segunda-feira, 31 de julho de 2006

As férias do Reboliço

O Reboliço começa as férias cansado. Cabisbaixo, de olhos vagos, entrega-se às férias. Acredita que tudo virá a ser melhor, menos feio. Suspira e entra nas férias.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Uma janela que dá para Sul

Detrás das grades de uma janela do antigo Convento da Conceição, em Beja, Soror Mariana terá existido e amado. É incerto, porém, que tenham sido escritas por si as cartas de amor ao oficial francês Noel Bouton, Conde de Chamilly. Um talento estilístico, uma sofisticação e clareza de frases e de sentidos, uma excelência literária inultrapassável e comentada com rasgos elogiosos por Rilke, um dos seus muitos tradutores, reclamam antes um autor nativo, francês, para punho das linhas amorosas.
De si para si mesmo.

terça-feira, 25 de julho de 2006

Os trabalhos da Mana e do Cunhadão

Da Mana e do Cunhadão. No trabalho dela, é só gajas; no dele, só gajos! Está mal, pensa o Reboliço. Está mal.

"Ansiedad...

... de tenerte en mis braços", cantarola o Reboliço a pensar no Isa. E de abraçar o LM e mais todas as memórias de Barcelona e de Paris, de livros e de música, de boa comidinha e doces palavras, de tudo o que trarão com eles. Entre amanhã e o início de Agosto, só por acaso ou milagre me apanharão a "postar".

domingo, 23 de julho de 2006

Nunca

Na aldeia do Reboliço, a palavra "nunca" significa outras coisas além do seu sentido mais corrente. "Nunca fui à da Nita" quer dizer "Acabei por não ir à da Nita". Pergunta-se "Ali... Nunca viste o Tói Galego?" (Ou seja: "Ouve lá... Chegaste a vê-lo?")

Actualização...

...da narrativa sobre os amanheceres do Reboliço. O avô chamava-o para perto da sua cama e, depois de lhe coçar o lombo com a bengala, dava-lhe duas bolachas Maria que trouxera para a mesa de cabeceira na noite anterior. Era por isto, com a coçadela de lombo, que o Reboliço se pelava.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

A minha vida dava um filme

"Está descansada que eu estou a registar tudo na minha memória para depois te ajudar a fazer o guião." Como é bom ter quem não se esqueça dos momentos que a nossa história vai empurrando para longe do pensamento... A Zabelinha é uma guardiã do melhor. Como é que se agradece isto?

"Profissão: Desatento"

Isto hoje (incluíndo o título do post) é do Mano. Deliciai-vos:

"Ontem fui ao cinema com a Giulia [uma amiga italiana], ela perguntou-me assim: "joá", já viste um filme que se chama Os Edukadores? E eu disse que não (tu já?). Ok, então vamos, então fomos... Era no Nimas e eu meti na cabeça que o Nimas era onde era o Cinestudio 222 (vá-se lá saber porquê...) mas ia com uma sensação que podia não ser aí... Bem, lá descobrimos que não era mesmo aí, era aquela sala onde fomos ver o Roger Rabbit! Lembras-te?
Bem, a sessão era às 21.30, chegámos mesmo ao pêlo! 9.27 (da noite). Quando estávamos a chegar à bilheteira, estava vazia! (Já por si a coisa era estranha, mas... nao há meio de uma cabeça - nem duas - se porem a pensar um bocadinho...) lá fui para dentro do foyer à procura da sra ou do sr... que lá apareceu...
Quando voltei para a posição de aquisição dos bilhetes, olho para o lado e vejo um cartaz a preto e branco incrível! Era com o Jack Nicholson (ou lá como se escreve) muito novinho e assim com uma paisagem bastante árida por trás... e fiquei flashado! Pensei, é este o tal filme que não sei qual é, só pode ser, um com o Jack Nicholson a viajar por Espanha e em cima da Pedrera do Gaudì! Só pode ser!, este é que era fixe, ó julia (Giulia)! Nisto, enfio a cabeça naquele vazio do vidro da bilheteira e peço 2 bilhetes! E a sra (era uma sra) - 10 euros. E a julia (Giulia) 5 euros? Mas não era 3 e meio? Agarrando uma folhinha manhosa com Os Edukadores... (enquanto o drama dos euros prosseguia, eu desviei a atenção de novo para o cartaz e pensava... fod!... tenho que vir ver este... e descia os olhos pelo cartaz a fora, quando dou de caras com Michelangelo Antonioni! Minchia! (que é assim uma parolacia em italiano... quer dizer pixa!) Impossível, então sou mesmo parvo! O misterioso filme de que vi partes algures no mundo algures numa idade que já tive era deste doce mistério do silêncio! m.a.!... ah...
Extasiado, volto à realidade da bilheteira e apercebo-me que a Giulia 'tava com aquela cara assim meio de cruzamento entre rato e gato zonzo... Tinha-se apercebido que Os Edukadores era afinal no King! Coitada, estava mesmo desapontada (não 'tava a apontar nada...) Yesss, em meio segundo apercebi-me que o que estava ali era este filme que eu estava a rever nos fragmentos da minha cabeça - Profissão Repórter!
Bute! Bute.
E entao lá bute.
Concluímos a transacção e entrámos a correr (assim por trás ainda ouvi a sra dizer: os bilhetes já não precisa cortar...)
Entramos no escurinho do cinema... já tinha começado... sacanas... e lá estava o Jack a acender um cigarro e a deitar-se numa cama numa tarde quente e andaluza com uma camisa de manga curta estreitinha a deixar ver umas manchas de sovaco... ah!
Depois, esta incrível cena vista a partir da grelha andalusa de uma janela, quase abstracta, super geométrica e super bucólica, ao mesmo tempo...
O desenrolar de uma acção de que não se percebe nada (o que é sempre uma maravilhosa sensação... é onde se vê que o filme que se tem diante é um verdadeiro peso pesado! É muito importante nao perceber nada!) patati, patata... e lá aparece, "directed by Michelangelo Antonioni" e penso, ah então aquilo era uma cena tipo prelúdio, agora é que vai começar... e acendem as luzes!
acendem as luzes?
ACENDEM AS LUZES!
Olhámo-nos ao mesmo tempo, eu e a julia (Giulia) e com cara de parvos dissemos - o filme acabou!
A lucidez que restava só foi suficiente para fazer crescer uma raiva (de que não tinha vontade) para ir obrigar a mulher a engolir o bilhete que nos vendeu!
Foi quando olhei, ainda incrédulo, o bilhete, e, sem atenção (ou com a atenção em automático), lá os olhos caíram sobre um n°. 22.00
... (acho que já deu para perceber, não?...)
Disse, vamos giulia, ofereço-te uma cerveja aqui na Versailles, ainda temos um quarto de hora...
O filme?
ah...
ah...
mas que grande filme!"

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Interregno brevíssimo

Sao dias de grande azáfama. Não pelas motas que invadiram a cidade (a Tiaga entretém à janela o tédio de gata caseira - a vê-las passar, avenida acima e avenida abaixo, motas-sapato e tudo, penicos forrados a veludo por capacete, lenços encarnados a cobrir boca e pescoço, casacos de cabedal e demais convenção motoqueira), mas pelos dias derradeiros de trabalho antes das férias. O corpo pede-lhe a folga, mas o trabalhinho não deixa. Só faltam uns dias, Reboliço: só mais uns dias. Depois disso, talvez não aumente o ritmo da publicação das Cartas (ai, como anseio estar longe de computadores...), mas certamente o da sua escrita poderá aumentar.

sábado, 15 de julho de 2006

O cão do vizinho António

Nem de propósito: quando se acumulam as perguntas sobre a sua identidade, aparece o cão do vizinho António e faz o Reboliço recordar-se dos dias no Moinho em que o avô ainda vivia.
Todas as manhãs, cedo, mal a avó abria a porta do quarto, levantava-se da cozinha onde passara a noite, sobre os ladrilhos frescos se era Verão ou aninhado junto ao borralho, no tempo frio. Espreguiçava-se, dava o salto pequenino para passar o degrau que separa a cozinha do resto da casa, atravessava a sala e ia sentar-se, sossegado, sem latir nem nada, mesmo no vão da porta do quarto do avô. Até que ele lhe desse licença, não se mexia. Tardava pouco: "Preguiçoooooso... Anda cá, Preguiçooooso." A cauda dava em abanar-lhe, erguia o rabo do chão e avançava, patinha ante patinha, até à beira da cama do avô. Lá perto, só subia o focinho. Nunca se empoleirava nos lençóis nem se chegava muito às mantas. Esperava que o avô alcançasse a bengala, ainda adormecida ao alto, entre a cama e a mesa de cabeceira, e com ela lhe coçasse o lombo. Aquilo sabia-lhe pela vida toda. Hoje, ouve a Tiaga e pensa "Ah, se eu naquela altura soubesse ronronar...".

Take 2 (ou "Mais tarde" é "Já a seguir")

Atadas à bebida, ideias de liberdade.
A vida perfeita tem uma taberna
Onde nos sentamos e falamos – ou pensamos, só,
Tudo sem medo da serpente anoitecida;
Ou ainda outra taberna onde pareça
Não haver placas de Não se Fia
Onde, além das cervejas sem fim,
Sentados, totalmente bêbedos, loucos de inventar
As linhas de uma terra mesmo melhor onde
Se possa beber, ah, mais fino vinho por destilar
Que intoxique subtil, sem dor,
Teçamos a visão da inigualável estalagem
Onde possamos beber para sempre sem pagar
De porta aberta, com o vento a soprar.
(Malcolm Lowry)

Hum... A ver...

O Nada

O Reboliço passou a tarde esticado - estirado, deitado ao comprido no chão, a imitar a Tiaga. Queria estar imóvel, deixar completamente de sentir. Mas, quanto mais o calor lhe apertava o pêlo junto ao corpo, colando-o com um suor odioso e pouco fluído, mais o coração lhe batia e a língua obrigava a boca a abrir-se, no arfar canino e irritante. É isto o Nada, pensou. Isto de não ser além de corpo, sangue a pulsar e gotas de água com sal. O Nada do pensamento, o Nada das ideias, a aniquilação toda da vida espiritual, a...
Soa o telefone e a Fatinha diz: "Anda já, os músicos já chegaram. Deixa-te de ronhas."

Take 1

Atadas à bebida, ideias de liberdade.
A vida ideal tem uma taberna
Onde nos sentamos e falamos – ou pensamos, só,
Tudo sem medo da serpente anoitecida;
Ou ainda outra taberna onde pareça
Não haver placas de Não se Fia
Onde, além das cervejas sem fim,
Sentados, totalmente bêbedos, loucos de inventar
As linhas de uma terra mesmo melhor onde
Se possa beber mais fino, ah, vinho por destilar
Que subtilmente intoxique sem dor,
Tecemos a visão da inigualável estalagem
Onde possamos beber para sempre sem pagar
De porta aberta, com o vento a soprar.
(Malcolm Lowry)

Pode ser que mais tarde a mude. Logo vejo.

"De porta aberta, com o vento a soprar"


Notions of freedom are tied up with drink.
Our ideal life contains a tavern
Where man may sit and talk or just think,
All without fear of the nighted wyvern;
Or yet another tavern where it appears
There are no No Trust signs no No Credit
And, apart from the unlimited beers,
We sit unhackled drunk and mad to edit
Tracts of a really better land where man
May drink a finer, ah, an undistilled wine
That subtly intoxicates without pain,
Weaving the vision of the unassimilable inn
Where we may drink forever without owing
With the door open, and the wind blowing
(Malcolm Lowry)

Ando a pensar na tradução mais feliz para este poema. Logo volto cá para dizer o que terei encontrado.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Ao Goldmundo, ao Laio e a outros mais do Teatro

Na Les Inrockuptibles da semana passada (numa página, a 25, com a data "gralhada" de 4 de Agosto :D), leio um artigo de opinião de Frédéric Martel, jornalista e escritor especializado em estudos teatrais. Chama-se "Comment Mickey a mis le pied sur le théâtre américain" (qualquer coisa como "A história da invasão do teatro americano pelo rato Mickey"). É um artigo breve, de duas colunas, que reflecte sobre a "disneyficação" do teatro comercial, associada ao declínio do teatro americano e que, avisa Martel, pode indiciar um semelhante descalabro no teatro francês. Retenho daquelas linhas duas questões, não por serem as mais relevantes, mas por traduzirem problemas que têm vindo a ser discutidos não só nos estudos teatrais mas, por exemplo, e não apenas marginalmente, em debates sobre os actuais públicos do cinema:
1) "Haverá ainda lugar para o teatro, na era dos écrans gigantes dos jogos de vídeo e dos infinitamente pequenos dos iPods?"
2) "Como se poderá seduzir os jovens e as minorias [a irem ao teatro] quando os actores brancos interpretam no palco textos de autores mortos?"

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Os seus aos seus donos

De puro, o Reboliço tem muito pouco (enfim, alguns charutinhos que já lhe têm oferecido...). Mas sim, foi sem maldade que errou. Reponha-se a justiça, a partir da informação mais autorizada de um dos muitos injustiçados, e logo o Mano! A Mostra "Desenhos nas Cidades", comissariada por Álvaro Siza, foi co-comissariada por Maddalena D'Alfonso, Antonio Madureira, João Gabriel Soares (o Mano) e André Tavares. A responsável pelo esquema gráfico da dita foi a Mana, Gabriela Soares. Foi isto que o Reboliço viu na sexta-feira, último dia em que esteve aberta ao público na Faculdade de Arquitectura do Porto. O Mano reenvia os leitores para este artigo, com fotos, mais cuidado que aquele que ficara aqui linkado (o Reboliço confessa que nem sempre tem tempo para uma selecção mais atenta do que escolhe, entre as listas que o Google oferece sobre determinado tema).
Mil quinhentas e setenta e nove desculpas, aos Manos e aos outros responsáveis pela Mostra (que, além do mais, está muito bem feitinha)!

Prima e Mano, check this out!

Buraka Som Sistema! Uhhhuuuuu!

terça-feira, 11 de julho de 2006

O Reboliço está de volta!

Eh lá! Quatro dias sem dar notícias... Já havia quem pensasse que o pobre do Reboliço se finara debaixo das rodas de alguma carroça, ou se enleara nas cordas grossas do velame do moinho. Nada disso - primeiro, porque não é canito de se andar a oferecer aos fados nefastos das estradas carroceiras; segundo, porque o velame... (suspiro...) está ainda parado. E, fosse como fosse, as cordas são demasiado grossas para agarrar o corpo franzino do Reboliço - uma vantagem, portanto.
Não. Andou de passeio. Foi ao Norte. 1) Ver a Mostra de Arquitectura que o mano e a mana ajudaram a montar. 2) Ver a peça Vatzlav no Estaleiro Teatral em Aveiro, encenada pelo Fraga. 3) Conhecer o Nelson. 4) Ver filmes no Festival de Curtas de Vila do Conde. Tudo cumprido, e ainda deu para andar no Metro do Porto e passar uns bons bocados com os Cabrais.
Quando chegou a casa, a Tiaga olhou para ele, espreguiçou-se muito, bocejou longamente e sussurrou-lhe, lânguida: "Não imagiiiinas o calor que tem estaaaaado..."

quinta-feira, 6 de julho de 2006

Parabenizar

Um dos trabalhos do Nelson foi reconhecido como Novo Talento FNAC. É bem, muito bem. Para o bem. Parabéns.

Alminha carota

A música de hoje, para complementar o Scarlatti, é dos Expensive Soul. Um dos versos: "A vida é as férias qua a morte nos dá." Go search ;)

quarta-feira, 5 de julho de 2006

A altas horas

Passava da meia-noite. O Reboliço apagara a luz da casa de banho e preparava-se para se aninhar na alcofa, enroscar-se e, de focinho a tocar o quadril, adormecer. Ia desligar o telefone, quando soou; viu no pequeno visor os corações a indicar quem telefonava. "Mano? Ainda não estás deitado, meu?" "Não, vou sair agora do escritório. Vou para casa." "Sim. E então? Diz coisas." "Era só para te dizer que o Scarlatti é lindo." "Pois é, também gostei muito." "Não - mas é lindo, lindo - mesmo lindo!" (risos do Reboliço) "Está bem, mano. Ainda bem que gostaste. Vai dormir. Até amanhã." "Até amanhã. Um beijo."

Escola 2

Leio, no número mais recente da Ler , um artigo de Humberto Brito. O título causa-me um erguer de sobrancelha, de reconhecimento: "Leitores em Série - Sobre as almas malsãs e livros que não existem." É o segundo de quatro artigos "sobre extravâgancias da bibliomania"; o primeiro saiu há dois números atrás. Reli-o agora, para confirmar suspeitas. Desde o título, então, que desconfiei - este tipo é do Programa. Lido o segundo e relido o primeiro artigo, fico com a certeza: este tipo só pode ser do Programa. Consulto a lista dos alunos do Programa. Lá está: doutorando.
Haverá uma "escola" do Programa em Teoria da Literatura? As afinidades são óbvias? Só para quem faz parte do Programa? Sê-lo-ão também, para quem está de fora? Sinto-me ao mesmo tempo em júbilo e profundamente incomodada com isto ("ao mesmo tempo" é uma expressão minha, ou será do Programa?).

Escola 1

Há um ano atrás, andava à Escola. As memórias não esmoreceram, adensaram-se. Ganhei Ibsen, ganhei Toril Moi, ganhei Wittgenstein, ganhei - sobretudo - Gumbrecht.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Mal agradecido

Depois de dizer muitas vezes "Obrigado, senhor Lönnrot, obrigado!", o Reboliço desabafa: era um grande mal agradecido, esse Lönnrot, é o que era! Quantas vezes os heróis trabalham, labutam, lutam, laboram, conseguem os feitos, só para o romântico médico lhes rematar as falas com um "Louve-se Deus." Nestes versos, o herói maior, Väinämöinen, ferido com um machado no joelho, contorce-se com dores e recebe, finalmente, a ajuda de um velho deitado ao lume:

"O velho expulsou a dor,
o sofrimento empurrou
para o meio de Kipumäki,
para o pico de Kipuvuori,
para dar a dor às pedras,
entregar à rocha a dor."
(Canto IX, vv. 523-528)

Pois não querem lá ver a resposta do herói, depois de o sangue estancar?

"Bendito sejas, ó Deus,
bendito, Criador único,
que a mim tanto ajudaste,
me trouxeste protecção
a mim nestas grandes dores,
do férreo aço a ferir!”
(Canto IX, vv. 571-576)

Assim, não dá!...

(Elias Lönnrot foi o médico que, entre 1833 e 1853, viajou pela Carélia e reuniu cantos, rezas e lengalengas populares, que haveria de publicar como cancioneiros e como a epopeia Kalevala. Nesta, compôs uma história a partir de várias camadas de histórias, passadas oralmente, de geração em geração. Um dos debates literários mais prolixos ainda hoje na Finlândia prende-se com saber em que medida o compilador foi ou não autor dos versos, isto é, terá interferido na construção das narrativas, nomeadamente no que a atitudes religiosas diz respeito. Um dado é certo: há muitos momentos de incongruências narrativas, e os versos acima dão conta de uma apenas.)

Nem de propósito...

... a propósito de Godot :)

Post de Sábado à noite

Então, sentou-se na cama. E, à falta de um ouvido humano - ouvido silencioso, que não o julgasse, não lhe fizesse perguntas e se limitasse, isso sim, a escutar com toda a atenção possível -, ditou para o bloco de folhas. Sabia que a caneta tinha pouca tinta. Sabia que escolheria mal as palavras; que buscaria nelas a clareza, a nitidez que nelas amava, mas cuja luz precisa haveria de cegar o emaranhado de tudo.
Lembrou-se de imagens, de partes de dias. De uma vez em que seguira alguém, num autocarro de subúrbio, e acabara a entregar em beijos a vida que lhe sobrava. De uma vez em que alguém se despedira de si com a calma do reencontro e a certeza da última conversa. De algumas vezes em que o amor soçobrara à raiva, às ganas do que os dias não deixam ser. Lembrou-se disso e recordou a proximidade que vira entre o desespero mais arrepiante e a euforia de se sentir vivo. Como se um nascesse do outro.
(17 de Janeiro de 2006; recordado este sábado.)

domingo, 2 de julho de 2006

Domingo de sonatas

Schhhh... Pouco barulho, agora.

sábado, 1 de julho de 2006

Flow

Desde há uns tempos que o Reboliço tem vindo a pensar sobre o assunto: o flow. Não acredita que seja acontecimento exclusivo da física, nem só da química. Aplica a ideia ao amor e à música, por exemplo. Mas, e quê? Intrigado e um pouco nervoso, coça a parte de trás da orelha com a pata, sentado debaixo da parreira carregadinha, enquanto conclui: se não é só químico, se náo é só físico, se não é uma soma directa de fenómeno físico e químico, deve ser aquilo a que Alberto Caeiro chamava " a metafísica das coisas". Se assim for (passam-lhe pela cabecinha as palavras, pousa a pata, aquieta-se), é as coisas não terem metafísica nenhuma. Dá volta e meia, deita-se outra vez, respira fundo e volta a fechar os olhos, como se o peso das uvas ainda verdes o ajudasse a repousar. "Posso dormir descansado."

sexta-feira, 30 de junho de 2006

This Is What She's Like (para o mano)

(De Don't Stand Me Down, 1985)

"Well, you know the kind of people
That put creases in their old Levis? - Sure
The type that use expressions like tongue in cheek and send up?
Indeed l do
I don't like these kind of people - No?
May I state here and now,
But I can't help thinking,
All the time I'm thinking of her
What's she like? - In time, in time
Let me put it another way - Please do.
Well, you know how the English upper classes are thick and
Ignorant and not used to being with people?
That's true
You're familiar with the scum from Notting Hill and Moseley
The C N D? - Sure
They describe nice things as wonderful
She never would say that,
She's totally different in every way
What's she like?
In time, in time
Tell me, what's she like?
Come again?
Tell me, what's she like?
In time in time
Well, this is what she's like
I would like to express myself at this point
Go ahead
Bill, you know the newly wealthy peasants
With their home bars and hi-fis?
Eh, I'm not sure actually
You know, the ones who parade all their possessions
And put fabulous and super in each sentence
Oh yeah, I know the ones
Well I don't really like these scumbags
May I be clear on this point? - Sure
She's not a bit like that
No, nothing like that
What's she like?
In time, in time
Tell me, what's she like?
Bill, I'm trying to tell you
Oh well I'll tell you what she's like
Given half a chance
I will make this clear
Just what she's like
I'll present a picture of what she's like
You'll be in no doubt as to what she's like. But listen close
Listen close now here
Come on, are you gonna' tell us what she's like or not
Oh yeah, I have every intention.
I'll tell you now, listen
Go on,
Go on,
Do you get my drift?
Oh yeah, I'm starting to get the picture
Well listen, I can expand on this if you like
Yeah, if you would
Oh, I see, I see She must be something
Yeah, she is.
Well how did all this happen
Just all at once really.
The Italians have a word for it
What word what is it?
A thunderbolt or something
What, you mean the Italian word for thunderbolt?
Yeah, something like that
I don't speak Italian myself you understand - No
But I knew a man who did
Well, that's my story,
The strongest thing I've ever seen."

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Amostrinha (2)

"Como será ser feliz,
ter benditos pensamentos?
Feliz deve ser-se assim,
ter pensamentos benditos:
uma vaga que se enrola,
uma onda sobre a água.
A alma dos desditosos,
o pensamento dum pato?
A alma dos desditosos,
o pensamento dos patos,
é como a neve nos montes,
como água num poço fundo."

"A água que é deste lago
é de mim, deste meu sangue;
os peixes aqui na água
são carne deste meu corpo;
as canas da beira-lago,
os meus ossos desgraçados;
os juncos aqui da praia
destas tranças penteados."

(Falas da Aino no Canto IV, mesmo antes de se atirar ao lago e logo depois de o fazer. Vv. 197-208 e 363-370. Aino é uma das personagens mais marcantes do poema e só aparece em dois Cantos.)

Outras casas

Ontem à noite começou o Festival Med em Loulé. Pelos vistos, a coisa já o ano passado tinha sido em grande, mas eu não estava cá. Ontem sim, e passei umas horas nas ruas mais antigas do centro da cidade, feliz por reencontrar muita gente, de presença mais ou menos frequente nos meus dias. Havia a exposição do cunhado, com poucas mas boas fotografias de Marrocos (a da estrada, ai a da estrada...), música, tendinhas de artesanato e coisas com cheiros bons. A mana, que andava comigo, foi saudada a noite inteira como a Nova Presidenta. É que, ao fim de tantos anos a dar o litro na Casa da Cultura de Loulé, lá aceitou dirigi-la. Conhece-a como ninguém e ama-a como todos os que se ligam a ela. Boa (a)ventura, mana!

terça-feira, 27 de junho de 2006

Amostrinha

No trabalho de revisão, há versos que me encantam. Não são extraordinários, nada de mais: como, aliás, os heróis. Mas encantam-me.

"Do ferro sei eu que é forte,
da terra negra, o amargor,
que a água fervente dói,
que é perversa a labareda."
(Kalevala, Canto III, vv. 195-198)

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Ainda Caio, infeccioso

Caio escreve "como se tivesse um soluço preso na garganta e o seu corpo de macho recusasse a violência da pancada seca, que aliviaria". Diz isto quem escreve para "abrir portas a pontapé", "porque é necessário. Porque colas o ouvido à madeira e, lá de dentro, ouves-te." O Reboliço está caladinho...

domingo, 25 de junho de 2006

Dexys

Depois de passar muitos anos sem os ouvir (porque me afastara das pessoas com quem os ouvia, porque a velha cassete de fita estreita se acabou por partir, de tantas vezes passada naquele aparelho tosco), um dia, em 2000, numa veneta, comprei três edições em CD de três álbuns dos Dexys Midnight Runners. Hoje (e já então) haverá quem os considere não mais do que um “guilty pleasure” – não eu, que continuo a delirar, a saltar e a chorar, se preciso for, quando os ouço. Acerca da maneira desbragada como a banda se expunha, numa época em que a subtileza das letras e o eclectismo musical seriam mais sensatos e os levariam mais directamente ao sucesso, o próprio Kevin Rowland disse a um entrevistador: “I don’t care if people laugh. That’s what Dexys Midnight Runners is all about. Showing your feelings and not giving a damn what other people think. People will always laugh at Dexys. That’s fine. … I will pin up my soul on the wall and let people read it. They can laugh, they can cry. It’s up to them. I really don’t mind.”* Que é como quem diz: Quero lá saber se as pessoas se riem. É isto que são os Dexys Midnight Runners: mostrar os sentimentos e estar-se nas tintas para o que pensam os outros. Hão-de sempre rir-se dos Dexys. Na boa. ... Penduro a minha alma na parede e deixo que a leiam. Podem rir ou chorar, é com elas. Não me interessa mesmo.
The way you look Tonight”, original de Jerome Kern (música) e Dorothy Fields (letra), na versão deles, é deliciosa. “Jackie Wilson Said” é a minha canção de hoje. O original é de Van Morrison, mas também gosto desta versão (a esta hora, a Anabela rói-se por eu não querer saber de pôr aqui o zingarelho de dar cantigas nos blogues :p).
*Está no folheto do Too-Rye-Ay, o que tem a mais famosa deles, uma das mais divertidas, “Come On Eileen”.

Caio Fernando Abreu (insiste)

Por vezes, o Reboliço entusiasma-se a citar autores de que gosta. Como no final de cada post, aparece, teimosa, a linha ESCRITO PELO REBOLIÇO, às vezes pode haver confusão. Porém, como desde o início teve esse cuidado, o Reboliço é muito zeloso de atribuir o seu a seu autor. Não significa que não quisesse, o Reboliço, ter escrito todas as palavras que cita. Mas não poderia, não poderia. Não caberiam todas na sua vida só, e ainda bem. Estas, por exemplo, são de Caio Fernando Abreu (é infeccioso, sim, e muito citado também):
“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder: Tudo é tão vago como se fosse nada.” (Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, Companhia das Letras, 1988, p. 148.)

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Novos linques

Muito zelosa, a Anabela orientou estes dois linquinhos ao Reboliço. M'tóbrigado :)
Um dia destes, terei que organizar a lista dos ditos, que já vai longa. Acho que vou pedir ajuda à Tiaga, que não tem nada que fazer. Ficou em casa em cima do armário da cozinha, o seu novo "cool spot". Fresquíssima, fresquíssima...

Marrocos do cunhadão

quinta-feira, 22 de junho de 2006

É arrepiante!

"A Translator, who cannot equal his original, is incapable of expressing its beauties."
James MacPherson, 1773 (Prefácio à 2ª edição dos Poemas de Ossian).

Os Dragões não Conhecem o Paraíso

Laio entrou no gabinete. Trazia na mão um livro magro, de lombada esfacelada e pálido. Entregou-o ao Reboliço: "Toma, foi a Mulher que pediu que to entregasse." Nessa noite, Caio Fernando Abreu foi um bom motivo de insónia. É um escritor "do bem" - o Reboliço pensa que isso se deve à maneira como a sua prosa se oferece, pede para ser repetida, relida, entranhada. Parece ser de quem lê, não do escritor. Não sabe explicar melhor. Não quer explicar melhor.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Loppu II

Ao fim de um ano e doze dias, precisamente. Terminámos a revisão da tradução. Já vi as primeiras imagens, preparadas por Rogério Ribeiro, da obra, que há-de sair (não se sabe ainda quando...) na editora Campo das Letras. Vão esperando, não se perderá pela demora.

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Começa hoje - no Porto

A Tiaga está ciumenta: é só o mano, só o mano, só o mano. Que fotografias dela, nada, e que assim não sabe se aguenta, porque afinal uma gata também vive da sua imagem, e blá-blá-blá... Um cão às vezes não tem pachorra!

domingo, 18 de junho de 2006

Blogfusion

Qual surpresa!... Surpreendente seria que não tivessem passado lá, ó Lagartinha. Da próxima, portas abertas.
Foto: Anabela Moutinho

sábado, 17 de junho de 2006

Pasolini (ainda; de novo)

A propósito do seminário do Hans Gumbrecht, onde apresentou um trabalho sobre o poeta Pasolini, aproveitou para traduzir alguns dos seus versos (a partir do italiano, mas com a versão inglesa a ajudar). Este chama-se "Raiva". Tem das imagens mais pacíficas da poesia de Pasolini (a paz, nele, assenta quando descreve a cidade, ou recantos dela).


RAIVA

Sigo até ao portão do jardim, uma pequena
passagem de pedra, escavada no piso
térreo, para o horto suburbano,
ali está desde os dias de Mameli,
com os seus pinheiros, as suas rosas, as suas raízes.
Em volta, para lá deste paraíso de campesina
tranquilidade, comparecem
as fachadas amarelas dos arranha-céus
fascistas, dos últimos estaleiros
e em baixo, através de grossos painéis de vidro,
há um armazém, sepulcral. Dormita
ao belo sol, um nada fresco, o grande horto
com a casinha, no meio, oitocentista,
cândida, onde Mameli morreu,
e um melro a cantar trama a sua intriga.

Este meu pobre jardim, todo
de pedra... Mas eu comprei um aloendro
– novo orgulho da minha mãe –
e vasos de todos os tipos de flores,
e até um fradezinho de madeira, um querubim
obediente e róseo, um nada malandro,
que encontrei na Porta Portense, quando andava
à procura de móveis para a casa nova. Cores,
poucas, a estação é assim áspera: fios
ligeiros de luz, e verde, todos os verdes...
Só um pouco de vermelho, turvo e esplêndido,
semi-escondido, amargo, sem alegria:
uma rosa. Pende humilde
do ramo adolescente, como de uma fenda,
avanço tímido de um paraíso em estilhaços.

Mais de perto, é ainda mais dispersa, parece
uma pobre coisa indefesa e nua,
uma pura atitude
da natureza, que se encontra no ar, no sol,
viva, mas de uma vida que a ilude
e a humilha, que quase a faz envergonhar-se
de ser assim rude
na sua ternura extrema de flor.
Aproximo-me ainda mais, sinto-lhe o odor...
Ah, gritar é pouco, e é pouco calar:
nada pode expressar uma existência inteira!
Renuncio a todos os actos... Apenas sei
que nesta rosa fico a respirar,
num só mísero instante,
o odor da minha vida: o odor da minha mãe...

Porque não reajo, porque não tremo
de alegria, ou gozo qualquer pura angústia?
Porque não sei reconhecer
este antigo nó da minha existência?
Sei porquê: porque em mim está já encerrado o demónio
da raiva. Um pequeno, surdo, fosco
sentimento que me intoxica:
esgotamento, dizem, febril impaciência
dos nervos: mas a consciência já não está livre disso.
A dor que de mim mesmo, a pouco e pouco, me aliena,
se não mais que a ela me abandono,
desprende-se de mim, volteia por si mesma,
pulsa-me desordenada sobre as têmporas,
enche-me de pus o coração,
já não comando o meu tempo...

Dantes, nada me conseguiria vencer.
Estava encerrado na minha vida como no ventre
materno, neste ardente
odor de humilde rosa húmida.
Mas lutava para sair de lá, na província
campestre, poeta de vinte anos, sempre, sempre
a sofrer, desesperadamente,
desesperadamente a gozar... A luta terminou
com a vitória. A minha existência privada
já não se encerra atrás das pétalas de uma rosa,
– uma casa, uma mãe, uma paixão afanosa.
É pública. Mas até o mundo que eu desconhecia
se abeirou de mim, me é familiar,
se deu a conhecer e, a pouco e pouco,
impôs-se, necessário, brutal.

Não posso agora fingir não o saber:
ou não saber como isso me quer.
Que espécie de amor
conta nesta relação, que acordos infames.
Não arde uma chama neste inferno
de aridez, e este árido furor
que impede o meu coração
de reagir a um perfume é uma ruína
da paixão... Aos quase quarenta anos,
encontro-me na raiva, como um jovem
que de si nada mais sabe além de que é novo,
e se encanta contra o velho mundo.
E como um jovem, sem piedade
nem pudor, não oculto
esta minha condição: não terei paz, jamais. 

(Tradução: AIS)

Obras no Moinho (3)

Na terça, vão à Câmara de Beja o projecto e o orçamento das obras no Moinho. Parte do historial a apresentar:
"Consta que a construção do Moinho Grande nasceu de uma contrariedade. O primeiro proprietário terá sido Francisco Frazão Crujo, que decidiu construí‑lo por teima — tendo‑lhe sido negada a venda do Moinho do Meio (um dos dois moinhos do actual conjunto adjacente), prometeu que haveria de fazer um outro maior. A sua construção deve remontar ao ano de 1872. Mais tarde, foi adquirido por outro proprietário, conhecido como José Maria Padeiro, que viria a aforá‑lo, e depois a vendê‑lo, a Francisco Gertrudes, bisavô do actual proprietário. Este terá ainda testemunhado a construção do Moinho Grande, quando, tendo saído de Beringel, onde vivia, foi às 'sortes' a Beja."

Guess who?...

O "arquitonto" (mana, isto está cada vez mais desequilibrado... O Reboliço exige fotos!). Fotografado a semana passada pelo Isaías (alô, Misha & Pelota!) junto à torre de Jean Nouvel, na cidade linda.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Uhuuuuu...

Ontem revi o Cat People. A Tiaga não dormiu descansada - de cada vez que a pantera rugia, sobressaltava-se-lhe o sono e desenrolava-se toda no sofá, espetava as orelhas e abria os olhões, maiores que o focinho. Pior que esses sustos, só considerarem o Reboliço "un personaje imaginario". Não, Misha & Pelota: este canito é muito real!

Esclarecimento

Era o que o Reboliço estava a ouvir ontem: a Bartoli, que lhe lembrou a LeBlanc.
(Gostei do "benardiana", hehehe.)

quinta-feira, 15 de junho de 2006

Corpo de Deus

Em Roma, nos anos iniciais do século XVIII, a Igreja decretou e zelou por uma forte censura a qualquer acto de entretenimento público: teatro e ópera eram proibidos, numa atitude censória que já ditara desde 1588, por exemplo, que não haveria mulheres no palco das óperas – o que levou ao florescimento dos castrati. Georg Friedrich Händel, o “querido saxão”, foi um dos muitos compositores em Roma que continuou a escrever a sua obra, quer para a Igreja quer para o entretenimento privado da nobreza. Em Il Trionfo del Tempo e del Disinganno (1707), um oratório de pendor moralista, a personagem do Prazer canta estes versos (o libretto é do cardeal Benedetto Pamphilj):

Lascia la spina,
Cogli la rosa;
tu vai cercando
il tuo dolor.
Canuta brina,
Per mano ascosa
Giungerà quando
Nol crede il cor.

(Malamente traduzido, será: Deixa os espinhos, colhe a rosa; andas em busca da tua dor. Uma mão oculta te trará as cãs sem que o teu coração disso dê conta.)

Em 1710, no mesmo ano em que em Roma se recomeça a permitir a encenação e a apresentação pública de óperas, Händel vai para Londres. Conta-se que o sucesso que teve em Inglaterra se deveu ao arrojo das suas soluções cénicas e à ousadia dos poemas. A mesma ária musical que usara quatro anos antes no oratório Il Trionfo... torna-se, no Rinaldo, a primeira ópera londrina de Händel, isto (libretto de Giacomo Rossi a partir de uma adaptação de Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso):

Lascia ch’io pianga
La cruda sorte
E che sospiri
La libertà!
Il duolo infranga
Queste ritorte
De’ miei martiri
Sol per pietà

(Ora veja-se: Deixa que chore a cruel sorte e que suspire por liberdade! A dor que rompa estas cadeias de meus martírios, só por piedade.)

O Reboliço, a quem o barroco sempre seduziu, está meditativo: contradições de uma época de “experiências do irreconciliável”? Ou os eternos contrários que nos fazem ainda ter feriado para celebrar a materialidade de um divino incorpóreo?

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Obras no Moinho (2)

No fim-de-semana esteve no moinho o consultor de carpintaria. "Ena, tanta madeira!", dizia ele. "Isto é mesmo gigante..." Uma das velas já foi levada, para ser modelo das que hão-de ser feitas. Tiraram medidas ao telhado, por onde começarão os arranjos. A esposa do Sr Caetano, que é o homem que coordenará as obras, contou aos pais do Reboliço que, na noite antes de o marido ir ver o Moinho, "o meu homem não dormiu nada." De antecipação.

terça-feira, 13 de junho de 2006

Fresco!

- que é "cool", na versão da Anabela ;) O Reboliço também fica muito feliz com estas coisas.