teşekkür ederim = obrigada
quarta-feira, 30 de junho de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
O Reboliço é um nefelibata (33)
"É proibido fotografar o avião."
(Foto das nuvens sobre o Mediterrâneo: Reboliço, em desobediência.)
(Foto das nuvens sobre o Mediterrâneo: Reboliço, em desobediência.)
domingo, 27 de junho de 2010
Dentro da cidade (6)
(Foto da banqueta forrada, uma entre muitas às portas das também inúmeras lojas de Sultanahmet: Reboliço. Os dias dos vendedores são passados ali sentados, ou no interior das lojas, conforme estiver o tempo e a clientela, ou conforme houver um copo de chá de maçã para acabar de beber entre a história que se conta da família, da idade que têm os tapetes, do amor que têm aos gatos ou das promessas de felicidade. A ideia de mercado não nasceu noutro lugar senão aqui.)
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Fotos,
Onde andei
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Dentro da cidade (5)
(Foto de homens em meditação no interior da Mesquita Azul, ou Sultan Ahmet Camii: Reboliço, in awe.)
Quando cai a noite em Sultanahmet, depois da última chamada para a oração (que se ouve de duas ou três mesquitas em volta), instala-se o silêncio. É uma hora sossegada, só nalguns agoras interrompida por um miado faminto ou de cio. Tão sossegada - sem carros, motas, música, nem vozes em conversa - que o sono fica até que a manhã regressa e o pensamento pode existir.
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Fotos,
Onde andei
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Dentro da cidade (4)
(Foto da margem Norte do Corno de Ouro, com a Torre Galata e a ponte Yeni Galata, desde a praça de Eminönu: Reboliço, ainda aos espirros com as especiarias.)
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Fotos,
Onde andei
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Dentro da cidade (3)
Foi um dia de inuteis fotografias.
Dia de sol, inundado de sol!...
Fulgiam nuas as mercadorias...
Dia de sol, inundado de sol!...
Foi um dia de falsas alegrias.
Dahlia a esfolhar-se, — o seu molle sorriso...
Voltavam os ranchos das Hagias Sophias.
Dahlia a esfolhar-se, — o seu molle sorriso...
Dia impressivel mais que os outros dias.
Tão lúcido... Tão pallido... Tão lúcido!...
Diffuso de theoremas, de theorias...
O dia futil mais que os outros dias!
Minuete de discretas ironias...
Tão lúcido... Tão pallido... Tão lúcido!...
(Camilo Pessanha transfigurado)
terça-feira, 22 de junho de 2010
Dentro da cidade (2)
Santa Bárbara bendita,
Que no céu está escrita!
Com papel e água benta
Nos livre desta tormenta!
(- Com papel, Reboliço?
- Com papel, Luca. Com papel.)
Dentro da cidade (1)
Quando o homem do restaurante escreve no papel a palavra köpek, rebenta novo trovão; a lua a vir para cheia desaparece na claridade do relâmpago e passa na rua um cão branco, pequeno, assustado.
(Foto das duas mãos: Reboliço, a caminho de Bizâncio. Ou de Constantinopla. Para dentro da cidade da passagem do boi.)
segunda-feira, 21 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
Moinho da Forca
(Fotograma de O Pão, de Manoel de Oliveira, a 6'21, publicado em António Preto, “A Construção da Imagem”, in António Preto [ed.], Manoel de Oliveira: O Cinema Inventado à Letra, Fundação de Serralves / Jornal Público, 2008, p. 27. Este filme teve uma primeira versão em 1959 - as imagens do Moinho da Forca, perto da praça de touros da cidade de Beja, podem ter sido feitas nesse ano ou no ano antes. A silhueta ao lado do moinho é da bisavó Adelaide. Não era o moinho da família. Dizia o avô Chico que o seu pai depois de velho é que quis trabalhar - e foi fazê-lo para aquele moinho, emprestado pelo irmão de um moleiro que ou se enforcara ou de outra maneira pusera fim aos seus dias de vento. Giram as velas cá fora. Antes, dentro do moinho o filme mostrara o bisavô Luís a bandejar o trigo e a fazer subir uma saca para o piso intermédio. Muito bem vigiado por uma gata branca e preta encostada à curva da parede. O pai diz que o moinho estava a moer do lado da maré e que devia ser por esta altura, fins de Junho. Ao canto, à direita, vê-se o segundo moinho do conjunto, que o pai sempre se lembra de ver em ruína.)
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Moinhos na Poesia (31)
D. QUIXOTE
Não vejo Dulcineias, D. Quixote,
Nem gigantes, nem ilhas, nada existe
Do teu sonho de louco.
Só moinhos, mulheres e Baratárias,
Coisas reais que Sancho bem conhece
E para ti são pouco.
Não vejo Dulcineias, D. Quixote,
Nem gigantes, nem ilhas, nada existe
Do teu sonho de louco.
Só moinhos, mulheres e Baratárias,
Coisas reais que Sancho bem conhece
E para ti são pouco.
(José Saramago, Os Poemas Possíveis, Lisboa, Editorial Caminho, p. 100.)
quinta-feira, 17 de junho de 2010
"Casa Algarve"
O Reboliço provou uma iguaria inigualável: lingueirões à Bulhão Ganso - ou seriam à Bulhão ganso?
Tendenza
O Reboliço diz baixinho, quase sem som: "Tendenza." Diz outra vez: "Tendenza." Baixinho e devagar: "Tennndeennnnnzzzza." É o som que faz a desembarcar o novo opúsculo da Dafne.
O Reboliço colecciona calendários (17)
Mesmo que sejam em japonês e não perceba deles nadica de nada.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Moinhos na Poesia (30)
MALDICIÓN
Porque ella y yo
no fuimos al molino
a mirar, quando niños
¿qué molian? ¿molian acaso
una discusión interminable?
Porque ella y yo
no encontramos, huéspedes
que se miran en el fondo
sucio de la copa, el
Camino del Molino donde
podrían estar moliendo cierta clase de
felicidad junto al arroyo rumoroso
donde vivían las nutrias de grandes dientes.
Porque ella y yo
no fuimos al molino
a mirar, quando niños
¿qué molian? ¿molian acaso
una discusión interminable?
Porque ella y yo
no encontramos, huéspedes
que se miran en el fondo
sucio de la copa, el
Camino del Molino donde
podrían estar moliendo cierta clase de
felicidad junto al arroyo rumoroso
donde vivían las nutrias de grandes dientes.
(Aldo Mazzucchelli, Las ideas fijas, Montevideo, Ed. de La Pluma, 1993, p. 39.)
domingo, 13 de junho de 2010
A ver a banda passar
É ao entardecer, hora tardia no Junho que vai a meio: o Reboliço sente um rufar ainda distante, vai erguendo as orelhas à medida que o ritmo se aproxima e acaba por se assomar à varanda, as duas patas de diante agarradas à parede alta e as traseiras esticadas a dar-lhe perspectiva. Enquanto passa na avenida a banda da Guarda Nacional, os alarmes dos carros estacionados entram no compasso. O sol já se pôs, alguns miúdos na rua imitam o som dos tambores e dos sopros, os pombos esvoaçam - que fosse para sempre!... -, a ria já é só um brilho atrás do verde das copas das árvores. A tarde desaparece, cai ela, para subir a noite.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
O Reboliço colecciona calendários (16)
E ficaram-lhe no goto a função e a forma deste.
(Atenção: as horas indicadas são horas locais em Espanha, uma hora mais que em Portugal continental e Madeira, duas horas mais que nos Açores.)
terça-feira, 8 de junho de 2010
domingo, 6 de junho de 2010
"There are a great many beautiful sounds on this earth..."
"A voz da minha mulher a cantar
Corvos quando estão com fome
Sinetas dos eléctricos
Relatos de bola nos transístores
Alguém a dançar sapateado
Crianças à saída da escola"
Corvos quando estão com fome
Sinetas dos eléctricos
Relatos de bola nos transístores
Alguém a dançar sapateado
Crianças à saída da escola"
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Dia dos que olham para o chão
(Foto das primeiras páginas do livro O Sapato do Coração, Pedro Alvim, Plátano Editora, s.d.: Reboliço, a olhar para a pata esquerda.)
terça-feira, 1 de junho de 2010
segunda-feira, 31 de maio de 2010
domingo, 30 de maio de 2010
sábado, 29 de maio de 2010
Dia de moer
O Reboliço senta-se à amparada do vento, as orelhas empurradas para trás em abano permanente, focinho franzido e olhos a piscar do incómodo do ar a mexer – mas não os fecha, quer perder nada da música das cantarinhas de barro e das velas a fazerem a roda. O vento hoje está aos embirrões: foge, acelera, desanda, depois começa a travar, a travar, faz as varas ficarem quase quietas, as velas desenfunam e a mó entristece e pára. O Reboliço avança para a porta do moinho e entretém-se a ver as formigas à volta dos grãos de trigo, atarantadas com a riqueza que ali lhes foi parar e em concílio sobre como hão-de carregá-la para o ninho. Antes de subir com mais uma alcofada de grãos, o pai sacode-as e deixa as formigas às aranhas sem perceberem qual foi o passe de mágica que lhes roubou o alimento. O pai sobe as escadas, volta a descer e vem a rir: “Há aqui uma com o que contar à família. Foi pelos grãos, passou a mó e saiu dali viva.”
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Moinho
Queijo fresco
De manhã cedo, a mãe segue a pé pela estrada de terra, bate à porta do monte vizinho, faz conversa de circunstância e traz uns “queijinhitos” para o pequeno-almoço. Traz dos frescos e dos meio curados, já mais rijos e amarelecidos. Os frescos, brancos e com duas ou três mínimas pedras de sal a brilhar sobre a capa leitosa, são deliciosos. Sabem ainda ao leite das cabras que pastam entre as tengarrinhas, as tocas das lebres, as pedras, a terra que começa a secar.
terça-feira, 25 de maio de 2010
O amor de um homem
(Foto nocturna da Echinopsis oxygona, comummente dita - pelas mulheres - "amor de um homem", porque, depois de aberta a flor, pouco resiste além das 24 horas: Reboliço. É de grande amor este cacto, de grande amor ao Inverno longo que lhe deixou viço para dezanove flores.)
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Fotos
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Fruta da época
(Foto: Reboliço, de costas arranhadas pelos picos do topo do limoeiro onde foi crescer a pernada de nespereira do quintal da tia Mariana. Estas nêsperas pequeninas não são para descascar - têm de ser peladas, com paciência, se se quiser aproveitar a pouca carne que lhes separa a pele do caroço, três ou quatro pedras castanho-escuras, a pouca ainda que os pássaros, o sol e a ventania deixaram de dulcíssima, de incomparável esmola.)
sábado, 22 de maio de 2010
quinta-feira, 20 de maio de 2010
O Reboliço é um nefelibata (32)
(Foto-prenda de nuvens cerradas no céu da Escócia, com árvore, gaivota e castelo: António Guerreiro. O Eilean Donan fica na zona centro-norte, na parte oeste das Highlands.)
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Fotos,
Nefelibata
quarta-feira, 19 de maio de 2010
De cada vez que ouve a fantástica interjeição cearense "Minha Nossa Senhora das Bicicletas!", o Reboliço lembra-se que está a passar a Volta à Califórnia e do quanto gosta de ver o pelotão correr paralelo ao azul do Pacífico.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Moinhos na Poesia (29)
Pela estrada (da informação) fora, na página dos Moinhos de Portugal recordaram-me este Guerra Junqueiro:
A MOLEIRINHA
Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante.
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc,
A velhinha atraz, o jumentito adiante!...
Toc, toc, a velha vae para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!...
E comtudo alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a córar ao sol.
Vae sem cabeçada, em liberdade franca,
O gerico russo d'uma linda côr;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca
Com o galho verde d'uma giesta em flor.
Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toc, toc, toc, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa...
Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...
Toc, toc, toc, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem m'o dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a Virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia n'um burrico assim.
Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrellas, vivas, em cardume...
Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume...
Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chan!
Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar á egreja,
Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan!
Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vae n'uma frescata...
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!...
Toc, toc, como o burriquito avança!
Que prazer d'outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui creança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deos...
Toc, toc, é noite... ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!...
Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados cherubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar...
Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d'astros o luar sem veo,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que moe estas farinhas d'oiro
Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!...
(Composto em Novembro de 1888;
sábado, 15 de maio de 2010
sexta-feira, 14 de maio de 2010
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Mano
quinta-feira, 13 de maio de 2010
O Reboliço olha: estirado na pedra do pátio, ao lado da escadaria da villa, um cão grande está entretido. Nem ladra aos que passam, como costuma, a dizer que jamais hão-de transpor-lhe o portão ou o quanto gostaria de se passear para lá dele. Nem isso: do pintalgado corpo molengão, esquecidas as patas de trás, só as da frente se esmeram a segurar um volume de papel destruído, enquanto a boca rasga, esfacela, baba, deforma páginas que são já só uma pasta amarelada com vestígios de traços negros. Em silêncio a cabeça pende, pesada, para um lado e para o outro consoante a vontade da dentada para refrescar o sabor a tinta. Nas vivendas contíguas, em cada quarto ou quinto degrau fronteiro à porta, muito neat e de capa ao sol luzidia, descansa a edição das Páginas Amarelas distribuída durante a manhã.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
O lugar do real
Andam poetas uma vida inteira à procura dele. Médicos, filósofos, músicos. Tudo num afã para saber o que é e onde está. Agora tem um lugar só seu e modo simples de lá se ir dar. É onde fica, por exemplo, a morte do cinema.
terça-feira, 11 de maio de 2010
Moinhos na poesia (28)
.
MOINHOS
Tudo era branco e acolhia:
o chão, a pedra, a farinha.
De roda jogavam com o vento
que afoitamente entrava
pela camisa dos homens.
Campos de milho, ovelhas taciturnas,
pastos e ao longe o Sado
viam-se ao postigo
enquanto os grãos de trigo
estremeciam
antes de se perderem.
(António Osório, A Raiz Afectuosa (1972), em A Luz Fraterna: Poesia Reunida, Assírio e Alvim, Lisboa, 2009, p. 30.)
MOINHOS
Tudo era branco e acolhia:
o chão, a pedra, a farinha.
De roda jogavam com o vento
que afoitamente entrava
pela camisa dos homens.
Campos de milho, ovelhas taciturnas,
pastos e ao longe o Sado
viam-se ao postigo
enquanto os grãos de trigo
estremeciam
antes de se perderem.
(António Osório, A Raiz Afectuosa (1972), em A Luz Fraterna: Poesia Reunida, Assírio e Alvim, Lisboa, 2009, p. 30.)
segunda-feira, 10 de maio de 2010
"Le moulin travaille!"
(Fotos do moinho enquanto trabalhava, há duas semanas: Reboliço. O Michel, que pela primeira vez assistiu ao vivo, aproveitou para renovar a página sobre os moinhos de vento, acrescentou imagens, diagramas e texto sobre o Moinho Grande e incluiu, no canto inferior direito, um pequeno filme das velas a girar feito nesse dia, naquela hora.)
domingo, 9 de maio de 2010
O Reboliço é um nefelibata (31)
tristão e iseu
dantes até me vinham as lágrimas aos olhos
quando ouvia louis armstrong a cantar
st. james infirmary, aquela marcha fúnebre
a que já aludi há muito tempo, tão sombria, tão pungente,
tão desarmada e triste. já falei disso, sim, e
agora ocorre-me outra vez, nem eu sei bem porquê,
nesta penumbra anoitecida, como um pólen de surdinas
que escorressem das nuvens. e sei que me faz
sentir como se levasse um aperto no coração e
um ramo de flores, um ramo
de frágeis comissuras de ciclamen
e pétalas furtivamente humedecidas, tão pálidas
e azuladas, tão repassadas de tempo e pouca sorte,
nesse compasso rouco para a morte de amor:
so cold, so sweet, so fair,
deixai passar, deixai passar, onde quer que eles
estejam nunca houve amor assim,
iseu crepuscular, tristão desamparado,
ambos morrendo por de nada ter valido.
dantes até me vinham as lágrimas aos olhos
quando ouvia louis armstrong a cantar
st. james infirmary, aquela marcha fúnebre
a que já aludi há muito tempo, tão sombria, tão pungente,
tão desarmada e triste. já falei disso, sim, e
agora ocorre-me outra vez, nem eu sei bem porquê,
nesta penumbra anoitecida, como um pólen de surdinas
que escorressem das nuvens. e sei que me faz
sentir como se levasse um aperto no coração e
um ramo de flores, um ramo
de frágeis comissuras de ciclamen
e pétalas furtivamente humedecidas, tão pálidas
e azuladas, tão repassadas de tempo e pouca sorte,
nesse compasso rouco para a morte de amor:
so cold, so sweet, so fair,
deixai passar, deixai passar, onde quer que eles
estejam nunca houve amor assim,
iseu crepuscular, tristão desamparado,
ambos morrendo por de nada ter valido.
(Vasco Graça Moura, O Caderno da Casa das Nuvens, Edições Afrontamento, Porto, 2010, p. 43.)
O Reboliço é um nefelibata (30)
Sentou-se muito quieto a ver I Love You, Phillip Morris e a apreciar as lindas formações nebulosas, personagens tão importantes como Steve e Phillip. Porém, como as nuvens são coisas que passam e não fazem senão estar a passar, não as viu como actores - e, por isso, não pôde comparar o seu desempenho ao grandioso trabalho de Ewan McGregor (certamente inspirado no de Rodrigo Santoro em Carandiru).
sábado, 8 de maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Casca de árvore
O Reboliço lembra-se de andar sempre no carro do pai, no R12 matrícula HZ-93-09, pelo porta-luvas sem porta, entre os dois bancos da frente (onde não havia descanso para o braço), por ali, um cucharro - como se fosse mesmo uma colher grande de sopa mas de cabo curto e concha funda - de cortiça bem talhada. Onde houvesse uma fonte, a mínima queda de água, um poço, nora que fosse, não era a mão que levava a água à boca, mas a cortiça. Vinha fresquinha, fresca, sabia a água só: mas os lábios tocavam a grossura do bordo liso muito leve.
(Lembra-se da cortiça a propósito da cortiça e dá os parabéns à Sandra.)
(Lembra-se da cortiça a propósito da cortiça e dá os parabéns à Sandra.)
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Moinhos na poesia (27)
Eu abandono Roma
Os camponeses abandonam a terra
As andorinhas abandonam a minha aldeia
Os fiéis abandonam as igrejas
Os moleiros abandonam os moinhos
Os montanheses abandonam os montes
A graça de Deus abandona os homens
Alguém abandona tudo
(Tonino Guerra, abertura de O Livro das Igrejas Abandonadas,
tradução de José Colaço Barreiros, Assírio e Alvim, Lisboa, 1997.)
tradução de José Colaço Barreiros, Assírio e Alvim, Lisboa, 1997.)
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Charlot
Quando o Reboliço lhe pede para fazer o Charlot, o pequeno Matias encolhe os ombros, faz uma boquinha e os olhos fecham-se-lhe no sorriso. Quando crescer mais do que estes dois anos, saberá de quem é o rosto que imita.
domingo, 2 de maio de 2010
O Reboliço espreita enquanto a mãe vai cortando um, dois, três pés de jarros e mais umas quantas folhas largas. ("Tem avondo!", diria a avó.) A mãe deixa o arranjo em cima da cadeira baixa, na cozinha, e o Reboliço avança, toc-toc-toc, o focinho a sujar-se de amarelo e a espirrar o pólen dentro da corola. Faz-lhe gosto e espécie o branco tão liso, quase irreal ao toque. Pensa que a flor vem da mesma terra onde nascem as romãs, a casca do limão, as rugas fundas das folhas da figueira, o caroço rijo da azeitona, o tronco torcido da parreira. Lembra-se que a mãe lhe pediu versos com flores, mas não acredita que algum verso alguma vez possa falar de flor nenhuma.
(Foto dos três jarros ao sol, antes de serem cortados para dispor na floreira: Reboliço.)
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Lobito
(Foto do que o Reboliço pensa ser o Lobito numa fase inicial da sua fulgurante, fúlgida, fogosa, flamívola vida: desconhecido.)
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