segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O Reboliço é um nefelibata (14)

Além de gostar de olhar pela janela da sala e ver as nuvens, ou de olhar para elas enquanto corre na praia ou elas correm quando o céu passa pelo retrovisor do carro, o Reboliço também as aprecia nas fotografias de outros blogues.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Desorientado

O Reboliço lê a notícia e ri-se com os dentes todos. Vai ser um lindo serviço, conduzir com as indicações do amigo Bob Dylan. Ó, se vai.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

"Quem abala de Viana
Leva no peito a Agonia,
O Lima a correr no sangue,
Nos olhos Santa Luzia"

domingo, 23 de agosto de 2009

Dia 4

- Ils sont fous, ces Vianois!
- Tens razão, Idéfix. Eu cá, que sou um cão da moirama, já me convenci disso. São doidos, não dormem, têm pulsos de ferro e pés como o aço. Uns doidos, doidos varridos. Hoje hão-de ficar até às tantas a ver o fogo sobre o Lima. Chamam-lhe serenata.

sábado, 22 de agosto de 2009

Dia 3

O Reboliço rebola-se a rir com os Bombos de Baião a tocar a "Tia Anica de Loulé", seguida de um corridinho bem mandado!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Dia 2

(Foto da Revista dos Bombos na Praça da República: Reboliço,
bicho de pouca bulha mas com grande respeito por rituais.)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Dia 1


(Fotos da manhã, antes da festa:
Reboliço, de focinho no ar, distraído pelos guindastes,
e de focinho no chão, a passar nas ruas com cuidado
para não pisar os enfeites de sal colorido.)


(Foto da saída ao mar da procissão da Senhora da Agonia:
Reboliço, de focinho meio no ar, distraído pelas nuvens.)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Dia Mundial da Fotografia

(Foto, de telemóvel: Reboliço, no Ancão.)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Tanta tinta

.............Ah! menina tonta,
.............toda suja de tinta
.............mal o sol desponta!

.............(Sentou-se na ponte,
.............muito desatenta…
.............E agora se espanta:
.............Quem é que a ponte pinta
.............com tanta tinta?…)

.............A ponte aponta
.............e se desaponta.
.............A tontinha tenta
.............limpar a tinta,
.............ponto por ponto
.............e pinta por pinta…

.............Ah! menina tonta!
.............Não viu a tinta da ponte!

(O Reboliço lembra-se de saber de cor, de ler num livro da Escola Primária, este poema da Cecília Meireles, mas sem os dois versos que abrem a terceira estrofe. Ou é traição da sua memória, ou pensa que talvez aquela sintaxe contrariasse demasiado a norma do português europeu para aparecer num manual escolar. Seja como for, na mesma leva, recorda-se de versos sobre uma bailarina e apercebe-se que são também da Cecília, da colectânea que editou em 1964, Ou Isto ou Aquilo - que, a propósito, era também o título de um dos poemas cantado por Eugénia Melo e Castro, parece-lhe, num programa infantil que passava na televisão portuguesa. Nada sobre esta interpretação nem este programa na net, mas entre as orelhas atentas do Reboliço ainda soam os acordes balançados da cantiga.)

domingo, 16 de agosto de 2009

Das bandas desenhadas

As notícias que vêm dos lados do José Carlos Fernandes são sempre boas. Desta vez, faz saber de um blogue "para mostrar trabalhos que de outra forma dificilmente teriam visibilidade fora do seu âmbito original de publicação, para levantar o véu sobre alguns livros 'em construção' e para dar conta da apresentação de livros e da presença em exposições, festivais de BD e livrarias." É no Sindicato da Caixa Preta e tem links para três filmes adaptados de obras de JCF e tudo.

sábado, 15 de agosto de 2009

How much wood would a woodchuck chuck if a woodchuck could chuck wood?

O Reboliço pensa: "Não me venham com os oculinhos da Janis nem com o lencinho na cabeça do Hendrix. Cool a sério, freak a valer era a indumentária do Alan Wilson: camisa castanha de cornucópias-ou-lá-o-que-é e calças de bombazine cor de mel."
Começou faz hoje quarenta anos, e há quase trinta e nove escaparam-se estes três: o Wilson a 3 de Setembro, o Hendrix a 18 do mesmo mês e a Joplin a 4 de Outubro. Não foi do que traziam vestido nem do que tocaram no festival. Tocou-lhes a eles.

The greatest hobo

O Reboliço já suspeitava que o Bob Dylan era amigo. Com esta história, sente-o ainda mais próximo.

Florestas

Entretido com descrições de beira-lagos na Finlândia, o Reboliço foi dar a um guia de florestas. É quase tão bom como andar por caminhos de verdade, atapetados de caruma e com um tecto de barulhos de bichos, a cheirar cada tronco de árvore e a dormitar nas sombras frescas dos arbustos.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Numa praia ensolarada

(Foto: Reboliço, há anos, de pernas a doer
depois do exercício de fazer o caracol de areia
com a Mana, a Tatita e a A.P. - obrigada!)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

"Conchas, pedrinhas"

"ir procurar pedacinhos verticais e montras de objectos escolhidos, de cores e formas especiais, olhando por um balde com fundo de vidro, para os pés, com cuidado para não escorregar no meio de um plano grande com uma linha distante, alta, de horizonte.

e água"

(Fotos: Reboliço na Praia dos Salmões, que a Mana diz que é como uma
Cordoama em pequenino. Legenda: Mano)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Chamar os bois pelos nomes

"Without the power to order and name life, a person simply does not know how to live in the world, how to understand it. How to tell the carrot from the cat — which to grate and which to pet?"

(Que é como quem diz, à maneira de Oliver Sacks, que se um gajo não souber ordenar e dar nomes às coisas da vida, como é que vai saber viver neste mundo e compreendê-lo? Anda, anda, acaba a confundir garrotes com gatos, sem saber qual há-de desatar e a qual há-de fazer festinhas.)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Escritos à mão

Bom seria que também o Cesário e o Pessanha estivessem assim guardados, à vista de toda a gente.
Adenda, em 1 de Outubro: algum Pessanha já está. Aqui.

O Reboliço é um nefelibata (13)

(Foto das nuvens no charco: Reboliço na Praia dos Salmões. Entre as pedras grandes, seixos rolados e pedrinhas, vai pondo pata atrás de pata. De vez em quando, molhada uma, sacode-a depressa, de frio. Mas os charcos que as rochas recolhem sempre estão menos gelados, assim quietos, do que o mar que as ondas atiram para a areia. A praia está um sossego, sem quase ninguém, nem o vento faz barulho: só se lhe vêem as rugas paralelas, exactas, nos lugares onde a areia não tem nada que a empate. Muito, muito em cima, as nuvens são mal uns farrapinhos, umas sobras de céu branco. Caramujos, cascas inteiras de ouriços-do-mar, lapas, folhas largas, folhinhas esponjosas e pesadas dentro da água, verdes, arroxeadas, azuis - juntam-se ao ruído muito próximo, baixinho, que fazem os charcos devagar, e ao cheiro à maresia.)

domingo, 9 de agosto de 2009

Ampelografia

O Reboliço lambe os beiços, fecha os olhos, e saboreia na memória o pão-de-ló molhado em Malmsey. Por mais que lhe ensinem nomes e tipos de castas, não ganha com saber isso nada comparável ao gosto quente, fluído e ensopado do vinho nos ovos de Margaride. Mais intenso ainda na tarde ensolarada de um quintal em pedra e relva e risos largos.

(Foto: Reboliço, a pensar em tudo isto ainda com olhos fechados na casa em silêncio.
Da varanda ouvem-se desde cedo, desde a noite, os foguetes na freguesia em festa,
os poucos carros do domingo e, agora, o piar feio das gaivotas
e um recado atirado para o lado de lá do Jardim Público:
"Olha - se fores a casa, tira o frango. Tira o frango para fora.")

sábado, 8 de agosto de 2009

Oh...

Companheiros de latidos

Há uma espécie de felicidade que se mede em milhas. Ou, pensa o Reboliço, nuns pouquinhos metros, que levam de um extremo ao outro de um corredor.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O Figo

(Foto do Figo a atravessar a rua da loja para o Jardim: Reboliço)

- Esse que aí está chamam-lhe Figo. Não é meu, e é um gato de que não gosto. Não lhe faça festas, que nunca se sabe se não se volta contra si. Já me chegou a fazer sangue a arranhar-me por cima da roupa, veja bem. É mau. Tem comida em casa, mas vem comer a daqui, da minha gata. A minha é aquela ali, chama-se só Gata. Não é má, mas é feiinha. A mãe dela, sim, que está em casa. Essa é mais bonita, não tem aquele focinho preto. Tem as cores assim mais bem distribuídas. O Figo não é bonito nem feio. É um gato capado que anda aí.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Support the local artists (3)

Há coisas absurdas e muito erradas, mas quase comuns, habituais. Quando sabe de casos de plágio, o Reboliço entristece-se - não tanto (talvez) pelas vítimas do plágio, quanto (será?) pelos seus perpetradores. Já tentou convencer-se de que a probreza de espírito é lá com cada um, mas, como há tanto povo no mundo e a canzoada é ruidosa, a indiferença é-lhe difícil. Decide que o melhor a fazer é continuar a olhar para as obras o mais directamente possível, o mais próximo do lugar e das pessoas que as fizeram existir, para estar mais certo de que as conhece e, por aí, as poder com mais justeza, reconhecer. Ver assim as coisas que fazem o Cunhadão e o Otelo, por exemplo:


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

"Vai-te embora, mês de Agosto!"

(Foto: Reboliço, estirado, em Paçô.)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Alforrecas

Medusas, caravelas, gelatinas, o que seja. O Reboliço chegava à praia e aqueles bichos não o amedrontavam. Às vezes estavam na areira, como mortas, transparentes e repulsivas; outras, viam-se dentro de água, mal se viam, da transparência, mas aí não tinham um aspecto tão intimidante. Se roçava nelas, vinha a comichão. Mas o que é que um cão sabe fazer melhor, se não for coçar-se?
Lembrou-se hoje das alforrecas a propósito de um artigo sobre arquitectura para animais - ou melhor, arquitectura dos lugares onde os homens metem os animais que querem ver em segurança. Lembrou-se, no momento em que encerram uma parte lindíssima do zoológico do Bronx, que tinha lá estado e gostado de estar, há uns quinze anos. Esta casota, agora, é muito bonita - já viste, Charlotte?

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Marquesa de Pombal, gata fadista (excerto)

"Pelota espreitou a televisão, como faz às vezes quando alguma coisa no écran lhe chama a atenção – geralmente, o que mais lhe aguça a curiosidade é o futebol (fascina-a ver os jogadores a mexerem-se, a bola a ir de um lado para outro, e tenta ‘caçar’ tanto os futebolistas como o esférico). A nossa gata pequenita e travessa subiu para cima do electrodoméstico, acomodou-se como de costume entre as caixas de videos e DVDs, e olhou, inclinando a cabeça. Olhou e escutou com atenção. No écran, cantava a maior de todas: a grande Amália Rodrigues.

(Foto: Isa)

[...]
É como se Lisboa fosse feita para os gatos. A sua orografia irregular, cheia de colinas (mais de sete, por muito que Salazar tivesse querido igualar as da sua capital às que havia na Roma de Mussolini), dota as gentes de Portugal de prodigiosas pernas capazes de caminhar pela cidade, faz com que o passeante tenha de se treinar para alcançar os inigualáveis cantinhos dos bairros interiores, e permite uma quantidade de lugares de refúgio e descanso, ideal para os gatos. Além disso, os bairros mais próximos deste rio que já é mar, como Alfama, têm muitos edifícios desabitados, meio em ruínas, à espera de restauro urgente e necessário (é possível que, daqui a uns anos, Lisboa se modernize, e então os gatos deixarão de contar com esta vantagem, pois imagino que todas estas casas serão restauradas, primeiro, e depois habitadas). E, enquanto se esperam melhorias, os gatos têm onde morar, camas onde dormir, cantinhos e pedras para brincar, ratazanas para comer e um espaço que faria a inveja dos felinos de outros países.
Por isso mesmo, durante os meus longos passeios pelo bairro mais característico e de disposição mais irregular da cidade, pude ver muitos gatos a caminhar felizes pelas ruas, ou a descansar no interior das casas desabitadas. E, se o postal típico de Alfama mostra uma velhota assomada à janela, também podemos ver na mesma situação uma quantidade de gatos, gatos nostálgicos, gatos urbanos, gatos do porto, gatos de Alfama, gatos fadistas.
A natureza nostálgica da alma lisboeta parece estar feita também para adorar o gato. Um animal que esconde tanta saudade detrás dos seus olhos teria de ser adorado neste país, e de facto assim acontece.
[...]
E, se Lisboa e a alma portuguesa parecem comungar na perfeição com a figura do gato, o mesmo se pode dizer da banda sonora oficial da cidade, ou seja, o fado. Os gatos de Alfama parece que pensam em fados jamais escritos, parecem carregar dentro de si a música da saudade. Cada gato é um fado irrepetível. E o fado é também um gato de Alfama, ainda que, na verdade, nunca tenha escutado um único fado que mencionasse os gatos de Lisboa. Quem sabe se os letristas não quiseram deixar aos gatos dos bairros populares o lugar que mais gostam de ocupar: o lugar mais discreto, silencioso e oculto que exista. Por exemplo, entre os versos de um fado, escondido em cada espaço em branco ou em cada frase por terminar: na obscuridade do silêncio, os olhos de um gato.
Talvez tivesse sido por esta misteriosa relação que Pelota subiu tão decidida à televisão onde se projectava um concerto de Amália. Porque a minha Pelota de Chamberí tem, creio eu, alma portuguesa. É Condessa de Chamberí e Marquesa de Pombal, esta gata panibérica. Por isso o seu espírito é apaixonado, transversal, e está carregadinho de matizes. Por isso esta gata régia, e ao mesmo tempo carinhosa, se meteu no bolso do humano que a quis conhecer. Na sua vida anterior, Pelota foi uma mulher portuguesa. Quem sabe se chegou a ser a própria Amália, e por isso, ao recordar aquelas canções, ‘Foi Deus’, ‘Ai Mouraria’ ou a graciosa ‘Vou dar de beber à dor’, sobe ao televisor, agarrada à memória, como boa fadista. Por isso Pelota, Condessa de Chamberí e Marquesa de Pombal, quando nos volta a ver depois de uns dias de ausência (como estes que passámos em Lisboa, entre gatos de Alfama e gatos do Barreiro), não nos recebe com miados, mas com um fado, cantado a voz aguda e suave, quase entre sussurros, uma voz que, quem sabe, é a mesma que, anos atrás, iluminou as noites de meio mundo, em jorros, por frases cheias de uma melancólica poesia."

(Isaïes Fanlo, “Marquesa de Pombal, gata fadista”, Em Cena,
nº 10, Inverno/Primavera 2005, pp. 55-59. Tradução: Ana Soares.
A narrativa vai dedicada à Carole, que me mostrou que
Todos Temos o Teu Fado, onde se ouve, entre outras pérolas,
um holandês que não fala português cantar "Uma Casa Portuguesa"
e um travesti espanhol cantar o grande "Lágrima".
O video, em dedicatória cruzada, vai para o Isa, claro!)

domingo, 2 de agosto de 2009

Aprender

"[...] só na escola primária estive completamente exposto à pedagogia oficial. Mas penso no entanto que as desvantagens da pedagogia da época foram enormemente compensadas pela personalidade do meu professor, o senhor Rovisco de Andrade, o qual seria hoje considerado um homem de uma cultura invulgar. A ele fiquei a dever dois dos étonnements ravis de mon enfance: o tom grave, de uma deliciosa melancolia, com o qual ele lia os textos do P. António Vieira, de Camilo ou de Eça, na pequena Selecta que se usava então no ensino da língua e, em geometria, a experiência fascinante das fórmulas das áreas do plano, da perplexidade perante a fórmula que permitia determinar a área de qualquer círculo: uma das letras era uma constante (π), mas a qual tem um valor não integralmente especificável..."


(M. S. Lourenço [1936-2009], Entrevista a Miguel Tamen, in A Teoria do Programa: Uma homenagem a Maria de Lourdes Ferraz e a M.S. Lourenço, org. António M. Feijó e Miguel Tamen, Programa em Teoria da Literatura/Universidade de Lisboa, Lisboa, 2007.)
Adenda, em 5 de Agosto: No Drama Pessoal mostra-se um excerto do magnífico ensaio de Lourenço, "À Sombra das Acácias em Flor".

Adenda 2, em 2 de Setembro: Há mais um excerto de um dos ensaios d'Os Degraus do Parnaso, e um alerta sobre a edição, no blogue de Teresa Sá Couto.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

A destruição do mundo

... como era ouvida em 1984. A rasgar.

(Claro que, bicho distraído e sossegado, o Reboliço na altura não captava estas frequências. Ontem pôde ouvi-las sem perigo nenhum, a abrir e a fechar o episódio dos Sopranos sobre dívidas públicas e dívidas privadas.)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Crise, Leite e Esponja

O Reboliço pensa que os três links para outros tantos blogues sobre Design - aconselhados pela Mana - ficam mesmo bonitinhos uns em cima dos outros na lista aqui ao lado.

terça-feira, 28 de julho de 2009

"Epitaph"

Malcolm Lowry
Late of the Bowery
His prose was flowery
And often glowery
He lived, nightly, and drank, daily,
And died playing the ukulele.

Malcolm Lowry, Selected Poems of Malcolm Lowry, City Lights Books, 1962.
Prometera-o aqui, daqui a pouco há quatro anos. Nem me atrevo a traduzir.

O Leitor

(Foto, de telemóvel: Reboliço no cinema. Numa das sessões de Verão que o Cineclube costuma fazer ao ar livre, com a tela no pátio e a máquina a projectar desde o andar de cima dos claustros do Museu Municipal de Faro. Ia todo lampeiro, pata ligeira, à espera de chegar lá e de se sentar descansado. Mas as circunstâncias ditaram de outra maneira, e viu-se, uma vez de muitas mais, a agarrar nas bobines, a sentir a fita, a passá-la pelo circuito todo das rodas dentadas, folga em frente à lâmpada da lente, tensão em frente à lâmpada de ler o som, aperta, fecha, folga no amortecedor antes da bobine vazia, e arranca a luz, o movimento, o trepidar do motor. Ainda pensou em sentar-se mesmo - mas, e se a fita saltasse, de um frame a outro? Não. Viu O Leitor ora em pé, debruçado sobre a amurada do claustro, ora sentado no chão a tentar fixar o olhar entre as grades para perder o menos possível da tela, ora de gatas ("De gatas, Reboliço?!"). No final, antes de as luzes do pátio se reacenderem, saiu de mansinho, pata ante pata. Não quis apagar dos olhos o céu escuro cheio das estrelas, das luzinhas dos aviões e do brilho dos pardais que passavam lá fora e faziam voar consigo a luz dos candeeiros da rua.)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Oh...

Encontra o pé aquela luz intensa
em que, ao pisar-se, o espaço se subleva
e calça devagar a diferença
desde a profunda cicatriz da treva.

Encontra. E, quando fosforece o impacto,
ajusta-se nos músculos a alterna
experiência que comove o acto
de iluminar-se sucessiva a perna.

Mas sucessiva de função estreada
em cada ponto de penumbra que usa
esclarecer a rapidez da estrada

na alheação a que essa perna induza.
E, de repente, a branca rapidez
nasce da luz solícita dos pés.

(Poema sem título: Fernando Echevarría, Uso de Penumbra, 1995.)

domingo, 26 de julho de 2009

À bientôt



(Fotos da emissão da Eurosport: Reboliço. Dedicadas, claro está.)

O Rafael



(Desenho do catavento: Michel Subrenat-Auger.
A parte do redondel que se vê em baixo à esquerda é o topo do telhado
do Moinho.)

sábado, 25 de julho de 2009

Do céu dos gatos (transmissão directa para a Xantipa)

- Olá. És a Carolina?
- Sou, sim. E tu és quem?
- Sou a Tamino. Cheguei há uns dias e não conheço ninguém. Lá em baixo disseram-me que talvez te encontrasse aqui. Posso ficar contigo?
- Acho que podes. Nunca tenho grande companhia.
- O que é que fazes para passar o tempo? Há ratos para perseguir?
- Não muitos...
- Oh. Então, mas este céu não é para gatos?
- Não só, Tamino: aqui é tudo igual a lá em baixo. Gente e bichos tudo misturado. E já assim às vezes é um tédio - imagina se não houvesse alguns diferentes de nós!
- Hum... então e o sol, para nos estendermos a ele?
- Nada. Nem sol nem lua. É o infinito absoluto. Lembras-te de quando lá em baixo ouvias as pessoas falarem do nada, dizerem para não se pensar em nada?
- Lembro-me; fazia-me uma confusão...
- Olha, o nada é isto.
- Mas, e as latinhas de comida, quem é que as traz? E as bogas cozidas com as espinhas todas?
- Nada, Tamino. Daqui a algum tempo já nem te lembrarás disso. Agora ouço-te a dizer essas palavras e tenho uma ideia muito vaga de que já houve algum lugar onde faziam sentido.
- É muito estranho. E não dá medo?
- Estás a sentir medo?
- Não, é verdade. Estou descansada. E desapareceram-me as dores.
- Ora bem; deixa-te estar. Podes ficar aqui ao meu lado. E, se quiseres, depois iremos saltar nuvens. Isso é que é!...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

"um dia vou chegar a um carpinteiro e pedir-lhe que me faça a cama"


"My house of my spirits"
[memória descritiva alheia]

"Gosto de andar perdido na casa refazendo caminhos que vão dar ao mesmo sítio por partes diferentes.
Uma pequena casa em lisboa, com portas de lisboa e luz de lisboa.
Anda-se nela à roda, como se fosse grande. Mas é pequena - pequena.
Sala:
aqui ouve-se de Schuman a Panque-Roque feito noutras casas - dessas com marquises. Esta sala tem o seu som e é gloriosamente simples! e pequena.
é a mesma que se banalizifica quando se acende a televisão que parece um ovo cinzento ligado aos esgotos e riachos belos do mundo - inteiro.
No nicho ao comprido, depois da sala, onde comprimo livros e caixas de música, objectos e coisas naturais - sobretudo de madeira seca e áspera e de pedra muito macia, há um sofá côr-de-laranja que parece posto como um assento num cockpit a apontar para um grande canyon, ou para uma clara fresta por onde a imaginação e a calma das coisas que voam do ar para a cabeça passam.
O chão, que tudo liga, range num certo sítio, e os móveis, mesmo quando se está sentado, mexem-se e estalam. Enfim, as coisas também têm os seus bailes - meio parados.
Esse corredor é um prelúdio. Quando se vê parece tão digno e tão corredor! comprido, com objectos - mais objectos - de ver de esguelha, ainda mais encostados que os livros comprimidos da saleta do sofá côr-de-laranja.
Mas são só três passos e já acabou. Só parece mais comprido porque tem um meio. Que é onde a tábua range.
Dali vê-se - a olhar para a frente e para trás - a casa toda, de uma parte à outra.
Numa ponta tem Bach, noutra barulhos de pessoas num quintal.
No meio tem calor, cheiro e vestir de madeira e coisa cómoda de estuque. A luz eléctrica, quando se acende, é como ele, não o muda. É-o mais ele ainda - breve.
E nesse quarto que queria mais branco ainda, estão as coisas baixinhas. A cama... não sei que dizer ao olhá-la: cansada? velha, fraquinha, meio derreada, sem nenhum encanto de coisa velha, só aquele ser velho de material que sabe mal resistir à função - nada de madeiras. Mas é doce.
Um dia será. Não tinha ainda pensado nisto, um dia vou chegar a um carpinteiro e pedir-lhe que me faça a cama!
Bem, esse quartinho, sem nada de especial, é bonito, tem uma janela clara de onde adoro sentir chegar as madrugadas, de cima, com os barulhos excitados dos pássaros inquietos de chilrear a luz.
Dá para o quintal, ali à mão de semear, mas para onde não podemos ir.
O melhor é o muro/parede alta do fundo, irregular, com um cinzento que parece sempre novo e molhado. um cinzento irregular.
A cozinha é a cozinha.
tem um feio chão.
A casa-de-banho é como se um armário ao alto tivesse dentro uma janela por onde se engasga uma grossa laranjeira que repete o que se vê do quarto, e ouve.
A água da torneira tem boa presão, e isso sabe bem.
tinha que ir tomar banho (e aqui estou, d'emplão, sentado, mesmo a ir) mas assomou-se-me assim esta casa. olha até gosto, e até te adianto o pedido, muito convencido, sim podes pôr no teu post. mas não ponhas nomes, tá bem."


(Tá bem. Como se fosse preciso nome. O Reboliço não editou nada. Nadinha mesmo. O "de em pelão", que é feíissimo assim por extenso, ficou como estava. Lisboa sem letra capital, sem nada. "Presão" da água sem pressão nenhuma. E blogue ficou "post", o que é que haveria de ficar?)

Cidade sénior

O Reboliço, deslumbrado pela cidade grande, gosta de lhe ver reconhecida a vetustez.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Cláudia

O T. mostrou ao Reboliço o Marcelo D2, artista brasileiro. Canta uma música com samples de uma outra voz fantástica. O Reboliço arrebitou as orelhas e foi desencantá-la. Vai dedicada à Lagartinha.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Achinha, achinha, perdi uma coisinha

O Reboliço acredita que perder o tino a alguma coisa é um estado passageiro. Por isso fareja, fareja, acorda a pensar no lugar onde terá guardado o que procura, fareja, raspa o chão, mas jamais se desapacienta. No fim de contas, tudo se acha.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Do Mano

(Foto: Mano, num lugar chamado Versam, na região suíça de Graubünden ["Tem dois pontinhos no u, como a C.S., sabes?"]. Decidiu - finalmente! - arranjar uma maquineta de fotografar e mandou este retrato de um bebedouro [ficou todo abespinhado quando o Reboliço lhe disse "Que belo bebedouro de vacas!", e ripostou sem demora "É um bebedouro, ponto, há imensos espalhados pela Suiça! nas cidades e no campo, de pedra, de betão, de madeira... muitos"], para animar as paredes brancas das Cartas.)

domingo, 19 de julho de 2009

Dias de Verão

Os dias de Verão na aldeia eram dias de férias grandes. Isso queria dizer que não havia aulas e, portanto, que se aliviava a disciplina na casa. Mas dormir até tarde não estava nos hábitos da família. Se se dormia na casa da mercearia, aos dias de semana acordava-se ao som dos primeiros fregueses: antes das oito da manhã, que a partir das dez, onze, o calor obrigava a fechar a porta. O domingo era diferente. O Reboliço começava a despertar quando a luminosidade da manhã entrava pela telha de vidro, a única abertura do quarto grande (além da porta), onde dormia na mesma cama com a Mana, ao lado da cama do Mano. Não servia de nada encher aquele vão translúcido, esticar a cana de mais de dois metros e empurrar o papel pardo: o sol chegava ao dia e as paredes começavam a amarelecer, a cómoda e o guarda-fatos a ser mais do que sombras indefinidas, as cornucópias de ferro da cabeceira da cama a desenhar-se atrás dela, a traço cinzento escuro na cal. Acordavam as cores e as formas. Os barulhos vinham depois: duas vozes na cozinha, quebradas pelo arco do corredor e pelas estantes da despensa, que se ouviam mais límpidas quando a mãe ou a tia iam da cozinha para a despensa, vinham do quintal ou por alguma razão passavam a falar no corredor, para onde dava directamente a folha de madeira que era a porta do quarto. O Reboliço tinha dois passatempos: primerio, tentar distinguir qual das duas falava; quando se decidia, era sinal de já estar bem desperto. Depois, esperar pelo momento em que uma das duas, normalmente a mãe, se lembrava deles ("E aqueles moços, não acordam?"). Não tardavam depois dessa frase mais do que dois ou três minutos até que ela entrasse quarto adentro: "Meninos, vamos lá - levantar!" Vinham as cócegas, os ralhetes, os lençóis para trás, o dia inteiro à frente deles.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Confusão de dedos de pés

O Reboliço acordou com o mexer de patas e lembrou-se da voz do David Byrne. Cá vai (dedicada, está claro). Imagens e música são do melhorio!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Música para os ouvidos do Matias (4)

Mana, e desta, lembras-te?

.....O sino pela manhã,
.....Num constante badalar,
.....Cantando diz com afã:
.....São horas de levantar.

.....Dlim-dlão-dlão-dlão-dlão-dlão!

(A mãe lembra-se de um verso de uma segunda quadra, "O sino toca à tardinha", mas o resto varreu-se-lhe. Eu cá aposto que há uma terceira quadra a começar com "O sino toca à noitinha" e que deve terminar com "São horas de recolher", ou coisa que isso valha. Mas na Internet, que é boa, nada!)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

"La flor del lirio real"

(Foto da estátua de Joselito em Priego de Córdoba,
a que o Reboliço foi dar por obra e muita graça da Mulher do Lado,
no lugar onde foi filmado Saeta del Ruiseñor:
Reboliço.)

Moinho novo em folha

Sábado que vem abre ao público perto de Londres um moinho de verdade, novíssimo e todo modernaço, construído em colaboração com a Galeria Barbican e a companhia de design exyzt (cuja página mostra algumas fotos do dito). A notícia vem hoje no Guardian (depois de uma outra, domingo) e através dela o Reboliço ficou a conhecer a Guild of Traditional Cornmillers, ou Guilda dos Moleiros Tradicionais de Milho. São curiosos, os moinhos da Inglaterra: alguns parecem faróis; e os ingleses chamam velas às pás de madeira sem pano.

O Reboliço é um nefelibata (14)


[Parecía / un dragón. (JLB)]


Sometimes we see a cloud that's dragonish;
A vapour sometime like a bear or lion,
A tower'd citadel, a pendent rock,
A forked mountain, or blue promontory
With trees upon't, that nod unto the world,
And mock our eyes with air
William Shakespeare, Antony and Cleopatra, 4.14.3-8

(Diz António a Eros:
"Vemos por vezes uma nuvem adragonada;
Um vapor por vezes qual urso ou qual leão,
Cidadela com torres, rocha suspensa,
Montanha aguçada, promontório azul
Com árvores em cima, a acenar ao mundo,
e a rir dos nossos olhos com o ar")

O Reboliço é um nefelibata (13)


Nubes (II)

Por el aire andan plácidas montañas
o cordilleras trágicas de sombra
que oscurecen el día. Se las nombra
nubes. Las formas suelen ser extrañas.
Shakespeare observó una. Parecía
un dragón. Esa nube de una tarde
en su palabra resplandece y arde
y la seguimos viendo todavía.
Qué son las nubes? Una arquitetura
del azar
? Quizá Dios las necesita
para la ejecución de Su infinita
obra y son hilos de la trama oscura.
Quizá la nube sea no menos vana
que el hombre que la mira en mañana.

Jorge Luis Borges, Los Conjurados (1985)
Uma versão portuguesa,
de Fernando Pinto do Amaral,
está em Obras Completas III, Círculo de Leitores, Lisboa, 1998, p. 504.

terça-feira, 14 de julho de 2009

O Comportamento dos Cães

Têm pés como trevos de quatro folhas
a deixar puzzles na terra.

Sorriem como chaves Yale e chamam-
-nos com línguas de cascata de bazar.

Um galgo caniveta pela relva
até onde a franja palomino do afegão

é metade pano de cena da Ópera e metade
cabelo à rufia. A cabeça

vem antes do mais, bandeada como
uma bandeja, erguida a pender para a esquerda.

O labrador bombeia água da nora,
a boxer saracoteia os quadris,

agarrada a um batente de porta, e
o lobo da Alsácia agita o sabre -

só lutam os de pêlo à escovinha.
Desportivos, coçam a comichão

como ciclistas pernetas no sprint
até casa, a mijar são atletas de barreiras,

cagam como halterofilistas e descontraem
às cavalitas uns dos outros...

(Craig Anthony Raine, tradução minha)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Sobreviver para contar

“We were so gloriously contentious, everyone bitching at everyone [...] We all said some stupid things, but film seemed to matter so much.”

(Diz Andrew Sarris sobre a idade de ouro da crítica de cinema nos Estados Unidos: "Éramos tão gloriosamente contenciosos, todos a sermos umas cabras uns para os outros [...] Todos dissemos alguma estupidez, mas parecia que os filmes eram mesmo importantes.")