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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Oh...

NA MORTE DE UM POETA

Não sei se nos seus poemas
se moviam figuras a quem
aconteciam coisas

como leio nas primeiras
notícias, mas sei que a todas as figuras
acontecem as mais variadas
coisas como

morrer

e ninguém como os poetas para o saber

estou, porém, em bruxelas, quando
isso acontece a um poeta do meu país,
a milhares de quilómetros de distância

alguém que, como eu, caminhou no continente
que daqui parte e que o amou como à arte
de fazer versos - e somos dois

somados a uma outra ideia de poeta:
alguém a quem acontecem coisas
como às figuras dos versos

coisas como

viver para escrever
como se escrevendo
se adiasse a morte

e dessa arte só restasse
uma outra morte: a de amar.

(Ricardo Marques, Bruxelas, 27/04/14. 
Muito obrigada, Ricardo.)

domingo, 9 de maio de 2010

O Reboliço é um nefelibata (31)

tristão e iseu

dantes até me vinham as lágrimas aos olhos
quando ouvia louis armstrong a cantar
st. james infirmary, aquela marcha fúnebre
a que já aludi há muito tempo, tão sombria, tão pungente,
tão desarmada e triste. já falei disso, sim, e
agora ocorre-me outra vez, nem eu sei bem porquê,
nesta penumbra anoitecida, como um pólen de surdinas
que escorressem das nuvens. e sei que me faz
sentir como se levasse um aperto no coração e
um ramo de flores, um ramo
de frágeis comissuras de ciclamen
e pétalas furtivamente humedecidas, tão pálidas
e azuladas, tão repassadas de tempo e pouca sorte,
nesse compasso rouco para a morte de amor:
so cold, so sweet, so fair,
deixai passar, deixai passar, onde quer que eles
estejam nunca houve amor assim,
iseu crepuscular, tristão desamparado,
ambos morrendo por de nada ter valido.
(Vasco Graça Moura, O Caderno da Casa das Nuvens, Edições Afrontamento, Porto, 2010, p. 43.)