domingo, 22 de novembro de 2009
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
O Reboliço é um nefelibata (19)
Para o PAI, que nasceu no Moinho, hoje há quase vinte anos.
(Foto das nuvens sobre o Moinho, no final de 2008: Vasco Célio. Pela janela de cima, encostada ao telhado, passa um fiozinho de luz. Não é o fim do dia, são as nuvens que o fazem escurecer mais depressa ainda do que o horário de Inverno. Cá sobre o baixo, a erva da seara está verde, verde.)
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Sobre o que é um blogue
(Excurso de Errol Morris, só ligeiramente desviado do seu assunto mais recente, o carácter mais ou menos verdadeiro das fotografias. É uma discussão que passa também pelo trabalho de Edgar Martins.)
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Lírica...
"Penso que ela pensava que a máquina fotográfica era a minha boca, o que é o sonho de todos os fotógrafos."
(Paul Nicklen sobre o seu encontro com uma foca-leopardo na Antárctida.
A bichinha achou que ele era um predador desajeitado, e vá de lhe dar pinguins a comer.)
sábado, 14 de novembro de 2009
O trabalho que dá entender um cão
I got my black dog barkin'
Black dog barkin'
Yes it is now
Yes it is now
Outside my yard
Yes, I could tell you what he means
If I just didn't have to try so hard
Black dog barkin'
Yes it is now
Yes it is now
Outside my yard
Yes, I could tell you what he means
If I just didn't have to try so hard
(Bob Dylan, "Obviously Five Believers", Blonde On Blonde, 1966)
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Tourigamor
O Cunhadão diz: "Faz um filme chamado Estradas Paralelas e depois eu faço um documentário Tourigamor."
As Praias d'Agnès
Uma das coisas de que mais gosto em Les Plages d'Agnès é o modo como o cabelo de Agnès Varda serve de cronómetro. Mede o tempo e mostra a montagem: o que veio antes e o que foi filmado depois. Todo tingido, início ou final; coroa a embranquecer e ainda ruivo desde meio, a fazer dela um frade capuchinho, metade; só as pontas já pintadas, sem que o resto prateado lhe tire o ar agarotado, final ou início. Isso, e o ela explicar que foi por imperativo estético que, em Jacquot de Nantes, filmou, "proche, serré", a pele, os fios de cabelo, o olho de Jacques Demy a morrer de SIDA - porque, enquanto realizadora, não podia deixar de o fazer.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Camilla Watson
(Foto das fotografias de Camilla Watson metidas em estuque sobre
paredes degradadas da Mouraria, em Lisboa: Reboliço. Obrigada, Dona Angelita!)
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Primeiro, isto.
Agora, isto.
(António Reis está em alta - mas, como lembra Alexandra Lucas Coelho, continua a não haver edição em DVD de Trás-os-Montes, um dos filmes mais fugidios da história do cinema português. Nem de Jaime. Nem de Ana. Nem de Rosa de Areia.)
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Venha o Diabo?
O Reboliço pensa que prepotência e paternalismo não são mesmo a mesma coisa. "Porque será?," pergunta-se, erguendo as orelhas e o focinho. Nem uns segundos depois, volta a assentar a cabeça sobre as patas da frente, cheira o ar ainda fresco da manhã, e suspira. "O prepotente tem uma ideia errada de si mesmo - abusa da autoridade porque se julga nesse direito. Mas o paternalista, muitas vezes um pobre prepotente, faz também uma ideia errada do outro; engana-se no que é e no que vê." No seu pensamento, um bom acto de prepotência é preferível a qualquer, ainda que brando, paternalismo.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
De baixo para cima
(Fotos do fungo que, visto de cima, parece esferovite: Reboliço.
Esferinhas rápidas. Casinhas dos gnomos, manos. Aldeia de strumpfes, sim, cunhadão.)
>
Fotos,
Onde andei
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Oh...
Ao cair da folha, até os mais resistentes têm de cair.
(Os fins podem ser felizes, e Todd May explica porquê. Obituário aqui.)
(Os fins podem ser felizes, e Todd May explica porquê. Obituário aqui.)
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
(os cães arrepiam-se?)
Actualização: Pelos vistos, há uma compilação das suas escolhas. Mas não com a sua voz.
ACTUALIZAÇÃO - A partir da uma da tarde, daqui a bocado, emissão especial na RADAR. Pode-se ouvir por aqui. Com a voz dele. E aqui 500 temas rebeldes que o fizeram mostrá-la.)
domingo, 1 de novembro de 2009
Oh...
(O Reboliço não sabe o que dizer. No blogue O Jansenista foi encontrar umas linha próximas do que poderia ter dito. Se o Vasco Granja o ajudou a moldar o sistema de focagem ocular, foi muitas vezes o António Sérgio a afinar-lhe o mistério que vai dentro dos ouvidos de um cão. Haverá CDs ou streams, ou lá o que é, ou MP4-5-6, com os registos da sua voz, disponíveis para quem quer que seja e para o Reboliço a fazer ouvir, por exemplo, ao pequeno Matias?)
sábado, 31 de outubro de 2009
Anéis de prata eram de lata.
A tia Patrocínia lembrou mais uma personagem da aldeia: Mestre Lino, o latoeiro. Fazia cafeteiras, regadores, formas para fazer queijo, tabuleiros de lata para os bolos, alguidares de zinco. "E dava-nos anelinhos. Anéis de prata eram de lata." A tia conta como iam todas contentes com os anéis que o Mestre Lino lhes fazia.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Bolinhas de esferovite
(Foto dos fungos junto de uma árvore na horta das Termas de Monfortinho: Reboliço.
O Reboliço queria saber se se chama "esferovite" ao esferovite por serem
esferinhas que se mexem muito depressa.
E quer saber que nome têm estas criaturas tão curiosas que,
vistas de cima, fazem lembrar as tais bolinhas.)
vistas de cima, fazem lembrar as tais bolinhas.)
>
Fotos,
Onde andei
António Reis > Pedro Costa
Ora vejam se a isto não se poderá chamar um passo em frente:
(Foto do anúncio no caderno "ípsilon" do Público de hoje: Reboliço.
À atenção do Paulo, e do Daniel, e da Carolin, e da Anabela,
e da Graça, e da Cris, e do Rafa, e da Marina, e da Alda,
e do Jean Pierre, e do Telmo, e do Manuel, e da Ana,
e do Wiliam, e da Fernanda, e do Mauro, e do Tiago, e da Patrícia.
e da Graça, e da Cris, e do Rafa, e da Marina, e da Alda,
e do Jean Pierre, e do Telmo, e do Manuel, e da Ana,
e do Wiliam, e da Fernanda, e do Mauro, e do Tiago, e da Patrícia.
Ena, já somos uns quantos! A imagem amplia, para se ler melhor.)
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Dos antepassados
A tia Patrocínia leva para o quarto pedacinhos de pão. Atira-os da janela: "São para os pardais, que são meus parentes," explica. "O meu avô, Manuel Joaquim Pardal, era o que não acreditava em bruxas. Era casado com a avó Patrocínia, que foi de quem eu tive o nome, e era a mãe do teu bisavô, José Manuel Pardal, que casou com a tua bisavó Júlia, a minha mãe, mãe da tua avó Mariana e de quem a tua mãe teve o nome. Um dia, estava o Manuel Joaquim a dormir, apareceram-lhe duas bruxas e procuraram-lhe: 'Manuel Joaquim, acreditas em bruxas ou não acreditas?' E ele disse-lhes assim: 'Deixem-me da mão. Vão ali falar com a minha Patrocínia, que ela dá um alqueire de trigo a cada uma.' Então elas foram e deixaram-no sossegado. Eram as duas bruxas. Pois. E a minha avó Patrocínia também não acreditava em bruxas nem em padres, nem em benzeduras. Era uma pessoa já muito moderna."
O Reboliço ouve as palavras da tia e, com as histórias dos Pardais e daquela Patrocínia que enxotava bruxas com alqueires de trigo, ficou a pensar num vale perdido do outro lado do Atlântico, num homem de apelido Van Winkle, num tempo que já não existe e que a tia Patrocínia nunca conheceu.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
O Rafael e o nitrato do Chile
(Foto do Rafael, o catavento do Moinho, enquanto esperava por ser reposto no cimo do telhado: Reboliço. O Reboliço já uma vez tinha dado conta da razão para o Rafael se chamar assim. Recentemente, soube de onde vem a sua figura: a mão de Adolfo López-Durán Lozano desenhou a silhueta de um homem a cavalo para publicitar uma companhia de nitratos; o avô passou-a para papel, deu-lhe barba e um ar mais baixo, a fazê-lo parecer-se consigo mesmo a entrar na velhice, e mandou-o fazer, de cavalo completo, em ferro. O Reboliço olha para o alto, a contemplar o contemplativo, e procura-lhe as diferenças.)
(Foto do anúncio em azulejo, numa parede à entrada de Penamacor: Reboliço.
O pai assegura que a montada do homem é gado muar.)
(Foto do anúncio em azulejo, numa parede à entrada de Penamacor: Reboliço.
O pai assegura que a montada do homem é gado muar.)
terça-feira, 27 de outubro de 2009
I Walked With A Zombie
Uma das coisas de que mais gosto em I Walked With a Zombie é a maneira esparsa como o céu se vai cobrindo de nuvens, quase sempre de noite.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Cem Mil Cigarros
(Foto da capa do livro sobre Pedro Costa: Reboliço.
O Reboliço fumava os derradeiros quando percebeu que
>
Fotos,
o que li,
Pedro Costa
domingo, 25 de outubro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Fez nove (nove!) anos o blogue Chucrute com Salsicha.
O Reboliço não dá grande importância a estas efemérides. Mas há uma passagem no post que assinala o aniversário que lhe chama a atenção. "Meus blogs estão no meu testamento," escreve Fernanda Guimarães Rosa.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
A montanha e o suspiro
"Primeiro tem-se a tentação de mostrar uma montanha. [...] Depois, um belo dia, percebemos que o melhor é ver o menos possível.
Dá-se uma espécie de redução que não é bem uma redução, é antes uma concentração, que acaba por nos dizer mais. Mas isto não se consegue de um dia para o outro! É preciso tempo e paciência. Depois, até um suspiro se pode transformar num romance."
(Jean-Marie Straub em Où gît votre sourire enfoui?, de Pedro Costa)
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
A Perdida
(Foto da Perdida no seu lugar favorito do quintal ao sol: Luísa Apolónia (ou Henrique?). Obrigada!)
Quando alguém chegava à casa, entrado pela porta sempre aberta do casão, vinha a ladrar esganiçada desde o fundo do quintal, ladrava sem intervalo entre os latidos, quase num guincho de "Venham ver e digam-me se está bem que entre, que eu corpo não tenho para o impedir, mas a voz, ah!, a voz darei até morrer por esta casa que me acolheu." Quem era da casa ia entrando, indiferente ao tamanho da Perdida e ao aumento que lhe faziam no corpo os latidos. "Perdiiiiida...", diziam, sem sequer baixarem a cabeça nem desperdiçarem com ela mais do que o nome.
Aos poucos, a Perdida habituou-se a reconhecer as visitas mais frequentes e as mais familiares. Ladrava-lhes ao som da chegada com uns latidos zangados e fortes, "Aqui não entrarão, não entrarão, que eu não deixo!", mas não tardava nada a chegar-lhe ao focinho o cheiro conhecido, que transformava a zanga num ladrar de boas-vindas: "Então, então, há que tempos que não se deixavam ver, como é que estão todos?" Da mudança na saudação até à confiança para ganhar festas já não distaram grandes meses. Hesitava em pôr-se quieta, a jeito para um coçar de lombo ou um afago entre as orelhas, as patinhas pequenas a pisar o chão como se ali estivesse um tapete de brasas. Ia cedendo, cedendo, até que se aquietava de um todo: já sem ladrar nem mexer muito, saía-lhe um meio ganido meio suspiro de gozo, que não vinha da boca, não vinha da garganta, não vinha de ponto nenhum exacto, mas era exalado pela cor de mel do pêlo curto. A cauda, não mais que um tocozinho no fim do fio do lombo, tremia de contentamento, enquanto as patas de trás quase vergavam e o corpo se queria derreter naquele minuto.
Tinha os olhos mais ternos que o Reboliço já vira em cadela alguma. Na cor, eram um nadinha mais castanhos do que o pêlo - o que lhes dava a ternura, porém, não era o tom, mas a consciência da gratidão, e isso vinha-lhe com um saber largo que tinha sobre todos os seres, sobre tudo o que se passava à sua volta. O Reboliço lembra-se disto e ouve-lhe os passinhos, que já há alguns anos se aventuravam para fora do casão, para a rua, sempre que o dono saía. Ouve-lhe os passinhos e o ladrar a ecoar no casão. Lembra-se de uma vez - que lhe contaram - em que a Perdida salvou de se afogar num bidão de chapa um gato jovem e descuidado que andava pelos muros. O bidão estava encostado do lado de lá da porta do quintal, já depois da garagem, a caminho da horta e do galinheiro. Ali estava, enferrujado e enraizado no chão de terra, a aparar a água da chuva que serviria para regar as pequenezas: salsa, coentros, a hortelã e o poejo, e até os espinafres, que a dispensavam.
No início do quintal, junto à porta da cozinha, o tio Chico e o pai conversavam. Havia os ruídos da aldeia: uma motorizada que passava na rua, um carro mais lançado, alguma vizinha que conversava com outra à sombra das paredes, nada de muito. Conversavam os dois homens em pé, de costas para a distante porta do quintal, quando a Perdida rompeu por ali numa berraria aflita que ainda sobrepunha mais os latidos uns aos outros. "Venham cá, venham cá, venham depressa, cá depressa, venham!" ia e vinha, a correr o quintal todo, e chegava-se aos homens mais aflita ainda. O tio Chico pôs-se a enxotá-la, "O raio da cadela, mas o que é que tu queres? Vai-te lá embora", e ela virava costas e fugia, lançada, para o lado da horta e do galinheiro; fugia só uns três ou quatro metros e estacava, o corpo de frente para lá, mas de focinho virado para os homens, a ladrar de novo: "Aqui! Venham comigo depressa!", ladrava. Eles, nada. Continuaram a conversa até que a insistência do bicho, por hábito sossegado, os fez estranhar e andar para onde ela com tanta aflição parecia chamá-los. Assim que percebeu neles o sentido de a seguirem, correu até à porta do quintal e pôs-se a ladrar encostada ao bidão da água da chuva, focinho empinado. Quando os homens chegaram lá perto, devagar, ainda a conversar, ouviram os miados do gato, miados ou ganidos, ou o que era aquele som agudo que a criatura fazia. O pai muniu-se de uma pá comprida que lá estava, não fosse o bicho, sôfrego pela vida, dar-lhe para arranhar. Mal o gato viu o pau da pá, patinhas para que as quis, agarrou-se a ele, safou-se de um salto e nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Os homens voltaram para o quintal e para a conversa. A Perdida ia a andar ao lado deles, já sossegada, com os quadris a fazer baloiçar o toco da cauda, de satisfeita, e, então sim, calmamente indiferente à sorte do felídeo.
Aos poucos, a Perdida habituou-se a reconhecer as visitas mais frequentes e as mais familiares. Ladrava-lhes ao som da chegada com uns latidos zangados e fortes, "Aqui não entrarão, não entrarão, que eu não deixo!", mas não tardava nada a chegar-lhe ao focinho o cheiro conhecido, que transformava a zanga num ladrar de boas-vindas: "Então, então, há que tempos que não se deixavam ver, como é que estão todos?" Da mudança na saudação até à confiança para ganhar festas já não distaram grandes meses. Hesitava em pôr-se quieta, a jeito para um coçar de lombo ou um afago entre as orelhas, as patinhas pequenas a pisar o chão como se ali estivesse um tapete de brasas. Ia cedendo, cedendo, até que se aquietava de um todo: já sem ladrar nem mexer muito, saía-lhe um meio ganido meio suspiro de gozo, que não vinha da boca, não vinha da garganta, não vinha de ponto nenhum exacto, mas era exalado pela cor de mel do pêlo curto. A cauda, não mais que um tocozinho no fim do fio do lombo, tremia de contentamento, enquanto as patas de trás quase vergavam e o corpo se queria derreter naquele minuto.
Tinha os olhos mais ternos que o Reboliço já vira em cadela alguma. Na cor, eram um nadinha mais castanhos do que o pêlo - o que lhes dava a ternura, porém, não era o tom, mas a consciência da gratidão, e isso vinha-lhe com um saber largo que tinha sobre todos os seres, sobre tudo o que se passava à sua volta. O Reboliço lembra-se disto e ouve-lhe os passinhos, que já há alguns anos se aventuravam para fora do casão, para a rua, sempre que o dono saía. Ouve-lhe os passinhos e o ladrar a ecoar no casão. Lembra-se de uma vez - que lhe contaram - em que a Perdida salvou de se afogar num bidão de chapa um gato jovem e descuidado que andava pelos muros. O bidão estava encostado do lado de lá da porta do quintal, já depois da garagem, a caminho da horta e do galinheiro. Ali estava, enferrujado e enraizado no chão de terra, a aparar a água da chuva que serviria para regar as pequenezas: salsa, coentros, a hortelã e o poejo, e até os espinafres, que a dispensavam.
No início do quintal, junto à porta da cozinha, o tio Chico e o pai conversavam. Havia os ruídos da aldeia: uma motorizada que passava na rua, um carro mais lançado, alguma vizinha que conversava com outra à sombra das paredes, nada de muito. Conversavam os dois homens em pé, de costas para a distante porta do quintal, quando a Perdida rompeu por ali numa berraria aflita que ainda sobrepunha mais os latidos uns aos outros. "Venham cá, venham cá, venham depressa, cá depressa, venham!" ia e vinha, a correr o quintal todo, e chegava-se aos homens mais aflita ainda. O tio Chico pôs-se a enxotá-la, "O raio da cadela, mas o que é que tu queres? Vai-te lá embora", e ela virava costas e fugia, lançada, para o lado da horta e do galinheiro; fugia só uns três ou quatro metros e estacava, o corpo de frente para lá, mas de focinho virado para os homens, a ladrar de novo: "Aqui! Venham comigo depressa!", ladrava. Eles, nada. Continuaram a conversa até que a insistência do bicho, por hábito sossegado, os fez estranhar e andar para onde ela com tanta aflição parecia chamá-los. Assim que percebeu neles o sentido de a seguirem, correu até à porta do quintal e pôs-se a ladrar encostada ao bidão da água da chuva, focinho empinado. Quando os homens chegaram lá perto, devagar, ainda a conversar, ouviram os miados do gato, miados ou ganidos, ou o que era aquele som agudo que a criatura fazia. O pai muniu-se de uma pá comprida que lá estava, não fosse o bicho, sôfrego pela vida, dar-lhe para arranhar. Mal o gato viu o pau da pá, patinhas para que as quis, agarrou-se a ele, safou-se de um salto e nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Os homens voltaram para o quintal e para a conversa. A Perdida ia a andar ao lado deles, já sossegada, com os quadris a fazer baloiçar o toco da cauda, de satisfeita, e, então sim, calmamente indiferente à sorte do felídeo.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Anúncio publicitário
Não entre em pânico, não está sozinho.
Também nós temos pensamentos semelhantes,
e até alguma experiência. (…)
Respostas à Posta Restante dos
Correios Centrais de Helsínquia, para:
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
domingo, 18 de outubro de 2009
"El memorioso"
O Reboliço farejou o chão até ao lugar onde se enrosca para dormir. A meio do corredor, achou uma âmpola curiosa que o fez abrir os olhos e aproximar ainda mais o focinho. Cheirou, cheirou, cheirou, e começou a ver, no seu olho mental como num filme, todos os lugares onde tinha estado, todos os postes de rua que tinha farejado e sujado, todas as pernas humanas que o tinham assustado, as jabuticabas esborrachadas sob pés e patas na papa bem-cheirosa da terra com chuva, o cheiro das flores que o tinham feito espirrar antes de cada Verão, as contas de cabeça que fizera na vida, as cores de todos os amanheceres a que assistira, todos os ossos que escondera, as motas que vira a Luca e o Petaner perseguirem, os minutos lânguidos que passara encostado ao pêlo quente do Sorna... De repente, abanou a cabeça com força, pensou que aquilo era capaz de ser demasiada excitação para um canito à hora de deitar, deu meia volta, mais a volta da praxe, aninhou-se na manta felpuda e adormeceu.
O Reboliço é um nefelibata (18)
(Foto da nuvem-névoa com o Maracanã à esquerda: Reboliço.
Feita na manhã seguinte ao dia esplendoroso de 2 de Outubro e
A mesma cidade maravilhosa pode ter o Céu e o Inferno.)
sábado, 17 de outubro de 2009
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Copan
(Foto do edifício Copan visto do passeio da Avenida Ipiranga, em São Paulo, na tarde solarenga de domingo: Reboliço. Assim mais de perto, e em contra-picado, revela as muitas cáries a precisar de reparação. Mostrado de cima, no meio da selva de betão, parece mais sedutor. Em qualquer dos casos, o Reboliço fica boquiaberto com o génio de quem imagina coisas como esta, ou como o Louveira, na Praça Vilaboim.)
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Dia de Acção de Blogues

O Reboliço fez a boa acção de blogue no dia 12, segunda-feira passada: o assunto de um dos posts relacionava-se directamente com o tema de 2009, a mudança climática, pois falava da poupança de energia e da racionalidade de consumo. Na verdade, o Reboliço faz boas acções todos os dias: come pouco (carne, nada), dorme muito, nem ladra, não gosta de confusão nem dos ruídos que fazem as máquinas de secar roupa, nem das luzinhas de stand-by dos aparelhos eléctricos. Na verdade, sim, é um canito muito ecológico. Nem a escrever as cartas gasta papel.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Pela secagem natural
O Reboliço gosta do cheiro a roupa acabada de lavar. E gosta da ideia de estender a roupa. Ao ar, ao sol, a espalhar aquele cheiro. Nunca entendeu muito bem a mania de usar uma máquina para secar a roupa, quando há fora de casa, da janela de um prédio ou num quintal, o vento mais forte ou mais fraco para fazer o serviço sem gastar um tostão nem consumir outra energia fabricada pelo homem. Além disso, roupa estendida sempre lhe traz à memória um filme de que gosta muito. Ou o jogo de ordenar por cores as molas que prendem as peças ao longo da corda, como escalas de tons de tinta. Faz-lhe espécie a ideia de que se possa proibir uma coisa assim bonita e sensata.
(Notícia do NYTimes sobre a discussão de leis para proibir a secagem da roupa em estendais; página do movimento pró-estendal.)
"He knows it's all worthwhile"
O Reboliço ia no táxi de um lado para o outro. Era um dia calmo, de fim-de-semana prolongado pelo feriado de Nossa Senhora Aparecida. Do rádio saíam músicas de melodia fácil, bem conhecidas, e ia olhando pela janela a ver passar os prédios de viés. A meio do caminho, reconheceu os acordes de "Starman", mas de algum modo distintos dos que ouvira tantas vezes por David Bowie. "É o Seu Jorge," pensou. Mas não era Seu Jorge coisa nenhuma. Eram os Nenhum de Nós, o mais curioso nome de banda que já ouvira, e a versão de 1989, com letra em português, que Seu Jorge haveria de cantar para o filme de Wes Anderson: "O Astronauta de Mármore." As bandeiradas iam caindo, o taxista martelando os dedos no volante ao ritmo da cantiga, e o assobio do Reboliço a acompanhar até ao fim da viagem.
domingo, 11 de outubro de 2009
Volta e meia
Já é noite cerrada quando, estafado, derreado, esgotado, o Reboliço se arrasta até à casota de aluguer e mal tem forças para gatafunhar umas linhas. Passou o dia em visitas à Pinacoteca de São Paulo e ao Museu da Língua Portuguesa, depois mais um bocado na gigantesca Livraria Cultura e, como se não bastasse já a fatiga do turismo (que, como qualquer passeata, mói como o raio!), ainda teve trabalho a doer até já dentro da noite.
(Foto da instalação de Céleste Boursier-Mougenot na Pinacoteca: Reboliço.
Em cada uma das três piscinas, a água é movida por um motorzinho
que faz mexer as cumbucas de cerâmica e ouvir-se o som bonito do seu entrechoque.)
(Foto do painel final da exposição no Museu da Língua Portuguesa,
dedicada à influência da língua e da cultura francesas no português: Reboliço.
2009 é o ano da França no Brasil - há várias iniciativas relacionadas
com a cultura gaulesa, como esta outra, em Curitiba,
que fez ver ao Reboliço a maravilha desconhecida das
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Maladroit
L'homme d'esprit est le plus maladroit des hommes pour écrire à une femme.
(Victor Hènaux, De l'amour des femmes pour les sots, 1858)
O homem de espírito é o menos hábil para escrever a uma mulher.
(Victor Hènaux, Queda que as Mulheres Têm Para os Tolos,
tradução de Machado de Assis, 1861.
Edição bilingüe e estabelecimento do texto:
Ana Cláudia Suriani da Silva, Editora Unicamp, Campinas, 2008, p. 71.)
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Carte postale
O Michel mandou um postal muito cómico ao Reboliço. Não vem com indicação de autoria, o que não estranha, num postal ilustrado. Pende para o obsceno, mas fica aqui na parede para todos o verem.
(Cai o postalito no dia em que faz cento e vinte anos que abriu em Paris uma sala de espectáculos chamada Moulin Rouge.)
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
O Reboliço é um nefelibata (17)
(Foto do entardecer em Sampa, a cidade que, como diz o Mano, "é tão feia que fica linda",
desde uma varanda na Vila Olímpia: Reboliço)
domingo, 4 de outubro de 2009
Mulher, este post é para ti!
Hoje o Reboliço teve uma surpresa no Museu de Arte Moderna: a retrospectiva de Jorge Guinle. Breve, pois foi assim a sua vida e o período em que pintou, mas clara e muito forte. Dali, apressou as patinhas debaixo da chuva miúda e foi espreitar o Festival Internacional de Cinema do Rio. Chegou bem na hora da sessão de A Raça Síntese de Joãosinho Trinta (assim mesmo, com s). O documentário não lhe pareceu fazer jus ao documentado, que estava sentado no corredor à sua direita, na cadeira de rodas de onde, desde 2006, diz que vê a vida mais ampla e com maior alegria do que antes de ter tido dois AVCs. Mas brinde, brinde mesmo, foi vislumbrar entre a plateia a figura pequena do grande actor Matheus Nachtergaele (o fantástico Dunga, de Amarelo Manga, ou o Sandro Cenoura de Cidade de Deus), ganhar coragem à saída e pedir-lhe que escrevesse qualquer coisa num papel. "Mas o quê?", perguntou ele ao Reboliço: "Ah, sei lá, sua assinatura, ué!"
(Foto do autógrafo, que colocou ao lado de um recorte de revista, com
a personagem de Nachtergaele, João Grilo, na série Auto da Compadecida:
a personagem de Nachtergaele, João Grilo, na série Auto da Compadecida:
Reboliço. Ainda ficou a saber que o actor estará em Lisboa para a
Mostra de Cinema Brasileiro, no início de Novembro, e que
Mostra de Cinema Brasileiro, no início de Novembro, e que
apresentará, nessa ocasião, o primeiro filme realizado por si.)
Santa Teresa
O Reboliço subiu a dois mirantes: o tradicional Corcovado, desinteressante num dia de névoa, e o Parque das Ruínas, em Santa Teresa. É aí que se visita o que resta da mansão fluminense de Laurinda Santos Lobo, uma mecenas de Cuiabá que, nas décadas de 1920 e 30, recebeu personalidades como Heitor Villa-Lobos ou Isadora Duncan. Hoje, o lugar deixa ver grande parte da cidade e um exemplo da técnica favelar de construção:
(Fotos: Reboliço)
>
Fotos,
Onde andei
sábado, 3 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
"Vai sê o maór kizumba!"
O Reboliço saiu à rua cedo para gozar a abertura do sol. Olhou para o dia bonito que alguma divindade oferecera aos morros, para as ondas ressacadas da Praia de São Conrado e da Baía da Guanabara, ouviu os transeuntes que antecipavam a festa, e pensou que seria uma injustiça não se escolher o Rio de Janeiro para a festa Olímpica. Foi visitar lugares diferentes: a Lagoa Rodrigo de Freitas, que estava muito serena, o extremo ventoso de onde sobe a Gávea, e o verde deslumbrante do campus da Pontifícia Universidade Católica; avistou a mancha enorme da Favela da Rocinha, e teve dificuldade em perceber, na luz baça do início da Primavera, o que era vegetação e o que eram paredes de casas.
(Foto de uma árvore recém-plantada de pau-brasil, nos jardins da PUC-Rio: Reboliço)
As praias estavam cheias de gente feliz: "2016 - Nesse Rio eu quero navegar!", dizia uma faixa puxada por uma avioneta, junto à areia. Diz-se por aqui que o Presidente Inácio Lula da Silva tem o favor de mais de 90% da população brasileira, apesar da desgraça em que caiu o seu Partido da Terra. Seja como for, é dele grande parte do mérito desta conquista olímpica, mas não será ele e não se sabe ainda quem será que estará a guiar o país nos cinco anos que antecedem os Jogos.
As primeiras horas depois da notícia são todas vividas com grande entusiasmo: "Ah!, vou aproveitar para melhorar, tem que melhorar. Aprender inglês e espanhol, e educar os meninos logo desde pequeninos, de três anos logo, tem que ser.", garante um homem de quarenta anos bem entrados, que serve à mesa na Churrascaria Plataforma (ponto favorito de Tom Jobim e com um saboroso lombo de badejo na grelha).
O Reboliço olha para os camelôs da beira de estrada, olha para os surfistas impassíveis de prancha debaixo do braço, olha para dentro dos ricos apartamentos, onde há sempre uma mulher com traços indígenas a passar a ferro junto à janela, e pensa que o entusiasmo terá de ser muito forte para aguentar os seis anos até aos primeiros Jogos Olímpicos em solo sul-americano.
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Fotos,
Onde andei
Causas. Lacinhos. Cenas.
O Reboliço parece uma árvore de Natal: lacinhos cor-de-rosa pela luta contra o cancro da mama e lacinhos verde e amarelo pela escolha da Cidade Maravilhosa para os Jogos Olímpicos de 2016. Se o Rio vem a ser seleccionado, pode ser que melhorem algumas das coisas que não estão bem.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Moinhos na poesia (20)
"La Complainte de la Butte"
(En haut de la rue St-Vincent
Un poète et une inconnue
S'aimèrent l'espace d'un instant
Mais il ne l'a jamais revue.
Cette chanson il composa
Espérant que son inconnue
Un matin d'printemps l'entendra
Quelque part au coin d'une rue.)
La lune trop blême
Pose un diadème
Sur tes cheveux roux
La lune trop rousse
De gloire éclabousse
Ton jupon plein d'trous
La lune trop pâle
Caresse l'opale
De tes yeux blasés
Princesse de la rue
Soit la bienvenue
Dans mon cœur blessé
Les escaliers de la butte sont durs aux miséreux
Les ailes des moulins protègent les amoureux
Petite mandigote
Je sens ta menotte
Qui cherche ma main
Je sens ta poitrine
Et ta taille fine
J'oublie mon chagrin
Je sens sur tes lèvres
Une odeur de fièvre
De gosse mal nourri
Et sous ta caresse
Je sens une ivresse
Qui m'anéantit
Les escaliers de la butte sont durs aux miséreux
Les ailes des moulins protègent les amoureux
Mais voilà qu'il flotte
La lune se trotte
La princesse aussi
Sous le ciel sans lune
Je pleure à la brune
Mon rêve évanoui.
(En haut de la rue St-Vincent
Un poète et une inconnue
S'aimèrent l'espace d'un instant
Mais il ne l'a jamais revue.
Cette chanson il composa
Espérant que son inconnue
Un matin d'printemps l'entendra
Quelque part au coin d'une rue.)
La lune trop blême
Pose un diadème
Sur tes cheveux roux
La lune trop rousse
De gloire éclabousse
Ton jupon plein d'trous
La lune trop pâle
Caresse l'opale
De tes yeux blasés
Princesse de la rue
Soit la bienvenue
Dans mon cœur blessé
Les escaliers de la butte sont durs aux miséreux
Les ailes des moulins protègent les amoureux
Petite mandigote
Je sens ta menotte
Qui cherche ma main
Je sens ta poitrine
Et ta taille fine
J'oublie mon chagrin
Je sens sur tes lèvres
Une odeur de fièvre
De gosse mal nourri
Et sous ta caresse
Je sens une ivresse
Qui m'anéantit
Les escaliers de la butte sont durs aux miséreux
Les ailes des moulins protègent les amoureux
Mais voilà qu'il flotte
La lune se trotte
La princesse aussi
Sous le ciel sans lune
Je pleure à la brune
Mon rêve évanoui.
(O poema foi escrito por Jean Renoir em 1954, para ser cantado em French Cancan.
Musicado por Georges Van Parys, teria no filme a voz de Cora Vaucaire.
Mais tarde veio a ser interpretado por Marcel Mouloudji e por Rufus Wainwright,
no musical de Baz Luhrman. Wainwright acrescentou-lhe alguns versos
traduzidos para inglês e acabou por fazer convergir "windmill" e "Moulin"
na mesma frase.)
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