quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
terça-feira, 20 de fevereiro de 2007
Venha pois o que vier!
When I was just a little girl
I asked my mother, what will I be
Will I be pretty, will I be rich
Here's what she said to me.
Que Sera, Sera,
Whatever will be, will be
The future's not ours, to see
Que Sera, Sera
What will be, will be.
When I was young, I fell in love
I asked my sweetheart what lies ahead
Will we have rainbows, day after day
Here's what my sweetheart said.
Que Sera, Sera,
Whatever will be, will be
The future's not ours, to see
Que Sera, Sera
What will be, will be.
Now I have children of my own
They ask their mother, what will I be
Will I be handsome, will I be rich
I tell them tenderly.
Que Sera, Sera,
Whatever will be, will be
The future's not ours, to see
Que Sera, Sera
What will be, will be.
(A voz de Doris Day a cantar Ray Evans [1915-2007])
I asked my mother, what will I be
Will I be pretty, will I be rich
Here's what she said to me.
Que Sera, Sera,
Whatever will be, will be
The future's not ours, to see
Que Sera, Sera
What will be, will be.
When I was young, I fell in love
I asked my sweetheart what lies ahead
Will we have rainbows, day after day
Here's what my sweetheart said.
Que Sera, Sera,
Whatever will be, will be
The future's not ours, to see
Que Sera, Sera
What will be, will be.
Now I have children of my own
They ask their mother, what will I be
Will I be handsome, will I be rich
I tell them tenderly.
Que Sera, Sera,
Whatever will be, will be
The future's not ours, to see
Que Sera, Sera
What will be, will be.
(A voz de Doris Day a cantar Ray Evans [1915-2007])
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007
Duas princesas
"Tiaga, apresento-te a Maia, do lado do Atlântico (em cima). Do lado do Pacífico (em baixo), eis a Wicker. Portugal e a Califórnia. O que dizes?" "Que olhes bem para mim e te deixes dessas frescuras caninas e desinteressantes. Princesa de verdade, só eu!" O Reboliço fecha os olhos e abana o focinho. Raio de gata, pensa. Onde terei eu arranjado isto?...domingo, 18 de fevereiro de 2007
E vejo isto todos os dias...
Now, this is more like my deal...
sábado, 17 de fevereiro de 2007
A Night at the...
Ontem fui pela primeira vez à Ópera. Lembro-me de já ter visto óperas contemporâneas, mas ópera-ópera foi ontem a minha estreia. E logo na Califórnia! Está em cartaz (diz-se assim?) La Traviata, na San Jose Opera House (o site tem fotos da produção que a fazem igualzinha a uma novela das 5 da tarde, heheh). A senhora que cantava a Violetta tinha uma voz boa, sim. Não desafinava. O senhor que fazia o Alfredo também não estava mal. A melhor voz, secondo me, era a do pai de Alfredo. Forte, segura (diz-se assim?). Mas divertido, divertido a sério, foi ver os espectadores (masculinos, entenda-se) a sacarem os binóculos às companheiras assim que entraram no palco quatro bailarinas, na cena da festa de Mardi-Gras em casa de Flora. As meninas não cantavam, só dançavam. Traziam umas saias compridas muito, muito transparentes, os tapa-seios reduzidíssimos, quase nada, e as costas descobertas. Então é que me ri, enquanto temia pela saúde dos respeitados e muito bem vestidos senhores.
Para a Perla, uma papoila de olhos azuis
"De Tarde"
Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela;
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Vinicius e o amor
(Para nos fazer sorrir, Mulher.)
Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção com o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.
(Vinicius de Moraes, Para Viver Um Grande Amor, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1984, p. 130.)
Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção com o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.
(Vinicius de Moraes, Para Viver Um Grande Amor, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1984, p. 130.)
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Citações
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007
Caprichos
Ando às voltas com Caprichos. Os de Goya e os dos traços gravados pela caprichosa Paula Rego. Tudo por mor do "Second Order Observer"*.
*Explicado assim no sumário da disciplina: "Self-Reflexivity Historicized, or the Emergence of the Second-Order Observer—(Same as COMPLIT 259.) The origin of self-reflexivity as a habit and institution typical of intellectuals. Focus is on historical case studies from Western literatures and cultures since the Renaissance, based on a conceptual apparatus concerning the second-order observer, mainly derived from the work of Niklas Luhmann. Readings in original and translation include Descartes, Rousseau, Schlegel, Hegel, Gracián, and de Goya. 3-5 units, Win (Gumbrecht, H)" Até me passo...
*Explicado assim no sumário da disciplina: "Self-Reflexivity Historicized, or the Emergence of the Second-Order Observer—(Same as COMPLIT 259.) The origin of self-reflexivity as a habit and institution typical of intellectuals. Focus is on historical case studies from Western literatures and cultures since the Renaissance, based on a conceptual apparatus concerning the second-order observer, mainly derived from the work of Niklas Luhmann. Readings in original and translation include Descartes, Rousseau, Schlegel, Hegel, Gracián, and de Goya. 3-5 units, Win (Gumbrecht, H)" Até me passo...
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
Latest
Fiz a "double-bill" na sexta-feira e vi Cat People (nunca o vira em écran grande) e Crossfire (grande filme, nunca o tinha visto). Sábado foi um dia divertido: a tentativa de ir até Napa Valley revelou-se um almoço de nevoeiro cerrado em Stitson Beach, no mesmo restaurante onde já estivera com o Eelco. A praia fica a 300 metros e nem a areia se via. Comensais, além da portuguesa, um uruguaio e três mexicanos. Rir a bandeiras despregadas, claro - latinada...
À noite pus-me de novo séria, fechei os olhos e escutei quase três horas magníficas de Beethoven, os quartetos Razumovsky pelo Emerson String Quartet (Gilberto, mano, Anabela: haveriam de ter adorado...). Na volta, a correr para o comboio, cruzei-me com um guaxinim de verdade. Gordo, mais parecia um texugo! Se a Tiaga aqui estivesse, teria havido mais correria e teria perdido o comboio!
Ontem, dia chuvoso, desinteressante, intervalei a modorra com Shanghai Express e entendi melhor o fascínio das sombras no rosto de Marlene.
sábado, 10 de fevereiro de 2007
SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA (II)
"Penso no 'trovão' com que Mirabeau dispensou o Mestre de Cerimónias que, a seguir ao último Conselho monárquico de 23 de Junho, em que o Rei ordenara a dispersão dos Estados, regressou à sala onde ainda estavam reunidos e lhes perguntou se tinham ouvido a ordem do Rei. 'Sim', respondeu-lhe Mirabeau, 'ouvimos a ordem do Rei.' Tenho a certeza que, ao começar assim de modo tão cordial, não pensara ainda nas baionetas com que haveria de terminar. 'Sim, meu senhor', tornou, 'ouvimos as ordens' - vê-se que ainda não está muito certo do que pretende. 'Mas com que direito', continuou, e subitamente abre-se-lhe uma torrente de ideias monstruosas, 'nos vem o senhor dar as ordens? Nós representamos a Nação.' Era disso que precisava! 'A Nação dá ordens, não as recebe' - o que o impele, ali e naquele momento, ao máximo da ousadia. 'E para me fazer completamente claro' - e só então encontra palavras para expressar toda a força da sua alma e a sua capacidade de resistência: 'Ora diga ao seu Rei que daqui não iremos a lugar nenhum senão a toque de baionetas.' - Após o que, satisfeito consigo mesmo, se sentou. - Quanto ao Mestre de Cerimónias, teremos que o imaginar em completa bancarrota espiritual por este encontro de ideias. Existe uma lei que se aplica, muito semelhante àquela segundo a qual, se um corpo sem electricidade própria entra no ambiente de um corpo electrificado, de imediato a electricidade do último carrega o primeiro. E tal como, no corpo electrificado, por efeito recíproco ocorre um reforço da electricidade inata, assim a confiança do nosso orador, ao aniquilar o seu oponente, se converteu numa ousadia inspirada e extraordinária. Visto desta maneira, talvez tenha sido um franzir de lábios ou um ambíguo ajeitar dos punhos de uma camisa que conduziu à alteração do estado de coisas em França. Sabe-se que, mal o Mestre de Cerimónias se retirou, Mirabeau se ergueu e propôs: 1) que logo ali se constituísse uma Assembleia Nacional e 2) que fosse declarada inviolável. Depois de, como uma garrafa de Leyden, se ter descarregado, Mirabeau ficou de novo neutro e, regressado da ousadia, cedeu o passo à precaução e ao medo de Châtelet. - Eis uma correspondência notável entre os fenómenos do mundo físico e os do mundo moral, que, levada aos extremos, se manteria mesmo nas circunstâncias mais insignificantes. Mas deixo agora a minha comparação e regresso ao ponto em causa. Também La Fontaine, na sua fábula 'Les animaux malades de la peste', em que a raposa é obrigada a justificar-se ao leão e não sabe a que há-de recorrer, nos dá um exemplo importante da produção gradual do pensamento a partir de um impulso provocado pela pressão. A fábula é conhecida. Grassa a peste entre os animais, o leão convoca os maiores do reino e informa-os de que, para aplacar os céus, deverá oferecer-se um sacrifício. Sendo muitos os pecadores entre eles, os maiores deverão salvar os restantes da destruição. Para tal, pede-lhes que confessem o mais sinceramente que possam os seus pecados. Pela sua parte, admite que, por força da fome, já reduziu vidas de muitas ovelhas; de cães também, quando lhe chegam demasiado perto; até, em momentos deliciosos, chegou a comer o pastor. Se ninguém acusa fraquezas piores do que aquelas, então ele, o leão, de bom grado morrerá. 'Senhor', diz a raposa, ansiosa por afastar de si mesma a tempestade, 'foste longe demais no vosso zelo e generosidade. Que mal há em teres morto uma ou duas ovelhas? Ou um cão, essa vil criatura? E: quant au berger', continua, pois é esse o seu trunfo, 'on peut dire', ainda que não saiba o quê, 'qu'il méritoit tout mal', confiante na sorte e com isso já se enredando, 'étant', palavra pobre, mas que a faz ganhar tempo, 'de ces gents là', e só então chega à ideia que a livra de apuros, 'qui sur les animaux se font un chimérique empire.' - E prossegue, até provar que o burro, o asno sequioso por sangue (devorador de ervas e outras plantas) é o mais adequado ao sacrifício. Posto o que, todos se atiram ao animal e o despedaçam. - Tal discurso não é mais do que pensamento em voz alta. A sucessão de ideias e os signos delas prosseguem lado a lado e convergem os actos mentais implicados por umas e por outros. Então, o discurso não é de maneira nenhuma impedimento; não é, como se poderia dizer, um travão da mente, mas antes uma segunda roda a girar paralela sobre o mesmo eixo.
(Tradução: AIS. A terceira e última parte está aqui. A sintaxe, por vezes estranha, é marca de Kleist.)
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
Ursprung, ou seja, "começo"
Ontem foi dia de palestra. Philip Ursprung sobre "land-art". Havia tempo que não pensava em Robert Smithson nem via imagens da Spiral Jetty. Enquanto seguia a voz de Ursprung e olhava para a espiral, fotografada de helicóptero, fugiu-me o pensamento para uma cena descrita no diário de David Wojnarowicz. Era sobre a urgência que sentia de fugir da cidade, de deixar Manhattan e de se meter numa paisagem industrial qualquer, afundado num lago até ao pescoço. Até a pele começar a engelhar e ele ter de regressar. Assim como quem se lembra, de repente, que está vivo.
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Stanford
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
Amantes pré-históricos
"Parece que estão abraçados há uns seis mil anos, Tiaga."
"Ah, sim? E não têm feito mais nada, este tempo todo?"
"Pois... Dir-se-ia que não."
"E chateias-me tu a meloa pela bela vidinha que levo ainda nem três anos há!"
"Ah, sim? E não têm feito mais nada, este tempo todo?"
"Pois... Dir-se-ia que não."
"E chateias-me tu a meloa pela bela vidinha que levo ainda nem três anos há!"
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007
SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA (I)
(Isto ainda há-de ser para corrigir. E há-de ir em três partes. O título do post é o título que Kleist deu ao ensaio.)
"Sempre que haja alguma coisa que queiras saber e pelo meditar não o consigas, o conselho que te dou, engenhoso e velho amigo, é que converses sobre o tema com o primeiro conhecido que encontres. Não terá de ser particularmente perspicaz, nem te digo que lhe peças a opinião, nada disso. Pelo contrário, deverás tu dizer-lhe de imediato o que é que queres saber. Vejo espanto no teu rosto. Ouço-te replicar que, em pequeno, te ensinaram a falar apenas daquilo que já entendesses. Nessa altura, porém, sem dúvida que te referias à educação dos outros - mas o meu desejo é que fales na sensata intenção de te educares a ti mesmo; assim, como se aplicam regras diferentes em circunstâncias diferentes, talvez se permita que sejam válidas as duas. Dizem os franceses que 'l'appétit vient en mangeant' e a máxima é igualmente verdadeira se a transformarmos em 'l'idée vient en parlant'. Quantas vezes já me sentei à secretária, perante documentos de algum caso difícil, e busquei o ponto de vista a partir do qual o tentasse agarrar. O meu hábito na altura, nesta ânsia do meu mais profundo ser pelo esclarecimento, é olhar para o candeeiro, como se olhasse para o ponto mais brilhante. Ou, se me ocorre um problema de álgebra e preciso de encontrar um ponto de partida, tenho de possuir a equação que exprima as relações determinadas e a partir das quais, por cálculo simples, possa encontrar a solução. Agora, pasma! Se disto falar com a minha irmã, sentada na mesma sala com o seu trabalho, aprenderei mais do que aquilo que talvez obtivesse depois de matutar horas a fio. Não significa que ela mo diga, de facto, pois não conhece o Código Penal, não estudou Euler nem Kästner. Nem sequer é por fazer perguntas inteligentes que me conduz ao centro da questão, embora muitas vezes, atrevo-me a dizer, isso deva ser feito. Mas porque possuo uma ideia vaga logo à partida, relacionada de longe com aquilo que ando a procurar, se me atrever a começar com ela, o meu pensamento, à medida que prossegue o meu discurso e pela necessidade de encontrar um fim para tal começo, dará forma à minha ideia inicialmente confusa e torna-la-á completamente clara; de tal maneira que, para meu espanto, atingirei a compreensão assim que chegar ao final da frase. Acrescento alguns sons desarticulados, demoro-me nas conjunções, talvez faça uso de aposições sempre que seja necessário, e posso recorrer a outros truques que agilizarão o discurso, tudo para ganhar o tempo de fabricar a minha ideia na oficina do pensamento. E, neste processo, nada me ajuda mais do que se a minha irmã fizer um movimento como se se preparasse para me interromper: tal tentativa, vinda do exterior, de arrebatar o pensamento àquilo a que se agarra excita ainda mais a minha ideia já de si muito trabalhada e, como um general em circunstâncias extremas, o seu poder eleva-se a um grau ainda maior. Para isto é que, no meu entender, Molière usava a sua criada; permitir que ela corrigisse com o seu o pensamento dele implicaria uma humildade de que desconfio ele não ter sido possuidor. Ė uma coisa estranhamente inspiradora ter à nossa frente um rosto humano enquanto falamos; muitas vezes, o olhar que anuncia que um pensamento meio exprimido já foi entendido dá-nos a expressão da metade que falta. Acredito que muitos grandes pensadores desconheciam, no momento de abrir a boca, o que iriam dizer. Mas a convicção de que seriam capazes de extrair todas as ideias necessárias das próprias circunstâncias e da excitação mental que gerariam deu-lhes a coragem para confiar na sorte e começar."
Heinrich von Kleist, escrito provavelmente entre 1805 e 1806. Publicado pela primeira vez em 1878. A versão inglesa que usei está neste livro; a castelhana, neste. Tradução: AIS.
(A meio da tradução, passeio pela blogosfera e encontro isto. Tinha de comentar...)
A ver se a gente se entende...
Já por algumas vezes o Reboliço tem reparado numa confusão que o arrelia. Hoje, em pesquisa pelo Google, voltou a encontrar o seu nome associado a "rebuliço", "bulício". Bem sabe que é diferença de uma vogal pequenina, mas aborrece-se... Se há coisa que o faz sair de onde estiver e ir procurar um cantinho sossegado é haver barulho, vozes altas balburdiantes, muito ruído e mexida. Mesmo quando é por festas, música e alegria, prefere olhar de longe e enroscar-se na sua barriguinha "reboluda". Bole pouco, o Reboliço.
terça-feira, 6 de fevereiro de 2007
Tanto, imenso (5)
A todo mundo eu dou psiu
Perguntando por meu bem
Tendo o coração vazio
Vivo assim a dar psiu
Sabiá vem cá também
Tu que anda pelo mundo
Tu que tanto já voou
Tu que fala aos passarinhos
Alivia a minha dor
Tem pena d'eu
Tens, por favor
Tu que tanto anda no mundo
Onde anda o meu amor
Sabiá . . . á
(Luiz Gonzaga)
Perguntando por meu bem
Tendo o coração vazio
Vivo assim a dar psiu
Sabiá vem cá também
Tu que anda pelo mundo
Tu que tanto já voou
Tu que fala aos passarinhos
Alivia a minha dor
Tem pena d'eu
Tens, por favor
Tu que tanto anda no mundo
Onde anda o meu amor
Sabiá . . . á
(Luiz Gonzaga)
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
Tanto, imenso (4)
Amarilli mia bella,
No[n] credi, o del mio cor dolce desio,
D'esser tu l'amor mio?
Credilo pur e se timor t'assale,
Prendi questo mio strale,
Aprimi il petto e vedrai scritto il core:
Amarilli é il mio amore!
(Giulio Caccini ouvido anteontem na Stanford Memorial Church)
No[n] credi, o del mio cor dolce desio,
D'esser tu l'amor mio?
Credilo pur e se timor t'assale,
Prendi questo mio strale,
Aprimi il petto e vedrai scritto il core:
Amarilli é il mio amore!
(Giulio Caccini ouvido anteontem na Stanford Memorial Church)
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
Sábado passado (Palo Alto)
(Comecei a usar o "Docs and Spreadsheets" do Google, que tem caracteres com acentos. Ainda nao descobri foi as cedilhas. "Nobody's perfect...")
Ora, o Sábado... Comecou antes, quando a Margaret (a eficientíssima secretária do Sepp), me disse que o marido tinha como hobby fazer as projeccões no cinema mais antigo de Stanford. Combinámos que ela me levaria à dita sala de cinema, que pediria ao Ernie (sim, o marido) que me mostrasse a cabina, a máquina, as bobines, essas coisas que adoro. Calhou ser no fim-de-semana em que passavam o Singing in the Rain (na versão portuguesa ficou Serenata à Chuva) mais o An American in Paris (ficou assim quase tal qual, em português). Já muitas vezes me disseram que nasci com o ditozinho virado para a lua, mas esta tarde foi especial. Nem sei por onde comece.
A sala abriu em 1925 - estão a ver a Califórnia em 1925? Imaginam uma cidade a seis horas de Hollywood em 1925? Pois eu também só tenho um niquinho da ideia do que teria sido. Traduzo alguns dados da página do Stanford Theatre, pois foram informacões que me deu o Ernie quando me fez uma visita guiada àqueles átrios, à cabina, à plateia. Em 1987, a fundacão do David Packard (o mesmo da HP, que isto é zona de riquezas da informática) comprou o edifício, procurou e encontrou fotos dos anos 20 e 30 do século passado, contratou especialistas em restauracão decorativa e fez o que se vê (numa amostrinha da plateia) aqui.
A sala é pura e simplesmente magnífica. (Só não vem em primeiro lugar na minha escala, porque ainda não recuperei do assombro de ver o Apocalypse Now! no Grand Rex em Paris, enfim...) Tem um átrio assim para o discreto, mas com frescos lindos, e uma sala contígua, de exposicões, onde se mostram cartazes de filmes dos tais anos 20, 30, 40, 50, a colheita vintage desta região.
Agora a cabine. Ai, a cabine... Anabela, eu pensava que te fazia inveja quando te disse do L'Atlantide (a propósito, has-de checkar a caixa que saiu, com três do Jacques Feyder). Qual nada! Queria era que viesses ver esta cabine, estas máquinas! Talvez algum crente fervoroso sinta arrepios assim numa catedral de Santa Sofia, ou num qualquer santuário devoto. Não foi tanto a monumentalidade (a cabine não é muito grande), mas a presenca do tempo, do outro tempo, em que primeiro se mostraram ali os filmes, em que o projeccionista ouviu dali, a espreitar pela janelinha pequenina, como deve ser, a plateia a rir, chorar, a suspirar. Foi o tempo, não tanto o tamanho dos artefactos. Tirei fotos, sim, mas não as consigo agora deixar aqui, nem mostram o que vi (diria o Reis, "todas mentem").
São duas as máquinas de projectar (mais altas que o tamanho de um homem), para não haver pausa entre bobines. As bobines são mais pequenas do que as que usamos na Europa - têm cerca de um terco do tamanho, levam no máximo meia hora de filme. Por cada filme, usam-se mais ou menos umas quatro bobines. A fonte de luz - tcharam! - é uma lâmpada de arco de carbono (traduzo à letra do inglês, mas podem ver uma imagem aqui). Se calhar é coisa já vista por muita gente, mas esta que vos escreve nunca se tinha imaginado perante tal fenómeno. O bom do Ernie dizia-me, numa voz pausada, calmo, "Esta lâmpada é mais forte do que as que agora se usam, por isso faz com que a imagem projectada seja mais nítida, mais luminosa, mais transparente." Pobres palavras inocentes... Quem conhece o filme sabe (Gilberto, Isa, LM, Anabela, Mirian, Gracinha, Cris, e só digo os fãs-fãs!) como é luminosa a sua cor, transparente a vida nele, nítidos os contrastes, os encarnados, os amarelos, os violetas (Deus!, os violetas!...). Eu conhecia o filme, sim. Vira-o uma vez na Cinemateca em Lisboa e, depois disso, vezes sem conta em DVD. Mas hoje sei que nunca os meus olhos tinham visto o Singing in the Rain. Ok, ok, deixem lá que exagere - não é para menos, a experiência foi inesquecível.
Os lápis do dito carbono que alimentam agora as máquinas do Stanford Film Theatre são os últimos fabricados nos EUA. O Ernie já lá tem abastecimento novo, vindo da ĺndia, onde ainda muitas salas usam estas lâmpadas (e compreende-se, também por isto, a magia das cores no cinema indiano). Em suma, vi a luz...
(Já agora, roam-se com o que poderei ver nos próximos fins-de-semana. E, claro, espreitem também o programa de Fevereiro do CCF ;-) )
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Stanford
Obrigada, Aninhas! ;-)
"Hoje vai ser finalmente inaugurado o mercado de Loulé! vai haver música e foguetes e tudo!"
("Bolas!...", pensa o Rebolico, "Agora que estou longe e' que se lembram de fazer a festa. Seja pelo melhor, apesar das alteracoes ao aspecto do mercado. Aqueles minaretes nao me convencem." O Rebolico pensa sempre em Loule como terra de festa: das janelas da casa via a banda a passar, as majoretes, o andor da Mae Soberana, o corso do Carnaval, os ciclistas... Ai que saudades, que saudades...)
("Bolas!...", pensa o Rebolico, "Agora que estou longe e' que se lembram de fazer a festa. Seja pelo melhor, apesar das alteracoes ao aspecto do mercado. Aqueles minaretes nao me convencem." O Rebolico pensa sempre em Loule como terra de festa: das janelas da casa via a banda a passar, as majoretes, o andor da Mae Soberana, o corso do Carnaval, os ciclistas... Ai que saudades, que saudades...)
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
No chat do Gmail, com o mano (ja tinha soidades)
1. Mano: (sabes, 'tive a pensar, se calhar, se eu for já adiantando assim umas "conversas" parvas, tipo daquelas dos velhos, que não se percebe nada mas eles acreditam muito naquilo, se calhar, depois quando chegar a altura tenho conversas melhores, tipo alzaimér ao contrário)
2. Mano: Comprei um casaquinho de pôr.
Me: De pôr onde?
Mano: nos braços e nas costas e nos ombros, e no armário, ao colo quando se anda de comboio, por baixo de um cão quando estiver coçado, por cima do chão molhado, enquanto seca, quando for um farrapo, no lixo, quando já não der mesmo para mais nada, enfim, de pôr
Me: Ah, sim, já sei quais são.
2. Mano: Comprei um casaquinho de pôr.
Me: De pôr onde?
Mano: nos braços e nas costas e nos ombros, e no armário, ao colo quando se anda de comboio, por baixo de um cão quando estiver coçado, por cima do chão molhado, enquanto seca, quando for um farrapo, no lixo, quando já não der mesmo para mais nada, enfim, de pôr
Me: Ah, sim, já sei quais são.
terça-feira, 30 de janeiro de 2007
Sexta-feira passada (Monterey)
....Foi a segunda vez que saí de Palo Alto desde que aqui cheguei. Alinhei, de novo, com o Eelco - é boa companhia, não quer que eu conduza (ok, isso às vezes aborrece-me um bocadinho, vá...) e sempre ficam o carro e a gasolina por metade do preço. Na nossa saída anterior, tínhamos ido até Point Reyes. Íamos com intenção de ver baleias, desde o farol, mas chegámos lá uns míseros vinte minutos depois do último autocarro que levava ao farol propriamente dito. Com a estrada inacessível aos automóveis particulares, maldissemos a nossa sorte (muito bendita, aliás, depois de uma paragem para uma caminhada breve em Muir Beach e para um almoço repimpado em Stinson Beach) e retomámos a tortuosa estrada de regresso a PA. O sítio (Point Reyes) é lindíssimo, seja como for. (Fez-me lembrar certas paisagens dos Açores.)
....Desta vez, então, rumámos a Sul. Escolhi eu o lugar, não me desviei da toponímia real e fomos a Monterey. Íamos também ver baleias, mas o último barco saía à uma da tarde e a essa hora estavámos nós refastelados num restaurante sobre a marina de Monterey a comer umas belas tortilhas de camarão e a gozar com uma lontra marinha que se enrolava sobre si mesma dentro da água suja do óleo dos barcos e rodeada por gotas grossas da chuva que ia caindo. Implorei ao Eelco que não ficasse de mau humor com a contrariedade, e lembrei-me que a Diana (a minha senhoria, foto dela com o seu Mustang negro aqui) dissera que o Aquarium de Monterey valia uma visita. Valeu, sim senhora (querem fotos de alforrecas? Vão aqui.)
....As viagens de automóvel (foram mais de 400km) dão para uma pessoa ter uma impressão fugidia dos lugares. Retive a imagem de algumas árvores de tronco larguíssimo, que escureciam de repente a estrada, das ondas a misturarem-se com o cinzento da chuva a cair sobre o mar, na Highway 1, de caixas de correio descoloridas e gastas em sítios ermos, ao lado de carcaças de velhos automóveis. (Fiquei a pensar onde estarão os americanos que construíram estas estradas no meio das montanhas, ansiosos por chegarem ao mar. Serão os despojados das cidades novas, os vagabundos que se sentam nas paragens de autocarro, vestidos com dois ou três pares de calças, cordel de sisal a fazer de cinto, empestados nos bancos dos jardins? Eram deles os carrinhos de mão encostados, de borco, às paredes de madeira apodrecida nestas casas fora de cidade, subúrbio, zona de compras?)
....Desta vez, então, rumámos a Sul. Escolhi eu o lugar, não me desviei da toponímia real e fomos a Monterey. Íamos também ver baleias, mas o último barco saía à uma da tarde e a essa hora estavámos nós refastelados num restaurante sobre a marina de Monterey a comer umas belas tortilhas de camarão e a gozar com uma lontra marinha que se enrolava sobre si mesma dentro da água suja do óleo dos barcos e rodeada por gotas grossas da chuva que ia caindo. Implorei ao Eelco que não ficasse de mau humor com a contrariedade, e lembrei-me que a Diana (a minha senhoria, foto dela com o seu Mustang negro aqui) dissera que o Aquarium de Monterey valia uma visita. Valeu, sim senhora (querem fotos de alforrecas? Vão aqui.)
....As viagens de automóvel (foram mais de 400km) dão para uma pessoa ter uma impressão fugidia dos lugares. Retive a imagem de algumas árvores de tronco larguíssimo, que escureciam de repente a estrada, das ondas a misturarem-se com o cinzento da chuva a cair sobre o mar, na Highway 1, de caixas de correio descoloridas e gastas em sítios ermos, ao lado de carcaças de velhos automóveis. (Fiquei a pensar onde estarão os americanos que construíram estas estradas no meio das montanhas, ansiosos por chegarem ao mar. Serão os despojados das cidades novas, os vagabundos que se sentam nas paragens de autocarro, vestidos com dois ou três pares de calças, cordel de sisal a fazer de cinto, empestados nos bancos dos jardins? Eram deles os carrinhos de mão encostados, de borco, às paredes de madeira apodrecida nestas casas fora de cidade, subúrbio, zona de compras?)
Ultra desactualizado!
O Reboliço revolve-se todas as noites na cama, a pensar como é que há-de fazer para actualizar mais amiúde as cartas. Tal como estão, já tem um caixote de papéis para transcrever. É que foi Sexta, foi Sábado, foi Domingo, e já hoje houve assunto para Cartas... Hoje ao almoço, o fortune-cookie disse-lhe que a paciência é agora a sua maior aliada. E o Reboliço foi sempre um crente inveterado em fortune-cookies.
segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
quinta-feira, 25 de janeiro de 2007
Entretanto, o mano...
... deve andar pelo Porto e por Montemor-o-Velho, para a apresentação do livro de Gabriele Basilico (e mais uns quantos "artistas"), Arquitectura em Portugal. A primeira apresentacao e ja hoje, quinta-feira.
"A Dafne Editora vai fazer duas pequenas festas de lançamento/apresentação do livro Arquitectura em Portugal de Gabriele Basilico (já em circulação desde Novembro) e teria um grande prazer em contar com a sua presença.
Os eventos terão lugar no dia 25 de Janeiro pelas 22 horas, na Fnac do Gaiashopping, uma sessão de apresentação do livro por André Tavares e comentário crítico de José Capela, e no dia 27 de Janeiro, na Galeria Municipal de Montemor-o-Velho pelas 16 horas, numa sessão de debate com a participação de Luís Marques Real (Presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho), José António Bandeirinha (arquitecto), João Soares (co-comissário da exposição Desenho nas Cidades), Júlio Sousa Gomes (quarteirão das artes) e Miguel Figueira (arquitecto).
Este livro resulta dos conteúdos da exposição apresentada na V Bienal de Arquitectura de São Paulo, Desenho nas cidades, arquitectura em Portugal, comissariada por Álvaro Siza, com fotografia de Gabriele Basilico. Centrado em 5 lugares, Porto, Montemor-o-Velho, Idanha-a-Velha, Évora e Lisboa, apresenta obras de Eduardo Souto de Moura, Adalberto Dias, Fernando Távora, OMA – Rem Koolhaas e Ellen Van Loon, GTL Montemor-o-Velho (coordenação Miguel Figueira), Atelier 15 (Alexandre Alves Costa, Ségio Fernandez, José Luís Gomes), Vítor Figueiredo, Álvaro Siza, Gonçalo Byrne e João Luís Carrilho da Graça.
FNAC Gaiashopping, Quinta-feira 25 de Janeiro, 22 horas.
Galeria Municipal de Montemor-o-Velho, Sábado 27 de Janeiro, 16 horas.
Pode encomendar o livro através da página Dafne no endereço www.dafne.com.pt"
"A Dafne Editora vai fazer duas pequenas festas de lançamento/apresentação do livro Arquitectura em Portugal de Gabriele Basilico (já em circulação desde Novembro) e teria um grande prazer em contar com a sua presença.
Os eventos terão lugar no dia 25 de Janeiro pelas 22 horas, na Fnac do Gaiashopping, uma sessão de apresentação do livro por André Tavares e comentário crítico de José Capela, e no dia 27 de Janeiro, na Galeria Municipal de Montemor-o-Velho pelas 16 horas, numa sessão de debate com a participação de Luís Marques Real (Presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho), José António Bandeirinha (arquitecto), João Soares (co-comissário da exposição Desenho nas Cidades), Júlio Sousa Gomes (quarteirão das artes) e Miguel Figueira (arquitecto).
Este livro resulta dos conteúdos da exposição apresentada na V Bienal de Arquitectura de São Paulo, Desenho nas cidades, arquitectura em Portugal, comissariada por Álvaro Siza, com fotografia de Gabriele Basilico. Centrado em 5 lugares, Porto, Montemor-o-Velho, Idanha-a-Velha, Évora e Lisboa, apresenta obras de Eduardo Souto de Moura, Adalberto Dias, Fernando Távora, OMA – Rem Koolhaas e Ellen Van Loon, GTL Montemor-o-Velho (coordenação Miguel Figueira), Atelier 15 (Alexandre Alves Costa, Ségio Fernandez, José Luís Gomes), Vítor Figueiredo, Álvaro Siza, Gonçalo Byrne e João Luís Carrilho da Graça.
FNAC Gaiashopping, Quinta-feira 25 de Janeiro, 22 horas.
Galeria Municipal de Montemor-o-Velho, Sábado 27 de Janeiro, 16 horas.
Pode encomendar o livro através da página Dafne no endereço www.dafne.com.pt"
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Mano
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
Ver o feltro
A mana e mais outras moças muito jeitosas de mãos mostram trabalhos seus feitos em feltro. A exposição já está na Casa da Cultura de Loulé, ali em frente à Câmara, visitável até 9 de Fevereiro. Foto mais tarde (sim, mana?).
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Mana
Continua o saque...
... de fotografias ao Eelco. Desta vez, para verem o Lane, dono da casa onde dormi os primeiros quatro ou cinco dias nesta Munchkinland. É bom tipo - na Sexta-feira passada levou-me a um restaurante português em San Jose. Nem vos conto... (Vá, uma pistazinha: de vinhos verdes, tinham Casal Garcia e Aveleda. Ok?)
Sweet Wicker
O Reboliço rende-se às evidências: não há melhor para curar saudades do que enganá-las com a companhia canina da Wicker. Ok, poderia ser outro canídeo qualquer. Mas esta cadela tem o seu quê de felina, na maneira carolíngea (manos!) como olha para o ar tristonho do Reboliço e lhe diz "O pá, mas que cena é essa? 'tás armado em parvo ou que? Vê mas é por onde andas, que o meu lugar favorito é umas ruas abaixo e ainda nem saímos do quarteirao. Anda, mexe-te. Tenho mais que fazer e a bexiga ainda cheia..."
A alma e o sentimento
Na magnífica novela Michael Kohlhaas, quando a personagem, enraivecida pela injustica social, está prestes a decidir-se pela vingança e a abandonar a sua conduta até ali exemplar, diz o narrador: "Esta era a primeira vez que a sua alma, bem educada pelo mundo, se preparava para suportar algo que não estava de acordo com os seus sentimentos." Grande Kleist.
segunda-feira, 22 de janeiro de 2007
Cenas Vivas; ou Moinhos na Poesia (9)
Só hoje o Reboliço soube da morte de Fiama Hasse Pais Brandão. Procurou entre os seus poemas, recordava-se vagamente de haver uma referência a algum moinho. É um "moinho de pás", mas um moinho. Num livro muito adequadamente chamado Cenas Vivas (de 2000).
Aquela saia roda
como o topo do moinho de pás,
o que em mim confirma agora
que o vento me reveste.
*
Quando depois do nascimento me vestiram,
a roupa então em mim resplandeceu.
Mas estava nua, sem cambraia
ou a memória simples dela nos sentidos.
Nua e solene, com a roupa alheia
em tomo do meu corpo. E ignorava
valor, matéria e as pompas
que entregam roupas e versos ao comércio.
Acreditava só que o gesto amado
de me cobrirem de panos ao nascer
seria a minha glória
*
O pequeno velo de roupa é
o da imaginação. Vestiram-me
para me velar, como janelas afloram
nas casas ou como a palha envolve
medas. As escassas vestes
nas montras eram também
sinais da imaginação. E a linha
nas mãos da costureira assim
imaginada era.
*
Tão devagar cosia pelo traço do giz
a máquina que os pés moveram balançando
quanto os meus olhos devagar seguiram
o traçado dos pontos e o meu espanto
de ver a ordem surgir dos riscos soltos.
O rosto atento caía sobre o pano
que pouco a pouco me tomava a forma
do meu corpo tocado pela luxúria
de tão belos cetins, veludos
inverosímeis e, como tudo o que
a memória gera, fontes de dores.
*
O tépido calor cobre-me
por fora de tules em flor.
As folhas do loureiro ridentes
assemelham-se ao meu vestido
de verde cassa. Agradeço, pois, às bocas
de parentes os nomes ditos.
*
Todas as roupas usadas
próprias do Verão são aquele
vestido único, porque me haviam dito
que ao entrar pelos olhos
ele me cobria de fulgor.
*
Com a saia de tobralco leve passei
entre as nossas hortas, águas do poço,
coisas da quinta tão diversas todas.
E amei cada um dos vários nomes,
e também as palavras especiosas
que na retrosaria designam o belo fio
e aquelas que me mostravam os tecidos
em sequências de alucinações novas.
Saudades do moinho
O Reboliço quase (quase...) chorou ao ver as fotos que o Nikonman lhe mandou deste Domingo no moinho. Coisa linda, ai ai...
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
Revelações
et quomodo invocabo deum meum, deum et dominum meum, quoniam utique in me ipsum eum vocabo, cum invocabo eum? et quis locis est in me quo veniat in me deus meus, quo deus veniat in me, deus qui fecit caelum et terram? itane, domine deus meus?
(das Confissoes)
Iluminações
Ontem foi o primeiro dia de três dedicados a discutir questões de teologia (e) política na Idade Média. A primeira comunicação foi de Richard Harrison, uma espécie de tornado à vida, depois de um ataque de coração que praticamente o levou. Custa-me ainda crer no fulminante desse ataque, depois de o ver tão capaz e tão vivo ali a discursar, a discorrer com a clareza e a claridade dos iluminados geniais, sobre Dante, repúblicas, imperialismo político e religioso e as lições que podemos tirar para o presente de um passado cheio de ensinamentos. Só esta manhã lhe agradeci de voz viva pelo que disse e pelo modo como o disse.
Houve mais gente clara ao longo do dia longo, do dia que haveria de me deixar quase esgotada. Digo quase esgotada porque, no final, a perspectiva de ainda ter mais umas duas horas de discussão filosófica, desta feita sobre o pensamento de Pascal, começava a pesar-me. A única razão por que acabei por ir à reunião semanal do Grupo de Leitura de Filosofia foi que seria apresentada por Michel Serres, numa oportunidade que me pareceu imperdível de ouvir um especialista a falar sobre Pascal. Aconteceu, então, aquilo que só os génios conseguem causar (já sei, é a terceira ou quarta vez que uso "génio"... mas génios são génios, nada a fazer...) - às primeiras palavras de Serres, senti-me como se estivesse a despertar naquele momento; o cansaço foi-se, abria-se outra vez o céu de um conhecimento novo, de uma perspectiva brilhante e linda. Serres é um homem daqueles que não se esquece. Fez com que entendesse tão distintamente a razão de Pascal, as dúvidas, a grande transformação de um mundo noutro, de uma visão do Homem noutra, diferente, aquela em que hoje me reconheço. Diria, escreveria mais, se não soubesse serem diminutas estas palavras com que agora registo o que ontem ouvi.
Deixo de Serres duas "anedoctes", episódios, "fait-divers". Uma, contada por ele, revela bem a sua humildade e o génio humano (sim, está bem); contou-a na sequência de não saber a resposta a uma pergunta que lhe fizeram. Disse que uma vez um pequeno neto seu, chamado Raphaël, lhe pediu "Pépé, récite-moi le Pokemon". Responde-lhe o avô (coitado...), "Je peut te réciter la table des elements chimiques, par coeur, certains poèmes, mais pas - je suis désolé... - pas le Pokemon". É quando o puto lhe retorque "Voila, Pépé, tu ne sais pas tout!"
Segundo episódio: depois de o Sepp ter insistido por duas vezes que havia na sala uma portuguesa (éramos quarenta criaturas a ouvir o Professor), achei que deveria fazer uma pergunta a Serres. Era uma maneira de lhe mostrar gratidão e respeito. Dei o melhor que soube (perguntei-lhe pela teoria do equilíbrio e por se haveria em Pascal lições sobre harmonia musical, enfim...) e ele deu-me a resposta que também pôde (que a teoria do equilíbrio tinha sofrido evoluções históricas extraordinárias, desde Aristóteles, que "equilíbrio" em Pascal não significa necessariamente harmonia, entre o que mais não cabe aqui nem agora). Já fora da sala, dirigi-me a ele para o cumprimentar e agradecer-lhe o que ouvira. Agarrou a minha cabeça entre as suas mãos (tem as mãos grandes e cheias de rugas, mas muito macias) e beijou-me a testa. Ria e dizia-me "C'est toi la portugaise! Merci!, Merci!" Depois disse-me que estivera em Lisboa três semanas antes, que aquela cidade o animava como nenhuma outra. Eu estava ali e era como Lisboa. Depois de aquele homem me ter feito sentir como uma formiguinha a contemplar a pirâmide de Gizé.
terça-feira, 16 de janeiro de 2007
Tanto, imenso (3)
Love me
love me
love me
Say you do
Let me fly
away
with you
For my love is
like the wind
And wild is the wind
Give me more
than one caress
Satisfy this
hungriness
Let the wind
blow through your heart
For wild is the wind
You...
touch me...
I hear the sound
of mandolins
You...
kiss me...
With your kiss
my life begins
You're spring to me
All things
to me
Don't you know you're
life itself?
Like a leaf clings
to a tree
Oh my darling,
cling to me
For we're creatures
of the wind
And wild is the wind
So wild is the wind
Wild is the wind
Wild is the wind
love me
love me
Say you do
Let me fly
away
with you
For my love is
like the wind
And wild is the wind
Give me more
than one caress
Satisfy this
hungriness
Let the wind
blow through your heart
For wild is the wind
You...
touch me...
I hear the sound
of mandolins
You...
kiss me...
With your kiss
my life begins
You're spring to me
All things
to me
Don't you know you're
life itself?
Like a leaf clings
to a tree
Oh my darling,
cling to me
For we're creatures
of the wind
And wild is the wind
So wild is the wind
Wild is the wind
Wild is the wind
(Música composta por Dimitri Tiomkin e Ned Washington. Cantada primeiro por Johnny Mathis em 1957 e depois, entre outros, por Nina Simone em 1966, David Bowie em 1981 e Cat Power em 2000.)
Aha! Já pensavam que isto tinha morrido, não?
Pois é, o Moinho pode dobrar - porque o Reboliço não tem computador na casa onde está (diz a Diana, a senhoria "You must be the only one in the whole Bay Area without a PC!"), ou porque o Blogger quer à força que isto passe a BetaBlogger, mas quando o Reboliço tenta não dá - mas, para quebrar, há-de ser cedo!...
As notícias são:
1. Está um frio de rachar e fazer perder laranjas e outros citrinos, coisas boas aqui da zona (e garanto-vos que os produtos desta região são mesmo como se publicitam: com o tanto sol que apanham e bons ares, a fruta e os legumes são saborosos à antiga);
2. Finalmente, Sexta passada consegui encontrar casa onde ficar. Não tardou a saber que estava numa casa Eichler, coisa de estalo, melhorada ainda mais pelo facto de a senhoria guiar um Ford Mustang de 1965, onde já me levou a conhecer todos os supermercados da zona. O pessoal que mora nestas casas tem-se queixado do frio, ultimamente (pudera...), mas a casa onde estou tem aquecimento no chão, o que a torna muito habitável. O pior é durante os passeios matinais com a Wicker, a cadela. Até se me queimam as narinas por dentro! A Wicker é uma espécie de galgo de Ibiza (não sei se é assim que se chama em português), mas faz vida de gato. Só revela a sua "canidade" quando persegue os esquilos na rua. Aí, sim, é cão a sério e faz o Reboliço orgulhar-se de a levar pela trela.
3. Domingo fui com o Eelco passear a Point Reyes. O Eelco reservara um carro dos mais baratuchos, mas quando foi à agência de aluguer, deram-lhe um da categoria acima, pois tinham esgotado os económicos. Ou seja, lá vai o Reboliço, de cu tremidinho, como gosta, arrelampado no banco dianteiro de um... Ford Mustang de 2006! Fotos do bólide e da passeata domingueira aqui (e mais umas do jantar com o grupo de filosofia, Quinta passada).
Ui, que fomeca, Reboliço! Xau, logo venho!
quarta-feira, 10 de janeiro de 2007
Eelco Runia
Pode parecer o nome de uma companhia petrolífera, ou assim de um medicamento qualquer, mas é como se chama o professor holandês que vive este semestre na casa onde ocupei a parte de baixo de um beliche, por simpatia do senhorio e enquanto procuro poiso mais certo. Diz que não entende nada de blogues, o Eelco, e que só começou a escrever o seu por insistência do filho, para ir dando regularmente notícias. Começou o blogue em Dezembro, quando veio para cá, e agora já não quer outra coisa. Escreve em neerlandês (uma ou outra vez cita em inglês), por isso se calhar só Mr Pedro (you know who) entenderá aquele arrazoado. Mas olhem, tem bonecos! Num deles aparece yours truly e até se menciona o moinho (fica um som esquisito, windmolens).
Da terra dos Munchkin
De conversa com o mano, expliquei-lhe que sim, que aqui também havia "esquilos" como encontrara em 94, da primeira vez que pisei solo americano. Ele quisera saber se havia aqui em Stanford "esquilos-leitores" como os que atravessavam a sala de poesia da biblioteca de Dartmouth College, zuniam sobre os cadeirões, os braços e as cabeças dos leitores e saíam disparados para o grande carvalho em frente a porta. A seguir, esclareci-o: não são bem-bem esquilos-esquilos, mas chipmunks, um sub-género da família dos esquilos. Não houve maneira - "A sério?! Então mas isso é tramado! Uma grande desilusão, tipo aquela de sair o Euromilhões mas sem a parte do receber*! A última vez que tive uma assim tamanha desilusão foi quando soube que Plutão não era planeta e que o Pauleta era rabeta!" (*Esta roubou-a aos mocinhos do Gato Fedorento.) Guarde-se lá mas é o decoro, que o mano só deve ter escrito aquilo para rimar...
terça-feira, 9 de janeiro de 2007
Primeiras impressões
Quando cheguei a estas terras a primeira vez, há quase treze anos, só conheci a costa leste. Impressionaram-me os passeios largos de cimento liso e o tamanho dos automóveis. Nem a altura dos prédios me deixou uma ideia tão forte de diferença como a dimensão dos carros e camiões. Na costa oeste, que conheço agora, impressionou-me o facto de muitos dos edifícios terem telhados de telha. Além da origem da maioria dos funcionários que lidam com o público: sao quase todos orientais.
Ao telefone
"Hello, operator. I'm calling Portugal. Could you put me through?"
Who would you like to call, sir?
"(Uau!, 'sir'!...) I'd like to call Tiaga. (Quem mais havia de ser?)"
Hold on a second, sir. your call is being processed.
"(Nesta terra só me mandam segurar uns segundos...)"
"Sim? Está lá?..."
"Tiaga? Tiaga??? Tiaga!!! Tiaga!..."
"És tu, Rebolico?"
"Sim, sim!!! Sou eu! Ena, gandas saudades!..."
"Até parece... Então? Onde é que estás?"
"Ora, estou aqui. És mesmo parva."
"Vá, diz lá o que é que queres, que tenho mais que fazer."
"Nada - era só para saber se estás bem. O Goldmundo tem-te tratado como deve ser?"
"Ai, Rebolico, sim! Que coisa, então não havia de me tratar bem? Só para que saibas: passo os dias a lavar-me e a dormir, como que nem uma princesa. De noite, exploro-lhe a casa, isto se não estiver muito fatigadinha... É bem fixe."
"Cool, como se diz por aqui. Ouve lá, e já sabes da Maia?"
"Maia? Quem? A abelha?"
"Não, parva. Maia, a cadela."
"Hum... Uma cadela... O que é que há a saber sobre uma cadela?"
"Pensei que já a conhecesses. Havemos de passar muito tempo juntos. Um dia destes, mostro-te a pinta da bicha."
"Hum... Se é cadela, tanto me faz. Não deve chegar para ensombrar a minha beleza."
"Às vezes, Tiaga, às vezes... fazes perder a paciência a um cão-santo, quanto mais a quem é cão-pecador!..."
You have one minute left for your call, sir.
"Olha, está a acabar o tempo. Diz-me só se ficas bem."
"Sem ti por perto? Do melhorio! Saudinha, Rebolico, saudinha! (E volta depressa, meu canito...)"
"O que foi que disseste?"
"Nada, nada. Até depois."
"Até, Tiaga. Cheirinho*..."
(*Inspirado na mana Rosa.)
Who would you like to call, sir?
"(Uau!, 'sir'!...) I'd like to call Tiaga. (Quem mais havia de ser?)"
Hold on a second, sir. your call is being processed.
"(Nesta terra só me mandam segurar uns segundos...)"
"Sim? Está lá?..."
"Tiaga? Tiaga??? Tiaga!!! Tiaga!..."
"És tu, Rebolico?"
"Sim, sim!!! Sou eu! Ena, gandas saudades!..."
"Até parece... Então? Onde é que estás?"
"Ora, estou aqui. És mesmo parva."
"Vá, diz lá o que é que queres, que tenho mais que fazer."
"Nada - era só para saber se estás bem. O Goldmundo tem-te tratado como deve ser?"
"Ai, Rebolico, sim! Que coisa, então não havia de me tratar bem? Só para que saibas: passo os dias a lavar-me e a dormir, como que nem uma princesa. De noite, exploro-lhe a casa, isto se não estiver muito fatigadinha... É bem fixe."
"Cool, como se diz por aqui. Ouve lá, e já sabes da Maia?"
"Maia? Quem? A abelha?"
"Não, parva. Maia, a cadela."
"Hum... Uma cadela... O que é que há a saber sobre uma cadela?"
"Pensei que já a conhecesses. Havemos de passar muito tempo juntos. Um dia destes, mostro-te a pinta da bicha."
"Hum... Se é cadela, tanto me faz. Não deve chegar para ensombrar a minha beleza."
"Às vezes, Tiaga, às vezes... fazes perder a paciência a um cão-santo, quanto mais a quem é cão-pecador!..."
You have one minute left for your call, sir.
"Olha, está a acabar o tempo. Diz-me só se ficas bem."
"Sem ti por perto? Do melhorio! Saudinha, Rebolico, saudinha! (E volta depressa, meu canito...)"
"O que foi que disseste?"
"Nada, nada. Até depois."
"Até, Tiaga. Cheirinho*..."
(*Inspirado na mana Rosa.)
domingo, 7 de janeiro de 2007
Passagem por NY
O que teve de espantoso esta passagem breve por NY foi a cidade estar como às vezes nem na Primavera: temperaturas acima dos 16 graus, céu azul com algumas nuvens só a enfeitar, uma alegria nas ruas. Pode-se entrar nos restaurantes e deixar a porta aberta, não ficam as cadeiras atafulhadas de casacos, luvas, cachecóis, gorros e outros aquecedores da época, cruza-se a gente com joggers de calções e manguinha à cava e as flores dos canteiros* são visíveis em todas as cores, já não só no branco da neve ou no cinzento das geadas. É uma cidade linda e estranha, assim. Em mim, reforça ainda mais a ideia de que passarei este interregno na terra dos Munchkins. Quando regressar ao meu Kansas, será como acordar de novo para a vida.
(*Só está disponível por subscrição, mas a edição deste fim-de-semana do Wall Street Journal traz um artigo de Bart Ziegler sobre "Climate-Change Gardening", que é como quem diz "Jardinagem para os alterados tempos que já cá estão".)
sexta-feira, 5 de janeiro de 2007
Do lado de cá do moinho
Quando o Reboliço regressava para perto do avô, depois de visitar terras longínquas, sentava-se, entusiasmado, a contar-lhe tudo o que vira. O avô escutava-o, atento, as duas mãos uma sobre a outra, o queixo sobre o cajado, muitas vezes de olhos fechados. No fim dos relatos, abria os olhos e perguntava-lhe: "E o sol que lá viste, como era?", ao que o Reboliço, invariavelmente, respondia que era igual, igualito ao do Moinho. Então, o avô fazia um suspiro ligeiro com o corpo todo. Como se dissesse "Estou mais descansado."
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Moinho
quinta-feira, 4 de janeiro de 2007
De malas aviadas
- Com que então, de abalada..., disse a Tiaga ao Reboliço. - Por isso andavas tão misterioso... E agora, como vai ser?
- Olha, respondeu-lhe o canito. - Toma bem conta de tudo. Eu darei notícias. Terás é que te habituar outra vez à falta de acentos e cedilhas. Sabes, Tiaga, o tempo é coisa pequena, como isso de acentuar as palavras. A gente sentes-lhe a falta, se os acentos não estão, mas entende-se à mesma as palavras. Coisa pequena, sabes?
- Sei. Ontem disse-me a menina de olhos de osga que era um abrir e fechar de olhos. Se for dos dela, abrem-se e fecham-se num instantinho. Quando os reabrir, vê-los-ei grandes, verdes e redondos como só aqueles. (Mas volta depressa, Reboliço, volta depressa, que terei saudades tuas.)
- Olha, respondeu-lhe o canito. - Toma bem conta de tudo. Eu darei notícias. Terás é que te habituar outra vez à falta de acentos e cedilhas. Sabes, Tiaga, o tempo é coisa pequena, como isso de acentuar as palavras. A gente sentes-lhe a falta, se os acentos não estão, mas entende-se à mesma as palavras. Coisa pequena, sabes?
- Sei. Ontem disse-me a menina de olhos de osga que era um abrir e fechar de olhos. Se for dos dela, abrem-se e fecham-se num instantinho. Quando os reabrir, vê-los-ei grandes, verdes e redondos como só aqueles. (Mas volta depressa, Reboliço, volta depressa, que terei saudades tuas.)
Língua Bífida
É o nome de um novo blogue do Pedro Afonso, um dos (senão o mais) responsáveis pelo Ler Alto. Poeta à séria.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2007
Chão de tijoleira
O chão do quarto do avô é de uma tijoleira velha, muito esburacadinha e velha. É mais do que porosa. Tem a cor da terra e é má de varrer que só visto. Mas é o chão do quarto do avô. Foi esse chão que pisei, um dia de muitos. Tinha chegado ao monte era já manhã avançada e estranhara não ver o avô a pé. (Quando entrei na cozinha, o Reboliço, deitado à lareira, só abanou a cauda um bocadinho.) Disse-me a avó que ele estava “ali para o quarto, hoje não se quer erguer.” “Posso ir lá vê-lo?” “Vai, vai lá que ele ainda está deitado.” Encontrei-o sentado na cama, cabisbaixo. Não sei se tinha os olhos fechados, mas todo o rosto olhava o chão, a tijoleira já gasta. O cajado ainda estava encostado à cabeceira. Levantou a cabeça só o suficiente para me dar um sorriso pálido. “Então, avô? O que se passa hoje?” “Ai, filha...”, começou, com a voz triste. “Às vezes entra-me uma paixão pelo organismo...” Foi quanto bastou para me fazer rir, ele olhar para mim, os olhos sorrirem-lhe e passarmos adiante. Para mais aquele dia, para a vida.
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Moinho
segunda-feira, 1 de janeiro de 2007
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