(Nada original: palavra que ouviu falar do estranho objeto a uma locutora de rádio que descrevia o ambiente no início de uma festa de Verão.)
sábado, 31 de julho de 2010
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Investigação em artes
Sir Arthur Conan Doyle gosta de falar sobre como lhe aconteceu criar o detective Holmes mais o seu "stupid friend" e sobre a variedade de receptores de espíritos; enfim, de coisas que conhece, não apenas daquilo em que acredita.
terça-feira, 27 de julho de 2010
segunda-feira, 26 de julho de 2010
"Can they tell you what's wrong from what's right?"*
O Reboliço ouve bocados de uma conversa. Diz um livro para o outro: "Vim só tirar o meu filho da prisão."**
domingo, 25 de julho de 2010
O carro parou atrás de dois ou três na fila do vermelho. O vidro da janela estava descido, fazia calor e era incómodo o sol a dar-lhe nas pernas. Desligou o motor, como gostava de fazer quando parava mal o sinal fechava, para gozar melhor os barulhos de fora, que nos dias quentes tinham contornos mais densos e definidos. De uma esquina à sua esquerda apareceu um homem andrajoso. No pino do Verão vestia roupas grossas - pesadas e cinzentas. Era alto, seco sem ser magro, e parecia ter cinquenta anos muito gastos, nas rugas e no ar de desolação por baixo do gorro de lã. Quase lhe sentia o cheiro, trazido da calçada para o alcatrão pela calma do dia. Ia para sentir alguma comiseração, ia para ter o pensamento habitual perante aquela imagem, de sobre como se desequilibram as benesses no mundo, sobre como sofrem os que não têm casa e vagueiam pelas ruas. Ia quase para sair do carro e estender à mão do homem a esmola que nunca dava, quando reparou na voz dele. Subia, forte, determinada, a cantar: I really wanna see you, really wanna be with you, really wanna see you, lord, but it takes so long, my lord. Subia, alegre e afinadíssima na perfeita dicção, como se nunca tivesse existido um George Harrison no mundo e aquela fosse a primeira, a única, a absoluta vez em que as palavras eram cantadas.
sábado, 24 de julho de 2010
Duas linhas
Alan Shore e Denny Crane têm feitios incompatíveis. Apesar disso, não podem viver um sem o outro. Vistos num diagrama, Crane, como indica o nome, é feito de picos de emoção: reage a quente, pede em casamento mulheres que acaba de conhecer, atira primeiro e raramente pensa sobre o porquê de ter atirado. Shore, como o nome indica, é terra firme e lisa. Constante, refletido, margem segura. Uma linha horizontal que cruza os incontidos saltos de Crane.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Fel (post dedicado)
Não sou eu que sou baladeiro
Vocês é que têm mel nos ouvidos.
Às vezes eu chego a dizer "Raca!"
E vocês ouvem beijinhos queridos.
Não sou contra paternalismos
Mas deixem de pisar os meus pregos,
Dizendo que são de algodão.
Vocês são tão surdos como cegos.
Não sou eu que sou baladeiro
E elogiam-me o padrão dos vestidos.
Vocês é que têm mel nos ouvidos.
Às vezes eu chego a dizer "Raca!"
E vocês ouvem beijinhos queridos.
Não sou contra paternalismos
Mas deixem de pisar os meus pregos,
Dizendo que são de algodão.
Vocês são tão surdos como cegos.
Não sou eu que sou baladeiro
Vocês é que têm mel nos ouvidos.
Às vezes eu chego ensanguentadoE elogiam-me o padrão dos vestidos.
Não sou contra paternalismos
Mas deixem de me amparar os murros,
Dizendo que são high-fives.
Vocês são tão surdos como burros.
Vocês são tão surdos como burros.
Vocês são tão surdos... como burros.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Ir ouvindo
O lado B, ou a face B, ou B Fachada, em novidade. Para ir descarregando devagarinho, enquanto o Verão se decide e não se decide.
(Obrigada, S-S-V!)
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Grão
(Fotos dos grãos acabados de apanhar, ainda antes do nascer do sol para estarem brandos e não se descoserem; dos grãos escondidos e escapados das bainhas; dos grãos na alcofa de empreita, prontos a serem medidos: Reboliço, com a fatiga do labor. A do pai a debulhar os grãos ao vento rijo do alto do moinho foi feita pelo Mano.)
terça-feira, 20 de julho de 2010
Outra opinião
Denny Crane e Alan Shore não são companheiros de armas, porque são diferentes (quantas vezes opostas, como no episódio 20 da 4ª temporada) as batalhas jurídicas em que lutam; só muito raramente são comuns, e nessas poucas vezes um bate-se só em favor do outro e não necessariamente por uma causa comum aos dois. (Talvez o único “caso”, não jurídico, em que ambos estavam do mesmo lado da barricada fosse a defesa do duelo que pretenderam travar pela igualdade no direito a dormir com Shirley Schmidt. E, mesmo aí, lutaram juntos para poderem combater um contra o outro. Noutros casos, em que Shore defende o amigo, por exemplo, perante o Supremo Tribunal, o combate é quase sempre pela amizade que os une; e é sempre Shore que abdica das suas convicções para defender Crane.) Une-os aos dois admiração profissional comum, sim; dormiram juntos também – mas cada um é o favorito do outro, mais do que o seu companheiro de armas. Denny é um republicano convicto e Shore um tolerante liberal a quem geralmente guia a racionalidade dos argumentos; o leme de Crane é o seu imenso fascínio egocêntrico e a preservação da sua imagem de guerreiro invencível (que a série apresenta em fase de declínio pontuado por momentâneos e fulgorosos ressurgimentos). A amizade dos dois, o seu grande e belo feito, é apesar dos feitios de cada um, e não por causa deles. É essa a razão por que ultrapassa tudo, mesmo as mais profundas divergências de fé política (e mesmo religiosa), os gostos mais elementares e as conquistas amorosas. Só poderia culminar em casamento.
domingo, 18 de julho de 2010
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Loong Boonmee raleuk chat
Uma das coisas de que mais gosto em O Tio Boonmee recorda-se das suas Vidas Passadas é a transparência da água, igual à dos corpos das várias personagens que fizeram parte da vida do tio Boonmee, homem com a vida pelo fio de um fígado ruim e igual à do espanto com que aquelas que ainda convivem com ele se apercebem de que estão entre as memórias do parente. Isso e uma cena de sexo quase explícito entre uma princesa antiga e um peixe-gato, animal siluriforme que, como o nome tem que indicar, se consegue esgueirar na água pelos recantos mais íntimos e fazer gerar seres da família do Abominável Homem das Neves, mas em escuro e com dois olhos muito brilhantes.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
"36. Leia o Salmo 38"
leia o salmo 38
durante três dias seguidos
três vezes ao dia
faça dois pedidos difíceis
e um impossível
anuncie no terceiro dia
observe o que acontecerá no quarto dia
durante três dias seguidos
três vezes ao dia
faça dois pedidos difíceis
e um impossível
anuncie no terceiro dia
observe o que acontecerá no quarto dia
(Capítulo 36. de eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, Boitempo Editorial, São Paulo, 2001, p. 73.)
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Zorba
A D. Antónia tem um cão. Chama-se Zorba. Fala do bicho como se estivesse perto dela, que mora num lar de idosos e deixou o animal com a filha e o genro. "Chama-se Zorba porque nasceu no dia em que morreu aquele personagem que fazia de Zorba. Safou-se de morrer porque quando o adoptei, tinha ele um mês, só bebia leite se lho desse da minha boca. Não me pode ver longe. Do que ele mais gosta é daquelas bolachas, as Maria. Se lhe aceno com uma, empina-se nas patas e bandeia-se todo." Fala do bicho como se estivesse ali a descansar o focinho sobre a perna esquerda, junto ao joelho dela. Dá pancadinhas com a mão pequena sobre o cimo da coxa: "É onde ele gosta de se encostar."
O Mano é pela Holanda.
- Mas a que vem isso? Então e a união Ibérica? E o jogo lindo dos espanhóis?
- Foi por causa dos espanhóis que saímos.
- Bem, ganhar-ganhar, Portugal só ganhou aos coreanos... E foi porque os tipos estavam peados.
- ...
- Sabes o que é estar peado?
- Sei, claro.
- Ora diz lá.
- É que eles diziam muitas piadas e depois distraíram-se.
- Mas a que vem isso? Então e a união Ibérica? E o jogo lindo dos espanhóis?
- Foi por causa dos espanhóis que saímos.
- Bem, ganhar-ganhar, Portugal só ganhou aos coreanos... E foi porque os tipos estavam peados.
- ...
- Sabes o que é estar peado?
- Sei, claro.
- Ora diz lá.
- É que eles diziam muitas piadas e depois distraíram-se.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Starkey!
Nunca lhe disseram que haveria de carregar tal peso durante 70 anos. Ergueu-o, suportou-o muitas vezes com a força de um herói verdadeiro - e aí continua, decidido a ter paz e amor.
terça-feira, 6 de julho de 2010
sábado, 3 de julho de 2010
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Choque cultural
No episódio 4 da terceira temporada de Boston Legal, Denny Crane e Alan Shore querem lutar um com o outro pelo direito a dormir com Shirley Schmidt. Chocada, Shirley acha a ideia dos amigos inacreditável. Alan Shore responde, defendendo o argumento da emotividade e dos poderes carnais numa sociedade que favorece o declínio dos instintos e das emoções. Pede a Shirley que imagine como pode ser excitante ver dois homens "in their sexual... ok, twilight", prestes a debaterem-se pelo direito a aninharem-se no colo dela. A legenda em português mostrou "dois homens na 'Quinta Dimensão'". Dois homens na Quinta Dimensão. Na Quinta Dimensão. Onde quer que seja, é certamente um lugar mais... ok, interessante, do que qualquer crepúsculo sexual.
(A tradução de filmes e séries televisivas deve ser dos trabalhos mais ingratos. Neste caso, a legendagem acrescentou à graça já complexa dos diálogos o fazer-me pensar na pessoa para quem twilight, mesmo sem zone, é A Quinta Dimensão. A mesma pessoa que, uns minutos adiante no episódio, traduziu como Madame Forperson, assim mesmo, sem "e" e como se fosse nome de família, a invocação do juiz Clark Brown à porta-voz dos jurados para que desse a conhecer a sua [deles] decisão. Cheia de humor. Como diria o juiz Brown, Shocking!)
quarta-feira, 30 de junho de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
O Reboliço é um nefelibata (33)
"É proibido fotografar o avião."
(Foto das nuvens sobre o Mediterrâneo: Reboliço, em desobediência.)
(Foto das nuvens sobre o Mediterrâneo: Reboliço, em desobediência.)
domingo, 27 de junho de 2010
Dentro da cidade (6)
(Foto da banqueta forrada, uma entre muitas às portas das também inúmeras lojas de Sultanahmet: Reboliço. Os dias dos vendedores são passados ali sentados, ou no interior das lojas, conforme estiver o tempo e a clientela, ou conforme houver um copo de chá de maçã para acabar de beber entre a história que se conta da família, da idade que têm os tapetes, do amor que têm aos gatos ou das promessas de felicidade. A ideia de mercado não nasceu noutro lugar senão aqui.)
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Fotos,
Onde andei
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Dentro da cidade (5)
(Foto de homens em meditação no interior da Mesquita Azul, ou Sultan Ahmet Camii: Reboliço, in awe.)
Quando cai a noite em Sultanahmet, depois da última chamada para a oração (que se ouve de duas ou três mesquitas em volta), instala-se o silêncio. É uma hora sossegada, só nalguns agoras interrompida por um miado faminto ou de cio. Tão sossegada - sem carros, motas, música, nem vozes em conversa - que o sono fica até que a manhã regressa e o pensamento pode existir.
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Fotos,
Onde andei
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Dentro da cidade (4)
(Foto da margem Norte do Corno de Ouro, com a Torre Galata e a ponte Yeni Galata, desde a praça de Eminönu: Reboliço, ainda aos espirros com as especiarias.)
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Fotos,
Onde andei
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Dentro da cidade (3)
Foi um dia de inuteis fotografias.
Dia de sol, inundado de sol!...
Fulgiam nuas as mercadorias...
Dia de sol, inundado de sol!...
Foi um dia de falsas alegrias.
Dahlia a esfolhar-se, — o seu molle sorriso...
Voltavam os ranchos das Hagias Sophias.
Dahlia a esfolhar-se, — o seu molle sorriso...
Dia impressivel mais que os outros dias.
Tão lúcido... Tão pallido... Tão lúcido!...
Diffuso de theoremas, de theorias...
O dia futil mais que os outros dias!
Minuete de discretas ironias...
Tão lúcido... Tão pallido... Tão lúcido!...
(Camilo Pessanha transfigurado)
terça-feira, 22 de junho de 2010
Dentro da cidade (2)
Santa Bárbara bendita,
Que no céu está escrita!
Com papel e água benta
Nos livre desta tormenta!
(- Com papel, Reboliço?
- Com papel, Luca. Com papel.)
Dentro da cidade (1)
Quando o homem do restaurante escreve no papel a palavra köpek, rebenta novo trovão; a lua a vir para cheia desaparece na claridade do relâmpago e passa na rua um cão branco, pequeno, assustado.
(Foto das duas mãos: Reboliço, a caminho de Bizâncio. Ou de Constantinopla. Para dentro da cidade da passagem do boi.)
segunda-feira, 21 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
Moinho da Forca
(Fotograma de O Pão, de Manoel de Oliveira, a 6'21, publicado em António Preto, “A Construção da Imagem”, in António Preto [ed.], Manoel de Oliveira: O Cinema Inventado à Letra, Fundação de Serralves / Jornal Público, 2008, p. 27. Este filme teve uma primeira versão em 1959 - as imagens do Moinho da Forca, perto da praça de touros da cidade de Beja, podem ter sido feitas nesse ano ou no ano antes. A silhueta ao lado do moinho é da bisavó Adelaide. Não era o moinho da família. Dizia o avô Chico que o seu pai depois de velho é que quis trabalhar - e foi fazê-lo para aquele moinho, emprestado pelo irmão de um moleiro que ou se enforcara ou de outra maneira pusera fim aos seus dias de vento. Giram as velas cá fora. Antes, dentro do moinho o filme mostrara o bisavô Luís a bandejar o trigo e a fazer subir uma saca para o piso intermédio. Muito bem vigiado por uma gata branca e preta encostada à curva da parede. O pai diz que o moinho estava a moer do lado da maré e que devia ser por esta altura, fins de Junho. Ao canto, à direita, vê-se o segundo moinho do conjunto, que o pai sempre se lembra de ver em ruína.)
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Moinhos na Poesia (31)
D. QUIXOTE
Não vejo Dulcineias, D. Quixote,
Nem gigantes, nem ilhas, nada existe
Do teu sonho de louco.
Só moinhos, mulheres e Baratárias,
Coisas reais que Sancho bem conhece
E para ti são pouco.
Não vejo Dulcineias, D. Quixote,
Nem gigantes, nem ilhas, nada existe
Do teu sonho de louco.
Só moinhos, mulheres e Baratárias,
Coisas reais que Sancho bem conhece
E para ti são pouco.
(José Saramago, Os Poemas Possíveis, Lisboa, Editorial Caminho, p. 100.)
quinta-feira, 17 de junho de 2010
"Casa Algarve"
O Reboliço provou uma iguaria inigualável: lingueirões à Bulhão Ganso - ou seriam à Bulhão ganso?
Tendenza
O Reboliço diz baixinho, quase sem som: "Tendenza." Diz outra vez: "Tendenza." Baixinho e devagar: "Tennndeennnnnzzzza." É o som que faz a desembarcar o novo opúsculo da Dafne.
O Reboliço colecciona calendários (17)
Mesmo que sejam em japonês e não perceba deles nadica de nada.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Moinhos na Poesia (30)
MALDICIÓN
Porque ella y yo
no fuimos al molino
a mirar, quando niños
¿qué molian? ¿molian acaso
una discusión interminable?
Porque ella y yo
no encontramos, huéspedes
que se miran en el fondo
sucio de la copa, el
Camino del Molino donde
podrían estar moliendo cierta clase de
felicidad junto al arroyo rumoroso
donde vivían las nutrias de grandes dientes.
Porque ella y yo
no fuimos al molino
a mirar, quando niños
¿qué molian? ¿molian acaso
una discusión interminable?
Porque ella y yo
no encontramos, huéspedes
que se miran en el fondo
sucio de la copa, el
Camino del Molino donde
podrían estar moliendo cierta clase de
felicidad junto al arroyo rumoroso
donde vivían las nutrias de grandes dientes.
(Aldo Mazzucchelli, Las ideas fijas, Montevideo, Ed. de La Pluma, 1993, p. 39.)
domingo, 13 de junho de 2010
A ver a banda passar
É ao entardecer, hora tardia no Junho que vai a meio: o Reboliço sente um rufar ainda distante, vai erguendo as orelhas à medida que o ritmo se aproxima e acaba por se assomar à varanda, as duas patas de diante agarradas à parede alta e as traseiras esticadas a dar-lhe perspectiva. Enquanto passa na avenida a banda da Guarda Nacional, os alarmes dos carros estacionados entram no compasso. O sol já se pôs, alguns miúdos na rua imitam o som dos tambores e dos sopros, os pombos esvoaçam - que fosse para sempre!... -, a ria já é só um brilho atrás do verde das copas das árvores. A tarde desaparece, cai ela, para subir a noite.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
O Reboliço colecciona calendários (16)
E ficaram-lhe no goto a função e a forma deste.
(Atenção: as horas indicadas são horas locais em Espanha, uma hora mais que em Portugal continental e Madeira, duas horas mais que nos Açores.)
terça-feira, 8 de junho de 2010
domingo, 6 de junho de 2010
"There are a great many beautiful sounds on this earth..."
"A voz da minha mulher a cantar
Corvos quando estão com fome
Sinetas dos eléctricos
Relatos de bola nos transístores
Alguém a dançar sapateado
Crianças à saída da escola"
Corvos quando estão com fome
Sinetas dos eléctricos
Relatos de bola nos transístores
Alguém a dançar sapateado
Crianças à saída da escola"
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Dia dos que olham para o chão
(Foto das primeiras páginas do livro O Sapato do Coração, Pedro Alvim, Plátano Editora, s.d.: Reboliço, a olhar para a pata esquerda.)
terça-feira, 1 de junho de 2010
segunda-feira, 31 de maio de 2010
domingo, 30 de maio de 2010
sábado, 29 de maio de 2010
Dia de moer
O Reboliço senta-se à amparada do vento, as orelhas empurradas para trás em abano permanente, focinho franzido e olhos a piscar do incómodo do ar a mexer – mas não os fecha, quer perder nada da música das cantarinhas de barro e das velas a fazerem a roda. O vento hoje está aos embirrões: foge, acelera, desanda, depois começa a travar, a travar, faz as varas ficarem quase quietas, as velas desenfunam e a mó entristece e pára. O Reboliço avança para a porta do moinho e entretém-se a ver as formigas à volta dos grãos de trigo, atarantadas com a riqueza que ali lhes foi parar e em concílio sobre como hão-de carregá-la para o ninho. Antes de subir com mais uma alcofada de grãos, o pai sacode-as e deixa as formigas às aranhas sem perceberem qual foi o passe de mágica que lhes roubou o alimento. O pai sobe as escadas, volta a descer e vem a rir: “Há aqui uma com o que contar à família. Foi pelos grãos, passou a mó e saiu dali viva.”
>
Moinho
Queijo fresco
De manhã cedo, a mãe segue a pé pela estrada de terra, bate à porta do monte vizinho, faz conversa de circunstância e traz uns “queijinhitos” para o pequeno-almoço. Traz dos frescos e dos meio curados, já mais rijos e amarelecidos. Os frescos, brancos e com duas ou três mínimas pedras de sal a brilhar sobre a capa leitosa, são deliciosos. Sabem ainda ao leite das cabras que pastam entre as tengarrinhas, as tocas das lebres, as pedras, a terra que começa a secar.
terça-feira, 25 de maio de 2010
O amor de um homem
(Foto nocturna da Echinopsis oxygona, comummente dita - pelas mulheres - "amor de um homem", porque, depois de aberta a flor, pouco resiste além das 24 horas: Reboliço. É de grande amor este cacto, de grande amor ao Inverno longo que lhe deixou viço para dezanove flores.)
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Fotos
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Fruta da época
(Foto: Reboliço, de costas arranhadas pelos picos do topo do limoeiro onde foi crescer a pernada de nespereira do quintal da tia Mariana. Estas nêsperas pequeninas não são para descascar - têm de ser peladas, com paciência, se se quiser aproveitar a pouca carne que lhes separa a pele do caroço, três ou quatro pedras castanho-escuras, a pouca ainda que os pássaros, o sol e a ventania deixaram de dulcíssima, de incomparável esmola.)
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