segunda-feira, 31 de maio de 2010
domingo, 30 de maio de 2010
sábado, 29 de maio de 2010
Dia de moer
O Reboliço senta-se à amparada do vento, as orelhas empurradas para trás em abano permanente, focinho franzido e olhos a piscar do incómodo do ar a mexer – mas não os fecha, quer perder nada da música das cantarinhas de barro e das velas a fazerem a roda. O vento hoje está aos embirrões: foge, acelera, desanda, depois começa a travar, a travar, faz as varas ficarem quase quietas, as velas desenfunam e a mó entristece e pára. O Reboliço avança para a porta do moinho e entretém-se a ver as formigas à volta dos grãos de trigo, atarantadas com a riqueza que ali lhes foi parar e em concílio sobre como hão-de carregá-la para o ninho. Antes de subir com mais uma alcofada de grãos, o pai sacode-as e deixa as formigas às aranhas sem perceberem qual foi o passe de mágica que lhes roubou o alimento. O pai sobe as escadas, volta a descer e vem a rir: “Há aqui uma com o que contar à família. Foi pelos grãos, passou a mó e saiu dali viva.”
>
Moinho
Queijo fresco
De manhã cedo, a mãe segue a pé pela estrada de terra, bate à porta do monte vizinho, faz conversa de circunstância e traz uns “queijinhitos” para o pequeno-almoço. Traz dos frescos e dos meio curados, já mais rijos e amarelecidos. Os frescos, brancos e com duas ou três mínimas pedras de sal a brilhar sobre a capa leitosa, são deliciosos. Sabem ainda ao leite das cabras que pastam entre as tengarrinhas, as tocas das lebres, as pedras, a terra que começa a secar.
terça-feira, 25 de maio de 2010
O amor de um homem
(Foto nocturna da Echinopsis oxygona, comummente dita - pelas mulheres - "amor de um homem", porque, depois de aberta a flor, pouco resiste além das 24 horas: Reboliço. É de grande amor este cacto, de grande amor ao Inverno longo que lhe deixou viço para dezanove flores.)
>
Fotos
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Fruta da época
(Foto: Reboliço, de costas arranhadas pelos picos do topo do limoeiro onde foi crescer a pernada de nespereira do quintal da tia Mariana. Estas nêsperas pequeninas não são para descascar - têm de ser peladas, com paciência, se se quiser aproveitar a pouca carne que lhes separa a pele do caroço, três ou quatro pedras castanho-escuras, a pouca ainda que os pássaros, o sol e a ventania deixaram de dulcíssima, de incomparável esmola.)
sábado, 22 de maio de 2010
quinta-feira, 20 de maio de 2010
O Reboliço é um nefelibata (32)
(Foto-prenda de nuvens cerradas no céu da Escócia, com árvore, gaivota e castelo: António Guerreiro. O Eilean Donan fica na zona centro-norte, na parte oeste das Highlands.)
>
Fotos,
Nefelibata
quarta-feira, 19 de maio de 2010
De cada vez que ouve a fantástica interjeição cearense "Minha Nossa Senhora das Bicicletas!", o Reboliço lembra-se que está a passar a Volta à Califórnia e do quanto gosta de ver o pelotão correr paralelo ao azul do Pacífico.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Moinhos na Poesia (29)
Pela estrada (da informação) fora, na página dos Moinhos de Portugal recordaram-me este Guerra Junqueiro:
A MOLEIRINHA
Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante.
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc,
A velhinha atraz, o jumentito adiante!...
Toc, toc, a velha vae para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!...
E comtudo alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a córar ao sol.
Vae sem cabeçada, em liberdade franca,
O gerico russo d'uma linda côr;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca
Com o galho verde d'uma giesta em flor.
Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toc, toc, toc, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa...
Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...
Toc, toc, toc, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem m'o dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a Virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia n'um burrico assim.
Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrellas, vivas, em cardume...
Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume...
Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chan!
Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar á egreja,
Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan!
Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vae n'uma frescata...
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!...
Toc, toc, como o burriquito avança!
Que prazer d'outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui creança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deos...
Toc, toc, é noite... ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!...
Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados cherubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar...
Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d'astros o luar sem veo,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que moe estas farinhas d'oiro
Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!...
(Composto em Novembro de 1888;
sábado, 15 de maio de 2010
sexta-feira, 14 de maio de 2010
>
Mano
quinta-feira, 13 de maio de 2010
O Reboliço olha: estirado na pedra do pátio, ao lado da escadaria da villa, um cão grande está entretido. Nem ladra aos que passam, como costuma, a dizer que jamais hão-de transpor-lhe o portão ou o quanto gostaria de se passear para lá dele. Nem isso: do pintalgado corpo molengão, esquecidas as patas de trás, só as da frente se esmeram a segurar um volume de papel destruído, enquanto a boca rasga, esfacela, baba, deforma páginas que são já só uma pasta amarelada com vestígios de traços negros. Em silêncio a cabeça pende, pesada, para um lado e para o outro consoante a vontade da dentada para refrescar o sabor a tinta. Nas vivendas contíguas, em cada quarto ou quinto degrau fronteiro à porta, muito neat e de capa ao sol luzidia, descansa a edição das Páginas Amarelas distribuída durante a manhã.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
O lugar do real
Andam poetas uma vida inteira à procura dele. Médicos, filósofos, músicos. Tudo num afã para saber o que é e onde está. Agora tem um lugar só seu e modo simples de lá se ir dar. É onde fica, por exemplo, a morte do cinema.
terça-feira, 11 de maio de 2010
Moinhos na poesia (28)
.
MOINHOS
Tudo era branco e acolhia:
o chão, a pedra, a farinha.
De roda jogavam com o vento
que afoitamente entrava
pela camisa dos homens.
Campos de milho, ovelhas taciturnas,
pastos e ao longe o Sado
viam-se ao postigo
enquanto os grãos de trigo
estremeciam
antes de se perderem.
(António Osório, A Raiz Afectuosa (1972), em A Luz Fraterna: Poesia Reunida, Assírio e Alvim, Lisboa, 2009, p. 30.)
MOINHOS
Tudo era branco e acolhia:
o chão, a pedra, a farinha.
De roda jogavam com o vento
que afoitamente entrava
pela camisa dos homens.
Campos de milho, ovelhas taciturnas,
pastos e ao longe o Sado
viam-se ao postigo
enquanto os grãos de trigo
estremeciam
antes de se perderem.
(António Osório, A Raiz Afectuosa (1972), em A Luz Fraterna: Poesia Reunida, Assírio e Alvim, Lisboa, 2009, p. 30.)
segunda-feira, 10 de maio de 2010
"Le moulin travaille!"
(Fotos do moinho enquanto trabalhava, há duas semanas: Reboliço. O Michel, que pela primeira vez assistiu ao vivo, aproveitou para renovar a página sobre os moinhos de vento, acrescentou imagens, diagramas e texto sobre o Moinho Grande e incluiu, no canto inferior direito, um pequeno filme das velas a girar feito nesse dia, naquela hora.)
domingo, 9 de maio de 2010
O Reboliço é um nefelibata (31)
tristão e iseu
dantes até me vinham as lágrimas aos olhos
quando ouvia louis armstrong a cantar
st. james infirmary, aquela marcha fúnebre
a que já aludi há muito tempo, tão sombria, tão pungente,
tão desarmada e triste. já falei disso, sim, e
agora ocorre-me outra vez, nem eu sei bem porquê,
nesta penumbra anoitecida, como um pólen de surdinas
que escorressem das nuvens. e sei que me faz
sentir como se levasse um aperto no coração e
um ramo de flores, um ramo
de frágeis comissuras de ciclamen
e pétalas furtivamente humedecidas, tão pálidas
e azuladas, tão repassadas de tempo e pouca sorte,
nesse compasso rouco para a morte de amor:
so cold, so sweet, so fair,
deixai passar, deixai passar, onde quer que eles
estejam nunca houve amor assim,
iseu crepuscular, tristão desamparado,
ambos morrendo por de nada ter valido.
dantes até me vinham as lágrimas aos olhos
quando ouvia louis armstrong a cantar
st. james infirmary, aquela marcha fúnebre
a que já aludi há muito tempo, tão sombria, tão pungente,
tão desarmada e triste. já falei disso, sim, e
agora ocorre-me outra vez, nem eu sei bem porquê,
nesta penumbra anoitecida, como um pólen de surdinas
que escorressem das nuvens. e sei que me faz
sentir como se levasse um aperto no coração e
um ramo de flores, um ramo
de frágeis comissuras de ciclamen
e pétalas furtivamente humedecidas, tão pálidas
e azuladas, tão repassadas de tempo e pouca sorte,
nesse compasso rouco para a morte de amor:
so cold, so sweet, so fair,
deixai passar, deixai passar, onde quer que eles
estejam nunca houve amor assim,
iseu crepuscular, tristão desamparado,
ambos morrendo por de nada ter valido.
(Vasco Graça Moura, O Caderno da Casa das Nuvens, Edições Afrontamento, Porto, 2010, p. 43.)
O Reboliço é um nefelibata (30)
Sentou-se muito quieto a ver I Love You, Phillip Morris e a apreciar as lindas formações nebulosas, personagens tão importantes como Steve e Phillip. Porém, como as nuvens são coisas que passam e não fazem senão estar a passar, não as viu como actores - e, por isso, não pôde comparar o seu desempenho ao grandioso trabalho de Ewan McGregor (certamente inspirado no de Rodrigo Santoro em Carandiru).
sábado, 8 de maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Casca de árvore
O Reboliço lembra-se de andar sempre no carro do pai, no R12 matrícula HZ-93-09, pelo porta-luvas sem porta, entre os dois bancos da frente (onde não havia descanso para o braço), por ali, um cucharro - como se fosse mesmo uma colher grande de sopa mas de cabo curto e concha funda - de cortiça bem talhada. Onde houvesse uma fonte, a mínima queda de água, um poço, nora que fosse, não era a mão que levava a água à boca, mas a cortiça. Vinha fresquinha, fresca, sabia a água só: mas os lábios tocavam a grossura do bordo liso muito leve.
(Lembra-se da cortiça a propósito da cortiça e dá os parabéns à Sandra.)
(Lembra-se da cortiça a propósito da cortiça e dá os parabéns à Sandra.)
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Moinhos na poesia (27)
Eu abandono Roma
Os camponeses abandonam a terra
As andorinhas abandonam a minha aldeia
Os fiéis abandonam as igrejas
Os moleiros abandonam os moinhos
Os montanheses abandonam os montes
A graça de Deus abandona os homens
Alguém abandona tudo
(Tonino Guerra, abertura de O Livro das Igrejas Abandonadas,
tradução de José Colaço Barreiros, Assírio e Alvim, Lisboa, 1997.)
tradução de José Colaço Barreiros, Assírio e Alvim, Lisboa, 1997.)
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Charlot
Quando o Reboliço lhe pede para fazer o Charlot, o pequeno Matias encolhe os ombros, faz uma boquinha e os olhos fecham-se-lhe no sorriso. Quando crescer mais do que estes dois anos, saberá de quem é o rosto que imita.
domingo, 2 de maio de 2010
O Reboliço espreita enquanto a mãe vai cortando um, dois, três pés de jarros e mais umas quantas folhas largas. ("Tem avondo!", diria a avó.) A mãe deixa o arranjo em cima da cadeira baixa, na cozinha, e o Reboliço avança, toc-toc-toc, o focinho a sujar-se de amarelo e a espirrar o pólen dentro da corola. Faz-lhe gosto e espécie o branco tão liso, quase irreal ao toque. Pensa que a flor vem da mesma terra onde nascem as romãs, a casca do limão, as rugas fundas das folhas da figueira, o caroço rijo da azeitona, o tronco torcido da parreira. Lembra-se que a mãe lhe pediu versos com flores, mas não acredita que algum verso alguma vez possa falar de flor nenhuma.
(Foto dos três jarros ao sol, antes de serem cortados para dispor na floreira: Reboliço.)
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Lobito
(Foto do que o Reboliço pensa ser o Lobito numa fase inicial da sua fulgurante, fúlgida, fogosa, flamívola vida: desconhecido.)
quarta-feira, 28 de abril de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
Claro e escuro
"... uma grande quantidade de pequenas manchas enegrecidas, completamente separadas da parte obscura, espalha-se por quase toda a extensão já inundada pela luz do Sol, com excepção todavia daquela parte que tem as manchas grandes e antigas. Ora, notámos logo que essas pequenas manchas têm todas e sempre em comum que a sua parte enegrecida está virada para o Sol, enquanto, do lado oposto ao Sol, estão coroadas de extremidades mais luminosas, como arestas resplandecentes. Ora, temos na Terra uma visão totalmente semelhante, no momento do nascer do Sol, quando dirigimos o nosso olhar sobre os vales que ainda não estão banhados de luz, e as montanhas que os cercam resplandecem, já do lado oposto, ao Sol. E, tal como as sombras das cavidades terrestres diminuem à medida que o Sol se eleva, assim também estas manchas lunares perdem as suas trevas à medida que a parte luminosa cresce."
Galileu Galilei, Sidereus Nuncius - O Mensageiro das Estrelas (p. 157)
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Posto o sol
(Foto do moinho domingo passado, a atirar farinha para o chão e luz para cima das velas: Michel Subrenat-Auger.)
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Fantasia Lusitana
Uma das coisas de que mais gosto em Fantasia Lusitana é a voz clara, a formar muito nítidas as palavras, de Hanna Schygulla a ler dos diários de Erika Mann.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Moinhos na poesia (26)
En el molino de San Antonio,
leche de luna mueve la piedra,
y el molinero ciego en la harina
toca las carnes de las tinieblas.
El agua canta canto del cielo
su desvelada sangre de estrellas,
y desde el trigo vuelve la nieve
por el caliente de la molienda.
Molinero, molinero,
los sueños te llevarán
hacia el corazón del trigo
por el aroma del pan.
Viene la noche del molinero
sueños de harina que en su alma nieva,
y una bayita que huele a jume
y a trigo verde por las caderas.
Si el molinero duerme en los grillos
muere en el llanto de las estrellas,
y hacen harina la luz del cielo
para el silencio de la violeta.
Molinero, molinero,
los sueños te llevarán,
hacia el corazón del trigo
por el aroma del pan.
Molinero, molinero,
los sueños te llevarán,
hacia el corazón del trigo
por el aroma del pan.
leche de luna mueve la piedra,
y el molinero ciego en la harina
toca las carnes de las tinieblas.
El agua canta canto del cielo
su desvelada sangre de estrellas,
y desde el trigo vuelve la nieve
por el caliente de la molienda.
Molinero, molinero,
los sueños te llevarán
hacia el corazón del trigo
por el aroma del pan.
Viene la noche del molinero
sueños de harina que en su alma nieva,
y una bayita que huele a jume
y a trigo verde por las caderas.
Si el molinero duerme en los grillos
muere en el llanto de las estrellas,
y hacen harina la luz del cielo
para el silencio de la violeta.
Molinero, molinero,
los sueños te llevarán,
hacia el corazón del trigo
por el aroma del pan.
Molinero, molinero,
los sueños te llevarán,
hacia el corazón del trigo
por el aroma del pan.
(Domingo de manhã, enquanto ouvia as cantarinhas a fazer soar o vento entre os mastros, o Reboliço escutou uma voz da Patagónia argentina a murmurar as rimas de Jaime Dávalos. A melodia é de Eduardo Falú e aqui canta-a outro argentino, Alberto Cortez. Como o mundo é uma coisa pequenina, o Reboliço agradece a um milanês, Roberto Pisani, pelas informações.)
sábado, 17 de abril de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Estala o céu no segundo preciso em que a luz de um relâmpago o fende, o Reboliço marcha para longe da janela, ainda de sobressalto no coração, mas deixa-se ficar de focinho virado para lá. Olhos muito abertos, vê que a ria desapareceu, que as árvores do outro lado da rua mal se vêem sob a cortina da chuva, ouve gritos das pessoas na rua e pensa nos três vasos de cactos felizes a esta hora, nos ladrilhos encharcados da varanda.
(Nem um minuto depois, atrás da ria há uma grossa linha branca da espuma das ondas.)
"Por um olhar dos teus olhos
dava da vida a metade;
por um riso dava a vida;
por um beijo, a eternidade."
>
Citações
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Girassóis
(Foto do rebanho a escapulir-se em direcção do sol-posto, segundos antes de o cão arrancar atrás dos bichos e, a gritos e truques de língua do pastor, os devolver ao passo e ao pasto onde lhes pertence estar: Reboliço, no olival das Almojafas.)
terça-feira, 13 de abril de 2010
Ãocordo Ortãográfico
O Reboliço pensa que é capaz de ser difícil convencer muita gente a passar a escrever canideamente, mas entretém-se com a hipótese, de que transcreve, com licença devida e mantendo todas as idiossincrasias estilísticas, o excerto que interessa (porque do lugar onde está legível é frequente desaparecer o que se escreveu):
"Sempre desconfiei de meias de renda: a fronteira das pernas fica diluida no empacotamento quase cúbico centrado das casas, tecendo uma imensidão de pontos de fuga capaz de formar uma espécie de camuflado anti-analítico, que funciona como arregimentador da dúvida, a qual, como se sabe, nutre infalivelmente a excitação ão ão ão, num efeito muitas vezes enganador que a partir da terceira cerveja da noite costuma ter resultados matinais desastrosos, mas que no saudável ambiente do estádio de futebol é como um gás raro: não reage com nada. Veio, dizia eu, a Menina ão ão ão Limão aqui ao raspador de posts em razão ão ão de, não só, ão, eu estar à espera que me venham buscar, como nomeadamente pela situação de cão de eu próprio ter chegado sozinho à chocante conclusão que a ãoãoãoão é autora de para aí 81 por cento dos templates dos blogues de homens portugueses (ou, mais presisamente, três, um dos quais nunca ouvi falar). Até do Pedro Mexia, valha-me deus, o Pedro Mexia! O trabalho dela no Natureza do Mal (um blogue que, se estão ão ão ão atentos à minha obra, por vezes admiro mas que mais habitualmente me aborrece) foi desqualificado pelo Rui Bebiano, neste post; vai daí ãoãoãoão respondeu, neste post."
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Olha como a chuva cai*
O Reboliço pensa que no Rio, a esta hora, manda chuva. Lembra-se da água que caiu sobre os calçadões, sobre as areias de Ipanema, sobre os morros e as favelas, da água quente que foi tombando a misturar-se com a da lagoa, com as da baía, com a frente de Niterói, com as de côco dos camelôs. Faz figas que ninguém lá passe pela provação do alagamento de páginas que viveu um pobre desterrado em São Paulo.
*
*
terça-feira, 6 de abril de 2010
"Whirligigs and Windmills"
O Senhor Simpson faz moinhos, piões, mobiles e outras engenhocas, com tralha que arranja nas sucatas, ferros-velhos e mais depósitos de material enjeitado.
>
NYTimes
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Saltos de lebre
O Reboliço anda armado em lebre: salta de uma semana para a outra, de supetão e em fuga, como quando elas se lançam a esconder-se nas tocas escavadas entre as pedras da terra por lavrar. Descuida-te, Reboliço, e ainda vais parar a uma feijoada de tengarrinhas...
domingo, 4 de abril de 2010
quarta-feira, 31 de março de 2010
Moinhos na poesia (25)
Vêm andaimes lá do Tejo
Tonitroantes, vagabundos.
Vem a adaga de punho curto e ferro em brasa.
Acompanhados de estruturas.
Vem a adaga, o moinho, a foice que não circula, enterra-se.
Vem a facada!
Na barriga, no coração, no sexo.
E deixa o homem morto,
De olhos abertos!!! A luz da doca.
Londres, 14-IX-77
(Raul de Carvalho, Elsinore [1980], in Obras de Raul de Carvalho - I - Obra publicada em livro, Lisboa, Editorial Caminho, 1993, p. 845.)
terça-feira, 30 de março de 2010
Happy birthday, Reboliço!
Cinco anos, um dia, e nada de artrite!
(A prenda do Mano foi que ele visitou, de sua livre e espontânea vontade, as Cartas no seu telefone. Diz que anda à roda, como as velas do moinho, e que até é engraçado assim pequenino. Como dizia o avô, tirando o pão, tudo o que é pequenino tem graça.)
domingo, 28 de março de 2010
Frutos novos
(Foto dos figuinhos a rebentar na figueira grande, dois dias de sol, um dia de chuva e outro dia de sol depois de rebentarem as folhas novas: Reboliço.)
"O sol é que alegra o dia
pela manhã, quando nasce;
ai de nós!, o que seria
se o sol um dia faltasse."
>
Citações
sexta-feira, 26 de março de 2010
Laboratório de sonhos
Mesmo quando está a entrar no relato que o há-de de envolver a ele e aos seus companheiros a bordo do Nellie, como a escuridão da noite sobre o Tamisa, Marlow suspende a voz e hesita na narrativa, como se se sentisse incapaz de continuar a contar o que se passou na sua viagem pelo Congo:
It seems to me I am trying to tell you a dream - making a vain attempt, because no relation of a dream can convey the dream-sensation, that commingling of absurdity, surprise, and bewilderment in a tremor of struggling revolt, that notion of being captured by the incredible which is of the very essence of dreams.*
A vacuidade da tentativa, apesar de tudo, não o impede de contar - de tentar contar. É muito forte o impulso de trazer para fora e dar a conhecer - a quem ouve, mas sobretudo a quem conta - aquilo que é o vago de um sonho. Que se diz em frases como "era como se fosse um goivo, mas tinha a corola de um amor-perfeito", ou "eu sabia que eras tu, mas a tua cara era a de uma tia-avó que nunca conheci". Um laboratório de sonhos só pode ser uma fábrica de literatura imperfeita, uma caixa postal de que ninguém conhece chave nem sequer fechadura.
* Em português, na versão de Teresa Amaro, ficou: "Parece-me que estou a tentar contar-lhes um sonho - uma tentativa vã, porque o relato de um sonho não pode transmitir aquela sensação de sonho, aquela mescla de absurdidade, surpresa e complexidade, aquela sensação de sermos capturados pelo inacreditável que é a própria essência dos sonhos." (O Coração das Trevas, Edição MilFolhas, Público, Lisboa, 2004, p. 43. Logo acrescento a versão de Aníbal Fernandes - é capaz de não ter "absurdidade" nenhuma.)
* Em português, na versão de Teresa Amaro, ficou: "Parece-me que estou a tentar contar-lhes um sonho - uma tentativa vã, porque o relato de um sonho não pode transmitir aquela sensação de sonho, aquela mescla de absurdidade, surpresa e complexidade, aquela sensação de sermos capturados pelo inacreditável que é a própria essência dos sonhos." (O Coração das Trevas, Edição MilFolhas, Público, Lisboa, 2004, p. 43. Logo acrescento a versão de Aníbal Fernandes - é capaz de não ter "absurdidade" nenhuma.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)





