Depois de umas belas tortillas à séria no Flash Flash, afundo-me nas páginas derradeiras de Luiz Ruffato. Uma espécie de tempestade narrativa. Desconfiei, ao início, daqueles maneirismos todos, das vozes múltiplas, das frases interminadas e até do arrumo gráfico. Venceu-me. É muito bom.
Reinicio Tiempo de Silencio. Pela terceira vez. (A propósito, fui ter a um blogue sobre leituras, que deixo lincado.)
terça-feira, 29 de agosto de 2006
domingo, 27 de agosto de 2006
Indiferença felina
O Reboliço regressou à casa, aos saltinhos e de orelhas espetadas. As gatas, nem nada. Contou-lhes onde tinha ido, com quem tinha estado, o que tinha visto. Contou-lhes da "tramontana", do vento que desce rápido Pirinéus abaixo, da cor do Mediterrâneo, do pôr-do-sol no lado contrário do mar. Nada. Nem se moveram, quando lhes falou das avelaneiras. Gatas urbanas, é o que é.
sexta-feira, 25 de agosto de 2006
quinta-feira, 24 de agosto de 2006
"É uma injustiça..."
Como se fosse o pequeno Calimero, ouve-se agora, desde uma distância mais longínqua ainda, a vozinha apagada de Plutão. Não, não é nada justo.
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Plutão
Sopa de beldroegas
Nada como nos apaixonarmos por uma bela sopa de beldroegas num sítio distante e, volvidos a casa, onde nunca antes tínhamos dado por elas, encontrarmos dois vasos cobertos destas ervas boas.
quarta-feira, 23 de agosto de 2006
Gatas (actualizado)
Misha e Pelota passeiam pela casa, atravessam o corredor para lá e para cá. O Reboliço tem dificuldade em distingui-las. Tem o olhar toldado pela elegância da Tiaga - tudo o que seja mais anafado o confunde. As duas gatas gorditas também o estranham. Quando reparam nele, sentado a escrever, param à porta, deixam de se lamber e abrem muito os olhos. Como quem diz: "De onde foi que saiu este?"
(Foto: Isa)
terça-feira, 22 de agosto de 2006
Nassar magistral
“como vítimas da ordem, insisto em que não temos outra escolha, se quisermos escapar ao fogo deste conflito: forjarmos tranqüilamente nossas máscaras, desenhando uma ponta de escárnio na borra rubra que faz a boca; e, como resposta à divisão em anverso e reverso, apelemos inclusive para o deboche, passando o dedo untado na brecha do universo; se as flores vicejam nos charcos, dispensemos nós também o assentimento dos que não alcançam a geometria barroca do destino.”
(pp.133-134)
segunda-feira, 21 de agosto de 2006
Obras no moinho
A andar. A chuva que caiu a semana passada ainda chegou a entrar nos barrotes do telhado, mas o calor que veio depois ajudou a secar. Enfim, as madeiras aguentam. A água não chegou a entrar nas vigas grandes do piso intermédio. Menos mal. Segue-se mais uma semana de obras. O humor dos homens não esmorece, é surpreendente.
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Moinho
quarta-feira, 16 de agosto de 2006
Onde assentam as vigas
Sábado passado, o Reboliço foi a Monchique. Ver as duas vigas novas que irão suportar o sobrado do piso intermédio. Cada uma mede mais de cinco metros e pesa para cima de uma tonelada. Jeitosinhas...
A serra deixou-o meio mole, do calor e da humidade. Passou o fim-de-semana todo na ronha.
Segunda de manhã, pela fresca, ainda antes de chegarem os homens, girou na fechadura da porta vermelha a grande chave de ferro e subiu o primeiro lanço de escadas. Queria ver, uma vez mais antes de desaparecerem sob os extremos das vigas, a argamassa e outras pedras mais pequenas, os quartos de mós onde assentarão os dois barrotes gigantes de eucalipto. Descobrira aquilo logo na sexta-feira, quando foi dar a volta a ver como paravam as obras. Por baixo de duas das quatro janelas do piso intermédio, uma em frente da outra, descarnara-se a alvenaria para extrair a madeira já muito apodrecida de duas das vigas (as outras duas, mais curtas e distantes do centro do piso, são antigos mastros de outros moinhos, de pau-ferro; ou seja, há-de ser cedo que apodreçam...). Sem madeira, pedras nem os restos de argamassa, pôde ver a lisura de quatro quartos de mós, dois por cada janela ou extremo das vigas, um a sustentar cada extremo das vigas. Há-de vir foto, para esclarecer.
Os trabalhos no moinho prosseguem, as vigas novas foram assentadas hoje, mas o relato virá mais tarde.
A serra deixou-o meio mole, do calor e da humidade. Passou o fim-de-semana todo na ronha.
Segunda de manhã, pela fresca, ainda antes de chegarem os homens, girou na fechadura da porta vermelha a grande chave de ferro e subiu o primeiro lanço de escadas. Queria ver, uma vez mais antes de desaparecerem sob os extremos das vigas, a argamassa e outras pedras mais pequenas, os quartos de mós onde assentarão os dois barrotes gigantes de eucalipto. Descobrira aquilo logo na sexta-feira, quando foi dar a volta a ver como paravam as obras. Por baixo de duas das quatro janelas do piso intermédio, uma em frente da outra, descarnara-se a alvenaria para extrair a madeira já muito apodrecida de duas das vigas (as outras duas, mais curtas e distantes do centro do piso, são antigos mastros de outros moinhos, de pau-ferro; ou seja, há-de ser cedo que apodreçam...). Sem madeira, pedras nem os restos de argamassa, pôde ver a lisura de quatro quartos de mós, dois por cada janela ou extremo das vigas, um a sustentar cada extremo das vigas. Há-de vir foto, para esclarecer.
Os trabalhos no moinho prosseguem, as vigas novas foram assentadas hoje, mas o relato virá mais tarde.
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Moinho
Ouriço-cacheiro
Há dois anos, em Helsínquia, descrevi um episódio curioso que se passou na rua onde morava, com um ouriço-cacheiro. Anteontem provei ouriço. Guisadinho. Heh... fez-me pensar em orelha de porco, assim para o cartilaginoso, mas com mais chicha. Acho que não tenho grande sensibilidade para apreciar a carne do bicharoco. Ficou-me pela experiência. Levaram-no os homens que estão a trabalhar no moinho. Isso, mais cabeça de porco, igualmente guisada. Fiz-lhes uma bela salada montanheira, mesmo à moda algarvia, com batata cozida (também foi novidade para eles).
Um almoço e pêras, diria o Reboliço, não se tivesse dado o caso de a fruta ter sido melão.
Ler nas férias
E vão três. Livros, quero dizer. Não são muitos, mas todos muito bons.
1. Por preguiça, peguei num que tinha à mão: de Machado de Assis, Memorial de Aires. Li-o de uma assentada, com a vergonha a ampliar-se-me, página a página, de não ter lido, até agora, nada deste escritor. Li-o em papel, mas está também disponível por aqui.
2. Retive algum tempo a vontade de ler El mal francès, só para actualizar a leitura de um dos meus autores favoritos (que sorte imensa, não me canso de o reconhecer!) e ler o seu romance anterior, Isaac y las dudas. Li-o na versão castelhana (o original é catalão) que, além da excelência da história, do discurso, das personagens, do muito que ri com algumas das cenas, ainda tem o bónus - também hilariante - do prólogo, escrito pelo tradutor, Luís Algorri.
3. Li, enfim, El mal francès. No original catalão. Precisarei de esclarecer umas dúvidas vocabulares, mas o desafio da língua não foi obstáculo que me impedisse de ver como Lluis Maria Todó está na sua melhor forma.
Uma alegria, ler assim tantas coisas boas. Avanço agora, com grandes expectativas, para Lavoura Arcaica. Será por aqui que começarei a conhecer a obra de Raduan Nassar.
1. Por preguiça, peguei num que tinha à mão: de Machado de Assis, Memorial de Aires. Li-o de uma assentada, com a vergonha a ampliar-se-me, página a página, de não ter lido, até agora, nada deste escritor. Li-o em papel, mas está também disponível por aqui.
2. Retive algum tempo a vontade de ler El mal francès, só para actualizar a leitura de um dos meus autores favoritos (que sorte imensa, não me canso de o reconhecer!) e ler o seu romance anterior, Isaac y las dudas. Li-o na versão castelhana (o original é catalão) que, além da excelência da história, do discurso, das personagens, do muito que ri com algumas das cenas, ainda tem o bónus - também hilariante - do prólogo, escrito pelo tradutor, Luís Algorri.
3. Li, enfim, El mal francès. No original catalão. Precisarei de esclarecer umas dúvidas vocabulares, mas o desafio da língua não foi obstáculo que me impedisse de ver como Lluis Maria Todó está na sua melhor forma.
Uma alegria, ler assim tantas coisas boas. Avanço agora, com grandes expectativas, para Lavoura Arcaica. Será por aqui que começarei a conhecer a obra de Raduan Nassar.
Djurumani
Já há tempos que não me lembrava deste disco. Hoje falei com um amigo sobre música de Cabo Verde. Que saudades, Djurumani...
sexta-feira, 11 de agosto de 2006
Rafael
No topo do moinho, mesmo mesmo a encimá-lo, há um cata-vento. Tem a forma de um homem a cavalo numa égua (o Reboliço soube hoje, do Mestre Caetano, que é uma égua) e parece-se com um tal Rafael, que passava aqui no moinho. Ver o moinho sem tecto não lhe fez tanta impressão como ver o Rafael e a montada, por assim dizer, apeados...
quinta-feira, 10 de agosto de 2006
Moinhos na poesia (6)
Continua a série que iniciei em Janeiro deste ano. Desta vez, quem me levou ao poema de Fiama Hasse Pais Brandão foi o cão do vizinho António. Obrigada, meu primo!
"Da voz das coisas"
Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.
Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.
(As Fábulas, edições Quasi, 2002.)
De parabéns
Diz a Pelota: "Olha, Tiaga, hoje estou assim para festas. Faço-me de mimosa..."
"O que houve?", pergunta a Tiaga."É o aniversário do Isaías. Dão-lhe a atenção toda a ele. Bem sabes como isso nos aborrece... Enfim, é uma criatura muito boa, por isso lhe perdoo. Mas ai dele se não me faz tantas ou mais festas do que nos outros dias!"
Responde a Tiaga, enquanto lambe os interstícios da pata dianteira direita: "Deixa-te de frescuras, Pelota. Tu até tens direito a andar livre por essa varanda. Já eu, ai, coitada de mim, o mais que consigo é dar uns passitos no parapeito da janela da cozinha..."
"Ora adeus, tenho que ir. A Misha está a chamar."
"Saudades para ela. Um beijo ao Isa, outro ao LM."
segunda-feira, 7 de agosto de 2006
Trabalhos no moinho, final do primeiro dia
....Está a entardecer. Sento-me na rua, por baixo da videira frente à porta de casa. Já bole o vento fresco. Daqui vejo, em enfiada, as duas portas do moinho. A grande está aberta. A do fundo tem só aberto o postigo, um quadrado de luz a pôr-se na madeira já de encarnado indistinto.
....O moinho está esventrado. O piso intermédio não tem as mós postas – estão todas arrumadas à curva da parede, dispostas ao alto. Uma delas, vi hoje, está no moinho desde o fim dos anos cinquenta, foi quando os homens do Cineclube de Beja filmaram a operação de montagem. Na pedra, escritas a tinta vermelha, as mesmas iniciais que no filme se viam a preto: F.D.S.
....Além das mós e das cunhas de madeira, a escada que leva ao piso do telhado está também tirada, inútil, encostada às mós. Do piso de baixo, pelos buracos dos veios dos dois casais de mós, vê-se o piso de cima. Do vão da escada de baixo vê-se o vazio do piso intermédio, que não olho daqui, mas está lá.
....O moinho está esventrado. O piso intermédio não tem as mós postas – estão todas arrumadas à curva da parede, dispostas ao alto. Uma delas, vi hoje, está no moinho desde o fim dos anos cinquenta, foi quando os homens do Cineclube de Beja filmaram a operação de montagem. Na pedra, escritas a tinta vermelha, as mesmas iniciais que no filme se viam a preto: F.D.S.
....Além das mós e das cunhas de madeira, a escada que leva ao piso do telhado está também tirada, inútil, encostada às mós. Do piso de baixo, pelos buracos dos veios dos dois casais de mós, vê-se o piso de cima. Do vão da escada de baixo vê-se o vazio do piso intermédio, que não olho daqui, mas está lá.
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Moinho
Começam os trabalhos no moinho
....“E agora?”, pergunta um dos homens, no piso intermédio – depois de estarem encostadas à parede as duas mós do casal de mós do lado Norte, retirados os calços de madeira que o ajustavam à mó de baixo e varridas as teias e o pó velho dos veios da mó. Entretanto, o discurso fora arqueológico: qual a razão que levara o avô a usar cunhas de madeira e a desprezar a mó de enchimento, armada com aro de ferro, que está arrumada à parede desde que me conheço.
....“Ainda só andámos cinco metros e quarenta e não chegámos a meio.” O mano anda com o pai no piso do topo, a tirar o diâmetro. O mais que agora se faz é tirar medidas, para que, quando as peças forem remontadas, tudo calhe certo como estava. “Não estás a segurar nisso, pai!” “Ó filho, tu é que tens de segurar na fita...” “Sim, mas tu também és a minha segurança.”
....O cunhado mexe-se como um árbitro no meio do campo. Vai fotografando sem ser visto, sem ser trambolho no caminho dos quatro mestres. O mestre capataz, o Ti’Caetano, vem com o filho e mais dois, os carpinteiros, o Sr Chico e o Sr Joaquim.
....A mó do lado Sul ainda está montada. Tem gravada uma data, 7-5-1961. Não havia nesse tempo Reboliço, nem Lobito. Haveria um Margot, o setter irlandês. Ou não, esse era o da infância do pai (que, em 1961, fazia 22 anos).
....As medidas que o pai e o mano tiraram estão ao milímetro, de fita métrica e calculadora. O mestre Caetano, a olho, fez outra conta, com os mesmos resultados.
....Passaram todos para o piso térreo. A Luca veio esta manhã com os donos e entra pela porta grande. Queda-se, para as festas do cunhado, e volta a sair do moinho pela porta de poente. A semana passada morreu dentro do moinho uma canita do vizinho. Tinha entrado para se refugiar da calma e não deu conta de se fecharem as portas e as janelas. Nem o pai deu por ela, escondida nalgum canto enquanto ele trancava o moinho. Mais tarde, o animal tentou sair, desceu à casa do motor pela passagem que existe na parede e serve de canal às correias do motor para a engrenagem. Na casa do motor, esgravatou o chão, espalhou as cebolas e os alhos ali dispostos para secarem. Mas não achou meio de sair. “Era p’ra morrer, já estava velha,” disse o vizinho, quando soube.
....“É de 1973 este calendário. Ainda a gente não havia,” diz a mana para o mano.
....Os manos lêem o que já mal se percebe, nas ombreiras da porta grande. “A Helena pesa 30 quilos” “Só podia ser a tia Lena.” A filha do vizinho António é Helena, seria ela? Por aquele tempo teria uns nove ou dez anos. Na parede grossa à entrada o avô apontava contas, as dos avios e, mais tarde, as outras, as que lhe vinham sem cessar à cabeça, já no tempo em que o moinho não moía, punha-se ele ao fresco a inventar cálculos.
....Há seis mãos de homens a agarrar a longa cunha de madeira, para retirar a roda dentada do piso térreo, a que transmite a energia do motor a gasóleo para o casal de mós do lado Sul. Esta é a roda mandada, é toda de madeira e fica na horizontal; atrás dela, a mandante, de madeira e ferro, está na vertical.
....“Tragam lá o macaco,” grita o pai. Diz o Sr Joaquim que o que ele quer é o aliviador, agora “macaco”... “Ah, isto não mexe. Tragam lá o spray.” “Já está solta, agora o problema é subir p’ra cima.” “Dê cá a alavanca de ferro. E agora dê-me a alavanca de madeira, p’ra isto levantar ao mesmo tempo.” Esta vai ser mais má de tirar que as mós. “Era sempre uma tourada...”, diz o pai. “Com estes macaquinhos, não vai lá.”
....A mãe veio da casa e sentou-se num banco a ver, no piso de baixo. Esta roda tem de ser tirada agora, para se desengrenar a mó do piso de cima.
....“Não há meio, não mexe. Aquilo era p’ra estar ali sempre,” diz o mestre Caetano a tirar a boina da cabeça e a coçar a testa. “Em vinte anos, ganham raízes.” As alavancas chiam e estalam, sob a força dos seis braços que tentam libertar a roda. Não há meio.
....É ainda de manhã cedo e com as duas portas escancaradas, uma em frente à outra, está-se dentro do moinho com o vento lá de fora. A diferença é que, dentro, as paredes grossas arrefecem o ar.
....Partiu-se a longa alavanca de linha direita. Era de madeira de azinho. Estas peças ainda matarão muita madeira. Um moinho com raízes sossegadas há quase trinta anos não se deixa desmontar à primeira.
....Há um conselho de mestres, de cada vez que tem de se mexer numa peça. O que deve sair primeiro, o que tem de ficar, o que não sai, onde se deixa a peça quando sair. É um enigma que se vai resolvendo à medida que se adensa e se adensa conforme se resolve.
....“Tira-te daí, moço, não te caia uma mó no olho.” “E há caixa de primeiros socorros?” “Não é preciso, façam uma promessa.”
....A Luca já não sai daqui. “O bicho quer é isto,” diz o pai. “Aceita as festas todas e não volta a unha?”, admira-se um dos carpinteiros. O mano tinha preparado um baraço para a prender no piso térreo. “Passei meia hora a atá-la, para ela não subir ao piso de cima.” Quando lá chegou, já a bicha lá estava.
....“Aqui neste buraquinho deve estar outro ninho de ferros.”
....Os homens estão todos no piso intermédio. Estou sozinha cá em baixo. Encostada à parede, ao alto e fechada, está a cadeira de lona verde-seco, onde o avô dormia as folgas frescas. Perto do chão, o tecido está carcomido por bolor. Prende-se à armação de madeira por uns fios reles, cinco ou seis, que resistem há anos, abanados sempre para o lado da rua, quando passa corrente de ar. Na parte de cima, uma mancha de humidade, redonda, da água que lhe tem caído. Ao lado há uma mesa velha, hoje coberta com garrafões de água, um pequeno contentor de vinho tinto e cestos, com figos e com pão. São os bornais dos mestres. Debaixo dos quatro pés da mesa, enrolada e atada, uma corda grossa, da espessura de um braço magro. Corda de prender as velas.
....Olho para fora, através da porta aberta que dá para a estrada. No enquadramento, vejo três ciprestes, para lá dos carros que passam, vinhedo, oliveiras e umas poucas casas, além dos postes da electricidade. Devia fechar esta porta. O vento que entra agora é já quente e, com a velocidade a que passa, não tem tempo de arrefecer. Mas não me levanto. A porta chia, move-se pouco. O postigo bate com a força do vento. Por cima do tecto, sobre mim, ouço martelar, as vozes dos homens, o pó e bocadinhos de madeira que vão caindo neste piso, enxotados pelas pisadas, marteladas e vassouradas no chão de cima. Quando paro de escrever, o vento levanta as folhas do caderno.
....Não deram tirada a mó. “Deixem-na ficar até que se almoce, que o que ela quer é isso.”
....“Ainda só andámos cinco metros e quarenta e não chegámos a meio.” O mano anda com o pai no piso do topo, a tirar o diâmetro. O mais que agora se faz é tirar medidas, para que, quando as peças forem remontadas, tudo calhe certo como estava. “Não estás a segurar nisso, pai!” “Ó filho, tu é que tens de segurar na fita...” “Sim, mas tu também és a minha segurança.”
....O cunhado mexe-se como um árbitro no meio do campo. Vai fotografando sem ser visto, sem ser trambolho no caminho dos quatro mestres. O mestre capataz, o Ti’Caetano, vem com o filho e mais dois, os carpinteiros, o Sr Chico e o Sr Joaquim.
....A mó do lado Sul ainda está montada. Tem gravada uma data, 7-5-1961. Não havia nesse tempo Reboliço, nem Lobito. Haveria um Margot, o setter irlandês. Ou não, esse era o da infância do pai (que, em 1961, fazia 22 anos).
....As medidas que o pai e o mano tiraram estão ao milímetro, de fita métrica e calculadora. O mestre Caetano, a olho, fez outra conta, com os mesmos resultados.
....Passaram todos para o piso térreo. A Luca veio esta manhã com os donos e entra pela porta grande. Queda-se, para as festas do cunhado, e volta a sair do moinho pela porta de poente. A semana passada morreu dentro do moinho uma canita do vizinho. Tinha entrado para se refugiar da calma e não deu conta de se fecharem as portas e as janelas. Nem o pai deu por ela, escondida nalgum canto enquanto ele trancava o moinho. Mais tarde, o animal tentou sair, desceu à casa do motor pela passagem que existe na parede e serve de canal às correias do motor para a engrenagem. Na casa do motor, esgravatou o chão, espalhou as cebolas e os alhos ali dispostos para secarem. Mas não achou meio de sair. “Era p’ra morrer, já estava velha,” disse o vizinho, quando soube.
....“É de 1973 este calendário. Ainda a gente não havia,” diz a mana para o mano.
....Os manos lêem o que já mal se percebe, nas ombreiras da porta grande. “A Helena pesa 30 quilos” “Só podia ser a tia Lena.” A filha do vizinho António é Helena, seria ela? Por aquele tempo teria uns nove ou dez anos. Na parede grossa à entrada o avô apontava contas, as dos avios e, mais tarde, as outras, as que lhe vinham sem cessar à cabeça, já no tempo em que o moinho não moía, punha-se ele ao fresco a inventar cálculos.
....Há seis mãos de homens a agarrar a longa cunha de madeira, para retirar a roda dentada do piso térreo, a que transmite a energia do motor a gasóleo para o casal de mós do lado Sul. Esta é a roda mandada, é toda de madeira e fica na horizontal; atrás dela, a mandante, de madeira e ferro, está na vertical.
....“Tragam lá o macaco,” grita o pai. Diz o Sr Joaquim que o que ele quer é o aliviador, agora “macaco”... “Ah, isto não mexe. Tragam lá o spray.” “Já está solta, agora o problema é subir p’ra cima.” “Dê cá a alavanca de ferro. E agora dê-me a alavanca de madeira, p’ra isto levantar ao mesmo tempo.” Esta vai ser mais má de tirar que as mós. “Era sempre uma tourada...”, diz o pai. “Com estes macaquinhos, não vai lá.”
....A mãe veio da casa e sentou-se num banco a ver, no piso de baixo. Esta roda tem de ser tirada agora, para se desengrenar a mó do piso de cima.
....“Não há meio, não mexe. Aquilo era p’ra estar ali sempre,” diz o mestre Caetano a tirar a boina da cabeça e a coçar a testa. “Em vinte anos, ganham raízes.” As alavancas chiam e estalam, sob a força dos seis braços que tentam libertar a roda. Não há meio.
....É ainda de manhã cedo e com as duas portas escancaradas, uma em frente à outra, está-se dentro do moinho com o vento lá de fora. A diferença é que, dentro, as paredes grossas arrefecem o ar.
....Partiu-se a longa alavanca de linha direita. Era de madeira de azinho. Estas peças ainda matarão muita madeira. Um moinho com raízes sossegadas há quase trinta anos não se deixa desmontar à primeira.
....Há um conselho de mestres, de cada vez que tem de se mexer numa peça. O que deve sair primeiro, o que tem de ficar, o que não sai, onde se deixa a peça quando sair. É um enigma que se vai resolvendo à medida que se adensa e se adensa conforme se resolve.
....“Tira-te daí, moço, não te caia uma mó no olho.” “E há caixa de primeiros socorros?” “Não é preciso, façam uma promessa.”
....A Luca já não sai daqui. “O bicho quer é isto,” diz o pai. “Aceita as festas todas e não volta a unha?”, admira-se um dos carpinteiros. O mano tinha preparado um baraço para a prender no piso térreo. “Passei meia hora a atá-la, para ela não subir ao piso de cima.” Quando lá chegou, já a bicha lá estava.
....“Aqui neste buraquinho deve estar outro ninho de ferros.”
....Os homens estão todos no piso intermédio. Estou sozinha cá em baixo. Encostada à parede, ao alto e fechada, está a cadeira de lona verde-seco, onde o avô dormia as folgas frescas. Perto do chão, o tecido está carcomido por bolor. Prende-se à armação de madeira por uns fios reles, cinco ou seis, que resistem há anos, abanados sempre para o lado da rua, quando passa corrente de ar. Na parte de cima, uma mancha de humidade, redonda, da água que lhe tem caído. Ao lado há uma mesa velha, hoje coberta com garrafões de água, um pequeno contentor de vinho tinto e cestos, com figos e com pão. São os bornais dos mestres. Debaixo dos quatro pés da mesa, enrolada e atada, uma corda grossa, da espessura de um braço magro. Corda de prender as velas.
....Olho para fora, através da porta aberta que dá para a estrada. No enquadramento, vejo três ciprestes, para lá dos carros que passam, vinhedo, oliveiras e umas poucas casas, além dos postes da electricidade. Devia fechar esta porta. O vento que entra agora é já quente e, com a velocidade a que passa, não tem tempo de arrefecer. Mas não me levanto. A porta chia, move-se pouco. O postigo bate com a força do vento. Por cima do tecto, sobre mim, ouço martelar, as vozes dos homens, o pó e bocadinhos de madeira que vão caindo neste piso, enxotados pelas pisadas, marteladas e vassouradas no chão de cima. Quando paro de escrever, o vento levanta as folhas do caderno.
....Não deram tirada a mó. “Deixem-na ficar até que se almoce, que o que ela quer é isso.”
domingo, 6 de agosto de 2006
A propósito de The Outsiders
Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.
É ouro o primeiro verde da natureza,
O tom que mais lhe custa manter.
A primeira folha, uma flor;
Mas por uma hora só.
Da folha, outra folha há.
Assim se afogou na dor o Éden,
Assim desce ao dia a aurora.
Nenhum ouro permanece.
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.
Mais coisa, menos coisa, era isto que dizia Robert Frost em 1923:
É ouro o primeiro verde da natureza,
O tom que mais lhe custa manter.
A primeira folha, uma flor;
Mas por uma hora só.
Da folha, outra folha há.
Assim se afogou na dor o Éden,
Assim desce ao dia a aurora.
Nenhum ouro permanece.
Em The Outsiders, Coppola torceu o poema e fez gemer o desejo de o contrariar. Na cama do hospital onde morre, Johnny diz ao amigo, Ponyboy, "Stay gold". Lírico...
A A.R.
"Cantavas: sou gaivota e fui sereia". Gaivota que foi sereia não deixa jamais de o ter sido. Pode é melhorar. Por exemplo, eu há vinte anos não fazia a massa de peixe que hoje faço.
quinta-feira, 3 de agosto de 2006
quarta-feira, 2 de agosto de 2006
segunda-feira, 31 de julho de 2006
As férias do Reboliço
O Reboliço começa as férias cansado. Cabisbaixo, de olhos vagos, entrega-se às férias. Acredita que tudo virá a ser melhor, menos feio. Suspira e entra nas férias.
sexta-feira, 28 de julho de 2006
Uma janela que dá para Sul
Detrás das grades de uma janela do antigo Convento da Conceição, em Beja, Soror Mariana terá existido e amado. É incerto, porém, que tenham sido escritas por si as cartas de amor ao oficial francês Noel Bouton, Conde de Chamilly. Um talento estilístico, uma sofisticação e clareza de frases e de sentidos, uma excelência literária inultrapassável e comentada com rasgos elogiosos por Rilke, um dos seus muitos tradutores, reclamam antes um autor nativo, francês, para punho das linhas amorosas.
De si para si mesmo.
terça-feira, 25 de julho de 2006
"Ansiedad...
... de tenerte en mis braços", cantarola o Reboliço a pensar no Isa. E de abraçar o LM e mais todas as memórias de Barcelona e de Paris, de livros e de música, de boa comidinha e doces palavras, de tudo o que trarão com eles. Entre amanhã e o início de Agosto, só por acaso ou milagre me apanharão a "postar".
domingo, 23 de julho de 2006
Nunca
Na aldeia do Reboliço, a palavra "nunca" significa outras coisas além do seu sentido mais corrente. "Nunca fui à da Nita" quer dizer "Acabei por não ir à da Nita". Pergunta-se "Ali... Nunca viste o Tói Galego?" (Ou seja: "Ouve lá... Chegaste a vê-lo?")
Actualização...
...da narrativa sobre os amanheceres do Reboliço. O avô chamava-o para perto da sua cama e, depois de lhe coçar o lombo com a bengala, dava-lhe duas bolachas Maria que trouxera para a mesa de cabeceira na noite anterior. Era por isto, com a coçadela de lombo, que o Reboliço se pelava.
sexta-feira, 21 de julho de 2006
A minha vida dava um filme
"Está descansada que eu estou a registar tudo na minha memória para depois te ajudar a fazer o guião." Como é bom ter quem não se esqueça dos momentos que a nossa história vai empurrando para longe do pensamento... A Zabelinha é uma guardiã do melhor. Como é que se agradece isto?
"Profissão: Desatento"
Isto hoje (incluíndo o título do post) é do Mano. Deliciai-vos:
"Ontem fui ao cinema com a Giulia [uma amiga italiana], ela perguntou-me assim: "joá", já viste um filme que se chama Os Edukadores? E eu disse que não (tu já?). Ok, então vamos, então fomos... Era no Nimas e eu meti na cabeça que o Nimas era onde era o Cinestudio 222 (vá-se lá saber porquê...) mas ia com uma sensação que podia não ser aí... Bem, lá descobrimos que não era mesmo aí, era aquela sala onde fomos ver o Roger Rabbit! Lembras-te?
Bem, a sessão era às 21.30, chegámos mesmo ao pêlo! 9.27 (da noite). Quando estávamos a chegar à bilheteira, estava vazia! (Já por si a coisa era estranha, mas... nao há meio de uma cabeça - nem duas - se porem a pensar um bocadinho...) lá fui para dentro do foyer à procura da sra ou do sr... que lá apareceu...
Quando voltei para a posição de aquisição dos bilhetes, olho para o lado e vejo um cartaz a preto e branco incrível! Era com o Jack Nicholson (ou lá como se escreve) muito novinho e assim com uma paisagem bastante árida por trás... e fiquei flashado! Pensei, é este o tal filme que não sei qual é, só pode ser, um com o Jack Nicholson a viajar por Espanha e em cima da Pedrera do Gaudì! Só pode ser!, este é que era fixe, ó julia (Giulia)! Nisto, enfio a cabeça naquele vazio do vidro da bilheteira e peço 2 bilhetes! E a sra (era uma sra) - 10 euros. E a julia (Giulia) 5 euros? Mas não era 3 e meio? Agarrando uma folhinha manhosa com Os Edukadores... (enquanto o drama dos euros prosseguia, eu desviei a atenção de novo para o cartaz e pensava... fod!... tenho que vir ver este... e descia os olhos pelo cartaz a fora, quando dou de caras com Michelangelo Antonioni! Minchia! (que é assim uma parolacia em italiano... quer dizer pixa!) Impossível, então sou mesmo parvo! O misterioso filme de que vi partes algures no mundo algures numa idade que já tive era deste doce mistério do silêncio! m.a.!... ah...
Extasiado, volto à realidade da bilheteira e apercebo-me que a Giulia 'tava com aquela cara assim meio de cruzamento entre rato e gato zonzo... Tinha-se apercebido que Os Edukadores era afinal no King! Coitada, estava mesmo desapontada (não 'tava a apontar nada...) Yesss, em meio segundo apercebi-me que o que estava ali era este filme que eu estava a rever nos fragmentos da minha cabeça - Profissão Repórter!
Bute! Bute.
E entao lá bute.
Concluímos a transacção e entrámos a correr (assim por trás ainda ouvi a sra dizer: os bilhetes já não precisa cortar...)
Entramos no escurinho do cinema... já tinha começado... sacanas... e lá estava o Jack a acender um cigarro e a deitar-se numa cama numa tarde quente e andaluza com uma camisa de manga curta estreitinha a deixar ver umas manchas de sovaco... ah!
Depois, esta incrível cena vista a partir da grelha andalusa de uma janela, quase abstracta, super geométrica e super bucólica, ao mesmo tempo...
O desenrolar de uma acção de que não se percebe nada (o que é sempre uma maravilhosa sensação... é onde se vê que o filme que se tem diante é um verdadeiro peso pesado! É muito importante nao perceber nada!) patati, patata... e lá aparece, "directed by Michelangelo Antonioni" e penso, ah então aquilo era uma cena tipo prelúdio, agora é que vai começar... e acendem as luzes!
acendem as luzes?
ACENDEM AS LUZES!
Olhámo-nos ao mesmo tempo, eu e a julia (Giulia) e com cara de parvos dissemos - o filme acabou!
A lucidez que restava só foi suficiente para fazer crescer uma raiva (de que não tinha vontade) para ir obrigar a mulher a engolir o bilhete que nos vendeu!
Foi quando olhei, ainda incrédulo, o bilhete, e, sem atenção (ou com a atenção em automático), lá os olhos caíram sobre um n°. 22.00
... (acho que já deu para perceber, não?...)
Disse, vamos giulia, ofereço-te uma cerveja aqui na Versailles, ainda temos um quarto de hora...
O filme?
ah...
ah...
mas que grande filme!"
"Ontem fui ao cinema com a Giulia [uma amiga italiana], ela perguntou-me assim: "joá", já viste um filme que se chama Os Edukadores? E eu disse que não (tu já?). Ok, então vamos, então fomos... Era no Nimas e eu meti na cabeça que o Nimas era onde era o Cinestudio 222 (vá-se lá saber porquê...) mas ia com uma sensação que podia não ser aí... Bem, lá descobrimos que não era mesmo aí, era aquela sala onde fomos ver o Roger Rabbit! Lembras-te?
Bem, a sessão era às 21.30, chegámos mesmo ao pêlo! 9.27 (da noite). Quando estávamos a chegar à bilheteira, estava vazia! (Já por si a coisa era estranha, mas... nao há meio de uma cabeça - nem duas - se porem a pensar um bocadinho...) lá fui para dentro do foyer à procura da sra ou do sr... que lá apareceu...
Quando voltei para a posição de aquisição dos bilhetes, olho para o lado e vejo um cartaz a preto e branco incrível! Era com o Jack Nicholson (ou lá como se escreve) muito novinho e assim com uma paisagem bastante árida por trás... e fiquei flashado! Pensei, é este o tal filme que não sei qual é, só pode ser, um com o Jack Nicholson a viajar por Espanha e em cima da Pedrera do Gaudì! Só pode ser!, este é que era fixe, ó julia (Giulia)! Nisto, enfio a cabeça naquele vazio do vidro da bilheteira e peço 2 bilhetes! E a sra (era uma sra) - 10 euros. E a julia (Giulia) 5 euros? Mas não era 3 e meio? Agarrando uma folhinha manhosa com Os Edukadores... (enquanto o drama dos euros prosseguia, eu desviei a atenção de novo para o cartaz e pensava... fod!... tenho que vir ver este... e descia os olhos pelo cartaz a fora, quando dou de caras com Michelangelo Antonioni! Minchia! (que é assim uma parolacia em italiano... quer dizer pixa!) Impossível, então sou mesmo parvo! O misterioso filme de que vi partes algures no mundo algures numa idade que já tive era deste doce mistério do silêncio! m.a.!... ah...
Extasiado, volto à realidade da bilheteira e apercebo-me que a Giulia 'tava com aquela cara assim meio de cruzamento entre rato e gato zonzo... Tinha-se apercebido que Os Edukadores era afinal no King! Coitada, estava mesmo desapontada (não 'tava a apontar nada...) Yesss, em meio segundo apercebi-me que o que estava ali era este filme que eu estava a rever nos fragmentos da minha cabeça - Profissão Repórter!
Bute! Bute.
E entao lá bute.
Concluímos a transacção e entrámos a correr (assim por trás ainda ouvi a sra dizer: os bilhetes já não precisa cortar...)
Entramos no escurinho do cinema... já tinha começado... sacanas... e lá estava o Jack a acender um cigarro e a deitar-se numa cama numa tarde quente e andaluza com uma camisa de manga curta estreitinha a deixar ver umas manchas de sovaco... ah!
Depois, esta incrível cena vista a partir da grelha andalusa de uma janela, quase abstracta, super geométrica e super bucólica, ao mesmo tempo...
O desenrolar de uma acção de que não se percebe nada (o que é sempre uma maravilhosa sensação... é onde se vê que o filme que se tem diante é um verdadeiro peso pesado! É muito importante nao perceber nada!) patati, patata... e lá aparece, "directed by Michelangelo Antonioni" e penso, ah então aquilo era uma cena tipo prelúdio, agora é que vai começar... e acendem as luzes!
acendem as luzes?
ACENDEM AS LUZES!
Olhámo-nos ao mesmo tempo, eu e a julia (Giulia) e com cara de parvos dissemos - o filme acabou!
A lucidez que restava só foi suficiente para fazer crescer uma raiva (de que não tinha vontade) para ir obrigar a mulher a engolir o bilhete que nos vendeu!
Foi quando olhei, ainda incrédulo, o bilhete, e, sem atenção (ou com a atenção em automático), lá os olhos caíram sobre um n°. 22.00
... (acho que já deu para perceber, não?...)
Disse, vamos giulia, ofereço-te uma cerveja aqui na Versailles, ainda temos um quarto de hora...
O filme?
ah...
ah...
mas que grande filme!"
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Mano
quinta-feira, 20 de julho de 2006
Interregno brevíssimo
Sao dias de grande azáfama. Não pelas motas que invadiram a cidade (a Tiaga entretém à janela o tédio de gata caseira - a vê-las passar, avenida acima e avenida abaixo, motas-sapato e tudo, penicos forrados a veludo por capacete, lenços encarnados a cobrir boca e pescoço, casacos de cabedal e demais convenção motoqueira), mas pelos dias derradeiros de trabalho antes das férias. O corpo pede-lhe a folga, mas o trabalhinho não deixa. Só faltam uns dias, Reboliço: só mais uns dias. Depois disso, talvez não aumente o ritmo da publicação das Cartas (ai, como anseio estar longe de computadores...), mas certamente o da sua escrita poderá aumentar.
sábado, 15 de julho de 2006
O cão do vizinho António
Nem de propósito: quando se acumulam as perguntas sobre a sua identidade, aparece o cão do vizinho António e faz o Reboliço recordar-se dos dias no Moinho em que o avô ainda vivia.
Todas as manhãs, cedo, mal a avó abria a porta do quarto, levantava-se da cozinha onde passara a noite, sobre os ladrilhos frescos se era Verão ou aninhado junto ao borralho, no tempo frio. Espreguiçava-se, dava o salto pequenino para passar o degrau que separa a cozinha do resto da casa, atravessava a sala e ia sentar-se, sossegado, sem latir nem nada, mesmo no vão da porta do quarto do avô. Até que ele lhe desse licença, não se mexia. Tardava pouco: "Preguiçoooooso... Anda cá, Preguiçooooso." A cauda dava em abanar-lhe, erguia o rabo do chão e avançava, patinha ante patinha, até à beira da cama do avô. Lá perto, só subia o focinho. Nunca se empoleirava nos lençóis nem se chegava muito às mantas. Esperava que o avô alcançasse a bengala, ainda adormecida ao alto, entre a cama e a mesa de cabeceira, e com ela lhe coçasse o lombo. Aquilo sabia-lhe pela vida toda. Hoje, ouve a Tiaga e pensa "Ah, se eu naquela altura soubesse ronronar...".
Take 2 (ou "Mais tarde" é "Já a seguir")
Atadas à bebida, ideias de liberdade.
A vida perfeita tem uma taberna
Onde nos sentamos e falamos – ou pensamos, só,
Tudo sem medo da serpente anoitecida;
Ou ainda outra taberna onde pareça
Não haver placas de Não se Fia
Onde, além das cervejas sem fim,
Sentados, totalmente bêbedos, loucos de inventar
As linhas de uma terra mesmo melhor onde
Se possa beber, ah, mais fino vinho por destilar
Que intoxique subtil, sem dor,
Teçamos a visão da inigualável estalagem
Onde possamos beber para sempre sem pagar
De porta aberta, com o vento a soprar.
(Malcolm Lowry)
Hum... A ver...
A vida perfeita tem uma taberna
Onde nos sentamos e falamos – ou pensamos, só,
Tudo sem medo da serpente anoitecida;
Ou ainda outra taberna onde pareça
Não haver placas de Não se Fia
Onde, além das cervejas sem fim,
Sentados, totalmente bêbedos, loucos de inventar
As linhas de uma terra mesmo melhor onde
Se possa beber, ah, mais fino vinho por destilar
Que intoxique subtil, sem dor,
Teçamos a visão da inigualável estalagem
Onde possamos beber para sempre sem pagar
De porta aberta, com o vento a soprar.
(Malcolm Lowry)
Hum... A ver...
O Nada
O Reboliço passou a tarde esticado - estirado, deitado ao comprido no chão, a imitar a Tiaga. Queria estar imóvel, deixar completamente de sentir. Mas, quanto mais o calor lhe apertava o pêlo junto ao corpo, colando-o com um suor odioso e pouco fluído, mais o coração lhe batia e a língua obrigava a boca a abrir-se, no arfar canino e irritante. É isto o Nada, pensou. Isto de não ser além de corpo, sangue a pulsar e gotas de água com sal. O Nada do pensamento, o Nada das ideias, a aniquilação toda da vida espiritual, a...
Soa o telefone e a Fatinha diz: "Anda já, os músicos já chegaram. Deixa-te de ronhas."
Take 1
Atadas à bebida, ideias de liberdade.
A vida ideal tem uma taberna
Onde nos sentamos e falamos – ou pensamos, só,
Tudo sem medo da serpente anoitecida;
Ou ainda outra taberna onde pareça
Não haver placas de Não se Fia
Onde, além das cervejas sem fim,
Sentados, totalmente bêbedos, loucos de inventar
As linhas de uma terra mesmo melhor onde
Se possa beber mais fino, ah, vinho por destilar
Que subtilmente intoxique sem dor,
Tecemos a visão da inigualável estalagem
Onde possamos beber para sempre sem pagar
De porta aberta, com o vento a soprar.
(Malcolm Lowry)
Pode ser que mais tarde a mude. Logo vejo.
A vida ideal tem uma taberna
Onde nos sentamos e falamos – ou pensamos, só,
Tudo sem medo da serpente anoitecida;
Ou ainda outra taberna onde pareça
Não haver placas de Não se Fia
Onde, além das cervejas sem fim,
Sentados, totalmente bêbedos, loucos de inventar
As linhas de uma terra mesmo melhor onde
Se possa beber mais fino, ah, vinho por destilar
Que subtilmente intoxique sem dor,
Tecemos a visão da inigualável estalagem
Onde possamos beber para sempre sem pagar
De porta aberta, com o vento a soprar.
(Malcolm Lowry)
Pode ser que mais tarde a mude. Logo vejo.
"De porta aberta, com o vento a soprar"
Notions of freedom are tied up with drink.
Our ideal life contains a tavern
Where man may sit and talk or just think,
All without fear of the nighted wyvern;
Or yet another tavern where it appears
There are no No Trust signs no No Credit
And, apart from the unlimited beers,
We sit unhackled drunk and mad to edit
Tracts of a really better land where man
May drink a finer, ah, an undistilled wine
That subtly intoxicates without pain,
Weaving the vision of the unassimilable inn
Where we may drink forever without owing
With the door open, and the wind blowing
(Malcolm Lowry)
Ando a pensar na tradução mais feliz para este poema. Logo volto cá para dizer o que terei encontrado.
quinta-feira, 13 de julho de 2006
Ao Goldmundo, ao Laio e a outros mais do Teatro
Na Les Inrockuptibles da semana passada (numa página, a 25, com a data "gralhada" de 4 de Agosto :D), leio um artigo de opinião de Frédéric Martel, jornalista e escritor especializado em estudos teatrais. Chama-se "Comment Mickey a mis le pied sur le théâtre américain" (qualquer coisa como "A história da invasão do teatro americano pelo rato Mickey"). É um artigo breve, de duas colunas, que reflecte sobre a "disneyficação" do teatro comercial, associada ao declínio do teatro americano e que, avisa Martel, pode indiciar um semelhante descalabro no teatro francês. Retenho daquelas linhas duas questões, não por serem as mais relevantes, mas por traduzirem problemas que têm vindo a ser discutidos não só nos estudos teatrais mas, por exemplo, e não apenas marginalmente, em debates sobre os actuais públicos do cinema:
1) "Haverá ainda lugar para o teatro, na era dos écrans gigantes dos jogos de vídeo e dos infinitamente pequenos dos iPods?"
2) "Como se poderá seduzir os jovens e as minorias [a irem ao teatro] quando os actores brancos interpretam no palco textos de autores mortos?"
quarta-feira, 12 de julho de 2006
Os seus aos seus donos
De puro, o Reboliço tem muito pouco (enfim, alguns charutinhos que já lhe têm oferecido...). Mas sim, foi sem maldade que errou. Reponha-se a justiça, a partir da informação mais autorizada de um dos muitos injustiçados, e logo o Mano! A Mostra "Desenhos nas Cidades", comissariada por Álvaro Siza, foi co-comissariada por Maddalena D'Alfonso, Antonio Madureira, João Gabriel Soares (o Mano) e André Tavares. A responsável pelo esquema gráfico da dita foi a Mana, Gabriela Soares. Foi isto que o Reboliço viu na sexta-feira, último dia em que esteve aberta ao público na Faculdade de Arquitectura do Porto. O Mano reenvia os leitores para este artigo, com fotos, mais cuidado que aquele que ficara aqui linkado (o Reboliço confessa que nem sempre tem tempo para uma selecção mais atenta do que escolhe, entre as listas que o Google oferece sobre determinado tema).
Mil quinhentas e setenta e nove desculpas, aos Manos e aos outros responsáveis pela Mostra (que, além do mais, está muito bem feitinha)!
terça-feira, 11 de julho de 2006
O Reboliço está de volta!
Eh lá! Quatro dias sem dar notícias... Já havia quem pensasse que o pobre do Reboliço se finara debaixo das rodas de alguma carroça, ou se enleara nas cordas grossas do velame do moinho. Nada disso - primeiro, porque não é canito de se andar a oferecer aos fados nefastos das estradas carroceiras; segundo, porque o velame... (suspiro...) está ainda parado. E, fosse como fosse, as cordas são demasiado grossas para agarrar o corpo franzino do Reboliço - uma vantagem, portanto.
Não. Andou de passeio. Foi ao Norte. 1) Ver a Mostra de Arquitectura que o mano e a mana ajudaram a montar. 2) Ver a peça Vatzlav no Estaleiro Teatral em Aveiro, encenada pelo Fraga. 3) Conhecer o Nelson. 4) Ver filmes no Festival de Curtas de Vila do Conde. Tudo cumprido, e ainda deu para andar no Metro do Porto e passar uns bons bocados com os Cabrais.
Quando chegou a casa, a Tiaga olhou para ele, espreguiçou-se muito, bocejou longamente e sussurrou-lhe, lânguida: "Não imagiiiinas o calor que tem estaaaaado..."
quinta-feira, 6 de julho de 2006
Parabenizar
Um dos trabalhos do Nelson foi reconhecido como Novo Talento FNAC. É bem, muito bem. Para o bem. Parabéns.
Alminha carota
A música de hoje, para complementar o Scarlatti, é dos Expensive Soul. Um dos versos: "A vida é as férias qua a morte nos dá." Go search ;)
quarta-feira, 5 de julho de 2006
A altas horas
Passava da meia-noite. O Reboliço apagara a luz da casa de banho e preparava-se para se aninhar na alcofa, enroscar-se e, de focinho a tocar o quadril, adormecer. Ia desligar o telefone, quando soou; viu no pequeno visor os corações a indicar quem telefonava. "Mano? Ainda não estás deitado, meu?" "Não, vou sair agora do escritório. Vou para casa." "Sim. E então? Diz coisas." "Era só para te dizer que o Scarlatti é lindo." "Pois é, também gostei muito." "Não - mas é lindo, lindo - mesmo lindo!" (risos do Reboliço) "Está bem, mano. Ainda bem que gostaste. Vai dormir. Até amanhã." "Até amanhã. Um beijo."
>
Mano
Escola 2
Leio, no número mais recente da Ler , um artigo de Humberto Brito. O título causa-me um erguer de sobrancelha, de reconhecimento: "Leitores em Série - Sobre as almas malsãs e livros que não existem." É o segundo de quatro artigos "sobre extravâgancias da bibliomania"; o primeiro saiu há dois números atrás. Reli-o agora, para confirmar suspeitas. Desde o título, então, que desconfiei - este tipo é do Programa. Lido o segundo e relido o primeiro artigo, fico com a certeza: este tipo só pode ser do Programa. Consulto a lista dos alunos do Programa. Lá está: doutorando.
Haverá uma "escola" do Programa em Teoria da Literatura? As afinidades são óbvias? Só para quem faz parte do Programa? Sê-lo-ão também, para quem está de fora? Sinto-me ao mesmo tempo em júbilo e profundamente incomodada com isto ("ao mesmo tempo" é uma expressão minha, ou será do Programa?).
segunda-feira, 3 de julho de 2006
Mal agradecido
Depois de dizer muitas vezes "Obrigado, senhor Lönnrot, obrigado!", o Reboliço desabafa: era um grande mal agradecido, esse Lönnrot, é o que era! Quantas vezes os heróis trabalham, labutam, lutam, laboram, conseguem os feitos, só para o romântico médico lhes rematar as falas com um "Louve-se Deus." Nestes versos, o herói maior, Väinämöinen, ferido com um machado no joelho, contorce-se com dores e recebe, finalmente, a ajuda de um velho deitado ao lume:
"O velho expulsou a dor,
o sofrimento empurroupara o meio de Kipumäki,
para o pico de Kipuvuori,
para dar a dor às pedras,
entregar à rocha a dor."
(Canto IX, vv. 523-528)
Pois não querem lá ver a resposta do herói, depois de o sangue estancar?
"Bendito sejas, ó Deus,
bendito, Criador único,
que a mim tanto ajudaste,
me trouxeste protecção
a mim nestas grandes dores,
do férreo aço a ferir!”
(Canto IX, vv. 571-576)
Assim, não dá!...
(Elias Lönnrot foi o médico que, entre 1833 e 1853, viajou pela Carélia e reuniu cantos, rezas e lengalengas populares, que haveria de publicar como cancioneiros e como a epopeia Kalevala. Nesta, compôs uma história a partir de várias camadas de histórias, passadas oralmente, de geração em geração. Um dos debates literários mais prolixos ainda hoje na Finlândia prende-se com saber em que medida o compilador foi ou não autor dos versos, isto é, terá interferido na construção das narrativas, nomeadamente no que a atitudes religiosas diz respeito. Um dado é certo: há muitos momentos de incongruências narrativas, e os versos acima dão conta de uma apenas.)
Post de Sábado à noite
Então, sentou-se na cama. E, à falta de um ouvido humano - ouvido silencioso, que não o julgasse, não lhe fizesse perguntas e se limitasse, isso sim, a escutar com toda a atenção possível -, ditou para o bloco de folhas. Sabia que a caneta tinha pouca tinta. Sabia que escolheria mal as palavras; que buscaria nelas a clareza, a nitidez que nelas amava, mas cuja luz precisa haveria de cegar o emaranhado de tudo.
Lembrou-se de imagens, de partes de dias. De uma vez em que seguira alguém, num autocarro de subúrbio, e acabara a entregar em beijos a vida que lhe sobrava. De uma vez em que alguém se despedira de si com a calma do reencontro e a certeza da última conversa. De algumas vezes em que o amor soçobrara à raiva, às ganas do que os dias não deixam ser. Lembrou-se disso e recordou a proximidade que vira entre o desespero mais arrepiante e a euforia de se sentir vivo. Como se um nascesse do outro.
(17 de Janeiro de 2006; recordado este sábado.)
>
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