Que a cabeça e o colo encontrem outros dois rostos na mesma cama - um, atento, desperto, inquieto; o outro, apaziguado e a sonhar os acordados. Um à altura dos olhos de dizer palavras, enquanto o outro as cose umas às outras, no silêncio.
quinta-feira, 30 de novembro de 2006
Para a Mana e para o Mano
Que a cabeça e o colo encontrem outros dois rostos na mesma cama - um, atento, desperto, inquieto; o outro, apaziguado e a sonhar os acordados. Um à altura dos olhos de dizer palavras, enquanto o outro as cose umas às outras, no silêncio.
Moinhos na poesia (8)
Volta la Carta
C’è una donna che semina il grano
volta la carta e si vede il villano
il villano che zappa la terra
volta la carta viene la guerra
per la guerra non c’è più soldati
a piedi scalzi son tutti scappati.
Angiolina cammina cammina sulle sue scarpette blu
carabiniere l’ha innamorata volta la carta e lui non c’è più
carabiniere l’ha innamorata volta la carta e lui non c’è più.
C’è un bambino che sale un cancello
ruba ciliege e piume d’uccello
tira sassate non ha dolori
volta la carta c’è il fante di cuori
il fante di cuori che è un fuoco di paglia
volta la carta e il gallo ti sveglia.
Angiolina alle sei di mattina s’intreccia i capelli con foglie d’ortica
ha una collana di ossi di pesca la gira tre volte intorno alle dita
ha una collana di ossi di pesca la conta tre volte in mezzo alle dita.
Mia madre ha un mulino e un figlio infedele
gli inzucchera il naso di torta di mele
mia madre e il mulino son nati ridendo
volta la carta c’è un pilota biondo
pilota biondo camice di seta
cappello di Volpe sorriso d’atleta.
Angiolina seduta in cucina, che piange che mangia insalata di more
ragazzo straniero ha un disco d’orchestra che gira veloce che parla d’amore
ragazzo straniero ha un disco d’orchestra che gira che gira che parla d’amore.
Madamadorè ha perso sei figlie
tra i bar del porto e le sue meraviglie
Madamadorè sa puzza di gatto
volta la carta e paga il riscatto
paga il riscatto con le borse degli occhi
piene di foto di sogni interrotti.
Angiolina ritaglia giornali si veste da sposa canta vittoria
chiama i ricordi col loro nome volta la carta e finisce in gloria
chiama i ricordi col loro nome volta la carta e finisce in gloria.
angiolina
há uma mulher que semeia grão
vira-se a carta e vê-se o vilão
o vilão remexe a terra
vira-se a carta e vem a guerra
para a guerra não há soldados
todos fugiram, de pés descalços
angiolina caminha caminha nos seus sapatinhos azuis
apaixonou-se pelo polícia
vira-se a carta e ele já não está
há um miúdo que sobe o portão
rouba cerejas e penas de pássaro
atira pedras, a dor não existe
vira-se a carta e sai valete de copas
o valete de copas é fogo na palha
volta-se a carta, o galo acorda-te
angiolina às seis da manhã entrelaça os cabelos com folhas de urtiga
tem um colar de caroços de pêssego
passa-o três voltas em torno dos dedos
tem um colar de caroços de pêssego
conta três voltas em torno dos dedos
a minha mãe tem um moinho e um filho desleal
que lhe adoça o nariz de tarte de maçã
a minha mãe e o moinho nasceram a rir
vira-se a carta e há um piloto loiro
piloto loiro, camisa de seda, chapéu de raposa, sorriso de atleta
angiolina sentada na cozinha chora e come salada de amoras
o rapaz estrangeiro tem um disco de orquestra que gira rápido e fala de amor
o rapaz estrangeiro tem um disco de orquestra que gira gira e fala de amor
Madame Doré perdeu as seis filhas nos bares do porto e nas suas maravilhas
Madame Doré fede a gato
vira-se a carta e paga o resgate
paga o resgate com olhos inchados
cheios de fotografias de sonhos interrompidos
angiolina recorta jornais veste-se de noiva e canta vitória
trata as recordações pelo nome
vira-se a carta e termina em glória
trata as recordações pelo nome
vira-se a carta e termina em glória.
quarta-feira, 29 de novembro de 2006
O arquivo e o incêndio
terça-feira, 28 de novembro de 2006
O do tigre
- Ainda tu estavas enroscado no teu sono e já eu estava à janela, a ver as gotas em carrinhos de choque pela janela abaixo. Sabes quem faria hoje anos, se estivesse vivo?
- Quem?
- O William Blake.
- Não me digas! O do tigre?
- Esse mesmo. 249.
- Hum... Já se está mesmo a ver o que para aí vem. Parabéns, então.
segunda-feira, 27 de novembro de 2006
Histórias
Arte Postal
O poder dos bonecos
domingo, 26 de novembro de 2006
Uma "bejeca" à saúde do poeta!
quinta-feira, 23 de novembro de 2006
A biblioteca de Juan Rulfo
(Ontem à noite, na Biblioteca de Loulé, falou-se de Rulfo e de Páramo, o homem que "se fue desmoronando como si fuera un montón de piedras".)
quarta-feira, 22 de novembro de 2006
Pedro Páramo
- Vamos, deixa-te de medos. Já ninguém te pode assustar. Tenta pensar em coisas agradáveis porque vamos estar muito tempo enterrados.
(p.58)
terça-feira, 21 de novembro de 2006
Nada de compras!
- Ó Tiaga, então este ano não tenho prenda?
- Está descansado, desensofrido... Não será coisa comprada, isso não.
segunda-feira, 20 de novembro de 2006
sexta-feira, 17 de novembro de 2006
Filha ao pai
Was I then to you!
MIRANDA: ............. O, a cherubin
Thou wast that did preserve me. Thou didst smile,
Infused with a fortitude from heaven,
When I have deck'd the sea with drops full salt,
Under my burthen groan'd; which rais'd in me
An undergoing stomach, to bear up
Against what should ensue.
Diz o pai - Céus, que empecilho terei sido para ti!
Responde a filha - Diz antes um anjo, que me preservaste. Sorriste, cheio de uma força celestial, quando eu de lágrimas salgadas enchia aquele mar e por minha desgraça rugia; e assim me deste estômago para aguentar tudo o que veio a suceder.
(The Tempest, I, ii, 151-158; a troca das personagens é da minha inteira vontade, da minha total responsabilidade.)
terça-feira, 14 de novembro de 2006
Calasso (2)
"Contrariamente à ilusão moderna, as forças psíquicas são fragmentos dos deuses, não são os deuses fragmentos das forças psíquicas."
(p. 145. Calasso traduzido por Clara Rowland. Tenho algumas dúvidas sobre a tradução de certos modos verbais, nalguns momentos do texto; nesta frase, porém, tudo me parece claro.)
segunda-feira, 13 de novembro de 2006
Manias
- Levantar-me de manhã sentando-me primeiro no bordo do colchão e só depois, devagarinho, pôr-me de pé (por causa das quebras de tensão, hehehe)
- Comer noodles sempre com pauzinhos (e exigi-lo dos outros comensais)
- Recusar-me a dar fim à minha colecção de calendários de bolso (só por mania, realmente...)
- Começar as aulas com "Ora bem" (detesto esta!)
- Guardar os bilhetes de espectáculos a que assista (cinema, teatro, seja o que for)
Cinco manias da Tiaga:
- Dar o primeiro miado do dia como um uivo de lamento profundo (= "Anda jááááá abrir-me a portaaaaaaa, quero ver se te distraíste e deixaste a varanda abertaaaaa!")
- Saltar para a banheira assim que ouve a água a escorrer ("Ui, que caio! Aqui dentro está tudo alagado, mas eu queria tanto agarrar aquelas bolhinhas que escorrem pela cortina transparente...")
- Pousar, qual águia (às vezes, lembra mais um abutre!), nos lugares mais altos da casa
- Saltar para o colo de quem se sente no sofá
- Saltar para fora do colo de quem se sente no sofá e tente fazer-lhe uma festinha
Cinco manias do Reboliço:
Olá! O Reboliço não tem manias...
;)
domingo, 12 de novembro de 2006
As cidades
quinta-feira, 9 de novembro de 2006
Red Lollipop
Who with his fear is put besides his part,
Or some fierce thing replete with too much rage,
Whose strength's abundance weakens his own heart.
So I, for fear of trust, forget to say
The perfect ceremony of love's rite,
And in mine own love's strength seem to decay,
O'ercharged with burden of mine own love's might.
O, let my books be then the eloquence
And dumb presagers of my speaking breast,
Who plead for love and look for recompense
More than that tongue that more hath more express'd.
O, learn to read what silent love hath writ:
To hear with eyes belongs to love's fine wit.
quarta-feira, 8 de novembro de 2006
Uahahhhhhhhhhh!
terça-feira, 7 de novembro de 2006
Produzir presença
(Se abordarmos um poeta sem esta ideia-feita de nos aprazer a sua diferença em relação aos poetas que o antecederam, poderemos descobrir que não só as melhores mas também as mais características partes da sua obra podem ser aquelas em que os poetas mortos, os seus antecessores, mais energicamente afirmam a sua imortalidade.)
Dois - "if the only form of tradition, of handing down, consisted in following the ways of the immediate generation before us in a blind or timid adherence to its successes, 'tradition' should positively be discouraged."
(Se a única forma da tradição, de passagem do testemunho, consistisse em seguir os trilhos da geração imediatamente anterior numa adesão cega ou tímida às suas proezas, deveria desencorajar-se definitivamente a "tradição".)
Três - "Tradition [...] involves, in the first place, the historical sense [...]; and the historical sense involves a perception, not only of the pastness of the past, but of its presence."
(Em primeiro lugar, a tradição implica o sentido histórico; e o sentido histórico implica uma percepção não apenas da qualidade passada do passado, mas da sua presença.)
T. S. Eliot sobre a tradição e o talento individual. Ou Gumbrecht avant-la-lettre.
segunda-feira, 6 de novembro de 2006
Blue jeans
ADENDA: Foi no "Mil Folhas" do Público (de sexta, dia 3/11) que saiu a dita foto, de Enric Vives-Rubio, a ilustrar o artigo de Alexandra Lucas Coelho, "Lobo Antunes contra Lobo Antunes".
sexta-feira, 3 de novembro de 2006
Citação
Ode marítima
Ah, [...]
Ah, [...]
Ah [...]
Ah, [...]
Ó [...]
Ah, [...]
Ah, [...]
Ah, [...]
Ah, [...]
Ah,[...]
Ah, [...]
Ah, [...]
Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-yyyy... [...]
[...] ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yyyy...) [...]
Ah [...]
Eh [...]
Eh [...]
Eh [...]
Eh [...]
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]
Eh-eh-eh-eh-eh! [...]
Eh-eh-eh-eh eh! Eh eh-eh-eh eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh eh!
Eh lahô-lahô laHO-lahá-á-á-à-à! [...]
- ah! [...]
[...] -aw-aw-aw-aw!
[...] -aw-aw-aw-aw!
[...] a-a-aft [...] ru-u-u-u-u-u-u-u-u-um [...].
Eia, [...], eia!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Eh-lahô-lahô-laHO-lahá-á-á-à-à!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
[...]
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]
Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-yyyy...
[...] ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó- yyyy...
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]
Ah [...]
Ah, [...]
(Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
1ª publ. in Orpheu, nº2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915.)
A propósito do mês de Álvaro de Campos, no Leitura Partilhada.
terça-feira, 31 de outubro de 2006
Influência
Tarde amanhecida
segunda-feira, 30 de outubro de 2006
Lagarténs!
nesta data querida!
Muitas lagarcidades,
muitos anos de vida.
Hoje é dia de Lagarta,
canta a alma do Reboliço.
Para a menina Lagarta
muitos anos - e ISSO!
domingo, 29 de outubro de 2006
sábado, 28 de outubro de 2006
Rui Tavares e "o problema político"
sexta-feira, 27 de outubro de 2006
Isto parece bonito
Ver o caminho
quarta-feira, 25 de outubro de 2006
Moinhos na poesia (7)
terça-feira, 24 de outubro de 2006
Ecos do moinho
A senhora dos anéis
(Foto: Vasco Célio)sábado, 21 de outubro de 2006
?
quinta-feira, 19 de outubro de 2006
Schrader
Imagino que não seja aconselhável afirmar todas estas qualidades assim, à primeira leitura. Sou uma leitora impaciente, sobretudo quando o que leio mexe muito comigo.
quarta-feira, 18 de outubro de 2006
Saturday Night (Pant) Fever
À Paris
terça-feira, 17 de outubro de 2006
segunda-feira, 16 de outubro de 2006
Poesia na Finlândia
Antes de partir
Um passo atrás para seguir em frente
quinta-feira, 12 de outubro de 2006
No ouvido
terça-feira, 10 de outubro de 2006
Rapazinhos e sobrevoo
* Aquilo a que o mano chama "rapazinhos", no post abaixo, é comummente conhecido como "erva-dos-rapazinhos" e tem o nome latino de Salvia officinalis. É como se vê aqui neste esquema que saquei de uma página sobre flora. No moinho, sempre houve um arbusto disto. Lembro-me do dia em que a avó me levou até lá e me disse: "Pega numa das flores e leva-a à boca. Agora suga o pé, a parte mais branca da flor." Arranquei aquela corolazinha encarnada, levei-a aos lábios, senti-a muito frágil e, sem lhe tocar com os dentes, suguei. É dali que fazem o mel, só pode ser.** Ao fim de uma meia hora com as velas a girarem, já depois de nos acostumarmos ao zunido das cantarinhas, uma avioneta sobrevoou o moinho. Duas ou três vezes, girou sobre ele. Nela ia só uma pessoa. Não sei se fotografou, mas foi um privilegiado, de certeza, por ter visto daquela perspectiva o girar das velas.
Do mano
No sábado festejei, com muita, muita gente, o moinho.
É caso para dizer que festejámos! Todos os que puderam partilhar o momento e até mesmo os outros que, não tendo estado com a sua presença nesse lugar, nesse dia, connosco estiveram, mesmo!
Numa boleia de domingo, até ao autocarro que me haveria de levar de regresso a Lisboa, falei com a minha irmã Ana. Carros e comboios são lugares maravilhosos para se falar – são cabines/confessionários onde, num intervalo de tempo, somos obrigados ao delicioso confronto com os nossos pensamentos e os dos nossos companheiros momentâneos. São sítios suspensos, pela velocidade, no espaço e no tempo, heterotopias, ter-lhes-á chamado um certo francês (que não sei se andaria muito ou pouco de automóvel).
Falei então com a Ana, de sábado.
Contei-lhe deste meu pensamento sobre o moinho, de como era bonito e simples e único o que representa hoje. Numa altura em que o tempo é comprimido pela velocidade que a maravilha da técnica inventou, o tempo da execução das coisas é sempre menor, impossível de agarrar! A nossa sofisticação parece permitir uma passagem quase imediata desde a ideia e projecto da coisa para a sua existência material, da ideia para o produto, o processo de execução parece deixar de pesar, por assim dizer. Talvez seja pelo encantamento por esse momento que parece querer fugir que procuro a arquitectura… mas essas são outras conversas…).
Hoje já parece do pão esquecer-se a farinha, da farinha, o tempo em que era trigo, e do tempo em que de uma, passava a ser outra coisa, sendo a mesma.
Pois maravilha-me então esta ideia de um tempo tão mais lento, mais respirado, tão ritmado e de acordo com o resto à volta que toda uma vida se organizava e vivia em torno desse momento, hoje invisível, o tempo que levavam as coisas a acontecer, tinha espessura, definia um espaço próprio, era grande!
Dentro deste novo tempo de onde venho, com as coisas boas que me trouxe, maravilha-me entrar no moinho e sentir que estou a entrar num intervalo gigante que ia de uma saca de trigo a outra de farinha.
Na segunda, ao almoço, lembrei-me de querer ter-me recordado do momento dos três “discursos”: o do pai, o da Ana e o meu.
O do pai, que não sei se foi, ou não, gravado, dizia qualquer coisa como:
(…) “queria, do fundo do coração, agradecer a vossa visita, aqui, hoje (…)” depois disse que se sentia contente e orgulhoso por possuir um monumento! Mas sendo um “monumento”, património de todos, o seu sentimento de posse era relativo, pelo que se sentia como imaginava se pudessem sentir todos ali, naquele momento, como pessoas felizes por poderem cuidar, curar e amar um património comum, coisa que é, material e emocionalmente, cultura. Destas pessoas, do Alentejo, da cidade de Beja.
E então, nesta segunda-feira, depois do almoço, já em Lisboa, tive esta recordação de coisa que não aconteceu e que se construiu a partir de uma outra, parecida – o discurso não dito da Ana. (Na verdade dito, baixinho, mais tarde, para quatro amigos, as Anas, o João e o Pedro. Eu também o escutei.) Recordo a ideia das palavras que não disse em discurso, só esqueceram o doce dos rapazinhos [*] frente à janela do quarto do avô… contava de gatos, de cheiros, de lembranças grandes misturadas com pequenas, todas na mesma linha contente.
O meu não-discurso recordado dois dias depois, apesar de não ter acontecido, era assim:
(…) no calor e alegria desta tarde, no vento deste momento, e depois de ouvir a felicidade nas palavras do pai, a sua felicidade por poder contribuir para a preservação do moinho, para poderem outros felicitar-se; depois do calmo e tranquilo lembrar pessoalíssimo das palavras da Ana que, como num filme documentário, mostram imagens que reconfiguram as histórias neste lugar, depois destes dois “discursos”, quis lembrar-me de um momento que não vivi, ou pensar, a modo de impossível ficção, de um tempo mais atrás e procurei imaginar o momento em que, pela primeira vez, uma festa recebeu a construção do moinho. Esse momento, do qual não sei se há registo, do qual não sei se há lembrança, passada de memória em memória, até hoje.
Aqui, onde se junta mais de centena e meia de gente, apetrechados das nossas máquinas de memória e registo, com que fazemos filmes e fotografias, aqui, neste tempo, podendo estar a ser sobrevoados [**], no limite da atmosfera, por um olhar curioso e assustador também, que nos perscruta, aqui, na sobreposição de todos estes dispositivos de caça da memória que irão restituir, para sempre, o agora, apesar deles, e apesar de tudo, sentimos, talvez, uma intensidade parecida, semelhante, à da alegria de quem aqui, neste lugar, há mais de cem anos (que é uma maneira de dizer muito tempo…), experimentou a alegria de ver nascer o moinho! De ver rodar pela primeira vez as grandes varas, umas com as outras para sempre acompanhadas na sua económica geometria.
A nossa felicidade hoje é pela cura do passado que queremos guardar. Porque mesmo que muito indirecto, também é nosso – vosso, também somos nós.
A felicidade de então terá sido a da confiança e da força para um futuro, significado todo no ar e na terra que haveriam – do vento e do trigo – de dar vida às suas vidas, sustento com água e fogo misturado.
O pão dos seus dias, o pão também dos nossos.
João
Segunda-feira, 9 de Outubro de 2006
[* Ler o post acima]
[** Hehehe, ler outra vez o post acima]
"E não enjoas?"
Foto: João Espinhosegunda-feira, 9 de outubro de 2006
Chegou!
Discurso
“Pelas contas que temos feito, este moinho está de pé desde os anos 70 do século XIX. Terá uns 130 anos, mais coisa menos coisa. O último moleiro que aqui trabalhou veio para cá com 12 anos de idade. Casou, aqui habitou com a mulher e teve cinco filhos (dois rapazes primeiro, uma rapariga e dois rapazes à última). Aqui trabalhou até que pôde, num dos moinhos com mais freguesia da zona: o moinho teve luz eléctrica na década de 50 do século XX, a partir de uma bateria carregada com a energia do vento; em 1956 foi instalado um motor Diesel, que passou a alimentar a electricidade e a suprir as horas de menos vento, para que se conseguisse responder à procura de farinha.
Os anos 60 e a industrialização gradual da moenda ditaram o decair do uso dos moinhos de vento – pouco a pouco, neste moinho foi-se moendo menos, e essa diminuição foi coincidente com o avançar da idade do moleiro. Por volta de 1976 o moinho moeu pela última vez. Também dessa altura data a casa da amassaria, com a máquina de peneirar e a de amassar. Ainda se vendeu aqui pão durante algum tempo, mas já não se manteve o negócio. A partir dos anos 80, o moinho foi principalmente lugar de reunião da família, pelas festas ou outras ocasiões. O moleiro e a mulher continuaram a viver aqui até que puderam. No início dos anos 90 saíram. O monte ficou vazio – a família tentou que sempre aqui se regressasse, semanal, mensalmente, as vezes suficientes para que o esvaziamento da casa não representasse o abandono nem a ruína do moinho.
Em 1999, ainda em vida do moleiro, um dos seus filhos decidiu comprar aos irmãos as partes que lhes caberiam. Fizeram-se os actos – no princípio de Dezembro desse ano, sem chegar a ver a passagem do milénio, o moleiro morreu. Acredito que tenha morrido descansado, a pensar que o moinho teria ficado em mãos que o não esqueceriam. Essas mãos estão aqui hoje.
Esta é, em traços muito largos e factuais, a história do moinho. Mas não é toda a história. Nem a da comunidade maior, a história industrial de um país europeu durante a maior parte o século XX, de que este complexo de três moinhos [os outros dois, de proprietários que desconheço, estão em ruína] faz parte; nem é a história dos indivíduos que aqui passaram, por aqui terem vivido, por terem aqui vindo fornecer as suas despensas de farinha e depois de pão; por aqui terem vindo de visita, por acaso atraídos pela alvenaria caiada vista de longe; por aqui terem convivido nas datas mais alegres ou em reuniões menos festivas; por terem, às vezes, apenas ouvido falar do moinho. Cada uma destas pessoas tem uma memória mais ou menos longínqua, mais ou menos mágica, mais ou menos presente.
Aconteceu-me vir dar a esta família, a esta gente, a este moinho. Os pais que me tiveram e me criaram casaram-se neste monte. Tive a sorte (grande como este moinho é grande) de lhes nascer ainda em tempo de ver o moinho em movimento. Guardo memórias soltas, mais ou menos longínquas, mais ou menos mágicas, mais ou menos presentes.
Das pedras das mós
Dos pedregulhos arredondados com ninhos de vespas que nos faziam dar corridas e chorar das picadas
Das pedras na rua calçada
Das pedrinhas, do cascalho
Do som dos pés, dos sapatos, ao chegarmos, sairmos do carro e passarmos para a casa
Do som do vento, do som da chuva
Do som da chuva com vento
Do som do frio
Do som do calor
Da seara alta a empatar o som dos automóveis na estrada
Do som dos grilos, no Verão
Do som dos madeiros e das latas por baixo das corridas dos passos dos gatos, que eram muitos
Do som das galinhas e dos gansos
Do som das folhas secas, caídas, por baixo das patas lentas das galinhas
Do som da água a escorrer para baixo do tanque onde a avó lavava
Do som do motor
Do som das velas a girar, que é um som brutal, rápido, como o coração me ficava
Do som matraqueado das máquinas e do motor dentro do moinho
Do som do esvoaçar levantado dos pombos
Do cheiro do arroz de pombo
Do cheiro ao bolo de mel
Do cheiro das ervas fervidas, para o chá ou para a água do banho
Do som do candeeiro a gás, pequeno e fraco, na cozinha.
Do branco do cabelo da avó
Do branco do boné branco do avô
Do branco da farinha branca nas mãos do avô, da massa branca do pão amassado pela avó, feito em forma de merendeiros, que ela dava primeiro aos netos
Do branco das flores dos jarros em frente à casa
Do branco de toque tão suave das flores dos jarros
Do toque do tronco áspero das ameixeiras, quando as subia
Do toque pouco rugoso da figueira grande
Do som da esquilinha ao pescoço do Reboliço
Quando digo moinho, digo isto tudo
Digo o som da lenha a arder, na casa, no lume
Digo o som dos talheres de metal leve nos pratos envelhecidos
Digo o cheiro dos coentros pisados para a açorda
Digo o gosto do alho nos coentros e no bacalhau da açorda
O gosto do arroz de pombo
O gosto das ameixas maduras, grandes, carnudas, comidas à pressa, com o sumo a escorrer-me pelo queixo e pelos braços
Digo o toque das folhas das couves, das canas do carunchoso, quando apanhamos caracóis
Digo o toque da cal nas paredes
Digo o som do chão por baixo dos pés.
Estas são algumas só das minhas memórias, que não terminam aqui nem hoje e se prolongam por gente que está aqui, por gente que está noutros lugares do mundo, por gente que não está já no mundo palpável mas resiste nas memórias de mim e de outros que aqui estão – se começar a desenredar este emaranhado de memórias, de nomes, de gente, ficaremos aqui a lembrar e arriscamos não viver. Se não vivêssemos, porém, ficaríamos sem memórias – e essa possibilidade não me agrada.
O moinho está aqui. Está aqui em pedra, cimento, madeira, ferro e cal; está nas fotografias e numa cópia dolorosamente fraca de um filme dos finais da década de 50; está por aqui, perto e longe. Visitem-no, olhem nele as memórias mais amplas, de bocados de um povo, e as mais formiguinhas. E encham-no de memórias vossas. É também para isso que ele é Grande.”




