sexta-feira, 30 de junho de 2006

This Is What She's Like (para o mano)

(De Don't Stand Me Down, 1985)

"Well, you know the kind of people
That put creases in their old Levis? - Sure
The type that use expressions like tongue in cheek and send up?
Indeed l do
I don't like these kind of people - No?
May I state here and now,
But I can't help thinking,
All the time I'm thinking of her
What's she like? - In time, in time
Let me put it another way - Please do.
Well, you know how the English upper classes are thick and
Ignorant and not used to being with people?
That's true
You're familiar with the scum from Notting Hill and Moseley
The C N D? - Sure
They describe nice things as wonderful
She never would say that,
She's totally different in every way
What's she like?
In time, in time
Tell me, what's she like?
Come again?
Tell me, what's she like?
In time in time
Well, this is what she's like
I would like to express myself at this point
Go ahead
Bill, you know the newly wealthy peasants
With their home bars and hi-fis?
Eh, I'm not sure actually
You know, the ones who parade all their possessions
And put fabulous and super in each sentence
Oh yeah, I know the ones
Well I don't really like these scumbags
May I be clear on this point? - Sure
She's not a bit like that
No, nothing like that
What's she like?
In time, in time
Tell me, what's she like?
Bill, I'm trying to tell you
Oh well I'll tell you what she's like
Given half a chance
I will make this clear
Just what she's like
I'll present a picture of what she's like
You'll be in no doubt as to what she's like. But listen close
Listen close now here
Come on, are you gonna' tell us what she's like or not
Oh yeah, I have every intention.
I'll tell you now, listen
Go on,
Go on,
Do you get my drift?
Oh yeah, I'm starting to get the picture
Well listen, I can expand on this if you like
Yeah, if you would
Oh, I see, I see She must be something
Yeah, she is.
Well how did all this happen
Just all at once really.
The Italians have a word for it
What word what is it?
A thunderbolt or something
What, you mean the Italian word for thunderbolt?
Yeah, something like that
I don't speak Italian myself you understand - No
But I knew a man who did
Well, that's my story,
The strongest thing I've ever seen."

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Amostrinha (2)

"Como será ser feliz,
ter benditos pensamentos?
Feliz deve ser-se assim,
ter pensamentos benditos:
uma vaga que se enrola,
uma onda sobre a água.
A alma dos desditosos,
o pensamento dum pato?
A alma dos desditosos,
o pensamento dos patos,
é como a neve nos montes,
como água num poço fundo."

"A água que é deste lago
é de mim, deste meu sangue;
os peixes aqui na água
são carne deste meu corpo;
as canas da beira-lago,
os meus ossos desgraçados;
os juncos aqui da praia
destas tranças penteados."

(Falas da Aino no Canto IV, mesmo antes de se atirar ao lago e logo depois de o fazer. Vv. 197-208 e 363-370. Aino é uma das personagens mais marcantes do poema e só aparece em dois Cantos.)

Outras casas

Ontem à noite começou o Festival Med em Loulé. Pelos vistos, a coisa já o ano passado tinha sido em grande, mas eu não estava cá. Ontem sim, e passei umas horas nas ruas mais antigas do centro da cidade, feliz por reencontrar muita gente, de presença mais ou menos frequente nos meus dias. Havia a exposição do cunhado, com poucas mas boas fotografias de Marrocos (a da estrada, ai a da estrada...), música, tendinhas de artesanato e coisas com cheiros bons. A mana, que andava comigo, foi saudada a noite inteira como a Nova Presidenta. É que, ao fim de tantos anos a dar o litro na Casa da Cultura de Loulé, lá aceitou dirigi-la. Conhece-a como ninguém e ama-a como todos os que se ligam a ela. Boa (a)ventura, mana!

terça-feira, 27 de junho de 2006

Amostrinha

No trabalho de revisão, há versos que me encantam. Não são extraordinários, nada de mais: como, aliás, os heróis. Mas encantam-me.

"Do ferro sei eu que é forte,
da terra negra, o amargor,
que a água fervente dói,
que é perversa a labareda."
(Kalevala, Canto III, vv. 195-198)

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Ainda Caio, infeccioso

Caio escreve "como se tivesse um soluço preso na garganta e o seu corpo de macho recusasse a violência da pancada seca, que aliviaria". Diz isto quem escreve para "abrir portas a pontapé", "porque é necessário. Porque colas o ouvido à madeira e, lá de dentro, ouves-te." O Reboliço está caladinho...

domingo, 25 de junho de 2006

Dexys

Depois de passar muitos anos sem os ouvir (porque me afastara das pessoas com quem os ouvia, porque a velha cassete de fita estreita se acabou por partir, de tantas vezes passada naquele aparelho tosco), um dia, em 2000, numa veneta, comprei três edições em CD de três álbuns dos Dexys Midnight Runners. Hoje (e já então) haverá quem os considere não mais do que um “guilty pleasure” – não eu, que continuo a delirar, a saltar e a chorar, se preciso for, quando os ouço. Acerca da maneira desbragada como a banda se expunha, numa época em que a subtileza das letras e o eclectismo musical seriam mais sensatos e os levariam mais directamente ao sucesso, o próprio Kevin Rowland disse a um entrevistador: “I don’t care if people laugh. That’s what Dexys Midnight Runners is all about. Showing your feelings and not giving a damn what other people think. People will always laugh at Dexys. That’s fine. … I will pin up my soul on the wall and let people read it. They can laugh, they can cry. It’s up to them. I really don’t mind.”* Que é como quem diz: Quero lá saber se as pessoas se riem. É isto que são os Dexys Midnight Runners: mostrar os sentimentos e estar-se nas tintas para o que pensam os outros. Hão-de sempre rir-se dos Dexys. Na boa. ... Penduro a minha alma na parede e deixo que a leiam. Podem rir ou chorar, é com elas. Não me interessa mesmo.
The way you look Tonight”, original de Jerome Kern (música) e Dorothy Fields (letra), na versão deles, é deliciosa. “Jackie Wilson Said” é a minha canção de hoje. O original é de Van Morrison, mas também gosto desta versão (a esta hora, a Anabela rói-se por eu não querer saber de pôr aqui o zingarelho de dar cantigas nos blogues :p).
*Está no folheto do Too-Rye-Ay, o que tem a mais famosa deles, uma das mais divertidas, “Come On Eileen”.

Caio Fernando Abreu (insiste)

Por vezes, o Reboliço entusiasma-se a citar autores de que gosta. Como no final de cada post, aparece, teimosa, a linha ESCRITO PELO REBOLIÇO, às vezes pode haver confusão. Porém, como desde o início teve esse cuidado, o Reboliço é muito zeloso de atribuir o seu a seu autor. Não significa que não quisesse, o Reboliço, ter escrito todas as palavras que cita. Mas não poderia, não poderia. Não caberiam todas na sua vida só, e ainda bem. Estas, por exemplo, são de Caio Fernando Abreu (é infeccioso, sim, e muito citado também):
“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder: Tudo é tão vago como se fosse nada.” (Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, Companhia das Letras, 1988, p. 148.)

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Novos linques

Muito zelosa, a Anabela orientou estes dois linquinhos ao Reboliço. M'tóbrigado :)
Um dia destes, terei que organizar a lista dos ditos, que já vai longa. Acho que vou pedir ajuda à Tiaga, que não tem nada que fazer. Ficou em casa em cima do armário da cozinha, o seu novo "cool spot". Fresquíssima, fresquíssima...

Marrocos do cunhadão

quinta-feira, 22 de junho de 2006

É arrepiante!

"A Translator, who cannot equal his original, is incapable of expressing its beauties."
James MacPherson, 1773 (Prefácio à 2ª edição dos Poemas de Ossian).

Os Dragões não Conhecem o Paraíso

Laio entrou no gabinete. Trazia na mão um livro magro, de lombada esfacelada e pálido. Entregou-o ao Reboliço: "Toma, foi a Mulher que pediu que to entregasse." Nessa noite, Caio Fernando Abreu foi um bom motivo de insónia. É um escritor "do bem" - o Reboliço pensa que isso se deve à maneira como a sua prosa se oferece, pede para ser repetida, relida, entranhada. Parece ser de quem lê, não do escritor. Não sabe explicar melhor. Não quer explicar melhor.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Loppu II

Ao fim de um ano e doze dias, precisamente. Terminámos a revisão da tradução. Já vi as primeiras imagens, preparadas por Rogério Ribeiro, da obra, que há-de sair (não se sabe ainda quando...) na editora Campo das Letras. Vão esperando, não se perderá pela demora.

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Começa hoje - no Porto

A Tiaga está ciumenta: é só o mano, só o mano, só o mano. Que fotografias dela, nada, e que assim não sabe se aguenta, porque afinal uma gata também vive da sua imagem, e blá-blá-blá... Um cão às vezes não tem pachorra!

domingo, 18 de junho de 2006

Blogfusion

Qual surpresa!... Surpreendente seria que não tivessem passado lá, ó Lagartinha. Da próxima, portas abertas.
Foto: Anabela Moutinho

sábado, 17 de junho de 2006

Pasolini (ainda; de novo)

A propósito do seminário do Hans Gumbrecht, onde apresentou um trabalho sobre o poeta Pasolini, aproveitou para traduzir alguns dos seus versos (a partir do italiano, mas com a versão inglesa a ajudar). Este chama-se "Raiva". Tem das imagens mais pacíficas da poesia de Pasolini (a paz, nele, assenta quando descreve a cidade, ou recantos dela).


RAIVA

Sigo até ao portão do jardim, uma pequena
passagem de pedra, escavada no piso
térreo, para o horto suburbano,
ali está desde os dias de Mameli,
com os seus pinheiros, as suas rosas, as suas raízes.
Em volta, para lá deste paraíso de campesina
tranquilidade, comparecem
as fachadas amarelas dos arranha-céus
fascistas, dos últimos estaleiros
e em baixo, através de grossos painéis de vidro,
há um armazém, sepulcral. Dormita
ao belo sol, um nada fresco, o grande horto
com a casinha, no meio, oitocentista,
cândida, onde Mameli morreu,
e um melro a cantar trama a sua intriga.

Este meu pobre jardim, todo
de pedra... Mas eu comprei um aloendro
– novo orgulho da minha mãe –
e vasos de todos os tipos de flores,
e até um fradezinho de madeira, um querubim
obediente e róseo, um nada malandro,
que encontrei na Porta Portense, quando andava
à procura de móveis para a casa nova. Cores,
poucas, a estação é assim áspera: fios
ligeiros de luz, e verde, todos os verdes...
Só um pouco de vermelho, turvo e esplêndido,
semi-escondido, amargo, sem alegria:
uma rosa. Pende humilde
do ramo adolescente, como de uma fenda,
avanço tímido de um paraíso em estilhaços.

Mais de perto, é ainda mais dispersa, parece
uma pobre coisa indefesa e nua,
uma pura atitude
da natureza, que se encontra no ar, no sol,
viva, mas de uma vida que a ilude
e a humilha, que quase a faz envergonhar-se
de ser assim rude
na sua ternura extrema de flor.
Aproximo-me ainda mais, sinto-lhe o odor...
Ah, gritar é pouco, e é pouco calar:
nada pode expressar uma existência inteira!
Renuncio a todos os actos... Apenas sei
que nesta rosa fico a respirar,
num só mísero instante,
o odor da minha vida: o odor da minha mãe...

Porque não reajo, porque não tremo
de alegria, ou gozo qualquer pura angústia?
Porque não sei reconhecer
este antigo nó da minha existência?
Sei porquê: porque em mim está já encerrado o demónio
da raiva. Um pequeno, surdo, fosco
sentimento que me intoxica:
esgotamento, dizem, febril impaciência
dos nervos: mas a consciência já não está livre disso.
A dor que de mim mesmo, a pouco e pouco, me aliena,
se não mais que a ela me abandono,
desprende-se de mim, volteia por si mesma,
pulsa-me desordenada sobre as têmporas,
enche-me de pus o coração,
já não comando o meu tempo...

Dantes, nada me conseguiria vencer.
Estava encerrado na minha vida como no ventre
materno, neste ardente
odor de humilde rosa húmida.
Mas lutava para sair de lá, na província
campestre, poeta de vinte anos, sempre, sempre
a sofrer, desesperadamente,
desesperadamente a gozar... A luta terminou
com a vitória. A minha existência privada
já não se encerra atrás das pétalas de uma rosa,
– uma casa, uma mãe, uma paixão afanosa.
É pública. Mas até o mundo que eu desconhecia
se abeirou de mim, me é familiar,
se deu a conhecer e, a pouco e pouco,
impôs-se, necessário, brutal.

Não posso agora fingir não o saber:
ou não saber como isso me quer.
Que espécie de amor
conta nesta relação, que acordos infames.
Não arde uma chama neste inferno
de aridez, e este árido furor
que impede o meu coração
de reagir a um perfume é uma ruína
da paixão... Aos quase quarenta anos,
encontro-me na raiva, como um jovem
que de si nada mais sabe além de que é novo,
e se encanta contra o velho mundo.
E como um jovem, sem piedade
nem pudor, não oculto
esta minha condição: não terei paz, jamais. 

(Tradução: AIS)

Obras no Moinho (3)

Na terça, vão à Câmara de Beja o projecto e o orçamento das obras no Moinho. Parte do historial a apresentar:
"Consta que a construção do Moinho Grande nasceu de uma contrariedade. O primeiro proprietário terá sido Francisco Frazão Crujo, que decidiu construí‑lo por teima — tendo‑lhe sido negada a venda do Moinho do Meio (um dos dois moinhos do actual conjunto adjacente), prometeu que haveria de fazer um outro maior. A sua construção deve remontar ao ano de 1872. Mais tarde, foi adquirido por outro proprietário, conhecido como José Maria Padeiro, que viria a aforá‑lo, e depois a vendê‑lo, a Francisco Gertrudes, bisavô do actual proprietário. Este terá ainda testemunhado a construção do Moinho Grande, quando, tendo saído de Beringel, onde vivia, foi às 'sortes' a Beja."

Guess who?...

O "arquitonto" (mana, isto está cada vez mais desequilibrado... O Reboliço exige fotos!). Fotografado a semana passada pelo Isaías (alô, Misha & Pelota!) junto à torre de Jean Nouvel, na cidade linda.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Uhuuuuu...

Ontem revi o Cat People. A Tiaga não dormiu descansada - de cada vez que a pantera rugia, sobressaltava-se-lhe o sono e desenrolava-se toda no sofá, espetava as orelhas e abria os olhões, maiores que o focinho. Pior que esses sustos, só considerarem o Reboliço "un personaje imaginario". Não, Misha & Pelota: este canito é muito real!

Esclarecimento

Era o que o Reboliço estava a ouvir ontem: a Bartoli, que lhe lembrou a LeBlanc.
(Gostei do "benardiana", hehehe.)

quinta-feira, 15 de junho de 2006

Corpo de Deus

Em Roma, nos anos iniciais do século XVIII, a Igreja decretou e zelou por uma forte censura a qualquer acto de entretenimento público: teatro e ópera eram proibidos, numa atitude censória que já ditara desde 1588, por exemplo, que não haveria mulheres no palco das óperas – o que levou ao florescimento dos castrati. Georg Friedrich Händel, o “querido saxão”, foi um dos muitos compositores em Roma que continuou a escrever a sua obra, quer para a Igreja quer para o entretenimento privado da nobreza. Em Il Trionfo del Tempo e del Disinganno (1707), um oratório de pendor moralista, a personagem do Prazer canta estes versos (o libretto é do cardeal Benedetto Pamphilj):

Lascia la spina,
Cogli la rosa;
tu vai cercando
il tuo dolor.
Canuta brina,
Per mano ascosa
Giungerà quando
Nol crede il cor.

(Malamente traduzido, será: Deixa os espinhos, colhe a rosa; andas em busca da tua dor. Uma mão oculta te trará as cãs sem que o teu coração disso dê conta.)

Em 1710, no mesmo ano em que em Roma se recomeça a permitir a encenação e a apresentação pública de óperas, Händel vai para Londres. Conta-se que o sucesso que teve em Inglaterra se deveu ao arrojo das suas soluções cénicas e à ousadia dos poemas. A mesma ária musical que usara quatro anos antes no oratório Il Trionfo... torna-se, no Rinaldo, a primeira ópera londrina de Händel, isto (libretto de Giacomo Rossi a partir de uma adaptação de Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso):

Lascia ch’io pianga
La cruda sorte
E che sospiri
La libertà!
Il duolo infranga
Queste ritorte
De’ miei martiri
Sol per pietà

(Ora veja-se: Deixa que chore a cruel sorte e que suspire por liberdade! A dor que rompa estas cadeias de meus martírios, só por piedade.)

O Reboliço, a quem o barroco sempre seduziu, está meditativo: contradições de uma época de “experiências do irreconciliável”? Ou os eternos contrários que nos fazem ainda ter feriado para celebrar a materialidade de um divino incorpóreo?

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Obras no Moinho (2)

No fim-de-semana esteve no moinho o consultor de carpintaria. "Ena, tanta madeira!", dizia ele. "Isto é mesmo gigante..." Uma das velas já foi levada, para ser modelo das que hão-de ser feitas. Tiraram medidas ao telhado, por onde começarão os arranjos. A esposa do Sr Caetano, que é o homem que coordenará as obras, contou aos pais do Reboliço que, na noite antes de o marido ir ver o Moinho, "o meu homem não dormiu nada." De antecipação.

terça-feira, 13 de junho de 2006

Fresco!

- que é "cool", na versão da Anabela ;) O Reboliço também fica muito feliz com estas coisas.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

Do arco-da-velha

1. Esta noite acordei por duas vezes e em ambas disse em voz alta os nomes de duas pessoas. Do primeiro, só recordo que começava por A e era um homem que relacionava com o Processo de Nuremberga; o segundo, lembrei-me há pouco, é Vikram Seth. Vikram Seth, um belo nome - e nunca li nada dele.
2. György Ligeti morre na manhã do dia em que recebo um postal de Budapeste.
Va savoir, Reboliço, va savoir...

Obras no Moinho (1)

Um homem que arranja moinhos foi ver o Moinho. Para fazer uma estimativa de quanto custa pô-lo de novo a trabalhar. Já tem arranjado outros moinhos, conhece as peças, os engenhos, as moendas. E não parou de dizer: "Nunca vi um assim, nunca tinha visto um moinho tão grande!" O Reboliço está de pé em frente ao vão da porta encarnada, de orelhas arrebitadas e a cauda a abanar muito depressa. As patas da frente estão sobre a soleira de pedra, as de trás ainda na terra, do lado de fora. Como está calor, mas acima de tudo porque sentiu orgulho naquele comentário, arfa, de boca semi-aberta, e parece nervoso. Sorri: "Pois é, por isso se chama Moinho Grande."

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Cool!

Sabe muito bem, isto. O Reboliço vai cruzar os dedos das quatro patinhas - ai, e ver se não cai!

Balancinho (o balanço maior fica para outros lugares)

Terminou há poucas horas a segunda parte do curso que Hans Ulrich Gumbrecht veio dar no Programa em Teoria da Literatura. No Verão passado achei-me das pessoas com mais sorte neste mundo, ao dar-me conta de que Gumbrecht (ou Sepp, como gosta que lhe chamem) entendia na perfeição o português e não só poderia ler como veio a discutir com exacta minúcia as barbaridades que escrevi no trabalho de doutoramento. Pois bem, nasci, como diria São Carlos, "com o cuzinho para a lua" e pude assistir às duas secções deste curso - o Sepp é um professor magnífico, além de uma pessoa extraordinária. Ai, Janeiro!, vem já, para eu aprender mais sobre Kleist com esta alma!

Quem disse...

... que um canito não se pela por robalo grelhado com uma excelsa salada? Quem, tamanha barbaridade?!

Que nervos!

O Reboliço ganhou discos de música. Mas só em chegando a noite, está visto, é que vai poder ouvir o mais esperado. Entretanto, acalma a ansiedade com outros divertimentos.

Post MUITO, MUITO atrasado

Ai, mana... Parabéns a vocês mais ao vosso "lindo serviço"!

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Ora bem...


Só não entendo é que o Sul tenha sido excluído desta rondinha de apresentações, ó mano!

quarta-feira, 7 de junho de 2006

Os anjos não existem, mas não faz mal pensar que sim

"Há ainda coisas do camandro.", diz o Nelson. O Reboliço sorri, respira fundo e volta a apoiar o focinho nas duas patas da frente. Lembra-se de, aqui há dias, durante um almoço, um dos amigos lhe ter dito que estas coisas (alguém desinteressadamente devolver ao legítimo dono uma mochila cheia de material fotográfico encontrada na rua, ou um computador portátil deixado num parque de estacionamento) são o mais normal, nós é que já acreditamos que as notícias que lemos nos jornais e vemos na televisão fazem a normalidade. E isso é assim como acreditar em anjos.

terça-feira, 6 de junho de 2006

Sobressalto!

O Reboliço ficou agitadíssimo com a notícia - bera, muito bera... Se alguém mais a Norte ler as Cartas, ajude a divulgar, a procurar, a "ressuscitar".

Pede-se a quem tenha encontrado na madrugada de terça-feira (06 de Junho) uma mochila preta lowepro no passeio em frente ao Hospital Privado dos Clérigos, no Porto, o favor de a entregar a nelson d’aires. No interior da mochila encontra-se:
- uma carteira com todos os documentos pessoais

- um telemóvel nokia de cor prateada (que estava desligado).
- uma Nikon D1x com o número de série 5121942
- uma objectiva nikon 20mm f2.8
- uma objectiva nikon 50mm f1.4
- um flash SB-28dx
- um gravador de voz
- e mais umas quantas coisas pequenas que não me consigo de momento lembrar.
Esta mochila, como já disse, é para mim muito importante. Em Dezembro despedi-me de um trabalho de dez anos para recomeçar uma nova vida. Uma vida dedicada à fotografia documental. Desde Janeiro até ao dia de hoje, tive de investir tudo para divulgar o meu trabalho e neste momento não tenho nada, a não ser um saldo negativo no banco. Se por acaso você souber quem tenha achado a minha mochila com a minha vida lá dentro, por favor informe-me e acima de tudo informe de que a mochila não pertence a uma pessoa rica nem a uma pessoa que vive bem. Essa mochila é o meu investimento e ao devolver-ma pode ter a certeza que me vai ressuscitar.
obrigado.
nelson d’aires

A imagem do mano

"Até parece um senhor!", dizia a prima. Mas a foto do mano que deveria ter aparecido na Sal a Sul, a que melhor ilustraria o "Estar, bem", é outra:

(Foto: Luísa Apolónia)

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Hum...

Mano: Tens aí um €uro, mana?
Eu: Sim. P'ra quê? (Controladeira, forreta...)
Mano: P'ra comprar o Público de hoje.

sábado, 3 de junho de 2006

-poluto

Às vezes, o Reboliço pensa que quaisquer dois centímetros quadrados lhe trazem a felicidade. Mas, de vez em quando, abala. Abala a fugir e só pára quando percebe que o que o faz parar nesse momento há-de servir para lhe parar o pensamento mais tarde. Como isto. Ou isto.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Anunciado

Em finlandês, Junho é "Kesäkuu" - "o mês do Verão".

Para registo

Quem esteve no moinho no final dos anos 50 a fazer o filme Moinhos de Beja foram três homens do Cine-Clube de Beja: José António Ferreira, durante muito tempo o fotógrafo mais conhecido e o melhor da cidade, o Professor Janeiro Acabado e José Rocha (que dava apoio aos outros, mas sem perceber nada de filmes nem de fotografia). Já nenhum deles é vivo. As imagens foram recolhidas com uma maquineta de 8mm e sem iluminação artificial. Passo seguinte: localizar o negativo.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

As saudades da Perdida

A Perdida é a cadelinha da tia. Durante alguns anos foi a companheira diminuta do pachola imenso do Sorna. Agora, desde que o Sorna vive na terra dos nababos, a bichinha estranha. Ao fim-de-semana, assim que chegam a sua casa os donos do Sorna, late, agacha-se para receber as festas, gane e - tal e qual! - conversa. Quer saber como está ele, se a Luca está mais suportável, se ele tem comido a horas, se dorme sem pesadelos... Tem um décimo do tamanho do bicho, mas um coração largo. E preocupado.

terça-feira, 30 de maio de 2006

NEuro 2004 = Mundial 2006 (ainda o Zé Carlos)

"A última obra-prima de Aaron Slobodj", José Carlos Fernandes

(Aaron Slobodj em 1957; desconhece-se o autor da fotografia.)

Um dos mais amados artistas portugueses, da terra adoptiva do Reboliço, é o José Carlos Fernandes. Tem mais trabalhos em exposição (além de estar a dar, no Cine-Teatro Louletano às terças-feiras, palestras sobre História da Música. E de fazer mais milhão e meio de coisas bem feitas.):
"Na galeria de exposições do Instituto Português da Juventude, em Faro, de 25 de Maio a 20 de Junho, originais de "A última obra-prima de Aaron Slobodj". José Carlos Fernandes nasceu em Loulé em 1964. Não possui qualquer formação ou talento artístico, o que não o impediu de abraçar a carreira das artes plásticas.Em 1992, tendo sido convidado a participar na sua primeira exposição colectiva e não lhe ocorrendo nenhuma ideia, dirigiu-se a uma esquadra da polícia e apresentou queixa do roubo de uma obra de arte; emoldurou o formulário com a queixa e exibiu-o na exposição.Na Bienal de Veneza de 1994, vendeu o espaço que lhe fora reservado a uma agência de publicidade, que o utilizou para anunciar lingerie. Em 1996, em resposta a um convite para expor em Amsterdão, retirou, durante a noite, o recheio de uma outra galeria de arte e reinstalou-o na galeria que o convidara. O galerista espoliado apresentou, naturalmente, queixa à polícia e o escândalo mediático que se seguiu levou a que se descobrisse que a carreira de JCF tinha vindo a decalcar, passo por passo, a de um eminente artista plástico italiano.Numa viagem a Nova Iorque, no final de 2002, destinada a recolher documentação para um livro, descobriu, por mero acaso, nas caves do Museu Guggenheim, "a última obra-prima de Aaron Slobodj".
O Reboliço fica tão contente com estas coisas...

Psicanálise

Ontem, uma colega, psicanalista, veio ter comigo e perguntou-me o que eu achava da psicanálise. Contei-lhe da minha gargalhada quando há uns doze anos um amigo escritor me disse que fazia psicanálise para descobrir material para a escrita; disse-lhe que era como um país estranho, tão estranho que nem sequer pensava nele como lugar onde me apetecesse ir, pois não me lembrava que existia. Acabámos por conversar muito mais do que os minutos breves que ela tinha para dispensar e, no fim, ofereceu-me um livro. Um destes dias vou até Psicanálise.

segunda-feira, 29 de maio de 2006

Oração a São Carlos

Bendito sejas.
(Já chegou a FC e a outra também.)

A música salva

Pois, é menina ;) E se tivesse aqui os tais zingarelhos de dar música nos blogues (o que vale é que o Reboliço é discreto, não gosta de muito chinfrim), hoje ouvirias o "Better Way" do Ben Harper. Olarilas!

domingo, 28 de maio de 2006

Beber e ouvir música

O Reboliço pensa assim: não basta ter à frente uma garrafa de vinho do Porto de 1963, outra de 1982 e outra de 97. A festa verdadeira está em provar primeiro o vinho mais recente, o menos bom, prosseguir para o do meio e terminar com o palato agradecido pelo prémio do mais resistente, o mais aguardado. Não é só uma maneira de engrandecer o vinho melhor - é também um modo elegante de não diminuir tanto a imaturidade dos outros.
Ouvir quase uma hora do virtuosismo de Paganini (muito bem executado, ainda por cima) e a seguir gramar com uma peça relativamente menor de Prokofiev é como beber o Porto de 63 e rematar com uma colheita recente, ainda sensaborona. Não engrandece o russo nem clarifica o italiano - e diminui quem dispõe a sequência.

Matrafonas na tarde de Cacela



Uma matrafona é uma boneca feita em pano, de trapos, costura, retalhos. Dantes, as mães faziam matrafonas para os filhos (mais elas que eles) brincarem; hoje, fazem-se por respeito à tradição e por reabilitação de artesanato popular (no fundo, para alimentar a nostalgia de adultos que brincaram com estas bonecas). A Teresa Patrício (dona do Feijão, um cão de água lindo e bem comportado, nos antípodas da comadre Luca), lembrou-se de pedir a gente inesperada para fazer matrafonas e mostra o resultado na Casa Azul, o café à entrada de Cacela Velha, até 26 de Junho. A Graça fez uma matrafona cheia de glamour. Anabela, obrigado pelas fotos ;)

Quando visitou a exposição, o Reboliço aproveitou para comer um bolinho de alfarroba e beber chá de jasmim. Um bocadinho envergonhado, sentou-se de costas para o sofá vermelho onde um casal se esquecia das bonecas nas paredes e só via projectarem-se nelas os seus gestos encantados.

sábado, 27 de maio de 2006

No fim do cais

O Cais da Poesia terminou frente ao cais, num fim de tarde sossegado que a ria dava para a varanda do Museu do Brinquedo. Para se chegar ao lugar, passa-se numa rua empedrada e ensombrecida por árvores da borracha e buganvílias. Por onde não se passa, nessa rua estreita e obscurecida, não se vêem as pedras da calçada, mas pétalas roxas e folhas secas, das flores, amontoadas junto ao muro e à parede das casas que ladeiam o passeio. Os poetas continuam a ler no mesmo tom de voz quando passam os aviões e as palavras ficam quase só murmúrios na sala pequena. O Reboliço ficou à soleira – de onde podia ver a ria, levantar o focinho para cheirar o ar e misturar nele os versos que ia escutando.

Saudação

Curioso como nenhum outro canito nas redondezas, o Reboliço andou a farejar as caixas dos comentários e descobriu que o Jorge de Carvalho deu de vaia. Ora passe por aqui de vez em quando - volta e meia, que são as voltas que o Reboliço dá antes de se deitar, há mais notícias do moinho.

"Il faut aimer les contradictions"

É preciso amar as contradições, grita o homem de voz boa no meio do palco - e o meu pensamento não pára no "amar", nem em "contradições", mas no "é preciso". A voz do homem fala de uma urgência qualquer que identifico logo. Os Pop Dell'Arte têm só vinte anos, mas esta necessidade que cantam é mais antiga. Vem, pelo menos, do meio do século passado e quer mostrar como se pode viver num mundo em que tudo está demasiado estranho, demasiado de cabeça para baixo. Esta urgência leva-me para lá do obstáculo que seriam as contradições e dá-me largueza de passo para as olhar com benevolência. É o acordo entre o ruído brutal da bateria, do baixo e da guitarra e aquela melodia, breve e quase surda, tocada numa flauta.

(O amor passa os dias frente ao espelho
Acredita num reencontro
Eu adormeço o rosto no seu peito nú
E sonho acordar noutro lugar
versos de "O Amor é um Gajo Estranho", Pop Dell'Arte
O concerto repete esta noite, no CAPa)

sexta-feira, 26 de maio de 2006

No cais da poesia os poetas

O poeta sírio leu versos de olhos fechados. A poeta inglesa leu versos de pé. Um poeta português leu versos nervoso. O outro leu versos curioso. Os versos da poeta inglesa e os do poeta nervoso eram muito bonitos.

No dia da Hora

Até dormiu melhor, o Reboliço. O ramo da Hora está pendurado atrás da porta de entrada. Tem três papoilas, três malmequeres de pétalas brancas, três de pétalas amarelas, três raminhos de romãzeira, três de oliveira com muito candeio (enfim, tanto não, para não dar cabo das azeitonitas que hão-de vir), três espigas de trigo e uma fatia de pão. Ontem, ao cair da tarde, saiu à espiga – não é a hora certa, que deveria ter sido antes das 11 da manhã, mas um animal assalariado é o que pode. Ia sem grande fé de encontrar trigo, que já quase não há por esses campos. Foi para os lados da casa da mana e, depois de percorrer alguns caminhos sem ver nem espigas nem hastes nem ares de trigais, encontrou sentadas nas pedras de um valado três velhinhas. Perguntou-lhes se sabiam onde encontraria as espigas. Olharam as três de debaixo dos chapéus e disse uma delas, com os olhos azuis atrás de um par de óculos: “Aí diante, nesse nateiro, há um carreirinho de trigo. Semeou-o o homem que tem essas terras. ‘mecêias são donde? Da cidade? Ah, pois o homem também é de lá – devem de o conhecer, é o Faísquinha.” “E acha que podemos ir lá roubar-lhe umas espigas?” “Pois então, não há aí em mais lado nenhum... Eu cá vou com vocês, senão não dão com aquilo.” Deixou as outras sentadas e seguiu, à frente, para mostrar onde estava o trigo. Calçava uns chinelos abertos nos dedos e via-se-lhe a pele seca, muito dura, à volta dos tornozelos. Não havia espinho nem urtiga que a arranhasse. Recolheram-se as espigas ainda fora do campo semeado – provavelmente, tinham nascido ali, de sementes caídas do saco, e ficaram esquecidas entre os cardos, as setas, os balõezinhos de São João e as outras ervas. Havia de trigo “moncho”, ou “mancho”, como a mulher lhe chamou. Tem as espigas mais escuras e mais apertados os grãos dentro da casca. O Reboliço trouxe dos dois tipos. “Mãe, o que é um nateiro?” Quem respondeu, mais tarde, foi o compadre: “É um bocado de terra baixa, onde fica a ‘nata da chuva’ quando cai.”