sábado, 30 de setembro de 2006

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Caeiro e o americano

A propósito de leituras de Caeiro, o Reboliço pensou mais um pouco sobre a poesia do Mestre. Não é possível que Caeiro seja mais do que os seus versos. Em momento algum da sua existência pôde ser verdade uma proposição como a de Henry David Thoreau, quando escreveu que "A minha vida seria o poema por mim escrito, / Mas não poderia ao mesmo tempo tê-la vivido e viver para o exprimir".

É só um bocadinho...

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Esquina de vida

Conheci-a nos idos de 1981 (pobrezita, nem ela se deve lembrar...). Era tal e qual o que é hoje, sem tirar, só pôr, só melhorar. Parabéns, Gracinha!

Thinking ahead

Ouvi hoje a notícia, mas parece que a novidade não é bem nova: gatos hipoalérgicos, ou hipoalergénicos, ou anti-alérgicos, ou o Diabo a sete (que isto em se falando de gatos, vem logo o Diabo à baila, que o diga o Mestre da Margarita...). Não poderá haver prenda melhor para o Mano, que tosse, espirra, fica sem ar, lacrimeja, pragueja, dá cambalhotas, etc, só por estar perto da Tiaga ou de gente da espécie dela. Como o preço anunciado na rádio por cada felino me dá a mim uma brotoeja desgraçada, aceitam-se contribuições.

Reactivação

"Tiaga, Tiaga, Tiaga, Tiaga!" "Que desassossego! O que foi agora?", pergunta a gata, a espreguiçar-se e a afastar-se da fonte daquela inquietação. "O moinho já moeu, ontem à noite!" "À noite?" "Pois. Foi quando chegou o vento. Diz lá, não é fixe?" "Hum... Sim, é." O Reboliço nota-lhe a indiferença e remata: "Pois quando a mãe fizer as papas do milho branco que ontem moeu, acompanhado de achegãs assadinhas no carvão, bem quero ver quem se chegará primeiro ao prato!..."

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Já isto foi mais custoso de fazer

Escrever "[R.I.P.]" a seguir ao título do linque para "A Memória Inventada".

Novo linque

Depois de um fim-de-semana a moinhar e a ter a paciência moidinha pelo vento irregular do início de Outono, o Reboliço sentou-se a navegar em águas mais calmas. Descobriu um blogue novo (obrigada pela dica, Paulo!), do Rui. Tem o título de um filme que o Reboliço não viu e fala de filmes e de música.

domingo, 24 de setembro de 2006

Look again...

Estão a ver a foto a preto e branco ali em cima, à direita, no meu perfil [que agora está ainda à direita mas em baixo]? Olhem de novo. Esta é uns cinquenta anos mais recente, tirei-a ontem. O moinho é o mesmo. O moinho não é o mesmo.

(Foto: Reboliço)

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Na foz do Congo

"Subir o rio era o mesmo que viajar para trás, até às primeiras idades do mundo, quando a vegetação transbordava da terra e as árvores reinavam. Uma torrente deserta, um grande silêncio, a floresta impenetrável. O ar era quente, espesso, muito pesado e mole. A luz solar não tinha alegria. Longos troços de rio deserto perdiam-se por lonjuras de enorme sombra. Nas margens de areia prateada, hipopótamos e crocodilos tomavam lado a lado banhos de sol. As águas largas corriam entre uma confusão de ilhas arborizadas: uma pessoa perdia-se naquele rio como num deserto, e todo o dia tropeçava em baixios, tentava encontrar um canal navegável e acabava por julgar-se vítima de um feitiço, isolada para sempre do que até ali conhecera - sei lá onde - muito longe - talvez noutra vida."
(Joseph Conrad, O Coração das Trevas, na versão que me ensinou a amar Conrad, que Aníbal Fernandes publicou em 1983 na editorial Estampa, p. 69.)

No original, as sombras mantêm-se, mas há outra luminosidade:

"Going up that river was like travelling back to the earliest beginnings of the world, when vegetation rioted [pois, verbo impossível e lindíssimo, aqui] on the earth and the big trees were kings [que é diverso de "reinavam", enfim]. An empty stream, a great silence, an impenetrable forest. The air was warm, thick, heavy, sluggish. There was no joy in the brilliance of sunshine ["there was no", mas o que fica da frase é o "brilliance of sunshine", e não tanto a ausência de "alegria" do português]. The long streches of the waterway [não é bem "rio", é "caminho de água"; entendo que não o possa ser em português, mas "waterway" tem a magia das epopeias antigas] ran on, deserted, into the gloom [de quantas palavras em português se fará o conradiano "gloom"? Aqui, de nenhuma.] of overshadowed distances. On silvery sandbanks hippos and alligators sunned themselves side by side. The broadening waters flowed through a mob of wooded islands; you ["uma pessoa" é o correcto, mas "you" atinge com tanto mais poder quem lê: é connosco que estão a falar] lost your way on that river as you would in a desert, and butted all day long against shoals, trying to find the channel, till you thought yourself [de novo] bewitched and cut off for ever from everything you had known once - somewhere - far away - in another existence [que diferença, de "another life"!] perhaps.
(Isto está na página 59 da edição da Penguin de Heart of Darkness, preparada em 1995 por Robert Hampson.)

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Camas de flores

Linquei um blogue - sobre jardinagem. Porque este Outono que começa mais parece uma Primavera.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Achado

No metro de Paris, sua Excelência, o flâneur:

Final de Verão

O Reboliço afasta-se um bocadinho, para observar melhor, depois de se ter roçado pela pelagem branca, cinzenta e cor de mel. "Tens o pêlo mais sedoso, Tiaga." "Hum-hum," responde a gata. "E estás mais gordinha, fica-te bem." Ela suspira. "Cresceste, estás mesmo maior." "Fez-me bem o Verão," responde a bicha, entre um bocejo e uma espreguiçadela.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Epígrafes

Ao longo dos anos (já conto mais de dez, credo...) tenho escolhido, alternadamente, duas epígrafes para acrescentar às bibliografias das disciplinas de Literatura que ensino. Pensei muito nelas quando as escolhi a primeira vez, mas depois interiorizei-as, ou seja, passaram para uma espécie de esquecimento que me permite agir com elas entranhadas e tê-las, afinal, sempre presentes. Uma é de Francis Bacon, num ensaio que escreveu sobre o estudo, e diz assim: "A leitura faz o homem completo; a conversa, o homem preparado; a escrita, o homem preciso." A outra epígrafe é de Stanley Cavell, num dos livros em que anda à procura da felicidade, e diz: "Gostaria de sublinhar que a maneira de ultrapassar correctamente, filosoficamente, a teoria é deixar que o objecto ou a obra que nos interessa nos ensine como havemos de a considerar."
Ambas as frases me deixam perplexa, isto é, silenciosa a pensar e a estranhar que não se reflicta mais ainda sobre as questões que levantam. Até na diferença de estilos que estabelecem: a primeira, típica de uma viragem de século (o XVI para o XVII) ansiosa pelo assentar da poeira de novas e admiráveis descobertas (Bacon é contemporâneo de Shakespeare, que, por volta de 1611, haveria de escrever na sua peça derradeira, pela boca de Miranda, a frase que ainda hoje ressoa, "O brave new world / That has such people in't!"), é um aforismo. Assertiva, sem dúvidas aparentes. Orientadora dos novos seres do novo mundo. Um pilar de sabedoria, pois.
Na segunda, Cavell já conta parte da longa história do conhecimento humano. Introduz a frase com uma proposição da sua vontade individual; pretende chamar a atenção para um aspecto (entre vários) da maneira de conhecer. Mas, no fundo, não deixa de ser assertivo. E de vincar com precisão (a mesma precisão que Bacon dizia que se atingiria pela escrita) a solução para uma dúvida (Como abordar um objecto de estudo?). Ora, como é característico dos nossos tempos epistemológicos, a solução passa pelo enredar de interrogações - o que quer Cavell dizer com "ultrapassar a teoria"? Em que é que essa ultrapassagem é necessária? O que é uma ultrapassagem "correcta" da teoria? E como é que "correcta" é um sinónimo tão transparente de "filosófica"? Tudo isto ainda antes de se pensar no que significa "deixar que o objecto" decida, nos mostre, como se há-de olhar para ele. Mais do que incómodas, são perguntas estimulantes. E é esse estímulo que gosto de encontrar no primeiro dia de aulas. É hoje.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Para que serve a arquitectura? E quanto pesa um tijolo?

As respostas - ai de nós se forem completas e definitivas! - hão-de fazer-se ouvir em Guimarães, primeiro, depois noutros lugares.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Quando uma leitora se torna autora...

... dá nisto. Bem-vinda, Senhora Sócrates!

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Nuno Júdice

Não li todos estes poemas, mas é bom ter actualizações poéticas à mão. Para mais, quando se trata de poesia que olha para o espelho da pintura. Fica linkado.

As melhores memórias

O Reboliço lembra-se de um 11 de Setembro muito bom. Fixa a memória nesse dia e faz convergir nele os tempos todos que reapareceram: entretanto, antes, então, durante, depois, sempre, quando, até.

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

("Ui...")

Pensa o Reboliço, ao reler os últimos posts. "Passou-se! Tenho de ir outra vez ao cinema, a ver se me deixo de intelectualidades."

Ontem à noite, uma descoberta!

Era o dia da Cidade, foi feriado. Houve majoretes na Avenida e tudo. Parecia Loulé! À noite, a Orquestra abriu a temporada com um bom concerto. Tocaram três peças (antes dos encores); a do meio encantou-me: Concerto nº 1 em Dó Menor para piano, trompete (que trompetista!) e cordas, a Opus 35 de Schostakovich. Nunca o ouvira (ou talvez, sem dar por isso, nalgum filme). Ficou-me no ouvido.

terça-feira, 5 de setembro de 2006

Acordar

O Reboliço espreguiçou-se longamente (aprendeu com a Tiaga), saiu do quarto sem calçar os chinelos e, mesmo antes de beber água, pôs-se a ouvir as teclas de um Ignace Pleyel de 1836 sob o peso das pontas dos dedos do Arthur Schoonderwoerd. Foi um despertar pianinho.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Trabalhos no moinho - as vigas

Fica aqui um cheirinho do registo - visual - da colocação das vigas. Se quiserem ver as imagens mais crescidas, têm de "clicar-lhes" em cima. Obrigada à prima Luísa pelas fotos e à mana pelo arranjo delas.

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Trabalhos no moinho - actualização

(Foto do senhor Zito, temerário, no topo do telhado: Luísa Apolónia. O senhor Zito substitui o carpinteiro Joaquim enquanto este convalesce de um pé em má hora partido. Só lhe falta a égua, para ser o Rafael.)

Back in business

A Tiaga fartou-se de miar à chegada do Reboliço. Durante dois minutos. Com certeza, reclamava do abandono, fazia queixas dos vizinhos, pedia explicações sobre o paradeiro do bicho nos últimos dias. Depois disso, deu-lhe o tal olhar de indiferença e, assim que pôde, safou-se para a varanda da D. Mimi. Uma carga de trabalhos, portanto.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Flash Flash, Ruffato e Martín-Santos

Depois de umas belas tortillas à séria no Flash Flash, afundo-me nas páginas derradeiras de Luiz Ruffato. Uma espécie de tempestade narrativa. Desconfiei, ao início, daqueles maneirismos todos, das vozes múltiplas, das frases interminadas e até do arrumo gráfico. Venceu-me. É muito bom.
Reinicio Tiempo de Silencio. Pela terceira vez. (A propósito, fui ter a um blogue sobre leituras, que deixo lincado.)

domingo, 27 de agosto de 2006

Entretanto, no espaço virtual...

...surge, definitivo, o número 1 da revista Minguante.

Indiferença felina

O Reboliço regressou à casa, aos saltinhos e de orelhas espetadas. As gatas, nem nada. Contou-lhes onde tinha ido, com quem tinha estado, o que tinha visto. Contou-lhes da "tramontana", do vento que desce rápido Pirinéus abaixo, da cor do Mediterrâneo, do pôr-do-sol no lado contrário do mar. Nada. Nem se moveram, quando lhes falou das avelaneiras. Gatas urbanas, é o que é.

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Parabenizar um limanito

Mesmo de longe, o Reboliço lembra-se do teu aniversário ;)

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

"É uma injustiça..."

Como se fosse o pequeno Calimero, ouve-se agora, desde uma distância mais longínqua ainda, a vozinha apagada de Plutão. Não, não é nada justo.

Sopa de beldroegas

Nada como nos apaixonarmos por uma bela sopa de beldroegas num sítio distante e, volvidos a casa, onde nunca antes tínhamos dado por elas, encontrarmos dois vasos cobertos destas ervas boas.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Gatas (actualizado)

Misha e Pelota passeiam pela casa, atravessam o corredor para lá e para cá. O Reboliço tem dificuldade em distingui-las. Tem o olhar toldado pela elegância da Tiaga - tudo o que seja mais anafado o confunde. As duas gatas gorditas também o estranham. Quando reparam nele, sentado a escrever, param à porta, deixam de se lamber e abrem muito os olhos. Como quem diz: "De onde foi que saiu este?"

(Foto: Isa)

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Nassar magistral

“como vítimas da ordem, insisto em que não temos outra escolha, se quisermos escapar ao fogo deste conflito: forjarmos tranqüilamente nossas máscaras, desenhando uma ponta de escárnio na borra rubra que faz a boca; e, como resposta à divisão em anverso e reverso, apelemos inclusive para o deboche, passando o dedo untado na brecha do universo; se as flores vicejam nos charcos, dispensemos nós também o assentimento dos que não alcançam a geometria barroca do destino.”
(pp.133-134)

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Obras no moinho

A andar. A chuva que caiu a semana passada ainda chegou a entrar nos barrotes do telhado, mas o calor que veio depois ajudou a secar. Enfim, as madeiras aguentam. A água não chegou a entrar nas vigas grandes do piso intermédio. Menos mal. Segue-se mais uma semana de obras. O humor dos homens não esmorece, é surpreendente.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Onde assentam as vigas

Sábado passado, o Reboliço foi a Monchique. Ver as duas vigas novas que irão suportar o sobrado do piso intermédio. Cada uma mede mais de cinco metros e pesa para cima de uma tonelada. Jeitosinhas...
A serra deixou-o meio mole, do calor e da humidade. Passou o fim-de-semana todo na ronha.
Segunda de manhã, pela fresca, ainda antes de chegarem os homens, girou na fechadura da porta vermelha a grande chave de ferro e subiu o primeiro lanço de escadas. Queria ver, uma vez mais antes de desaparecerem sob os extremos das vigas, a argamassa e outras pedras mais pequenas, os quartos de mós onde assentarão os dois barrotes gigantes de eucalipto. Descobrira aquilo logo na sexta-feira, quando foi dar a volta a ver como paravam as obras. Por baixo de duas das quatro janelas do piso intermédio, uma em frente da outra, descarnara-se a alvenaria para extrair a madeira já muito apodrecida de duas das vigas (as outras duas, mais curtas e distantes do centro do piso, são antigos mastros de outros moinhos, de pau-ferro; ou seja, há-de ser cedo que apodreçam...). Sem madeira, pedras nem os restos de argamassa, pôde ver a lisura de quatro quartos de mós, dois por cada janela ou extremo das vigas, um a sustentar cada extremo das vigas. Há-de vir foto, para esclarecer.
Os trabalhos no moinho prosseguem, as vigas novas foram assentadas hoje, mas o relato virá mais tarde.

Ouriço-cacheiro

Há dois anos, em Helsínquia, descrevi um episódio curioso que se passou na rua onde morava, com um ouriço-cacheiro. Anteontem provei ouriço. Guisadinho. Heh... fez-me pensar em orelha de porco, assim para o cartilaginoso, mas com mais chicha. Acho que não tenho grande sensibilidade para apreciar a carne do bicharoco. Ficou-me pela experiência. Levaram-no os homens que estão a trabalhar no moinho. Isso, mais cabeça de porco, igualmente guisada. Fiz-lhes uma bela salada montanheira, mesmo à moda algarvia, com batata cozida (também foi novidade para eles).
Um almoço e pêras, diria o Reboliço, não se tivesse dado o caso de a fruta ter sido melão.

Ler nas férias

E vão três. Livros, quero dizer. Não são muitos, mas todos muito bons.
1. Por preguiça, peguei num que tinha à mão: de Machado de Assis, Memorial de Aires. Li-o de uma assentada, com a vergonha a ampliar-se-me, página a página, de não ter lido, até agora, nada deste escritor. Li-o em papel, mas está também disponível por aqui.
2. Retive algum tempo a vontade de ler El mal francès, só para actualizar a leitura de um dos meus autores favoritos (que sorte imensa, não me canso de o reconhecer!) e ler o seu romance anterior, Isaac y las dudas. Li-o na versão castelhana (o original é catalão) que, além da excelência da história, do discurso, das personagens, do muito que ri com algumas das cenas, ainda tem o bónus - também hilariante - do prólogo, escrito pelo tradutor, Luís Algorri.
3. Li, enfim, El mal francès. No original catalão. Precisarei de esclarecer umas dúvidas vocabulares, mas o desafio da língua não foi obstáculo que me impedisse de ver como Lluis Maria Todó está na sua melhor forma.
Uma alegria, ler assim tantas coisas boas. Avanço agora, com grandes expectativas, para Lavoura Arcaica. Será por aqui que começarei a conhecer a obra de Raduan Nassar.

Djurumani

Já há tempos que não me lembrava deste disco. Hoje falei com um amigo sobre música de Cabo Verde. Que saudades, Djurumani...

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Rafael

No topo do moinho, mesmo mesmo a encimá-lo, há um cata-vento. Tem a forma de um homem a cavalo numa égua (o Reboliço soube hoje, do Mestre Caetano, que é uma égua) e parece-se com um tal Rafael, que passava aqui no moinho. Ver o moinho sem tecto não lhe fez tanta impressão como ver o Rafael e a montada, por assim dizer, apeados...

(Foto: Reboliço)

"O moinho está careca!"

(Fotos: Reboliço. Obrigada à mana, pelo arranjo das imagens.)

O sarilho:
é raro ver-se assim iluminado pelo sol (como aquece, este vento...).
A estrutura nova:
estão montados quase todos os oitenta barrotes do telhado.
O início do mastro:
visto desde o carril de pedra, a dar para a planície, para Sul.

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Moinhos na poesia (6)

Continua a série que iniciei em Janeiro deste ano. Desta vez, quem me levou ao poema de Fiama Hasse Pais Brandão foi o cão do vizinho António. Obrigada, meu primo!

"Da voz das coisas"

Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.
(As Fábulas, edições Quasi, 2002.)

De parabéns

(Foto: Isa)

Diz a Pelota: "Olha, Tiaga, hoje estou assim para festas. Faço-me de mimosa..."
"O que houve?", pergunta a Tiaga.
"É o aniversário do Isaías. Dão-lhe a atenção toda a ele. Bem sabes como isso nos aborrece... Enfim, é uma criatura muito boa, por isso lhe perdoo. Mas ai dele se não me faz tantas ou mais festas do que nos outros dias!"
Responde a Tiaga, enquanto lambe os interstícios da pata dianteira direita: "Deixa-te de frescuras, Pelota. Tu até tens direito a andar livre por essa varanda. Já eu, ai, coitada de mim, o mais que consigo é dar uns passitos no parapeito da janela da cozinha..."
"Ora adeus, tenho que ir. A Misha está a chamar."
"Saudades para ela. Um beijo ao Isa, outro ao LM."

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Trabalhos

(Foto: Mano)

Trabalhos no moinho, final do primeiro dia

....Está a entardecer. Sento-me na rua, por baixo da videira frente à porta de casa. Já bole o vento fresco. Daqui vejo, em enfiada, as duas portas do moinho. A grande está aberta. A do fundo tem só aberto o postigo, um quadrado de luz a pôr-se na madeira já de encarnado indistinto.
....O moinho está esventrado. O piso intermédio não tem as mós postas – estão todas arrumadas à curva da parede, dispostas ao alto. Uma delas, vi hoje, está no moinho desde o fim dos anos cinquenta, foi quando os homens do Cineclube de Beja filmaram a operação de montagem. Na pedra, escritas a tinta vermelha, as mesmas iniciais que no filme se viam a preto: F.D.S.
....Além das mós e das cunhas de madeira, a escada que leva ao piso do telhado está também tirada, inútil, encostada às mós. Do piso de baixo, pelos buracos dos veios dos dois casais de mós, vê-se o piso de cima. Do vão da escada de baixo vê-se o vazio do piso intermédio, que não olho daqui, mas está lá.

Começam os trabalhos no moinho

....“E agora?”, pergunta um dos homens, no piso intermédio – depois de estarem encostadas à parede as duas mós do casal de mós do lado Norte, retirados os calços de madeira que o ajustavam à mó de baixo e varridas as teias e o pó velho dos veios da mó. Entretanto, o discurso fora arqueológico: qual a razão que levara o avô a usar cunhas de madeira e a desprezar a mó de enchimento, armada com aro de ferro, que está arrumada à parede desde que me conheço.
....“Ainda só andámos cinco metros e quarenta e não chegámos a meio.” O mano anda com o pai no piso do topo, a tirar o diâmetro. O mais que agora se faz é tirar medidas, para que, quando as peças forem remontadas, tudo calhe certo como estava. “Não estás a segurar nisso, pai!” “Ó filho, tu é que tens de segurar na fita...” “Sim, mas tu também és a minha segurança.”
....O cunhado mexe-se como um árbitro no meio do campo. Vai fotografando sem ser visto, sem ser trambolho no caminho dos quatro mestres. O mestre capataz, o Ti’Caetano, vem com o filho e mais dois, os carpinteiros, o Sr Chico e o Sr Joaquim.
....A mó do lado Sul ainda está montada. Tem gravada uma data, 7-5-1961. Não havia nesse tempo Reboliço, nem Lobito. Haveria um Margot, o setter irlandês. Ou não, esse era o da infância do pai (que, em 1961, fazia 22 anos).
....As medidas que o pai e o mano tiraram estão ao milímetro, de fita métrica e calculadora. O mestre Caetano, a olho, fez outra conta, com os mesmos resultados.
....Passaram todos para o piso térreo. A Luca veio esta manhã com os donos e entra pela porta grande. Queda-se, para as festas do cunhado, e volta a sair do moinho pela porta de poente. A semana passada morreu dentro do moinho uma canita do vizinho. Tinha entrado para se refugiar da calma e não deu conta de se fecharem as portas e as janelas. Nem o pai deu por ela, escondida nalgum canto enquanto ele trancava o moinho. Mais tarde, o animal tentou sair, desceu à casa do motor pela passagem que existe na parede e serve de canal às correias do motor para a engrenagem. Na casa do motor, esgravatou o chão, espalhou as cebolas e os alhos ali dispostos para secarem. Mas não achou meio de sair. “Era p’ra morrer, já estava velha,” disse o vizinho, quando soube.
....“É de 1973 este calendário. Ainda a gente não havia,” diz a mana para o mano.
....Os manos lêem o que já mal se percebe, nas ombreiras da porta grande. “A Helena pesa 30 quilos” “Só podia ser a tia Lena.” A filha do vizinho António é Helena, seria ela? Por aquele tempo teria uns nove ou dez anos. Na parede grossa à entrada o avô apontava contas, as dos avios e, mais tarde, as outras, as que lhe vinham sem cessar à cabeça, já no tempo em que o moinho não moía, punha-se ele ao fresco a inventar cálculos.
....Há seis mãos de homens a agarrar a longa cunha de madeira, para retirar a roda dentada do piso térreo, a que transmite a energia do motor a gasóleo para o casal de mós do lado Sul. Esta é a roda mandada, é toda de madeira e fica na horizontal; atrás dela, a mandante, de madeira e ferro, está na vertical.
....“Tragam lá o macaco,” grita o pai. Diz o Sr Joaquim que o que ele quer é o aliviador, agora “macaco”... “Ah, isto não mexe. Tragam lá o spray.” “Já está solta, agora o problema é subir p’ra cima.” “Dê cá a alavanca de ferro. E agora dê-me a alavanca de madeira, p’ra isto levantar ao mesmo tempo.” Esta vai ser mais má de tirar que as mós. “Era sempre uma tourada...”, diz o pai. “Com estes macaquinhos, não vai lá.”
....A mãe veio da casa e sentou-se num banco a ver, no piso de baixo. Esta roda tem de ser tirada agora, para se desengrenar a mó do piso de cima.
....“Não há meio, não mexe. Aquilo era p’ra estar ali sempre,” diz o mestre Caetano a tirar a boina da cabeça e a coçar a testa. “Em vinte anos, ganham raízes.” As alavancas chiam e estalam, sob a força dos seis braços que tentam libertar a roda. Não há meio.
....É ainda de manhã cedo e com as duas portas escancaradas, uma em frente à outra, está-se dentro do moinho com o vento lá de fora. A diferença é que, dentro, as paredes grossas arrefecem o ar.
....Partiu-se a longa alavanca de linha direita. Era de madeira de azinho. Estas peças ainda matarão muita madeira. Um moinho com raízes sossegadas há quase trinta anos não se deixa desmontar à primeira.
....Há um conselho de mestres, de cada vez que tem de se mexer numa peça. O que deve sair primeiro, o que tem de ficar, o que não sai, onde se deixa a peça quando sair. É um enigma que se vai resolvendo à medida que se adensa e se adensa conforme se resolve.
....“Tira-te daí, moço, não te caia uma mó no olho.” “E há caixa de primeiros socorros?” “Não é preciso, façam uma promessa.”
....A Luca já não sai daqui. “O bicho quer é isto,” diz o pai. “Aceita as festas todas e não volta a unha?”, admira-se um dos carpinteiros. O mano tinha preparado um baraço para a prender no piso térreo. “Passei meia hora a atá-la, para ela não subir ao piso de cima.” Quando lá chegou, já a bicha lá estava.
....“Aqui neste buraquinho deve estar outro ninho de ferros.”
....Os homens estão todos no piso intermédio. Estou sozinha cá em baixo. Encostada à parede, ao alto e fechada, está a cadeira de lona verde-seco, onde o avô dormia as folgas frescas. Perto do chão, o tecido está carcomido por bolor. Prende-se à armação de madeira por uns fios reles, cinco ou seis, que resistem há anos, abanados sempre para o lado da rua, quando passa corrente de ar. Na parte de cima, uma mancha de humidade, redonda, da água que lhe tem caído. Ao lado há uma mesa velha, hoje coberta com garrafões de água, um pequeno contentor de vinho tinto e cestos, com figos e com pão. São os bornais dos mestres. Debaixo dos quatro pés da mesa, enrolada e atada, uma corda grossa, da espessura de um braço magro. Corda de prender as velas.
....Olho para fora, através da porta aberta que dá para a estrada. No enquadramento, vejo três ciprestes, para lá dos carros que passam, vinhedo, oliveiras e umas poucas casas, além dos postes da electricidade. Devia fechar esta porta. O vento que entra agora é já quente e, com a velocidade a que passa, não tem tempo de arrefecer. Mas não me levanto. A porta chia, move-se pouco. O postigo bate com a força do vento. Por cima do tecto, sobre mim, ouço martelar, as vozes dos homens, o pó e bocadinhos de madeira que vão caindo neste piso, enxotados pelas pisadas, marteladas e vassouradas no chão de cima. Quando paro de escrever, o vento levanta as folhas do caderno.
....Não deram tirada a mó. “Deixem-na ficar até que se almoce, que o que ela quer é isso.”

domingo, 6 de agosto de 2006

A propósito de The Outsiders

Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.

Mais coisa, menos coisa, era isto que dizia Robert Frost em 1923:

É ouro o primeiro verde da natureza,
O tom que mais lhe custa manter.
A primeira folha, uma flor;
Mas por uma hora só.
Da folha, outra folha há.
Assim se afogou na dor o Éden,
Assim desce ao dia a aurora.
Nenhum ouro permanece.

Em The Outsiders, Coppola torceu o poema e fez gemer o desejo de o contrariar. Na cama do hospital onde morre, Johnny diz ao amigo, Ponyboy, "Stay gold". Lírico...

A A.R.

"Cantavas: sou gaivota e fui sereia". Gaivota que foi sereia não deixa jamais de o ter sido. Pode é melhorar. Por exemplo, eu há vinte anos não fazia a massa de peixe que hoje faço.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

De férias, em casa

A Dona Tiaga faz praia sobre os lençóis.
(Foto: Isa)

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Jünger

"A fotografia é, então, expressão da nossa maneira caracteristicamente cruel de ver. Em última análise, uma versão nova do olho mau, uma forma de possessão mágica."
(de "Photography and the 'Second Consciousness'", aqui, p. 209.)

segunda-feira, 31 de julho de 2006

As férias do Reboliço

O Reboliço começa as férias cansado. Cabisbaixo, de olhos vagos, entrega-se às férias. Acredita que tudo virá a ser melhor, menos feio. Suspira e entra nas férias.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Uma janela que dá para Sul

Detrás das grades de uma janela do antigo Convento da Conceição, em Beja, Soror Mariana terá existido e amado. É incerto, porém, que tenham sido escritas por si as cartas de amor ao oficial francês Noel Bouton, Conde de Chamilly. Um talento estilístico, uma sofisticação e clareza de frases e de sentidos, uma excelência literária inultrapassável e comentada com rasgos elogiosos por Rilke, um dos seus muitos tradutores, reclamam antes um autor nativo, francês, para punho das linhas amorosas.
De si para si mesmo.