terça-feira, 22 de maio de 2007

Um bicho papão...

... sem papas na língua.
(por aqui)

Fellini avant-la-lettre

MR. SOLNESS. Answer me, Hilda. What do you want of me?
HILDA. I want my kingdom.
(Henrik Ibsen, The Master Builder)

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Do Mano, com licença dele, a propósito disto

epá, olha, é só para dizer que fui ao teu blogue e vi lá a poesia com temperatura e som do pasolini - claro que ele tinha que ir fazer filmes a certa altura - mas também com poucas palavras faz mais do que um filme... (o villanova artigas - um arquitecto brasileiro magnífico que já foi à vida (à morte) dizia que admirava imenso os poetas por conseguirem com poucas palavras dizer o que aos arquitectos leva muitos tijolos a contar)
e então, como estou a preparar uma aula, voltei às minhas escritas directas em italiano, e não consegui reistir à foleira correcção de revisor de textos com chapeuzinho e tudo.
pois a "afa" é difícil de traduzir, mas acho que puseste bem, a afa é o abafado das manhãs de verão insuportável quando se sua imenso só de pensar.
depois o stupore é espantoso! é assim uma exclamação, nunca tinha pensado em paralisia mas também poderia dar porque ficava ainda mais forte: a força paralisada da intensidade de um espanto!
tu trocaste intacta ainda e alegria virgem e lá terás as tuas razões fonéticosincráticas...
mas é realmente bom!
acho que a poesia é incrível, e acho mesmo que nunca a vou querer conhecer toda porque tenho medo de a perder.

Desmaiar

Levava na mão uma garrafa de vidro cheia de água. Era a meio da madrugada e levantara-se com o barulho na casa. Entre o seu quarto e a sala, de onde o ouvia, era preciso atravessar todo o largo e depois longo corredor com chão de tacos pequenos, madeira escura e cheia de veios. O olhar escapou-se, num segundo que não sentiu, para um patamar abaixo do nível dos olhos. Via os joelhos magros, debaixo do tecido fino da camisa com que dormia, mexerem-se como se não fossem já seus, duas esferas estranhas e retalhadas entre o tecido branco e a cor da pele - trocavam de lugar, um agora depois o outro, e encantou-se naquele movimento baloiçado. Desceu ainda mais, o olhar, e viu os pés em rastejo descalço e lânguido, mais ainda pela extensão das canelas, que pareciam elevar-se e afastar-se gradualmente do lugar dos olhos. Num segundo. A queda não a percebeu, não era o seu corpo que caía. Via-se agora, sabia-se em si, mas o olhar focava a partir do vidro verde a rolar vazio e da mancha que se espalhava humedecida sobre os tacos de madeira. Via como se fossem o vidro os seus olhos e o que via era um corpo estendido, para lá do cabelo castanho escuro, como os veios, em brancura de pele desencoberta a partir de meio pelo tecido amortalhado.

"I disappear,
I lost control,
My body's moving,
On it's own.
I watch myself,
Walk away,
A poor spirit,
took my place."
(The Faint
)

domingo, 20 de maio de 2007

Do misterioso alentejano

Faz uma semana hoje, voz amiga (que quer continuar anónima) fez chegar ao Reboliço estas achegas ao entendimento do mais profundo da alma alentejana:

"A fálica torre de menagem [de Beja] funciona bem em relação ao resto do país, pois, como notou um amigo meu, este não possui, à semelhança de Nova Iorque (Estátua da Liberdade), França (Torre Eiffel) e Inglaterra (Big Ben) um símbolo que o identifique de imediato. Mas há um senão: o pacence não pode afastar-se muito e deixar de ver a torre, que logo o invade uma grande saudade, o desejo intenso de voltar; isso está bem patente nas modas, em que, só por passar o Tejo, já cantam 'chora por mim que eu choro por ti, já deixei o Alentejo' e outras coisas do género. O Eduardo Lourenço deveria escrever outro Labirinto da Saudade somente para esclarecer isto."

Um dia depois, em catadupa de questionação filosófica, acrescentou que "os alentejanos procuram nos outros a figura do pai e fazem-no de uma maneira incoscientemente maternal, que consiste em encostarem-se uns aos outros, balancearem-se em conjunto, cantando umas canções arrastadas, que são as canções de embalar que lhes faltaram na infância. Depois, porque, desconhecendo eu por onde esteve Descartes, mas supondo que, se esteve em Espanha foi o
mais próximo daqui, então como explicar este outro atavismo que é o constante anti-cartesianismo [dos alentejanos], no constante dizer, mesmo quando estão em maus lençois, 'Não tem dúvida'? [...] Quanto à questão da linguagem, os sucessores de Lacan teriam muito material com o estudo das mulheres que falavam com as galinhas, e aqui temos mais questões: não só está provado que elas falam mais e eles menos [...], mas porquê as galinhas? Haverá alguma identificação com o outro feminino?Porque me parece que o galo é tratado de maneira diferente, para pior... E a forma do pão?Não criarão, subconscientemente, a forma arredondada como substituto/projecção do seio? E o que dizer da popia?"

O resto do dia - qual!, o resto da vida! - o Reboliço andou intrigado com a questão derradeira. O que dizer da popia?...

sexta-feira, 18 de maio de 2007

It's ON!

Pasolini (outra vez)

V

Ogni giorno è l'ultimo
nello stupore dell'afa mattutina,
delle fresche voci: e a cosa importa
essere chiari, dentro, per soffrirla
nella intera estensione del suo tempo
se l'ora della vita è sempre l'ultima?
L'averla troppo sofferta, e quindi
consumata: ecco perché vivo nel miracolo
di vederla ancora intatta. Nessuno
sa più di me goderla con tanto infantile
e femminile abbandono, ma nessuno
sente più di me quella vergine gioia
come un sacrilegio.


V

Cada dia é o último
na paralisia da manhã quente,
das vozes frescas: e que importará
ser lúcido, por dentro, para sofrê-la
na inteira extensão do seu tempo,
se a hora da vida é sempre a última?
Tê-la por demais sofrido, e assim
consumido: eis porque vivo no milagre
de vê-la
ainda intacta. Ninguém
mais do que eu sabe gozá-la com tão infantil
e feminino abandono, mas ninguém
sente, mais do que sinto, essa alegria virgem
como um sacrilégio.

(Atrevi-me a traduzir um dos poemas póstumos
, que transcrevi daqui.)

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Mais um desembarque

da Dafne Editora. Sempre bons.

Estou aqui em pulgas...

... (salvo seja!) para juntar mais um a este link.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Ainda sobre The Man Without Qualities

Intercalo Musil com a leitura deste ensaio e reparo que anda tudo ligado. Será por ser grande literatura (o Musil, claro) e parecer que se liga a tudo e que liga todas as coisas entre si? A segunda secção do livro chama-se "Pseudoreality Prevails". Não sei se hoje Musil lhe chamaria "pseudo", de todo.
(A certa altura, leio que "If Ulrich had been asked to say what he was really like he would have been at a loss, for like so many people he had never tested himself other than by a task and his relation to it", p.157. Acompanho a leitura com flores de hibiscus, secas e adocicadas.)

Alarme...

Decido passear pelos blogues, para desanuviar. Abro o Dias Felizes e encontro um post em tom alarmado (ou ter-me-á escapado a ironia?): "Campanha salvem os críticos literários!" (com ponto exclamativo e tudo). Vem a seguir um outro, que chama a atenção para o humor de Musil. Sorrio. Acabara de pousar sobre o tampo branco da mesa, aberto na página de entrada do capítulo 28, The Man Without Qualities (leio-o em inglês, sim, era o que tinha mais à mão e estará tão bem traduzido como a versão portuguesa, imagino). Chama-se "A chapter that may be skipped by anyone not particularly impressed by thinking as an occupation." Sorrio mais.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Moinho de água

Andar com a atenção desviada dos blogues dá nisto. O Reboliço não tinha reparado, mas há no Douro um moinho com gente linda lá dentro.

sábado, 12 de maio de 2007

Vede, canitos!

sexta-feira, 11 de maio de 2007

"Ah, that's the old redhead. No bitterness, no recrimination, just a good swift left to the jaw."

Faz este sábado cem anos que nasceu Katherine Hepburn. Para comemorar, revejo pela enésima vez (mas pela primeira no Stanford Theatre...) The Philadelphia Story. Além da ruiva, foi neste filme que aprendi a palavra "yare". O que não implica que tenha interiorizado as propriedades do conceito.

Barnett Newman

Em 1988, Yve-Alain Bois escreve um ensaio luminoso como uma tira de luz num quadro de Newman*. Diz sobre Onement I que esse quadro, tal como todos os que Newman pintara anteriormente, "trata do mito da origem, mas pela primeira vez conta o mito no tempo presente. E este tempo presente não é o da narrativa histórica, mas sim uma tentativa de se dirigir directamente ao espectador, imediatamente, como um "Eu" a um "Tu", e sem a distância da terceira pessoa, que caracteriza a ficção. Dessa maneira é que Onement I cumpre aquele que Newman ditou como propósito da sua obra, o de conferir ao observador um 'sentido do lugar'."

Barnett Newman dissera-o assim, numa entrevista à rádio, em Agosto de 1972: "Uma coisa em que me vejo envolvido nisto da pintura é que o quadro deve dar ao homem um sentido do lugar: que ele saiba que está ali, que se aperceba de si. [...] frente ao meu quadro, o observador sabe que está ali."

*"as a glow brings out a haze, in the likeness of one of these misty halos that sometimes are made visible by the spectral illumination of moonshine", escreveu Conrad.

sábado, 5 de maio de 2007

For the record

Ontem assisti a um coloquio bastamente interessante - o clima na literatura. As coisas que se inventam...

quarta-feira, 2 de maio de 2007

De noite

I Do My Best Alone at Night

I do my best alone at night
alone with the secrets my lamp has
set free from the day that asks too much
bent over a labor never finished
the combinations of solitaire. What then
if the solitaire always defeats me
I have the whole night. Somewhere
chance is sleeping in the cards. Somewhere
a truth has been said once already
then why worry? Can it ever
be said again? In my absentmindedness
I will listen to the wind at night
to the flutes of the Corybants
and to the speech of the men who wander forever

(Gunnar Ekelöf, traduzido por Robert Bly)

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Uma pedra no caminho

(Se clicarem sobre a imagem, ela engrandece-se - e as letrinhas.)

sábado, 28 de abril de 2007

Estilhaços

Às vezes, faz bem ver um filmezinho deprimente com umas quantas décadas em cima. Para me lembrar que os anos 60 foram já há um bom par de anos. Ah, e para reconhecer o valor de um tipo com tanto nome sonante.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

"Francisco, levar-te-ei cravos vermelhos"

O título é de um poema* de Philip Levine sobre Francisco Ascaso; as flores seriam para deixar na tumba do revolucionário. Procuro mais informação sobre este anarco-sindicalista da Guerra Civil de Espanha e a maioria das páginas online vem emoldurada em anúncios de voos baratos para as capitais europeias.

*Não está disponivel na net. Já vejo se o encontro na Harper's Bazaar. Se for alguma coisa de jeito, ainda cometo a ilegalidade de o transcrever.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Volver

E encontrar tudo na mesma, como se tivesse saído daqui ontem. Não sei se é bom, se mau.

sábado, 21 de abril de 2007

"Queres levar este postalinho?"

E deu-mo, assim como quem diz "podes ir, já te encomendei".

sexta-feira, 20 de abril de 2007

O dia da heresia

Registe-se o "momento herético, impensável e prenunciador do Fim dos Tempos: a entrada da BD, de pés descalços e nariz ranhoso, no Imaculado e Imarcescível Templo da Sabedoria Académica. Hoje a BD, amanhã o cartoon, depois as hordas bárbaras e ignaras"*. Foi ontem na Faculdade de Letras de Lisboa (que na FCSH da Nova já a BD entrou há mais tempo), e o objecto maldito, impertinente, muito bem-amado e lido chama-se As Aventuras do Barão Wrangel. Do eremita mais famoso da serra algarvia.
*Palavras do próprio JCF ao saber da notícia.

terça-feira, 17 de abril de 2007

"Deusto", ou "O Mano em Bilbao"

(Foto: João Soares)

Dafne

Na mitologia, a história de Dafne fala do amor do deus Apolo, da fuga e da beleza que subsiste a todas as transformações (Dafne ferida com a plúmbea e fria flecha de Eros foge das invectivas de Apolo, magoado pela flecha áurea do amor). Além de explicar a razão por que as folhas de louro enfeitam a testa do deus, o mito sublinha como "só a brilhante beleza fica", mesmo das mais brutais e definitivas metamorfoses. (Ovídio, Metamorfoses, Livro I, 525-552)

Deve ser em nome da beleza, das transformações e do amor ao que é belo que existe a editora Dafne. A última notícia dela dá conta de um quarto opúsculo - todos os quatro estão disponíveis para "desembarque", na expressão muito feliz dos editores, aqui. E por aí se vai também a outros lugares.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Para acabar de vez com os chats

O fim da conversa é sempre longo - dez ou doze linhas de beijos, atão vás, adeuses, olha espera aís, e tolices parecidas. É como com toda a gente, imagino. Desta vez foi completo:

tchau final
over and out
roger
ok
talk
by
end

Ficou bonito. Gostei mais que tudo do "by". É poético.

Canito q.b.

O primo António recordou este episódio.

Um dia, finais da década de 70, algum tempo depois de o avô ter em casa o Reboliço, o tio Luís (o "mano velho") levou para o moinho um cão grande. Há-de ter-lhe dito que o moinho precisava de guarda mais robusto, mais visível. O avô terá olhado para o bicho de alto a baixo (o que, estando sentado à porta com o cão parado à sua frente, teria sido mais de baixo a baixo), terá olhado para longe e respondido: "Isso é cão demais p'ra mim. Tem avondo com o meu Reboliço." Depois desta conversa, ergueu-se e entrou no moinho. Atrás dele seguiu, fiel, a esquila do canito.

sábado, 14 de abril de 2007

A avenida do pôr-do-sol

Sunset Boulevard é o nome de um dos meus filmes favoritos da década de 50 (alô, Gracinha!). Mais favorito do que o filme, com o mesmo nome, só a avenida longa, da parte oeste de Los Angeles, por onde caminharam ao luar as almas destrambelhadas de James Douglas Morrison e Ray Manzarek, onde decidiram o nome da banda e alguns dos sons que viriam a aparecer no primeiro disco, fez este princípio de Abril 40 anos.
Ouço as canções naquela voz, as teclas de Manzarek, o baixo de Krieger e a bateria de John Densmore. Lembro-me que poderia, sim, poderia - ter aqui nas Cartas um daqueles quadrinhos com sinal de play para as pôr a tocar. Sim, poderia. Mas prefiro pintar em palavras vagas e pequeninas a música dos Doors. Prefiro, aqui, indecidir-me sobre se haveria de chamar a este post "A malta é estranha", ou "O fim [de tudo]", "Têm-te visto, os meu olhos", ou "À espera do sol", ou "Sim, o rio sabe", ou "Não tocar a terra" - "Uma oração americana", ou "Mocinha, estás perdida". Prefiro não deixar em definitivo uma preferência, nenhuma escolha, pois não a tenho. São os Doors e quem conhece bem o Reboliço sabe como é.

terça-feira, 10 de abril de 2007

A morte do Sol

Lembro-me de ter ficado encantada com uma parede do Whitney cheia de riscos a lápis, feitos aparentemente ao acaso, mas com a magia de terem sido desenhados a partir de resultados de equações matemáticas complexas e divertidas de resolver. LeWitt afirmou que “na arte conceptual, a idea ou o conceito é o aspecto mais importante da obra. O projecto e as decisões são feitos antes, e a execução é uma questão rotineira, indiferente. A ideia transforma-se na máquina que faz a arte.” (Traduziu cá o je.)

segunda-feira, 9 de abril de 2007

O vento de Espanha

O Ángel deu notícias, para dizer que andou de visita a outros moinhos. Assim vistos de longe, parecem mais complicadinhos que o do Reboliço. Obrigada, amigo! Semeaste a curiosidade: o Reboliço já não deixa de pensar em viajar até à terra da Dulcineia.

domingo, 8 de abril de 2007

Da aldeia

O Reboliço acabou de tomar um chazinho de erva cidreira. A Perdida perdeu-se de mimos e ladrava, gania, revirava-se, bailava, cheirava, gania outra vez, uma doideira! O domingo de Páscoa é assim, devagarinho e com folar de ovo cozido no forno a lenha.

(Foto da prima Luísa, com a sua retratadeira nova.)

sábado, 7 de abril de 2007

Paradoxo

Em dias de levante a massa custa a levedar. Parece um paradoxo.

Adenda

Provados e aprovados: bombom com recheio de vinho tinto de Pias; bombom com aguardente da Vidigueira; bombom com alecrim; barra de chocolate branco com hortelã pimenta. Depois de um valente cozido e acompanhados de chá de folha de limoeiro e hortelã da ribeira. Uma confusão de narizes!

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Lambusices

Anda um canito a invejar as bombonneries da moda nas transversais da Broadway, a saliva a escorrer-lhe do focinho e os dólares da carteira, à procura do melhor chocolate nas prateleiras das lojas com os rótulos mais exóticos; a impacientar-se com as horas de abertura e os exclusivos de vendas das marcas mais arredias quando, afinal, o melhor está à porta do moinho. Que vergonha, Reboliço. Quase ano e meio depois de aberta é que vais dar com a Mestre Cacau... Se o objectivo, além do sabor magnífico da pastinha bem temperada, é contrariar a globalização, haverá armas mais imponentes do que os bombons com medronho, bombons com mel "Monte do Mato" (de Mértola), trufas de alecrim ou bombons com vinho tinto de Pias? Vinho de Pias, Reboliço! Falem-lhe agora de "wine and chocolate pairing"!...

(Esta manhã, o Reboliço passeara por Faro com a dona da Pamá. Foram à descoberta da nova loja de chocolates, na Praça dos Poetas. Lojinha discreta, a Mundo do Chocolate só comercializa a pasta em nomes internacionais. O Reboliço embeiçou-se por tulipas, margaridas e jarros com amêndoas de chocolate, coisa de fabrico italiano. Muita inglesada, suiços e normandos. De tugas, nada.)

Seguir a lua

Seguia no banco de trás do carro, como tantas vezes – as mais delas – nas viagens pela planície. Em pequena, quando viajava com os irmãos no banco de trás, as duas viagens eram muito distintas: para Norte, saíam de casa num fim de tarde qualquer e iam rabiando o caminho todo. A maneira de sossegarem era a mãe pô-los a cantar: “Quero ir para o Altinho, que eu daqui não vejo bem / Quero ver o meu amor, se ele adora mais alguém...”. À vinda, de noite cerrada, sossegavam. Aninhada entre os irmãos, depois de dormitar uns minutos, mexia o corpo de maneira a fitar uma das janelas e, por ela, a lua. Ia seguindo o redondo, mais ou menos fechado, nas poucas curvas que o Renault12 fazia. Via a lua ora num lugar ora noutro – às vezes tinha que esticar o pescoço para a enquadrar de novo na janela e arriscava desadormecer de um todo.

A lua no caminho

No caminho da aldeia para o moinho, via-se a lua. Galgara havia pouco o horizonte e era vermelha, um salpico de sangue mal espalhado nas costas de uma mão. Mais adiante na estrada, desavermelhara e subira. Uma nuvem cobria-lhe o topo. “Está mais amarela agora.” “Pois a lua é como os olhos do Sorna”, disse o pai. “Logo quando acorda, tem os olhos muito vermelhos. É uma espécie de Sorna, a lua.” Chegados ao moinho, já ela se levantava acima da torre do castelo, à sua esquerda. A nuvem, afinal, era o minguante a começar já a dentar-lhe a coroa.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Moinhos na poesia (10)

"Moinho de Vento"

Luz,
luz espumejante
sobre a planície, íngreme,
montanha de brilho, fundo
marulhar,
voam tempestades,
respirando relâmpagos, a terrível parede
ergue-se até ao céu.

Desci
pela duna
vindo do mar,
pela terra de aluvião nua de árvores,
sem sombra, sem sonho, fui
com os ceifeiros, o moinho erguia-se
hirto e velho. Agora, as velas
cinzentas agarram os ares.
Silencioso, sobe e domina a terra.

Com as garças levanta
voo, grande no fundo dos céus
brancos. Bravio, da distância
responde-lhe o brilho do olhar
do inverno.

Coração, pássaro dos gelos,
com espinhas e barbatanas
faz o teu ninho na caverna,
no sangue sussurrante.
Fica com as gentes da planície, filhas e
filhos, com as pequenas sombras
de canções e danças, fica e
ergue uma erva de Novembro
contra a neve.

(Johannes Bobrowski, Como um Respirar, Antologia Poética, Sel., trad., intr. e notas de João Barrento, 1990, Lisboa, Cotovia, pp. 24-27. Obrigada, meu primo!)

terça-feira, 3 de abril de 2007

sábado, 31 de março de 2007

A planície, por Charles Péguy

Está de visita ao moinho um grande amigo dos moinhos. Por ele, descubro uma peça literária que desconhecia: Charles Péguy, poeta da planície de La Beauce. Aqui e aqui.

"Março, marçagão, manhã de Primavera, tarde de focinho de cão."

De noite, encolhido junto ao lume, as patinhas cruzadas, o Reboliço ouviu a conversa: "Devia ter regado as alfaces." "Deixa, regam-se amanhã de manhã." Manhãzinha cedo, ainda nem 7 e meia, acordou com a chuvada.
"Mandaste regar as alfaces... Olha, a massa é que não levedou." Focinho de cão logo de manhã, pensa o Reboliço. Vale mais hoje o outro ditado: "Março, marçagão, manhã de Inverno, tarde de Verão."

quinta-feira, 29 de março de 2007

Doizaninhuj

terça-feira, 27 de março de 2007

Finalmente!

O blogue do Isa. Obrigada!

GMT: +00:00

A ouvir rock puro. Eu sei, eu sei. Já cá volto.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Cidades do coração

Há lugares assim, que me recebem e me levam a sorrir. Poder ensinar ao taxista o caminho para uma casa, olhar pela janela do carro e ver a neve amontoada nos passeios a derreter devagarinho pelo sol forte que as nuvens abandonaram, que sensação de acolhimento... Nova Iorque irradia-se e vai calando em mim o ruído dos pensamentos. Silencia-me, enquanto aborreço a espera nos semáforos, no Holland Tunnel, na travessia da Canal St. Chama-me da janela, mais tarde, para o braço férreo da Brooklyn Bridge. Por dois dias, não mais, estar em Nova Iorque é sensacional.

No dia da poesia

Escolho um poema de um dos poetas que mais recentemente tive o prazer e a honra de conhecer. Além de poeta, é uruguaio e plantador de oliveiras. Aldo Mazzucchelli.

Los yndios charrúas

*

estamos hablando con precisión
de los seres nombrados que
"discurrían vagos por este pays"
limitado por unas piedras húmedas al sur
y después/
un alambrado de siete hilos al noreste
(que toquetea el viento a lo largo)
a continuación del cual da comienzo el Brasil.
la esencia lamida de los yndios
puro papel con nervaduras, extirado
en el salto oscurito de una ella
en un pie sobre el otro en Hospital
y decidido a borrarle las huellas
(no encontrar su odio):
estro que queda de un harapo lúgubre.

*

usaban falditas de algodón
para taparse las vergüenzas
del ombligo a las rodillas.
cada uno, y que se hable de lo suyo
–no es lo mismo que mirar
las plantitas autóctonas del y t a p e b ý–.
cada señor estudioso del alma ajena
y que el espejo refleje tal parte de la líquida luz
–no es lo mismo que estar
en cuclillas en la cuchilla más al vueste.

*

la ventaja de haver sido yndio
en Uruguay:
la inexistencia. Pedacito de hoja
ceibo cedrón algarrobo aruera
tala espinillo espartero coronilla
ahí es donde el alma ahuesa
el cuerpo afila
ay van los muertos en la procesión.
individuos ignotos
cualquiera idea acerca de los yndios es pecado
salvo respirar la misma costa larga y lenta.

*

trágica filosofía platensis
especificada siempre a lo ancho
curva envuelta en aire blanco
lechosidad de la provincia de pasaje.
usted que viene aquí siempre van para otro sitio
aquí me quedo mirándole
más móvil que nosotros pero ahíto de ideas.
por esta parte respiramos la aruera
nos hartamos de inconsútil veneno
específicamente en comunicación con la crucera.

*

desde la ventana se ve una casa
blanca iluminada con manchas negras.
las manchas negras son árboles nocturnos.
si encaja la imagen es la noche
lo que queda. La casa huirá.
Quedan las manchas.
Ah de las manchas!... y como los yndios. Si son indescriptibles
son permanentes y verdaderas.

terça-feira, 20 de março de 2007

Em boa companhia (umbiguismo)

E nos Dias Felizes. Nao poderia ser melhor.

"Life's a bitch - and then you die"

O Reboliço abana as orelhas, ainda inconformado com a despedida da Wicker. Lembra-se da Mulher e decide: "Morda-se, portanto, a cadela da vida."

Grande post!

JB sobre WB, a ler com tempo.
Excerto: "O aforismo é apodíctico, entreabre portas para as fechar logo a seguir, enquanto o fragmento é quase sempre uma janela que se abre para outros espaços, existindo apenas num a interdependência com eles."

domingo, 18 de março de 2007

Tanto, imenso (11)

"The Long Way Home"

[...]
You know I love you baby
More than the whole wide world
I'm your woman
You know you are my pearl
Let's go out past the party lights
We can finally be alone
Come with me and we can take the long way home
Come with me, together we can take the long way home
Come with me, together we can take the long way home

(Norah Jones)

sábado, 17 de março de 2007

Turns out...

... o filme de Robert Wise não tem relação directa com os "Body Snatchers" seguintes, filmes de ficção científica - o primeiro de 1956, Invasion of the Body Snatchers; o segundo, com o mesmo título, de 1978; e o mais recente, Body Snatchers, de 1993. O filme de Wise parte do texto de Robert Louis Stevenson e conta a história de um "profanador de cadáveres" a soldo de um professor de medicina. Pretty scary, really. As cenas mais bonitas (o filme é lindo, sim) passam-se à chuva.