terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Ultra desactualizado!

O Reboliço revolve-se todas as noites na cama, a pensar como é que há-de fazer para actualizar mais amiúde as cartas. Tal como estão, já tem um caixote de papéis para transcrever. É que foi Sexta, foi Sábado, foi Domingo, e já hoje houve assunto para Cartas... Hoje ao almoço, o fortune-cookie disse-lhe que a paciência é agora a sua maior aliada. E o Reboliço foi sempre um crente inveterado em fortune-cookies.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

As flores...



... do feltro (a mana é a do meio, ladeada pela Fátima Luísa e pela Tânia. Chiça, não podiam ter nomes com menos acentos, não?...)

(Foto: Mónica Saraiva)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Entretanto, o mano...

... deve andar pelo Porto e por Montemor-o-Velho, para a apresentação do livro de Gabriele Basilico (e mais uns quantos "artistas"), Arquitectura em Portugal. A primeira apresentacao e ja hoje, quinta-feira.

"A Dafne Editora vai fazer duas pequenas festas de lançamento/apresentação do livro Arquitectura em Portugal de Gabriele Basilico (já em circulação desde Novembro) e teria um grande prazer em contar com a sua presença.
Os eventos terão lugar no dia 25 de Janeiro pelas 22 horas, na Fnac do Gaiashopping, uma sessão de apresentação do livro por André Tavares e comentário crítico de José Capela, e no dia 27 de Janeiro, na Galeria Municipal de Montemor-o-Velho pelas 16 horas, numa sessão de debate com a participação de Luís Marques Real (Presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho), José António Bandeirinha (arquitecto), João Soares (co-comissário da exposição Desenho nas Cidades), Júlio Sousa Gomes (quarteirão das artes) e Miguel Figueira (arquitecto).

Este livro resulta dos conteúdos da exposição apresentada na V Bienal de Arquitectura de São Paulo, Desenho nas cidades, arquitectura em Portugal, comissariada por Álvaro Siza, com fotografia de Gabriele Basilico. Centrado em 5 lugares, Porto, Montemor-o-Velho, Idanha-a-Velha, Évora e Lisboa, apresenta obras de Eduardo Souto de Moura, Adalberto Dias, Fernando Távora, OMA – Rem Koolhaas e Ellen Van Loon, GTL Montemor-o-Velho (coordenação Miguel Figueira), Atelier 15 (Alexandre Alves Costa, Ségio Fernandez, José Luís Gomes), Vítor Figueiredo, Álvaro Siza, Gonçalo Byrne e João Luís Carrilho da Graça.

FNAC Gaiashopping, Quinta-feira 25 de Janeiro, 22 horas.
Galeria Municipal de Montemor-o-Velho, Sábado 27 de Janeiro, 16 horas.

Pode encomendar o livro através da página Dafne no endereço www.dafne.com.pt"

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Ver o feltro

A mana e mais outras moças muito jeitosas de mãos mostram trabalhos seus feitos em feltro. A exposição já está na Casa da Cultura de Loulé, ali em frente à Câmara, visitável até 9 de Fevereiro. Foto mais tarde (sim, mana?).

Continua o saque...

... de fotografias ao Eelco. Desta vez, para verem o Lane, dono da casa onde dormi os primeiros quatro ou cinco dias nesta Munchkinland. É bom tipo - na Sexta-feira passada levou-me a um restaurante português em San Jose. Nem vos conto... (Vá, uma pistazinha: de vinhos verdes, tinham Casal Garcia e Aveleda. Ok?)

Sweet Wicker

O Reboliço rende-se às evidências: não há melhor para curar saudades do que enganá-las com a companhia canina da Wicker. Ok, poderia ser outro canídeo qualquer. Mas esta cadela tem o seu quê de felina, na maneira carolíngea (manos!) como olha para o ar tristonho do Reboliço e lhe diz "O pá, mas que cena é essa? 'tás armado em parvo ou que? Vê mas é por onde andas, que o meu lugar favorito é umas ruas abaixo e ainda nem saímos do quarteirao. Anda, mexe-te. Tenho mais que fazer e a bexiga ainda cheia..."

O moinho entre moinhos

O João Espinho alertou-me para esta página. Lá está ele...

A alma e o sentimento

Na magnífica novela Michael Kohlhaas, quando a personagem, enraivecida pela injustica social, está prestes a decidir-se pela vingança e a abandonar a sua conduta até ali exemplar, diz o narrador: "Esta era a primeira vez que a sua alma, bem educada pelo mundo, se preparava para suportar algo que não estava de acordo com os seus sentimentos." Grande Kleist.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Cenas Vivas; ou Moinhos na Poesia (9)

Só hoje o Reboliço soube da morte de Fiama Hasse Pais Brandão. Procurou entre os seus poemas, recordava-se vagamente de haver uma referência a algum moinho. É um "moinho de pás", mas um moinho. Num livro muito adequadamente chamado Cenas Vivas (de 2000).

Aquela saia roda
como o topo do moinho de pás,
o que em mim confirma agora
que o vento me reveste.

                                    *

Quando depois do nascimento me vestiram,
a roupa então em mim resplandeceu.
Mas estava nua, sem cambraia
ou a memória simples dela nos sentidos.
Nua e solene, com a roupa alheia
em tomo do meu corpo. E ignorava
valor, matéria e as pompas
que entregam roupas e versos ao comércio.
Acreditava só que o gesto amado
de me cobrirem de panos ao nascer
seria a minha glória

                                      *

O pequeno velo de roupa é
o da imaginação. Vestiram-me
para me velar, como janelas afloram
nas casas ou como a palha envolve
medas. As escassas vestes
nas montras eram também
sinais da imaginação. E a linha
nas mãos da costureira assim
imaginada era.

                                        *

Tão devagar cosia pelo traço do giz
a máquina que os pés moveram balançando
quanto os meus olhos devagar seguiram
o traçado dos pontos e o meu espanto
de ver a ordem surgir dos riscos soltos.
O rosto atento caía sobre o pano
que pouco a pouco me tomava a forma
do meu corpo tocado pela luxúria
de tão belos cetins, veludos
inverosímeis e, como tudo o que
a memória gera, fontes de dores.

                                           *

O tépido calor cobre-me
por fora de tules em flor.
As folhas do loureiro ridentes
assemelham-se ao meu vestido
de verde cassa. Agradeço, pois, às bocas
de parentes os nomes ditos.

                                              *

Todas as roupas usadas
próprias do Verão são aquele
vestido único, porque me haviam dito
que ao entrar pelos olhos
ele me cobria de fulgor.

                                               *

Com a saia de tobralco leve passei
entre as nossas hortas, águas do poço,
coisas da quinta tão diversas todas.
E amei cada um dos vários nomes,
e também as palavras especiosas
que na retrosaria designam o belo fio
e aquelas que me mostravam os tecidos
em sequências de alucinações novas.

Saudades do moinho

O Reboliço quase (quase...) chorou ao ver as fotos que o Nikonman lhe mandou deste Domingo no moinho. Coisa linda, ai ai...

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Revelações

et quomodo invocabo deum meum, deum et dominum meum, quoniam utique in me ipsum eum vocabo, cum invocabo eum? et quis locis est in me quo veniat in me deus meus, quo deus veniat in me, deus qui fecit caelum et terram? itane, domine deus meus?
(das Confissoes)

Iluminações

Ontem foi o primeiro dia de três dedicados a discutir questões de teologia (e) política na Idade Média. A primeira comunicação foi de Richard Harrison, uma espécie de tornado à vida, depois de um ataque de coração que praticamente o levou. Custa-me ainda crer no fulminante desse ataque, depois de o ver tão capaz e tão vivo ali a discursar, a discorrer com a clareza e a claridade dos iluminados geniais, sobre Dante, repúblicas, imperialismo político e religioso e as lições que podemos tirar para o presente de um passado cheio de ensinamentos. Só esta manhã lhe agradeci de voz viva pelo que disse e pelo modo como o disse.
Houve mais gente clara ao longo do dia longo, do dia que haveria de me deixar quase esgotada. Digo quase esgotada porque, no final, a perspectiva de ainda ter mais umas duas horas de discussão filosófica, desta feita sobre o pensamento de Pascal, começava a pesar-me. A única razão por que acabei por ir à reunião semanal do Grupo de Leitura de Filosofia foi que seria apresentada por Michel Serres, numa oportunidade que me pareceu imperdível de ouvir um especialista a falar sobre Pascal. Aconteceu, então, aquilo que só os génios conseguem causar (já sei, é a terceira ou quarta vez que uso "génio"... mas génios são génios, nada a fazer...) - às primeiras palavras de Serres, senti-me como se estivesse a despertar naquele momento; o cansaço foi-se, abria-se outra vez o céu de um conhecimento novo, de uma perspectiva brilhante e linda. Serres é um homem daqueles que não se esquece. Fez com que entendesse tão distintamente a razão de Pascal, as dúvidas, a grande transformação de um mundo noutro, de uma visão do Homem noutra, diferente, aquela em que hoje me reconheço. Diria, escreveria mais, se não soubesse serem diminutas estas palavras com que agora registo o que ontem ouvi.

Deixo de Serres duas "anedoctes", episódios, "fait-divers". Uma, contada por ele, revela bem a sua humildade e o génio humano (sim, está bem); contou-a na sequência de não saber a resposta a uma pergunta que lhe fizeram. Disse que uma vez um pequeno neto seu, chamado Raphaël, lhe pediu "Pépé, récite-moi le Pokemon". Responde-lhe o avô (coitado...), "Je peut te réciter la table des elements chimiques, par coeur, certains poèmes, mais pas - je suis désolé... - pas le Pokemon". É quando o puto lhe retorque "Voila, Pépé, tu ne sais pas tout!"

Segundo episódio: depois de o Sepp ter insistido por duas vezes que havia na sala uma portuguesa (éramos quarenta criaturas a ouvir o Professor), achei que deveria fazer uma pergunta a Serres. Era uma maneira de lhe mostrar gratidão e respeito. Dei o melhor que soube (perguntei-lhe pela teoria do equilíbrio e por se haveria em Pascal lições sobre harmonia musical, enfim...) e ele deu-me a resposta que também pôde (que a teoria do equilíbrio tinha sofrido evoluções históricas extraordinárias, desde Aristóteles, que "equilíbrio" em Pascal não significa necessariamente harmonia, entre o que mais não cabe aqui nem agora). Já fora da sala, dirigi-me a ele para o cumprimentar e agradecer-lhe o que ouvira. Agarrou a minha cabeça entre as suas mãos (tem as mãos grandes e cheias de rugas, mas muito macias) e beijou-me a testa. Ria e dizia-me "C'est toi la portugaise! Merci!, Merci!" Depois disse-me que estivera em Lisboa três semanas antes, que aquela cidade o animava como nenhuma outra. Eu estava ali e era como Lisboa. Depois de aquele homem me ter feito sentir como uma formiguinha a contemplar a pirâmide de Gizé.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Tanto, imenso (3)

Love me
love me
love me

Say you do
Let me fly
away
with you
For my love is
like the wind
And wild is the wind

Give me more
than one caress
Satisfy this
hungriness
Let the wind
blow through your heart

For wild is the wind

You...
touch me...
I hear the sound
of mandolins

You...
kiss me...
With your kiss
my life begins

You're spring to me
All things
to me

Don't you know you're
life itself?

Like a leaf clings
to a tree
Oh my darling,
cling to me

For we're creatures
of the wind
And wild is the wind

So wild is the wind
Wild is the wind
Wild is the wind

(Música composta por Dimitri Tiomkin e Ned Washington. Cantada primeiro por Johnny Mathis em 1957 e depois, entre outros, por Nina Simone em 1966, David Bowie em 1981 e Cat Power em 2000.)

Aha! Já pensavam que isto tinha morrido, não?

Pois é, o Moinho pode dobrar - porque o Reboliço não tem computador na casa onde está (diz a Diana, a senhoria "You must be the only one in the whole Bay Area without a PC!"), ou porque o Blogger quer à força que isto passe a BetaBlogger, mas quando o Reboliço tenta não dá - mas, para quebrar, há-de ser cedo!...

As notícias são:

1. Está um frio de rachar e fazer perder laranjas e outros citrinos, coisas boas aqui da zona (e garanto-vos que os produtos desta região são mesmo como se publicitam: com o tanto sol que apanham e bons ares, a fruta e os legumes são saborosos à antiga);

2. Finalmente, Sexta passada consegui encontrar casa onde ficar. Não tardou a saber que estava numa casa Eichler, coisa de estalo, melhorada ainda mais pelo facto de a senhoria guiar um Ford Mustang de 1965, onde já me levou a conhecer todos os supermercados da zona. O pessoal que mora nestas casas tem-se queixado do frio, ultimamente (pudera...), mas a casa onde estou tem aquecimento no chão, o que a torna muito habitável. O pior é durante os passeios matinais com a Wicker, a cadela. Até se me queimam as narinas por dentro! A Wicker é uma espécie de galgo de Ibiza (não sei se é assim que se chama em português), mas faz vida de gato. Só revela a sua "canidade" quando persegue os esquilos na rua. Aí, sim, é cão a sério e faz o Reboliço orgulhar-se de a levar pela trela.

3. Domingo fui com o Eelco passear a Point Reyes. O Eelco reservara um carro dos mais baratuchos, mas quando foi à agência de aluguer, deram-lhe um da categoria acima, pois tinham esgotado os económicos. Ou seja, lá vai o Reboliço, de cu tremidinho, como gosta, arrelampado no banco dianteiro de um... Ford Mustang de 2006! Fotos do bólide e da passeata domingueira aqui (e mais umas do jantar com o grupo de filosofia, Quinta passada).

Ui, que fomeca, Reboliço! Xau, logo venho!

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Eelco Runia

Pode parecer o nome de uma companhia petrolífera, ou assim de um medicamento qualquer, mas é como se chama o professor holandês que vive este semestre na casa onde ocupei a parte de baixo de um beliche, por simpatia do senhorio e enquanto procuro poiso mais certo. Diz que não entende nada de blogues, o Eelco, e que só começou a escrever o seu por insistência do filho, para ir dando regularmente notícias. Começou o blogue em Dezembro, quando veio para cá, e agora já não quer outra coisa. Escreve em neerlandês (uma ou outra vez cita em inglês), por isso se calhar só Mr Pedro (you know who) entenderá aquele arrazoado. Mas olhem, tem bonecos! Num deles aparece yours truly e até se menciona o moinho (fica um som esquisito, windmolens).

Da terra dos Munchkin

De conversa com o mano, expliquei-lhe que sim, que aqui também havia "esquilos" como encontrara em 94, da primeira vez que pisei solo americano. Ele quisera saber se havia aqui em Stanford "esquilos-leitores" como os que atravessavam a sala de poesia da biblioteca de Dartmouth College, zuniam sobre os cadeirões, os braços e as cabeças dos leitores e saíam disparados para o grande carvalho em frente a porta. A seguir, esclareci-o: não são bem-bem esquilos-esquilos, mas chipmunks, um sub-género da família dos esquilos. Não houve maneira - "A sério?! Então mas isso é tramado! Uma grande desilusão, tipo aquela de sair o Euromilhões mas sem a parte do receber*! A última vez que tive uma assim tamanha desilusão foi quando soube que Plutão não era planeta e que o Pauleta era rabeta!" (*Esta roubou-a aos mocinhos do Gato Fedorento.) Guarde-se lá mas é o decoro, que o mano só deve ter escrito aquilo para rimar...

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Primeiras impressões

Quando cheguei a estas terras a primeira vez, há quase treze anos, só conheci a costa leste. Impressionaram-me os passeios largos de cimento liso e o tamanho dos automóveis. Nem a altura dos prédios me deixou uma ideia tão forte de diferença como a dimensão dos carros e camiões. Na costa oeste, que conheço agora, impressionou-me o facto de muitos dos edifícios terem telhados de telha. Além da origem da maioria dos funcionários que lidam com o público: sao quase todos orientais.

Ao telefone

"Hello, operator. I'm calling Portugal. Could you put me through?"
Who would you like to call, sir?
"(Uau!, 'sir'!...) I'd like to call Tiaga. (Quem mais havia de ser?)"
Hold on a second, sir. your call is being processed.
"(Nesta terra só me mandam segurar uns segundos...)"
"Sim? Está lá?..."
"Tiaga? Tiaga??? Tiaga!!! Tiaga!..."
"És tu, Rebolico?"
"Sim, sim!!! Sou eu! Ena, gandas saudades!..."
"Até parece... Então? Onde é que estás?"
"Ora, estou aqui. És mesmo parva."
"Vá, diz lá o que é que queres, que tenho mais que fazer."
"Nada - era só para saber se estás bem. O Goldmundo tem-te tratado como deve ser?"
"Ai, Rebolico, sim! Que coisa, então não havia de me tratar bem? Só para que saibas: passo os dias a lavar-me e a dormir, como que nem uma princesa. De noite, exploro-lhe a casa, isto se não estiver muito fatigadinha... É bem fixe."
"Cool, como se diz por aqui. Ouve lá, e já sabes da Maia?"
"Maia? Quem? A abelha?"
"Não, parva. Maia, a cadela."
"Hum... Uma cadela... O que é que há a saber sobre uma cadela?"
"Pensei que já a conhecesses. Havemos de passar muito tempo juntos. Um dia destes, mostro-te a pinta da bicha."
"Hum... Se é cadela, tanto me faz. Não deve chegar para ensombrar a minha beleza."
"Às vezes, Tiaga, às vezes... fazes perder a paciência a um cão-santo, quanto mais a quem é cão-pecador!..."
You have one minute left for your call, sir.
"Olha, está a acabar o tempo. Diz-me só se ficas bem."
"Sem ti por perto? Do melhorio! Saudinha, Rebolico, saudinha! (E volta depressa, meu canito...)"
"O que foi que disseste?"
"Nada, nada. Até depois."
"Até, Tiaga. Cheirinho*..."
(*Inspirado na mana Rosa.)

domingo, 7 de janeiro de 2007

Passagem por NY

O que teve de espantoso esta passagem breve por NY foi a cidade estar como às vezes nem na Primavera: temperaturas acima dos 16 graus, céu azul com algumas nuvens só a enfeitar, uma alegria nas ruas. Pode-se entrar nos restaurantes e deixar a porta aberta, não ficam as cadeiras atafulhadas de casacos, luvas, cachecóis, gorros e outros aquecedores da época, cruza-se a gente com joggers de calções e manguinha à cava e as flores dos canteiros* são visíveis em todas as cores, já não só no branco da neve ou no cinzento das geadas. É uma cidade linda e estranha, assim. Em mim, reforça ainda mais a ideia de que passarei este interregno na terra dos Munchkins. Quando regressar ao meu Kansas, será como acordar de novo para a vida.
(*Só está disponível por subscrição, mas a edição deste fim-de-semana do Wall Street Journal traz um artigo de Bart Ziegler sobre "Climate-Change Gardening", que é como quem diz "Jardinagem para os alterados tempos que já cá estão".)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Do lado de cá do moinho

Quando o Reboliço regressava para perto do avô, depois de visitar terras longínquas, sentava-se, entusiasmado, a contar-lhe tudo o que vira. O avô escutava-o, atento, as duas mãos uma sobre a outra, o queixo sobre o cajado, muitas vezes de olhos fechados. No fim dos relatos, abria os olhos e perguntava-lhe: "E o sol que lá viste, como era?", ao que o Reboliço, invariavelmente, respondia que era igual, igualito ao do Moinho. Então, o avô fazia um suspiro ligeiro com o corpo todo. Como se dissesse "Estou mais descansado."

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

De malas aviadas

- Com que então, de abalada..., disse a Tiaga ao Reboliço. - Por isso andavas tão misterioso... E agora, como vai ser?
- Olha, respondeu-lhe o canito. - Toma bem conta de tudo. Eu darei notícias. Terás é que te habituar outra vez à falta de acentos e cedilhas. Sabes, Tiaga, o tempo é coisa pequena, como isso de acentuar as palavras. A gente sentes-lhe a falta, se os acentos não estão, mas entende-se à mesma as palavras. Coisa pequena, sabes?
- Sei. Ontem disse-me a menina de olhos de osga que era um abrir e fechar de olhos. Se for dos dela, abrem-se e fecham-se num instantinho. Quando os reabrir, vê-los-ei grandes, verdes e redondos como só aqueles. (Mas volta depressa, Reboliço, volta depressa, que terei saudades tuas.)

Língua Bífida

É o nome de um novo blogue do Pedro Afonso, um dos (senão o mais) responsáveis pelo Ler Alto. Poeta à séria.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Chão de tijoleira

O chão do quarto do avô é de uma tijoleira velha, muito esburacadinha e velha. É mais do que porosa. Tem a cor da terra e é má de varrer que só visto. Mas é o chão do quarto do avô. Foi esse chão que pisei, um dia de muitos. Tinha chegado ao monte era já manhã avançada e estranhara não ver o avô a pé. (Quando entrei na cozinha, o Reboliço, deitado à lareira, só abanou a cauda um bocadinho.) Disse-me a avó que ele estava “ali para o quarto, hoje não se quer erguer.” “Posso ir lá vê-lo?” “Vai, vai lá que ele ainda está deitado.” Encontrei-o sentado na cama, cabisbaixo. Não sei se tinha os olhos fechados, mas todo o rosto olhava o chão, a tijoleira já gasta. O cajado ainda estava encostado à cabeceira. Levantou a cabeça só o suficiente para me dar um sorriso pálido. “Então, avô? O que se passa hoje?” “Ai, filha...”, começou, com a voz triste. “Às vezes entra-me uma paixão pelo organismo...” Foi quanto bastou para me fazer rir, ele olhar para mim, os olhos sorrirem-lhe e passarmos adiante. Para mais aquele dia, para a vida.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

"My name is Year - New Year."

Benvindos ao ano 007!
(da prima ;) )

domingo, 31 de dezembro de 2006

Dia de Ano Velho

A manhã está mais fresca que o dia de ontem – fez geada orvalhada. Dentro de casa, a massa que ficou a azedar levedou para mais do dobro. Mais logo, há-de ser tendida e cozida. O lume já está aceso. Pendurados sobre a lareira, os enchidos brilham, gordos, do calor das chamas e da luz do sol que entra pela janela da cozinha. Cura-se-lhes a pele, as carnes, o sangue.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Dia de labor

(Foto: Otília Guerreiro, a filha do Mestre Caetano)

Ao final da manhã, assim que da estrada avistei o moinho, vi que giravam as velas. Devagarinho, que o vento de sueste não é muito certo, mas foi o suficiente para que moesse a manhã quase toda. Quando se fará uma amassadura?

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Passagem de Ano

- Vais p'ra onde?... - pergunta a Tiaga ao Reboliço, vagamente incomodada.
- P'ró moinho, estou farto de te dizer. - responde-lhe ele, entediado com a insistência da bicha.
- Já estou mesmo a ver que me deixas sozinha outra vez. És terrível.
- Se fosses mais sociável, irias comigo. Disse-te que viesses.
- Sim, sim. Não queriam lá ver: eu, uma gata de cidade, fina como só eu, a roçar o meu pêlo sedoso por aquelas teias de aranhas, ervas daninhas, formiguedo... Ui!, só de pensar!...
- Não te queixes, portanto. Seja como for, serás muito bem tratada. E depois disso terás umas boas férias.
- Mal vejo a hora... Olha, adeus. Até ao teu regresso.
- Dorme, Tiaga, dorme... Ai, que gata!

Tanto, imenso (2)

I was born to make you happy.
I think you're just my style.
Everywhere I go,
Tellin' everyone I know,
Baby, I love to see you smile.

Don't wanna take a trip to China.
Don't wanna sail up the Nile.
Wouldn't wan' get too far,
From where you are,
'Cause I love to see you smile.

Like a sink without a faucet.
Like a watch without a dial.
What would I do if I didn't have you.
I love to see you smile.

In the summer, in the springtime,
The winter, or the fall,
The only place I wanna be
Is where I can see you smile at me.

In a world that's full of trouble,
Y'make it all worth while.
What would I do if I didn't have you.
I just love to see you smile.
I love to see you smile.

(Randy Newman cantado por Homer e Marge Simpson. d e l i c i o s o)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Tanto, imenso

Pode um desejo imenso
arder no peito tanto
que à branda e a viva alma o fogo intenso
lhe gaste as nódoas do terreno manto,
e purifique em tanta alteza o esprito
com olhos imortais
que faz que leia mais do que vê escrito.

Que a flama que se acende
alto tanto alumia
que, se o nobre desejo ao bem se estende
que nunca viu, a sente claro dia;
e lá vê do que busca o natural,
a graça, a viva cor,
noutra espécie milhor que a corporal.

Pois vós, ó claro exemplo
de viva fermosura,
que de tão longe cá noto e contemplo
n'alma, que este desejo sobe e apura:
não creais que não vejo aquela imagem
que as gentes nunca vêem,
se de humanos não têm muita ventagem.

Que, se os olhos ausentes
não vêem a compassada
proporção, que das cores excelentes
de pureza e vergonha é variada;
da qual a Poesia, que cantou
até aqui só pinturas,
com mortais fermosuras igualou;

se não vêem os cabelos
que o vulgo chama de ouro,
e se não vêem os claros olhos belos,
de quem cantam que são do Sol tesouro,
e se não vêem do rosto as excelências,
a quem dirão que deve
rosa, cristal e neve as aparências;

vêem logo a graça pura,
a luz alta e severa,
que é raio da divina fermosura
que n'alma imprime e fora reverbera,
assi como cristal do Sol ferido,
que por fora derrama
a recebida flama, esclarecido.

E vêem a gravidade
com a viva alegria,
que misturada tem, de qualidade
que üa da outra nunca se desvia;
nem deixa üa de ser arreceada
por leda e por suave,
nem outra, por ser grave, muito amada.

E vêem do honesto siso
os altos resplandores,
temperados co doce e ledo riso,
a cujo abrir abrem no campo as flores;
as palavras discretas e suaves,
das quais o movimento
fará deter o vento e as altas aves;

dos olhos o virar,
que torna tudo raso,
do qual não sabe o engenho divisar
e foi por artifício, ou feito acaso;
da presença os meneios e a postura,
o andar e o mover-se,
donde pode aprender-se fermosura.

Aquele não sei que,
que aspira não sei como,
que, invisível saindo, a vista o vê,
mas para o compreender não acha tomo;
o qual toda a Toscana poesia,
que mais Febo restaura,
em Beatriz nem em Laura nunca via;

em vos a nossa idade,
Senhora, o pode ver,
se engenho e ciência e habilidade
igual a fermosura vossa der,
como eu vi no meu longo apartamento,
qual em ausência a vejo.
Tais asas dá o desejo ao pensamento!

Pois se o desejo afina
üa alma acesa tanto
que por vós use as partes da divina,
por vós levantarei não visto canto
que o Bétis me ouça, e o Tibre me levante;
que o nosso claro Tejo
envolto um pouco vejo e dissonante.

O campo não o esmaltam
flores, mas só abrolhos
o fazem feio; e cuido que lhe faltam
ouvidos para mim, para vós olhos.
Mas faça o que quiser o vil costume;
que o sol, que em vós está,
na escuridão dará mais claro lume.

(-)

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Natalinho

Esta calçadinha vai dar a Belém,
Vai fazer as pazes com quem anda mal.
Com quem anda mal, anda agora bem,
Esta calçadinha vai dar a Belém.

O Menino chora, chora.
Chora pelo sapatinho.
Haja quem lhe dê as solas,
Eu lhe darei o saltinho.

Esta calçadinha vai dar a Belém,
Vai fazer as pazes com quem anda mal.
Com quem anda mal, anda agora bem,

Esta calçadinha vai dar a Belém.

domingo, 24 de dezembro de 2006

Antes da Consoada

(Enquanto os homens cortam lenha, lá fora perto do forno, cuido de dois lumes dentro da casa.)

    Há grandes mexidas no moinho. O pai arma as velas, para secarem com o vento de hoje a chuva de há umas semanas. É trabalho que tem de ser feito, ou a madeira das varas apodrecerá. De manhã, veio o vizinho trazer um pato. “Não o deixe abalar,” avisou. Nem duas horas depois, já o bicho voara. “Pode ser que a patrulha o almoce,” diz o Mano, a apontar a Brigada de turno na rotunda. À tarde, torna o vizinho: “Tome-o lá, foi dar ao meu monte outra vez.” Tem o destino marcado e, por mais que faça, há-de ir ao tacho.
    O Reboliço faz pender as orelhas, sai, discreto, da casa e vai deitar-se ao olhinho de sol. Enquanto o frio não lhe entra bem nos ossos, fecha os olhos e aspira o ar. Daqui a nada, antes do sol-postinho, esperará que alguém se descuide e deixe a porta aberta. Então, reentrará na casa e ficará aninhado, à beira do lume, a observar o movimento.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Chegar

Não há cão nenhum para nos receber. Os gatos já não vivem aqui. De vez em quando, um coelho ou outro refugia-se no monte da lenha. As ovelhas do vizinho passam, a balir e de esquilas a trinar, pela manhã cedo e ao fim do dia. Mas basta o moinho. Basta a torre, branca e alta, uma vela só, armada, e é em casa que estamos. Agora cheira a lume, arde o madeiro, fazem-se apostas de quanto demorará até ser todo cinza. Falamos alto uns com os outros, ajustamo-nos aos lugares que cada um quer mais para si. O espaço é muito maior do que o que vemos. Quando damos por isso, o silêncio instalou-se, mais o jantar na mesa e o calor pela casa toda.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Não era sem tempo!

(Foto: Vasco Célio)
 
O terceiro elemento, ou a terceira alminha canina do Poço Novo; ou Mr. Petaner no seu esplendor (com as sombras das patas do Sorna e da maLuca). Nos olhinhos dele (aqui não se vê, que essas coisas não aparecem nas fotografias) lê-se "Olhem, minha gente, passem umas consoadas felizes, bebam-lhe bem e comam do melhorio, que é o que eu tentarei fazer. Não se esqueçam de dar muita sorrisama e beijocaria, tudo grátis e sem precisarem de estar em filas de gente." Isto tudo em cãotalão, claro, que é a única língua que ele domina.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Lições de História

    O Reboliço recebeu três lições de História nos três últimos dias.
    Sábado, por obra clara de uma Super8 vertida para digital, em imagens da Loulé dos anos 60, 70 e 80. O corso do Carnaval, as casas da Avenida, que já deixaram de existir; um chafariz para cá das muralhas do castelo, algumas das pessoas que conhece hoje e ali estavam irreconhecíveis. E um tipo chamado "Abstracto".
    Domingo, por obra e Graça dela. Dez anos de CCF, mais dez ainda para trás, mais memórias. De dias que testemunhou, de datas de que só ouviu relatos, de gente que conheceu e já não recordava. De sorrisos, beijos, caras cómicas. Grande lembrança.
    Segunda, por obra de alguém meritório e de uma fuga ao hábito que a RTP tem de não passar documentários que subvenciona. O de ontem à noite foi tremendo de bom: realizado por Pedro Madeira em 2002, Vitória ou Morte: A Queda da Índia Portuguesa. Para quem sabia muito pouco sobre o que se passou na História portuguesa dos anos 50 e 60, o Reboliço teve bónus!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Calha bem

Abro a caixa do correio e vejo lá dentro um pacote. Abro o pacote e descubro um calendário de 2007 com vistas da América. É para me ir habituando.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

"Stand-up Literatura"


4ª feira dia 20 de Dezembro de 2006, 23 h, Café Bar Batussy
(estrada da Penha, Faro, entre a UAlg e o cruzamento do Horta)
RECITA-TE
Espectáculo do Sulscrito
Recital dinâmico e interactivo
Stand-up Literatura
O que mais lhe quiserem chamar

Apareçam, venham divertir-se, ser incomodados e participar
Haverá espaço para quem quiser ler os seus textos. Não faltem.

Ajudem a divulgar este evento: sulscrito@yahoo.com

Prendinhas (1)

(Esta ofereci-a o ano passado. With love.)

    Era de noite. O homem estava sentado à bancada da cozinha. Levou aos lábios a espuma fria e girou o corpo mal um bocadinho, só o suficiente para ver atrás de si o grande lago, através da janela da sala. Percebia a água nos reflexos escassos, uns dedos acima do pontão de madeira, uns dedos abaixo da linha onde começavam os troncos das árvores. As mesas lá de fora tinham ainda garrafas, copos e pratos por limpar. No caminho do pontão, gravilha já escasseada entre dois traços de troncos estreitos, alguns chinelos desemparelhados e uma bola eram as ruínas visíveis dos dias anteriores. O homem olhava para essas marcas e não se sentia triste. Respirava fundo, escutava o ar a descer pelo tronco abaixo e a regressar, a ser expulso de si. Podia ouvir-se a respirar. Deixou-se ficar ali, infectado pela quase imobilidade do lago e das folhas das árvores, a ouvir em si o ar e a cerveja. Não fechou os olhos.
    Havia dois dias que tinham abalado os filhos e a mulher. Ele ficara, com mais umas semanas de trabalho à sua frente. Ainda assim, não podia queixar-se: a empresa concordara em alojá-lo numa confortável cabana à beira do lago, onde ficasse calmamente e pudesse receber a família durante os dias de férias deles. Agora, passadas as horas ruidosas e alegres, estava outra vez sozinho. Amargurava-o só um pouco a contradição em que vivia – em que sempre, de alguma maneira, vivera: o seu trabalho exigia-lhe o silêncio e o recolhimento em que destilava o olhar engenhoso sobre o seu e o pensamento dos outros; porém, sem o convívio e o riso do amor que aquela família lhe garantia, não podia ter a paz de espírito que o guiava ao silêncio.
    Era em momentos como aquele, o corpo grande sentado imóvel e sozinho numa sala vazia em frente a um lago, sem ruídos externos, sem ninguém nem nada a interromper o fio longo e fino que vislumbrava, vezes raras, entre o seu pensamento e as coisas; quando, de caneca na mão, pousava os olhos no lago e imaginava ver ainda os salpicos de água dos filhos a mergulhar, e ouvir-lhes os risos; era então que ia tomando corpo na sua alma, como a camada de neve que sobe à medida silenciosa que pousam os flocos, a ideia de que não era mais do que aquilo: um homem irremediável e agradecidamente só.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

"Troubled Waters" (música, ainda)

Quando pressente (ouve, vê, palpa, cheira) muito rebuliço à volta de qualquer coisa, mormente se é sobre cantiga ou livro, o Reboliço afasta-se. Gosta de deixar assentar a poeira. Mania de cão pequenino, medricas de ser atropelado pela turba. Em se afastando a gente, então sim: aproxima-se do fenómeno. Franze muito o focinho, a cheirar, a cheirar, mas ainda de olhos abertos e atentos, a tentar perceber o que levantou o ruído. Às vezes, porém, está ele ainda encolhidinho no seu canto, com este frio enroscado, de focinho escondido entre as pernas, a aguardar o desanuviamento, vem o fenómeno até si. Faz mover o ar à sua volta, perto o suficiente para o fazer erguer uma orelha, uma só. Se é fenómeno a sério, como a voz de alguém felino, há logo segunda orelha erguida, focinho desembainhado e espreguiçadela rápida. Corre, Reboliço. Vai lá ouvir o resto.
(Obrigada, António.)

"Sam-wellegant"

(Ui, estes títulos estão cada vez melhores, sim sim.)
Hoje estou de hip-hop tuga. É culpa, principalmente, da Antena3 e do péssimo hábito de ouvir música escolhida por um tipo chamado Henrique Amaro. O disco do Sam the Kid é MUITO BOM.
(Anabela, o pianinho samplado na faixa 5 é feito para ti.)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Swellegant

Chegou-me hoje à caixa do correio. Não o ouvia desde 92, ou coisa assim. Continuo a gostar muito de quase todas as faixas, mas os duetos/duelos ficam bem lá em cima. Kirsty McColl com os Pogues no medley "Miss Otis Regrets.../Just One of Those Things". Ou Iggy Pop a cantar com Debbie Harry - espreitem o video divertidíssimo de "Well Did You Evah", ao fundo da página que abre no penúltimo link. Na letra não aparece o lindo "Piss off!" da DH no finzinho da cantiga. Cole Porter adora esta gente.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Neurónios, cérebros e patinhas

    Volta não volta, dou por mim a encantar-me com escritos sobre fenómenos humanos daqueles sobre os quais se diz que se sabe muito pouco. Coisas de hemisférios cerebrais, comandos neuronais dos movimentos mecânicos do corpo, electricidades, magnetismos e fenómenos pataestapafúrdifísicos. É um encanto de ignorante, assumidíssimo. Mas tem-me levado por muito boa literatura - António Damásio e Oliver Sacks, por exemplo. Hoje lembrei-me disto a propósito de um daqueles testes que circulam pelo correio electrónico. Além de o teste ser engraçado, delirei com a maneira como se apresenta.
    Título: "Será que o seu pé direito é inteligente?" (Vem-me logo à ideia um livrinho que tinha em pequena, livro pequenino também, chamado O Sapato do Coração, do Pedro Alvim, com uns desenhos grandes e coloridos. Ou o filme do Jim Sheridan.) Continua a mensagem, a prometer que "o que se segue é tão engraçado que desafia qualquer compreensão lógica." Nem por isso, penso, já que a lógica é que os movimentos do corpo são, sim senhor, dominados por mensagens cerebrais muitíssimo bem engendradas e que não se desafiam por dá cá aquela palha. O desafio, propriamente dito: "Aposto que irá tentar pelo menos cinquenta vezes para ver se consegue contrariar o seu pé. Mas sem sucesso!!! Experimente…" Pois bem... Esquecemo-nos muitas vezes que quem tenta contrariar é a mesma entidade a que pertence o pé que se quer contrariar, ou seja, contrariar o dito equivaleria a contrariar a vontade de contrariar. Ughhhh, que confusão! As ordens são claras: "1. Sentado numa cadeira, levante o seu pé direito do chão. Uma vez o pé no ar, faça círculos com o mesmo, no sentido dos ponteiros do relógio; 2. Ao mesmo tempo, desenhe com a sua mão direita o número 6 no ar [acrescento meu: o 6 tem de ser feito de cima para baixo, i.e., com a mão a movimentar-se no sentido contrário ao dos ponteiros... get it?]."
    A Tiaga e o Reboliço passam a vida a tentar mostrar-me que existem vontades a que a nossa arrogância de racionalidade tem de ser alheia. Nunca mo disseram por e-mail, mas devem ter porta-vozes algures. Só pode ter sido um deles a enviar-me a mensagem!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Ora então, bonecos!

(Foto do Tintim: Jorge Baptista)

O Reboliço boceja, enquanto espera que a Mana lhe passe um retrato do Petaner [ouve-se "pátáné"]. Este agora é o Tintim, que sempre tem relva verdinha para se entreter. Parece-me que o Sorna também não tem muita fotografia no Moinho (Maaaannnnnaaaaaa!).

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Açordinha - actualização

    Esqueceu-me, desculpem... É das tais coisas que um gajo tem tão entranhadas que se esquece de as dizer aos outros: o panito para a açorda é quanto mais velho melhor. Antes de embolorecer, claro. Mas se tiver já uns verdetes, não é coisa que assuste um bom alentejano: corte-se-lhe os ditos (os verdetes, pessoal, os verdetes!) e o pão fica maravilha.
    O Reboliço lembra-se que, quando se vendia pão na mercearia do avô Martins, a tia guardava zelosamente o mais velho. "Nita!", ouvia-se a quem entrava, silhueta escuríssima contra a luz da rua de estio, noutras horas só visível através da nesga da porta mal fechada. "Ainda tem algum panito d'ontem?" "Olhe, já nã tenho." Aquilo confundia o Reboliço, que sabia perfeitamente do pão, pousado na pedra por cima da salgadeira e coberto com um pano branco. "Tia," reparava-lhe depois, quando saía a freguesa, "Mas tem ali pão..." "É p'rá açorda, mai'logo."

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Açordinha

Um amigo perguntou-me como se fazia a açorda que já lhe dei a comer. Respondi-lhe assim:
    "Costumo fazer a açorda como me ensinou a minha mãe (da zona de Cabeça Gorda-Beja). Tem algumas variantes, que assinalarei ao longo da receita.
    Para a açorda básica, tens de ter em casa pão alentejano (ou, em último caso, o que de mais parecido arranjares aí perto, talvez pão de Martinlongo ou de Mafra; tudo menos papo-secos ou baguettes), azeite muito bom, coentros frescos, alhos rijos, sal grosso e água.
    A partir daí, o limite é a necessidade, a fome e o que houver à tua disposição. Por exemplo, há variações muito legítimas e frequentes nas ervas que temperam a açorda: além dos coentros, podes juntar poejo e/ou pimento verde. Nota que todos estes "verdes" têm sabores muito fortes, o que significa que terás de estar consciente de quais os que queres acentuar ou a medida da combinação de todos.
    A açorda mais "pobre" é feita só com ovos escalfados na água que servirá para molhar as sopas (sopas = o pão rudemente cortado em fatias, irregulares; normalmente, o pão é cortado encostado ao peito e com a faca de fora em direcção ao peito de quem o segura. Cuidado para não haver acidentes com facas demasiado afiadas. E os ovos bem fresquinhos, hem?). Açordas mais ricas acompanham bacalhau cozido, só ou além dos ovos. Outro peixe cozido ou até frito (beugh!) já são extrapolações pós-modernas (ou, imagino eu, do Alto Alentejo, já que o que te estou a dar é a receita do Baixo Alentejo não urbano). Garantida a presença e a frescura de todos os ingredientes, o procedimento é o seguinte:

1. Migas o pão (i.e., fatias o dito da maneira que expliquei acima) e reserva-lo, num dos pratos (de preferência o teu) onde será servida a açorda. A quantidade do pão dependerá do número de pessoas. Normalmente, duas pessoas aviam meio pão de quilo.

2. Numa tigela larga e de fundo raso (não côncavo, senão não dá jeito nenhum para pisar; a tigela deve ser grande, independentemente de serem poucos os comensais, pois o caldo tem de estar à vontade) pisas com um pisador de almofariz (de madeira, aqui quanto menos metal entrar, melhor) os alhos, em número ímpar de dentes, conforme a intensidade que quiseres dar ao prato, previamente cortados em bocados mais ou menos do tamanho de amendoins; o sal (uma mão cheiinha, mas é melhor começares por pôr pouco e retemperar no final, já com a água fervida, pois se salgares demasiado a açorda, fica intragável; o sal, nesta fase, é quase só para fazer atrito e tornar mais fácil o pisar dos ingredientes) e as ervas - coentros e poejo e/ou pimento verde (eu acho que o pimento verde fica melhor no Verão). Tudo muito bem pisadinho até que fique numa pasta indistinta, sobre a qual verterás cerca de uma chávena de café (pequena) de azeite, também a gosto (há quem prefira a açorda menos "azeitada", outros gostam de saborear o azeite sobre os restantes sabores). Tradicionalmente, prova-se a açorda de sal, passando uma das fatias de pão na mistura (já com o azeite) e metendo-a à boca. Eu abuso deste momento, adoro o sabor assim cru daquilo tudo em cima do pão. Tens de ter atenção aos comensais abusadores, como eu, pois, quando menos esperas, podes ter ficado quase sem pão para a açorda, hehehe.

3. Entretanto (i.e., enquanto pisavas os ingredientes do ponto 2.), já terás posto ao lume um tacho com água. Assim que ferva, deitas nela ou os ovos ou o bacalhau (há quem goste das duas coisas juntas, pode ser). Muita atenção: o bacalhau tem de estar bem des-salado, pois o sal da açorda é colocado na tigela - se houver mais sal noutro ingrediente, lá está, arriscas-te a ter uma açorda que ninguém é capaz de comer. O tempo de cozedura, caso optes por fazer açorda com ovos e bacalhau, é mais longo para o bacalhau do que para os ovos, por isso, neste caso, deita primeiro o dito e só depois os ditos. Eu costumo gostar dos ovos mal cozidos, apenas com a clara bem branca e a gema quase líquida, mas com esta história da gripe das aves, é mais sensato escalfá-los mais tempo. Outra coisa: em vez de dispores os ovos na água directamente assim que lhes partes a casca, é aconselhável que os deites primeiro para uma tacinha pequena e só daí, depois de verificares que estão sãos, para o tacho; assim, se algum estiver estragado, não te destruirá o que já esteve ao lume (nem que seja apenas a água).

4. Quando estiverem ovos e/ou bacalhau cozidos, é importante assegurares-te de que tudo está a postos na mesa, nomeadamente a tigela com a pasta verde e dourada, uma travessa para os ovos e/ou o bacalhau (ou sem travessa, os ditos podem ir directamente para os pratos) e os comensais sentadinhos. O tacho vai à mesa, mas não o pousas sobre ela: só estará o tempo de deitares a água a ferver para dentro da tigela. Mal a água lá esteja, acrescentas o pão migado. Pormenor importante: não deves "empanturrar" o caldo. Se o pão for demasiado, deixa-o a esperar numa mesa de apoio, noutro prato, e podes ir juntando mais sopas à água à medida que se queira. Há quem goste das sopas "serôidas" (corruptela de serôdias, ou seja, tardias; diz-se das que se acabam de deitar na água, normalmente depois de ter sido servida a primeira rodada; são as que ficam mais rijas, porque ficam menos tempo na água) e há quem, como eu, as prefira bem encharcadinhas na caldibana."

    O Reboliço adorava deitar-se à beira do lume e sorver o cheirinho dos coentros pisados nos alhos e no sal. Quando a avó vertia sobre a mistura o azeite, levantava-se e ia dar uma volta. Não suportava vê-los comer aquela delícia e nunca lhes quis dizer que os ossinhos que, enraivecido, roía, não eram nada quando comparados com o sabor que imaginava ter a açorda. Quentinha, a deitar fumo na tigela.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

EXTRA! EXTRA!

Lavra recentíssima:
"Da aliança do espírito obnubilado de JCF [José Carlos Fernandes] (um lunático que não possui televisão por acreditar que os demónios cabriolam nas ondas hertzianas) e dos pincéis de pelo de hiena de Luís Henriques (um artista gráfico que prepara as suas próprias tintas à base de fuligem e Canada-Dry) só poderia sair um livro sombrio. Tratado de umbrografia (2006, Devir), assim se intitula o fólio que já há alguns dias pode ser encontrado a assombrar algumas livrarias respeitáveis da Nação e de onde será escorraçado em breve, para dar mais espaço a títulos como A fórmula de Deus e Sexys, Giras, Porreiras e Solteiras. Após este breve período de exposição pública, Tratado de Umbrografia apenas poderá ser encontrado, por preços exorbitantes, em alfarrabistas esconsos, bafientos e mal iluminados, pelo que recomendamos que os interessados acorram às livrarias enquanto é tempo. Aviso aos consumidores: este livro não produz sentimentos de paz, reconciliação, equilíbrio interior ou harmonia com o universo, nem proporciona alívio em situações de stress e depressão."
(Agora é que reparo que isto andava a ficar com falta de bonecos.)

Enquanto dorme e não dorme a mão esquerda...

Vou trauteando a Rita Lee. Caso sério, caso sério...
Tenho a mão esquerda dormente. Dizem que é do coração. Desconfio...

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

O banho

O Reboliço pôs a água a correr. Como é hábito - irritante e persistente - dela, a Tiaga saltou logo para o rebordo da banheira. Desta vez, pensou o Reboliço, não te livras! Sem que a bicha desse por ele, fechou a porta da casa de banho. Depois de ela ter feito dois ou três passeios pelo rebordo, encantada nas gotas que escorregavam pela cortina transparente, agarrou-a pelo lombo e deu-lhe uma chuveirada. A pobre esperneou um bocadinho, nem miar miou, esperneou mais e decidira-se a arranhá-lo quando ele voltou a pousá-la no chão. Desorientada, só conseguiu pôr-se a dar voltas à sanita e ao bidé, em oitos tontos oitos. "Sacode-te!", dizia-lhe ele. Nada - a bicha estava como alucinada ainda. As manchas cinzentas e castanhas por cima do branco escorriam, entristecidas e agarradas à pele. "Sacode o pêlo," insistia ele. Nada feito. Gata que é gata não se comporta como um cão. É assim, ou não é?

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Frost, como a geada

"Fire and Ice"

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.
(1923)

Longo, looooongo fim-de-semana

Começou na praia, sexta de manhã. Havia três tipos no mar, a fazer kite-surf. O bar da praia estava aberto (pasme-se, é no Algarve e abre o ano todo!), além do Reboliço e dos manos, só mais umas quatro pessoas a caminhar. E muitos pardais. Sol sem nuvens, a água nem fria estava. Ali ficaram, intrigados sobre como as patinhas frágeis dos pássaros aguentavam os saltos-passos à procura das migalhas. Se a Tiaga ali estivesse, pensava o Reboliço, não teria havido sossego.
Sábado foi dia de teatro. Uma plateia aconchegadita no Cine-Teatro Louletano, para (re)ver as Notas Para Esquecer. Resulta, sim, Joãozinho das Dúzias ;) resulta muito bem num palco grande.
Domingo foi noite de conversa, bolachinhas de gengibre, chocolate e chá teimoso. O que o Reboliço se pela por um serão destes!
(Além de tudo o mais, o oo7 novo é muito bom de ver.)