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domingo, 29 de abril de 2018

Ruínas de Milreu


   É muito fácil, em Milreu, pisar involuntariamente uma formiga agigantada, embora pequena se comparada com o que resta do templo ou com as douradas transcritas para mosaicos cuja cor se foi esbatendo. Também é fácil tocar ou pisar pedrinhas soltas ou conchas dispostas em espiral no que seria o centro exacto do templo. Mais difícil é perceber o que herdámos realmente de tantos séculos, o que aprendemos ou desaprendemos com aquilo a que chamamos história. Deus, caso andasse por ali, habitaria as laranjeiras, separado de nós por umas grades.
(Manuel de Freitas, Sob o Olhar de Neptuno, edições 50Kg, Porto,  2018, p. 5.)

Sob o Olhar de Neptuno

(Foto da capa de Sob o Olhar de Neptuno, de Manuel de Freitas, edições 50Kg, Porto, Abril de 2018:
Reboliço, a pensar como é bom receber prendas dos amigos aniversariantes.)

segunda-feira, 23 de abril de 2018

"Os menó vai à praia"

O Reboliço ouve "a língua portuguesa como se fosse estrangeira", que é o que diz o Ivan Nunes sobre o conto de Geovani Martins. Lembra-o a voz de Bezerra da Silva falando do "pessoal do morro".

(O conto pode ser lido aqui.)

domingo, 15 de outubro de 2017

Moinhos na Poesia (86 e 87, dois poemas de Miguel Martins)

"Aldeia"

Adoro as levadas caudalosas,
serpenteando por entre avencas,
levando consigo pequenos blocos de terra,
ensopando a terra,
matando a sede a raízes
que mais parecem teias de aranha
cujo centro se esconde a vários palmos de distância
ou longilíneas tarântulas
Adoro os Verões iniciáticos,
a aprendizagem de caminhos e trabalhos sob as copas densas,
os banhos na represa por entre libélulas e alfaiates
e o esgar de nojo,
quando, da ponte,
se avista lá ao fundo um gato morto
preso nas silvas das margens de água límpida
Adoro os Invernos laboriosos,
as encostas escorregadias,
a lama nas botas,
a misteriosa caminhada até cada courela,
o gesto medieval que ceifa o talo à couve,
o toucinho na salgadeira
Adoro o regresso do ruído,
a chegada das crianças da cidade,
adoro vê-las subir às amoreiras,
as mãos miúdas confiando em nós de madeira centenária, enquanto os pais me visitam na adega,
cortamos uma broa e abrimos uma garrafa de morangueiro fresco
Adoro as casulas e os paramentos na sacristia
e o pó que os cobre nos meses de ausência do padre
e o branco nu da capela
e a pedra nua de todas as outras casas,
que é da cor das folhas de tabaco secas da plantação que o Eduardo tem ao fundo do povo e esconde dos fiscais
(ele que já viu mais mundo que todos os fiscais da região e trabalhou na PanAm e foi aos Estados Unidos)
Adoro as trutas apanhadas à mão e o viveiro de trutas, nossa única indústria desde que ruiu o moinho de água
e só Deus sabe quanto isso me custou e custa,
saber que não mais sentirei o cheiro do milho acabado de moer
Adoro as idas à mercearia da aldeia vizinha
e a pouquíssima variedade de produtos que aí se encontra,
como se estivéssemos em tempo de guerra
ou o século XX não ousasse começar por aqui
Adoro os fogões a lenha,
as enormes arcas de nogueira,
os colchões de palha de milho
confortavelmente concavados por décadas de hóspedes e a remota possibilidade de serem do tempo
em que João Brandão, “o terror das Beiras”, se acoitou nestas casas
Adoro os audazes mergulhos da ponte metálica coberta de caganitas de cabra
e as cabras
e a mão desusada que as conduz
e que sabe amar quando é chegada a noite
ou quando é chamada a iluminar um recanto de sombra
Adoro as lamparinas e os morcegos que vêm chupar o azeite das torcidas,
o cheiro das queimadas e o cheiro do tojo
acabado de roçar,
e as pequenas manchas roxas
que as amoras esmagadas imprimem no chão
Adoro as ameaças e as benesses do céu
e a certeza de que nelas se escondem todas as respostas da irrevogável vontade de Deus
e adoro como uns são pais dos filhos dos outros
e deixam Deus fora da questão
e não pegam em espingardas
Sim, adoro esta aldeia sem caçadores
em que os pardais só temem os espantalhos
e os gritos que ecoam desde o outro lado das montanhas
Adoro o tio Alfredo, que espantava as almas penadas, batendo com uma corda nas costas,
e o primo Alfredo
que trabalha tanto como quem trabalha mais
e mimetiza o mesmo gesto
para afugentar as dores que isso lhe dá por todo o corpo
Adoro a iniciação sexual dos rapazes,
quase sempre com outros rapazes,
anos antes de terem uma rapariga,
o que só acontece aos doze anos e depois não quer dizer nada,
que é como quem diz, fica vida fora
Adoro o orvalho desenhando folhas de plantas nos vidros das janelas
e janelas nas folhas das plantas
e a nitidez de todos os veios destas
e de todas as veias na pele das mulheres,
que nunca tomaram banhos de sol
e sempre cobrem as cabeças com lenços
ou chapéus de palha
E adoro-vos a vós
que nunca vistes nem vereis a minha aldeia
e acabais de a adoptar pelo útero

(Atol, Clube dos Poetas Vivos, Lisboa, 2002)


*
para o Changuito, com amor

Enquanto os pássaros pousam no parapeito da ponte
e aí encontram abrigo para a noite,
que se adivinha tão clara como a cidade finge ser,
Mário caminha num passo que quase parece estugado,
mas, na verdade, apenas sabe que se quer afastar
do ponto em que, vezes sem conta, uma explosão eclodiu,
embora seja evidente que esse ponto caminha consigo,
algures entre o estômago e a caixa torácica,
conquanto o sinta a tremeluzir na garganta,
como se uma tontura, feita nevoeiro, baixasse agora
sobre esse rio que, correndo nos dois sentidos,
quase sempre vem desaguar na sua boca.


Alcântara, Belém, Algés, e por diante 
sabe que, por ali, alcançaria a infância,
não fôra o intransponível muro que, de pedra e cuspo,
lhe atiraram aos olhos numa tarde sem data,
de maneira que o ronronar da mota ou o bater do coração
ficaram atulhados, sob um monte de lixo,
e nunca mais estiveram ao alcance da mão,
se bem que lhes sinta a falta quando calha
cruzar-se com um anjo na Calçada do Combro
e, na verdade, raro lhe aconteça pensar
em Steinbeck, Rockefeller ou na Guerra dos Seis Dias.

E esta distância, assim, tão longe e perto,
são dedos entre as mós de um moinho sem vento,
obrigando a escolher entre partir sem eles
ou aguardar sentado sobre a sua idade
até que a sua idade não interesse a ninguém
nem já saiba merecer o cetim de um sorriso.

Mas, ao menos, agora que os pássaros levantam do parapeito da ponte,
Mário — um pouco cerveja, um pouco loucura 
e muito coração — adormece no dorso de um cavalo de pedra
ouvindo o ronronar daquela moto
em que, ainda criança, rumava à claridade.

(O Caçador Esquimó, Lisboa, Fahrenheit 451, 2017, 21-22.) 

domingo, 26 de março de 2017

Moinhos na Poesia (81)

Agora, é um ribeiro que nos acompanha e desaparece; muito embora numa fuga para trás, repetindo a verde, a branca estrada; logo, um vermelhar fumegante de telhado; viandantes que nos amaldiçoam; um cão, saltando, que arremete; mala-posta que passa, num turbilhão de poeira, furado de gestos humanos; galinhas esvoaçando; aquela presa de água, entre salgueiros; um velho perfil de moinho; uma junta de bois aterrorizada; um cavaleiro abraçado ao pescoço de uma égua que recua, aos corcovos, sobre a valeta; lavradores, curvados, no trabalho, férreas enxadas da pobreza reflectindo oiro, ao sol…
Teixeira de Pascoaes, A Beira (Num Relâmpago) / Duplo Passeio, Assírio e Alvim, p. 39. Pascoaes viajou num Isotta Fraschini entre São João de Gatão e Arganil, em Agosto de 1915. A emoção de correr, naqueles tempos, a 40km horários!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

6ª resposta

Ao desafio lançado aqui pelo Miguel Martins, respondi com o relato da leitura de O Estrangeiro, de Albert Camus (numa edição igual à que aparece na imagem com que o Miguel ilustrou o post).
Não me lembro de ter lido a primeira frase. Nem a segunda. Mas recordo com imagem vívida a sensação de não poder senão continuar a ler, do desconforto e da necessidade de ler. A primeira frase que sublinhei foi “Isto não quer dizer nada.” É a quarta, se contar como terceira a que inclui aquilo que um telegrama dizia (“‘Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.’”). Foi aí que parei, detida por este atirar para a insignificância a notícia da morte de uma mãe. Por aquele tempo, habitando um quarto interior no segundo andar de um apartamento antigo, suado lugar depois de ruas e demasiados degraus, no Alto do Pina, desatava quanto podia os nós que me prendiam à minha. De uma infância e juventude agarrada às suas saias negras (tão enlutada andou), passava a regrar o tempo entre telefonemas para os montes além do Tejo, muito depois da Serra do Caldeirão, onde a província era ainda, no começo dos noventa, um lugar de acesso demorado e duro – e não só por falta de moedas para o que na altura eram os telefones públicos. Fazia-me eu e os livros eram o que tornava inconsútil a junção daqueles dois retalhos, o da vida antiga e o da vida nova. 
“Isto não quer dizer nada.” Assim se oferecia (e eu, por aquele sublinhado, aceitava) anular o que estava para trás. Sem imaginar o que viesse daí por diante – no livro e nessa que em mim estava a criar, as palavras encontravam-me num quarto que o apartamento tinha cheio de sol às horas da tarde. Era um dia de semana, devia ter voltado das aulas. A casa estava vazia de quem habitualmente ali andava: como o meu quarto não tinha janelas para a rua, invadi aquele que o sol invadia e onde soava a zoada quieta da rua, vizinhas a falar de janela em janela, poucos automóveis, alguém a perseguir alguém em corrida, uma gargalhada do café da esquina. O segundo andar permite esta distância e esta contiguidade. Seria Verão? O livro comprei-o pelo fim de Setembro – talvez fosse o começo de um Outono, quando as tardes são mornas, quantas vezes sem nuvens, e o ar seco faz propagar os sons como se estivessem mais longe ainda. Havia uma cadeira. Havia uma cadeira que instalei no meio do quarto – à medida que fui lendo, foi como se se fixasse mais ao chão, e as veias onde passava o meu sangue viessem a ser os veios da madeira onde me sentava, imóvel, as mãos nada mais que ramos ressequidos no vento do que imaginava da praia que lia, do quarto de hotel, da cela da prisão, passando as páginas, passando as páginas, passando as páginas.
“O facto de a sentença ter sido lida, não às cinco da tarde, mas às oito horas da noite” tirava à condenação tão grave a seriedade que Mersault esperava – na minha ideia, que a lera pelas cinco da tarde, a gravidade pesava-lhe séria. Às oito da noite talvez já me revolvesse entre a que deixava ir embora, quieta para sempre, conformada com a ordem e a familiaridade que até ali sentira à minha volta, e esta que chegava com o estrangeiro (“Quem é o estrangeiro?”, escrevi numa nota à margem), inquieta, daí para a frente insone, daí para diante refém de uma consciência de conhecer-me a me estranhar, que cada letra naquelas folhas ia afiando.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Fonte da Pipa

O Reboliço lembra-se da primeira vez que visitou os jardins e, por fora, o palácio da Fonte da Pipa. Ia no grupo da escola primária, com a sua Dona Antónia a comandar. O passeio teria sido por um Inverno como o de agora - além dos desenhos que se fizeram do palácio, teve de desenhar as flores das amendoeiras. Talvez por isso aquele palácio, tão fora da vila, tão excêntrico, sempre lhe estivesse associado, na ideia, ao que mais elementarmente, para si, definia o Algarve. Ardeu hoje de madrugada, com chamas de fogo. Morreu - ficou só paredes, sem as torres, sem os tectos pintados nem as colunas decoradas, as escadarias vastas, as janelas de muitos feitios, o sentido que faziam os muretes enfeitados com as cores dos cacos cerâmicos que, anos depois da visita inicial, lhe faziam lembrar os de um parque-jardim em Barcelona. Morreu, foi-se de vez, depois de há uns anos o terem meio escondido atrás de um longo muro de pedra, a bordejar a propriedade. Morrera já um pouco quando ao portão, distante da entrada uns 100 metros, lhe tinham estacionado dois gigantes de pedra que sussurravam a quem passasse "vai-te daqui." A vida do palácio eram os fantasmas que se dizia morarem ali e que hoje devem ter endoidecido, sem abrigo para assombrar.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

No vermelho

O Reboliço continua no vermelho (natalino, se calhar), enquanto relê um dos primeiros livros que comprou com dinheiro seu, há mais de trinta anos, numa livraria de Faro que já não há quase há tanto tempo.




Na última página, não numerada, da introdução - sem indicação de autor -, remete-se para outra escrita ainda:


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os Bichos

O Reboliço gostaria de dar a ler à Professora Maria Esthel Maciel as histórias sobre bichos, que Miguel Torga escreveu. E de ler o que ela, então, escrevesse.

domingo, 10 de abril de 2016

Para que serve a poesia?

O Reboliço gosta muito de ler poemas e de falar sobre ler poemas. Serve-lhe o gosto, portanto, a poesia. E o palato ansioso: com azeite, mel, queijo, cavacas, borrachões e outras doçuras beirãs que ganhou em troca de leituras.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Moinhos na Poesia (77)

(Foto da página inicial da canção "Grilos e grilões", de Sidónio Muralha: Reboliço, encantado. O volume chama-se Bichos, bichinhos e bicharocos, é uma edição facsimilada da 1ª, de 1949, com textos de Muralha, ilustrações de Júlio Pomar, então com 23 aninhos, e inclui as pautas - e um CD, nesta reedição - de Francine Benoit; saiu na althum, em co-edição com a Centauro e o Museu do Neo-Realismo de Vila Franca da Xira, em 2010. A cantiga é uma alegoria sobre a opressão dos fracos pelos fortes: do mais neo-realista que existir poderia.)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Não abandonar a comédia

O Reboliço ouve falar pessoas como Jon e Tracy: Jon Stewart não abandonou a comédia; esta é a razão por que, desde logo, é inteligente e cómico e um bom exemplo.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Esse Cabelo

(Foto montagem do marcador e de um, entre todos os belíssimos parágrafos de Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida: Reboliço, a ler.)

"Um dia, um livro alimentar-me-á a mim como se mostrasse a alguém um álbum antigo dizendo que até era bonita, como as Testemunhas de Jeová diziam à avó Maria da Luz para a consolar. Talvez nesse dia me seja claro como toda a infância é um álbum de infância - no dia em que o livro for o meu oxigénio e eu já não me lembrar do que nele conto, e a pieguice da memória for ultrapassada pela pieguice do fim. E acabarei nessa vaidade comigo mesma, folheando o livro, vaidade que é o fim de se ser um indivíduo, enquanto à nossa volta alguém se atabalhoa para nos dar à boca um copo de água, uma toalha húmida, uma palhinha, um termómetro, por entre frascos vazios, treva, fedor e comandos de televisão; enquanto se festeja um aniversário e a consciência me segreda que já chega, basta, ide para casa." (59-60)

segunda-feira, 8 de junho de 2015

THE MORBID ANATOMY OF SOME OF THE MOST IMPORTANT PARTS OF THE HUMAN BODY

Novos poemas da Inês Dias , numa revista à ESC:ALA com mais letras e retratos lá dentro.

sábado, 12 de julho de 2014

O Reboliço é um nefelibata (90)

(Capa de H., de Patrícia Esquiva: composição de Pedro Serpa sobre desenho de Bárbara Assis Pacheco, sobre história "O homem-nuvem (A partir de Berndnaut Smilde)", a partir de "nuvens magritteanas"; título que é de Lispector e que é vigas de uma casa sem paredes dos "homens-quase", que "a máxima cartesiana não se aplica mais" e o que ali voeja são personagens de contos russos e de peças de teatro surreal-existencialista. Vertigem boa, vertigem boa.)

terça-feira, 3 de junho de 2014

O lugar

"a árvore é mais do que um produtor de sombra, é uma memória que virá sempre associada àquela arquitectura, àquele lugar"

(António Belém Lima sobre o que o cinema pode ensinar à arquitectura, a propósito de Trás-os-Montes. No mais recente fascículo da colecção "O Lugar dos Ricos e dos Pobres na Arquitectura e no Cinema em Portugal". Da Dafne.)

domingo, 16 de março de 2014

Pass(e)ar em Paris

(Hip-foto de uma página de Passages Couverts Parisiens, de Jean-Claude Delorme e Anne-Marie Dubois, sobre fotografias de Martine Mouchy: Reboliço, a desenterrar material bibliográfico de profunda investigação, já com 13 anos, mas para usufruto local e actual, com grande regozijo e melhores companhias. A história das "passagens de Paris" conta-se todos os dias - em maio de 2001, por exemplo, a "Galerie Vivienne" estava quase ao abandono. Hoje é um mimo. Essa e outras. Com congressos e beberetes, vendas privadas de alta moda e gente a passar lá dentro, luz do céu a cair pelo envidraçado dos tectos e as almas dos lugarinhos escondidas atrás dos relógios e das tabuletas das lojas, a olharem para os flâneurs turistas e a trocarem gargalhadas.)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"É sempre agora.”

Maria Filomena Molder, sobre tudo.