Não se lembrava o Reboliço que hoje era dia da Espiga. Alertado por letras amigas, espetou muito as orelhas, abriu os olhos e sacudiu o pêlo curto. Antes de se pôr ao caminho, ainda alçou a pata de trás para coçar o marasmo daquele bocadinho de pele no lombo, adormecido. Fez tinir o guizo ao abanar a cabeça e, enquanto o ouvia, imaginou o campo de papoilas, as espigas já secas e gordas, o ramo de oliveira, os malmequeres, a fatia de pão e a moeda - mais o baracinho para atar tudo e pendurar atrás da porta. "Hiiiii - ainda vou fazer fosquinhas à Tiaga, que é gata de cidade mas bem gostaria de ir neste passeio!"
quinta-feira, 25 de maio de 2006
quarta-feira, 24 de maio de 2006
No Cais da Poesia (actualizado)
Agora com link, itálico e tudo (leva à página do Instituto Italiano de Cultura em Lisboa, pois a da UAlg exige login...). Trata-se do II Encontro Internacional de Poetas, organizado pela Universidade do Algarve. Amanhã, sexta e sábado.
terça-feira, 23 de maio de 2006
Cais da Poesia
Começa esta quinta-feira, no Clube Farense, o Cais da Poesia. Vêm a Faro poetas portugueses e não só. Ainda hei-de descobrir um linquinho...
segunda-feira, 22 de maio de 2006
Sapato pintado, quem te pintou?
(Foto: Vasco Célio) Já está aí à direita um link novo, para um projecto que será engraçado seguir. Explica o João Rei, da B.Side: "Invited by VANS Portugal, I was challenged to customize a line of 65 pairs of VANS slip-on model. This is a diary of this project. In this photoblog you can follow all the details of these one-of-a-kind shoes." Que é como quem diz, na língua do burgo, que a VANS pediu ao João que enfeitasse uma carrada de pares de sapatos deles e que o blogue que agora linkei é um diário desse projecto. Tudo documentadinho, como manda a sapatilha, pelo grande Vasco Célio.
O João é um moço cheio de ideias, das idades do Reboliço; andaram à escola juntos e tudo. O Vasco Célio é O cunhadão!
Mudança de mó
No fim-de-semana, o Reboliço entreteve-se a rever um registo aí de finais dos anos 50 (ainda ele não era nascido, mas já tinha havido uma série de cães, cadelas e cachorros no moinho) chamado "Moinhos de Beja". A coisa dura meia hora e praticamente só se vê o Moinho Grande. Com as velas a girar, com os homens dentro dele a recolherem farinha e a carregarem sacas, com os homens fora dele a armar as velas e a desarmá-las e - o mais extraordinário, a mudança de uma mó. A vontade do Reboliço era conhecer todos os pormenores técnicos do processo. Mas, mesmo sem os saber (os pesos exactos da pedra velha e da pedra nova, por exemplo), ficou impressionado. O filme foi feito por alguém do extinto Cine-Clube de Beja, em película de 8mm e - diz o pai, que também está nas imagens - que sem recurso a iluminação artificial (quer as tomadas no exterior quer no interior do moinho; o dia estava solarengo). O primo Tó-Mané, aqui há uns anos, arranjou quem passasse para uma fita de VHS as imagens recolhidas. O Reboliço vai até ao quintal, ao canto mais esconso, e escava para desenterrar mais informação. Assim que a tiver, ou souber passar para aqui excertos do video, mostrará.
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Moinho
sábado, 20 de maio de 2006
Acordar cedo
O Reboliço já aqui o disse (recordando-se de James Morrison): não haverá remissão para quem desperdiçar o amanhecer. Volta e meia, percebe isso no pêlo. Desperta mais cedo, sai para a rua, aspira o ar ainda fresco (este ar de Primavera, que começa a vir já só na manhãzinha) e sente chegar o quente que se instalará ao longo do dia. Pensa: "Vem, hora de sol. Vem, para eu me estirar na areia quente e sentir-me o couro retesado antes de mergulhar no alívio das ondas. Chega já, mas demora o teu vagar, hora morna. Quero adormecer debaixo de ti."
quinta-feira, 18 de maio de 2006
"Support the local artists"
O título deste post é um lema do Otelo que vale para "apoiemos os artistas de quem gostamos" - principalmente se gostamos deles pelo trabalho que fazem. Assim, sendo, sendo assim (ou seja, dêmos as voltas que dermos), quem quer que passe aqui pelo moinho há-de desviar a estrada e ir ali votar num concurso de fotografia (têm que se registar primeiro, coisa de um minutito). Há-de ver muitas imagens e votar na que quiser, claro está. Mas o Reboliço, que adora ser imparcial mesmo quando não é, diz já que votou nesta fotografia do Nelson e que gostaria de a ver ganhar. Não está sozinho na campanha. Vejam lá se não merece:
Poesia em retratos
Se o Reboliço tivesse as botas das Sete Léguas, como o gato, ia amanhã numa patinha a Vila do Conde, ver esta exposição. Mas não tem e mora longe. Fica sossegado à beira da Tiaga, que ronrona em cima da mantinha azul. "Deixa estar," diz-lhe ela, "o Nelson depois logo mostra."
quarta-feira, 17 de maio de 2006
Beatices
Eu: Traz lá aí o tercinho que eu te trouxe de Santiago, fáxavor, p'ra mostrar ao pai.
Pai (baixando e abanando a cabeça): Estão já perdidas, isto é uma desgraça...
Mãe: Ó filha, mas aquilo não é um terço. É uma dezena, queres ver?
Mano: Amostra, amostra. Eh pá, se pagaste por terço e te venderam uma dezena, ficaste a ganhar!
Pai (baixando e abanando a cabeça): Estão já perdidas, isto é uma desgraça...
Mãe: Ó filha, mas aquilo não é um terço. É uma dezena, queres ver?
Mano: Amostra, amostra. Eh pá, se pagaste por terço e te venderam uma dezena, ficaste a ganhar!
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Família
terça-feira, 16 de maio de 2006
Limanitos
O Reboliço é muito curioso (para rimar com o "Preguiçoooooso", que o dono lhe chamava) e lê os comentários todos. Agora mesmo, alguém que se assina Limão deixou uns quantos. O nome fez lembrar ao Reboliço os limanitos, muito amarelos e tamanho de amêndoas da Páscoa, que se vendiam na mercearia do Largo dos Bairros Alegres. Eram rebuçados do mais enjoativo que há. A tia tinha para vender limanitos e laranjinhas, cada um da cor respectiva. "Nita, queria vint'cinco t'stões de limanitos."
segunda-feira, 15 de maio de 2006
Fartura!
Num fim-de-semana só, fiz o que já há muito não fazia: vi quatro filmes! Primeiro, o Drawing Restraint 9; depois, o Novo Mundo; a seguir, o Inocência; e, finalmente, o Matador. Tirando o Barney, que me deu sono, foi uma boa mini-saison.
"Deixa torrar, que 'tá brando..."
O Reboliço tem tido muita gente boa a contar-lhe histórias. Desde novo (ia escrever "pequenino", mas pequenino sempre ele foi). A Senhora Virgília, por exemplo, que lhe dava misturas preciosas da menina do Touro Azul com episódios do Velho Testamento, enquanto lhe ensinava a ver as horas. Ou a Tia Patrocínia, que pontua as histórias com perguntas retóricas sobre a moral de cada acontecimento e remata, antes da resposta, com um "Pooooois" prolongadíssimo. É ela que usa a expressão, que quer dizer "aguardemos para ver o que daqui sai..."
sexta-feira, 12 de maio de 2006
Podem parar as buscas!
O cão do Fraga já reapareceu. Ai, Rafa, Rafa, as cadelinhas! Eu bem sei (que a Tiaga não me ouça), é um desassossego...
quinta-feira, 11 de maio de 2006
quarta-feira, 10 de maio de 2006
terça-feira, 9 de maio de 2006
A uma gloriosa leitora ;)
O Reboliço tem saudades de muita gente. Um dos maiores gostos na sua canina vida é pensar que, quando se lembra dos que ama e com quem não fala todos os dias, lá onde estão também se lembram dele. Ter a certeza disso.
segunda-feira, 8 de maio de 2006
"Não acredito em poetas felizes"...
... foi o que disse o Fernando Esteves Pinto na Ler Alto do passado dia 5, a propósito da ideia de que é preciso estar-se infeliz para se escrever poesia. Lembrei-me logo de Thoreau e de não me conseguir decidir (o Reboliço não escreve poemas, nem quando está muuuuuito triste):
"My life has been the poem I would have writ,
But I could not both live and utter it."
sábado, 6 de maio de 2006
Carta de Barcelona
Encontrei há dois meses uma carta que escrevi e nunca cheguei a enviar. É um “arquitexto” das minhas anotações de viagens, parece-me. Ontem à noite, inesperadamente, estive nos Artistas e aproveitei a sessão do Ler Alto para a ler em público. Percebi finalmente porque tenho andado com a carta na mala. Ao relê-la, penso de novo em Barcelona. E em Nova Iorque.
“Barcelona, 11 de Agosto de 2002
Estou sentada na varanda da casa dos amigos que me acolheram. Dá para as traseiras de um quarteirão numa zona chamada El Putxet, que quer dizer “a montanhita”, ou “o montezinho”: para nordeste eleva-se um pequeno monte coberto de pinheiros. Passa pouco das oito da manhã, o sol já vai subindo e está quente, ao contrário de ontem. A esta hora, havia nuvens a cobri-lo e nem sequer se lhe adivinhava a presença. Sopra uma aragem, forte às vezes, suavezita a maior parte do tempo. É domingo e o bairro está silencioso. A casa também está em silêncio, os seus donos ainda dormem. Terão sido gaivotas ou corvos, o bando grasnante que passou agora e arrastou atrás de si uma dança de vento? Fecho os olhos, lacrimejantes da força do sol, do branco da página e do movimento mais atrevido do ar. Sinto-me bem. Tem este condão, o sol descoberto. Quando o vento passa com mais força, ouve-se o cair de gotas de água em alguns telhados ou nas persianas da janela – alguém abriu uma, agora mesmo. Foi da chuva que caiu ontem e durante esta noite. A luz é límpida, como é sempre depois de chover. A pele da cara vai-se-me retesando na resposta ao sol, mas sabe bem este calor, esta calma e estar a escrever-te. “As pedras jamais saberão de amores.” E ninguém, se ninguém o disser. Penso muito mais na maneira como terei de dispor o espaço lá em casa. Ah, quando terminar o trabalho que tenho em mãos! – farei uma limpeza geral, deitarei coisas fora, recomeçarei uma vida. Conto só comigo, mesmo se tenho de condicionar os movimentos com o espaço dos outros, com o tempo deles também. Tudo será pesado, até as tuas decisões, a tua vida.
No chão, as sombras da varanda vão-se desviando, muito devagar, para nascente. A janela do quarto onde dormi bateu outra vez, com menos força do que há bocadinho. Ainda me dói o joelho direito, mas não me incomoda muito. Esta manhã voltaremos ao Centro de Cultura Contemporânea, num antigo hospital para mulheres desonradas. É um edifício bonito. Hei-de voltar lá, contigo.
Olho para as minhas unhas, desfeadas de lhes roer as peles, secas pela acção da saliva. Penso no meu cabelo, enfraquecido de não poder deixar de passar a mão por ele. Vou sendo – vou-me transformando naquilo que é o resto do que faço. Trinta e dois anos não tarda nada. Menos sete do que tu, e mais antiga. Menos forte. Não mudará nada – em mim, como diria a poeta. É espantoso, como o céu se limpou desde ontem. Tocou o sino de uma igreja. O sol está ainda mais forte, terei que abrigar-me. Olho mais uma vez para as mãos e decido parar aqui.”
“Barcelona, 11 de Agosto de 2002
Estou sentada na varanda da casa dos amigos que me acolheram. Dá para as traseiras de um quarteirão numa zona chamada El Putxet, que quer dizer “a montanhita”, ou “o montezinho”: para nordeste eleva-se um pequeno monte coberto de pinheiros. Passa pouco das oito da manhã, o sol já vai subindo e está quente, ao contrário de ontem. A esta hora, havia nuvens a cobri-lo e nem sequer se lhe adivinhava a presença. Sopra uma aragem, forte às vezes, suavezita a maior parte do tempo. É domingo e o bairro está silencioso. A casa também está em silêncio, os seus donos ainda dormem. Terão sido gaivotas ou corvos, o bando grasnante que passou agora e arrastou atrás de si uma dança de vento? Fecho os olhos, lacrimejantes da força do sol, do branco da página e do movimento mais atrevido do ar. Sinto-me bem. Tem este condão, o sol descoberto. Quando o vento passa com mais força, ouve-se o cair de gotas de água em alguns telhados ou nas persianas da janela – alguém abriu uma, agora mesmo. Foi da chuva que caiu ontem e durante esta noite. A luz é límpida, como é sempre depois de chover. A pele da cara vai-se-me retesando na resposta ao sol, mas sabe bem este calor, esta calma e estar a escrever-te. “As pedras jamais saberão de amores.” E ninguém, se ninguém o disser. Penso muito mais na maneira como terei de dispor o espaço lá em casa. Ah, quando terminar o trabalho que tenho em mãos! – farei uma limpeza geral, deitarei coisas fora, recomeçarei uma vida. Conto só comigo, mesmo se tenho de condicionar os movimentos com o espaço dos outros, com o tempo deles também. Tudo será pesado, até as tuas decisões, a tua vida.
No chão, as sombras da varanda vão-se desviando, muito devagar, para nascente. A janela do quarto onde dormi bateu outra vez, com menos força do que há bocadinho. Ainda me dói o joelho direito, mas não me incomoda muito. Esta manhã voltaremos ao Centro de Cultura Contemporânea, num antigo hospital para mulheres desonradas. É um edifício bonito. Hei-de voltar lá, contigo.
Olho para as minhas unhas, desfeadas de lhes roer as peles, secas pela acção da saliva. Penso no meu cabelo, enfraquecido de não poder deixar de passar a mão por ele. Vou sendo – vou-me transformando naquilo que é o resto do que faço. Trinta e dois anos não tarda nada. Menos sete do que tu, e mais antiga. Menos forte. Não mudará nada – em mim, como diria a poeta. É espantoso, como o céu se limpou desde ontem. Tocou o sino de uma igreja. O sol está ainda mais forte, terei que abrigar-me. Olho mais uma vez para as mãos e decido parar aqui.”
quinta-feira, 4 de maio de 2006
Um poema de História
(para o JH)
"Mesquita de Córdova"
Haviam sido os fustes de pequenos bosques
a recortarem-se no azul do céu,
ao cimo das colinas, ou à beira de água
espelhando-se nelas como a cristalina
de ninfas ondulância. O dardejar do tempo
e da cristandade os fulminou. Jaziam
tombados entre as ervas, como sexos
dormindo na revôlta grenha; ou, inda agudamente,
inúteis penetrando sem desejo
a macieza húmida das nuvens.
Róseos,
brancos, irisados, foram convocados
para a glória de Alá. De toda a parte vieram,
a rastros, dorso, em carros, convergindo
para a cidade branca, atravessando os rios,
as serranias áridas, as planícies pálidas;
e as chuvas lavavam-nos da poeira do tempo
e dos caminhos.
Um a um erguidos,
já de um a outro os arcos se dobravam,
tão curvamente ultrapassados, duplos,
na intensidade tensa de reuni-los
em floresta imensa, erguidos e coroados.
E de bosquetes para, aladas frondes,
serem dos deuses o repouso, ou de
nítidas cercas em triclínios calmos,
vieram concentrar-se na penumbra
em que o mihrab a um lado é uma estridência de ouro.
De novo um tecto é o que sustentam na viril
segurança para que são fustes. Mas um tecto só:
de toda a parte vieram, ruínas fulminadas,
suportes dispersos dos deuses e dos homens,
para alinhar-se múltiplos na escrita
marmórea e colunar da inefável glória
do nome que é um tecto horizontal
sobre o deserto humano, frio como as lages,
macio como a aragem que se enrosca neles,
cruel como a faísca que os derrubaria,
e ardente como o sol que amadurece
os laranjais do páteo.
Vieram e ficaram
floresta exacta.
Alá partiu, deixando a branca
cidade às moscas, à poeira, às torres de onde
dura de sinos se tornou a voz
do muezzin cantando à tarde.
Mas
alguém pode partir de uma tão rígida
viril floresta: deuses trazidos
e congregados para Sua glória?
(Escreveu isto Jorge de Sena em Araraquara, entre 7 e 8 de Janeiro de 1963, de acordo com a edição onde o poema foi incluído, da responsabilidade de Mécia de Sena: Poesia II, das Edições 70, 1988.)
"Mesquita de Córdova"
Haviam sido os fustes de pequenos bosques
a recortarem-se no azul do céu,
ao cimo das colinas, ou à beira de água
espelhando-se nelas como a cristalina
de ninfas ondulância. O dardejar do tempo
e da cristandade os fulminou. Jaziam
tombados entre as ervas, como sexos
dormindo na revôlta grenha; ou, inda agudamente,
inúteis penetrando sem desejo
a macieza húmida das nuvens.
Róseos,
brancos, irisados, foram convocados
para a glória de Alá. De toda a parte vieram,
a rastros, dorso, em carros, convergindo
para a cidade branca, atravessando os rios,
as serranias áridas, as planícies pálidas;
e as chuvas lavavam-nos da poeira do tempo
e dos caminhos.
Um a um erguidos,
já de um a outro os arcos se dobravam,
tão curvamente ultrapassados, duplos,
na intensidade tensa de reuni-los
em floresta imensa, erguidos e coroados.
E de bosquetes para, aladas frondes,
serem dos deuses o repouso, ou de
nítidas cercas em triclínios calmos,
vieram concentrar-se na penumbra
em que o mihrab a um lado é uma estridência de ouro.
De novo um tecto é o que sustentam na viril
segurança para que são fustes. Mas um tecto só:
de toda a parte vieram, ruínas fulminadas,
suportes dispersos dos deuses e dos homens,
para alinhar-se múltiplos na escrita
marmórea e colunar da inefável glória
do nome que é um tecto horizontal
sobre o deserto humano, frio como as lages,
macio como a aragem que se enrosca neles,
cruel como a faísca que os derrubaria,
e ardente como o sol que amadurece
os laranjais do páteo.
Vieram e ficaram
floresta exacta.
Alá partiu, deixando a branca
cidade às moscas, à poeira, às torres de onde
dura de sinos se tornou a voz
do muezzin cantando à tarde.
Mas
alguém pode partir de uma tão rígida
viril floresta: deuses trazidos
e congregados para Sua glória?
(Escreveu isto Jorge de Sena em Araraquara, entre 7 e 8 de Janeiro de 1963, de acordo com a edição onde o poema foi incluído, da responsabilidade de Mécia de Sena: Poesia II, das Edições 70, 1988.)
O Mano anda a ver coisas:
Alessandro de Medicis por Pontormo, séc XVI (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)
Bill Pulman por David Lynch, séc XX (Lost Highway)O que lhe chamou a atenção, além da expressão e da posição dos retratados e das semelhanças dos jogos de sombras, foi a coluna vertical (em ambas as imagens o extremo de uma parede), luminosa, do lado direito. Tem ainda outra intuiçao: "Acho que Pontormo é um anagrama de Lynch em cirílico arcaico, invertido. Se conseguir provar a minha teoria, digo-te".
Quando lhe agradeci a revelação, respondeu (afinal, não é assim tão merceeiro): "Por cada revelação, grátis uma ampliação."
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David Lynch,
Mano,
Pontormo
quarta-feira, 3 de maio de 2006
Pesadelos
O Reboliço adormeceu com a Tiaga enrolada sobre a sua barriga. Começa por atribuir a esse peso no estômago a noite inteira de pesadelos. Não se recorda sobre o que eram os sonhos maus, mas lembra-se de ter acordado a meio da noite, cansado do ritmo que fazia de um sonho único - e não necessariamente incomodativo - um pesadelo: mal terminava, voltava ao início e repetia-se; voltava ao início e repetia-se; voltava ao início e repetia-se. Nunca tal lhe acontecera. Ao almoço, comera massa de espirais. No dia anterior, caracóis. Seria?...
terça-feira, 2 de maio de 2006
Caracolinhos
Chamem-lhe o que quiserem, mas o Reboliço gosta de caracóis. Dos pequeninos, dos grandes, das caracoletas, dos assim-assim. Bem cozidos, de alho e orégãos, é a morte deles! Criados nas canas do c'runchoso do moinho, escondidos entre as folhas de couve, colados a estragarem a tinta encarnada das portas e das janelas, recolhidos pelos dedos impiedosos da mãe. Gosta deles quando, como lhe conta a mãe, na humidade da noite fazem uma carreirinha brilhante da sua baba nas pedras da calçada que o pai dispôs em frente ao jardim. Bichos que hão-de ser retirados das casquinhas, com o cuidado de um palito ou dos picos de uma pita, enroladinhos para não se quebrar deles parte nenhuma, metidos sobre a língua, mastigados e engolidos. É limpinho.
segunda-feira, 1 de maio de 2006
Maio
"Atacar o Maio" significa comer alguma coisa antes de raiar o sol, no dia 1. O mais correcto é erguer-se a gente cedinho e meter à boca um bocado de pão. Mas o Reboliço é tramado e faz ao contrário, deita-se tarde no domingo - mesmo antes de ir dormir, como já é Maio e ainda não há sol, ataca um petisquinho!
sábado, 29 de abril de 2006
Accomplishment
É uma palavra que normalmente se traduz por "sucesso". Mas há locuções mais aproximadas, ainda que menos elegantes, como "coisa cumprida", ou "trabalho feito". Esta noite, na Casa da Cultura de Loulé, mais uma vez sobe à cena (é que o palco é elevado...) Notas para Esquecer. Os actores estão cada vez melhores!
sexta-feira, 28 de abril de 2006
Dame Muriel
Sei, quase um mês depois, da morte de Muriel Spark. Ando desatenta, ou não se liga muito a esta escocesa simpática e ferrenha da boa escrita?
quinta-feira, 27 de abril de 2006
quarta-feira, 26 de abril de 2006
Continua o mano (chame-se-lhe parvo!...)
O Reboliço já tinha pensado deixar aqui um agradecimento público ao mano pelos momentos de inspiração para as Cartas. Não que ele o lesse - diz que nunca sabe o endereço, e que se aborrece de labirintar pelo Google à procura da página. Suspiro. Agora, isto:
"Olha, sabes, estive a pensar numa coisa... esta cena dos blogues podia dar uns dinheirinhos...
Eu vendia-te à linha. O que dizes?, e depois até podíamos fazer sociedade e crescer, mandar para outros blogues e assim..." (O Reboliço aprecia particularmente o "crescer". Gosta da ambição, tão característica do mano.)
"Pensa lá nisso, tenho muita inveja desses marmelos que passam os dias a olhar para o tecto a tentar encontrar maneira de ganhar uns cobres sem fazer nenhum... Se a coisa tivesse sucesso, eu podia passar a integrar esse clube!"
É justo.
"Olha, sabes, estive a pensar numa coisa... esta cena dos blogues podia dar uns dinheirinhos...
Eu vendia-te à linha. O que dizes?, e depois até podíamos fazer sociedade e crescer, mandar para outros blogues e assim..." (O Reboliço aprecia particularmente o "crescer". Gosta da ambição, tão característica do mano.)
"Pensa lá nisso, tenho muita inveja desses marmelos que passam os dias a olhar para o tecto a tentar encontrar maneira de ganhar uns cobres sem fazer nenhum... Se a coisa tivesse sucesso, eu podia passar a integrar esse clube!"
É justo.
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Mano
O mano e os círculos infernais
O Reboliço sabe que, para assustar o mano, lhe basta dizer "Banco!" ou "Finanças!". Segundo ele, "no 5° círculo do inferno (ou outro) onde o Dante pôs uns gajos a assar e o Woody Allen pôs o tipo que inventou as divisórias de alumínio... 'tás a ver? Eu punha gajos das Finanças e cambada dessa por aí abaixo..."
>
Mano
segunda-feira, 24 de abril de 2006
1755
Para ver, porque dá gosto ver coisas muito bem feitas. Textos bons, actores bem dirigidos, encenação excelente, cenários pensados ao milímetro, música perfeita!
sexta-feira, 21 de abril de 2006
quarta-feira, 19 de abril de 2006
E se não escrevo?
Será por não ter nada para dizer? Há uns dias acordei a meio da noite - ralações. Agarrei num molho de folhas limpas e escrevi. Reli esta manhã e não me lembro de ter escrito aquilo, ainda que a letra seja a minha - o que me faz pensar que, na verdade, há coisas que têm de ser escritas, malgré moi même.
segunda-feira, 17 de abril de 2006
Há alturas em que o mundo parece muito injusto.
O Reboliço não é de ficar acabrunhado, metido em si quando lhe "entra uma paixão pelo organismo". Mas há dias em que, quando procura o riscozinho de luz entre o peso das cortinas, só desvela mais negrume. Faz então o que lhe soa mais sensato: põe a pata direita sobre a esquerda, as duas por baixo do focinho, deitado. Inspira fundo ao mesmo tempo que deixa cair as pálpebras e pensa: quando abrir os olhos, tudo estará mais leve. A alternativa seria gritar com alguém, dizer mal do mundo, espernear. Nada que lhe dê gosto - gritar com alguém, só se for para que se ouça de muito longe como é grande o amor que tem; dizer mal do mundo, só se for para se queixar de ser o mundo pequeno e curto; espernear, só se lhe fizerem cócegas na barriga...
(Estava no gabinete, entrou uma senhora que vem limpar o caixote do lixo e ver se há outras limpezas a fazer. Pedi-lhe que deitasse fora umas flores já secas da jarra, que o meu colega trouxera. Ofereceu-se para levar a jarra e despejar dela a água. Foi. Regressou com a jarra limpinha e um sorriso do mais largo. Há recompensas, também.)
(Estava no gabinete, entrou uma senhora que vem limpar o caixote do lixo e ver se há outras limpezas a fazer. Pedi-lhe que deitasse fora umas flores já secas da jarra, que o meu colega trouxera. Ofereceu-se para levar a jarra e despejar dela a água. Foi. Regressou com a jarra limpinha e um sorriso do mais largo. Há recompensas, também.)
domingo, 16 de abril de 2006
Páscoa fora do moinho
Não terá sido a primeira vez, mas foi estranho porque a família estava quase toda junta. O Reboliço passou a Páscoa fora do moinho.
Aproveitou para se imiscuir nas tradições da terra onde esteve. A "Mãe Soberana", de Loulé, desce neste dia da sua igreja (há turistas que julgam que aquele santuário é um edifício da NASA, heheh!) para a cidade. Dali, só regressará duas semanas depois da Páscoa, em dia de Festa Grande.
Aproveitou para se imiscuir nas tradições da terra onde esteve. A "Mãe Soberana", de Loulé, desce neste dia da sua igreja (há turistas que julgam que aquele santuário é um edifício da NASA, heheh!) para a cidade. Dali, só regressará duas semanas depois da Páscoa, em dia de Festa Grande.
sexta-feira, 14 de abril de 2006
O tempo certo
Às vezes tenho a sensação precisa que existem tempos certos para as leituras. Não estou ainda capaz, por exemplo, de uma leitura justa da totalidade de Desdesig, de Narcís Comadira (embora haja poemas como "Certesa"). Por outro lado, sinto que é no momento exacto que leio os contos de Sérgio Sant'Anna. Por tomar para jogo estas palavras: "poeta, deuses, pecado, anjo, pântano, vermes, caranguejo, flores, pássaros noturnos, lírios, vaga-lumes" (p.35).
quarta-feira, 12 de abril de 2006
O mano não gosta do msn
Quando o Reboliço insiste, com argumentos pragmáticos, dá nisto:
Mano: ok, agora pensa numa esfera dourada que tens dentro do teu peito...
já pensaste?
Eu: o QUÊ???
Mano: Agora imagina que flutuas... Já está?
Eu: passaste-te!
Mano: (não escrevas alto pá, isto é zen)
Mano: ok, agora pensa numa esfera dourada que tens dentro do teu peito...
já pensaste?
Eu: o QUÊ???
Mano: Agora imagina que flutuas... Já está?
Eu: passaste-te!
Mano: (não escrevas alto pá, isto é zen)
Médicos de família
O Reboliço almoçou com a mana. Falaram dos problemas da família. "Tenho de levar a Tiaga ao psiquiatra. Continua com a fixação de que é o que não é. Hoje não parou de arrulhar." "Pobre de ti. Mas olha que eu não estou em menores cuidados. Tenho de ir com o Lucky Luke* ao cardiologista. O veterinário detectou-lhe um problema cardíaco. Ai, a minha vida..."
*Ainda não foi formalmente apresentado nas Cartas. Começou por ser um dos pretendentes da Luca, agora é um dos seus concubinos.
*Ainda não foi formalmente apresentado nas Cartas. Começou por ser um dos pretendentes da Luca, agora é um dos seus concubinos.
segunda-feira, 10 de abril de 2006
Domingo de Ramos
O Reboliço foi à varanda - alguém o alertara para as chamas na varanda vizinha. Empoleirou-se sobre a balaustrada, espreitou e, antes que perguntasse, a D. Mimi disse: "São os ramos de palma do ano passado. No Domingo de Ramos trago ramos novos e tenho de queimar os antigos. Em cima pus alecrim, que arde melhor. A palma é muito má de arder. Desculpe-me a fumarada. Tenho de os queimar, não os posso deitar fora - é que estão benzidos." O Reboliço aspira o ar de nuvens de ervas queimadas e lembra-se do alecrim do moinho. Queimado nas noites dos santos, fervido para a água da avó.
sexta-feira, 7 de abril de 2006
Revivalismo
A Tiaga, muito vaidosa, anda a ver fotografias antigas e a comparar a sua beleza com a das estrelas da moda felina. Esta é de 1956. Sissi, a gata da Dona Mimi. O Reboliço pensa: "É tão parva, esta gata!..."
quinta-feira, 6 de abril de 2006
quarta-feira, 5 de abril de 2006
Irritação!
O Reboliço está irritado. Só faz asneiras, não lhe passa a constipação e a Les Inrocks chegou atrasada em seis dias! Além dos mais, a gata faz-lhe perder a paciência: agora, tem a mania que é papagaio... Dá-lhe umas coisas e salta-lhe para o topo da cabeça! É doida...
segunda-feira, 3 de abril de 2006
Ganda prima!
A prima do Reboliço fez anos ontem. Menos um que o ano passado. Durante o almoço, outra prima ensinava a arte de manter um casamento: "Quando um chateia, o outro amocha. É preciso ter muita paciência." O Reboliço só faz que não entende. Mas ouviu muito bem.
Do mano
domingo, 2 de abril de 2006
Cronenberg
Está certo. Depois de Spider, faz sentido Uma História de Violência. Ouvi (ou li?) de alguém que este Cronenberg é atípico. Não, não me parece.
sábado, 1 de abril de 2006
Ao cuidado do Alexandre Dias Pinto
Ao Mr D. (dantes só aqui e agora aqui), cujos elogios e curiosidade, deseducadamente, deixei sem resposta: não, Alexandre, a peça não está publicada. Talvez convença o João Tátá a fazê-la sair, se se encontrar alguma editora interessada naquele jogo que nos levou a cruzar linhas sobre leituras esquecidas. Pensámos na coisa há uns dois anos quando, numa viagem de carro, lhe li o conto/ensaio de Patrick Süskind "Amnesia in Litteris" (que saiu num volumezinho da Fnac de Bolso, creio). A partir daí, como não queríamos fazer exactamente uma adaptação do texto, criámos três actos dramáticos. O trabalho de escrita foi, principalmente, dele. O meu consistiu acima de tudo em dispor as frases, imaginar a sintaxe das palavras e dos recortes que ali convergiram. Para mim, o melhor, no entanto, continua a ser, enquanto a peça está em cena (a próxima vez será dia 29 de Abril, hei-de confirmar aqui o local, mas parece-me que será de novo na Casa da Cultura de Loulé), notar o efeito das amnésias e das memórias na representação de um texto cujo tema é precisamente o que se lembra e o que se esquece.
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