segunda-feira, 16 de abril de 2007

Canito q.b.

O primo António recordou este episódio.

Um dia, finais da década de 70, algum tempo depois de o avô ter em casa o Reboliço, o tio Luís (o "mano velho") levou para o moinho um cão grande. Há-de ter-lhe dito que o moinho precisava de guarda mais robusto, mais visível. O avô terá olhado para o bicho de alto a baixo (o que, estando sentado à porta com o cão parado à sua frente, teria sido mais de baixo a baixo), terá olhado para longe e respondido: "Isso é cão demais p'ra mim. Tem avondo com o meu Reboliço." Depois desta conversa, ergueu-se e entrou no moinho. Atrás dele seguiu, fiel, a esquila do canito.

sábado, 14 de abril de 2007

A avenida do pôr-do-sol

Sunset Boulevard é o nome de um dos meus filmes favoritos da década de 50 (alô, Gracinha!). Mais favorito do que o filme, com o mesmo nome, só a avenida longa, da parte oeste de Los Angeles, por onde caminharam ao luar as almas destrambelhadas de James Douglas Morrison e Ray Manzarek, onde decidiram o nome da banda e alguns dos sons que viriam a aparecer no primeiro disco, fez este princípio de Abril 40 anos.
Ouço as canções naquela voz, as teclas de Manzarek, o baixo de Krieger e a bateria de John Densmore. Lembro-me que poderia, sim, poderia - ter aqui nas Cartas um daqueles quadrinhos com sinal de play para as pôr a tocar. Sim, poderia. Mas prefiro pintar em palavras vagas e pequeninas a música dos Doors. Prefiro, aqui, indecidir-me sobre se haveria de chamar a este post "A malta é estranha", ou "O fim [de tudo]", "Têm-te visto, os meu olhos", ou "À espera do sol", ou "Sim, o rio sabe", ou "Não tocar a terra" - "Uma oração americana", ou "Mocinha, estás perdida". Prefiro não deixar em definitivo uma preferência, nenhuma escolha, pois não a tenho. São os Doors e quem conhece bem o Reboliço sabe como é.

terça-feira, 10 de abril de 2007

A morte do Sol

Lembro-me de ter ficado encantada com uma parede do Whitney cheia de riscos a lápis, feitos aparentemente ao acaso, mas com a magia de terem sido desenhados a partir de resultados de equações matemáticas complexas e divertidas de resolver. LeWitt afirmou que “na arte conceptual, a idea ou o conceito é o aspecto mais importante da obra. O projecto e as decisões são feitos antes, e a execução é uma questão rotineira, indiferente. A ideia transforma-se na máquina que faz a arte.” (Traduziu cá o je.)

segunda-feira, 9 de abril de 2007

O vento de Espanha

O Ángel deu notícias, para dizer que andou de visita a outros moinhos. Assim vistos de longe, parecem mais complicadinhos que o do Reboliço. Obrigada, amigo! Semeaste a curiosidade: o Reboliço já não deixa de pensar em viajar até à terra da Dulcineia.

domingo, 8 de abril de 2007

Da aldeia

O Reboliço acabou de tomar um chazinho de erva cidreira. A Perdida perdeu-se de mimos e ladrava, gania, revirava-se, bailava, cheirava, gania outra vez, uma doideira! O domingo de Páscoa é assim, devagarinho e com folar de ovo cozido no forno a lenha.

(Foto da prima Luísa, com a sua retratadeira nova.)

sábado, 7 de abril de 2007

Paradoxo

Em dias de levante a massa custa a levedar. Parece um paradoxo.

Adenda

Provados e aprovados: bombom com recheio de vinho tinto de Pias; bombom com aguardente da Vidigueira; bombom com alecrim; barra de chocolate branco com hortelã pimenta. Depois de um valente cozido e acompanhados de chá de folha de limoeiro e hortelã da ribeira. Uma confusão de narizes!

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Lambusices

Anda um canito a invejar as bombonneries da moda nas transversais da Broadway, a saliva a escorrer-lhe do focinho e os dólares da carteira, à procura do melhor chocolate nas prateleiras das lojas com os rótulos mais exóticos; a impacientar-se com as horas de abertura e os exclusivos de vendas das marcas mais arredias quando, afinal, o melhor está à porta do moinho. Que vergonha, Reboliço. Quase ano e meio depois de aberta é que vais dar com a Mestre Cacau... Se o objectivo, além do sabor magnífico da pastinha bem temperada, é contrariar a globalização, haverá armas mais imponentes do que os bombons com medronho, bombons com mel "Monte do Mato" (de Mértola), trufas de alecrim ou bombons com vinho tinto de Pias? Vinho de Pias, Reboliço! Falem-lhe agora de "wine and chocolate pairing"!...

(Esta manhã, o Reboliço passeara por Faro com a dona da Pamá. Foram à descoberta da nova loja de chocolates, na Praça dos Poetas. Lojinha discreta, a Mundo do Chocolate só comercializa a pasta em nomes internacionais. O Reboliço embeiçou-se por tulipas, margaridas e jarros com amêndoas de chocolate, coisa de fabrico italiano. Muita inglesada, suiços e normandos. De tugas, nada.)

Seguir a lua

Seguia no banco de trás do carro, como tantas vezes – as mais delas – nas viagens pela planície. Em pequena, quando viajava com os irmãos no banco de trás, as duas viagens eram muito distintas: para Norte, saíam de casa num fim de tarde qualquer e iam rabiando o caminho todo. A maneira de sossegarem era a mãe pô-los a cantar: “Quero ir para o Altinho, que eu daqui não vejo bem / Quero ver o meu amor, se ele adora mais alguém...”. À vinda, de noite cerrada, sossegavam. Aninhada entre os irmãos, depois de dormitar uns minutos, mexia o corpo de maneira a fitar uma das janelas e, por ela, a lua. Ia seguindo o redondo, mais ou menos fechado, nas poucas curvas que o Renault12 fazia. Via a lua ora num lugar ora noutro – às vezes tinha que esticar o pescoço para a enquadrar de novo na janela e arriscava desadormecer de um todo.

A lua no caminho

No caminho da aldeia para o moinho, via-se a lua. Galgara havia pouco o horizonte e era vermelha, um salpico de sangue mal espalhado nas costas de uma mão. Mais adiante na estrada, desavermelhara e subira. Uma nuvem cobria-lhe o topo. “Está mais amarela agora.” “Pois a lua é como os olhos do Sorna”, disse o pai. “Logo quando acorda, tem os olhos muito vermelhos. É uma espécie de Sorna, a lua.” Chegados ao moinho, já ela se levantava acima da torre do castelo, à sua esquerda. A nuvem, afinal, era o minguante a começar já a dentar-lhe a coroa.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Moinhos na poesia (10)

"Moinho de Vento"

Luz,
luz espumejante
sobre a planície, íngreme,
montanha de brilho, fundo
marulhar,
voam tempestades,
respirando relâmpagos, a terrível parede
ergue-se até ao céu.

Desci
pela duna
vindo do mar,
pela terra de aluvião nua de árvores,
sem sombra, sem sonho, fui
com os ceifeiros, o moinho erguia-se
hirto e velho. Agora, as velas
cinzentas agarram os ares.
Silencioso, sobe e domina a terra.

Com as garças levanta
voo, grande no fundo dos céus
brancos. Bravio, da distância
responde-lhe o brilho do olhar
do inverno.

Coração, pássaro dos gelos,
com espinhas e barbatanas
faz o teu ninho na caverna,
no sangue sussurrante.
Fica com as gentes da planície, filhas e
filhos, com as pequenas sombras
de canções e danças, fica e
ergue uma erva de Novembro
contra a neve.

(Johannes Bobrowski, Como um Respirar, Antologia Poética, Sel., trad., intr. e notas de João Barrento, 1990, Lisboa, Cotovia, pp. 24-27. Obrigada, meu primo!)

terça-feira, 3 de abril de 2007

sábado, 31 de março de 2007

A planície, por Charles Péguy

Está de visita ao moinho um grande amigo dos moinhos. Por ele, descubro uma peça literária que desconhecia: Charles Péguy, poeta da planície de La Beauce. Aqui e aqui.

"Março, marçagão, manhã de Primavera, tarde de focinho de cão."

De noite, encolhido junto ao lume, as patinhas cruzadas, o Reboliço ouviu a conversa: "Devia ter regado as alfaces." "Deixa, regam-se amanhã de manhã." Manhãzinha cedo, ainda nem 7 e meia, acordou com a chuvada.
"Mandaste regar as alfaces... Olha, a massa é que não levedou." Focinho de cão logo de manhã, pensa o Reboliço. Vale mais hoje o outro ditado: "Março, marçagão, manhã de Inverno, tarde de Verão."

quinta-feira, 29 de março de 2007

Doizaninhuj

terça-feira, 27 de março de 2007

Finalmente!

O blogue do Isa. Obrigada!

GMT: +00:00

A ouvir rock puro. Eu sei, eu sei. Já cá volto.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Cidades do coração

Há lugares assim, que me recebem e me levam a sorrir. Poder ensinar ao taxista o caminho para uma casa, olhar pela janela do carro e ver a neve amontoada nos passeios a derreter devagarinho pelo sol forte que as nuvens abandonaram, que sensação de acolhimento... Nova Iorque irradia-se e vai calando em mim o ruído dos pensamentos. Silencia-me, enquanto aborreço a espera nos semáforos, no Holland Tunnel, na travessia da Canal St. Chama-me da janela, mais tarde, para o braço férreo da Brooklyn Bridge. Por dois dias, não mais, estar em Nova Iorque é sensacional.

No dia da poesia

Escolho um poema de um dos poetas que mais recentemente tive o prazer e a honra de conhecer. Além de poeta, é uruguaio e plantador de oliveiras. Aldo Mazzucchelli.

Los yndios charrúas

*

estamos hablando con precisión
de los seres nombrados que
"discurrían vagos por este pays"
limitado por unas piedras húmedas al sur
y después/
un alambrado de siete hilos al noreste
(que toquetea el viento a lo largo)
a continuación del cual da comienzo el Brasil.
la esencia lamida de los yndios
puro papel con nervaduras, extirado
en el salto oscurito de una ella
en un pie sobre el otro en Hospital
y decidido a borrarle las huellas
(no encontrar su odio):
estro que queda de un harapo lúgubre.

*

usaban falditas de algodón
para taparse las vergüenzas
del ombligo a las rodillas.
cada uno, y que se hable de lo suyo
–no es lo mismo que mirar
las plantitas autóctonas del y t a p e b ý–.
cada señor estudioso del alma ajena
y que el espejo refleje tal parte de la líquida luz
–no es lo mismo que estar
en cuclillas en la cuchilla más al vueste.

*

la ventaja de haver sido yndio
en Uruguay:
la inexistencia. Pedacito de hoja
ceibo cedrón algarrobo aruera
tala espinillo espartero coronilla
ahí es donde el alma ahuesa
el cuerpo afila
ay van los muertos en la procesión.
individuos ignotos
cualquiera idea acerca de los yndios es pecado
salvo respirar la misma costa larga y lenta.

*

trágica filosofía platensis
especificada siempre a lo ancho
curva envuelta en aire blanco
lechosidad de la provincia de pasaje.
usted que viene aquí siempre van para otro sitio
aquí me quedo mirándole
más móvil que nosotros pero ahíto de ideas.
por esta parte respiramos la aruera
nos hartamos de inconsútil veneno
específicamente en comunicación con la crucera.

*

desde la ventana se ve una casa
blanca iluminada con manchas negras.
las manchas negras son árboles nocturnos.
si encaja la imagen es la noche
lo que queda. La casa huirá.
Quedan las manchas.
Ah de las manchas!... y como los yndios. Si son indescriptibles
son permanentes y verdaderas.

terça-feira, 20 de março de 2007

Em boa companhia (umbiguismo)

E nos Dias Felizes. Nao poderia ser melhor.

"Life's a bitch - and then you die"

O Reboliço abana as orelhas, ainda inconformado com a despedida da Wicker. Lembra-se da Mulher e decide: "Morda-se, portanto, a cadela da vida."

Grande post!

JB sobre WB, a ler com tempo.
Excerto: "O aforismo é apodíctico, entreabre portas para as fechar logo a seguir, enquanto o fragmento é quase sempre uma janela que se abre para outros espaços, existindo apenas num a interdependência com eles."

domingo, 18 de março de 2007

Tanto, imenso (11)

"The Long Way Home"

[...]
You know I love you baby
More than the whole wide world
I'm your woman
You know you are my pearl
Let's go out past the party lights
We can finally be alone
Come with me and we can take the long way home
Come with me, together we can take the long way home
Come with me, together we can take the long way home

(Norah Jones)

sábado, 17 de março de 2007

Turns out...

... o filme de Robert Wise não tem relação directa com os "Body Snatchers" seguintes, filmes de ficção científica - o primeiro de 1956, Invasion of the Body Snatchers; o segundo, com o mesmo título, de 1978; e o mais recente, Body Snatchers, de 1993. O filme de Wise parte do texto de Robert Louis Stevenson e conta a história de um "profanador de cadáveres" a soldo de um professor de medicina. Pretty scary, really. As cenas mais bonitas (o filme é lindo, sim) passam-se à chuva.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Despedidas da Munchkinland

Esta noite despeço-me do ciclo de filmes de terror no Stanford Film Theatre. Para relembrar a temporada em Cornell em 2005, verei o The Body Snatcher inicial, o de 45 com Bela Lugosi* e Boris Karloff. A Lagarta diz que o filme é lindo!

*Ontem ao sair do jantar, perante o néon do cinema, foi lindo ouvir o David Marno, um mocinho húngaro, dizer na sua língua natal o nome do dito cujo.

Para a Tatita

Deve ser uma das letras mais citadas nos blogues. Ainda assim, serve para dizer, por mais uma via, OBRIGADA! (E para pôr o Mano, a Mana, a Prima, toda a malta a trautear.)

Eu tenho um anjo
Anjo da guarda
Que me protege
De noite e de dia
Eu não o vejo
Eu não o ouço
Mas sinto sempre a sua companhia

Eu tenho um guarda
Que é um anjo
Que me protege
De noite e de dia
Não usa arma
Não usa a força
Usa uma luz com que ilumina a minha vida

Ele não, não usa arma
Ele não, não usa a força
Usa uma luz com que ilumina a minha vida

(António Variações)

(Claro que ouvir, logo depois, o "Sempre Ausente" deixa qualquer canito à beira das lágrimas...)

quinta-feira, 15 de março de 2007

Too darn hot

A esta altura, a Nerina (é a gata preta que vive com a Wicker; também responde por "Kikky" ou "Kitty") olha para o Reboliço com ar comiserado e diz-lhe "Oh, que pena que te vás embora, agora que o tempo melhorou." O Reboliço finge estar desolado, mas explica: "Onde moro está quase sempre assim: calorzinho, nada de vento forte, nada de torrenciais chuvas." As alterações climáticas fazem-se sentir, sim. Mas são as condições de temperatura humana que mais viajam no pensamento do Reboliço. Regressa ao calor, ao calor dos seus. Não tarda nada.

Para fingir que se cura uma gripe

(Enquanto esperas por uma cura mais eficaz.)

"Antigamente quando as pessoas tinham gripe costumavam fazer chá das brasas.
Preparação: metia-se açúcar numa tigela, a seguir metia-se umas brasas e apanhavam o fumo que de lá saía; em seguida, metia-se água a ferver, passava-se por um passador e bebia-se.
Também se utilizavam poejos secos para fazer chá e adoçava-se com mel.
Uma outra maneira de curar a gripe era, ao deitar, beber vinho quente com açúcar ou café quente com bastante aguardente."
(Daqui)

SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA (III e última parte)

(As duas primeiras partes podem ser lidas aqui e aqui.)

"Algo muito diferente acontece quando o espírito, antes de qualquer enunciação, tem completo o pensamento. Nessa altura, tem de ficar-se pela mera expressão e isso, em vez de o estimular, não tem outro efeito senão o de torná-lo mais lasso. Então, quando uma ideia se exprime de maneira confusa, não significa que resulte de um pensamento também confuso; pelo contrário, pode dar-se o caso de as ideias mais confusamente expressas serem as que foram pensadas com mais clareza. Muitas vezes, numa reunião em que através de uma vivaz conversa ocorre uma impregnação contínua dos sentidos com ideias, aquelas pessoas que, por serem menos habilidosas no discurso, por regra se retraem, de repente são inflamadas por um movimento convulsivo, tomam as rédeas da conversa e trazem ao mundo algo incompreensível. Sim, pareceria que, tendo chamado para si a atenção, através de um gesto embaraçado dão a entender que elas mesmas já não conseguem saber ao certo o que tinham querido dizer. É possível que tais pessoas tenham pensado algo de facto acertado e muito claro. Mas a alteração repentina de actividade, a transição do seu espírito, do pensamento para a expressão, reprimiu toda a excitação do espírito, necessária à manutenção do pensamento como urgente na sua criação. Em casos assim, é mesmo indispensável ter o discurso logo à mão, para que aquilo que a um tempo tivermos pensado, e que nesse mesmo tempo não tivermos conseguido extrair de nós, possamos, tão depressa quanto possível, em sucessão exprimir. E em geral, aquele que, de entre dois de igual clareza, com maior rapidez se avançar ao seu oponente, sobre este terá vantagem, pois mais forças do que ele trará para o campo de batalha. Que uma certa excitação da mente, também para a apresentação de ideias que possamos já ter tido, é necessária, torna-se ainda mais óbvio quando a uma mente aberta e esclarecida se fazem perguntas como: o que é o Estado? Ou: o que é a propriedade? Ou coisas deste tipo. Se estes jovens se encontrassem numa reunião em que sobre o Estado ou sobre a propriedade se discorresse durante algum tempo, talvez chegassem com rapidez, por comparação, separação e combinação de conceitos, à sua definição. Porém, aqui, onde falta totalmente a preparação do entendimento, vêmo-los deterem-se e só um examinador incapaz diria que não sabem definir. Não que nós saibamos, mas antes que um certo estado nosso sabe. Só os espíritos vulgares, pessoas que do que o Estado seja aprenderam ontem e amanhã terão já esquecido, terão aqui a resposta pronta. Talvez de facto não haja pior ocasião para se expor as qualidades do que precisamente um exame público. Tirando o facto de ser detestável e ferir e provocar a sensibilidade que um qualquer erudito negociante de cavalos nos examine o conhecimento e que, consoante sejam cinco ou seis, assim nos compra ou abandona: é tão difícil do sentimento humano extrair melodia e dele sacar o seu som peculiar; é tão fácil desafinar entre mãos inábeis, que mesmo o mais traquejado conhecedor dos homens, que fosse magistralmente versado na obstetrícia dos pensamentos, como Kant lhe chama, poderia aqui cometer erros devido ao desconhecimento do seu puérpero de seis semanas. O que, aliás, na maioria dos casos ainda garante a esses jovens, mesmo aos mais ignorantes, um bom resultado é a circunstância de os próprios ânimos dos examinadores, quando o exame é público, estarem demasiado constrangidos para conseguirem fazer um juízo isento. É que não só se sentem frequentemente as indecências de todo este processo - claro que nos envergonharíamos de pedir a alguém que esvaziasse à nossa frente a sua bolsa, quanto mais a alma -, como também a sua própria razão terá aqui que ser sujeita a uma inspecção perigosa, e os examinadores bem podem agradecer a Deus quando, eles próprios, conseguem sair de um exame sem se terem exposto, porventura com maior ignomínia do que o recém-licenciado que examinaram.
(A continuar)"
(Escreveu Kleist que continuaria, mas suicidou-se e deve ter-se esquecido de dar seguimento, pelo menos a isto. O ensaio foi escrito provavelmente entre 1805 e 1806 e publicado pela primeira vez em 1878. A versão inglesa que usei está neste livro; a castelhana, neste. O texto em alemão vem transcrito aqui. Para traduzir as frases derradeiras tive a ajuda inestimável da Ana Cabral. Obrigada, amiga!)

terça-feira, 13 de março de 2007

Aforismo

"Hoje em dia, por todo o lado tentamos propagar sabedoria: quem sabe se daqui a uns séculos não haverá universidades para repor a velha ignorância?"

(Georg Christoph Lichtenberg, The Waste Books, "Notebook K", 1793-96, traduziu cá o je.)

JCF e WB na K :-)

O caso do distanciamento cultural entre Portugal e o Brasil daria mais do que um romance. Quanto a mim, padeço de "distrativite" crónica. As duas coisas combinadas explicam que só agora, por via do Escrito a Lápis, tivesse dado por esta revista. E logo logo no primeiro número (estão todos disponíveis online, em formato .pdf!), uma recensão a Um catálogo de sonhos, do JCFernandes. O próximo número, alerta o João Barrento, será sobre as Passagens de Walter Benjamin. Cool...

Ao sol

O Reboliço escreve um postal:

"Querida Tiaga,

Já conto os dias que faltam para o meu regresso. Ao menos, a chuva foi-se e o sol começou a brilhar. Agora, o calor obriga a encurtar as minhas saídas com a Wicker. Ou a iniciá-las mais cedo, pela fresquinha. De tarde, procuro um cantinho menos quente, como certas salas da biblioteca. Em casa, passo o tempo a beber água. Assim que me apanho na rua, o que mais gosto de fazer (sei que odiarias ver-me nessas figuras, mas sou canito, o que queres?) é rebolar-me na relva acabada de regar.

Envio-te um boneco da Wicker, quando um destes domingos fomos de passeio no seu Mustang preto. E deixa-te de ciumeiras, que não tens razão para tal.

Ora, como diria o avô, até que Deus queira, que é tempo mais certo.
Lambedelas, patadinhas e assim.

Teu,
Reboliço."

segunda-feira, 12 de março de 2007

Tanto, imenso (10)

You can never hold back spring
You can be sure that I will never
Stop believing
The blushing rose will climb
Spring ahead or fall behind
Winter dreams the same dream
Every time

You can never hold back spring
Even though you've lost your way
The world keeps dreaming of spring

So close your eyes
Open you heart
To one who's dreaming of you
You can never hold back spring
Baby

Remember everything that spring
Can bring
You can never hold back spring

(Tom Waits, no disco do meio)

quinta-feira, 8 de março de 2007

Mais notas sobre o escândalo

Diz a Mulher que o filme é sobre a solidão (opinião igual tem o Eduardo Pitta). Diz a Anabela que é antes sobre "o poder da efabulação e da fantasia sobre a realidade efectiva das pessoas e dos sentimentos"*. Não resisto (e recordo o que costumava deixar no finado - mal finado, digo - "Charme Discreto da Bloguesia"). O filme testa uma situação-limite (isto tem tracinho?) que, precisamente, exacerba um dos efeitos potencialmente nefastos da solidão, a tal "efabulação" sobre o que percebemos à nossa volta. Daí a importância do título e do género explorado no romance que dá o filme - a escrita diarística. Em última análise, Barbara (a personagem de Judi Dench) é um serial-killer como qualquer outro: obsessivo e com dificuldades de socialização. Os grandes problemas surgem quando o "mundo real"**, o de fora do caderno onde constrói o seu próprio mundo, não coincide com o que Barbara escreveu nas suas notas. A maneira como lê o mundo mantém-se, latente, na maneira como Barbara vive nele. Quando as personagens que criou no caderno se autonomizam e tomam decisões sem a consultar, gera-se o conflito - dele, aumenta a dor; daí, gera-se o ódio; do ódio, a maquinação, e assim por diante. Nisso é que entendo que o filme também é excelente: percebe o crescendo da latência para a sobre-exposição (isto tem tracinho?, II), das notas no caderno (tão adolescentes, tão parada que está aquela mulher num ponto da sua vida, tão passado...) para a sala de estar de uma família de média burguesia londrina, ou para uma casa de arrumos numa escola secundária, e gere-o com um magistral domínio dos actores. Faz pensar muito, é muito bom. Adorei também a cena da banheira. Imagem e palavras.

*Ambas concordam, e eu com elas, que "é imperdível pelo prazer de ver bem representar".
**As aspas são mesmo para dizer do desconforto com o chamar-lhe "real"; será mais "real"/verdadeiro do que o construído no caderno de Barbara? Não, certamente, para Barbara. Talvez um psicanalista ajudasse nisto, mas falo apenas de um filme.

Filosofia canina

Comovido, o Reboliço recorda que um dos seus escritores favoritos o entenderia, se pudessem ter um tête-a-tête. Claro que faria mudar nele a opinião sobre a impertinência dos cães. Não os conhece a todos, é o que é. Mas um engano destes, tão comum em qualquer homem, não faz dele menor escritor.

"Vim pela Rua da Princesa [...] sem me dar de um cão que, ouvindo os meus passos na rua, latia de dentro de uma chácara. Não faltam cães atrás da gente, uns feios, outros bonitos, e todos impertinentes. Perto da Rua do Catete, o latido ia diminuindo, e então pareceu-me que me mandava este recado: 'Meu amigo, não lhe importe saber o motivo que me inspira este discurso; late-se como se morre, tudo é ofício de cães, e o cão do casal Aguiar latia também outrora; agora esquece, que é ofício de defunto.'"

(No belíssimo Memorial de Aires, entrada do dia 18 de Setembro [de 1888])

(Mas gosto ainda mais desta versão) Tanto, imenso (9)

Oh I do believe
In all the things you say
What comes is better than what came before

And you'd better come come, come come to me
Better come come, come come to me
Better run, run run, run run to me
Better come

Oh I do believe
In all the things you say
What comes is better that what came before

And you'd better run run, run run to me
Better run, run run, run run to me
Better come, come come, come come to me
You'd better run

(transformada, como só
ela sabe, por Chan Marshall)

quarta-feira, 7 de março de 2007

Tanto, imenso (8)

Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa

I found a reason to keep living
Oh and the reason, dear, is you
I found a reason to keep singing
Oh and the reason, dear, is you

Oh I do believe
If you don’t like things you live
For some place you never gone before

Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa

Honey, I found a reason to keep living
And you know the reason, dear it’s you
And I’ve walked down life’s lonely highways
Hand in hand with myself
And I realized how many paths have crossed between us

Oh I do believe
You’re all what you perceive
What come is better that what came before

Oh I do believe
You’re all what you perceive
What come is better that what came before

Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
And you’d better come, come come, come to me
Come come, come to me

(Lou Ree/Velvet Underground)

terça-feira, 6 de março de 2007

Zuuummmm!... Zuuuummmmm!...

Entrei em LA, sai de LA, num apice. Nem um dia sequer. Tanto me bastou para gostar das ruas largas, dos dois museus mais um centro de musica que vi (eu sei, nem sinto as pernas...) e do sinal que me acenou, de longe...

domingo, 4 de março de 2007

A Lua

O avô chamava-me à parte, assim que eu regressava de algum lugar fora dali. "Como é o Sol nesse lugar? É o mesmo que aqui?" "É, sim, avô. É igual a este." Esta noite dir-lhe-ia que é assim como a Lua. Está cheia, vai alta, sobre o céu escuro sem nuvens destes montes para cá de Los Angeles. Esquece-se uma pessoa que está num dos sítios mais urbanos do mundo. Esquece-se que, umas estradas abaixo, os centros comerciais desfeiam a paisagem e sucedem-se, iguais, iguais, com os mesmos painéis publicitários, as mesmas portadas neo-egípcias, as mesmas filas de automóveis. Aqui onde estou agora, avô, há um quintal com galinhas, recolhidas a dormir nos poleiros, uma escada de pedra que vai entre as árvores e uma cascata pequena. Aqui, avô, com gente que conheceste e se recorda de ti - e me recorda de ti - a Lua é a mesma Lua. A que tu vias desde o moinho, quando te sentavas à sua porta de ombreira encarnada, em noites como esta, ventosas e pouco frias.
(Em Barcelona deixarão, por pouco tempo, nada muito, de a ver. Farás fotos, meu amigo?)

Passagem de testemunhos, os olhares

Marcai nas vossas agendas e ide ver: o Cineclube faz amanhã a sua derradeira exibição no IPJ. Depois disso, alçai os rabinhos das cadeiras maltratadas e rumai, dia 14, para os luzidios assentos do novo Santo António. Fritz Lang fará as despedidas, Raoul Ruiz abrirá as hostes.

4.2/Richter (Segura-te, canito...)

"San Andreas Fault"

Go west
Paradise is there
You'll have all that you can eat
Of milk and honey over there
You'll be the brightest light
The world has ever seen
Sun-baked slender heroine
Of film and magazine

Go west
Paradise is there
You'll have all that you can eat
Of milk and honey over there
You'll be the brightest light
The world has ever seen
The dizzy height of a jet-set life
You could never dream
Your pale blue eyes
Strawberry hair
Lips so sweet
Skin so fair
You're future bright
Beyond compare
It's rags to riches
Over there

San Andreas Fault
Moved its fingers
Through the ground
Earth divided
Plates collided
Such an awful sound

San Andreas Fault
Moved its fingers
Through the ground
Terra cotta shattered
And the walls came
Tumbling down

Oh promised land
Oh wicked ground
Build a dream
Tear it down


Oh promised land
What a wicked ground
Build a dream
Watch it all fall down

(Natalie Merchant a cantar, enquanto me recordo de Doubting Thomas, de Mark Tansey. )

quinta-feira, 1 de março de 2007

Famous!

- Ouve, Rebolico: eu ca e que devo ser a star, percebes?
- Mas que culpa tenho eu, diz-me, que culpa, se foi a mim que entrevistaram e puseram no jornal do burgo?...
- Nao e justo. E que nao e nada justo!... Uma felina a ajeitar-se o dia inteiro, a lamber o pelo ate brilhar mais que a luz do Sol, a lavar orelhas, espacos interdigitais, e outros terminados em ais, e este arremedo de canino e que me sai no jornal!

À noitinha

Encerram-se os serviços de requisição da biblioteca onde estou. Devolver livros, só nas caixas grandes, à entrada. Uma voz anuncia: “This is now a study-hall environment. Please behave accordingly. You are allowed to take your shoes off, but remember you are in a public place.” Brrrrrr… creepy, não é?

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

A Mana (e outra gente do peito) no Teatro (o T.A.L.)

A nova produção baseada na Mensagem de Fernando Pessoa pode ser vista:

a 3 de Março no Cine-Teatro Louletano

a 18 de Março na Nave do Barão

a 30 de Março no Monte Seco

(acho que a Nave do Barão deve ser o sítio mais cool para se ver a Mensagem.)

Agora, o que interessa mesmo mesmo, por ser completamente inédito e inspirador, são as

"Histórias de Terror para Crianças" (uuuuhhhhhuuuuu!..........), inspiradas no conto "O Elfo da Rosa", de Hans Christian Andersen. Vão lá ver, foi a Mana que encenou:

a 25 de Março no Barranco do Velho

a 1 de Abril em Benafim

a 15 de Abril na Tôr

(mais info aqui)

Tempestade de granizo

- Tiaga, anda cá depressa!
- O que foi?
- Assoma-te aqui à janela!
- Dah!... Tu estás no outro lado da América, cão despistado...
- Mas está a cair uma granizada monumental! Até parece aqueles dias no moinho...
- Vai dormir, vai...

Tanto, imenso (7)

Que hei-de eu fazer
Eu tão nova e desamparada
Quando o amor
Me entra de repente
P´la porta da frente
E fica a porta escancarada

Vou-te dizer
A luz começou em frestas
Se fores a ver
Enquanto assim durares
Se fores amada e amares
Dirás sempre palavras destas

P´ra te ter
P´ra que de mim não te zangues
Eu vou-te dar
A pele, o meu cetim
Coração carmesim
As carnes e com elas sangues

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
é cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo

E se um dia a razão
Fria e negra do destino
Deitar mão
À porta, à luz aberta
Que te deixe liberta
E do pássaro se ouça o trino

Por te querer
Vou abrir em mim dois espaços
P´ra te dar
Enredo ao folhetim
A flor ao teu jardim
As pernas e com elas braços

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
É cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo

Mas se tudo tem fim
Porquê dar a um amor guarida
Mesmo assim
Dá princípio ao começo
Se morreres só te peço
Da morte volta sempre em vida

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês é dor,
É cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo
Da morte volta sempre em vida

(Sérgio Godinho, por lembrança muito oportuna do Mano)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Filosofias de vida

Filosofia rebolicina:
- Tal 'tá este tempo, hã?

Filosofia tiaguina:
- Ladraste?

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Tanto, imenso (6)

Que amor nao me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor nao se entrega
Na noite vazia?
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das àguas
Noite marinheira

Vem devagarinho
Para a minha beira
Em novas coutadas
Junta de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
Assim tu souberas
Irma cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia


(Zeca Afonso [02/08/1929-23/02/1987])

Muito tem andado este canito...


E ainda lhe falta pintar mais de 90% do mundo.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

A moda do chocolate

Pôs-se de moda, o chocolate. Ora, para quem sempre sofreu (pouco, pouco...) de "chocolatomania" (alô, cunhadão!), calha que nem ginjas (ai, ginjas embrulhadinhas...). Sopa no mel (sim, sopa - deixem que se ponha de moda, logo entendem). Vai daí, trau! Os mais recentes a tocar esta tabelinha: Chocovic (variedades Guaranda e Ocumare), Villars (72%), o de framboesa da Cocoa Designs (no comments) e o 100% da Ghirardelli (os dois últimos de produção san franciscana. Californianos dum raio!).

Na Vogue deste mês (que um gajo tem que aliviar a tensão kleistiana, então!...), tinha que ser (leiam a primeira frase, ali em cima), o artiguinho da praxe sobre o dito cujo. "Dark Victory". Chamam-lhe tudo. A parte mais interessante é quando Jeffrey Steingarten conta como Robert Steinberg (atenção aos apelidos), da Scharffen Berger Chocolate Maker, aqui da zona também (e do melhorio), lhe ensina a apreciar chocolate:
"He bites off a piece [morde um bocadinho], lets it melt in his tongue [deixa o bocadinho derreter-se-lhe na língua], and spreads it all over the inside of his mouth [e espalha o bocadinho derretido por todo o interior da sua boca - se isto é decente, vou ali e já venho...]. He may close his eyes [não interessa]; he may try to pretend it's not chocolate but an unknown substance [até pode tentar fingir que a coisa não é chocolate, mas uma substância desconhecida. O tanas!...] He follows the flavors as they change over the next few minutes [adoro esta: vai atrás dos sabores, enquanto se vão transformando, nos minutos seguintes]. The first sensation will probably be sweetness [a sensação inicial provavelmente será o doce - hum...], then a fruity flavor [depois, um sabor a fruta], sometimes spices such as cloves and cinnamon [especiarias, por vezes, como cravinho e canela - alô, Mana!], earthy tones [tons de terra - é, assim como o pastel para a pintura e para Belém]. The most complex chocolate will have a balance of all of these [que os chocolates mais complexos misturam isto tudo]. At the end, the mouth should feel clean [no fim, a boca deve saber a limpa], and not chalky or tasting of cocoa powder [e não a giz, nem a cacau em pó]."

(Um bocado de prosa boa para descobrir onde se refugia o discurso prescritivo das revistas dos nossos dias.)