
do pensamento na obra e da idea prenhe?
Acaso nasci filho de milionário?
Terei tido Cirineu no meu Calvário?

IV
Assim continuei em Paris o começado em Anvers.
Hoje, eis-me aqui em Maiorca, la terra dels foners,
como diz Mossen Cinto, o grande Catal
ão.
E desde aqui, senhora, os meus versos a ti v
ão,
perfumados de sal marinho e flor de limoeiro,
ao suave alento das ilhas Baleares.
Há um mar t
ão azul como o Partenopeo.
E o azul celestial, vasto como um desejo,
o tecto cristalino brune com sol de ouro.
Aqui tudo é alegre, fino, s
ão e sonoro.
Barcas de pescadores sobre o mar tranquilo
descubro do terraço da minha villa,
que se alça entre as flores do seu jardim fragrante,
com um monte atrás e o mar diante.

V
Às vezes vou ao mercado, que fica
na Plaza Mayor. (Que Coppée, n
ão é verdade?)
Roço-me num núcleo crespo de mulherama,
que vem pela carne, a fruta, as ramas.
As maiorquinas usam uma saia modesta,
lenço na cabeça e a trança nas costas.
As que vi ao passar, bem visto.
E as que n
ão a levem não se enojem por isto.
Vi umas camponesas com seus negros corpetes,
corpos de odaliscas, olhos de pivetes;
e um véu que lhes cai pelas costas, pelo colo,
deixando ao ar livre o obscuro cabelo.
Sobre a saia clara, um avental vistoso.
E saúdam com um bon dia tengui gracioso,
entre os cestos cheios de batatas e couves,
pimentos de cores, tomates enrubescidos,
rosadas cebolas, mel
ões, melancias,
que falam das Arábias, das Andaluzias.
Cabaças e nabos para oferecer assuntos
a Madame Noailles e Francis Jammes juntos.

Às vezes detenho-me nesses mercados
como se respirasse sopros de ventos vastos,
como se entrasse com o bafo o mundo.
Estou diante da casa onde nasceu Ramón
Llull
. E nesse instante a memória me conta
as coisas que disse a Rosa à
Pimenta...
Oh, como eu diria o sublime desterro
e a luta e a glória do maiorquino de ferro!
Oh, como cantaria num canto sonoro
a vida, a alma, o numen, do maiorquino de ouro!
Dos fundos espíritos dos meus preferidos.
Seus robles filosóficos est
ão cheios de ninhos
de rouxinol. É outro e é irm
ão de Dante.
Quantas vezes pensou o seu verbo de diamante
diante da
velha Sorbona de Paris sábio!
Quantas vezes vi o seu infolio e o seu astrolábio
numa bruma vaga de sonho, e quantas vezes
o ouvi falar aos árabes, qual António aos peixes,
num imaginar de pretéritas coisas
que, de t
ão antigas, se sentem tão formosas!
VI
Fiz uma pausa.
O tempo pô
s-se mau. O marà fúria do ar não cessa de bramar.
O temporal n
ão deixa que entrem os vapores. E
um yatch de luxo busca refúgio em Porto-Pi.
Porto-Pi é uma ba
ía aqui perto, pitoresca.
Vista linda: águas belas, doce luz e terra fresca.

Ah, senhora, se fosse possível a alguns
deixar a sua Babilónia, seu Tiro, sua Babel,
para poder vir a fazer a vida inteira
nesta luminosa e espl
êndida ribeira!
Há, não longe daqui, um arquiduque austríaco
que as maç
ãs de Ceres e as uvas de Baco
cultiva, num retiro arquiducal e egrégio.
Hospeda como um monje —e a hospedagem é régia—.
Sobre as rochas ergue-se a mans
ão senhorial
e a ilha lhe brinda ambiente imperial.

É um parente de Jean Orth. Um átrida
que aqui encontrou
da sua vida o segredo certo.É um sábio. Aplaudamos o príncipe discreto
que aproveita
à beira-mar esse segredo.
A ilha
é florida e cheia de encanto em todas as partes.
H
á um ar propício a todas as artes.
Em Pollensa pintou Santiago Rusiñol
coisas de flor de luz e de seda de sol.
E h
á uma villa de retiro espiritual, famosa:
a literata Sand escreveu em Valldemosa
um livro. Ignoro se veio aqui com Musset,
e se a vampira sofreu ou gozou, n
ão sei.
Porque é que a minha vida errante não me trouxe a estas sãs
costas antes de as prematuras c
ãs
de alma e cabeza terem em mim feito a misturada
mescla de tristeza, de vida e de esperan
ça?
Oh, que bom maiorquino me sentiria agora!
Oh, como provaria sal do mar, mel de aurora,
ao sentir como num caracol no meu cr
ânio
o divino e eterno rumor do Mediterr
âneo!
H
á em mim um grego antigo que aqui descansou um dia,
depois de o deixarem louco de melodia
as sereias rosadas que atra
íram a sua barca.
Quanto o meu ser respira, quanto a vista abarca,
recordo-o com os meus íntimos sentidos;
os aromas, as luzes, os ecos, os ru
ídos,
como em ondas atávicas me trazem lembran
ças
que formam os meus sonhos, vidas e esperanças.
Mas onde está aquele templo de mármore, e a gruta
onde mordi aquele seio doce como uma fruta?
Onde os homens ágeis que as pedras redondas
apanhavam para os couros das suas fundas?...

Calma, calma. Isto é muita poesia, senhora.
Agora h
á comerciantes muito modernos. Agora
mandam barcos prosaicos a dourada Val
ência,
Marselha, Barcelona e Génova. A ci
ência
comercial
hoje é forte e arrecada tudo.
Entretanto, respiro o meu salitre e o meu iodo
brindados pelas brisas deste golfo imenso,
e a um tempo, como Kant e como o asno, penso.
É o melhor.
VII
Aqui a minha epístola se conclui.
H
á uma ânsia de tempo que da minha pluma flui
por vezes, como h
á vezes de enorme economia.
«Se h
á, disse, senhora, alma clara, é a minha».
Olha-me transparentemente, com o teu marido,
e guarda-me o que possas do olvido.

(Ruben Darío, 1916. Traduzido por mim, com a atenção inestimável de outro poeta.)

domingo, 9 de setembro de 2007

Outonal

En las pálidas tardes
yerran nubes tranquilas
en el azul; en las ardientes manos
se posan las cabezas pensativas.
¡Ah los suspiros! ¡Ah los dulces sueños!
¡Ah las tristezas íntimas!
¡Ah el polvo de oro que en el aire flota,
tras cuyas ondas trémulas se miran
los ojos tiernos y húmedos,
las bocas inundadas de sonrisas,
las crespas cabelleras
y los dedos de rosa que acarician!

En las pálidas tardes
me cuenta un hada amiga
las historias secretas
llenas de poesía;
lo que cantan los pájaros,
lo que llevan las brisas,
lo que vaga en las nieblas,
lo que sueñan las niñas.

Una vez sentí el ansia
de una sed infinita.
Dije al hada amorosa:
?Quiero en el alma mía
tener la aspiración honda, profunda,
inmensa: luz, calor, aroma, vida.
Ella me dijo: ?¡Ven!? con el acento
con que hablaría un arpa. En él había
un divino aroma de esperanza.
¡Oh sed del ideal!
Sobre la cima
de un monte, a medianoche,
me mostró las estrellas encendidas.
Era un jardín de oro
con pétalos de llama que titilan.
Exclamé: ?Más...
La aurora
vino después. La aurora sonreía,
con la luz en la frente,
como la joven tímida
que abre la reja, y la sorprenden luego
ciertas curiosas, mágicas pupilas.
Y dije: ?Más...? Sonriendo
la celeste hada amiga
prorrumpió: ?¡Y bien! ¡Las flores!
Y las flores
estaban frescas, lindas,
empapadas de olor: la rosa virgen,
la blanca margarita,
la azucena gentil y las volúbiles
que cuelgan de la rama estremecida.
Y dije: ?Más...
El viento
arrastraba rumores, ecos, risas,
murmullos misteriosos, aleteos,
músicas nunca oídas.

El hada entonces me llevó hasta el velo
que nos cubre las ansias infinitas,
la inspiración profunda
y el alma de las liras.
Y los rasgó. Allí todo era aurora.
En el fondo se vía
un bello rostro de mujer.
¡Oh; nunca,
Piérides, diréis las sacras dichas
que en el alma sintiera!
Con su vaga sonrisa:
?¿Más?... ?dijo el hada.
Y yo tenía entonces
clavadas las pupilas
en el azul; y en mis ardientes manos
se posó mi cabeza pensativa...


(Ruben Darío, 1867-1916)