terça-feira, 30 de novembro de 2010

Oh...

O Reboliço vai sentado num autocarro siciliano. Espreita por cima do ombro da senhora da frente, que lê o jornal, e vê, ao alto, a fotografia de um homem grande, de óculos redondos e barba branca cortada rente. É o adeus a Mario Monicelli, que se suicidou - um homem velho e doente que se lançou de uma janela. Livre, pensa o Reboliço. Indomesticável pelas paredes de um hospital, pelos muros de uma igreja, por lágrimas num funeral.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O Reboliço é um nefelibata (37)


Nuvens
Borreguinhas brancas,
numa azul colina.
Quando o vento pára,
nenhuma se arrima.
Quando o vento sopra,
vão devagarinho.
Borreguinhas brancas,
vão por que caminho?

(Poema mal-vertido para português pelo Reboliço: Christina Rossetti, lembrada aqui. Foto das borreguinhas brancas na colina azul que cobria a Casa da Música: Reboliço, a tiritar de frio.)

domingo, 21 de novembro de 2010

Pedaços de gente

O Reboliço anda arisco. Chega, toca, foge, raspa-se, bole, pouco descansa, num rebuliço que o deixa tonto. Mas, quando passa no largo da Sé, acalma-se com o silêncio e antecipa a visão que na praça a seguir se estende, de cima a baixo, pela parede do Museu Regional: grande, bonita, a mão do Otelo aponta uma pedra, uma das muitas que ele apanha nas areias das praias, entre os galhos das florestas, na beira das estradas onde mora.

(Foto do cartaz da exposição "Algarve Visionário Excêntrico Utópico": Cunhadão, que também anda por ali, depois de ter andado por outro lado.)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Let's Go, Girl!

Inspiradas pela boa loucura do Xana e de homoestéticos afins, a Mara e a Ursula duplicam-se, espelham-se, revelam-se, põem-se a andar no projecto Let's Go Girl. O Reboliço gosta muito das imagens, das frases, dos filmezinhos delas.
(Foto das neo-homeostéticas a correr sob as nuvens: Mara Barth e Ursula Mestre.)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Pré-marmelada

(Foto dos marmelos à espera do sacrifício: Reboliço, ao olhinho de sol pelas frestas da persiana.)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Três poetas brasileiros

VELHOS

Descendo a rua Mato Grosso
Em Higienópolis
Nesta manhã de segunda
Diviso no sentido contrário
O poeta Roberto Piva
Um dos mais importantes
Vivos
Deste país

Estou à direção de meu carro
E acabava de observar
Pelo contador de quilometragem
O número 85358
Me parece muito
Muitos quilômetros rodados
E me chamou a atenção pela simetria

Meu carro está ficando velho
Eu estou ficando velho
O Roberto Piva
De camiseta estiva branca e bermuda azul
Tem Alzheimer e caminha meio bambo
Pela calçada da rua Mato Grosso
Em Higienópolis

É um grande poeta
Um monumento municipal
Desta cidade que ele viu
Crescer da província ao estrelato
No Japão seria um Tesouro Nacional Vivo

Justamente, estava a caminho
Do Centro Cultural Tomie Ohtake
Em Pinheiros
E aqui estou agora

A Tomie Ohtake é nonagenária

Vim pegar no Setor de Documentação
Fotos nas quais apareço com o Saramago
No vernissage de sua exposição
Em Dezembro passado

O José está bem velho
Perdeu alguns centímetros desde a última vez que o vi
Conheço-o há 25 anos e não tenho
Fotos com ele

Quando o conheci ninguém queria saber muito dele
Mas ele escreve prosa de ficção
Muito boa
E hoje é o Nobel da língua
Portuguesa

O Robero Piva
Escreve poesia
Boa também
Mas ao contrário do número no painel
Do meu carro que está ficando velho
Não há simetria entre
Prosa e poesia

Nesta manhã de verão
Descia
Tropegamente
A rua Mato Grosso
Em Higienópolis

SP 2 II 09
(Horácio Costa, in Quando o meu generoso coração falhar, Arqueria, 2009, s. pp. 
Livrito cor de vinho-rosa trazido dentro de um envelope negro , nº 54 de 60 exemplares. No lugar do costume.)

sábado, 13 de novembro de 2010

"Insónia"

Suporto bem os dias cinzentos. O céu está baixo,
sim, e a distância que me separa
daqueles que amo é como daqui à Oceania,
na origem do arco-íris, no tempo da juventude,
mas tal como roubaram o sobretudo a quem morre de frio,
ou a tábua de salvação ao náufrago que se afoga,
roubaram aos insones a chave da tenebrosa fortaleza,
de cujas altas torres se avista a terra,
mesmo na obscuridade, quando o planeta se afunda sob os gritos
de sofrimento. Há tempos, há muito tempo, uma fresca
mão pousava na minha testa. Uma voz dizia: Dorme!
Havia alguém.
Pentti Holappa, in Poesia no Porto Santo, org. Pen-Club Português, edição-DRAC/Madeira, 2000; sem indicação de tradutor).

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um mar qualquer

(Foto da haste florida frente a um mar com vento: Reboliço, de zingarelho.)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Oh...

Ora adeus.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Em dia (2)

(Foto do postalinho de subscrição da melhor revista do universo do Reboliço: Reboliço, o próprio.)

O medo é como um sonho acordado

Como se a Terra corresse
Inteirinha atrás de mim,
O medo ronda-me os sentidos
Por baixo da minha pele.
Ao esgueirar-se viscoso,
Escorre pegajoso
E sai –
Pelos meus poros,
Pelos meus ais.

E penetra-me nos ossos
Ao derramar-se sedento
Nas entranhas sinuosas,
Entre as vísceras mordendo.
Salta, espalha-se no ar,
Vai e volta, delirante,
Tão delirante...

É como um sonho acordado
Esse vulto besuntado
A revolver-se no lodo,
No deslizar de uma larva,
Emergindo lá ao fundo.
Tenho medo, ó medo,
Leva tudo, é teu
Mas deixa-me ir.

Arrasta-me à côncava funda
Do grande lago da noite,
Cruzando as grades de fogo
Entre o Céu e o Inferno
Até à boca escancarada,
Esfaimada,
Atrás de mim,
Atrás de mim...

É como um sonho acordado
Esses olhos no escuro
Das carpideiras viúvas
Pelo pai assassinado,
Esventrado por seu filho
Que possuiu lascivo
A sua própria mãe
E sua amante.

Meu amor, quando eu morrer,
Ó linda,
Veste a mais garrida saia;
Se eu vou morrer no mar alto,
Ó linda,
Eu quero ver-te na praia.
Mas afasta-me essas vozes,
Linda.

Tens medo dos vivos
E dos mortos decepados
Pelos pés e pelas mãos
E pelo pescoço e pelos peitos
Até ao fio do lombo –
Como te tremem as carnes,
Fernão Mendes.
Fausto Bordalo Dias, "Como um Sonho Acordado", Por Este Rio Acima.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Em dia

No editorial de Julho/Agosto da Film Comment, Gavin Smith anuncia a questão "bloggers vs. old school critics". Nas suas palavras: "O modelo tradicional de crítica de cinema, que existe desde os anos setenta e que ainda orienta esta revista, tem sofrido uma erosão constante, quer de dentro quer de fora dessa crítica. Há forças económicas, culturais e tecnológicas que inexoravelmente, e mesmo à frente dos nossos olhos, dão novas formas à paisagem da crítica. Em vez de tentar lidar com isto, muitos dos críticos da velha guarda impressa - tirando os que já firmaram uma presença online, como Todd McCarthy, Jonathan Rosenbaum e Dave Kehr, sem esquecer Roger Ebert - ainda combatem uma guerra de retórica contra os virtuais." No miolo da Film Comment, quatro páginas no número de Julho/Agosto e outras tantas no de Setembro/Outubro, Paul Brunick reflecte sobre a peleja e chama a essa reflexão "The living and the dead". Com isto, todos ganham vida. É saudável ler sobre coisas que estão em mudança e sobre como essa mudança está a ser entendida. Entender, é isso que é saudável.
(Na edição online da revista, há o bónus de uma lista de blogues sobre cinema, compilada por Brunick.)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Para a Z., que hoje faz anos


Pago-te um café e contas-me a minha vida.

(Foto de "Murmúrios do Mar", de José Tolentino Mendonça in A Que Distância Deixaste o Coração, Lisboa, Assírio e Alvim, 1998: Reboliço, de roda do zingarelho que ganhou.)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

(O Reboliço saúda o regresso de quem sabe dizer: queimo.)



Mantê-la mantê-la a todo custo
eu ainda sei ler, minha mãe
eu ainda sei ler, meu pai
estou mantendo ainda
ainda tenho algumas horas no dia
ainda sonho em fazer canções
e mesmo quando me apaixono insanamente
e desejo fontes de juventude boca a boca
(na praça clóvis minha carteira foi batida)
e mesmo quando endoideço aos vôos flutuantes perseguida por
galgos que me brincam e acalantam minha insônia
forçada de doideira
(chega um pouco pra lá, meu amor, se afasta um pouco)
e mesmo quando as lentes se perdem (e as palavras)
ainda sei ler, meu pai
ainda sei ler, minha mãe
ainda sei dizer: queimo,
e não arder simplesmente
(Ana Cristina César, Antigos e soltos: poemas e prosas da pasta rosa, p. 330-331.)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

(Foto da parede derramada para dentro do copo de luz: Reboliço, com a máquina novazinha! Obrigada, Z., C., A. e E.)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Edições de luxo

O Reboliço está a ficar mal habituado: primeiro, Pessoa. Agora, os moinhos de La Mancha - capa dura, gravada a ouro e tudo.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Nesga de luz

Num corredor de hotel, portas de um lado e de outro, há uma que se destaca pelo rectângulo de luz - o sol saltou a serra, entra pela janela, deita-se no chão e no ar, quer sair corredor fora. Ilumina tudo.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Canção pequenina

Fiz uma -niiiiiina, cançããão pequenina.
Fiz uma -niiiiiina, cançããão pequenina.
Cantei-a a noite iiiiiinteira,
enquanto ventava e chovia.
aaaaaté
que veio a manhã.
Esta canção é a minha -niiiiiina, cançããão pequenina.
Esta canção é a minha -niiiiiina, cançããão pequenina.
Cantei-a a noite iiiiiinteira,
e quando veio a manhã,
tiiiiiive que começar tudo outra vez.
A minha canção é tão, tãooooo pequeniiiiiina.
Podia agachar-me, arrastar-me,
procurar de uma parede à outra,
não acharia nadiiiiinha.
Como podes odiar uma canção tão pequeniiiiiina?
Se estivesse errada, estaria certa - não tenhas medo,
é só uma -niiiiiiina, canção pequenina.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Até aqui

Parece entristecida, mas é uma cantiga do bem, que além disso diz com vozes quentes, como esta e a da manhã que está ali fora. De cantigas, hoje, estou benzidinha.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Oh...

"Passeata feminista"

Uma barata dispersou
a passeata.
(Dito por Zizo a 8/10/2010, no átrio do edifício do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco)

domingo, 17 de outubro de 2010

Verão tardio (ou: Cão vadio)

(Foto do canídeo amigo com o Mano ao longe, na praia livre de tubarões, de água morna e de água de côco: Reboliço. Ancão.)

sábado, 16 de outubro de 2010

Anotação para um futuro próximo

Cozinhar, pelo menos uma vez por mês, um vatapá e umas migas de camarão.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Aperto orçamental

Medidas externas de auxílio.

Dia de Ação de Blogues


(Foto do aviso: Reboliço. "Obrigado (a).")

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Acréscimo lexical (em processo)

Acarajé, macaxeira, meia-boca, ata, frevo, cajá, Pássaro Preto, Pintagol e Canário da Terra
Maritacas, cacatua.
- O que é essa comoção toda na televisão, Reboliço?
- São os mineiros chilenos que saem de debaixo da terra. Já vão uns nove resgatados.
- Ah, estou a ver... Mas o que foi que se passou?
- Conseguiram levar uma sonda até onde eles estavam, experimentaram a cápsula que trará um a um, e agora estão lentamente a trazer os mineiros para a superfície.
- Sim, já vejo. Mas... o que foi que aconteceu com esses mineiros?
- Luca!... Luca, onde é que tens andado estes dois meses, Luca?
- Uái, por aí... A correr atrás das bicicletas, a ver as borboletinhas e os lírios do campo, a tomar banho de piscina. Quase não tenho visto as notícias, parece-me sempre que está tudo bem.
- Isto passou-se há dois meses, Luca! Dois meses!
- Está bem, pronto, e agora queres que faça o quê?!
- Bem, podias sentar-te um bocadinho a meditar no que é o homem, que apesar de se especializar em guerras e máquinas de morte, é engenhoso e consegue ser solidário quando luta para salvar outros. Senta-te aqui sossegada e lê comigo os relatos. Isto é um passo gigante para a Humanidade, Luca.
- Ora precisamente: já olhaste bem para mim? Eu cá sou cão, Reboliço! Além de que tenho muito que fazer. Hoje ainda nem almocei. Fui!

"sem discurssão"

(Foto de Seu Tião, saindo da praia da Boa Viagem, em Recife: Reboliço, de abalada.)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Com toda a palavra.




(Fotos da Praia do Futuro, Fortaleza, CE, e da Av. da Boa Viagem, Recife, PE,: Reboliço, a ler.)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

"Terceira noite: sei que posso escrever. Alguns erros dactilográficos, nada mais. Sintaxe perfeita. Qualquer rapidez, qualquer noite. No entanto, sou avassalada por velha preguiça, velha self-pity, indulgência. Não era mais a mesma, no então queria sêlo [sic]. Velha Ana! E boba."

sábado, 2 de outubro de 2010

Fruta-cores


(Fotos do caju - fruta dupla, mole de escorrer suco pelos braços abaixo e rija de torrar e mordiscar já seca a sua castanha - e do sapoti a amadurecer ao sol, antes de se fazer doce como a chila ou a jaca: Reboliço, melado, picado dos muriçocas e a correr à procura da sombra.)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Novas ruínas

O CIAC lançou com a Gradiva uma re-edição do texto de Nelson Brissac Peixoto, Cenários em Ruínas. A mana tratou-lhe da capa.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Uh-oh...

(Deixem-se estar, morram e ressuscitem.)

Cearensês e alentejanês

- Mas é mesmo assim, Reboliço?
- Tal e qual te digo, Luca: falam e andam como se o mundo não acabasse nunca, com a calma toda. E dizem coisas como na aldeia, imagina. 
- Deixa-me ler: "Sem jeito é malamanhado", "Sujar muito é encardir", "Descorado é amarelo", "Porco novo é bacurim"*. Bacorinho, quem diria...
- Claro que têm cá as suas expressões, os seus poetas próprios, como o Patativa do Assaré. E quando vai para os nomes de mosquedo e os apelidos da fruta, chega para lá! Ainda ontem fui mordido por um murici e comi sorvete de muriçoca - ai, ou seria o contrário?...
(Dos versos de cordel ajuntados por Josenir Lacerda em O Linguajar Cearense.)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

"Ô o auê aí, ô!"

O Reboliço dormita, no quente da "cidade litorânea". Estranha o calor húmido, a força do sol, depois de uma São Paulo trovejante e fresca. Mas encontra amigos e ganha coisas boas.

Bolo Fortaleza
5 ovos
3 xícaras de açúcar
3 xícaras de farinha com fermento
1 de Maizena
1 colher de chá de fermento
250g de manteiga (sem sal)
200ml de leite de coco (a receita original é com a nata do leite, aquele soro grosso amarelado que fica da fervura do leite)
1 xícara de leite normal (mais ou menos a mesma quantidade do leite de coco)

Bate a manteiga com o açúcar e as gemas. Quando ficar bem cremosinho e esbranquiçado, juntam-se alternadamente os ingredientes secos (as farinhas e o fermento) e os líquidos (os leites); por último, as claras batidas em castelo firme, sem quebrar (só de baixo para cima). Unta-se uma forma e vai ao forno médio durante uns 30 a 40 minutos, conforme o forno.
(Rosa Nogueira)

sábado, 25 de setembro de 2010

O Reboliço coleciona calendários (18)

E gostaria muito, mas mesmo muito, de ter estes animais na sua coleção.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Alvejar

(Foto do embrulho com sabão de coco, pronto a ser arremessado à sujidade inimiga e a fazer dela coisa alvo, coisa alva: Reboliço, de mangas arregaçadas à beira do tanque de água.)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

"O Colocador de Pronomes"

O Reboliço conhecia Monteiro Lobato só pelos desenhos, pelas personagens e pelo Sítio. Agora toma o gosto aos contos de Negrinha e delicia-se. Este de onde copiou o excerto é sobre Aldrovando Cantagallo, o homem que "veiu ao mundo em virtude dum erro de gramatica" e "vitima de um novo erro de gramatica" se finou.

"[...]
- Hei-de influir na minha época. Aos tarelos hei de vencer. Fogem-me à férula os maráus de pau e corda? Ir-lhes-ei empós, fila-los-eis pela gorja… Salta rumor!
E foi-lhes “empós”, Andou pelas ruas examinando dísticos e tabuletas com vícios de língua. Descoberta a “asnidade”, ia ter com o proprietário, contra ele desfechando os melhores argumentos catequistas.
Foi assim com o ferreiro da esquina, em cujo portão de tenda uma tabuleta – “Ferra-se cavalos” – escoicinhava a santa gramática.
- Amigo, disse-lhe pachorrentamente Aldrovando, natural a mim me parece que erre, alarve que és. Se erram paredros, nesta época de ouro da corrupção…
O ferreiro pôs de lado o malho e entreabriu a boca.
- Mas da boa sombra do teu focinho espero, continuou o apóstolo, que ouvidos me darás. Naquela tábua um dislate existe que seriamente à língua lusa ofende. Venho pedir-te, em nome do asseio gramatical, que o expunjas.
- ? ? ?
- Que reformes a tabuleta, digo.
- Reformar a tabuleta? Uma tabuleta nova, com a licença paga? Estará acaso rachada?
- Fisicamente, não. A racha é na sintaxe. Fogem ali os dizeres à sã gramaticalidade.
O honesto ferreiro não entendia nada de nada.
- Macacos me lambam se estou entendendo o que v. s. diz…
- Digo que está a forma verbal com eiva grave. O “ferra-se” tem que cair no plural, pois que a forma é passiva e o sujeito é “cavalos”.
O ferreiro abriu o resto da boca.
- O sujeito sendo “cavalos”, continuou o mestre, a forma verbal é “ferram-se” – “ferram-se cavalos!”
- Ahn! Respondeu o ferreiro, começo agora a compreender. Diz v. s. que …
- … que “ferra-se cavalos” é um solecismo horrendo e o certo é “ferram-se cavalos”.
- V. S. me perdoe, mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu, e eu não sou plural. Aquele “se” da tabuleta refere-se cá a este seu criado. É como quem diz: Serafim ferra cavalos – Ferra Serafim cavalos. Para economizar tinta e tábua abreviaram o meu nome, e ficou como está: Ferra Se (rafim) cavalos. Isto me explicou o pintor, e entendi-o muito bem.
Aldrovando ergueu os olhos para o céu e suspirou.
- Ferras cavalos e bem merecias que te fizessem eles o mesmo!… Mas não discutamos. Ofereço-te dez mil réis pela admissão dum “m” ali…
- Se V. S. paga…
Bem empregado dinheiro! A tabuleta surgiu no dia seguinte dessolecismada, perfeitamente de acordo com as boas regras da gramática. Era a primeira vitória obtida e todas as tardes Aldrovando passava por lá para gozar-se dela
Por mal seu, porém, não durou muito o regalo. Coincidindo a entronização do “m” com maus negócios na oficina, o supersticioso ferreiro atribuiu a macaca à alteração dos dizeres e lá raspou o “m” do professor.
A cara que Aldrovando fez quando no passeio desse dia deu com a vitória borrada! Entrou furioso pela oficina a dentro, e mascava uma apóstrofe de fulminar quando o ferreiro, às brutas, lhe barrou o passo.
- Chega de caraminholas, ó barata tonta! Quem manda aqui, no serviço e na língua, sou eu. E é ir andando antes que eu o ferre com bom par de ferros ingleses!
[...]"
(Monteiro Lobato, "O colocador de pronomes" (1924), Negrinha, editora Brasiliense, São Paulo, 1957, pp. 117-134.) 

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

"Harvestest moon"

Na cidade pequena a lua cheia estava redonda, via-se bem no céu e iluminava as rodas de nuvens. Na cidade grande, o dia acordou enevoado. Se a névoa não subir antes da noite, não haverá lua, planeta, nem céu aos olhos de gente. Já aos ouvidos...

sábado, 18 de setembro de 2010

Um "embrulho com um bocado de beja"

 (Fotos - "entretanto fiz duas fotografias do tipo 'ana no seu blog' e então envio-tas, vê lá que espectáculo! na do pôr-de-sol aparece outra vez o avô, com os seus óculos escuros à James Dean, com uma das lentes partida, apoiado no seu cajado, olhando o sol a ir-se embora, ou a ponta do cajado, que quase podia ser o pau carcomido da outra fotografia", esculpido pelo bicho da madeira, com a ajuda de algum canivete, faquinha petisqueira, ou o que o avô apanhasse no fundo dos bolsos das calças de cotão: Mano, a auxiliar na matança das saudades.)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

domingo, 12 de setembro de 2010

Oh...

Foi-se um homem de muitas mulheres.

sábado, 11 de setembro de 2010

Cometa

O Reboliço instala-se no Halley, o confortável omnibus da Viação Cometa, ferra no sono das longas horas de viagem e sonha. Sonha com Björk a anunciar um astro ruidoso que cruza a Terra e com a missão espinhuda dos Moomin para a defender.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Vento sobre a Baía

(Fotos: Reboliço, a olhar para o que se move e para os que estão imóveis, no pátio do Museu de Arte Contemporânea de Niterói)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Mar de flores

(Foto: Ángel González. Obrigada, Ángel. O Reboliço gosta de receber flores, gosta de coisas coloridas, gosta dos pátios de Córdoba.)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

N-íssimoCB

Para não confundir as coisas, o cinema mais recente feito no Brasil e mostrado no fluminense Cine Glória chama-se Novíssimo Cinema Brasileiro.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Óculos de sol

O Reboliço já não se lembrava, mas o Mano lembrou-se: o avô tinha uns óculos de sol extraordinários. Diz o Mano que o faziam parecer o James Dean. Com certeza, o James Dean. Com 90 anos e tudo. Calças de cotão rijo, chapelinho branco de moleiro, suspensórios e uma barriga de meter respeito. E o bigodinho pequeno e grisalho. Tal e qual o James Dean, não haja dúvida.
(O Mano lembrou-se disto a propósito de se andar a caiar o monte e o moinho, e do medo que tem de aquilo ficar tão branco que precise de andar de Ray-Bans dentro de casa.)

domingo, 5 de setembro de 2010

Estrelo

(Foto do canário Estrelo: Reboliço. O canário Estrelo chilreia o dia todo ao som da água que corre das torneiras, da chuva que cai, do vento que venta, da janela a abrir, da janela a fechar no mundo da cidade de São Carlos - éssepê. Quando o sol se põe, enrola-se feito numa bola amarela de penas, sustenta-se numa pata só e finge que nem olhos tem.)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Do Mano


sabes que mais, até é uma boa coisa que não tenhas internet como estás habituada... o Corbusier fez os mais magníficos desenhos de viagens porque a sua máquina fotográfica se avariou! (o que deve ser, muito provavelmente, boga - se calhar até mesmo lançada por ele - ou então o gajo era simplesmente fonica e nem queria gastar cobres em rolos nem em revelação - nem no arranjo da máquina, se se tinha mesmo avariado...) 
portanto, assim podes fazer desenhos e escrever textos em papiros ou folhas de tabaco (é o que eles usam aí para escrever, não é?)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MAM

(Foto do vão do MAM ao cair da noite, que cai cedinho no Inverno: Reboliço.)