O Reboliço não dá grande importância a estas efemérides. Mas há uma passagem no post que assinala o aniversário que lhe chama a atenção. "Meus blogs estão no meu testamento," escreve Fernanda Guimarães Rosa.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
A montanha e o suspiro
"Primeiro tem-se a tentação de mostrar uma montanha. [...] Depois, um belo dia, percebemos que o melhor é ver o menos possível.
Dá-se uma espécie de redução que não é bem uma redução, é antes uma concentração, que acaba por nos dizer mais. Mas isto não se consegue de um dia para o outro! É preciso tempo e paciência. Depois, até um suspiro se pode transformar num romance."
(Jean-Marie Straub em Où gît votre sourire enfoui?, de Pedro Costa)
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
A Perdida
(Foto da Perdida no seu lugar favorito do quintal ao sol: Luísa Apolónia (ou Henrique?). Obrigada!)
Quando alguém chegava à casa, entrado pela porta sempre aberta do casão, vinha a ladrar esganiçada desde o fundo do quintal, ladrava sem intervalo entre os latidos, quase num guincho de "Venham ver e digam-me se está bem que entre, que eu corpo não tenho para o impedir, mas a voz, ah!, a voz darei até morrer por esta casa que me acolheu." Quem era da casa ia entrando, indiferente ao tamanho da Perdida e ao aumento que lhe faziam no corpo os latidos. "Perdiiiiida...", diziam, sem sequer baixarem a cabeça nem desperdiçarem com ela mais do que o nome.
Aos poucos, a Perdida habituou-se a reconhecer as visitas mais frequentes e as mais familiares. Ladrava-lhes ao som da chegada com uns latidos zangados e fortes, "Aqui não entrarão, não entrarão, que eu não deixo!", mas não tardava nada a chegar-lhe ao focinho o cheiro conhecido, que transformava a zanga num ladrar de boas-vindas: "Então, então, há que tempos que não se deixavam ver, como é que estão todos?" Da mudança na saudação até à confiança para ganhar festas já não distaram grandes meses. Hesitava em pôr-se quieta, a jeito para um coçar de lombo ou um afago entre as orelhas, as patinhas pequenas a pisar o chão como se ali estivesse um tapete de brasas. Ia cedendo, cedendo, até que se aquietava de um todo: já sem ladrar nem mexer muito, saía-lhe um meio ganido meio suspiro de gozo, que não vinha da boca, não vinha da garganta, não vinha de ponto nenhum exacto, mas era exalado pela cor de mel do pêlo curto. A cauda, não mais que um tocozinho no fim do fio do lombo, tremia de contentamento, enquanto as patas de trás quase vergavam e o corpo se queria derreter naquele minuto.
Tinha os olhos mais ternos que o Reboliço já vira em cadela alguma. Na cor, eram um nadinha mais castanhos do que o pêlo - o que lhes dava a ternura, porém, não era o tom, mas a consciência da gratidão, e isso vinha-lhe com um saber largo que tinha sobre todos os seres, sobre tudo o que se passava à sua volta. O Reboliço lembra-se disto e ouve-lhe os passinhos, que já há alguns anos se aventuravam para fora do casão, para a rua, sempre que o dono saía. Ouve-lhe os passinhos e o ladrar a ecoar no casão. Lembra-se de uma vez - que lhe contaram - em que a Perdida salvou de se afogar num bidão de chapa um gato jovem e descuidado que andava pelos muros. O bidão estava encostado do lado de lá da porta do quintal, já depois da garagem, a caminho da horta e do galinheiro. Ali estava, enferrujado e enraizado no chão de terra, a aparar a água da chuva que serviria para regar as pequenezas: salsa, coentros, a hortelã e o poejo, e até os espinafres, que a dispensavam.
No início do quintal, junto à porta da cozinha, o tio Chico e o pai conversavam. Havia os ruídos da aldeia: uma motorizada que passava na rua, um carro mais lançado, alguma vizinha que conversava com outra à sombra das paredes, nada de muito. Conversavam os dois homens em pé, de costas para a distante porta do quintal, quando a Perdida rompeu por ali numa berraria aflita que ainda sobrepunha mais os latidos uns aos outros. "Venham cá, venham cá, venham depressa, cá depressa, venham!" ia e vinha, a correr o quintal todo, e chegava-se aos homens mais aflita ainda. O tio Chico pôs-se a enxotá-la, "O raio da cadela, mas o que é que tu queres? Vai-te lá embora", e ela virava costas e fugia, lançada, para o lado da horta e do galinheiro; fugia só uns três ou quatro metros e estacava, o corpo de frente para lá, mas de focinho virado para os homens, a ladrar de novo: "Aqui! Venham comigo depressa!", ladrava. Eles, nada. Continuaram a conversa até que a insistência do bicho, por hábito sossegado, os fez estranhar e andar para onde ela com tanta aflição parecia chamá-los. Assim que percebeu neles o sentido de a seguirem, correu até à porta do quintal e pôs-se a ladrar encostada ao bidão da água da chuva, focinho empinado. Quando os homens chegaram lá perto, devagar, ainda a conversar, ouviram os miados do gato, miados ou ganidos, ou o que era aquele som agudo que a criatura fazia. O pai muniu-se de uma pá comprida que lá estava, não fosse o bicho, sôfrego pela vida, dar-lhe para arranhar. Mal o gato viu o pau da pá, patinhas para que as quis, agarrou-se a ele, safou-se de um salto e nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Os homens voltaram para o quintal e para a conversa. A Perdida ia a andar ao lado deles, já sossegada, com os quadris a fazer baloiçar o toco da cauda, de satisfeita, e, então sim, calmamente indiferente à sorte do felídeo.
Aos poucos, a Perdida habituou-se a reconhecer as visitas mais frequentes e as mais familiares. Ladrava-lhes ao som da chegada com uns latidos zangados e fortes, "Aqui não entrarão, não entrarão, que eu não deixo!", mas não tardava nada a chegar-lhe ao focinho o cheiro conhecido, que transformava a zanga num ladrar de boas-vindas: "Então, então, há que tempos que não se deixavam ver, como é que estão todos?" Da mudança na saudação até à confiança para ganhar festas já não distaram grandes meses. Hesitava em pôr-se quieta, a jeito para um coçar de lombo ou um afago entre as orelhas, as patinhas pequenas a pisar o chão como se ali estivesse um tapete de brasas. Ia cedendo, cedendo, até que se aquietava de um todo: já sem ladrar nem mexer muito, saía-lhe um meio ganido meio suspiro de gozo, que não vinha da boca, não vinha da garganta, não vinha de ponto nenhum exacto, mas era exalado pela cor de mel do pêlo curto. A cauda, não mais que um tocozinho no fim do fio do lombo, tremia de contentamento, enquanto as patas de trás quase vergavam e o corpo se queria derreter naquele minuto.
Tinha os olhos mais ternos que o Reboliço já vira em cadela alguma. Na cor, eram um nadinha mais castanhos do que o pêlo - o que lhes dava a ternura, porém, não era o tom, mas a consciência da gratidão, e isso vinha-lhe com um saber largo que tinha sobre todos os seres, sobre tudo o que se passava à sua volta. O Reboliço lembra-se disto e ouve-lhe os passinhos, que já há alguns anos se aventuravam para fora do casão, para a rua, sempre que o dono saía. Ouve-lhe os passinhos e o ladrar a ecoar no casão. Lembra-se de uma vez - que lhe contaram - em que a Perdida salvou de se afogar num bidão de chapa um gato jovem e descuidado que andava pelos muros. O bidão estava encostado do lado de lá da porta do quintal, já depois da garagem, a caminho da horta e do galinheiro. Ali estava, enferrujado e enraizado no chão de terra, a aparar a água da chuva que serviria para regar as pequenezas: salsa, coentros, a hortelã e o poejo, e até os espinafres, que a dispensavam.
No início do quintal, junto à porta da cozinha, o tio Chico e o pai conversavam. Havia os ruídos da aldeia: uma motorizada que passava na rua, um carro mais lançado, alguma vizinha que conversava com outra à sombra das paredes, nada de muito. Conversavam os dois homens em pé, de costas para a distante porta do quintal, quando a Perdida rompeu por ali numa berraria aflita que ainda sobrepunha mais os latidos uns aos outros. "Venham cá, venham cá, venham depressa, cá depressa, venham!" ia e vinha, a correr o quintal todo, e chegava-se aos homens mais aflita ainda. O tio Chico pôs-se a enxotá-la, "O raio da cadela, mas o que é que tu queres? Vai-te lá embora", e ela virava costas e fugia, lançada, para o lado da horta e do galinheiro; fugia só uns três ou quatro metros e estacava, o corpo de frente para lá, mas de focinho virado para os homens, a ladrar de novo: "Aqui! Venham comigo depressa!", ladrava. Eles, nada. Continuaram a conversa até que a insistência do bicho, por hábito sossegado, os fez estranhar e andar para onde ela com tanta aflição parecia chamá-los. Assim que percebeu neles o sentido de a seguirem, correu até à porta do quintal e pôs-se a ladrar encostada ao bidão da água da chuva, focinho empinado. Quando os homens chegaram lá perto, devagar, ainda a conversar, ouviram os miados do gato, miados ou ganidos, ou o que era aquele som agudo que a criatura fazia. O pai muniu-se de uma pá comprida que lá estava, não fosse o bicho, sôfrego pela vida, dar-lhe para arranhar. Mal o gato viu o pau da pá, patinhas para que as quis, agarrou-se a ele, safou-se de um salto e nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Os homens voltaram para o quintal e para a conversa. A Perdida ia a andar ao lado deles, já sossegada, com os quadris a fazer baloiçar o toco da cauda, de satisfeita, e, então sim, calmamente indiferente à sorte do felídeo.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Anúncio publicitário
Não entre em pânico, não está sozinho.
Também nós temos pensamentos semelhantes,
e até alguma experiência. (…)
Respostas à Posta Restante dos
Correios Centrais de Helsínquia, para:
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
domingo, 18 de outubro de 2009
"El memorioso"
O Reboliço farejou o chão até ao lugar onde se enrosca para dormir. A meio do corredor, achou uma âmpola curiosa que o fez abrir os olhos e aproximar ainda mais o focinho. Cheirou, cheirou, cheirou, e começou a ver, no seu olho mental como num filme, todos os lugares onde tinha estado, todos os postes de rua que tinha farejado e sujado, todas as pernas humanas que o tinham assustado, as jabuticabas esborrachadas sob pés e patas na papa bem-cheirosa da terra com chuva, o cheiro das flores que o tinham feito espirrar antes de cada Verão, as contas de cabeça que fizera na vida, as cores de todos os amanheceres a que assistira, todos os ossos que escondera, as motas que vira a Luca e o Petaner perseguirem, os minutos lânguidos que passara encostado ao pêlo quente do Sorna... De repente, abanou a cabeça com força, pensou que aquilo era capaz de ser demasiada excitação para um canito à hora de deitar, deu meia volta, mais a volta da praxe, aninhou-se na manta felpuda e adormeceu.
O Reboliço é um nefelibata (18)
(Foto da nuvem-névoa com o Maracanã à esquerda: Reboliço.
Feita na manhã seguinte ao dia esplendoroso de 2 de Outubro e
A mesma cidade maravilhosa pode ter o Céu e o Inferno.)
sábado, 17 de outubro de 2009
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Copan
(Foto do edifício Copan visto do passeio da Avenida Ipiranga, em São Paulo, na tarde solarenga de domingo: Reboliço. Assim mais de perto, e em contra-picado, revela as muitas cáries a precisar de reparação. Mostrado de cima, no meio da selva de betão, parece mais sedutor. Em qualquer dos casos, o Reboliço fica boquiaberto com o génio de quem imagina coisas como esta, ou como o Louveira, na Praça Vilaboim.)
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Dia de Acção de Blogues

O Reboliço fez a boa acção de blogue no dia 12, segunda-feira passada: o assunto de um dos posts relacionava-se directamente com o tema de 2009, a mudança climática, pois falava da poupança de energia e da racionalidade de consumo. Na verdade, o Reboliço faz boas acções todos os dias: come pouco (carne, nada), dorme muito, nem ladra, não gosta de confusão nem dos ruídos que fazem as máquinas de secar roupa, nem das luzinhas de stand-by dos aparelhos eléctricos. Na verdade, sim, é um canito muito ecológico. Nem a escrever as cartas gasta papel.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Pela secagem natural
O Reboliço gosta do cheiro a roupa acabada de lavar. E gosta da ideia de estender a roupa. Ao ar, ao sol, a espalhar aquele cheiro. Nunca entendeu muito bem a mania de usar uma máquina para secar a roupa, quando há fora de casa, da janela de um prédio ou num quintal, o vento mais forte ou mais fraco para fazer o serviço sem gastar um tostão nem consumir outra energia fabricada pelo homem. Além disso, roupa estendida sempre lhe traz à memória um filme de que gosta muito. Ou o jogo de ordenar por cores as molas que prendem as peças ao longo da corda, como escalas de tons de tinta. Faz-lhe espécie a ideia de que se possa proibir uma coisa assim bonita e sensata.
(Notícia do NYTimes sobre a discussão de leis para proibir a secagem da roupa em estendais; página do movimento pró-estendal.)
"He knows it's all worthwhile"
O Reboliço ia no táxi de um lado para o outro. Era um dia calmo, de fim-de-semana prolongado pelo feriado de Nossa Senhora Aparecida. Do rádio saíam músicas de melodia fácil, bem conhecidas, e ia olhando pela janela a ver passar os prédios de viés. A meio do caminho, reconheceu os acordes de "Starman", mas de algum modo distintos dos que ouvira tantas vezes por David Bowie. "É o Seu Jorge," pensou. Mas não era Seu Jorge coisa nenhuma. Eram os Nenhum de Nós, o mais curioso nome de banda que já ouvira, e a versão de 1989, com letra em português, que Seu Jorge haveria de cantar para o filme de Wes Anderson: "O Astronauta de Mármore." As bandeiradas iam caindo, o taxista martelando os dedos no volante ao ritmo da cantiga, e o assobio do Reboliço a acompanhar até ao fim da viagem.
domingo, 11 de outubro de 2009
Volta e meia
Já é noite cerrada quando, estafado, derreado, esgotado, o Reboliço se arrasta até à casota de aluguer e mal tem forças para gatafunhar umas linhas. Passou o dia em visitas à Pinacoteca de São Paulo e ao Museu da Língua Portuguesa, depois mais um bocado na gigantesca Livraria Cultura e, como se não bastasse já a fatiga do turismo (que, como qualquer passeata, mói como o raio!), ainda teve trabalho a doer até já dentro da noite.
(Foto da instalação de Céleste Boursier-Mougenot na Pinacoteca: Reboliço.
Em cada uma das três piscinas, a água é movida por um motorzinho
que faz mexer as cumbucas de cerâmica e ouvir-se o som bonito do seu entrechoque.)
(Foto do painel final da exposição no Museu da Língua Portuguesa,
dedicada à influência da língua e da cultura francesas no português: Reboliço.
2009 é o ano da França no Brasil - há várias iniciativas relacionadas
com a cultura gaulesa, como esta outra, em Curitiba,
que fez ver ao Reboliço a maravilha desconhecida das
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Maladroit
L'homme d'esprit est le plus maladroit des hommes pour écrire à une femme.
(Victor Hènaux, De l'amour des femmes pour les sots, 1858)
O homem de espírito é o menos hábil para escrever a uma mulher.
(Victor Hènaux, Queda que as Mulheres Têm Para os Tolos,
tradução de Machado de Assis, 1861.
Edição bilingüe e estabelecimento do texto:
Ana Cláudia Suriani da Silva, Editora Unicamp, Campinas, 2008, p. 71.)
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Carte postale
O Michel mandou um postal muito cómico ao Reboliço. Não vem com indicação de autoria, o que não estranha, num postal ilustrado. Pende para o obsceno, mas fica aqui na parede para todos o verem.
(Cai o postalito no dia em que faz cento e vinte anos que abriu em Paris uma sala de espectáculos chamada Moulin Rouge.)
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
O Reboliço é um nefelibata (17)
(Foto do entardecer em Sampa, a cidade que, como diz o Mano, "é tão feia que fica linda",
desde uma varanda na Vila Olímpia: Reboliço)
domingo, 4 de outubro de 2009
Mulher, este post é para ti!
Hoje o Reboliço teve uma surpresa no Museu de Arte Moderna: a retrospectiva de Jorge Guinle. Breve, pois foi assim a sua vida e o período em que pintou, mas clara e muito forte. Dali, apressou as patinhas debaixo da chuva miúda e foi espreitar o Festival Internacional de Cinema do Rio. Chegou bem na hora da sessão de A Raça Síntese de Joãosinho Trinta (assim mesmo, com s). O documentário não lhe pareceu fazer jus ao documentado, que estava sentado no corredor à sua direita, na cadeira de rodas de onde, desde 2006, diz que vê a vida mais ampla e com maior alegria do que antes de ter tido dois AVCs. Mas brinde, brinde mesmo, foi vislumbrar entre a plateia a figura pequena do grande actor Matheus Nachtergaele (o fantástico Dunga, de Amarelo Manga, ou o Sandro Cenoura de Cidade de Deus), ganhar coragem à saída e pedir-lhe que escrevesse qualquer coisa num papel. "Mas o quê?", perguntou ele ao Reboliço: "Ah, sei lá, sua assinatura, ué!"
(Foto do autógrafo, que colocou ao lado de um recorte de revista, com
a personagem de Nachtergaele, João Grilo, na série Auto da Compadecida:
a personagem de Nachtergaele, João Grilo, na série Auto da Compadecida:
Reboliço. Ainda ficou a saber que o actor estará em Lisboa para a
Mostra de Cinema Brasileiro, no início de Novembro, e que
Mostra de Cinema Brasileiro, no início de Novembro, e que
apresentará, nessa ocasião, o primeiro filme realizado por si.)
Santa Teresa
O Reboliço subiu a dois mirantes: o tradicional Corcovado, desinteressante num dia de névoa, e o Parque das Ruínas, em Santa Teresa. É aí que se visita o que resta da mansão fluminense de Laurinda Santos Lobo, uma mecenas de Cuiabá que, nas décadas de 1920 e 30, recebeu personalidades como Heitor Villa-Lobos ou Isadora Duncan. Hoje, o lugar deixa ver grande parte da cidade e um exemplo da técnica favelar de construção:
(Fotos: Reboliço)
>
Fotos,
Onde andei
sábado, 3 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
"Vai sê o maór kizumba!"
O Reboliço saiu à rua cedo para gozar a abertura do sol. Olhou para o dia bonito que alguma divindade oferecera aos morros, para as ondas ressacadas da Praia de São Conrado e da Baía da Guanabara, ouviu os transeuntes que antecipavam a festa, e pensou que seria uma injustiça não se escolher o Rio de Janeiro para a festa Olímpica. Foi visitar lugares diferentes: a Lagoa Rodrigo de Freitas, que estava muito serena, o extremo ventoso de onde sobe a Gávea, e o verde deslumbrante do campus da Pontifícia Universidade Católica; avistou a mancha enorme da Favela da Rocinha, e teve dificuldade em perceber, na luz baça do início da Primavera, o que era vegetação e o que eram paredes de casas.
(Foto de uma árvore recém-plantada de pau-brasil, nos jardins da PUC-Rio: Reboliço)
As praias estavam cheias de gente feliz: "2016 - Nesse Rio eu quero navegar!", dizia uma faixa puxada por uma avioneta, junto à areia. Diz-se por aqui que o Presidente Inácio Lula da Silva tem o favor de mais de 90% da população brasileira, apesar da desgraça em que caiu o seu Partido da Terra. Seja como for, é dele grande parte do mérito desta conquista olímpica, mas não será ele e não se sabe ainda quem será que estará a guiar o país nos cinco anos que antecedem os Jogos.
As primeiras horas depois da notícia são todas vividas com grande entusiasmo: "Ah!, vou aproveitar para melhorar, tem que melhorar. Aprender inglês e espanhol, e educar os meninos logo desde pequeninos, de três anos logo, tem que ser.", garante um homem de quarenta anos bem entrados, que serve à mesa na Churrascaria Plataforma (ponto favorito de Tom Jobim e com um saboroso lombo de badejo na grelha).
O Reboliço olha para os camelôs da beira de estrada, olha para os surfistas impassíveis de prancha debaixo do braço, olha para dentro dos ricos apartamentos, onde há sempre uma mulher com traços indígenas a passar a ferro junto à janela, e pensa que o entusiasmo terá de ser muito forte para aguentar os seis anos até aos primeiros Jogos Olímpicos em solo sul-americano.
>
Fotos,
Onde andei
Causas. Lacinhos. Cenas.
O Reboliço parece uma árvore de Natal: lacinhos cor-de-rosa pela luta contra o cancro da mama e lacinhos verde e amarelo pela escolha da Cidade Maravilhosa para os Jogos Olímpicos de 2016. Se o Rio vem a ser seleccionado, pode ser que melhorem algumas das coisas que não estão bem.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Moinhos na poesia (20)
"La Complainte de la Butte"
(En haut de la rue St-Vincent
Un poète et une inconnue
S'aimèrent l'espace d'un instant
Mais il ne l'a jamais revue.
Cette chanson il composa
Espérant que son inconnue
Un matin d'printemps l'entendra
Quelque part au coin d'une rue.)
La lune trop blême
Pose un diadème
Sur tes cheveux roux
La lune trop rousse
De gloire éclabousse
Ton jupon plein d'trous
La lune trop pâle
Caresse l'opale
De tes yeux blasés
Princesse de la rue
Soit la bienvenue
Dans mon cœur blessé
Les escaliers de la butte sont durs aux miséreux
Les ailes des moulins protègent les amoureux
Petite mandigote
Je sens ta menotte
Qui cherche ma main
Je sens ta poitrine
Et ta taille fine
J'oublie mon chagrin
Je sens sur tes lèvres
Une odeur de fièvre
De gosse mal nourri
Et sous ta caresse
Je sens une ivresse
Qui m'anéantit
Les escaliers de la butte sont durs aux miséreux
Les ailes des moulins protègent les amoureux
Mais voilà qu'il flotte
La lune se trotte
La princesse aussi
Sous le ciel sans lune
Je pleure à la brune
Mon rêve évanoui.
(En haut de la rue St-Vincent
Un poète et une inconnue
S'aimèrent l'espace d'un instant
Mais il ne l'a jamais revue.
Cette chanson il composa
Espérant que son inconnue
Un matin d'printemps l'entendra
Quelque part au coin d'une rue.)
La lune trop blême
Pose un diadème
Sur tes cheveux roux
La lune trop rousse
De gloire éclabousse
Ton jupon plein d'trous
La lune trop pâle
Caresse l'opale
De tes yeux blasés
Princesse de la rue
Soit la bienvenue
Dans mon cœur blessé
Les escaliers de la butte sont durs aux miséreux
Les ailes des moulins protègent les amoureux
Petite mandigote
Je sens ta menotte
Qui cherche ma main
Je sens ta poitrine
Et ta taille fine
J'oublie mon chagrin
Je sens sur tes lèvres
Une odeur de fièvre
De gosse mal nourri
Et sous ta caresse
Je sens une ivresse
Qui m'anéantit
Les escaliers de la butte sont durs aux miséreux
Les ailes des moulins protègent les amoureux
Mais voilà qu'il flotte
La lune se trotte
La princesse aussi
Sous le ciel sans lune
Je pleure à la brune
Mon rêve évanoui.
(O poema foi escrito por Jean Renoir em 1954, para ser cantado em French Cancan.
Musicado por Georges Van Parys, teria no filme a voz de Cora Vaucaire.
Mais tarde veio a ser interpretado por Marcel Mouloudji e por Rufus Wainwright,
no musical de Baz Luhrman. Wainwright acrescentou-lhe alguns versos
traduzidos para inglês e acabou por fazer convergir "windmill" e "Moulin"
na mesma frase.)
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Os poemas de Machado de Assis são "uma gracinha"
As Ventoinhas
(1863)
Com seus olhos vaganáus,
Bons de dar, bons de tolher.
Sá de Miranda
A mulher é um catavento,
Vae ao vento,
Vae ao vento que soprar;
Como vae tambem ao vento
Turbulento,
Turbulento e incerto o mar.
Sopra o sul: a ventoinha
Volta azinha,
Volta azinha para o sul:
Vem taful: a cabecinha
Volta azinha,
Volta azinha ao meu taful.
Quem lhe pozer confiança,
De esperança,
De esperança mal está;
Nem desta sorte a esperança
Confiança,
Confiança nos dará.
Valêra o mesmo na arêa
Rija amêa,
Rija amêa construir;
Chega o mar e vae a amêa
Com a arêa,
Com a arêa confundir.
Ouço dizer de umas fadas
Que abraçadas,
Que abraçadas como irmãs,
Caçam almas descuidadas...
Ah que fadas!
Ah que fadas tão villans!
Pois, como essas das balladas,
Umas fadas,
Umas fadas d'entre nós,
Caçam, como nas balladas;
E são fadas,
E são fadas de alma e voz.
É que - como o catavento,
Vão ao vento,
Vão ao vento que lhes der;
Cedem três cousas ao vento:
Catavento, agua e mulher.
(Joaquim Maria Machado de Assis, Crysalidas, Crisálida, Belo Horizonte, 2000, pp. 85-86.
Sumiu-se faz hoje cento e um anos. Só para não ter de escrever mais, o sacana...)
O Reboliço é um nefelibata (16)
(Foto das nuvens carregadas sobre as montanhas e os morros do Rio de Janeiro: Reboliço)
O Reboliço viaja com a rapidez do silêncio apático do taxista pelas vias de entrada na cidade: auto-estradas de três e quatro faixas, pavimento gasto e solavancos; tunéis escavados para chegar ao Oceano e à baía dos encantos. Dentro dos túneis, a escuridão transforma o cenário na sala de cinema por onde passam todos os géneros de filmes. Fora dos túneis, mesmo debaixo de nuvens espessas, não há filme que valha aos olhos. A extensão de paredes amontoadas sobre descarnadas paredes, com intervalos cariados de alumínio e gente sem blusa encostada aos umbrais, extensão, extensão, extensão interminável, cerca a baía dos prédios altos e lembra que o mundo das montras de pedras preciosas é rodeado de shantytowns à gargalhada. Pensa nisto tudo enquanto vê passar à esquerda e à direita os tijolos à mostra. Começa por pensar que são complexos habitacionais que abrigarão moradores futuros, mas desilude-se à velocidade a que trepida o crucifixo pendurado no espelho retrovisor do táxi. Aqueles muros alaranjados da falta de reboco e tinta, nalguns lugares com ornamentos feitos do tijolinho quebrado, são antigos, estão ali há muito tempo e albergam já cidadãos deste mundo. Pensa em shantytown, pensa em shantih, shantih, shantih. E, ser indefectível que se sente, pensa em jai guru deva ohm.
(A New Yorker de 5 de Outubro traz uma reportagem de John Lee Anderson sobre os gangs das favelas no Rio de Janeiro, com fotografias de João Pina. Num quiosque onde perguntei pela revista, diz-me um homem, reformado, não nascido na cidade mas que já fez muito por ela, para que ela seja melhor: "Ah, não tem jeito! Eu vi a matéria que eles passaram na televisão ontem, falando dessa tal nuiórka, e logo depois mostraram uma outra sobre um menino morto nos Estados Unidos, a violência, e tal. Não tem jeito mesmo: onde tem muita gente vivendo, vai esperar o quê?")
(A New Yorker de 5 de Outubro traz uma reportagem de John Lee Anderson sobre os gangs das favelas no Rio de Janeiro, com fotografias de João Pina. Num quiosque onde perguntei pela revista, diz-me um homem, reformado, não nascido na cidade mas que já fez muito por ela, para que ela seja melhor: "Ah, não tem jeito! Eu vi a matéria que eles passaram na televisão ontem, falando dessa tal nuiórka, e logo depois mostraram uma outra sobre um menino morto nos Estados Unidos, a violência, e tal. Não tem jeito mesmo: onde tem muita gente vivendo, vai esperar o quê?")
>
Fotos,
Onde andei
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Deixas o cinema para quê?
Agnès Varda diz que deixa o cinema para se dedicar às artes plásticas. O Reboliço pensa: "A outras artes plásticas."
domingo, 27 de setembro de 2009
Os sabiás*
(Fotos do pai sabiá e dos filhotes sabiás,
nos poucos segundos em que a mãe deixou o ninho: Reboliço)
*(encomenda)
nos poucos segundos em que a mãe deixou o ninho: Reboliço)
*(encomenda)
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Napoleão
O Reboliço saiu lançado do quarto para o corredor escuro, a caminho da cozinha e da janta. Nem dois passos, e truz! um pontapé numa coisa dura, que o pôs a ver as estrelas que as nuvens de chuva encobriam na cidade. "Raios," pensou. "Há-de ser um dos brinquedos do Nitchi." (É Nietzsche, o nome do cão daquela casa, mas a voz que sai dos donos quando o chamam diz assim.) Vai, pata magoada ante pata sã, acender a luz do corredor para ver o que chutou. Mal se ilumina a alcatifa, abre muito os olhos, inclina a cabeça para trás, incrédulo, aproxima-se de novo para ver melhor, agacha-se sobre o vulto do tamanho de uma bola de râguebi, e ouve atrás de si a voz da dona daquilo.
(Fotos do Napoleão: Reboliço. Apesar do olhar ameaçador,
a tartaruga de pata vermelha, ou jabuti-piranga, é plácida e respira devagarinho.)
(Foto do desconfiado do Nietzsche: Reboliço)
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Moinhos na poesia (19)
Graças ao Cão do Vizinho António, o Reboliço conheceu a melodia que Michel Legrand criou para uma cena do filme The Thomas Crown Affair, com Steve McQueen e Faye Dunaway. Noel Harrison cantou-a na banda sonora e o tema, "The Windmills of Your Mind", haveria de render o Óscar de melhor canção original em 1969.
Round, like a circle in a spiral,
Like a wheel within a wheel
Never ending or beginning
On an ever spinning reel
Like a snowball down a mountain
Or a carnival balloon
Like a carousel that's turning,
Running rings around the moon
Like a clock whose hands are sweeping
Past the minutes of its face
And the world is like an apple
Whirling silently in space
Like the circles that you find
In the windmills of your mind.
Like a tunnel that you follow
To a tunnel of its own
Down a hollow to a cavern
Where the sun has never shone
Like a door that keeps revolving
In a half-forgotten dream
Or the ripples from a pebble
Someone tosses in a stream
Like a clock whose hands are sweeping
Past the minutes of its face
And the world is like an apple
Whirling silently in space
Like the circles that you find
In the windmills of your mind.
Keys that jingle in your pocket,
Words that jangle in your head
Why did summer go so quickly?
Was it something that you said?
Lovers walk along the shore
And leave their footprints in the sand
Is the sound of distant drumming
Just the fingers of your hand?
Pictures hanging in a hallway
And the fragment of a song
Half-remembered names and faces,
But to whom do they belong?
When you knew that it was over,
You were suddenly aware
That the autumn leaves were turning
To the colour of her hair.
A circle in a spiral,
A wheel within a wheel
Never ending or beginning
On an ever spinning reel
As the images unwind,
Like the circles that you find
In the windmills of your mind.
Eddy Marnay compôs-lhe a letra francesa e passou a "Tous les Moulins de Mon Coeur", uma chanson toda romântica cantada, entre outros, por Frida Boccara.
Comme une pierre que l'on jette
Dans l'eau vive d'un ruisseau
Et qui laisse derrière elle
Des milliers de ronds dans l'eau
Comme un manège de lune
Avec ses chevaux d'étoiles
Comme un anneau de Saturne,
Un ballon de carnaval,
Comme le chemin de ronde
Que font sans cesse les heures
Le voyage autour du monde
D'un tournesol dans sa fleur
Tu fais tourner de ton nom
Tous les moulins de mon coeur.
Comme un écheveau de laine
Entre les mains d'un enfant
Ou les mots d'une rengaine
Pris dans les harpes du vent
Comme un tourbillon de neige,
Comme un vol de goélands,
Sur des forêts de Norvège,
Sur des moutons d'océan,
Comme le chemin de ronde
Que font sans cesse les heures
Le voyage autour du monde
D'un tournesol dans sa fleur
Tu fais tourner de ton nom
Tous les moulins de mon coeur.
Ce jour-là près de la source
Dieu sait ce que tu m'as dit
Mais l'été finit sa course,
L'oiseau tomba de son nid
Et voilà que sur le sable
Nos pas s'effacent déjà
Et je suis seul à la table
Qui résonne sous mes doigts
Comme un tambourin qui pleure
Sous les gouttes de la pluie
Comme les chansons qui meurent
Aussitôt qu'on les oublie
Et les feuilles de l'automne
Rencontrent des ciels moins bleus
Et ton absence leur donne
La couleur de tes cheveux.
Comme une pierre que l'on jette
Dans l'eau vive d'un ruisseau
Et qui laisse derrière elle
Des milliers de ronds dans l'eau
Aux vents des quatre saisons,
Tu fais tourner de ton nom
Tous les moulins de mon coeur.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Quitute
O Reboliço acorda cedo, à primeira luz que a manhã dá. Cedo demais para sair, para fazer barulho, para descer ao café da manhã. Então, agarra num dos livros que encontra sobre o criado mudo e fica a ler. Ontem recebeu de presente - um presente que encomendara - A Cozinha da Alcobaça, volume com histórias e receitas de uma professora reformada, Laura Góes, que hoje dirige o que se chamaria um hôtel de charme, na Serra Fluminense. Abriu o livro pela manhãzinha, só para voltar a ganhar sono e somar uma hora ao sossego, mas em pouco tempo tinha percorrido metade das páginas. Sem ademanes nem floreados, a escrita vai directa ao assunto: comida. Por isso é tão fácil e mesmo as diferenças vocabulares se explicam todas por si só, desfeita mais meia frase ou meio parágrafo. Ou melhor, nem todas. A certa altura, a autora refere-se a uma sobrinha sua, "consagrada quituteira em São Paulo", e o Reboliço pensa que será alguma espécie de cozinheira afamada - mas "quituteira" é-lhe absoluta novidade. Nunca vira, ouvira, ou imaginara que existisse aquela sequência de sons com algum sentido. Desfaz depressa o mistério e percebe que se trata de uma espécie de fabricante de petiscos doces, alguém que se dedica aos amuse-bouches com que se entretém a vontade de comer. Mas só quando chega à etimologia se queda e regressa ao sono: parece que vem da palavra kitutu, que em língua quimbundo significa indigestão.
domingo, 20 de setembro de 2009
De cabeça para baixo
Ia o Reboliço na Viação Cometa, uma das empresas mais antigas do Brasil (assim como as Casas Bahia, onde trabalha, como empacotadeira, a "Mamã África" de Chico César), e deu-lhe para se lembrar do início do Outono. "Mas, que raios, aqui é o início da Primavera!"
Pusilânime
Como pode uma alma gigantesca como a deste enorme autor levantar-se sobre um uso tão frequente da palavra "pusilânime"?
Oh...
The eyelash is a friend to man.
It lives to serve the eye.
It fights the dirt and dust and grime,
And keeps the eyeball dry.
sábado, 19 de setembro de 2009
Verde claro e amarelo deslavado
(Fotos do MASP e de um teatrinho no distrito da Consolação: Reboliço. Até agora, tem sido assim: a cidade a uma luz baça com o sol a rarear, a vegetação omnipresente, o betão, grades nas janelas até aos terceiros andares e às vezes acima do terceiro, tijolo pintado de cores inesperadas e portões de ferro, mais conspícuos ainda num dia inútil como o de hoje.)
>
Fotos,
Onde andei
Ressurreição
Ler um romance de Machado de Assis, mesmo que o seu primeiro e tosco, é um prazer largo. Encontrei uma edição escolar, de capa feiíssima, mas com o texto completo (notas a mais, claro) e as duas advertências do autor, uma à primeira edição, de 1872, e a segunda de 1905, já Machado escrevia que Ressurreição fazia parte da "primeira fase da minha vida literária". O bom do livro não é só a história - que prende, mesmo com os engulhos estilísticos e os engasgos românticos do início. Não é também só a primeira advertência, humílima e reveladora. O melhor de tudo é ver, como se fosse na carne do livro, os primeiros passos de um escritor maior: a sua coragem nas hesitações de estilo, a maneira como atira para a frase todas as dúvidas do trabalho, desde que seja para moldar uma personagem e fazer andar a intriga. O melhor de tudo é rir - rir do tosco da matéria, rir da ironia ainda descarada (no infeliz Félix) e rir da invenção.
A história está aqui, mas sem o que Machado escreveu a prefaciá-la. A meio da "Advertência da Primeira Edição", lê-se:
A crítica desconfia sempre da modéstia dos prólogos, e tem razão. Geralmente são arrebiques de dama elegante, que se vê ou se crê bonita, e quer assim realçar as graças naturais. Eu fujo e benzo-me três vezes quando encaro alguns desses prefácios contritos e singelos, que trazem os olhos no pó da sua humildade, e o coração nos píncaros da sua ambição. Quem só lhes vê os olhos, e lhes diz verdade que amargue, arrisca-se a descair no conceito do autor, sem embargo da humildade que ele mesmo confessou, e da justiça que pediu.
Ora pois, eu atrevo-me a dizer à boa e sisuda crítica, que este prólogo não se parece com esses prólogos. Venho apresentar-lhe um ensaio em gênero novo para mim, e desejo saber se alguma qualidade me chama para ele, ou se todas me faltam, - em cujo caso, como em outro campo já tenho trabalhado com alguma aprovação, a ele volverei esforços. O que eu peço à crítica vem a ser - intenção benévola, mas expressão franca e justa. Aplausos, quando os não fundamenta o mérito, afagam certamente o espírito, e dão algum verniz de celebridade: mas quem tem vontade de aprender e quer fazer alguma coisa, prefere a lição que melhora ao ruído que lisonjeia.
Assim.
A crítica desconfia sempre da modéstia dos prólogos, e tem razão. Geralmente são arrebiques de dama elegante, que se vê ou se crê bonita, e quer assim realçar as graças naturais. Eu fujo e benzo-me três vezes quando encaro alguns desses prefácios contritos e singelos, que trazem os olhos no pó da sua humildade, e o coração nos píncaros da sua ambição. Quem só lhes vê os olhos, e lhes diz verdade que amargue, arrisca-se a descair no conceito do autor, sem embargo da humildade que ele mesmo confessou, e da justiça que pediu.
Ora pois, eu atrevo-me a dizer à boa e sisuda crítica, que este prólogo não se parece com esses prólogos. Venho apresentar-lhe um ensaio em gênero novo para mim, e desejo saber se alguma qualidade me chama para ele, ou se todas me faltam, - em cujo caso, como em outro campo já tenho trabalhado com alguma aprovação, a ele volverei esforços. O que eu peço à crítica vem a ser - intenção benévola, mas expressão franca e justa. Aplausos, quando os não fundamenta o mérito, afagam certamente o espírito, e dão algum verniz de celebridade: mas quem tem vontade de aprender e quer fazer alguma coisa, prefere a lição que melhora ao ruído que lisonjeia.
Assim.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
"El vertedero"
(Foto de dois caixotes do lixo, limpinhos, nas traseiras de um hotel em São Paulo: Reboliço. Dedicada ao Isa, que enviou um contributo divertidíssimo para a BSO da cidade - "El Vertedero de São Paulo", de Astrud. Os Morcheeba também têm uma cantiga, menos batida e com um poema mais down, inspirada na cidade. Assim como Fernanda Abreu, que a cantou em funk esgalhado e disse que
"No umbigo tropical
do atlas nacional
um santo desgarrado industrial
explode-implode
tudo que é clichê
no país do carnaval."
O Reboliço não anda atrás do lixo, mas farta-se de encontrar ametistas e outras jóias no meio da estrumeira.)
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
- Reboliço! Ó Reboliço, onde é que estás? Reboliçoooooo!
- Luca, que gritaria é essa? Estava aqui a dormir tão descansado. O que foi?
- É o Reboliço que não aparece, Petaner. Não sei onde se terá metido e queria entregar-lhe umas coisas: um passeio para ele mostrar a Mulher do Lado, uma cantiga para a Sem-Se-Ver ouvir e uma fotografia para ele entregar à Charlotte. Viste-o por aí?
- Não, não o vi. Vamos ter com o Sorna, pode ser que tenha passado pelo canto dele.
...
- Sorna, Sorna! Viste onde se meteu o Reboliço?
- Vi, ladrou a voz funda e meiga do cão grande - era uma baleia grandíssima, com quatro asas, duas maiores e duas mais pequenas. Fazia uma barulheira tão forte que escondi o focinho e tapei as orelhas com as patas. Depois não sei para que lado foram.
A Luca e o Petaner olharam um para o outro, abanaram as cabeças, deram cada um uma patadinha no lombo do Sorna, e viraram-lhe as costas, a correr para o lado da estrada.
- Luca, que gritaria é essa? Estava aqui a dormir tão descansado. O que foi?
- É o Reboliço que não aparece, Petaner. Não sei onde se terá metido e queria entregar-lhe umas coisas: um passeio para ele mostrar a Mulher do Lado, uma cantiga para a Sem-Se-Ver ouvir e uma fotografia para ele entregar à Charlotte. Viste-o por aí?
- Não, não o vi. Vamos ter com o Sorna, pode ser que tenha passado pelo canto dele.
...
- Sorna, Sorna! Viste onde se meteu o Reboliço?
- Vi, ladrou a voz funda e meiga do cão grande - era uma baleia grandíssima, com quatro asas, duas maiores e duas mais pequenas. Fazia uma barulheira tão forte que escondi o focinho e tapei as orelhas com as patas. Depois não sei para que lado foram.
A Luca e o Petaner olharam um para o outro, abanaram as cabeças, deram cada um uma patadinha no lombo do Sorna, e viraram-lhe as costas, a correr para o lado da estrada.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
É sal, Sol
(Foto: Reboliço, antes de passar a Procissão da Senhora da Agonia)
O Reboliço fica a saber que o metro de Nova Iorque vai estar colorido com mosaicos cerâmicos desenhados por Sol LeWitt e feitos em Espanha - porque nos Estados Unidos, pasme-se, não se encontrou quem conseguisse as cores desejadas. Um painel já está montado na parede; faltam agora dois círculos para o chão, com rosas-dos-ventos.
"Aí de onde estiveres, Sol," pensa o Reboliço, "põe os olhos no chão que pisou a Senhora da Agonia. Estão lá a rosa, o vento, as cores - e o sal da vida."
>
Fotos,
Sol LeWitt
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
"Seja como for, espero que me perdoe se errei em escrever-lhe." (*)
(*) Mahatma Gandhi a Adolf Hitler a 1 de Setembro de 1939. Uma das cartas notáveis exibidas aqui.
domingo, 13 de setembro de 2009
Em leilão
O Reboliço já não se recorda há quanto tempo não ouvia a expressão. Era costume ouvi-la à avó, à mãe, a alguma das tias. Raramente a escutava na boca de um homem. As mulheres queixam-se mais de quando está tudo em leilão, uma balbúrdia.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
O Reboliço sonhou com as torres. Estava uma bela tarde de Verão. Sentou-se numa das inúmeras cadeiras de PVC azuis com almofadas de cores diferentes, na praça do World Trade Center, e esperou entrarem os quinze ou vinte moços para dançar. A estrela da ocasião era Bill Shannon, também conhecido como "Crutchmaster", que estaria no palco entre os rapazes da francesa Compagnie Käfig. Nem sequer era grande admirador de breakdance, o Reboliço, mas estava ali perto e decidiu ficar. Não ficou surpreendido quando percebeu que os próprios companheiros de palco de Shannon se rendiam, boquiabertos, à sua versatilidade. Aquilo que nele era para ser fraqueza tornava-se, admiravelmente, no seu trunfo.
O Reboliço lembra-se desse dia, da praça ampla e de se sentir descansado perante aquela novidade.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Juntem-se todos...
... e abram os guarda-chuvas.
(O Reboliço lê num lado e noutro sobre a nova, maravilhosa,
estrepitante caixa e pensa que, se é para se gastar dinheiro,
talvez seja melhor investir noutra coisa. K.O..)
estrepitante caixa e pensa que, se é para se gastar dinheiro,
talvez seja melhor investir noutra coisa. K.O..)
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Prenda!
O Reboliço finca no chão as patas traseiras e dança de contente com a prenda de férias que ganhou do Mano e da Dona Angelita: uma primeira edição escocesa - mas em francês - de Letres de Mon Moulin. Tem uma introdução escrita por Charles Sarolea e foi preparada por Nelson, Éditeurs: 25, rue Denfert-Rochereau, Paris (e também "Londres, Édimbourg et New York"). Não tem data de impressão, mas é posterior a 1897, pois indica as datas do nascimento (1840) e da morte (exacto, 1897) do autor. No interior tem uma foto de Daudet com ar de pobre lunático ou pardal à chuva.
(Foto do bónus que vinha com a oferta, um postal de
"The Old Windmill, Barrington (Rayner's Series)",
dirigido a Miss Knowles, velha conhecida do Reboliço, a dizer
"[Dea]r Mary
I thought you would like to see the old
mill again Mr Cardo [?] wishes
to be remembered to you I
do hope you are keeping
very well + not working to [sic]
hard, warmest love
from Mr Loia [?]":
Mano.
O Mano diz "isto é altamente, o do 'not working too hard',
há quantos anos é que as pessoas dizem umas
às outras para não trabalharem demais?")
O Mano diz "isto é altamente, o do 'not working too hard',
há quantos anos é que as pessoas dizem umas
às outras para não trabalharem demais?")
>
Alphonse Daudet,
Fotos,
Mano
sábado, 5 de setembro de 2009
O Reboliço é um nefelibata (15)
"Shhhhhhhh," faz o Reboliço. "Deixa ouvir os pássaros." Olha para as águas do lago e lembra-se de narcisos alegres e de poetas que são nuvens.
(Foto da página onde se atreveu a garatujar uma versão do poema de 1804
que fosse compreensível ao Cão do Vizinho António,
que se queixa de cada vez que vêm para aqui os ingleses: Reboliço)
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Gostar de
O Reboliço perguntava-se quando teria começado a desaparecer o "de" da expressão "gostar de" sempre que é introduzida por uma relativa. Como em "Isso é que é um filme ø que eu gosto," que se vai ouvindo, parece-lhe, cada vez mais amiúde.
Estava entretido a interrogar-se e assoma-se-lhe à lembrança uma melodia da publicidade de há uns bons trinta anos. Era a uma marca portuguesa de jeans, mas o ritmo era o do ukelele* das pradarias do Oeste americano. Na letra, insidiosa, lá estava a muito bem posta expressão truncada:
Estava entretido a interrogar-se e assoma-se-lhe à lembrança uma melodia da publicidade de há uns bons trinta anos. Era a uma marca portuguesa de jeans, mas o ritmo era o do ukelele* das pradarias do Oeste americano. Na letra, insidiosa, lá estava a muito bem posta expressão truncada:
"ol' time washing
- blue jeans, mas já com aquele azul que a gente gosta
e que só a lavagem dos bons velhos tempos dava:
agora é só vestir, nem é preciso lavar,
porque esses jeans já vêm com o azul que a gente gosta."
Quando comenta o assunto com a Luca, a doida ri-se e diz-lhe, enquanto destrói à dentada uma alfarroba esquecida, que isso é que eram cantigas.
*Como o do esgalhadíssimo "Diamond Joe".
Subscrever:
Mensagens (Atom)



