quinta-feira, 29 de abril de 2010

Lobito

(Foto do que o Reboliço pensa ser o Lobito numa fase inicial da sua fulgurante, fúlgida, fogosa, flamívola vida: desconhecido.)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

I'm not (even) there

- Luca! Luca... Onde é que estás?
- Sei lá, Reboliço. Aqui?

domingo, 25 de abril de 2010

Claro e escuro

"... uma grande quantidade de pequenas manchas enegrecidas, completamente separadas da parte obscura, espalha-se por quase toda a extensão já inundada pela luz do Sol, com excepção todavia daquela parte que tem as manchas grandes e antigas. Ora, notámos logo que essas pequenas manchas têm todas e sempre em comum que a sua parte enegrecida está virada para o Sol, enquanto, do lado oposto ao Sol, estão coroadas de extremidades mais luminosas, como arestas resplandecentes. Ora, temos na Terra uma visão totalmente semelhante, no momento do nascer do Sol, quando dirigimos o nosso olhar sobre os vales que ainda não estão banhados de luz, e as montanhas que os cercam resplandecem, já do lado oposto, ao Sol. E, tal como as sombras das cavidades terrestres diminuem à medida que o Sol se eleva, assim também estas manchas lunares perdem as suas trevas à medida que a parte luminosa cresce."
Galileu Galilei, Sidereus Nuncius - O Mensageiro das Estrelas (p. 157)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Posto o sol

(Foto do moinho domingo passado, a atirar farinha para o chão e luz para cima das velas: Michel Subrenat-Auger.)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Fantasia Lusitana

Uma das coisas de que mais gosto em Fantasia Lusitana é a voz clara, a formar muito nítidas as palavras, de Hanna Schygulla a ler dos diários de Erika Mann.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Moinhos na poesia (26)

En el molino de San Antonio,
leche de luna mueve la piedra,
y el molinero ciego en la harina
toca las carnes de las tinieblas.

El agua canta canto del cielo
su desvelada sangre de estrellas,
y desde el trigo vuelve la nieve
por el caliente de la molienda.

Molinero, molinero,
los sueños te llevarán
hacia el corazón del trigo
por el aroma del pan.

Viene la noche del molinero
sueños de harina que en su alma nieva,
y una bayita que huele a jume
y a trigo verde por las caderas.

Si el molinero duerme en los grillos
muere en el llanto de las estrellas,
y hacen harina la luz del cielo
para el silencio de la violeta.

Molinero, molinero,
los sueños te llevarán,
hacia el corazón del trigo
por el aroma del pan.

Molinero, molinero,
los sueños te llevarán,
hacia el corazón del trigo
por el aroma del pan.

(Domingo de manhã, enquanto ouvia as cantarinhas a fazer soar o vento entre os mastros, o Reboliço escutou uma voz da Patagónia argentina a murmurar as rimas de Jaime Dávalos. A melodia é de Eduardo Falú e aqui canta-a outro argentino, Alberto Cortez. Como o mundo é uma coisa pequenina, o Reboliço agradece a um milanês, Roberto Pisani, pelas informações.)

sábado, 17 de abril de 2010

Beja: Núcleo Museológico do Moinho Grande
9h00 ‐ 19h00
Abertura ao público e visitas guiadas
Moinho de vento recuperado e em funcionamento
Marcações:
T: 284 322 983
M: 968 483 161

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Estala o céu no segundo preciso em que a luz de um relâmpago o fende, o Reboliço marcha para longe da janela, ainda de sobressalto no coração, mas deixa-se ficar de focinho virado para lá. Olhos muito abertos, vê que a ria desapareceu, que as árvores do outro lado da rua mal se vêem sob a cortina da chuva, ouve gritos das pessoas na rua e pensa nos três vasos de cactos felizes a esta hora, nos ladrilhos encharcados da varanda.
(Nem um minuto depois, atrás da ria há uma grossa linha branca da espuma das ondas.)
"Por um olhar dos teus olhos
dava da vida a metade;
por um riso dava a vida;
por um beijo, a eternidade."

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Girassóis

(Foto do rebanho a escapulir-se em direcção do sol-posto, segundos antes de o cão arrancar atrás dos bichos e, a gritos e truques de língua do pastor, os devolver ao passo e ao pasto onde lhes pertence estar: Reboliço, no olival das Almojafas.)

O Reboliço não é o único nefelibata*

terça-feira, 13 de abril de 2010

Ãocordo Ortãográfico

O Reboliço pensa que é capaz de ser difícil convencer muita gente a passar a escrever canideamente, mas entretém-se com a hipótese, de que transcreve, com licença devida e mantendo todas as idiossincrasias estilísticas, o excerto que interessa (porque do lugar onde está legível é frequente desaparecer o que se escreveu): 
"Sempre desconfiei de meias de renda: a fronteira das pernas fica diluida no empacotamento quase cúbico centrado das casas, tecendo uma imensidão de pontos de fuga capaz de formar uma espécie de camuflado anti-analítico, que funciona como arregimentador da dúvida, a qual, como se sabe, nutre infalivelmente a excitação ão ão ão, num efeito muitas vezes enganador que a partir da terceira cerveja da noite costuma ter resultados matinais desastrosos, mas que no saudável ambiente do estádio de futebol é como um gás raro: não reage com nada. Veio, dizia eu, a Menina ão ão ão Limão aqui ao raspador de posts em razão ão ão de, não só, ão, eu estar à espera que me venham buscar, como nomeadamente pela situação de cão de eu próprio ter chegado sozinho à chocante conclusão que a ãoãoãoão é autora de para aí 81 por cento dos templates dos blogues de homens portugueses (ou, mais presisamente, três, um dos quais nunca ouvi falar). Até do Pedro Mexia, valha-me deus, o Pedro Mexia! O trabalho dela no Natureza do Mal (um blogue que, se estão ão ão ão atentos à minha obra, por vezes admiro mas que mais habitualmente me aborrece) foi desqualificado pelo Rui Bebiano, neste post; vai daí ãoãoãoão respondeu, neste post."

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Olha como a chuva cai*

O Reboliço pensa que no Rio, a esta hora, manda chuva. Lembra-se da água que caiu sobre os calçadões, sobre as areias de Ipanema, sobre os morros e as favelas, da água quente que foi tombando a misturar-se com a da lagoa, com as da baía, com a frente de Niterói, com as de côco dos camelôs. Faz figas que ninguém lá passe pela provação do alagamento de páginas que viveu um pobre desterrado em São Paulo.
*

terça-feira, 6 de abril de 2010

Uma inclinação

(Foto do moinho em plano inclinado com gotas de condensação: Vasco Célio)

"Whirligigs and Windmills"

O Senhor Simpson faz moinhos, piões, mobiles e outras engenhocas, com tralha que arranja nas sucatas, ferros-velhos e mais depósitos de material enjeitado.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Um moinho perto de Amesterdão

(Foto: Aqui do Lado, uma prenda para as Cartas. Obrigada, Mulher!)

Saltos de lebre

O Reboliço anda armado em lebre: salta de uma semana para a outra, de supetão e em fuga, como quando elas se lançam a esconder-se nas tocas escavadas entre as pedras da terra por lavrar. Descuida-te, Reboliço, e ainda vais parar a uma feijoada de tengarrinhas...

domingo, 4 de abril de 2010

(Fotos das tengarrinhas, acabadas de apanhar a roubar a água às laranjeiras - ainda por desarmar, em cima do poço, e já meio tratadas pelas mãos do pai: Reboliço, a salivar.)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Moinhos na poesia (25)


Vêm andaimes lá do Tejo
Tonitroantes, vagabundos.
Vem a adaga de punho curto e ferro em brasa.
Acompanhados de estruturas.
Vem a adaga, o moinho, a foice que não circula, enterra-se.

Vem a facada!
Na barriga, no coração, no sexo.
E deixa o homem morto,
De olhos abertos!!! A luz da doca.
Londres, 14-IX-77

(Raul de Carvalho, Elsinore [1980], in Obras de Raul de Carvalho - I - Obra publicada em livro, Lisboa, Editorial Caminho, 1993, p. 845.)

terça-feira, 30 de março de 2010

Happy birthday, Reboliço!

Cinco anos, um dia, e nada de artrite!
(A prenda do Mano foi que ele visitou, de sua livre e espontânea vontade, as Cartas no seu telefone. Diz que anda à roda, como as velas do moinho, e que até é engraçado assim pequenino. Como dizia o avô, tirando o pão, tudo o que é pequenino tem graça.)

domingo, 28 de março de 2010

Frutos novos

 (Foto dos figuinhos a rebentar na figueira grande, dois dias de sol, um dia de chuva e outro dia de sol depois de rebentarem as folhas novas: Reboliço.)
"O sol é que alegra o dia 
pela manhã, quando nasce;
ai de nós!, o que seria
se o sol um dia faltasse."

sexta-feira, 26 de março de 2010

"I have strange power of speech"...

... diz o Marinheiro Velho, e continua a ouvir-se a sua rima.

Laboratório de sonhos

Mesmo quando está a entrar no relato que o há-de de envolver a ele e aos seus companheiros a bordo do Nellie, como a escuridão da noite sobre o Tamisa, Marlow suspende a voz e hesita na narrativa, como se se sentisse incapaz de continuar a contar o que se passou na sua viagem pelo Congo:

     It seems to me I am trying to tell you a dream - making a vain attempt, because no relation of a dream can convey the dream-sensation, that commingling of absurdity, surprise, and bewilderment in a tremor of struggling revolt, that notion of being captured by the incredible which is of the very essence of dreams.*

A vacuidade da tentativa, apesar de tudo, não o impede de contar - de tentar contar. É muito forte o impulso de trazer para fora e dar a conhecer - a quem ouve, mas sobretudo a quem conta - aquilo que é o vago de um sonho. Que se diz em frases como "era como se fosse um goivo, mas tinha a corola de um amor-perfeito", ou "eu sabia que eras tu, mas a tua cara era a de uma tia-avó que nunca conheci". Um laboratório de sonhos só pode ser uma fábrica de literatura imperfeita, uma caixa postal de que ninguém conhece chave nem sequer fechadura.

* Em português, na versão de Teresa Amaro, ficou: "Parece-me que estou a tentar contar-lhes um sonho - uma tentativa vã, porque o relato de um sonho não pode transmitir aquela sensação de sonho, aquela mescla de absurdidade, surpresa e complexidade, aquela sensação de sermos capturados pelo inacreditável que é a própria essência dos sonhos." (O Coração das Trevas, Edição MilFolhas, Público, Lisboa, 2004, p. 43. Logo acrescento a versão de Aníbal Fernandes - é capaz de não ter "absurdidade" nenhuma.)

quarta-feira, 24 de março de 2010

- Estás triste, Reboliço?
- Ora, feliz não estou. Passo por aquela rua tantas vezes, há tantos anos, Luca. E tinha que ser no dia em que começa a Primavera?
- Diz que as árvores estavam muito doentes, que tinham que ser abatidas. Parece que não havia outra solução.
- Mas o que foi, ou quem foi que as fez adoecer? Custo a conformar-me, Luca... Não é só o deixar de as ver, o lembrar-me da sombra daquelas tílias nos dias mais quentes. Era também ouvir o chilreio agudo dos pássaros a aninhar-se ao cair da tarde - tantos, Luca!, o barulho que faziam a preparar o repouso.
- Ah! Os saquinhos de merda, como se diz por ali. Bonito, sim senhor!

terça-feira, 23 de março de 2010

O Reboliço colecciona calendários (14)

(Foto do calendário de parede, em "Original Imoglas D. R. W. 3026/0", novinho em folha nas suas gratas mãos: Reboliço. Reclame francês à cerveja da Brauerei Beck & Co., com a chave que reflecte a do escudo de Bremen, região onde fermenta a cevada da Beck's. Oferta generosíssima da D. Renata.)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Folhas novas

 

(Fotos dos ramos e do moinho atrás dos ramos: Reboliço, espantado com a persistência da vida. Despida, sovada pelo vento e pela chuva, a figueira grande recomeça a dar folhas.)

quarta-feira, 17 de março de 2010

- Quantas laranjeiras há no moinho?, perguntou a Luca, enquanto roía uma casca meio queimada, caída do lume da noite anterior.
- Há umas quantas, Luca. - respondeu o Reboliço.
- Há a pequenina, do meio do carunchoso, que tem debaixo dela um tapete de hortelã e espinafres. Espera, não: essa é tangerineira. A laranjeira é a que está ao lado do limoeiro. Há a do meio do jardim, que baixa as folhas quase até ao chão quando a fruta lhe pesa. Tem a sombra do loureiro e da ameixeira e a companhia mais miúda dos jarros, das rosas e da erva cidreira. Depois, há as da aldeia. A verde-Espanha, a que está enxertada no outro limoeiro, perto da buganvília.
- De qual é que gostas mais?
- Luca, deixa-me explicar-te uma coisa...

terça-feira, 16 de março de 2010

Oh...

domingo, 14 de março de 2010

Moinhos na poesia (24)

PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado, feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

(Alexandre O'Neill, “Feira Cabisbaixa” [1965], in Poesias Completas, Lisboa, Assírio e Alvim, 5ª edição, 2007, p. 211.)

sexta-feira, 12 de março de 2010

"Eu falo para cacete!"

"O que procuro no meio da minha tralha é uma espécie de conexão infindável, em que tudo conecta como se a linguagem fosse vegetal, fosse jogando pistilos que vão fecundando em outros, aquela teia de relação que não permite que a frase feche, aqueles parágrafos que vão-se somando. E você começou naquele vestido da Madame Verdurin e termina numa falésia da Normandia, e não sabe como passou do reino social para o reino da natureza. Acho que essa conexão infindável é o reino da arte. A arte não explica, ela é presença. E essa presença no Proust é muito dilatada."
(Nuno Ramos, aqui. Trazido daqui.)

quinta-feira, 11 de março de 2010

O tecto no chão

(Foto, em modo manual, do tecto no chão do piso 1 da Caixa Fórum: Reboliço, depois de correr os chãos de todas as salas onde houvesse obras de Miquel Barceló.)

quarta-feira, 10 de março de 2010

AUTORIDADE E LIBERDADE SÃO UMA E A MESMA COISA

Autoridade é do que é autor.
Só a autoridade confere autoridade.
A autoridade não é uma quantidade.
Todo o homem é teatro de uma inexpugnável autoridade.
Aquele que julga ser possível autorizar ou desautorizar a autoridade de outrem não sabe no que se mete.
Liberdade.
A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só. Mas são mais reverbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moda* corrente do libertino.
Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água. Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar a água. Pode-se pô-lo a morrer, pendurado no ar, ou à dentada, com cães. Mas é impossível tirar-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.
Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime. Quanto mais perseguido mais perigoso. Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver de um homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro - nunca sairá um escravo.
Autoridade e liberdade são uma e a mesma coisa.

(Mário Cesariny, as mãos na água a cabeça no ar, Assírio e Alvim, Lisboa, 1985, p. 75. 
Lembrado a propósito de François Poirier, que morreu livre a semana passada 
e viveu como se fosse quatro ou mais. 
Também a propósito de um livro que saiu por aí e não tem porque não 
haveria de ter saído, com aquele título e tudo, 
para tornar mais difícil procurar por ele nos motores de busca.)


[*Não será "moeda"? JMM diz que não.]

Wishful saying

À pergunta "Como te chamas?" o pequeno Matias responde "Matisse".

terça-feira, 9 de março de 2010

Um gato a dormir

Pelos mesmos idos de meados do século XVII, Diego Velázquez pintou Las Hilanderas o La Fábula de Aracne. O Reboliço admira na imagem das duas salas o gato adormecido perto da roca, esgotado de ter corrido dias a fio atrás dos novelos.

(Post dedicado)

O Reboliço abafa com as almofadas das patinhas o som das unhas no chão tabuado. Chega à entrada da sala 27 sem que a vigilante se dê conta e alegra-se de não ver muitas pessoas paradas em frente ao quadro. Sentado, a cauda esticada para trás, vê com mais nitidez o que lhe está mais próximo dos olhos pequenos: olha para o mastim, que responde um rosnar manso, resignado e mole ao embalo do pé do diminuto bufón sobre o lombo. Naquele quarto de quadros quietos, janelas e ruídos dos folhos dos vestidos das meninas, o cão grande é o único ser de olhos fechados. Sabe a que lhe cheira o ar e não achará ali caça nenhuma.

segunda-feira, 8 de março de 2010

 
(Foto da neve em frente ao Teatro Nacional da Catalunha, em Barcelona, esta tarde: Isaías Fanlo.)

terça-feira, 2 de março de 2010

Moinhos na poesia (23)

O Sono de João

O João dorme... (Ó Maria,
Dize àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O João seria... um morango!
Podia engoli-lo um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores...
Mas os astros são menores!

O João dorme... Que regalo!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!
Calai-vos, águas do moinho!
Ó Mar! fala mais baixinho...
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João, acordar...

O João dorme, o Inocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo sono profundo!
Não acordes para o mundo,
Pode afogar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é...

Ó Mãe! canta-lhe a canção,
Os versos do teu Irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vai sem se sentir.»

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho... até morrer!

E tu vê-lo-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! Que rapaz tão lindo!)
Mas sempre, sempre dormindo...

Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
Do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João... ficarão menores!

Mas para isso, ó Maria!
Dize àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João, acordar...

E os anos irão passando.
Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem,
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas:
Morrerá sem o sentir,
Isto é deixa de dormir:
Acorda e regressa ao seio
De Deus, que é donde ele veio...

Mas para isso, ó Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais davagar:

Não vá o João, acordar...

António Nobre, 1891 (Paris),

segunda-feira, 1 de março de 2010

Estará a chegar?

 
(Foto dos passinhos cautelosos da Primavera a ver como andam os campos pelo Poço Novo esta manhã: Vasco Célio.)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O Reboliço é um nefelibata (29)

(Foto granulada de nuvens a Nascente: Reboliço. Está tudo tão quieto, depois do vendaval de ontem.)

(Foto granulada de nuvens a Poente: Reboliço, a pensar se teria obsessão suficiente para um projecto 365 como este.)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Desportes e Adriaenssen

- Sabes, Jaminah, a 24 de Fevereiro de 1661 nasceu em Marne Alexandre-François Desportes, que haveria de crescer e tornar-se grandioso pintor de naturezas mortas e de gatos vivaços que se pelam por lhes pôr a pata em cima. Podes ver por estes dias em Lisboa, numa exposição fabulosa, algumas das suas obras.
- Ah, mas foi ele também que mostrou um cãozarrão a querer ferrar um tareco. Disso não falas tu, Reboliço.
- O certo é que não nos podemos queixar: estes pintores deviam achar graça ao desafio de retratar em imagens paradas os bichos que não páram quedos.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A olhar para as estrelas

    Looking up at the stars, I know quite well
    That, for all they care, I can go to hell,
    But on earth indifference is the least
    We have to dread from man or beast.

    How should we like it were stars to burn
    With a passion for us we could not return?
    If equal affection cannot be,
    Let the more loving one be me.

    Admirer as I think I am
    Of stars that do not give a damn,
    I cannot, now I see them, say
    I missed one terribly all day.

    Were all stars to disappear or die,
    I should learn to look at an empty sky
    And feel its total dark sublime,
    Though this might take me a little time

Wystan Hugh Auden, "The More Loving One", in Collected Poems, ed. by Edward Mendelson, Modern Library, 2007, p. 582.

Luis Buñuel

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"Je te surveille!"

 (Foto da Jaminah a espreguiçar-se e título do post: Michel Subrenat-Auger)

- Se aqui estivesse a Tiaga, morreria de ciúmes, com tanta fotografia tua, Jaminah.
- Deixa lá, Reboliço: aos velhos perdoa-se tudo. Com estes dezassete anos, já começo a pensar que a morte se esqueceu de mim.

O Reboliço é um nefelibata (28)

Sentou-se muito quieto a ver The Wild Bunch, de Sam Peckinpah, só para contemplar as nuvens.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

- Como chove, Reboliço...
- É o suor do céu, Jaminah.

(Foto da Jaminah: Reboliço, resistentemente em modo manual.)

Variações sobre o vento

1

O denodado vento, vento
violento, só o sopro, vento
sequente como um rio
lesto, implacável,
fluindo na fissura
do ritmo adequado
ao limbo do vidro-ouvido...

Murmurando pregões, eu digo: vento
soergue-te nas asas;
silva, entanto, vento
no espaço;
destrói arquitecturas fabricadas;
aquieta-te possesso
de ímpeto-rajada.

E vira quando a folha reluzente
aspira ao frio, ao fino
deslize entre faces assustadas,
presentes sempre.

2

Apoio-me no vento e caio tonto
de ser coisa lembrada
na memória onde o vento perpassa
breve sentir lúdico.

Vem, vento, arrasta, lembra, até ao vão
que se entreabre
vento-palavra.

3

Da minha janela sinto o rio
onde colhe o vento
velas içadas.

Rompem fúnebres lamentos
dos afogados;
dos astros duros
perplexos como o olhar
vítreo.

(Ruy Cinatti, o "trota-mundos" - como lhe chamou Joaquim Manuel Magalhães -, escreve sobre Lisboa: Tempo da Cidade, edição de Peter Stilwell, colecção forma, editorial Presença, Lisboa, 1996, pp. 57-58.)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

- Reboliço, sabes que há cães que correm atrás das galinhas e lhes roubam os ovos?
- Isso são cães mal educados, Luca. Canitos mal educados.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Notícia da Dafne:


A última aula de Domingos Tavares

Auditório Fernando Távora
Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto
4 de Março de 2010, 17h30

"Apesar de a colecção Sebentas de História da Arquitectura Moderna ainda não ter chegado ao fim, o autor vai fazer a Última Aula da série que lhes deu origem.
Domingos Tavares, Professor Jubilado da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, gostaria de dar notícia aos amigos da Dafne e, em especial, aos leitores das Sebentas de História que, no próximo dia 4 de Março, fará uma aula especial, designada Última Aula, que versará o capítulo final desta história, cujo livro se encontra agora em preparação." (A aula será transmitida em streaming.)