sábado, 28 de agosto de 2010
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
- Farrusca?
- Sim, imagina.
- Bem, é verdade que tu apareces sempre como se tivesses saído de uma fornalha, com o pêlo negro-chamuscado e essas barbichas pretas e brancas. Mas quem são eles, afinal, Luca?
- São os vizinhos aqui da casa ao lado. Estão cá só de vez em quando. São muito simpáticos: deixam-me brincar na piscina deles, dão-me biscoitos, fazem-me festas. É uma maravilha - estão de férias e eu sinto-me como se também tivesse viajado para longe, e mesmo aqui ao lado de casa. Ontem o dono grande andava à minha procura, para me darem uma vacina, e perguntou-lhes se me tinham visto - foi quando eles começaram a chamar por mim e o dono ficou espantado por me ver responder a "Farrusca".
- Não é muito diferente de "Luca".
- No final da conversa (o que eu me ri, Reboliço!), pediram ao dono grande que não me prendesse, que eles queriam despedir-se de mim.
- Oh... Como se alguma vez tivesses estado presa. Só se for para não comeres do prato do Sorna, que é o que uma abusada como tu gosta de fazer!
- Sim, imagina.
- Bem, é verdade que tu apareces sempre como se tivesses saído de uma fornalha, com o pêlo negro-chamuscado e essas barbichas pretas e brancas. Mas quem são eles, afinal, Luca?
- São os vizinhos aqui da casa ao lado. Estão cá só de vez em quando. São muito simpáticos: deixam-me brincar na piscina deles, dão-me biscoitos, fazem-me festas. É uma maravilha - estão de férias e eu sinto-me como se também tivesse viajado para longe, e mesmo aqui ao lado de casa. Ontem o dono grande andava à minha procura, para me darem uma vacina, e perguntou-lhes se me tinham visto - foi quando eles começaram a chamar por mim e o dono ficou espantado por me ver responder a "Farrusca".
- Não é muito diferente de "Luca".
- No final da conversa (o que eu me ri, Reboliço!), pediram ao dono grande que não me prendesse, que eles queriam despedir-se de mim.
- Oh... Como se alguma vez tivesses estado presa. Só se for para não comeres do prato do Sorna, que é o que uma abusada como tu gosta de fazer!
Moinhos na Poesia (32)
CORREIO AZUL
Caro amigo, fazes bem em desertar
desta guerra de postiços ideais,
onde o trigo é disputado por moinhos
desleais. De que vale o esconjuro
de um esgar, face ao íntimo perigo
que este curso de poeira representa?
É melhor guardar distância desses fumos,
sob o risco de perder um património
de perguntas inquietas, de deslumbres,
no contágio com a lepra dos canalhas.
Prometeram-nos os livros cedo lidos
um jardim de solitários reunidos
sob a força de palavras acendidas;
um lugar além do mundo, onde as farpas,
as escarpas, os gorazes, os algozes,
não teriam padroeiro nem mercado
pra vender o vasilhame de batidos
elixires, cujo gás lhes alivia
não sabemos que negócios intestinos.
Custa muito, no final, abrir os olhos
face ao foco da verdade: este charco
dos letrados não difere do paul
onde Dédalos estudam, mandatários
do betão, dos piratas mais felizes.
Uma furna de lacraus, onde tudo
se resume à traficância
de postais de boa-morte, à gerência
dos gemidos, a galantes vernissages
e bebidos mecenatos, ao pecado
de servir a mais senhores.
É ver quem mais se move a reunir
sua tropa de palavras mercenárias,
à conquista de colinas de dejectos
em Paris e Nova Iorque levantadas,
em Atenas, em Uruk, Jericó,
em qualquer sub-instituto de lusófonos
pagodes. Tudo serve, quando serve
sua glória de esculpir em pó de giz.
Não há tule para tanta fantasia.
Dramatontos, remancistas, poetantos
que não custa quase nada perceber
porque varam as revistas, os secretos
corredores do ministério, ou se jogam
por atalhos de cartão e cortesia
para o céu das editoras e colóquios
outdoors, para grémios e prebendas,
embaixadas, galardões de prime-time,
golden card e viajados, reputados,
deputados e, por fim, sepultados
em unives, de Aberdeen a Zanzibar,
pelos cúmplices de sempre.
Fazes bem em exilar-te, pois o cheiro
que se ouve, neste cais de filistinos,
só convida a desistir. Estás a salvo,
pelo menos, da peçonha dos olhares,
dos abraços inimigos, do aplauso
rebuçado, desta vida que nos mente.
Vê se guardas um lugar para este
teu amigo, que te abraça, a caminho.
(José Miguel Silva, Dezembro de 2000)
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
El Cielo Gira
Uma das coisas de que mais gosto em El Cielo Gira é a sequência da instalação do gerador eólico nos campos perto de Aldealseñor, um lugarejo envelhecido e arruinado, a meio caminho entre Zaragoça e Burgos. A câmara está de frente para o gigantesco tubo branco, sobre o qual encaixará mais uma extensão do suporte das pás - alguém aproveitou as gruas de montagem do gerador e o efeito é o de um plano de ciencia ficción, limpinho contra o céu e a sombra das nuvens nos montes à volta. Isso e o tronco-rosto do ulmeiro da praça da igreja, abatido pela doença, de raízes resgatadas à terra pelos já poucos habitantes que nos anos oitenta do século XX ali havia.
(Obrigada, Olivia!)
terça-feira, 24 de agosto de 2010
AS VOZES DO SILÊNCIO: TRÁS-OS-MONTES NO CINEMA E NO MUSEU
Ciclo de Cinema | 1 a 4 de Setembro 2010
Museu do Abade de Baçal - Bragança
Entrada gratuita
Entrada gratuita
1 Setembro (Quarta-feira)
18h00 – Sabores (1998-99) | Regina Guimarães e Saguenail
22h00 – Máscaras (1976) | Noémia Delgado
2 Setembro (Quinta-feira)
18h00 – Matar Saudades (1988)| Fernando Lopes
22h00 – Acto da Primavera (1963)| Manoel de Oliveira
3 Setembro
18h00 – Margens (1994) | Pedro Sena Nunes
22h00 – Veredas (1977) | João César Monteiro
4 Setembro
18h00 – Terra Fria (1992) | António Campos
22h00 – Ana (1982) | António Reis e Margarida Cordeiro
Programação: António Preto (antonio.m.preto@gmail.com | 965775312)
Produção: António Preto | Museu do Abade de Baçal
Convidados: Manoel de Oliveira, Noémia Delgado, Regina Guimarães e Saguenail, Margarida Cordeiro (a confirmar), Pedro Sena Nunes (a confirmar)
Directora do Museu do Abade de Baçal: Dra. Ana Maria Afonso
(mabadebacal@imc-ip.pt | 273331595 Fax | 273323242)
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Ao telefone
- Alô?
- Alô, Reboliço.
- MANA!!! Minha mana, mana linda, mana linda!
- Eh lá... Sou algum cão?!
- Alô, Reboliço.
- MANA!!! Minha mana, mana linda, mana linda!
- Eh lá... Sou algum cão?!
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Mana
domingo, 22 de agosto de 2010
Inception
Uma das coisas de que mais gostei em Inception foi ter-me levado à memória do belíssimo "Dream", de Forest for the Trees. E de Alex y Cristina. Assim mesmo, dançáveis e sem cenas fatigantes.
sábado, 21 de agosto de 2010
Montes Velhos (3)
Quem mandou fazer este moinho foi um tal Zé Maria Padeiro, de Beja, que quis comprar ali o moinho do meio. O dono do moinho não o quis vender, e então ele disse que havia de construir um moinho ao contrário dos outros (ao contrário, porque as mós em vez de estarem no piso de cima estão no piso intermédio). O trisavô Francisco Gertrudes veio à inspecção e viu este moinho a ser construído e depois mais tarde comprou-o (já não sei se foi ao Zé Maria Padeiro); antes de comprar este, tinha comprado ali o Moinho da Forca, ao pé da cidade – depois de vender esse é que comprou este. Já era moleiro. Comprava trigo para os moinhos, por conta da família Galvão, de Beringel, que tinha uns poucos moinhos: de vento e de água, no Guadiana. Uma moagem em Beringel era destes Galvões. Segundo dizia o avô Chico, o Francisco Gertrudes fornecia a farinha para a família Galvão. Morou em Beja, nas Portas de Moura; tinham lá um depósito de farinha (por isso é que chamavam à Francisca Ramos a tia Chica da Farinha). Quando veio de Beringel para Beja já vinha comprometido com a Francisca Ramos, avó do Manuel Ferro (o trisavó da Glória). Possivelmente, depois de ter feito a inspecção, ficou por aqui, porque começou a comprar o trigo para os Galvões de Beringel.
O pai da avó Custódia era de Ferreira do Alentejo. A mãe dela morreu quando a avó tinha 5 ou 6 anos, no ano da pneumónica (1914 ou 1915), e morreu na mesma altura uma tia dela (foram as duas no mesmo caixão). O pai da avó Custódia, Manuel Dias, casou depois com a Josefa da Encarnação, que acabou de lhe criar os seis filhos (quatro homens: Joaquim, António, José e Marcolino; e duas mulheres, Francisca – nascida depois do Joaquim – e Maria Custódia, a mais nova). Só muito tarde (já o tio Luís tinha uns 17 anos) é que os netos souberam que a avó Zefa não era avó de verdade deles.
(Relato do tio Luís Soares em 2010, sentado à mesa em frente da porta da cozinha, que já foi janela e antes disso era parede nua da cavalariça. A mesa foi feita pelo avô Chico, que encheu de cimento o calço da roda de um carro de bestas e assentou o disco sobre uma estrutura de madeira. Tem uma data gravada no tampo: 10 de Maio de 1964.)
Demasia
O Reboliço lembra-se que aprendeu a fazer contas na mercearia da tia Mariana, a aviar os fregueses e sem se enganar a dar a demasia. Custa-lhe perceber que "troco" possa ser visto como melhor palavra para "devolução do que está a mais". Pensou nisto a propósito do textículo de Miguel Esteves Cardoso no Público de hoje.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Montes Velhos (2)
O tio Luís não sabe bem como é que a avó Adelaide veio a conhecer e a casar com o avô Luís. Ela casou nova, com 16 ou 17 anos; ele era uns sete ou oito anos mais velho. O pai do avô Luís era de Almodôvar. Deve ter ido viver para Aljustrel e casado aí – mais tarde veio para Beja e comprou além o Moinho da Forca, depois comprou este aqui. Foi quando o trisavô Francisco Gertrudes (avô do meu avô Chico) foi à inspecção, de Beringel para Beja, que viu este moinho aqui a ser construído. O bisavô Chico Gertrudes (avô do meu pai) era de Aljustrel. Morreu no ano em que o meu tio Luís fez três anos (em 1933) e parece que era descendente de castelhanos, de Castela – a tia Adelaide é que sabe disto.
(Relato do tio Luís Soares em 2010, sentado à mesa em frente da porta da cozinha, que já foi janela e antes disso era parede nua da cavalariça. A mesa foi feita pelo avô Chico, que encheu de cimento o calço da roda de um carro de bestas e assentou o disco sobre uma estrutura de madeira. Tem uma data gravada no tampo: 10 de Maio de 1964.)
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Pinguins no Brasil
O Príncipe, de Maquiavel (em tradução nova e com um prefácio de Fernando Henrique Cardoso), é o primeiro da série de livros da Penguin editados no Brasil. Belo passo.
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o que li
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Do céu dos cães
- Olha quem ali vem, Rafa. Anda aqui há dias, assim cabisbaixa.
- Oh!, tão pequenina... É a Pa-Ma - parece perdida, Lobito.
- Chamaram-me?
- Sim, Perdida. Tu que és pequenina, como ela, vê se falas com a Pa-Ma. Está ali com um ar desconsolado, mete dó.
...
- Ora então, como vês, não é assim tão mau este lugar, Pa-Ma.
- Já vejo, Perdida, mas não quero estar aqui... Tenho saudades da minha Cris!...
- É verdade, bichinha: custa a gente habituar-se a não ter os donos perto. Mas sabes, Pa-Ma?, só não os vemos, que eles de vez em quando aparecem aqui a espreitar quando se lembram de nós nas memórias boas. E nós podemos de vez em quando saltar de uma nuvem e aterrar num sonho deles. Anda comigo, que eu ensino-te como se faz.
- Oh!, tão pequenina... É a Pa-Ma - parece perdida, Lobito.
- Chamaram-me?
- Sim, Perdida. Tu que és pequenina, como ela, vê se falas com a Pa-Ma. Está ali com um ar desconsolado, mete dó.
...
- Ora então, como vês, não é assim tão mau este lugar, Pa-Ma.
- Já vejo, Perdida, mas não quero estar aqui... Tenho saudades da minha Cris!...
- É verdade, bichinha: custa a gente habituar-se a não ter os donos perto. Mas sabes, Pa-Ma?, só não os vemos, que eles de vez em quando aparecem aqui a espreitar quando se lembram de nós nas memórias boas. E nós podemos de vez em quando saltar de uma nuvem e aterrar num sonho deles. Anda comigo, que eu ensino-te como se faz.
Figuinhos com leite e mel
(Foto dos frutos acabados de apanhar da figueira grande, ainda babados de leite e orvalhados; preparados para serem engolidos, mordido o pingo de mel que lhes sobrou do doce, trincada cada uma das sementes rosadas: Reboliço, todo lambuzado.)
domingo, 15 de agosto de 2010
Montes Velhos (1)
O pai da avó Adelaide era Joaquim Fernandes, um ferreiro em Montes Velhos, que era o filho enjeitado de um padre e teve uns oito ou nove filhos. A avó Adelaide era a mais nova e chamou-se Adelaide porque a filha mais velha tinha morrido e tinha-se chamado Adelaide (tinha nascido vinte anos antes de nascer a avó Adelaide). Esse ferreiro mandou o filho Manuel aprender a moleiro. Dos filhos homens, o Manuel era o mais novo (o meu mano Fernando, que já lá está, é que lhe chamava o “tio Manelzinho”). Depois, Joaquim Fernandes mandou fazer um moinho para o filho Manuel ir para lá trabalhar. (Outros irmãos da avó Adelaide: um parece que era Luís e estava para Casével. Eram uns quantos e parece que quase todos tinham aprendido a ferreiro a trabalhar com o pai.) Então, esse tal moinho foi feito em Montes Velhos. Um dia destes conheci um Carlos Fernandes (com pouco mais de 30 anos, casado com uma professora), sobrinho-bisneto da avó Adelaide, neto do Joaquim Canhoto, que era barbeiro, que era um dos sobrinhos da avó Adelaide. Este moço é filho do Francisco Fernandes, que era barbeiro como o seu pai. A prima Fátima também é filha do Joaquim Canhoto: ela é de Montes Velhos, casada com um polícia chamado António Ferro. Um irmão do Joaquim Canhoto (tio da Fátima e tio-avô do Carlos Fernandes), que era campino, andava com os touros bravos de um homem chamado Lampreia.
(Relato do tio Luís Soares em 2010, sentado à mesa em frente da porta da cozinha, que já foi janela e antes disso era parede nua da cavalariça. A mesa foi feita pelo avô Chico, que encheu de cimento o calço da roda de um carro de bestas e assentou o disco sobre uma estrutura de madeira. Tem uma data gravada no tampo: 10 de Maio de 1964.)
sábado, 14 de agosto de 2010
De huuuuuuum a huum-huum a huu-huu
Vai-se chorando, cada vez a rir mais.
(Ninguém me tira que este início da Natércia Barreto inspirou o começo, e o ritmo, da erva daninha do Variações; mas a cotação é o que quiserem dar.)
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Do céu dos cães
- Rafa, vens cheio de fuligem, cão!
- É que me cremaram, não sabes, Lobito?
- Ah, sim? A mim enterrou-me o dono num lugar longe da casa, mas o Reboliço achou onde eu estava e esteve ali uns dias antes de eu vir para este céu, a acompanhar-me para eu não estar muito tempo sozinho.
- Olha, eu conheci o Reboliço. Ainda passeei umas vezes com ele na praia. E que tal se está aqui?
- Não é mau, não senhor. Não sentimos fome nem sede, por isso não temos que nos preocupar com comer ou beber. Também não temos de obedecer a dono nenhum, e isso é mau e bom. Não temos trelas nem muros nem correntes, podemos saltar as nuvens que quisermos, o tempo que quisermos.
- Sou capaz de me habituar...
- Não tens grande remédio, Rafa.
- Tenho é pena do dono, o meu Fraga. Ele já tinha levado lá para casa uma flausina (chamo-lhe assim, mas era divertida, a bicha), não fica desacompanhado. Mas o que eu gostava, quando ele chegava a casa e me fazia festas! E nunca, por nunca desligou a televisão, sempre preocupado com que eu não me sentisse só enquanto ele ia trabalhar. Um amor de criatura. Há gente assim, coitaditos...
- É que me cremaram, não sabes, Lobito?
- Ah, sim? A mim enterrou-me o dono num lugar longe da casa, mas o Reboliço achou onde eu estava e esteve ali uns dias antes de eu vir para este céu, a acompanhar-me para eu não estar muito tempo sozinho.
- Olha, eu conheci o Reboliço. Ainda passeei umas vezes com ele na praia. E que tal se está aqui?
- Não é mau, não senhor. Não sentimos fome nem sede, por isso não temos que nos preocupar com comer ou beber. Também não temos de obedecer a dono nenhum, e isso é mau e bom. Não temos trelas nem muros nem correntes, podemos saltar as nuvens que quisermos, o tempo que quisermos.
- Sou capaz de me habituar...
- Não tens grande remédio, Rafa.
- Tenho é pena do dono, o meu Fraga. Ele já tinha levado lá para casa uma flausina (chamo-lhe assim, mas era divertida, a bicha), não fica desacompanhado. Mas o que eu gostava, quando ele chegava a casa e me fazia festas! E nunca, por nunca desligou a televisão, sempre preocupado com que eu não me sentisse só enquanto ele ia trabalhar. Um amor de criatura. Há gente assim, coitaditos...
Nacional Geográfico
Para conseguirem sobreviver às baixíssimas temperaturas, alguns animais hibernam durante a maior parte da estação fria. Por vezes, adormecem em posições que nos podem parecer incómodas; contudo, como têm os músculos em repouso absoluto, quando acordarem estarão prontos para agir. Os seus organismos alimentam-se do que armazenaram ao longo do resto do ano e, porque não precisam de se mover, poupam energias para a estação de caça que se seguirá.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
A vida é uma aposta
(Foto de livro de BD e caneta sobre tampo de estirador marcado por cigarros: Mano. O Reboliço tem lido, pelas mãos do Mano, uma série jeitosa de fumetti com aventuras da Julia Kendall, obra com argumento e escrita de Giancarlo Berardi e desenhos de Luca Vannini, que se inspirou na figurinha elegante de Audrey Hepburn para criar a sua criminóloga. Leu-os sempre em italiano: não fazia ideia [nem se deu ao trabalho de fazer] se existiriam em português. Mas pensou sempre que é uma obra fantástica; enquanto lia e via os quadradinhos, ia-se convencendo de que mais gente deveria gostar de entrar naquele mundo, de sentir os perigos em que Julia se acha, de quase lhe gritar por cima do ombro a avisá-la de que alguém está prestes a atacar, de festejar com ela a derrota dos maus. Descobre recentemente - pelos Queridos Gatos - que estão, sim, vertidos para português, editados no Brasil pela Mythos, e que essas edições correm agora risco de parar no nº 68 porque vendem mal. O Reboliço não é bicho de grandes causas, mas não hesita em embarcar nesta: quer dar a conhecer Julia Kendall.)
terça-feira, 10 de agosto de 2010
domingo, 8 de agosto de 2010
Rei
(Foto da borboleta entre as folhas da laranjeira da horta: Reboliço, depois de umas belas sopas de galinha com pão cozido na véspera no forno do Moinho. O pai diz que sempre chamaram Rei a este bicho, odiado à conta de a sua lagarta destruir tudo o que é couve e verdura nascida. O nome latino, iphiclides feisthamelii, perde a pompa quando comparado com o daquele que o registou, Joachim-François-Philibert-Julien Feisthamel, coronel de Napoleão.)
sábado, 7 de agosto de 2010
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
O Reboliço é um nefelibata (36)
O Reboliço é apreciador de nuvens - nuvens de hoje e nuvens de ontem, quando raramente eram fotografadas a cores e com tamanha nitidez; nuvens com máquinas e nuvens com cavalo, homem e cão.
(Outros diaporamas fantásticos, da América dos anos 40 do século passado, na página do Denver Post.)
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Fotos,
Nefelibata
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
"I got a bird that whistles / I got a bird that sings"
O Reboliço segue os versos de Bob Dylan pelo Twitter. Pelo menos desde Março, publicados à velocidade de um por hora, já contou 7844 tweets, que é como quem diz quase oito mil linhas de menos de 140 caracteres cada, tudo versos criados por Dylan: umas vezes são as frases mais triviais, a condizer com o que aparece nas listas do twitador comum ("Writing up some deeds"), outras são pérolas de ritmo e som, como "The waitress he was handsome". Embora a ordem das cantigas escolhidas seja aleatória, a dos versos segue a de cada poema, do início para o fim (ou seja, o verso mais recentemente publicado é posterior, na cantiga, ao que lhe apareceu antes, e assim aumenta a sua autonomização). Há frases que sozinhas não fazem sentido, há outras que se reconhecem de imediato, por mais non-sensical. Como aparecem intercaladas com as de outros autores e temas, por vezes são como comentários ao tweet anterior. BobDylanSays que é até esgotar o manancial.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
sábado, 31 de julho de 2010
Quando for grande, o Reboliço quer...
... um "cubo de Kubrick".
(Nada original: palavra que ouviu falar do estranho objeto a uma locutora de rádio que descrevia o ambiente no início de uma festa de Verão.)
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Silly
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Investigação em artes
Sir Arthur Conan Doyle gosta de falar sobre como lhe aconteceu criar o detective Holmes mais o seu "stupid friend" e sobre a variedade de receptores de espíritos; enfim, de coisas que conhece, não apenas daquilo em que acredita.
terça-feira, 27 de julho de 2010
segunda-feira, 26 de julho de 2010
"Can they tell you what's wrong from what's right?"*
O Reboliço ouve bocados de uma conversa. Diz um livro para o outro: "Vim só tirar o meu filho da prisão."**
domingo, 25 de julho de 2010
O carro parou atrás de dois ou três na fila do vermelho. O vidro da janela estava descido, fazia calor e era incómodo o sol a dar-lhe nas pernas. Desligou o motor, como gostava de fazer quando parava mal o sinal fechava, para gozar melhor os barulhos de fora, que nos dias quentes tinham contornos mais densos e definidos. De uma esquina à sua esquerda apareceu um homem andrajoso. No pino do Verão vestia roupas grossas - pesadas e cinzentas. Era alto, seco sem ser magro, e parecia ter cinquenta anos muito gastos, nas rugas e no ar de desolação por baixo do gorro de lã. Quase lhe sentia o cheiro, trazido da calçada para o alcatrão pela calma do dia. Ia para sentir alguma comiseração, ia para ter o pensamento habitual perante aquela imagem, de sobre como se desequilibram as benesses no mundo, sobre como sofrem os que não têm casa e vagueiam pelas ruas. Ia quase para sair do carro e estender à mão do homem a esmola que nunca dava, quando reparou na voz dele. Subia, forte, determinada, a cantar: I really wanna see you, really wanna be with you, really wanna see you, lord, but it takes so long, my lord. Subia, alegre e afinadíssima na perfeita dicção, como se nunca tivesse existido um George Harrison no mundo e aquela fosse a primeira, a única, a absoluta vez em que as palavras eram cantadas.
sábado, 24 de julho de 2010
Duas linhas
Alan Shore e Denny Crane têm feitios incompatíveis. Apesar disso, não podem viver um sem o outro. Vistos num diagrama, Crane, como indica o nome, é feito de picos de emoção: reage a quente, pede em casamento mulheres que acaba de conhecer, atira primeiro e raramente pensa sobre o porquê de ter atirado. Shore, como o nome indica, é terra firme e lisa. Constante, refletido, margem segura. Uma linha horizontal que cruza os incontidos saltos de Crane.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Fel (post dedicado)
Não sou eu que sou baladeiro
Vocês é que têm mel nos ouvidos.
Às vezes eu chego a dizer "Raca!"
E vocês ouvem beijinhos queridos.
Não sou contra paternalismos
Mas deixem de pisar os meus pregos,
Dizendo que são de algodão.
Vocês são tão surdos como cegos.
Não sou eu que sou baladeiro
E elogiam-me o padrão dos vestidos.
Vocês é que têm mel nos ouvidos.
Às vezes eu chego a dizer "Raca!"
E vocês ouvem beijinhos queridos.
Não sou contra paternalismos
Mas deixem de pisar os meus pregos,
Dizendo que são de algodão.
Vocês são tão surdos como cegos.
Não sou eu que sou baladeiro
Vocês é que têm mel nos ouvidos.
Às vezes eu chego ensanguentadoE elogiam-me o padrão dos vestidos.
Não sou contra paternalismos
Mas deixem de me amparar os murros,
Dizendo que são high-fives.
Vocês são tão surdos como burros.
Vocês são tão surdos como burros.
Vocês são tão surdos... como burros.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Ir ouvindo
O lado B, ou a face B, ou B Fachada, em novidade. Para ir descarregando devagarinho, enquanto o Verão se decide e não se decide.
(Obrigada, S-S-V!)
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Grão
(Fotos dos grãos acabados de apanhar, ainda antes do nascer do sol para estarem brandos e não se descoserem; dos grãos escondidos e escapados das bainhas; dos grãos na alcofa de empreita, prontos a serem medidos: Reboliço, com a fatiga do labor. A do pai a debulhar os grãos ao vento rijo do alto do moinho foi feita pelo Mano.)
terça-feira, 20 de julho de 2010
Outra opinião
Denny Crane e Alan Shore não são companheiros de armas, porque são diferentes (quantas vezes opostas, como no episódio 20 da 4ª temporada) as batalhas jurídicas em que lutam; só muito raramente são comuns, e nessas poucas vezes um bate-se só em favor do outro e não necessariamente por uma causa comum aos dois. (Talvez o único “caso”, não jurídico, em que ambos estavam do mesmo lado da barricada fosse a defesa do duelo que pretenderam travar pela igualdade no direito a dormir com Shirley Schmidt. E, mesmo aí, lutaram juntos para poderem combater um contra o outro. Noutros casos, em que Shore defende o amigo, por exemplo, perante o Supremo Tribunal, o combate é quase sempre pela amizade que os une; e é sempre Shore que abdica das suas convicções para defender Crane.) Une-os aos dois admiração profissional comum, sim; dormiram juntos também – mas cada um é o favorito do outro, mais do que o seu companheiro de armas. Denny é um republicano convicto e Shore um tolerante liberal a quem geralmente guia a racionalidade dos argumentos; o leme de Crane é o seu imenso fascínio egocêntrico e a preservação da sua imagem de guerreiro invencível (que a série apresenta em fase de declínio pontuado por momentâneos e fulgorosos ressurgimentos). A amizade dos dois, o seu grande e belo feito, é apesar dos feitios de cada um, e não por causa deles. É essa a razão por que ultrapassa tudo, mesmo as mais profundas divergências de fé política (e mesmo religiosa), os gostos mais elementares e as conquistas amorosas. Só poderia culminar em casamento.
domingo, 18 de julho de 2010
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Loong Boonmee raleuk chat
Uma das coisas de que mais gosto em O Tio Boonmee recorda-se das suas Vidas Passadas é a transparência da água, igual à dos corpos das várias personagens que fizeram parte da vida do tio Boonmee, homem com a vida pelo fio de um fígado ruim e igual à do espanto com que aquelas que ainda convivem com ele se apercebem de que estão entre as memórias do parente. Isso e uma cena de sexo quase explícito entre uma princesa antiga e um peixe-gato, animal siluriforme que, como o nome tem que indicar, se consegue esgueirar na água pelos recantos mais íntimos e fazer gerar seres da família do Abominável Homem das Neves, mas em escuro e com dois olhos muito brilhantes.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
"36. Leia o Salmo 38"
leia o salmo 38
durante três dias seguidos
três vezes ao dia
faça dois pedidos difíceis
e um impossível
anuncie no terceiro dia
observe o que acontecerá no quarto dia
durante três dias seguidos
três vezes ao dia
faça dois pedidos difíceis
e um impossível
anuncie no terceiro dia
observe o que acontecerá no quarto dia
(Capítulo 36. de eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, Boitempo Editorial, São Paulo, 2001, p. 73.)
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Zorba
A D. Antónia tem um cão. Chama-se Zorba. Fala do bicho como se estivesse perto dela, que mora num lar de idosos e deixou o animal com a filha e o genro. "Chama-se Zorba porque nasceu no dia em que morreu aquele personagem que fazia de Zorba. Safou-se de morrer porque quando o adoptei, tinha ele um mês, só bebia leite se lho desse da minha boca. Não me pode ver longe. Do que ele mais gosta é daquelas bolachas, as Maria. Se lhe aceno com uma, empina-se nas patas e bandeia-se todo." Fala do bicho como se estivesse ali a descansar o focinho sobre a perna esquerda, junto ao joelho dela. Dá pancadinhas com a mão pequena sobre o cimo da coxa: "É onde ele gosta de se encostar."
O Mano é pela Holanda.
- Mas a que vem isso? Então e a união Ibérica? E o jogo lindo dos espanhóis?
- Foi por causa dos espanhóis que saímos.
- Bem, ganhar-ganhar, Portugal só ganhou aos coreanos... E foi porque os tipos estavam peados.
- ...
- Sabes o que é estar peado?
- Sei, claro.
- Ora diz lá.
- É que eles diziam muitas piadas e depois distraíram-se.
- Mas a que vem isso? Então e a união Ibérica? E o jogo lindo dos espanhóis?
- Foi por causa dos espanhóis que saímos.
- Bem, ganhar-ganhar, Portugal só ganhou aos coreanos... E foi porque os tipos estavam peados.
- ...
- Sabes o que é estar peado?
- Sei, claro.
- Ora diz lá.
- É que eles diziam muitas piadas e depois distraíram-se.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Starkey!
Nunca lhe disseram que haveria de carregar tal peso durante 70 anos. Ergueu-o, suportou-o muitas vezes com a força de um herói verdadeiro - e aí continua, decidido a ter paz e amor.
terça-feira, 6 de julho de 2010
sábado, 3 de julho de 2010
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Choque cultural
No episódio 4 da terceira temporada de Boston Legal, Denny Crane e Alan Shore querem lutar um com o outro pelo direito a dormir com Shirley Schmidt. Chocada, Shirley acha a ideia dos amigos inacreditável. Alan Shore responde, defendendo o argumento da emotividade e dos poderes carnais numa sociedade que favorece o declínio dos instintos e das emoções. Pede a Shirley que imagine como pode ser excitante ver dois homens "in their sexual... ok, twilight", prestes a debaterem-se pelo direito a aninharem-se no colo dela. A legenda em português mostrou "dois homens na 'Quinta Dimensão'". Dois homens na Quinta Dimensão. Na Quinta Dimensão. Onde quer que seja, é certamente um lugar mais... ok, interessante, do que qualquer crepúsculo sexual.
(A tradução de filmes e séries televisivas deve ser dos trabalhos mais ingratos. Neste caso, a legendagem acrescentou à graça já complexa dos diálogos o fazer-me pensar na pessoa para quem twilight, mesmo sem zone, é A Quinta Dimensão. A mesma pessoa que, uns minutos adiante no episódio, traduziu como Madame Forperson, assim mesmo, sem "e" e como se fosse nome de família, a invocação do juiz Clark Brown à porta-voz dos jurados para que desse a conhecer a sua [deles] decisão. Cheia de humor. Como diria o juiz Brown, Shocking!)
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