sábado, 2 de outubro de 2010

Fruta-cores


(Fotos do caju - fruta dupla, mole de escorrer suco pelos braços abaixo e rija de torrar e mordiscar já seca a sua castanha - e do sapoti a amadurecer ao sol, antes de se fazer doce como a chila ou a jaca: Reboliço, melado, picado dos muriçocas e a correr à procura da sombra.)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Novas ruínas

O CIAC lançou com a Gradiva uma re-edição do texto de Nelson Brissac Peixoto, Cenários em Ruínas. A mana tratou-lhe da capa.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Uh-oh...

(Deixem-se estar, morram e ressuscitem.)

Cearensês e alentejanês

- Mas é mesmo assim, Reboliço?
- Tal e qual te digo, Luca: falam e andam como se o mundo não acabasse nunca, com a calma toda. E dizem coisas como na aldeia, imagina. 
- Deixa-me ler: "Sem jeito é malamanhado", "Sujar muito é encardir", "Descorado é amarelo", "Porco novo é bacurim"*. Bacorinho, quem diria...
- Claro que têm cá as suas expressões, os seus poetas próprios, como o Patativa do Assaré. E quando vai para os nomes de mosquedo e os apelidos da fruta, chega para lá! Ainda ontem fui mordido por um murici e comi sorvete de muriçoca - ai, ou seria o contrário?...
(Dos versos de cordel ajuntados por Josenir Lacerda em O Linguajar Cearense.)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

"Ô o auê aí, ô!"

O Reboliço dormita, no quente da "cidade litorânea". Estranha o calor húmido, a força do sol, depois de uma São Paulo trovejante e fresca. Mas encontra amigos e ganha coisas boas.

Bolo Fortaleza
5 ovos
3 xícaras de açúcar
3 xícaras de farinha com fermento
1 de Maizena
1 colher de chá de fermento
250g de manteiga (sem sal)
200ml de leite de coco (a receita original é com a nata do leite, aquele soro grosso amarelado que fica da fervura do leite)
1 xícara de leite normal (mais ou menos a mesma quantidade do leite de coco)

Bate a manteiga com o açúcar e as gemas. Quando ficar bem cremosinho e esbranquiçado, juntam-se alternadamente os ingredientes secos (as farinhas e o fermento) e os líquidos (os leites); por último, as claras batidas em castelo firme, sem quebrar (só de baixo para cima). Unta-se uma forma e vai ao forno médio durante uns 30 a 40 minutos, conforme o forno.
(Rosa Nogueira)

sábado, 25 de setembro de 2010

O Reboliço coleciona calendários (18)

E gostaria muito, mas mesmo muito, de ter estes animais na sua coleção.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Alvejar

(Foto do embrulho com sabão de coco, pronto a ser arremessado à sujidade inimiga e a fazer dela coisa alvo, coisa alva: Reboliço, de mangas arregaçadas à beira do tanque de água.)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

"O Colocador de Pronomes"

O Reboliço conhecia Monteiro Lobato só pelos desenhos, pelas personagens e pelo Sítio. Agora toma o gosto aos contos de Negrinha e delicia-se. Este de onde copiou o excerto é sobre Aldrovando Cantagallo, o homem que "veiu ao mundo em virtude dum erro de gramatica" e "vitima de um novo erro de gramatica" se finou.

"[...]
- Hei-de influir na minha época. Aos tarelos hei de vencer. Fogem-me à férula os maráus de pau e corda? Ir-lhes-ei empós, fila-los-eis pela gorja… Salta rumor!
E foi-lhes “empós”, Andou pelas ruas examinando dísticos e tabuletas com vícios de língua. Descoberta a “asnidade”, ia ter com o proprietário, contra ele desfechando os melhores argumentos catequistas.
Foi assim com o ferreiro da esquina, em cujo portão de tenda uma tabuleta – “Ferra-se cavalos” – escoicinhava a santa gramática.
- Amigo, disse-lhe pachorrentamente Aldrovando, natural a mim me parece que erre, alarve que és. Se erram paredros, nesta época de ouro da corrupção…
O ferreiro pôs de lado o malho e entreabriu a boca.
- Mas da boa sombra do teu focinho espero, continuou o apóstolo, que ouvidos me darás. Naquela tábua um dislate existe que seriamente à língua lusa ofende. Venho pedir-te, em nome do asseio gramatical, que o expunjas.
- ? ? ?
- Que reformes a tabuleta, digo.
- Reformar a tabuleta? Uma tabuleta nova, com a licença paga? Estará acaso rachada?
- Fisicamente, não. A racha é na sintaxe. Fogem ali os dizeres à sã gramaticalidade.
O honesto ferreiro não entendia nada de nada.
- Macacos me lambam se estou entendendo o que v. s. diz…
- Digo que está a forma verbal com eiva grave. O “ferra-se” tem que cair no plural, pois que a forma é passiva e o sujeito é “cavalos”.
O ferreiro abriu o resto da boca.
- O sujeito sendo “cavalos”, continuou o mestre, a forma verbal é “ferram-se” – “ferram-se cavalos!”
- Ahn! Respondeu o ferreiro, começo agora a compreender. Diz v. s. que …
- … que “ferra-se cavalos” é um solecismo horrendo e o certo é “ferram-se cavalos”.
- V. S. me perdoe, mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu, e eu não sou plural. Aquele “se” da tabuleta refere-se cá a este seu criado. É como quem diz: Serafim ferra cavalos – Ferra Serafim cavalos. Para economizar tinta e tábua abreviaram o meu nome, e ficou como está: Ferra Se (rafim) cavalos. Isto me explicou o pintor, e entendi-o muito bem.
Aldrovando ergueu os olhos para o céu e suspirou.
- Ferras cavalos e bem merecias que te fizessem eles o mesmo!… Mas não discutamos. Ofereço-te dez mil réis pela admissão dum “m” ali…
- Se V. S. paga…
Bem empregado dinheiro! A tabuleta surgiu no dia seguinte dessolecismada, perfeitamente de acordo com as boas regras da gramática. Era a primeira vitória obtida e todas as tardes Aldrovando passava por lá para gozar-se dela
Por mal seu, porém, não durou muito o regalo. Coincidindo a entronização do “m” com maus negócios na oficina, o supersticioso ferreiro atribuiu a macaca à alteração dos dizeres e lá raspou o “m” do professor.
A cara que Aldrovando fez quando no passeio desse dia deu com a vitória borrada! Entrou furioso pela oficina a dentro, e mascava uma apóstrofe de fulminar quando o ferreiro, às brutas, lhe barrou o passo.
- Chega de caraminholas, ó barata tonta! Quem manda aqui, no serviço e na língua, sou eu. E é ir andando antes que eu o ferre com bom par de ferros ingleses!
[...]"
(Monteiro Lobato, "O colocador de pronomes" (1924), Negrinha, editora Brasiliense, São Paulo, 1957, pp. 117-134.) 

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

"Harvestest moon"

Na cidade pequena a lua cheia estava redonda, via-se bem no céu e iluminava as rodas de nuvens. Na cidade grande, o dia acordou enevoado. Se a névoa não subir antes da noite, não haverá lua, planeta, nem céu aos olhos de gente. Já aos ouvidos...

sábado, 18 de setembro de 2010

Um "embrulho com um bocado de beja"

 (Fotos - "entretanto fiz duas fotografias do tipo 'ana no seu blog' e então envio-tas, vê lá que espectáculo! na do pôr-de-sol aparece outra vez o avô, com os seus óculos escuros à James Dean, com uma das lentes partida, apoiado no seu cajado, olhando o sol a ir-se embora, ou a ponta do cajado, que quase podia ser o pau carcomido da outra fotografia", esculpido pelo bicho da madeira, com a ajuda de algum canivete, faquinha petisqueira, ou o que o avô apanhasse no fundo dos bolsos das calças de cotão: Mano, a auxiliar na matança das saudades.)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

domingo, 12 de setembro de 2010

Oh...

Foi-se um homem de muitas mulheres.

sábado, 11 de setembro de 2010

Cometa

O Reboliço instala-se no Halley, o confortável omnibus da Viação Cometa, ferra no sono das longas horas de viagem e sonha. Sonha com Björk a anunciar um astro ruidoso que cruza a Terra e com a missão espinhuda dos Moomin para a defender.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Vento sobre a Baía

(Fotos: Reboliço, a olhar para o que se move e para os que estão imóveis, no pátio do Museu de Arte Contemporânea de Niterói)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Mar de flores

(Foto: Ángel González. Obrigada, Ángel. O Reboliço gosta de receber flores, gosta de coisas coloridas, gosta dos pátios de Córdoba.)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

N-íssimoCB

Para não confundir as coisas, o cinema mais recente feito no Brasil e mostrado no fluminense Cine Glória chama-se Novíssimo Cinema Brasileiro.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Óculos de sol

O Reboliço já não se lembrava, mas o Mano lembrou-se: o avô tinha uns óculos de sol extraordinários. Diz o Mano que o faziam parecer o James Dean. Com certeza, o James Dean. Com 90 anos e tudo. Calças de cotão rijo, chapelinho branco de moleiro, suspensórios e uma barriga de meter respeito. E o bigodinho pequeno e grisalho. Tal e qual o James Dean, não haja dúvida.
(O Mano lembrou-se disto a propósito de se andar a caiar o monte e o moinho, e do medo que tem de aquilo ficar tão branco que precise de andar de Ray-Bans dentro de casa.)

domingo, 5 de setembro de 2010

Estrelo

(Foto do canário Estrelo: Reboliço. O canário Estrelo chilreia o dia todo ao som da água que corre das torneiras, da chuva que cai, do vento que venta, da janela a abrir, da janela a fechar no mundo da cidade de São Carlos - éssepê. Quando o sol se põe, enrola-se feito numa bola amarela de penas, sustenta-se numa pata só e finge que nem olhos tem.)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Do Mano


sabes que mais, até é uma boa coisa que não tenhas internet como estás habituada... o Corbusier fez os mais magníficos desenhos de viagens porque a sua máquina fotográfica se avariou! (o que deve ser, muito provavelmente, boga - se calhar até mesmo lançada por ele - ou então o gajo era simplesmente fonica e nem queria gastar cobres em rolos nem em revelação - nem no arranjo da máquina, se se tinha mesmo avariado...) 
portanto, assim podes fazer desenhos e escrever textos em papiros ou folhas de tabaco (é o que eles usam aí para escrever, não é?)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MAM

(Foto do vão do MAM ao cair da noite, que cai cedinho no Inverno: Reboliço.)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Produção de Presença

(Foto da montra da livraria Carga Nobre, campus da PUC-Rio: Reboliço, presente.)

sábado, 28 de agosto de 2010

Terra da fruta

Rua das Palmeiras. Rua das Laranjeiras. Terra da fruta das jacas, jackfruit.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

- Farrusca?
- Sim, imagina.
- Bem, é verdade que tu apareces sempre como se tivesses saído de uma fornalha, com o pêlo negro-chamuscado e essas barbichas pretas e brancas. Mas quem são eles, afinal, Luca?
- São os vizinhos aqui da casa ao lado. Estão cá só de vez em quando. São muito simpáticos: deixam-me brincar na piscina deles, dão-me biscoitos, fazem-me festas. É uma maravilha - estão de férias e eu sinto-me como se também tivesse viajado para longe, e mesmo aqui ao lado de casa. Ontem o dono grande andava à minha procura, para me darem uma vacina, e perguntou-lhes se me tinham visto - foi quando eles começaram a chamar por mim e o dono ficou espantado por me ver responder a "Farrusca".
- Não é muito diferente de "Luca".
- No final da conversa (o que eu me ri, Reboliço!), pediram ao dono grande que não me prendesse, que eles queriam despedir-se de mim.
- Oh... Como se alguma vez tivesses estado presa. Só se for para não comeres do prato do Sorna, que é o que uma abusada como tu gosta de fazer!

Moinhos na Poesia (32)

CORREIO AZUL

Caro amigo, fazes bem em desertar
desta guerra de postiços ideais,
onde o trigo é disputado por moinhos
desleais. De que vale o esconjuro
de um esgar, face ao íntimo perigo
que este curso de poeira representa?
É melhor guardar distância desses fumos,
sob o risco de perder um património
de perguntas inquietas, de deslumbres,
no contágio com a lepra dos canalhas.

Prometeram-nos os livros cedo lidos
um jardim de solitários reunidos
sob a força de palavras acendidas;
um lugar além do mundo, onde as farpas,
as escarpas, os gorazes, os algozes,
não teriam padroeiro nem mercado
pra vender o vasilhame de batidos
elixires, cujo gás lhes alivia
não sabemos que negócios intestinos.

Custa muito, no final, abrir os olhos
face ao foco da verdade: este charco
dos letrados não difere do paul
onde Dédalos estudam, mandatários
do betão, dos piratas mais felizes.
Uma furna de lacraus, onde tudo
se resume à traficância
de postais de boa-morte, à gerência
dos gemidos, a galantes vernissages
e bebidos mecenatos, ao pecado
de servir a mais senhores.

É ver quem mais se move a reunir
sua tropa de palavras mercenárias,
à conquista de colinas de dejectos
em Paris e Nova Iorque levantadas,
em Atenas, em Uruk, Jericó,
em qualquer sub-instituto de lusófonos
pagodes. Tudo serve, quando serve
sua glória de esculpir em pó de giz.

Não há tule para tanta fantasia.
Dramatontos, remancistas, poetantos
que não custa quase nada perceber
porque varam as revistas, os secretos
corredores do ministério, ou se jogam
por atalhos de cartão e cortesia
para o céu das editoras e colóquios
outdoors, para grémios e prebendas,
embaixadas, galardões de prime-time,
golden card e viajados, reputados,
deputados e, por fim, sepultados
em unives, de Aberdeen a Zanzibar,
pelos cúmplices de sempre.

Fazes bem em exilar-te, pois o cheiro
que se ouve, neste cais de filistinos,
só convida a desistir. Estás a salvo,
pelo menos, da peçonha dos olhares,
dos abraços inimigos, do aplauso
rebuçado, desta vida que nos mente.

Vê se guardas um lugar para este
teu amigo, que te abraça, a caminho.
(José Miguel Silva, Dezembro de 2000)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

(Foto da pedra-urso que veio com a maré: Reboliço.)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

El Cielo Gira

Uma das coisas de que mais gosto em El Cielo Gira é a sequência da instalação do gerador eólico nos campos perto de Aldealseñor, um lugarejo envelhecido e arruinado, a meio caminho entre Zaragoça e Burgos. A câmara está de frente para o gigantesco tubo branco, sobre o qual encaixará mais uma extensão do suporte das pás - alguém aproveitou as gruas de montagem do gerador e o efeito é o de um plano de ciencia ficción, limpinho contra o céu e a sombra das nuvens nos montes à volta. Isso e o tronco-rosto do ulmeiro da praça da igreja, abatido pela doença, de raízes resgatadas à terra pelos já poucos habitantes que nos anos oitenta do século XX ali havia.
(Obrigada, Olivia!)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

AS VOZES DO SILÊNCIO: TRÁS-OS-MONTES NO CINEMA E NO MUSEU


Ciclo de Cinema | 1 a 4 de Setembro 2010
Museu do Abade de Baçal - Bragança
Entrada gratuita

1 Setembro (Quarta-feira)
18h00 – Sabores (1998-99) | Regina Guimarães e Saguenail
22h00 – Máscaras (1976) | Noémia Delgado

2 Setembro (Quinta-feira)
18h00 – Matar Saudades (1988)| Fernando Lopes
22h00 – Acto da Primavera (1963)| Manoel de Oliveira

3 Setembro
18h00 – Margens (1994) | Pedro Sena Nunes
22h00 – Veredas (1977) | João César Monteiro

4 Setembro
18h00 – Terra Fria (1992) | António Campos
22h00 – Ana (1982) | António Reis e Margarida Cordeiro

Programação: António Preto (antonio.m.preto@gmail.com | 965775312)
Produção: António Preto | Museu do Abade de Baçal
Convidados: Manoel de Oliveira, Noémia Delgado, Regina Guimarães e Saguenail, Margarida Cordeiro (a confirmar), Pedro Sena Nunes (a confirmar)
Directora do Museu do Abade de Baçal: Dra. Ana Maria Afonso
(mabadebacal@imc-ip.pt | 273331595 Fax | 273323242)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Ao telefone

- Alô?
- Alô, Reboliço.
- MANA!!! Minha mana, mana linda, mana linda!
- Eh lá... Sou algum cão?!

domingo, 22 de agosto de 2010

Um dia na tua vida

(Foto, de telemóvel, da borboleta preparada para apanhar boleia até à praia: Reboliço.)

Inception

Uma das coisas de que mais gostei em Inception foi ter-me levado à memória do belíssimo "Dream", de Forest for the Trees. E de Alex y Cristina. Assim mesmo, dançáveis e sem cenas fatigantes.

sábado, 21 de agosto de 2010

Montes Velhos (3)

Quem mandou fazer este moinho foi um tal Zé Maria Padeiro, de Beja, que quis comprar ali o moinho do meio. O dono do moinho não o quis vender, e então ele disse que havia de construir um moinho ao contrário dos outros (ao contrário, porque as mós em vez de estarem no piso de cima estão no piso intermédio). O trisavô Francisco Gertrudes veio à inspecção e viu este moinho a ser construído e depois mais tarde comprou-o (já não sei se foi ao Zé Maria Padeiro); antes de comprar este, tinha comprado ali o Moinho da Forca, ao pé da cidade – depois de vender esse é que comprou este. Já era moleiro. Comprava trigo para os moinhos, por conta da família Galvão, de Beringel, que tinha uns poucos moinhos: de vento e de água, no Guadiana. Uma moagem em Beringel era destes Galvões. Segundo dizia o avô Chico, o Francisco Gertrudes fornecia a farinha para a família Galvão. Morou em Beja, nas Portas de Moura; tinham lá um depósito de farinha (por isso é que chamavam à Francisca Ramos a tia Chica da Farinha). Quando veio de Beringel para Beja já vinha comprometido com a Francisca Ramos, avó do Manuel Ferro (o trisavó da Glória). Possivelmente, depois de ter feito a inspecção, ficou por aqui, porque começou a comprar o trigo para os Galvões de Beringel.

O pai da avó Custódia era de Ferreira do Alentejo. A mãe dela morreu quando a avó tinha 5 ou 6 anos, no ano da pneumónica (1914 ou 1915), e morreu na mesma altura uma tia dela (foram as duas no mesmo caixão). O pai da avó Custódia, Manuel Dias, casou depois com a Josefa da Encarnação, que acabou de lhe criar os seis filhos (quatro homens: Joaquim, António, José e Marcolino; e duas mulheres, Francisca – nascida depois do Joaquim – e Maria Custódia, a mais nova). Só muito tarde (já o tio Luís tinha uns 17 anos) é que os netos souberam que a avó Zefa não era avó de verdade deles.

(Relato do tio Luís Soares em 2010, sentado à mesa em frente da porta da cozinha, que já foi janela e antes disso era parede nua da cavalariça. A mesa foi feita pelo avô Chico, que encheu de cimento o calço da roda de um carro de bestas e assentou o disco sobre uma estrutura de madeira. Tem uma data gravada no tampo: 10 de Maio de 1964.)

Demasia

O Reboliço lembra-se que aprendeu a fazer contas na mercearia da tia Mariana, a aviar os fregueses e sem se enganar a dar a demasia. Custa-lhe perceber que "troco" possa ser visto como melhor palavra para "devolução do que está a mais". Pensou nisto a propósito do textículo de Miguel Esteves Cardoso no Público de hoje.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Só Mana

(Foto do cabelo da Mana, a ver-se um pedacinho do rosto dela encantada, enquanto olha para a vida que tem à frente: Reboliço, comovido.)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Ah!...

Alive and swimming, nos seus 87 anos.

Oh...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Montes Velhos (2)

O tio Luís não sabe bem como é que a avó Adelaide veio a conhecer e a casar com o avô Luís. Ela casou nova, com 16 ou 17 anos; ele era uns sete ou oito anos mais velho. O pai do avô Luís era de Almodôvar. Deve ter ido viver para Aljustrel e casado aí – mais tarde veio para Beja e comprou além o Moinho da Forca, depois comprou este aqui. Foi quando o trisavô Francisco Gertrudes (avô do meu avô Chico) foi à inspecção, de Beringel para Beja, que viu este moinho aqui a ser construído. O bisavô Chico Gertrudes (avô do meu pai) era de Aljustrel. Morreu no ano em que o meu tio Luís fez três anos (em 1933) e parece que era descendente de castelhanos, de Castela – a tia Adelaide é que sabe disto.

(Relato do tio Luís Soares em 2010, sentado à mesa em frente da porta da cozinha, que já foi janela e antes disso era parede nua da cavalariça. A mesa foi feita pelo avô Chico, que encheu de cimento o calço da roda de um carro de bestas e assentou o disco sobre uma estrutura de madeira. Tem uma data gravada no tampo: 10 de Maio de 1964.)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Pinguins no Brasil

O Príncipe, de Maquiavel (em tradução nova e com um prefácio de Fernando Henrique Cardoso), é o primeiro da série de livros da Penguin editados no Brasil. Belo passo.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Do céu dos cães

- Olha quem ali vem, Rafa. Anda aqui há dias, assim cabisbaixa.
- Oh!, tão pequenina... É a Pa-Ma - parece perdida, Lobito.
- Chamaram-me?
- Sim, Perdida. Tu que és pequenina, como ela, vê se falas com a Pa-Ma. Está ali com um ar desconsolado, mete dó.
...
- Ora então, como vês, não é assim tão mau este lugar, Pa-Ma.
- Já vejo, Perdida, mas não quero estar aqui... Tenho saudades da minha Cris!...
- É verdade, bichinha: custa a gente habituar-se a não ter os donos perto. Mas sabes, Pa-Ma?, só não os vemos, que eles de vez em quando aparecem aqui a espreitar quando se lembram de nós nas memórias boas. E nós podemos de vez em quando saltar de uma nuvem e aterrar num sonho deles. Anda comigo, que eu ensino-te como se faz.

Figuinhos com leite e mel


(Foto dos frutos acabados de apanhar da figueira grande, ainda babados de leite e orvalhados; preparados para serem engolidos, mordido o pingo de mel que lhes sobrou do doce, trincada cada uma das sementes rosadas: Reboliço, todo lambuzado.)

domingo, 15 de agosto de 2010

Montes Velhos (1)

O pai da avó Adelaide era Joaquim Fernandes, um ferreiro em Montes Velhos, que era o filho enjeitado de um padre e teve uns oito ou nove filhos. A avó Adelaide era a mais nova e chamou-se Adelaide porque a filha mais velha tinha morrido e tinha-se chamado Adelaide (tinha nascido vinte anos antes de nascer a avó Adelaide). Esse ferreiro mandou o filho Manuel aprender a moleiro. Dos filhos homens, o Manuel era o mais novo (o meu mano Fernando, que já lá está, é que lhe chamava o “tio Manelzinho”). Depois, Joaquim Fernandes mandou fazer um moinho para o filho Manuel ir para lá trabalhar. (Outros irmãos da avó Adelaide: um parece que era Luís e estava para Casével. Eram uns quantos e parece que quase todos tinham aprendido a ferreiro a trabalhar com o pai.) Então, esse tal moinho foi feito em Montes Velhos. Um dia destes conheci um Carlos Fernandes (com pouco mais de 30 anos, casado com uma professora), sobrinho-bisneto da avó Adelaide, neto do Joaquim Canhoto, que era barbeiro, que era um dos sobrinhos da avó Adelaide. Este moço é filho do Francisco Fernandes, que era barbeiro como o seu pai. A prima Fátima também é filha do Joaquim Canhoto: ela é de Montes Velhos, casada com um polícia chamado António Ferro. Um irmão do Joaquim Canhoto (tio da Fátima e tio-avô do Carlos Fernandes), que era campino, andava com os touros bravos de um homem chamado Lampreia.

(Relato do tio Luís Soares em 2010, sentado à mesa em frente da porta da cozinha, que já foi janela e antes disso era parede nua da cavalariça. A mesa foi feita pelo avô Chico, que encheu de cimento o calço da roda de um carro de bestas e assentou o disco sobre uma estrutura de madeira. Tem uma data gravada no tampo: 10 de Maio de 1964.)

sábado, 14 de agosto de 2010

De huuuuuuum a huum-huum a huu-huu

Vai-se chorando, cada vez a rir mais.
(Ninguém me tira que este início da Natércia Barreto inspirou o começo, e o ritmo, da erva daninha do Variações; mas a cotação é o que quiserem dar.)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Do céu dos cães

- Rafa, vens cheio de fuligem, cão!
- É que me cremaram, não sabes, Lobito?
- Ah, sim? A mim enterrou-me o dono num lugar longe da casa, mas o Reboliço achou onde eu estava e esteve ali uns dias antes de eu vir para este céu, a acompanhar-me para eu não estar muito tempo sozinho.
- Olha, eu conheci o Reboliço. Ainda passeei umas vezes com ele na praia. E que tal se está aqui?
- Não é mau, não senhor. Não sentimos fome nem sede, por isso não temos que nos preocupar com comer ou beber. Também não temos de obedecer a dono nenhum, e isso é mau e bom. Não temos trelas nem muros nem correntes, podemos saltar as nuvens que quisermos, o tempo que quisermos.
- Sou capaz de me habituar...
- Não tens grande remédio, Rafa.
- Tenho é pena do dono, o meu Fraga. Ele já tinha levado lá para casa uma flausina (chamo-lhe assim, mas era divertida, a bicha), não fica desacompanhado. Mas o que eu gostava, quando ele chegava a casa e me fazia festas! E nunca, por nunca desligou a televisão, sempre preocupado com que eu não me sentisse só enquanto ele ia trabalhar. Um amor de criatura. Há gente assim, coitaditos...

Nacional Geográfico

Para conseguirem sobreviver às baixíssimas temperaturas, alguns animais hibernam durante a maior parte da estação fria. Por vezes, adormecem em posições que nos podem parecer incómodas; contudo, como têm os músculos em repouso absoluto, quando acordarem estarão prontos para agir. Os seus organismos alimentam-se do que armazenaram ao longo do resto do ano e, porque não precisam de se mover, poupam energias para a estação de caça que se seguirá.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A vida é uma aposta

(Foto de livro de BD e caneta sobre tampo de estirador marcado por cigarros: Mano. O Reboliço tem lido, pelas mãos do Mano, uma série jeitosa de fumetti com aventuras da Julia Kendall, obra com argumento e escrita de Giancarlo Berardi e desenhos de Luca Vannini, que se inspirou na figurinha elegante de Audrey Hepburn para criar a sua criminóloga. Leu-os sempre em italiano: não fazia ideia [nem se deu ao trabalho de fazer] se existiriam em português. Mas pensou sempre que é uma obra fantástica; enquanto lia e via os quadradinhos, ia-se convencendo de que mais gente deveria gostar de entrar naquele mundo, de sentir os perigos em que Julia se acha, de quase lhe gritar por cima do ombro a avisá-la de que alguém está prestes a atacar, de festejar com ela a derrota dos maus. Descobre recentemente - pelos Queridos Gatos - que estão, sim, vertidos para português, editados no Brasil pela Mythos, e que essas edições correm agora risco de parar no nº 68 porque vendem mal. O Reboliço não é bicho de grandes causas, mas não hesita em embarcar nesta: quer dar a conhecer Julia Kendall.)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Energia

Quando lhe perguntam que energia faz mover as velas do Moinho, o Reboliço responde: "A eólica."

domingo, 8 de agosto de 2010

Rei

(Foto da borboleta entre as folhas da laranjeira da horta: Reboliço, depois de umas belas sopas de galinha com pão cozido na véspera no forno do Moinho. O pai diz que sempre chamaram Rei a este bicho, odiado à conta de a sua lagarta destruir tudo o que é couve e verdura nascida. O nome latino, iphiclides feisthamelii, perde a pompa quando comparado com o daquele que o registou, Joachim-François-Philibert-Julien Feisthamel, coronel de Napoleão.)

sábado, 7 de agosto de 2010

- Reboliço, Reboliço! Olha só como está lindo o dia... Ouvem-se as cigarras, sopra uma aragem morna, apetece a água dos tanques e a modorra... Não gostas desta calma?
- Não me digas nada, Luca, que estou com um humor de cão!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Reboliço é um nefelibata (36)

O Reboliço é apreciador de nuvens - nuvens de hoje e nuvens de ontem, quando raramente eram fotografadas a cores e com tamanha nitidez; nuvens com máquinasnuvens com cavalo, homem e cão.
(Outros diaporamas fantásticos, da América dos anos 40 do século passado, na página do Denver Post.)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

"I got a bird that whistles / I got a bird that sings"

O Reboliço segue os versos de Bob Dylan pelo Twitter. Pelo menos desde Março, publicados à velocidade de um por hora, já contou 7844 tweets, que é como quem diz quase oito mil linhas de menos de 140 caracteres cada, tudo versos criados por Dylan: umas vezes são as frases mais triviais, a condizer com o que aparece nas listas do twitador comum ("Writing up some deeds"), outras são pérolas de ritmo e som, como "The waitress he was handsome". Embora a ordem das cantigas escolhidas seja aleatória, a dos versos segue a de cada poema, do início para o fim (ou seja, o verso mais recentemente publicado é posterior, na cantiga, ao que lhe apareceu antes, e assim aumenta a sua autonomização). Há frases que sozinhas não fazem sentido, há outras que se reconhecem de imediato, por mais non-sensical. Como aparecem intercaladas com as de outros autores e temas, por vezes são como comentários ao tweet anterior. BobDylanSays que é até esgotar o manancial.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Jóias

(Foto das jóias feitas em fio de cobre banhado a prata, pedras semi-preciosas e meias-canas, de seis pedrinhas soltas e de metade de um garfo de comer, pronto a transformar-se em anel ou pendente, tudo criações de Assis Neto: Reboliço, à fresca, adorando as flores de metal.)