segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

"My name is Year - New Year."

Benvindos ao ano 007!
(da prima ;) )

domingo, 31 de dezembro de 2006

Dia de Ano Velho

A manhã está mais fresca que o dia de ontem – fez geada orvalhada. Dentro de casa, a massa que ficou a azedar levedou para mais do dobro. Mais logo, há-de ser tendida e cozida. O lume já está aceso. Pendurados sobre a lareira, os enchidos brilham, gordos, do calor das chamas e da luz do sol que entra pela janela da cozinha. Cura-se-lhes a pele, as carnes, o sangue.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Dia de labor

(Foto: Otília Guerreiro, a filha do Mestre Caetano)

Ao final da manhã, assim que da estrada avistei o moinho, vi que giravam as velas. Devagarinho, que o vento de sueste não é muito certo, mas foi o suficiente para que moesse a manhã quase toda. Quando se fará uma amassadura?

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Passagem de Ano

- Vais p'ra onde?... - pergunta a Tiaga ao Reboliço, vagamente incomodada.
- P'ró moinho, estou farto de te dizer. - responde-lhe ele, entediado com a insistência da bicha.
- Já estou mesmo a ver que me deixas sozinha outra vez. És terrível.
- Se fosses mais sociável, irias comigo. Disse-te que viesses.
- Sim, sim. Não queriam lá ver: eu, uma gata de cidade, fina como só eu, a roçar o meu pêlo sedoso por aquelas teias de aranhas, ervas daninhas, formiguedo... Ui!, só de pensar!...
- Não te queixes, portanto. Seja como for, serás muito bem tratada. E depois disso terás umas boas férias.
- Mal vejo a hora... Olha, adeus. Até ao teu regresso.
- Dorme, Tiaga, dorme... Ai, que gata!

Tanto, imenso (2)

I was born to make you happy.
I think you're just my style.
Everywhere I go,
Tellin' everyone I know,
Baby, I love to see you smile.

Don't wanna take a trip to China.
Don't wanna sail up the Nile.
Wouldn't wan' get too far,
From where you are,
'Cause I love to see you smile.

Like a sink without a faucet.
Like a watch without a dial.
What would I do if I didn't have you.
I love to see you smile.

In the summer, in the springtime,
The winter, or the fall,
The only place I wanna be
Is where I can see you smile at me.

In a world that's full of trouble,
Y'make it all worth while.
What would I do if I didn't have you.
I just love to see you smile.
I love to see you smile.

(Randy Newman cantado por Homer e Marge Simpson. d e l i c i o s o)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Tanto, imenso

Pode um desejo imenso
arder no peito tanto
que à branda e a viva alma o fogo intenso
lhe gaste as nódoas do terreno manto,
e purifique em tanta alteza o esprito
com olhos imortais
que faz que leia mais do que vê escrito.

Que a flama que se acende
alto tanto alumia
que, se o nobre desejo ao bem se estende
que nunca viu, a sente claro dia;
e lá vê do que busca o natural,
a graça, a viva cor,
noutra espécie milhor que a corporal.

Pois vós, ó claro exemplo
de viva fermosura,
que de tão longe cá noto e contemplo
n'alma, que este desejo sobe e apura:
não creais que não vejo aquela imagem
que as gentes nunca vêem,
se de humanos não têm muita ventagem.

Que, se os olhos ausentes
não vêem a compassada
proporção, que das cores excelentes
de pureza e vergonha é variada;
da qual a Poesia, que cantou
até aqui só pinturas,
com mortais fermosuras igualou;

se não vêem os cabelos
que o vulgo chama de ouro,
e se não vêem os claros olhos belos,
de quem cantam que são do Sol tesouro,
e se não vêem do rosto as excelências,
a quem dirão que deve
rosa, cristal e neve as aparências;

vêem logo a graça pura,
a luz alta e severa,
que é raio da divina fermosura
que n'alma imprime e fora reverbera,
assi como cristal do Sol ferido,
que por fora derrama
a recebida flama, esclarecido.

E vêem a gravidade
com a viva alegria,
que misturada tem, de qualidade
que üa da outra nunca se desvia;
nem deixa üa de ser arreceada
por leda e por suave,
nem outra, por ser grave, muito amada.

E vêem do honesto siso
os altos resplandores,
temperados co doce e ledo riso,
a cujo abrir abrem no campo as flores;
as palavras discretas e suaves,
das quais o movimento
fará deter o vento e as altas aves;

dos olhos o virar,
que torna tudo raso,
do qual não sabe o engenho divisar
e foi por artifício, ou feito acaso;
da presença os meneios e a postura,
o andar e o mover-se,
donde pode aprender-se fermosura.

Aquele não sei que,
que aspira não sei como,
que, invisível saindo, a vista o vê,
mas para o compreender não acha tomo;
o qual toda a Toscana poesia,
que mais Febo restaura,
em Beatriz nem em Laura nunca via;

em vos a nossa idade,
Senhora, o pode ver,
se engenho e ciência e habilidade
igual a fermosura vossa der,
como eu vi no meu longo apartamento,
qual em ausência a vejo.
Tais asas dá o desejo ao pensamento!

Pois se o desejo afina
üa alma acesa tanto
que por vós use as partes da divina,
por vós levantarei não visto canto
que o Bétis me ouça, e o Tibre me levante;
que o nosso claro Tejo
envolto um pouco vejo e dissonante.

O campo não o esmaltam
flores, mas só abrolhos
o fazem feio; e cuido que lhe faltam
ouvidos para mim, para vós olhos.
Mas faça o que quiser o vil costume;
que o sol, que em vós está,
na escuridão dará mais claro lume.

(-)

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Natalinho

Esta calçadinha vai dar a Belém,
Vai fazer as pazes com quem anda mal.
Com quem anda mal, anda agora bem,
Esta calçadinha vai dar a Belém.

O Menino chora, chora.
Chora pelo sapatinho.
Haja quem lhe dê as solas,
Eu lhe darei o saltinho.

Esta calçadinha vai dar a Belém,
Vai fazer as pazes com quem anda mal.
Com quem anda mal, anda agora bem,

Esta calçadinha vai dar a Belém.

domingo, 24 de dezembro de 2006

Antes da Consoada

(Enquanto os homens cortam lenha, lá fora perto do forno, cuido de dois lumes dentro da casa.)

    Há grandes mexidas no moinho. O pai arma as velas, para secarem com o vento de hoje a chuva de há umas semanas. É trabalho que tem de ser feito, ou a madeira das varas apodrecerá. De manhã, veio o vizinho trazer um pato. “Não o deixe abalar,” avisou. Nem duas horas depois, já o bicho voara. “Pode ser que a patrulha o almoce,” diz o Mano, a apontar a Brigada de turno na rotunda. À tarde, torna o vizinho: “Tome-o lá, foi dar ao meu monte outra vez.” Tem o destino marcado e, por mais que faça, há-de ir ao tacho.
    O Reboliço faz pender as orelhas, sai, discreto, da casa e vai deitar-se ao olhinho de sol. Enquanto o frio não lhe entra bem nos ossos, fecha os olhos e aspira o ar. Daqui a nada, antes do sol-postinho, esperará que alguém se descuide e deixe a porta aberta. Então, reentrará na casa e ficará aninhado, à beira do lume, a observar o movimento.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Chegar

Não há cão nenhum para nos receber. Os gatos já não vivem aqui. De vez em quando, um coelho ou outro refugia-se no monte da lenha. As ovelhas do vizinho passam, a balir e de esquilas a trinar, pela manhã cedo e ao fim do dia. Mas basta o moinho. Basta a torre, branca e alta, uma vela só, armada, e é em casa que estamos. Agora cheira a lume, arde o madeiro, fazem-se apostas de quanto demorará até ser todo cinza. Falamos alto uns com os outros, ajustamo-nos aos lugares que cada um quer mais para si. O espaço é muito maior do que o que vemos. Quando damos por isso, o silêncio instalou-se, mais o jantar na mesa e o calor pela casa toda.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Não era sem tempo!

(Foto: Vasco Célio)
 
O terceiro elemento, ou a terceira alminha canina do Poço Novo; ou Mr. Petaner no seu esplendor (com as sombras das patas do Sorna e da maLuca). Nos olhinhos dele (aqui não se vê, que essas coisas não aparecem nas fotografias) lê-se "Olhem, minha gente, passem umas consoadas felizes, bebam-lhe bem e comam do melhorio, que é o que eu tentarei fazer. Não se esqueçam de dar muita sorrisama e beijocaria, tudo grátis e sem precisarem de estar em filas de gente." Isto tudo em cãotalão, claro, que é a única língua que ele domina.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Lições de História

    O Reboliço recebeu três lições de História nos três últimos dias.
    Sábado, por obra clara de uma Super8 vertida para digital, em imagens da Loulé dos anos 60, 70 e 80. O corso do Carnaval, as casas da Avenida, que já deixaram de existir; um chafariz para cá das muralhas do castelo, algumas das pessoas que conhece hoje e ali estavam irreconhecíveis. E um tipo chamado "Abstracto".
    Domingo, por obra e Graça dela. Dez anos de CCF, mais dez ainda para trás, mais memórias. De dias que testemunhou, de datas de que só ouviu relatos, de gente que conheceu e já não recordava. De sorrisos, beijos, caras cómicas. Grande lembrança.
    Segunda, por obra de alguém meritório e de uma fuga ao hábito que a RTP tem de não passar documentários que subvenciona. O de ontem à noite foi tremendo de bom: realizado por Pedro Madeira em 2002, Vitória ou Morte: A Queda da Índia Portuguesa. Para quem sabia muito pouco sobre o que se passou na História portuguesa dos anos 50 e 60, o Reboliço teve bónus!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Calha bem

Abro a caixa do correio e vejo lá dentro um pacote. Abro o pacote e descubro um calendário de 2007 com vistas da América. É para me ir habituando.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

"Stand-up Literatura"


4ª feira dia 20 de Dezembro de 2006, 23 h, Café Bar Batussy
(estrada da Penha, Faro, entre a UAlg e o cruzamento do Horta)
RECITA-TE
Espectáculo do Sulscrito
Recital dinâmico e interactivo
Stand-up Literatura
O que mais lhe quiserem chamar

Apareçam, venham divertir-se, ser incomodados e participar
Haverá espaço para quem quiser ler os seus textos. Não faltem.

Ajudem a divulgar este evento: sulscrito@yahoo.com

Prendinhas (1)

(Esta ofereci-a o ano passado. With love.)

    Era de noite. O homem estava sentado à bancada da cozinha. Levou aos lábios a espuma fria e girou o corpo mal um bocadinho, só o suficiente para ver atrás de si o grande lago, através da janela da sala. Percebia a água nos reflexos escassos, uns dedos acima do pontão de madeira, uns dedos abaixo da linha onde começavam os troncos das árvores. As mesas lá de fora tinham ainda garrafas, copos e pratos por limpar. No caminho do pontão, gravilha já escasseada entre dois traços de troncos estreitos, alguns chinelos desemparelhados e uma bola eram as ruínas visíveis dos dias anteriores. O homem olhava para essas marcas e não se sentia triste. Respirava fundo, escutava o ar a descer pelo tronco abaixo e a regressar, a ser expulso de si. Podia ouvir-se a respirar. Deixou-se ficar ali, infectado pela quase imobilidade do lago e das folhas das árvores, a ouvir em si o ar e a cerveja. Não fechou os olhos.
    Havia dois dias que tinham abalado os filhos e a mulher. Ele ficara, com mais umas semanas de trabalho à sua frente. Ainda assim, não podia queixar-se: a empresa concordara em alojá-lo numa confortável cabana à beira do lago, onde ficasse calmamente e pudesse receber a família durante os dias de férias deles. Agora, passadas as horas ruidosas e alegres, estava outra vez sozinho. Amargurava-o só um pouco a contradição em que vivia – em que sempre, de alguma maneira, vivera: o seu trabalho exigia-lhe o silêncio e o recolhimento em que destilava o olhar engenhoso sobre o seu e o pensamento dos outros; porém, sem o convívio e o riso do amor que aquela família lhe garantia, não podia ter a paz de espírito que o guiava ao silêncio.
    Era em momentos como aquele, o corpo grande sentado imóvel e sozinho numa sala vazia em frente a um lago, sem ruídos externos, sem ninguém nem nada a interromper o fio longo e fino que vislumbrava, vezes raras, entre o seu pensamento e as coisas; quando, de caneca na mão, pousava os olhos no lago e imaginava ver ainda os salpicos de água dos filhos a mergulhar, e ouvir-lhes os risos; era então que ia tomando corpo na sua alma, como a camada de neve que sobe à medida silenciosa que pousam os flocos, a ideia de que não era mais do que aquilo: um homem irremediável e agradecidamente só.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

"Troubled Waters" (música, ainda)

Quando pressente (ouve, vê, palpa, cheira) muito rebuliço à volta de qualquer coisa, mormente se é sobre cantiga ou livro, o Reboliço afasta-se. Gosta de deixar assentar a poeira. Mania de cão pequenino, medricas de ser atropelado pela turba. Em se afastando a gente, então sim: aproxima-se do fenómeno. Franze muito o focinho, a cheirar, a cheirar, mas ainda de olhos abertos e atentos, a tentar perceber o que levantou o ruído. Às vezes, porém, está ele ainda encolhidinho no seu canto, com este frio enroscado, de focinho escondido entre as pernas, a aguardar o desanuviamento, vem o fenómeno até si. Faz mover o ar à sua volta, perto o suficiente para o fazer erguer uma orelha, uma só. Se é fenómeno a sério, como a voz de alguém felino, há logo segunda orelha erguida, focinho desembainhado e espreguiçadela rápida. Corre, Reboliço. Vai lá ouvir o resto.
(Obrigada, António.)

"Sam-wellegant"

(Ui, estes títulos estão cada vez melhores, sim sim.)
Hoje estou de hip-hop tuga. É culpa, principalmente, da Antena3 e do péssimo hábito de ouvir música escolhida por um tipo chamado Henrique Amaro. O disco do Sam the Kid é MUITO BOM.
(Anabela, o pianinho samplado na faixa 5 é feito para ti.)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Swellegant

Chegou-me hoje à caixa do correio. Não o ouvia desde 92, ou coisa assim. Continuo a gostar muito de quase todas as faixas, mas os duetos/duelos ficam bem lá em cima. Kirsty McColl com os Pogues no medley "Miss Otis Regrets.../Just One of Those Things". Ou Iggy Pop a cantar com Debbie Harry - espreitem o video divertidíssimo de "Well Did You Evah", ao fundo da página que abre no penúltimo link. Na letra não aparece o lindo "Piss off!" da DH no finzinho da cantiga. Cole Porter adora esta gente.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Neurónios, cérebros e patinhas

    Volta não volta, dou por mim a encantar-me com escritos sobre fenómenos humanos daqueles sobre os quais se diz que se sabe muito pouco. Coisas de hemisférios cerebrais, comandos neuronais dos movimentos mecânicos do corpo, electricidades, magnetismos e fenómenos pataestapafúrdifísicos. É um encanto de ignorante, assumidíssimo. Mas tem-me levado por muito boa literatura - António Damásio e Oliver Sacks, por exemplo. Hoje lembrei-me disto a propósito de um daqueles testes que circulam pelo correio electrónico. Além de o teste ser engraçado, delirei com a maneira como se apresenta.
    Título: "Será que o seu pé direito é inteligente?" (Vem-me logo à ideia um livrinho que tinha em pequena, livro pequenino também, chamado O Sapato do Coração, do Pedro Alvim, com uns desenhos grandes e coloridos. Ou o filme do Jim Sheridan.) Continua a mensagem, a prometer que "o que se segue é tão engraçado que desafia qualquer compreensão lógica." Nem por isso, penso, já que a lógica é que os movimentos do corpo são, sim senhor, dominados por mensagens cerebrais muitíssimo bem engendradas e que não se desafiam por dá cá aquela palha. O desafio, propriamente dito: "Aposto que irá tentar pelo menos cinquenta vezes para ver se consegue contrariar o seu pé. Mas sem sucesso!!! Experimente…" Pois bem... Esquecemo-nos muitas vezes que quem tenta contrariar é a mesma entidade a que pertence o pé que se quer contrariar, ou seja, contrariar o dito equivaleria a contrariar a vontade de contrariar. Ughhhh, que confusão! As ordens são claras: "1. Sentado numa cadeira, levante o seu pé direito do chão. Uma vez o pé no ar, faça círculos com o mesmo, no sentido dos ponteiros do relógio; 2. Ao mesmo tempo, desenhe com a sua mão direita o número 6 no ar [acrescento meu: o 6 tem de ser feito de cima para baixo, i.e., com a mão a movimentar-se no sentido contrário ao dos ponteiros... get it?]."
    A Tiaga e o Reboliço passam a vida a tentar mostrar-me que existem vontades a que a nossa arrogância de racionalidade tem de ser alheia. Nunca mo disseram por e-mail, mas devem ter porta-vozes algures. Só pode ter sido um deles a enviar-me a mensagem!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Ora então, bonecos!

(Foto do Tintim: Jorge Baptista)

O Reboliço boceja, enquanto espera que a Mana lhe passe um retrato do Petaner [ouve-se "pátáné"]. Este agora é o Tintim, que sempre tem relva verdinha para se entreter. Parece-me que o Sorna também não tem muita fotografia no Moinho (Maaaannnnnaaaaaa!).

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Açordinha - actualização

    Esqueceu-me, desculpem... É das tais coisas que um gajo tem tão entranhadas que se esquece de as dizer aos outros: o panito para a açorda é quanto mais velho melhor. Antes de embolorecer, claro. Mas se tiver já uns verdetes, não é coisa que assuste um bom alentejano: corte-se-lhe os ditos (os verdetes, pessoal, os verdetes!) e o pão fica maravilha.
    O Reboliço lembra-se que, quando se vendia pão na mercearia do avô Martins, a tia guardava zelosamente o mais velho. "Nita!", ouvia-se a quem entrava, silhueta escuríssima contra a luz da rua de estio, noutras horas só visível através da nesga da porta mal fechada. "Ainda tem algum panito d'ontem?" "Olhe, já nã tenho." Aquilo confundia o Reboliço, que sabia perfeitamente do pão, pousado na pedra por cima da salgadeira e coberto com um pano branco. "Tia," reparava-lhe depois, quando saía a freguesa, "Mas tem ali pão..." "É p'rá açorda, mai'logo."

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Açordinha

Um amigo perguntou-me como se fazia a açorda que já lhe dei a comer. Respondi-lhe assim:
    "Costumo fazer a açorda como me ensinou a minha mãe (da zona de Cabeça Gorda-Beja). Tem algumas variantes, que assinalarei ao longo da receita.
    Para a açorda básica, tens de ter em casa pão alentejano (ou, em último caso, o que de mais parecido arranjares aí perto, talvez pão de Martinlongo ou de Mafra; tudo menos papo-secos ou baguettes), azeite muito bom, coentros frescos, alhos rijos, sal grosso e água.
    A partir daí, o limite é a necessidade, a fome e o que houver à tua disposição. Por exemplo, há variações muito legítimas e frequentes nas ervas que temperam a açorda: além dos coentros, podes juntar poejo e/ou pimento verde. Nota que todos estes "verdes" têm sabores muito fortes, o que significa que terás de estar consciente de quais os que queres acentuar ou a medida da combinação de todos.
    A açorda mais "pobre" é feita só com ovos escalfados na água que servirá para molhar as sopas (sopas = o pão rudemente cortado em fatias, irregulares; normalmente, o pão é cortado encostado ao peito e com a faca de fora em direcção ao peito de quem o segura. Cuidado para não haver acidentes com facas demasiado afiadas. E os ovos bem fresquinhos, hem?). Açordas mais ricas acompanham bacalhau cozido, só ou além dos ovos. Outro peixe cozido ou até frito (beugh!) já são extrapolações pós-modernas (ou, imagino eu, do Alto Alentejo, já que o que te estou a dar é a receita do Baixo Alentejo não urbano). Garantida a presença e a frescura de todos os ingredientes, o procedimento é o seguinte:

1. Migas o pão (i.e., fatias o dito da maneira que expliquei acima) e reserva-lo, num dos pratos (de preferência o teu) onde será servida a açorda. A quantidade do pão dependerá do número de pessoas. Normalmente, duas pessoas aviam meio pão de quilo.

2. Numa tigela larga e de fundo raso (não côncavo, senão não dá jeito nenhum para pisar; a tigela deve ser grande, independentemente de serem poucos os comensais, pois o caldo tem de estar à vontade) pisas com um pisador de almofariz (de madeira, aqui quanto menos metal entrar, melhor) os alhos, em número ímpar de dentes, conforme a intensidade que quiseres dar ao prato, previamente cortados em bocados mais ou menos do tamanho de amendoins; o sal (uma mão cheiinha, mas é melhor começares por pôr pouco e retemperar no final, já com a água fervida, pois se salgares demasiado a açorda, fica intragável; o sal, nesta fase, é quase só para fazer atrito e tornar mais fácil o pisar dos ingredientes) e as ervas - coentros e poejo e/ou pimento verde (eu acho que o pimento verde fica melhor no Verão). Tudo muito bem pisadinho até que fique numa pasta indistinta, sobre a qual verterás cerca de uma chávena de café (pequena) de azeite, também a gosto (há quem prefira a açorda menos "azeitada", outros gostam de saborear o azeite sobre os restantes sabores). Tradicionalmente, prova-se a açorda de sal, passando uma das fatias de pão na mistura (já com o azeite) e metendo-a à boca. Eu abuso deste momento, adoro o sabor assim cru daquilo tudo em cima do pão. Tens de ter atenção aos comensais abusadores, como eu, pois, quando menos esperas, podes ter ficado quase sem pão para a açorda, hehehe.

3. Entretanto (i.e., enquanto pisavas os ingredientes do ponto 2.), já terás posto ao lume um tacho com água. Assim que ferva, deitas nela ou os ovos ou o bacalhau (há quem goste das duas coisas juntas, pode ser). Muita atenção: o bacalhau tem de estar bem des-salado, pois o sal da açorda é colocado na tigela - se houver mais sal noutro ingrediente, lá está, arriscas-te a ter uma açorda que ninguém é capaz de comer. O tempo de cozedura, caso optes por fazer açorda com ovos e bacalhau, é mais longo para o bacalhau do que para os ovos, por isso, neste caso, deita primeiro o dito e só depois os ditos. Eu costumo gostar dos ovos mal cozidos, apenas com a clara bem branca e a gema quase líquida, mas com esta história da gripe das aves, é mais sensato escalfá-los mais tempo. Outra coisa: em vez de dispores os ovos na água directamente assim que lhes partes a casca, é aconselhável que os deites primeiro para uma tacinha pequena e só daí, depois de verificares que estão sãos, para o tacho; assim, se algum estiver estragado, não te destruirá o que já esteve ao lume (nem que seja apenas a água).

4. Quando estiverem ovos e/ou bacalhau cozidos, é importante assegurares-te de que tudo está a postos na mesa, nomeadamente a tigela com a pasta verde e dourada, uma travessa para os ovos e/ou o bacalhau (ou sem travessa, os ditos podem ir directamente para os pratos) e os comensais sentadinhos. O tacho vai à mesa, mas não o pousas sobre ela: só estará o tempo de deitares a água a ferver para dentro da tigela. Mal a água lá esteja, acrescentas o pão migado. Pormenor importante: não deves "empanturrar" o caldo. Se o pão for demasiado, deixa-o a esperar numa mesa de apoio, noutro prato, e podes ir juntando mais sopas à água à medida que se queira. Há quem goste das sopas "serôidas" (corruptela de serôdias, ou seja, tardias; diz-se das que se acabam de deitar na água, normalmente depois de ter sido servida a primeira rodada; são as que ficam mais rijas, porque ficam menos tempo na água) e há quem, como eu, as prefira bem encharcadinhas na caldibana."

    O Reboliço adorava deitar-se à beira do lume e sorver o cheirinho dos coentros pisados nos alhos e no sal. Quando a avó vertia sobre a mistura o azeite, levantava-se e ia dar uma volta. Não suportava vê-los comer aquela delícia e nunca lhes quis dizer que os ossinhos que, enraivecido, roía, não eram nada quando comparados com o sabor que imaginava ter a açorda. Quentinha, a deitar fumo na tigela.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

EXTRA! EXTRA!

Lavra recentíssima:
"Da aliança do espírito obnubilado de JCF [José Carlos Fernandes] (um lunático que não possui televisão por acreditar que os demónios cabriolam nas ondas hertzianas) e dos pincéis de pelo de hiena de Luís Henriques (um artista gráfico que prepara as suas próprias tintas à base de fuligem e Canada-Dry) só poderia sair um livro sombrio. Tratado de umbrografia (2006, Devir), assim se intitula o fólio que já há alguns dias pode ser encontrado a assombrar algumas livrarias respeitáveis da Nação e de onde será escorraçado em breve, para dar mais espaço a títulos como A fórmula de Deus e Sexys, Giras, Porreiras e Solteiras. Após este breve período de exposição pública, Tratado de Umbrografia apenas poderá ser encontrado, por preços exorbitantes, em alfarrabistas esconsos, bafientos e mal iluminados, pelo que recomendamos que os interessados acorram às livrarias enquanto é tempo. Aviso aos consumidores: este livro não produz sentimentos de paz, reconciliação, equilíbrio interior ou harmonia com o universo, nem proporciona alívio em situações de stress e depressão."
(Agora é que reparo que isto andava a ficar com falta de bonecos.)

Enquanto dorme e não dorme a mão esquerda...

Vou trauteando a Rita Lee. Caso sério, caso sério...
Tenho a mão esquerda dormente. Dizem que é do coração. Desconfio...

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

O banho

O Reboliço pôs a água a correr. Como é hábito - irritante e persistente - dela, a Tiaga saltou logo para o rebordo da banheira. Desta vez, pensou o Reboliço, não te livras! Sem que a bicha desse por ele, fechou a porta da casa de banho. Depois de ela ter feito dois ou três passeios pelo rebordo, encantada nas gotas que escorregavam pela cortina transparente, agarrou-a pelo lombo e deu-lhe uma chuveirada. A pobre esperneou um bocadinho, nem miar miou, esperneou mais e decidira-se a arranhá-lo quando ele voltou a pousá-la no chão. Desorientada, só conseguiu pôr-se a dar voltas à sanita e ao bidé, em oitos tontos oitos. "Sacode-te!", dizia-lhe ele. Nada - a bicha estava como alucinada ainda. As manchas cinzentas e castanhas por cima do branco escorriam, entristecidas e agarradas à pele. "Sacode o pêlo," insistia ele. Nada feito. Gata que é gata não se comporta como um cão. É assim, ou não é?

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Frost, como a geada

"Fire and Ice"

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.
(1923)

Longo, looooongo fim-de-semana

Começou na praia, sexta de manhã. Havia três tipos no mar, a fazer kite-surf. O bar da praia estava aberto (pasme-se, é no Algarve e abre o ano todo!), além do Reboliço e dos manos, só mais umas quatro pessoas a caminhar. E muitos pardais. Sol sem nuvens, a água nem fria estava. Ali ficaram, intrigados sobre como as patinhas frágeis dos pássaros aguentavam os saltos-passos à procura das migalhas. Se a Tiaga ali estivesse, pensava o Reboliço, não teria havido sossego.
Sábado foi dia de teatro. Uma plateia aconchegadita no Cine-Teatro Louletano, para (re)ver as Notas Para Esquecer. Resulta, sim, Joãozinho das Dúzias ;) resulta muito bem num palco grande.
Domingo foi noite de conversa, bolachinhas de gengibre, chocolate e chá teimoso. O que o Reboliço se pela por um serão destes!
(Além de tudo o mais, o oo7 novo é muito bom de ver.)

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Para a Mana e para o Mano

Deixem a lua crescer mais um quartinho.
Que a cabeça e o colo encontrem outros dois rostos na mesma cama - um, atento, desperto, inquieto; o outro, apaziguado e a sonhar os acordados. Um à altura dos olhos de dizer palavras, enquanto o outro as cose umas às outras, no silêncio.

Que passem, como este dia feliz, maismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil...

Moinhos na poesia (8)

Fui dar a este poema que, pelos vistos, é a letra de uma canção cantada por Fabrizio de Andrè. Não entendo o que é "um filho infiel", mas é lindo que mãe e moinho nasçam a rir.

Volta la Carta

C’è una donna che semina il grano
volta la carta e si vede il villano
il villano che zappa la terra
volta la carta viene la guerra
per la guerra non c’è più soldati
a piedi scalzi son tutti scappati.
Angiolina cammina cammina sulle sue scarpette blu
carabiniere l’ha innamorata volta la carta e lui non c’è più
carabiniere l’ha innamorata volta la carta e lui non c’è più.
C’è un bambino che sale un cancello
ruba ciliege e piume d’uccello
tira sassate non ha dolori
volta la carta c’è il fante di cuori
il fante di cuori che è un fuoco di paglia
volta la carta e il gallo ti sveglia.
Angiolina alle sei di mattina s’intreccia i capelli con foglie d’ortica
ha una collana di ossi di pesca la gira tre volte intorno alle dita
ha una collana di ossi di pesca la conta tre volte in mezzo alle dita.
Mia madre ha un mulino e un figlio infedele
gli inzucchera il naso di torta di mele
mia madre e il mulino son nati ridendo
volta la carta c’è un pilota biondo
pilota biondo camice di seta
cappello di Volpe sorriso d’atleta.
Angiolina seduta in cucina, che piange che mangia insalata di more
ragazzo straniero ha un disco d’orchestra che gira veloce che parla d’amore
ragazzo straniero ha un disco d’orchestra che gira che gira che parla d’amore.
Madamadorè ha perso sei figlie
tra i bar del porto e le sue meraviglie
Madamadorè sa puzza di gatto
volta la carta e paga il riscatto
paga il riscatto con le borse degli occhi
piene di foto di sogni interrotti.
Angiolina ritaglia giornali si veste da sposa canta vittoria
chiama i ricordi col loro nome volta la carta e finisce in gloria
chiama i ricordi col loro nome volta la carta e finisce in gloria.


angiolina

há uma mulher que semeia grão
vira-se a carta e vê-se o vilão
o vilão remexe a terra
vira-se a carta e vem a guerra
para a guerra não há soldados
todos fugiram, de pés descalços
angiolina caminha caminha nos seus sapatinhos azuis
apaixonou-se pelo polícia
vira-se a carta e ele já não está
há um miúdo que sobe o portão
rouba cerejas e penas de pássaro
atira pedras, a dor não existe
vira-se a carta e sai valete de copas
o valete de copas é fogo na palha
volta-se a carta, o galo acorda-te
angiolina às seis da manhã entrelaça os cabelos com folhas de urtiga
tem um colar de caroços de pêssego
passa-o três voltas em torno dos dedos
tem um colar de caroços de pêssego
conta três voltas em torno dos dedos
a minha mãe tem um moinho e um filho desleal
que lhe adoça o nariz de tarte de maçã
a minha mãe e o moinho nasceram a rir
vira-se a carta e há um piloto loiro
piloto loiro, camisa de seda, chapéu de raposa, sorriso de atleta
angiolina sentada na cozinha chora e come salada de amoras
o rapaz estrangeiro tem um disco de orquestra que gira rápido e fala de amor
o rapaz estrangeiro tem um disco de orquestra que gira gira e fala de amor
Madame Doré perdeu as seis filhas nos bares do porto e nas suas maravilhas
Madame Doré fede a gato
vira-se a carta e paga o resgate
paga o resgate com olhos inchados
cheios de fotografias de sonhos interrompidos
angiolina recorta jornais veste-se de noiva e canta vitória
trata as recordações pelo nome
vira-se a carta e termina em glória
trata as recordações pelo nome
vira-se a carta e termina em glória.

(A tradução é "livre", da autoria da s.a.r.a.l.e.a.o, através de quem conheci o poema.)

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

O arquivo e o incêndio

"Somos tentados a sugerir que, se não tivesse havido um incêndio que consumisse a Biblioteca, algum teria de ser inventado: Que outro destino, afinal, poderia aguardar um arquivo universal, senão o ser destruído?"
(Heller-Roazen não está a falar de Alexandria, mas das memórias das emoções.)

terça-feira, 28 de novembro de 2006

O do tigre

- Tiaga, chove a gente: gatinhas e canitos, já viste?
- Ainda tu estavas enroscado no teu sono e já eu estava à janela, a ver as gotas em carrinhos de choque pela janela abaixo. Sabes quem faria hoje anos, se estivesse vivo?
- Quem?
- O William Blake.
- Não me digas! O do tigre?
- Esse mesmo. 249.
- Hum... Já se está mesmo a ver o que para aí vem. Parabéns, então.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Histórias

Ainda bem que há filmes. O Luís Miguel Oliveira e o Paulo Varela Gomes (através do Ivan Nunes) andam num debate acerca da História e da história no cinema, que começou a propósito do Marie Antoinette. Tenho estado a segui-lo com atenção e aquilo já dá matéria para um bom colóquio sobre o tema. Eis o mais recente post; a partir dele conseguem reconstituir o fio. Da história.

Arte Postal

De amanhã a uma semana inaugura no Complexo Pedagógico do campus de Penha, Espaço das Artes Visuais, uma exposição de Arte Postal. Em Faro, na Universidade do Algarve. Foi amada e longamente preparada pela Mulher do Lado. É coisa para maravilhar o mais desatento dos carteiros.

O poder dos bonecos

A certa altura de uma mesa-redonda sobre traduções e adaptações da obra de Beckett em Portugal, falou o director artístico do Teatro de Marionetas do Porto, João Paulo Seara Cardoso. Leu numa série de folhas um texto claro e muito esclarecedor de como a figura da marioneta serve, por exemplo, a incorporealidade da personagem beckettiana; de como é difícil ou quase impossível obter para representações em palco - e mais difícil ainda quando se quer escapar às minuciosas indicações de cena do autor - os direitos das peças de Beckett; de como quase tudo se passou na criação de Nada ou o Silêncio de Beckett (2005). Já ia longa a leitura, sem nada de entediante, quando anunciou: "Falarei agora de outras coisas: de bicicletas." E terminou com a marioneta de Beckett sobre a mesa de conferências, a pedalar uma linda bicicleta e a mirar, para um lado e para o outro, a plateia. O manipulador desapareceu; os outros conferencistas sumiram; o moderador deixou de estar ali; a mesa transformou-se em estrada no meio de algum lugar; na sala toda só ficaram a bicicleta e o homem esguio, de pescoço alto a revirar a cabeça para um lado e para o outro.

domingo, 26 de novembro de 2006

Uma "bejeca" à saúde do poeta!

Se for Saison, ainda melhor. Cesariny reencontrou Rimbaud e ergueu um brinde à tolice que vai pelo mundo.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

A biblioteca de Juan Rulfo

Quando Victor Jiménez, o arquitecto que lhe desenharia uma casa, lhe elogiou a sua biblioteca de mais de dez mil volumes, Rulfo terá dito que não, não era tão rica como desejaria: "una buena biblioteca es una biblioteca de historia; yo sólo tengo literatura".

(Ontem à noite, na Biblioteca de Loulé, falou-se de Rulfo e de Páramo, o homem que "se fue desmoronando como si fuera un montón de piedras".)

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Pedro Páramo

- Sinto como se alguém caminhasse sobre nós.
- Vamos, deixa-te de medos. Já ninguém te pode assustar. Tenta pensar em coisas agradáveis porque vamos estar muito tempo enterrados.
(p.58)

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Nada de compras!

"Quem não tem o dito não tem vícios"; ou, "A Festa da Música acabou porque não há dinheiro" (notícia do Público hoje, sem link...); ou "Anuncio isto todos os anos e não há meio, pois é desta, que não há meio MESMO!"

- Ó Tiaga, então este ano não tenho prenda?
- Está descansado, desensofrido... Não será coisa comprada, isso não.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Filha ao pai

PROSPERO: ........... Alack, what trouble
Was I then to you!

MIRANDA: ............. O, a cherubin
Thou wast that did preserve me. Thou didst smile,
Infused with a fortitude from heaven,
When I have deck'd the sea with drops full salt,
Under my burthen groan'd; which rais'd in me
An undergoing stomach, to bear up
Against what should ensue.

Diz o pai - Céus, que empecilho terei sido para ti!
Responde a filha - Diz antes um anjo, que me preservaste. Sorriste, cheio de uma força celestial, quando eu de lágrimas salgadas enchia aquele mar e por minha desgraça rugia; e assim me deste estômago para aguentar tudo o que veio a suceder.

(The Tempest, I, ii, 151-158; a troca das personagens é da minha inteira vontade, da minha total responsabilidade.)

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Calasso (2)

(Escrevo (2) por causa disto, que já foi há algum tempo.)

"Contrariamente à ilusão moderna, as forças psíquicas são fragmentos dos deuses, não são os deuses fragmentos das forças psíquicas."

(p. 145. Calasso traduzido por Clara Rowland. Tenho algumas dúvidas sobre a tradução de certos modos verbais, nalguns momentos do texto; nesta frase, porém, tudo me parece claro.)

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Hoje

ganhei uma violeta. Violeta.

Manias

Cinco das minhas manias:
- Levantar-me de manhã sentando-me primeiro no bordo do colchão e só depois, devagarinho, pôr-me de pé (por causa das quebras de tensão, hehehe)
- Comer noodles sempre com pauzinhos (e exigi-lo dos outros comensais)
- Recusar-me a dar fim à minha colecção de calendários de bolso (só por mania, realmente...)
- Começar as aulas com "Ora bem" (detesto esta!)
- Guardar os bilhetes de espectáculos a que assista (cinema, teatro, seja o que for)

Cinco manias da Tiaga:
- Dar o primeiro miado do dia como um uivo de lamento profundo (= "Anda jááááá abrir-me a portaaaaaaa, quero ver se te distraíste e deixaste a varanda abertaaaaa!")
- Saltar para a banheira assim que ouve a água a escorrer ("Ui, que caio! Aqui dentro está tudo alagado, mas eu queria tanto agarrar aquelas bolhinhas que escorrem pela cortina transparente...")
- Pousar, qual águia (às vezes, lembra mais um abutre!), nos lugares mais altos da casa
- Saltar para o colo de quem se sente no sofá
- Saltar para fora do colo de quem se sente no sofá e tente fazer-lhe uma festinha

Cinco manias do Reboliço:
Olá! O Reboliço não tem manias...

;)

domingo, 12 de novembro de 2006

As cidades

Vi no CAPa, na sexta passada, acompanhado por uma performance com quatro músicos e duas guitarras preparadas e manipulação de imagens pelo próprio Edgar Pêra, o seu Tributo a Carlos Paredes. Nele, a certa altura o guitarrista diz, acerca das grandes cidades que teve oportunidade de conhecer (mais palavra, menos palavra, cito de cor): "Vi nelas aquilo de que gosto sempre: o amor pelas crianças, o trabalho e o amanhecer." (A ordem era esta, disso lembro-me bem.) Paredes não estava a escrever um poema, estava a dar uma entrevista. Dizia isto com a sua voz tão segura.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Red Lollipop

As an unperfect actor on the stage
Who with his fear is put besides his part,
Or some fierce thing replete with too much rage,
Whose strength's abundance weakens his own heart.
So I, for fear of trust, forget to say
The perfect ceremony of love's rite,
And in mine own love's strength seem to decay,
O'ercharged with burden of mine own love's might.
O, let my books be then the eloquence
And dumb presagers of my speaking breast,
Who plead for love and look for recompense
More than that tongue that more hath more express'd.
O, learn to read what silent love hath writ:
To hear with eyes belongs to love's fine wit.
(W.S.)

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Uahahhhhhhhhhh!

Grande espreguiçadela e bocejo ao mesmo tempo, patas da frente esticadas, esticadas, lombo distendido até um comprimento quase impossível, olhos cerradinhos pela força dos maxilares escancarados. A Tiaga passa o dia a fazer yoga. O Reboliço, que à vista dela parece uma prancha de metal rijo, consegue a maior agilidade no abanar da cauda. Esta manhã, assim que percebeu o sol antes da janela aberta, mais um pouco e desenroscava a dita, de tanta alegria. Que amanhecer...

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Produzir presença

Um - "if we approach a poet without this prejudice [to dwell with satisfaction upon the poet's difference from his predecessors] we shall often find that not only the best, but the most individual parts of his work may be those in which the dead poets, his ancestors, assert their immortality most vigorously."

(Se abordarmos um poeta sem esta ideia-feita de nos aprazer a sua diferença em relação aos poetas que o antecederam, poderemos descobrir que não só as melhores mas também as mais características partes da sua obra podem ser aquelas em que os poetas mortos, os seus antecessores, mais energicamente afirmam a sua imortalidade.)

Dois - "if the only form of tradition, of handing down, consisted in following the ways of the immediate generation before us in a blind or timid adherence to its successes, 'tradition' should positively be discouraged."

(Se a única forma da tradição, de passagem do testemunho, consistisse em seguir os trilhos da geração imediatamente anterior numa adesão cega ou tímida às suas proezas, deveria desencorajar-se definitivamente a "tradição".)

Três - "Tradition [...] involves, in the first place, the historical sense [...]; and the historical sense involves a perception, not only of the pastness of the past, but of its presence."

(Em primeiro lugar, a tradição implica o sentido histórico; e o sentido histórico implica uma percepção não apenas da qualidade passada do passado, mas da sua presença.)

T. S. Eliot sobre a tradição e o talento individual. Ou Gumbrecht avant-la-lettre.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

WB por JB

Não podia deixar de ser. Fica linkado.

Blue jeans

O que mais gostei de ver, entre o muito que se tem publicado e mostrado nos últimos dias a propósito de mais uma obra de António Lobo Antunes, foram as calças de ganga que ele exibe numa foto do DN (ou será do Público?). Têm as algibeiras de trás à frente. Hão-de ver, que não encontro a foto online. Do melhorio!

ADENDA: Foi no "Mil Folhas" do Público (de sexta, dia 3/11) que saiu a dita foto, de Enric Vives-Rubio, a ilustrar o artigo de Alexandra Lucas Coelho, "Lobo Antunes contra Lobo Antunes".

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Citação

Ode marítima


Ah, [...]


Ah, [...]

Ah [...]


Ah, [...]


Ó [...]


Ah, [...]


Ah, [...]

Ah, [...]

Ah, [...]

Ah,[...]

Ah, [...]

Ah, [...]

Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-yyyy... [...]
[...] ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yyyy...) [...]

Ah [...]

Eh [...]

Eh [...]

Eh [...]
Eh [...]

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Eh-eh-eh-eh eh! Eh eh-eh-eh eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh eh!
Eh lahô-lahô laHO-lahá-á-á-à-à! [...]

- ah! [...]

[...] -aw-aw-aw-aw!
[...] -aw-aw-aw-aw!
[...] a-a-aft [...] ru-u-u-u-u-u-u-u-u-um [...].

Eia, [...], eia!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Eh-lahô-lahô-laHO-lahá-á-á-à-à!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
[...]
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-yyyy...
[...] ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó- yyyy...

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Ah [...]

Ah, [...]

(Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
1ª publ. in Orpheu, nº2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915.)

A propósito do mês de Álvaro de Campos, no Leitura Partilhada.