(Claro que, bicho distraído e sossegado, o Reboliço na altura não captava estas frequências. Ontem pôde ouvi-las sem perigo nenhum, a abrir e a fechar o episódio dos Sopranos sobre dívidas públicas e dívidas privadas.)
sexta-feira, 31 de julho de 2009
quinta-feira, 30 de julho de 2009
terça-feira, 28 de julho de 2009
O Leitor
(Foto, de telemóvel: Reboliço no cinema. Numa das sessões de Verão que o Cineclube costuma fazer ao ar livre, com a tela no pátio e a máquina a projectar desde o andar de cima dos claustros do Museu Municipal de Faro. Ia todo lampeiro, pata ligeira, à espera de chegar lá e de se sentar descansado. Mas as circunstâncias ditaram de outra maneira, e viu-se, uma vez de muitas mais, a agarrar nas bobines, a sentir a fita, a passá-la pelo circuito todo das rodas dentadas, folga em frente à lâmpada da lente, tensão em frente à lâmpada de ler o som, aperta, fecha, folga no amortecedor antes da bobine vazia, e arranca a luz, o movimento, o trepidar do motor. Ainda pensou em sentar-se mesmo - mas, e se a fita saltasse, de um frame a outro? Não. Viu O Leitor ora em pé, debruçado sobre a amurada do claustro, ora sentado no chão a tentar fixar o olhar entre as grades para perder o menos possível da tela, ora de gatas ("De gatas, Reboliço?!"). No final, antes de as luzes do pátio se reacenderem, saiu de mansinho, pata ante pata. Não quis apagar dos olhos o céu escuro cheio das estrelas, das luzinhas dos aviões e do brilho dos pardais que passavam lá fora e faziam voar consigo a luz dos candeeiros da rua.)segunda-feira, 27 de julho de 2009
Oh...
Encontra o pé aquela luz intensa
em que, ao pisar-se, o espaço se subleva
e calça devagar a diferença
desde a profunda cicatriz da treva.
Encontra. E, quando fosforece o impacto,
ajusta-se nos músculos a alterna
experiência que comove o acto
de iluminar-se sucessiva a perna.
Mas sucessiva de função estreada
em cada ponto de penumbra que usa
esclarecer a rapidez da estrada
na alheação a que essa perna induza.
E, de repente, a branca rapidez
nasce da luz solícita dos pés.
em que, ao pisar-se, o espaço se subleva
e calça devagar a diferença
desde a profunda cicatriz da treva.
Encontra. E, quando fosforece o impacto,
ajusta-se nos músculos a alterna
experiência que comove o acto
de iluminar-se sucessiva a perna.
Mas sucessiva de função estreada
em cada ponto de penumbra que usa
esclarecer a rapidez da estrada
na alheação a que essa perna induza.
E, de repente, a branca rapidez
nasce da luz solícita dos pés.
(Poema sem título: Fernando Echevarría, Uso de Penumbra, 1995.)
domingo, 26 de julho de 2009
O Rafael

(Desenho do catavento: Michel Subrenat-Auger.
A parte do redondel que se vê em baixo à esquerda é o topo do telhado do Moinho.)
sábado, 25 de julho de 2009
Do céu dos gatos (transmissão directa para a Xantipa)
- Olá. És a Carolina?
- Sou, sim. E tu és quem?
- Sou a Tamino. Cheguei há uns dias e não conheço ninguém. Lá em baixo disseram-me que talvez te encontrasse aqui. Posso ficar contigo?
- Acho que podes. Nunca tenho grande companhia.
- O que é que fazes para passar o tempo? Há ratos para perseguir?
- Não muitos...
- Oh. Então, mas este céu não é para gatos?
- Não só, Tamino: aqui é tudo igual a lá em baixo. Gente e bichos tudo misturado. E já assim às vezes é um tédio - imagina se não houvesse alguns diferentes de nós!
- Hum... então e o sol, para nos estendermos a ele?
- Nada. Nem sol nem lua. É o infinito absoluto. Lembras-te de quando lá em baixo ouvias as pessoas falarem do nada, dizerem para não se pensar em nada?
- Lembro-me; fazia-me uma confusão...
- Olha, o nada é isto.
- Mas, e as latinhas de comida, quem é que as traz? E as bogas cozidas com as espinhas todas?
- Nada, Tamino. Daqui a algum tempo já nem te lembrarás disso. Agora ouço-te a dizer essas palavras e tenho uma ideia muito vaga de que já houve algum lugar onde faziam sentido.
- É muito estranho. E não dá medo?
- Estás a sentir medo?
- Não, é verdade. Estou descansada. E desapareceram-me as dores.
- Ora bem; deixa-te estar. Podes ficar aqui ao meu lado. E, se quiseres, depois iremos saltar nuvens. Isso é que é!...
- Sou, sim. E tu és quem?
- Sou a Tamino. Cheguei há uns dias e não conheço ninguém. Lá em baixo disseram-me que talvez te encontrasse aqui. Posso ficar contigo?
- Acho que podes. Nunca tenho grande companhia.
- O que é que fazes para passar o tempo? Há ratos para perseguir?
- Não muitos...
- Oh. Então, mas este céu não é para gatos?
- Não só, Tamino: aqui é tudo igual a lá em baixo. Gente e bichos tudo misturado. E já assim às vezes é um tédio - imagina se não houvesse alguns diferentes de nós!
- Hum... então e o sol, para nos estendermos a ele?
- Nada. Nem sol nem lua. É o infinito absoluto. Lembras-te de quando lá em baixo ouvias as pessoas falarem do nada, dizerem para não se pensar em nada?
- Lembro-me; fazia-me uma confusão...
- Olha, o nada é isto.
- Mas, e as latinhas de comida, quem é que as traz? E as bogas cozidas com as espinhas todas?
- Nada, Tamino. Daqui a algum tempo já nem te lembrarás disso. Agora ouço-te a dizer essas palavras e tenho uma ideia muito vaga de que já houve algum lugar onde faziam sentido.
- É muito estranho. E não dá medo?
- Estás a sentir medo?
- Não, é verdade. Estou descansada. E desapareceram-me as dores.
- Ora bem; deixa-te estar. Podes ficar aqui ao meu lado. E, se quiseres, depois iremos saltar nuvens. Isso é que é!...
sexta-feira, 24 de julho de 2009
"um dia vou chegar a um carpinteiro e pedir-lhe que me faça a cama"
"My house of my spirits"
[memória descritiva alheia]
"Gosto de andar perdido na casa refazendo caminhos que vão dar ao mesmo sítio por partes diferentes.
Uma pequena casa em lisboa, com portas de lisboa e luz de lisboa.
Anda-se nela à roda, como se fosse grande. Mas é pequena - pequena.
Sala:
aqui ouve-se de Schuman a Panque-Roque feito noutras casas - dessas com marquises. Esta sala tem o seu som e é gloriosamente simples! e pequena.
é a mesma que se banalizifica quando se acende a televisão que parece um ovo cinzento ligado aos esgotos e riachos belos do mundo - inteiro.
No nicho ao comprido, depois da sala, onde comprimo livros e caixas de música, objectos e coisas naturais - sobretudo de madeira seca e áspera e de pedra muito macia, há um sofá côr-de-laranja que parece posto como um assento num cockpit a apontar para um grande canyon, ou para uma clara fresta por onde a imaginação e a calma das coisas que voam do ar para a cabeça passam.
O chão, que tudo liga, range num certo sítio, e os móveis, mesmo quando se está sentado, mexem-se e estalam. Enfim, as coisas também têm os seus bailes - meio parados.
Esse corredor é um prelúdio. Quando se vê parece tão digno e tão corredor! comprido, com objectos - mais objectos - de ver de esguelha, ainda mais encostados que os livros comprimidos da saleta do sofá côr-de-laranja.
Mas são só três passos e já acabou. Só parece mais comprido porque tem um meio. Que é onde a tábua range.
Dali vê-se - a olhar para a frente e para trás - a casa toda, de uma parte à outra.
Numa ponta tem Bach, noutra barulhos de pessoas num quintal.
No meio tem calor, cheiro e vestir de madeira e coisa cómoda de estuque. A luz eléctrica, quando se acende, é como ele, não o muda. É-o mais ele ainda - breve.
E nesse quarto que queria mais branco ainda, estão as coisas baixinhas. A cama... não sei que dizer ao olhá-la: cansada? velha, fraquinha, meio derreada, sem nenhum encanto de coisa velha, só aquele ser velho de material que sabe mal resistir à função - nada de madeiras. Mas é doce.
Um dia será. Não tinha ainda pensado nisto, um dia vou chegar a um carpinteiro e pedir-lhe que me faça a cama!
Bem, esse quartinho, sem nada de especial, é bonito, tem uma janela clara de onde adoro sentir chegar as madrugadas, de cima, com os barulhos excitados dos pássaros inquietos de chilrear a luz.
Dá para o quintal, ali à mão de semear, mas para onde não podemos ir.
O melhor é o muro/parede alta do fundo, irregular, com um cinzento que parece sempre novo e molhado. um cinzento irregular.
A cozinha é a cozinha.
tem um feio chão.
A casa-de-banho é como se um armário ao alto tivesse dentro uma janela por onde se engasga uma grossa laranjeira que repete o que se vê do quarto, e ouve.
A água da torneira tem boa presão, e isso sabe bem.
tinha que ir tomar banho (e aqui estou, d'emplão, sentado, mesmo a ir) mas assomou-se-me assim esta casa. olha até gosto, e até te adianto o pedido, muito convencido, sim podes pôr no teu post. mas não ponhas nomes, tá bem."
(Tá bem. Como se fosse preciso nome. O Reboliço não editou nada. Nadinha mesmo. O "de em pelão", que é feíissimo assim por extenso, ficou como estava. Lisboa sem letra capital, sem nada. "Presão" da água sem pressão nenhuma. E blogue ficou "post", o que é que haveria de ficar?)
>
M.
Cidade sénior
O Reboliço, deslumbrado pela cidade grande, gosta de lhe ver reconhecida a vetustez.
>
Lisboa
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Cláudia
O T. mostrou ao Reboliço o Marcelo D2, artista brasileiro. Canta uma música com samples de uma outra voz fantástica. O Reboliço arrebitou as orelhas e foi desencantá-la. Vai dedicada à Lagartinha.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Achinha, achinha, perdi uma coisinha
O Reboliço acredita que perder o tino a alguma coisa é um estado passageiro. Por isso fareja, fareja, acorda a pensar no lugar onde terá guardado o que procura, fareja, raspa o chão, mas jamais se desapacienta. No fim de contas, tudo se acha.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Do Mano
>
Fotos,
Mano,
Outros blogues
domingo, 19 de julho de 2009
Dias de Verão
Os dias de Verão na aldeia eram dias de férias grandes. Isso queria dizer que não havia aulas e, portanto, que se aliviava a disciplina na casa. Mas dormir até tarde não estava nos hábitos da família. Se se dormia na casa da mercearia, aos dias de semana acordava-se ao som dos primeiros fregueses: antes das oito da manhã, que a partir das dez, onze, o calor obrigava a fechar a porta. O domingo era diferente. O Reboliço começava a despertar quando a luminosidade da manhã entrava pela telha de vidro, a única abertura do quarto grande (além da porta), onde dormia na mesma cama com a Mana, ao lado da cama do Mano. Não servia de nada encher aquele vão translúcido, esticar a cana de mais de dois metros e empurrar o papel pardo: o sol chegava ao dia e as paredes começavam a amarelecer, a cómoda e o guarda-fatos a ser mais do que sombras indefinidas, as cornucópias de ferro da cabeceira da cama a desenhar-se atrás dela, a traço cinzento escuro na cal. Acordavam as cores e as formas. Os barulhos vinham depois: duas vozes na cozinha, quebradas pelo arco do corredor e pelas estantes da despensa, que se ouviam mais límpidas quando a mãe ou a tia iam da cozinha para a despensa, vinham do quintal ou por alguma razão passavam a falar no corredor, para onde dava directamente a folha de madeira que era a porta do quarto. O Reboliço tinha dois passatempos: primerio, tentar distinguir qual das duas falava; quando se decidia, era sinal de já estar bem desperto. Depois, esperar pelo momento em que uma das duas, normalmente a mãe, se lembrava deles ("E aqueles moços, não acordam?"). Não tardavam depois dessa frase mais do que dois ou três minutos até que ela entrasse quarto adentro: "Meninos, vamos lá - levantar!" Vinham as cócegas, os ralhetes, os lençóis para trás, o dia inteiro à frente deles.
>
Família
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Confusão de dedos de pés
O Reboliço acordou com o mexer de patas e lembrou-se da voz do David Byrne. Cá vai (dedicada, está claro). Imagens e música são do melhorio!
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Música para os ouvidos do Matias (4)
Mana, e desta, lembras-te?
.....O sino pela manhã,
.....Num constante badalar,
.....Cantando diz com afã:
.....São horas de levantar.
.....Dlim-dlão-dlão-dlão-dlão-dlão!
.....O sino pela manhã,
.....Num constante badalar,
.....Cantando diz com afã:
.....São horas de levantar.
.....Dlim-dlão-dlão-dlão-dlão-dlão!
(A mãe lembra-se de um verso de uma segunda quadra, "O sino toca à tardinha", mas o resto varreu-se-lhe. Eu cá aposto que há uma terceira quadra a começar com "O sino toca à noitinha" e que deve terminar com "São horas de recolher", ou coisa que isso valha. Mas na Internet, que é boa, nada!)
quarta-feira, 15 de julho de 2009
"La flor del lirio real"
(Foto da estátua de Joselito em Priego de Córdoba,a que o Reboliço foi dar por obra e muita graça da Mulher do Lado,
no lugar onde foi filmado Saeta del Ruiseñor:
Reboliço.)
Moinho novo em folha
Sábado que vem abre ao público perto de Londres um moinho de verdade, novíssimo e todo modernaço, construído em colaboração com a Galeria Barbican e a companhia de design exyzt (cuja página mostra algumas fotos do dito). A notícia vem hoje no Guardian (depois de uma outra, domingo) e através dela o Reboliço ficou a conhecer a Guild of Traditional Cornmillers, ou Guilda dos Moleiros Tradicionais de Milho. São curiosos, os moinhos da Inglaterra: alguns parecem faróis; e os ingleses chamam velas às pás de madeira sem pano.
O Reboliço é um nefelibata (14)
[Parecía / un dragón. (JLB)]
Sometimes we see a cloud that's dragonish;
A vapour sometime like a bear or lion,
A tower'd citadel, a pendent rock,
A forked mountain, or blue promontory
With trees upon't, that nod unto the world,
And mock our eyes with air
William Shakespeare, Antony and Cleopatra, 4.14.3-8
(Diz António a Eros:
"Vemos por vezes uma nuvem adragonada;
Um vapor por vezes qual urso ou qual leão,
Cidadela com torres, rocha suspensa,
Montanha aguçada, promontório azul
Com árvores em cima, a acenar ao mundo,
e a rir dos nossos olhos com o ar")
"Vemos por vezes uma nuvem adragonada;
Um vapor por vezes qual urso ou qual leão,
Cidadela com torres, rocha suspensa,
Montanha aguçada, promontório azul
Com árvores em cima, a acenar ao mundo,
e a rir dos nossos olhos com o ar")
O Reboliço é um nefelibata (13)
Nubes (II)
Por el aire andan plácidas montañas
o cordilleras trágicas de sombra
que oscurecen el día. Se las nombra
nubes. Las formas suelen ser extrañas.
Shakespeare observó una. Parecía
un dragón. Esa nube de una tarde
en su palabra resplandece y arde
y la seguimos viendo todavía.
Qué son las nubes? Una arquitetura
del azar? Quizá Dios las necesita
para la ejecución de Su infinita
obra y son hilos de la trama oscura.
Quizá la nube sea no menos vana
que el hombre que la mira en mañana.
Jorge Luis Borges, Los Conjurados (1985)
Uma versão portuguesa, de Fernando Pinto do Amaral,
está em Obras Completas III, Círculo de Leitores, Lisboa, 1998, p. 504.
Uma versão portuguesa, de Fernando Pinto do Amaral,
está em Obras Completas III, Círculo de Leitores, Lisboa, 1998, p. 504.
terça-feira, 14 de julho de 2009
O Comportamento dos Cães
Têm pés como trevos de quatro folhas
a deixar puzzles na terra.
Sorriem como chaves Yale e chamam-
-nos com línguas de cascata de bazar.
Um galgo caniveta pela relva
até onde a franja palomino do afegão
é metade pano de cena da Ópera e metade
cabelo à rufia. A cabeça
vem antes do mais, bandeada como
uma bandeja, erguida a pender para a esquerda.
O labrador bombeia água da nora,
a boxer saracoteia os quadris,
agarrada a um batente de porta, e
o lobo da Alsácia agita o sabre -
só lutam os de pêlo à escovinha.
Desportivos, coçam a comichão
como ciclistas pernetas no sprint
até casa, a mijar são atletas de barreiras,
cagam como halterofilistas e descontraem
às cavalitas uns dos outros...
a deixar puzzles na terra.
Sorriem como chaves Yale e chamam-
-nos com línguas de cascata de bazar.
Um galgo caniveta pela relva
até onde a franja palomino do afegão
é metade pano de cena da Ópera e metade
cabelo à rufia. A cabeça
vem antes do mais, bandeada como
uma bandeja, erguida a pender para a esquerda.
O labrador bombeia água da nora,
a boxer saracoteia os quadris,
agarrada a um batente de porta, e
o lobo da Alsácia agita o sabre -
só lutam os de pêlo à escovinha.
Desportivos, coçam a comichão
como ciclistas pernetas no sprint
até casa, a mijar são atletas de barreiras,
cagam como halterofilistas e descontraem
às cavalitas uns dos outros...
(Craig Anthony Raine, tradução minha)
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Sobreviver para contar
“We were so gloriously contentious, everyone bitching at everyone [...] We all said some stupid things, but film seemed to matter so much.”
(Diz Andrew Sarris sobre a idade de ouro da crítica de cinema nos Estados Unidos: "Éramos tão gloriosamente contenciosos, todos a sermos umas cabras uns para os outros [...] Todos dissemos alguma estupidez, mas parecia que os filmes eram mesmo importantes.")
(Diz Andrew Sarris sobre a idade de ouro da crítica de cinema nos Estados Unidos: "Éramos tão gloriosamente contenciosos, todos a sermos umas cabras uns para os outros [...] Todos dissemos alguma estupidez, mas parecia que os filmes eram mesmo importantes.")
(Caliban, my master)
Se um de nós se magoava ou aborrecia com alguma coisa, a avó de uma amiga do Reboliço avisava antes que o impropério saísse: "Pense - mas não diga." Era um modo de mitigar o efeito das parolacce nos que as ouvissem sair da boca de alguém desacostumado a dizê-las. Era também o reconhecimento de que aí vinha um torpilóquio, um palavrão, o esgar e o "m....!" gritado por grande, fisiológica urgência. No Scientific American, o artigo sobre a mesma matéria termina com um aviso sobre o perigo de esvaziar o sentido das asneiras. Ah, Aninhas, a tua avó também já o sabia.
(Aqui chamara a atenção para os benefícios de chamar nomes e de dizer asneiras.)
- Sorna, não queres lá ver que o Matias tem medo da tartaruga?
- Da tartaruga? A que propósito? Ah! Já sei! Deve ser dos botões a fazer de olhos. Uiiii, até a mim me dão calafrios.
- Na verdade, não faz muito mal. Desde que não ganhe medo a todas as tartarugas, que isso seria quase recear a gente também...
- Na verdade, não faz muito mal. Desde que não ganhe medo a todas as tartarugas, que isso seria quase recear a gente também...
domingo, 12 de julho de 2009
As praias
Uma das coisas de que mais gosto em Jacquot de Nantes, o meu filme favorito, é a areia da praia dar com a pele arenosa do corpo (já doente) de Jacques Demy. No amor, perdão, no filme que Agnès Varda lhe dedica, a pele estende-se para fora do lugar de um homem, para o areal de todas as praias do mundo.
St. Louis, Missouri Armstrong
O Reboliço sonhou que encostava o focinho à janela, como o nevoeiro. Acordou a trautear a melodia de "St James Infirmary" e a pensar em T. S. Eliot. A noite vira-a estendida sobre uma mesa. Let her go, let her go, God bless her, respondeu Armstrong a cantar quando Eliot o convidou para fazer uma visita, no poema de 1917. Alguns anos depois, na Cidade Irreal Eliot encontrava um antigo companheiro de armas e gritava-lhe "Stetson!"
sábado, 11 de julho de 2009
sexta-feira, 10 de julho de 2009
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Literatura e materiais de construção
- Pai, o que é betão ciclópico?
- É o betão em bocados grandes, assim de 30 ou 40 centímetros de espessura.- E porque é que lhe chamam ciclópico?
- Deve ser porque são bocados como as pedras que os Cíclopes usavam para tapar as cavernas e não deixar sair as ovelhas - tu sabes que os Cíclopes guardavam as ovelhas nas cavernas, não sabes?
- Ah. Pensava que fosse uma testa de betão com um olho no centro.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
terça-feira, 7 de julho de 2009
- Reboliço, a partir de agora chamas-me Dra Luca, está bem?
- Anda lá, que primeiro tens é de ganhar tino. Ou pensas que os cães de diagnóstico nascem ensinados?
- Anda lá, que primeiro tens é de ganhar tino. Ou pensas que os cães de diagnóstico nascem ensinados?
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Mercados de tradução
(Como é um artigo breve, fica todo aqui. Traduzido.)
.....Os meus amigos holandeses dizem-me que preferem ler romances estrangeiros (não holandeses) numa tradução inglesa do que numa tradução para neerlandês.
.....Têm um bom nível de inglês, mas claramente o seu neerlandês é bastante melhor. Pergunto-lhes, por isso, porque lêem em inglês.
.....Dão-me uma resposta simples: pensa num livro escrito em sueco, como o magnífico Stieg Larsson, Os Homens que Odeiam as Mulheres. Se alguém o traduzir para neerlandês, o número relativamente pequeno de leitores dessa língua implica que o mercado dessa tradução será muito menor — logo, os lucros e os montantes dos direitos também mais baixos — do que o mercado de uma tradução inglesa.
.....Estes rendimentos mais baixos atraem tradutores que não são tão bons como aqueles que uma tradução para inglês atrai; a curva da oferta de tradutores é ascendente.
.....Dizem os meus amigos que antes lerão uma boa tradução numa língua que conhecem bem, ainda que de modo imperfeito, do que uma tradução medíocre na língua de que são nativos.
.....Têm um bom nível de inglês, mas claramente o seu neerlandês é bastante melhor. Pergunto-lhes, por isso, porque lêem em inglês.
.....Dão-me uma resposta simples: pensa num livro escrito em sueco, como o magnífico Stieg Larsson, Os Homens que Odeiam as Mulheres. Se alguém o traduzir para neerlandês, o número relativamente pequeno de leitores dessa língua implica que o mercado dessa tradução será muito menor — logo, os lucros e os montantes dos direitos também mais baixos — do que o mercado de uma tradução inglesa.
.....Estes rendimentos mais baixos atraem tradutores que não são tão bons como aqueles que uma tradução para inglês atrai; a curva da oferta de tradutores é ascendente.
.....Dizem os meus amigos que antes lerão uma boa tradução numa língua que conhecem bem, ainda que de modo imperfeito, do que uma tradução medíocre na língua de que são nativos.
Daniel Hamermesh
O Reboliço pensa: "Ou Daniel Hamermesh tem uns amigos muito estranhos ou as regras da oferta e da procura não fazem grande sentido aqui. Ou então," pensa ainda, "sou o mais ingénuo dos cães." Antes de adormecer para a folga do meio-dia, lembra-se do Crime e Castigo.
domingo, 5 de julho de 2009
VII. BUT TO HONOR TRUTH WHICH IS SMOOTH DIVINE AND LIVES AMONG THE GODS WE MUST (WITH PLATO) DANCE LYING WHICH LIVES DOWN BELOW AMID THE MASS OF MEN BOTH TRAGIC AND ROUGH
(VII. MAS PARA HONRAR A VERDADE QUE É MACIA DIVINA E VIVE ENTRE OS DEUSES TEMOS DE (COM PLATÃO) DANÇAR A MENTIRA QUE VIVE LÁ EM BAIXO ENTRE A MASSA DE HOMENS TRÁGICOS E DUROS)
(VII. MAS PARA HONRAR A VERDADE QUE É MACIA DIVINA E VIVE ENTRE OS DEUSES TEMOS DE (COM PLATÃO) DANÇAR A MENTIRA QUE VIVE LÁ EM BAIXO ENTRE A MASSA DE HOMENS TRÁGICOS E DUROS)
(Título do sétimo tango de vinte e nove que compõem o "ensaio ficcional" a que Anne Carson deu o nome The Beauty of the Husband.)
sexta-feira, 3 de julho de 2009
quarta-feira, 1 de julho de 2009
terça-feira, 30 de junho de 2009
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Dizer afecta o pensamento
Este artigo de Lera Boroditsky (que suscitou no blogue do Jason Kotke uma série de comentários e algumas ideias estranhas sobre os falantes de espanhol) ajuda-me a perceber algumas particularidades sobre a língua e sobre a cultura da Finlândia. No finlandês não há marca morfológica de género nas palavras nominais (nomes próprios, adjectivos, nomes comuns, particípios, pronomes). Para Boroditsky, cujas conclusões se fundamentam em testes feitos com falantes de línguas em que as marcas de género são evidentes (alemão e espanhol), o pensamento dos finlandeses deve ser, então, mais difícil de definir. A ideia de que os traços da linguagem moldam o pensamento não é nova. Testá-la deveria ajudar a clarificar e a consolidar a ideia. Estranhamente, tendo a concordar mais com as conclusões se me abstrair dos testes que conduziram a elas. (Kleist vira ainda outro lado da relação entre o pensamento e a linguagem.)
sábado, 27 de junho de 2009
Histórias de contrabando (ou "Adeus ó Vindima II")
Alertado pelo cão do vizinho António, o Reboliço ficou a saber que inaugurou em Santana de Cambas um Museu do Contrabando. A notícia vem escrita no Diário do Alentejo (que só tem ligação para a página principal) desta semana (sim, é um semanário). No museu expõem-se mapas e outros objectos que mostram "produtos, caminhos, o medo e o cansaço." Não é o primeiro destes museus a abrir em Portugal. Há pelo menos mais um, em Melgaço.
(Enquanto pensa no contrabando, o Reboliço ouve as palavras sábias de Santa Rita de Sampa: "Quanto mais proibido, mais faz sentido a contravenção. / Legalize o que não é crime; recrimine a falta de educação.")
(Enquanto pensa no contrabando, o Reboliço ouve as palavras sábias de Santa Rita de Sampa: "Quanto mais proibido, mais faz sentido a contravenção. / Legalize o que não é crime; recrimine a falta de educação.")
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Moinhos na poesia (18)
"O mundo é um moinho"
Ainda é cedo, amor
mal começastes a conhecer a vida
já anuncias a hora de partida
sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Ainda é cedo, amor
mal começastes a conhecer a vida
já anuncias a hora de partida
sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco a sua vida
em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
preste atenção, o mundo é um moinho
vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
vai reduzir as ilusões a pó…
Preste atenção, querida
de cada amor tu herdarás só o cinismo
quando notares estás à beira do abismo
abismo que cavastes com os teus pés
(Angenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola. O samba tê-lo-á dedicado à sua filha. No video canta-o a pedido do seu pai: "Um samba, né?")
quinta-feira, 25 de junho de 2009
O Reboliço é um nefelibata (12)
..............................Is this the return to Oz?
..............................The grass is dead,
..............................The gold is brown,
..............................And the sky has claws.
........... ....... .........(Scissor Sisters, "Return to Oz")
..............................The grass is dead,
..............................The gold is brown,
..............................And the sky has claws.
........... ....... .........(Scissor Sisters, "Return to Oz")
Chinelos vermelhos
Moinhos na poesia (17)
.....................São Francisco (2ª versão musical)
...........Lá vai São Francisco
...........Pelo caminho,
...........De pé descalço,
...........Tão pobrezinho,
...........Dormindo à noite
...........Junto ao moinho,
...........Bebendo a água
...........Do ribeirinho.
...........Lá vai São Francisco
...........De pé no chão,
...........Levando nada
...........No seu surrão,
...........Dizendo ao vento:
...........Bom-dia, amigo;
...........Dizendo ao fogo:
...........Saúde, irmão.
...........Lá vai São Francisco
...........Pelo caminho,
...........Levando ao colo
...........Jesus Cristinho,
...........Fazendo festa
...........No menininho,
...........Contando histórias
...........Pros passarinhos.
...........Lá vai São Francisco
...........Pelo caminho,
...........De pé descalço,
...........Tão pobrezinho,
...........Dormindo à noite
...........Junto ao moinho,
...........Bebendo a água
...........Do ribeirinho.
...........Lá vai São Francisco
...........De pé no chão,
...........Levando nada
...........No seu surrão,
...........Dizendo ao vento:
...........Bom-dia, amigo;
...........Dizendo ao fogo:
...........Saúde, irmão.
...........Lá vai São Francisco
...........Pelo caminho,
...........Levando ao colo
...........Jesus Cristinho,
...........Fazendo festa
...........No menininho,
...........Contando histórias
...........Pros passarinhos.
(Vinicius de Moraes, na voz fabulosa de Ney Matogrosso, 1980.
O video não é o melhor, mas tem a cantiga completa,
mais o completo silêncio que se lhe segue.)
O video não é o melhor, mas tem a cantiga completa,
mais o completo silêncio que se lhe segue.)
- Luca, chama aí o Sorna e o Petaner. E eles que tragam também o Boss, o Floby, a Malu, todos os cães que encontrarem pelo caminho. Quero fazer uma experiência.
- Malta! - saiu a bicha a ganir e a ladrar. - Venham cá, o Reboliço quer qualquer coisa.
- Aqui estamos. - fez a canzoada.
- Ora bem, queria que tentassem dizer "cachorrinho" sem usar língua nem beiços. Vamos lá.
- Malta! - saiu a bicha a ganir e a ladrar. - Venham cá, o Reboliço quer qualquer coisa.
- Aqui estamos. - fez a canzoada.
- Ora bem, queria que tentassem dizer "cachorrinho" sem usar língua nem beiços. Vamos lá.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Adeus ó vindima!
– Vocês não conhecem isto – há ali um sítio, chamam-lhe o Pulo do Lobo. Já lá foste? Tu já lá foste. Como a água que aquilo enche! Os cerros que aquilo tem de um lado e outro! A água enche! Tem que ir até lá acima e pular toda ali por um buraco! Era onde os contrabandistas – eu ainda conheci alguns contrabandistas que pulavam aquilo, ali no Penedo Gordo. Mas era afoitar muito. É por isso que aquilo ficou o Pulo do Lobo. Também, se um tipo se desequilibra, ia lá por aí abaixo, adeus ó vindima!, nunca mais sabiam dele. Ali no Penedo Gordo – um era muita gordo, era o Zé Abílio. Pulava com a carga às costas, é um pulo. Agora o que é, é ter a certeza de não se desequilibrar. Só dois é que – ali no Penedo Gordo havia uns quantos, mas só dois é que pulavam. E aquele pulou, arranjava fazenda.
(O Reboliço ouve as palavras do Avô ao Mano e agradece à Prima Albertina o almoço de sopa e peixe que o fez deslindar o "adeus ó vindima" - já a fita estava gasta de tanto passar e não havia meio de compreender o que dizia o Avô naquele passo.)
segunda-feira, 22 de junho de 2009
O Reboliço anda de um lado para o outro, de focinho no chão e cauda curta em direcção ao sol. Fareja, fareja, fareja, vira à direita, vira à esquerda, desce o lancil e mal olha para os carros que obriga a parar na estrada, fareja um círculo no meio do asfalto e regressa ao passeio. Fareja, fareja, fareja à procura de um sinónimo. De "gengiva."
domingo, 21 de junho de 2009
- Luca, estás tão elegante assim tosquiada!
- Achas, Reboliço? Será que não preciso do pacote estético completo, como o Bo?
- Nada disso. E faz-te bem estar assim mais sossegada.
- Disseste o quê? - perguntou a louca, já em corrida e a trautear "A Canção do Cão".
- Achas, Reboliço? Será que não preciso do pacote estético completo, como o Bo?
- Nada disso. E faz-te bem estar assim mais sossegada.
- Disseste o quê? - perguntou a louca, já em corrida e a trautear "A Canção do Cão".
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