terça-feira, 31 de outubro de 2006

Entre animais

;)

Tarde amanhecida

É quase sol-posto e o Reboliço anda ainda com a música da manhã a girar-lhe nas ideias. "Saúde", da grande, velha e boa Rita Lee. Saúde! Muita, da velha boa e grande saúde!

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Lagarténs!

Lagarténs a você
nesta data querida!
Muitas lagarcidades,
muitos anos de vida.
Hoje é dia de Lagarta,
canta a alma do Reboliço.
Para a menina Lagarta
muitos anos - e ISSO!

domingo, 29 de outubro de 2006

Maria e Francisco

Antes de, há 36 anos, serem

mãe

e

pai.

sábado, 28 de outubro de 2006

Rui Tavares e "o problema político"

São desusadas nas Cartas as opiniões sobre política. Terei feito, quando muito, alusões anedóticas a episódios políticos, ou então ajudado a divulgar notícias que me movem enquanto cidadã. Ainda assim, sou votante praticante, esforço-me por manter a consciência cívica à tona do caos e sou profundamente céptica quanto às “medidas políticas” (locais, nacionais e mais alargadas do que estas), se bem que, acima de tudo, ao modo como geralmente são veiculadas nos meios de comunicação. Uma das razões por que não me agrada deixar aqui opiniões políticas tem a ver tão só com o que me invalida a sua formulação – não me senti nunca capaz de verbalizar de maneira articulada, coerente e clara (como gosto e entendo conseguir fazer sobre outros assuntos) ideias acerca da conduta de governos e governantes. Parece-me sempre que fica alguma coisa por considerar, e que essa coisa é que daria a solução ao que me aflige como problema político e governativo. Adiante. Tive a sorte, aqui há uns anos larguíssimos (no século passado, ou como dizia um professor meu, “antes do tempo da Guerra”, e, se tal sempre foi verdade, mais o é agora, quando há guerras para todos os tempos), de partilhar o palco de uma aula com o historiador Rui Tavares, na Universidade de Nova Iorque. Como tenho este hábito pequenino e saloio de me interessar mais pelos percursos de quem vou conhecendo e me agrada do que dos que, por assim dizer, não me foram nunca nada, é raro perder o que escreve, nos blogues ou na crónica do Público. (Já se começa a perceber porque não escrevo sobre política: quantas linhas já vão sem ir directa ao assunto?...) Este sábado, sob o título relativamente inócuo de “O fim do mês como problema político”, Rui Tavares faz no Público uma argumentação certeira sobre o “problema político” geral (ressalva, e sublinharia eu, que "[n]ão é só nosso: toda a Europa e muitos países por esse mundo fora sofrem do mesmo”). Último parágrafo, sumaríssimo, limpinho: “No nosso caso, trata-se de um país com dez milhões de habitantes se tornar uma república com dez milhões de cidadãos.” Não sei falar disto melhor: “É o problema-base da democracia, apenas isso; não deveria ser tão difícil” de resolver. Digam-me cá do génio da simplicidade...

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Isto parece bonito

A ver... O Reboliço ainda não percebeu muito bem o que se poderá fazer neste lugar, mas a ideia de um debate público sobre questões que afectam toda a Comunidade Europeia cheira-lhe a boa intenção. Como o desenho do edifício é engraçado e dá vontade de o visitar, talvez acabe por não se perder a tal ideia. A ver, a ver...

Ver o caminho

Uma das fotos da Mar apanha uma perspectiva pouco habitual em quem fotografa no e desde o moinho - a estrada de terra que vai até ele. Talvez porque aquele lado do moinho está mais exposto ao vento, mais batido por ele. O sítio de onde se fotografou era um dos mais procurados pelo Lobito ou pelo Sorna nos dias quentes, enquanto estivesse à sombra, claro. Aqui, no dia 7, aproximava-se mais um automóvel. Para ajudar à festa.
(Foto: Mar)

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Moinhos na poesia (7)

Pelos vistos, existe um "Moinho sem velas", de António Gedeão. Só encontro o manuscrito, muito rebuscado e quase indecifrável. Beau, quand même.

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Ecos do moinho

O Reboliço já não sabe que links seguiu, mas foi dar a isto. Anda em pulgas (salvo seja!) para descobrir quem escreveu e fotografou.

A senhora dos anéis

Quando, há uns meses, a mana quis vender os anéis de feltro que fizera, não achou compradores. A mãe anunciara o diagnóstico antes da "calamidade": "E tu esperas vender coisas de feltro no Verão?!" Pois bem, a chuva já está aqui, os dias cinzentos também, o fim de Outubro não tarda - quem é que não há-de querer anéis de feltro?

(Foto: Vasco Célio)

sábado, 21 de outubro de 2006

?

E como diabo se escrevem os actos do teatro sem palavras? O Reboliço continua em busca de imagens melhores da sala onde ontem pasmou. Quem souber mais sobre aquela casa, diga-lhe qualquer coisa, por favor.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Troublé

O Reboliço vai ter que dar uma sacudidela no seu francês, ó se vai!

Schrader

O ensaio de Paul Schrader na Film Comment é magnífico. Belo, estranho, de sólida união entre forma e tema, conhecedor da tradição em que se insere, passível de ser relido e re-avaliado, um convite ao compromisso do leitor e com um fundo moral que não recusa. Cumpre os sete requisitos, que enuncia, para integrar um cânone do ensaísmo. Nos lugares cimeiros.
Imagino que não seja aconselhável afirmar todas estas qualidades assim, à primeira leitura. Sou uma leitora impaciente, sobretudo quando o que leio mexe muito comigo.
(O texto da capa, sobre Marie Antoinette, não é mau; mas o tom, ao contrário do que afirma o autor, Nathan Lee, é condescendente.)

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Saturday Night (Pant) Fever

A Lagarta a rodopiar numa pista de dança, tal não deve ter sido! Melhor do que isso, só um canito e uma bichana a fazerem-lhe companhia, não é, ó Tiaga? Tiaga... Tiaga! - Rai's partam a gata! Agora não quer outra coisa, com as gotas de chuva no parapeito da varanda e o barulho do vento... - Anda cá, anda ler o post da Lagarta!

À Paris

Uma das minhas viagens favoritas fi-la há uns anos, na passagem de 2001 para 2002, a Paris. Já conhecia a cidade e já gostava dela. A novidade consistiu na companhia e nos percursos: em busca de arquitectura contemporânea espalhada pela cidade - edifícios mais conhecidos e outros menos. Dois dos que me ficaram imprimidos indelevelmente na memória (tanto que Conrad teria a dizer sobre isto...) foram a sede do PCF, do Niemeyer, e a Igreja de Notre-Dame de l'Arche de l'Alliance, do grupo Architecture Studio. Ah!, o regresso...

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Antes e depois

(Foto do Moinho em 1986: João Espinho)

(Foto do Moinho em 2006: Glória Dias)

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Poesia na Finlândia

E um artigo de Jyrki Kiiskinen (Terve!) sobre poesia na época digital, na Books from Finland.

Antes de partir

Leio a entrevista (não está online) de Christian de Portzamparc na Les Inrocks. É um aperitivo...

Um passo atrás para seguir em frente

Paul Schrader levou-me (de volta) a Pauline Kael. "Trash, Art, and the Movies" data de 1969, saiu primeiro na Harper's Bazar, e talvez a isso deva a ligeireza de estilo que lhe permite ousadias impensáveis nos teóricos ditos "sérios". Não é todos os dias que lemos frases corajosas (porque ditas assim, de corpo aberto) e, afinal, tão claras, como "Dividi-la [à obra de arte] é muito menos importante do que tentar vê-la no conjunto. O crítico não deveria precisar de desmanchar uma obra para demonstrar que sabe como foi construída. O importante é mostrar o que nela é novo e belo, não como foi feita - o que lhe é mais ou menos implícito." Ou esta, deliciosa: "É escandalosamente egocêntrico chamar arte a tudo aquilo de que gostamos - como se não nos pudesse divertir por não ser arte". Agora, Schrader e os porquês da crítica de cinema hoje.

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

No ouvido

Ontem à noite, depois de, pelo meio de uma conversa sobre livros, ter falado sobre Ibsen, meti-me no carro a caminho de casa, liguei o rádio e escutei (não foi disco pedido...) a Suite nº 1 de Peer Gynt, obra composta por Edvard Grieg para a peça homónima de Ibsen.
Esta manhã, fiquei a saber que canção de amor de Modern Times é "Workingman's Blues". Fica tudo no ouvido.

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Rapazinhos e sobrevoo

* Aquilo a que o mano chama "rapazinhos", no post abaixo, é comummente conhecido como "erva-dos-rapazinhos" e tem o nome latino de Salvia officinalis. É como se vê aqui neste esquema que saquei de uma página sobre flora. No moinho, sempre houve um arbusto disto. Lembro-me do dia em que a avó me levou até lá e me disse: "Pega numa das flores e leva-a à boca. Agora suga o pé, a parte mais branca da flor." Arranquei aquela corolazinha encarnada, levei-a aos lábios, senti-a muito frágil e, sem lhe tocar com os dentes, suguei. É dali que fazem o mel, só pode ser.

** Ao fim de uma meia hora com as velas a girarem, já depois de nos acostumarmos ao zunido das cantarinhas, uma avioneta sobrevoou o moinho. Duas ou três vezes, girou sobre ele. Nela ia só uma pessoa. Não sei se fotografou, mas foi um privilegiado, de certeza, por ter visto daquela perspectiva o girar das velas.

Do mano

[Disse-lhe assim, quando li o que me enviou: "Parece uma oração, brother! É lindo!"]

No sábado festejei, com muita, muita gente, o moinho.
É caso para dizer que festejámos! Todos os que puderam partilhar o momento e até mesmo os outros que, não tendo estado com a sua presença nesse lugar, nesse dia, connosco estiveram, mesmo!
Numa boleia de domingo, até ao autocarro que me haveria de levar de regresso a Lisboa, falei com a minha irmã Ana. Carros e comboios são lugares maravilhosos para se falar – são cabines/confessionários onde, num intervalo de tempo, somos obrigados ao delicioso confronto com os nossos pensamentos e os dos nossos companheiros momentâneos. São sítios suspensos, pela velocidade, no espaço e no tempo, heterotopias, ter-lhes-á chamado um certo francês (que não sei se andaria muito ou pouco de automóvel).
Falei então com a Ana, de sábado.
Contei-lhe deste meu pensamento sobre o moinho, de como era bonito e simples e único o que representa hoje. Numa altura em que o tempo é comprimido pela velocidade que a maravilha da técnica inventou, o tempo da execução das coisas é sempre menor, impossível de agarrar! A nossa sofisticação parece permitir uma passagem quase imediata desde a ideia e projecto da coisa para a sua existência material, da ideia para o produto, o processo de execução parece deixar de pesar, por assim dizer. Talvez seja pelo encantamento por esse momento que parece querer fugir que procuro a arquitectura… mas essas são outras conversas…).
Hoje já parece do pão esquecer-se a farinha, da farinha, o tempo em que era trigo, e do tempo em que de uma, passava a ser outra coisa, sendo a mesma.
Pois maravilha-me então esta ideia de um tempo tão mais lento, mais respirado, tão ritmado e de acordo com o resto à volta que toda uma vida se organizava e vivia em torno desse momento, hoje invisível, o tempo que levavam as coisas a acontecer, tinha espessura, definia um espaço próprio, era grande!
Dentro deste novo tempo de onde venho, com as coisas boas que me trouxe, maravilha-me entrar no moinho e sentir que estou a entrar num intervalo gigante que ia de uma saca de trigo a outra de farinha.

Na segunda, ao almoço, lembrei-me de querer ter-me recordado do momento dos três “discursos”: o do pai, o da Ana e o meu.
O do pai, que não sei se foi, ou não, gravado, dizia qualquer coisa como:
(…) “queria, do fundo do coração, agradecer a vossa visita, aqui, hoje (…)” depois disse que se sentia contente e orgulhoso por possuir um monumento! Mas sendo um “monumento”, património de todos, o seu sentimento de posse era relativo, pelo que se sentia como imaginava se pudessem sentir todos ali, naquele momento, como pessoas felizes por poderem cuidar, curar e amar um património comum, coisa que é, material e emocionalmente, cultura. Destas pessoas, do Alentejo, da cidade de Beja.
E então, nesta segunda-feira, depois do almoço, já em Lisboa, tive esta recordação de coisa que não aconteceu e que se construiu a partir de uma outra, parecida – o discurso não dito da Ana. (Na verdade dito, baixinho, mais tarde, para quatro amigos, as Anas, o João e o Pedro. Eu também o escutei.) Recordo a ideia das palavras que não disse em discurso, só esqueceram o doce dos rapazinhos [*] frente à janela do quarto do avô… contava de gatos, de cheiros, de lembranças grandes misturadas com pequenas, todas na mesma linha contente.

O meu não-discurso recordado dois dias depois, apesar de não ter acontecido, era assim:
(…) no calor e alegria desta tarde, no vento deste momento, e depois de ouvir a felicidade nas palavras do pai, a sua felicidade por poder contribuir para a preservação do moinho, para poderem outros felicitar-se; depois do calmo e tranquilo lembrar pessoalíssimo das palavras da Ana que, como num filme documentário, mostram imagens que reconfiguram as histórias neste lugar, depois destes dois “discursos”, quis lembrar-me de um momento que não vivi, ou pensar, a modo de impossível ficção, de um tempo mais atrás e procurei imaginar o momento em que, pela primeira vez, uma festa recebeu a construção do moinho. Esse momento, do qual não sei se há registo, do qual não sei se há lembrança, passada de memória em memória, até hoje.
Aqui, onde se junta mais de centena e meia de gente, apetrechados das nossas máquinas de memória e registo, com que fazemos filmes e fotografias, aqui, neste tempo, podendo estar a ser sobrevoados [**], no limite da atmosfera, por um olhar curioso e assustador também, que nos perscruta, aqui, na sobreposição de todos estes dispositivos de caça da memória que irão restituir, para sempre, o agora, apesar deles, e apesar de tudo, sentimos, talvez, uma intensidade parecida, semelhante, à da alegria de quem aqui, neste lugar, há mais de cem anos (que é uma maneira de dizer muito tempo…), experimentou a alegria de ver nascer o moinho! De ver rodar pela primeira vez as grandes varas, umas com as outras para sempre acompanhadas na sua económica geometria.
A nossa felicidade hoje é pela cura do passado que queremos guardar. Porque mesmo que muito indirecto, também é nosso – vosso, também somos nós.
A felicidade de então terá sido a da confiança e da força para um futuro, significado todo no ar e na terra que haveriam – do vento e do trigo – de dar vida às suas vidas, sustento com água e fogo misturado.
O pão dos seus dias, o pão também dos nossos.

João
Segunda-feira, 9 de Outubro de 2006

[* Ler o post acima]
[** Hehehe, ler outra vez o post acima]

"E não enjoas?"

Perguntou-lhe a Tiaga. "Não," respondeu o bicho. "Chiça, é que ver tanta fotografia do mastro, das varas, e ainda por cima imaginar aquilo a girar, a girar, a girar, já me está a dar a volta ao estômago!" "Pois vai-te preparando, florzinha de cheiro! Por estes dias ainda terás muito moinho para ver..."

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Chegou!

... à minha caixa de correio a mais recente Film Comment (prefácio e introdução, ao menos isso, estão online. Num dia cheio como o de hoje, andarei em pulgas (credo, Reboliço, credo!) para que chegue a noite e possa ler as dezasseis (dezasseis, Reboliço, dezasseis!) páginas de Paul Schrader sobre o cânone fílmico.

Discurso

"Olha, Tiaga: podes ler aqui o que era para ter sido o discurso de sábado. Felizmente para quem lá esteve, acabou por não ser imprimido e o que a Ana disse foi um resumo muito resumidinho do que aqui está. Doutra maneira, talvez tivesse saído uma lengalenga de bocejo. (Fala de mim.)"

“Pelas contas que temos feito, este moinho está de pé desde os anos 70 do século XIX. Terá uns 130 anos, mais coisa menos coisa. O último moleiro que aqui trabalhou veio para cá com 12 anos de idade. Casou, aqui habitou com a mulher e teve cinco filhos (dois rapazes primeiro, uma rapariga e dois rapazes à última). Aqui trabalhou até que pôde, num dos moinhos com mais freguesia da zona: o moinho teve luz eléctrica na década de 50 do século XX, a partir de uma bateria carregada com a energia do vento; em 1956 foi instalado um motor Diesel, que passou a alimentar a electricidade e a suprir as horas de menos vento, para que se conseguisse responder à procura de farinha.

Os anos 60 e a industrialização gradual da moenda ditaram o decair do uso dos moinhos de vento – pouco a pouco, neste moinho foi-se moendo menos, e essa diminuição foi coincidente com o avançar da idade do moleiro. Por volta de 1976 o moinho moeu pela última vez. Também dessa altura data a casa da amassaria, com a máquina de peneirar e a de amassar. Ainda se vendeu aqui pão durante algum tempo, mas já não se manteve o negócio. A partir dos anos 80, o moinho foi principalmente lugar de reunião da família, pelas festas ou outras ocasiões. O moleiro e a mulher continuaram a viver aqui até que puderam. No início dos anos 90 saíram. O monte ficou vazio – a família tentou que sempre aqui se regressasse, semanal, mensalmente, as vezes suficientes para que o esvaziamento da casa não representasse o abandono nem a ruína do moinho.

Em 1999, ainda em vida do moleiro, um dos seus filhos decidiu comprar aos irmãos as partes que lhes caberiam. Fizeram-se os actos – no princípio de Dezembro desse ano, sem chegar a ver a passagem do milénio, o moleiro morreu. Acredito que tenha morrido descansado, a pensar que o moinho teria ficado em mãos que o não esqueceriam. Essas mãos estão aqui hoje.

Esta é, em traços muito largos e factuais, a história do moinho. Mas não é toda a história. Nem a da comunidade maior, a história industrial de um país europeu durante a maior parte o século XX, de que este complexo de três moinhos [os outros dois, de proprietários que desconheço, estão em ruína] faz parte; nem é a história dos indivíduos que aqui passaram, por aqui terem vivido, por terem aqui vindo fornecer as suas despensas de farinha e depois de pão; por aqui terem vindo de visita, por acaso atraídos pela alvenaria caiada vista de longe; por aqui terem convivido nas datas mais alegres ou em reuniões menos festivas; por terem, às vezes, apenas ouvido falar do moinho. Cada uma destas pessoas tem uma memória mais ou menos longínqua, mais ou menos mágica, mais ou menos presente.

Aconteceu-me vir dar a esta família, a esta gente, a este moinho. Os pais que me tiveram e me criaram casaram-se neste monte. Tive a sorte (grande como este moinho é grande) de lhes nascer ainda em tempo de ver o moinho em movimento. Guardo memórias soltas, mais ou menos longínquas, mais ou menos mágicas, mais ou menos presentes.

Das pedras das mós
Dos pedregulhos arredondados com ninhos de vespas que nos faziam dar corridas e chorar das picadas
Das pedras na rua calçada
Das pedrinhas, do cascalho

Do som dos pés, dos sapatos, ao chegarmos, sairmos do carro e passarmos para a casa
Do som do vento, do som da chuva
Do som da chuva com vento
Do som do frio
Do som do calor
Da seara alta a empatar o som dos automóveis na estrada
Do som dos grilos, no Verão
Do som dos madeiros e das latas por baixo das corridas dos passos dos gatos, que eram muitos
Do som das galinhas e dos gansos
Do som das folhas secas, caídas, por baixo das patas lentas das galinhas
Do som da água a escorrer para baixo do tanque onde a avó lavava
Do som do motor
Do som das velas a girar, que é um som brutal, rápido, como o coração me ficava
Do som matraqueado das máquinas e do motor dentro do moinho
Do som do esvoaçar levantado dos pombos

Do cheiro do arroz de pombo
Do cheiro ao bolo de mel
Do cheiro das ervas fervidas, para o chá ou para a água do banho

Do som do candeeiro a gás, pequeno e fraco, na cozinha.

Do branco do cabelo da avó
Do branco do boné branco do avô
Do branco da farinha branca nas mãos do avô, da massa branca do pão amassado pela avó, feito em forma de merendeiros, que ela dava primeiro aos netos
Do branco das flores dos jarros em frente à casa
Do branco de toque tão suave das flores dos jarros

Do toque do tronco áspero das ameixeiras, quando as subia
Do toque pouco rugoso da figueira grande

Do som da esquilinha ao pescoço do Reboliço

Quando digo moinho, digo isto tudo

Digo o som da lenha a arder, na casa, no lume
Digo o som dos talheres de metal leve nos pratos envelhecidos

Digo o cheiro dos coentros pisados para a açorda

Digo o gosto do alho nos coentros e no bacalhau da açorda
O gosto do arroz de pombo
O gosto das ameixas maduras, grandes, carnudas, comidas à pressa, com o sumo a escorrer-me pelo queixo e pelos braços

Digo o toque das folhas das couves, das canas do carunchoso, quando apanhamos caracóis
Digo o toque da cal nas paredes

Digo o som do chão por baixo dos pés.

Estas são algumas só das minhas memórias, que não terminam aqui nem hoje e se prolongam por gente que está aqui, por gente que está noutros lugares do mundo, por gente que não está já no mundo palpável mas resiste nas memórias de mim e de outros que aqui estão – se começar a desenredar este emaranhado de memórias, de nomes, de gente, ficaremos aqui a lembrar e arriscamos não viver. Se não vivêssemos, porém, ficaríamos sem memórias – e essa possibilidade não me agrada.

O moinho está aqui. Está aqui em pedra, cimento, madeira, ferro e cal; está nas fotografias e numa cópia dolorosamente fraca de um filme dos finais da década de 50; está por aqui, perto e longe. Visitem-no, olhem nele as memórias mais amplas, de bocados de um povo, e as mais formiguinhas. E encham-no de memórias vossas. É também para isso que ele é Grande.”

Mais ecos

Já a Senhora Sócrates fizera referência ao moinho. O Reboliço está todo contente por ela lhe ter roubado imagens.

Nova laçada

No domingo, no rescaldo da festa, ainda houve visitantes. Disseram que foram cativados pelas velas a girar, vistas de longe no dia anterior, que até arrepios tinham sentido. E fizeram fotografias do moinho, em descanso merecido (temporário, temporário...). Obrigada! (Fica o link aí à direita.)

De volta (outra vez)

"Onde é que andaste?", pergunta a Tiaga, depois de saltar do mais alto dos armários, onde agora deu em dormir. Esta gata é do piorio..., pensa o Reboliço: se estou em casa, não me liga a mínima. Se passo uns dias fora, parece que sofreu horrores de saudades. "Estive no Moinho, não te lembras? Convidei-te para ires, não quiseste." "Ora, já sabes que não gosto de multidões. Viste como foi com os gatos da Mulher." "Pois sim, pois sim." "Mas conta-me tudo, tudo, tudo. Como foi?" "Logo te contarei com mais calma, descansa. Agora tenho outros burros para tocar. Já cá venho deixar relato, fotos e o mais que seja." "Que maçada, ter de esperar..."

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

(Foto: Reboliço)

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Ainda o regresso

Enquanto suspira (ainda dura, o suspiro do post anterior), o Reboliço pensa, ao mesmo tempo: "Que vergonha, Tiaga, comportares-se assim na casa de amigos!" e "That's my cat!"

De volta a casa

A Tiaga foi visitar uns amigos. Ia para uma semana, ficou dia e meio. "Então? Já estás de volta?", perguntou-lhe o Reboliço, enquanto refazia mentalmente os planos que tinha feito de dormir as próximas noites na sala, de portas abertas para a varanda, sem o perigo de a bichana saltar para a casa da vizinha. "O que se passou?" "Ora, aborreci-me daquilo. Nem o Alexis nem a Orlando queriam conversar, nem brincar... Eu ia com as melhores intenções, como calculas..." "Sim, sim, Tiaga. Até te estou a ver." Não via nada, claro, mas imaginava com grande certeza os sopros, as ameaças de arranhadelas, os grunhidos e o olhar paralisante da sua Tiaga aos outros. Ai, ai, pensava ele. Pobre Alexis, o que um homem tem de aturar...
"Agora desvia-te da alcofa, que preciso de me restabelecer da viagem. Como estou fatigada..." Com um safanão (carinhoso, ainda assim), afastou o bicho, que não teve outro remédio senão voltar ao seu canto, pousar a cabecinha sobre as patas da frente, fechar os olhos e lançar um suspiro profundo.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Acesso

O Reboliço está até A Q U I (enquanto se equilibra numa das patinhas da frente, aponta com a outra para os pêlos do alto do toutiço) de gente que se mostra ou se diz "ameaçada" pela sua suposta inteligência. Não que isso o incomode enquanto indivíduo - o problema é que, sendo a sua uma trivial inteligência canina, esse sentimento de ameaça é um sinal grave do nível dos que andam à sua volta. Grrrrrrrrrrr!...

sábado, 30 de setembro de 2006

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Caeiro e o americano

A propósito de leituras de Caeiro, o Reboliço pensou mais um pouco sobre a poesia do Mestre. Não é possível que Caeiro seja mais do que os seus versos. Em momento algum da sua existência pôde ser verdade uma proposição como a de Henry David Thoreau, quando escreveu que "A minha vida seria o poema por mim escrito, / Mas não poderia ao mesmo tempo tê-la vivido e viver para o exprimir".

É só um bocadinho...

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Esquina de vida

Conheci-a nos idos de 1981 (pobrezita, nem ela se deve lembrar...). Era tal e qual o que é hoje, sem tirar, só pôr, só melhorar. Parabéns, Gracinha!

Thinking ahead

Ouvi hoje a notícia, mas parece que a novidade não é bem nova: gatos hipoalérgicos, ou hipoalergénicos, ou anti-alérgicos, ou o Diabo a sete (que isto em se falando de gatos, vem logo o Diabo à baila, que o diga o Mestre da Margarita...). Não poderá haver prenda melhor para o Mano, que tosse, espirra, fica sem ar, lacrimeja, pragueja, dá cambalhotas, etc, só por estar perto da Tiaga ou de gente da espécie dela. Como o preço anunciado na rádio por cada felino me dá a mim uma brotoeja desgraçada, aceitam-se contribuições.

Reactivação

"Tiaga, Tiaga, Tiaga, Tiaga!" "Que desassossego! O que foi agora?", pergunta a gata, a espreguiçar-se e a afastar-se da fonte daquela inquietação. "O moinho já moeu, ontem à noite!" "À noite?" "Pois. Foi quando chegou o vento. Diz lá, não é fixe?" "Hum... Sim, é." O Reboliço nota-lhe a indiferença e remata: "Pois quando a mãe fizer as papas do milho branco que ontem moeu, acompanhado de achegãs assadinhas no carvão, bem quero ver quem se chegará primeiro ao prato!..."

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Já isto foi mais custoso de fazer

Escrever "[R.I.P.]" a seguir ao título do linque para "A Memória Inventada".

Novo linque

Depois de um fim-de-semana a moinhar e a ter a paciência moidinha pelo vento irregular do início de Outono, o Reboliço sentou-se a navegar em águas mais calmas. Descobriu um blogue novo (obrigada pela dica, Paulo!), do Rui. Tem o título de um filme que o Reboliço não viu e fala de filmes e de música.

domingo, 24 de setembro de 2006

Look again...

Estão a ver a foto a preto e branco ali em cima, à direita, no meu perfil [que agora está ainda à direita mas em baixo]? Olhem de novo. Esta é uns cinquenta anos mais recente, tirei-a ontem. O moinho é o mesmo. O moinho não é o mesmo.

(Foto: Reboliço)

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Na foz do Congo

"Subir o rio era o mesmo que viajar para trás, até às primeiras idades do mundo, quando a vegetação transbordava da terra e as árvores reinavam. Uma torrente deserta, um grande silêncio, a floresta impenetrável. O ar era quente, espesso, muito pesado e mole. A luz solar não tinha alegria. Longos troços de rio deserto perdiam-se por lonjuras de enorme sombra. Nas margens de areia prateada, hipopótamos e crocodilos tomavam lado a lado banhos de sol. As águas largas corriam entre uma confusão de ilhas arborizadas: uma pessoa perdia-se naquele rio como num deserto, e todo o dia tropeçava em baixios, tentava encontrar um canal navegável e acabava por julgar-se vítima de um feitiço, isolada para sempre do que até ali conhecera - sei lá onde - muito longe - talvez noutra vida."
(Joseph Conrad, O Coração das Trevas, na versão que me ensinou a amar Conrad, que Aníbal Fernandes publicou em 1983 na editorial Estampa, p. 69.)

No original, as sombras mantêm-se, mas há outra luminosidade:

"Going up that river was like travelling back to the earliest beginnings of the world, when vegetation rioted [pois, verbo impossível e lindíssimo, aqui] on the earth and the big trees were kings [que é diverso de "reinavam", enfim]. An empty stream, a great silence, an impenetrable forest. The air was warm, thick, heavy, sluggish. There was no joy in the brilliance of sunshine ["there was no", mas o que fica da frase é o "brilliance of sunshine", e não tanto a ausência de "alegria" do português]. The long streches of the waterway [não é bem "rio", é "caminho de água"; entendo que não o possa ser em português, mas "waterway" tem a magia das epopeias antigas] ran on, deserted, into the gloom [de quantas palavras em português se fará o conradiano "gloom"? Aqui, de nenhuma.] of overshadowed distances. On silvery sandbanks hippos and alligators sunned themselves side by side. The broadening waters flowed through a mob of wooded islands; you ["uma pessoa" é o correcto, mas "you" atinge com tanto mais poder quem lê: é connosco que estão a falar] lost your way on that river as you would in a desert, and butted all day long against shoals, trying to find the channel, till you thought yourself [de novo] bewitched and cut off for ever from everything you had known once - somewhere - far away - in another existence [que diferença, de "another life"!] perhaps.
(Isto está na página 59 da edição da Penguin de Heart of Darkness, preparada em 1995 por Robert Hampson.)

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Camas de flores

Linquei um blogue - sobre jardinagem. Porque este Outono que começa mais parece uma Primavera.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Achado

No metro de Paris, sua Excelência, o flâneur:

Final de Verão

O Reboliço afasta-se um bocadinho, para observar melhor, depois de se ter roçado pela pelagem branca, cinzenta e cor de mel. "Tens o pêlo mais sedoso, Tiaga." "Hum-hum," responde a gata. "E estás mais gordinha, fica-te bem." Ela suspira. "Cresceste, estás mesmo maior." "Fez-me bem o Verão," responde a bicha, entre um bocejo e uma espreguiçadela.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Epígrafes

Ao longo dos anos (já conto mais de dez, credo...) tenho escolhido, alternadamente, duas epígrafes para acrescentar às bibliografias das disciplinas de Literatura que ensino. Pensei muito nelas quando as escolhi a primeira vez, mas depois interiorizei-as, ou seja, passaram para uma espécie de esquecimento que me permite agir com elas entranhadas e tê-las, afinal, sempre presentes. Uma é de Francis Bacon, num ensaio que escreveu sobre o estudo, e diz assim: "A leitura faz o homem completo; a conversa, o homem preparado; a escrita, o homem preciso." A outra epígrafe é de Stanley Cavell, num dos livros em que anda à procura da felicidade, e diz: "Gostaria de sublinhar que a maneira de ultrapassar correctamente, filosoficamente, a teoria é deixar que o objecto ou a obra que nos interessa nos ensine como havemos de a considerar."
Ambas as frases me deixam perplexa, isto é, silenciosa a pensar e a estranhar que não se reflicta mais ainda sobre as questões que levantam. Até na diferença de estilos que estabelecem: a primeira, típica de uma viragem de século (o XVI para o XVII) ansiosa pelo assentar da poeira de novas e admiráveis descobertas (Bacon é contemporâneo de Shakespeare, que, por volta de 1611, haveria de escrever na sua peça derradeira, pela boca de Miranda, a frase que ainda hoje ressoa, "O brave new world / That has such people in't!"), é um aforismo. Assertiva, sem dúvidas aparentes. Orientadora dos novos seres do novo mundo. Um pilar de sabedoria, pois.
Na segunda, Cavell já conta parte da longa história do conhecimento humano. Introduz a frase com uma proposição da sua vontade individual; pretende chamar a atenção para um aspecto (entre vários) da maneira de conhecer. Mas, no fundo, não deixa de ser assertivo. E de vincar com precisão (a mesma precisão que Bacon dizia que se atingiria pela escrita) a solução para uma dúvida (Como abordar um objecto de estudo?). Ora, como é característico dos nossos tempos epistemológicos, a solução passa pelo enredar de interrogações - o que quer Cavell dizer com "ultrapassar a teoria"? Em que é que essa ultrapassagem é necessária? O que é uma ultrapassagem "correcta" da teoria? E como é que "correcta" é um sinónimo tão transparente de "filosófica"? Tudo isto ainda antes de se pensar no que significa "deixar que o objecto" decida, nos mostre, como se há-de olhar para ele. Mais do que incómodas, são perguntas estimulantes. E é esse estímulo que gosto de encontrar no primeiro dia de aulas. É hoje.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Para que serve a arquitectura? E quanto pesa um tijolo?

As respostas - ai de nós se forem completas e definitivas! - hão-de fazer-se ouvir em Guimarães, primeiro, depois noutros lugares.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Quando uma leitora se torna autora...

... dá nisto. Bem-vinda, Senhora Sócrates!

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Nuno Júdice

Não li todos estes poemas, mas é bom ter actualizações poéticas à mão. Para mais, quando se trata de poesia que olha para o espelho da pintura. Fica linkado.

As melhores memórias

O Reboliço lembra-se de um 11 de Setembro muito bom. Fixa a memória nesse dia e faz convergir nele os tempos todos que reapareceram: entretanto, antes, então, durante, depois, sempre, quando, até.