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sexta-feira, 1 de setembro de 2017
domingo, 26 de março de 2017
Moinhos na Poesia (81)
Agora, é um ribeiro que nos acompanha e desaparece; muito embora numa fuga para trás, repetindo a verde, a branca estrada; logo, um vermelhar fumegante de telhado; viandantes que nos amaldiçoam; um cão, saltando, que arremete; mala-posta que passa, num turbilhão de poeira, furado de gestos humanos; galinhas esvoaçando; aquela presa de água, entre salgueiros; um velho perfil de moinho; uma junta de bois aterrorizada; um cavaleiro abraçado ao pescoço de uma égua que recua, aos corcovos, sobre a valeta; lavradores, curvados, no trabalho, férreas enxadas da pobreza reflectindo oiro, ao sol…
Teixeira de Pascoaes, A Beira (Num Relâmpago) / Duplo Passeio, Assírio e Alvim, p. 39. Pascoaes viajou num Isotta Fraschini entre São João de Gatão e Arganil, em Agosto de 1915. A emoção de correr, naqueles tempos, a 40km horários!
domingo, 1 de janeiro de 2012
O Reboliço é um nefelibata (64)
"A uma ovelha"
Entre as meigas ovelhas pobrezinhas
Que eu guardo pelos montes, uma existe
Que anda longe, balindo, sempre triste,
E vive só das ervas mais sequinhas.
Que pressentes na alma? Que adivinhas?
Etérea voz de dor acaso ouviste?
Que foi que tu nas nuvens descobriste?
Não és irmã das outras ovelhinhas!
Sobes às altas fragas inclinadas,
E contemplas o sol que desfalece
E as primeiras estrelas acordadas...
E assim ficas a olhar o céu profundo,
Faminta dessa relva que enverdece
Os outeiros e os vales do Outro Mundo.
Entre as meigas ovelhas pobrezinhas
Que eu guardo pelos montes, uma existe
Que anda longe, balindo, sempre triste,
E vive só das ervas mais sequinhas.
Que pressentes na alma? Que adivinhas?
Etérea voz de dor acaso ouviste?
Que foi que tu nas nuvens descobriste?
Não és irmã das outras ovelhinhas!
Sobes às altas fragas inclinadas,
E contemplas o sol que desfalece
E as primeiras estrelas acordadas...
E assim ficas a olhar o céu profundo,
Faminta dessa relva que enverdece
Os outeiros e os vales do Outro Mundo.
(Teixeira de Pascoaes)
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
domingo, 17 de agosto de 2008
Escreve Teixeira de Pascoaes a páginas 148 de O Penitente:
"Só os poetas conhecem o mundo, e podem falar dele, nas suas obras. Só eles, de alma e corpo, têm um fantasma, que é o viandante de todos os espaços. Esse fantasma, nas outras criaturas, não lhes sai para fora das células, entretido somente a olhar por elas. A inspiração é o espírito essencial do ser aflorado na nossa consciência, para agir na Eternidade e no Infinito."
Onze folhas adiante,
"Trihamos a terra e o céu. A areia do Deserto fica debaixo dos nossos pés; e a nossa fronte prolonga-se nas ideias que dela voam, na de infinito, por exemplo, se é que fazemos alguma ideia do infinito."
(Quem fala na primeira citação? E quem fala, na segunda? Vi algumas vezes a letra de Pascoaes, as maiúsculas e as minúsculas; de cada vez que a vi, quis ser a ponta dos dedos daquele homem, estar na mão dele comandada e saber, entre as veias, a carne e os nervos, o que o levava a desenhar um i grande ou um i pequeno.)
terça-feira, 27 de maio de 2008
Sentir e pensar
***
"Vemos como se ouvíssemos, e pensamos como se sentíssemos. A sensação obscurece-nos o raciocínio, e o raciocínio adultera a sensação. [...] O grande erro é este: os nossos sentimentos misturarem-se aos nossos pensamentos, que perdem a serenidade e a lucidez."
(Primeiro excerto: O Homem Universal [1937], p.42 da edição da Assírio & Alvim; segundo excerto: O Penitente (Camilo Castelo Branco) [1942], p. 131 da edição da Assírio & Alvim. Desenho de Teixeira de Pascoaes, sem data, com a inscrição "O morto e o seu fantasma"; foto do desenho [mazinha, com reflexo de vidro e bocado de moldura]: Reboliço.)
domingo, 4 de maio de 2008
"Some journeys cannot be put into words."
Se digo em voz alta as coisas em que penso, deixo de poder escrevê-las. É melhor que feche a boca e escreva. Se, quando ler o que escrevi, não me parecerem bons pensamentos, terei ainda a satisfação de saber que não as disse em voz alta, que ninguém fora de mim as soube ou foi por elas ferido.
É no que penso enquanto leio, muito devagar, O Penitente. Leio devagar porque em cada parágrafo me maravilho da fuga de Pascoaes ao seu biografado, Camilo Castelo Branco. Da fuga de Pascoaes ao Camilo homem, para (re)encontrar o Camilo Alma. Leio devagar também porque fujo eu dos parágrafos e me ponho a olhar para lá do granito que me suspende numa varanda, junto ao quarto onde dormiu Teixeira de Pascoaes. Leio que Camilo deve ter atravessado o Marão “montado numa azémola, fustigada de relâmpagos, excitada a urros de trovão, como se a montasse o próprio Júpiter” – e fujo para a serra à minha frente, abro os olhos a procurar nela os trovões, o céu fendido de raios, o medo na mula, Camilo afoito e Pascoaes sentado à janela a partilhar com um tecto de vidro e o tecto do mundo a energia da trovoada. Sigo e paro de novo, quando o Marão é Camilo que Pascoaes diz que o encontra, “escultura em bronze da mesma tempestade.”
É no que penso enquanto leio, muito devagar, O Penitente. Leio devagar porque em cada parágrafo me maravilho da fuga de Pascoaes ao seu biografado, Camilo Castelo Branco. Da fuga de Pascoaes ao Camilo homem, para (re)encontrar o Camilo Alma. Leio devagar também porque fujo eu dos parágrafos e me ponho a olhar para lá do granito que me suspende numa varanda, junto ao quarto onde dormiu Teixeira de Pascoaes. Leio que Camilo deve ter atravessado o Marão “montado numa azémola, fustigada de relâmpagos, excitada a urros de trovão, como se a montasse o próprio Júpiter” – e fujo para a serra à minha frente, abro os olhos a procurar nela os trovões, o céu fendido de raios, o medo na mula, Camilo afoito e Pascoaes sentado à janela a partilhar com um tecto de vidro e o tecto do mundo a energia da trovoada. Sigo e paro de novo, quando o Marão é Camilo que Pascoaes diz que o encontra, “escultura em bronze da mesma tempestade.”
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Fala Pascoaes ao Reboliço:
Fala o Reboliço a Pascoaes:
(*Teixeira de Pascoaes, "Duplo Passeio," 1942; Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, Introdução e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, X volume, IV da prosa, Lisboa, Bertrand, 1975, p. 141.)
"O narcisismo é caso grave, Reboliço; é o sentimento da nossa própria divindade. Só mais tarde abdicamos dela, trasladamo-la para Outrem... É quando desconfiamos da nossa pessoa muito adâmica e a entremostrar a cauda... Mas não abdicamos da nossa primazia ou do nosso egoísmo imperativo. Primeiro está o indivíduo ou o instinto alimentar, e, enfim, o sexual ou colectivo - o complexo de Lúculo e o de Édipo... O instinto alimentar, com todas as aberrações alcoólicas e gastronómicas, predomina até certa idade. Depois, é o lupanar e a sífilis, o casamento e o aborrecimento. Depois, são horas de dormir."*
Fala o Reboliço a Pascoaes:
- Se tal dizes da tua raça, Joaquim, não serei quem te desdiz. Horas de dormir, para mim - e como sabes - têm o ar do sagrado. Mas antes de recolher pergunto-me se essa cauda muito adâmica (tão adâmica, afinal, que te faz suspeitar de ti mesmo) que entremostras, essa cauda de demoniozinho egoísta, saberá fazer como a minha e abanar de felicidade por um passeio entre as azedas que agora enfeitam os montes. Livrava-te de algumas amarguras uma festa assim - mas entendo que te desse menos o que escrever... Não se poderá ter nunca tudo? Ora boa noite!...
(*Teixeira de Pascoaes, "Duplo Passeio," 1942; Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, Introdução e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho, X volume, IV da prosa, Lisboa, Bertrand, 1975, p. 141.)
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