segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O Reboliço colecciona calendários (19)


(Fotos do calendário da Casa Romero, com lista de contactos de cinemas e teatros de Lisboa, quando os números de telefone tinham cinco ou seis dígitos: Reboliço, a passar a memória em revista.)

domingo, 16 de janeiro de 2011

sábado, 15 de janeiro de 2011

Paciência...

- e cara alegre!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Dust devil

(Fotos do espojinho que a 20 de Setembro de 1987 passou na aldeia, deixou casas destelhadas, as galinhas desorientadas por verem sumir-se as paredes dos galinheiros, oliveiras destroncadas e um novo nome para o Alves Delgado, que veio a chamar-se Astronauta desde que o tornado o fez voar de um quintal para o outro na rua de trás da avenida: Álvaro Nobre, actual presidente da Junta de Freguesia. Obrigada à tia M. e ao JM pelas informações.)
- "Astronauta"?, ri-se a Luca.
- "Astronauta", Luca. Aquilo foi o demónio e ele andou no espaço, sabes?)

sábado, 8 de janeiro de 2011

A terceira e a quarta descobertas

O Reboliço ri-se a bandeiras desfraldadas, despregadas, a fazer barulho de tecido forte enquanto flutuam ao vento e os relâmpagos acendem o escuro da rua: imagina Paul a fazer de Frodo Baggins, Ringo de Sam Gamgee, George de Gandalf, e John de Gollum. Houve cartazes e tudo. Recuperado o fôlego do riso, senta-se sossegado e hums.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Oh...

O seu nome tinha muitos desenhos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

7

Um pouco ao acaso ia seguindo
contando à sua roda os lugares vagos.
Tinha desaparecido o vento.
Nas margens via os juncos crescer e

as sagitárias.
No ar a roda dos pinheiros bicos-cruzados
cinzentos.
No mar cardumes de sardas brilham

à passagem das ondas.
Na falésia vê uma cobra e não conseguiu
matá-la.

O campo
distribui-se por prados e bosques.
Os dias passam tal como o ano passado.
(João Miguel Fernandes Jorge, Actus Tragicus, Lisboa, Presença, colecção Forma, 1979, p. 22)

Oh...

Lá vai um actor para as estrelas.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A segunda descoberta

O Reboliço fecha os olhos e viaja. Vai para lugares que têm peixes grandes, olhos a olhar para outros olhos, remédio de se estar perto de alguém. Vê criaturas em submarinos amarelos, submarinos cinza, enrugados, submarinos-tubarão. Dança, dança, dança, dança com gorillazzzzzzzz, adormecido e a sonhar com praias de plástico.

sábado, 1 de janeiro de 2011

O Reboliço é um nefelibata (41)

(Foto da nuvem à roda do palco da dança de começar o ano: Carla Brazão, a molhar os pés na ilha de Faro.)

A primeira descoberta

O Reboliço acorda cedo, espreguiça-se e fareja a casa toda, à espera de cheiros novos. Foi-se a chuva, o vento é pouco, o sol quase queima. Sai à rua e, sentado no poial - como os outros cães -, descobre os passeios de Vivian.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

"os seus... segundos"

"anteontem dormimos (uma só noite) em casa dos __. ao acordar não sabia onde estava. foi um belo risveglio. e então pus-me a pensar que é mesmo bom quando acontece não se saber onde se está, no espaço, nem no tempo... não saber se se está em L. ou no moinho, se os pés estão para a cabeceira..., ainda nada está formatado na cabeça... aliás, nem se percebe muito bem em que corpo se está, é mesmo uma surpresa descobrir que há um corpo onde estar-se.
é só a presença.
isto é coisa para durar os seus nove, dez segundos... aquele tempo do prazer de sentir que as esferas dos olhos se transformam e passam de pensamento a coisa física. estão mergulhados dentro na cabeça, e depois saem para a cara, ao mesmo tempo que se abrem, como se nada tivesse acontecido. mesmo a tempo.
havia este arquitecto russo - melnikov - que tinha imaginado um dormitório para operários pensando o dormir como um morrer todos os dias, para se ressuscitar todas as manhãs. todos os dias nasço. é a passagem que é magnífica."
(O Reboliço lia isto enquanto ouvia a voz de Tom Waits lamentar um Eduardo e embalar uma Alice. O cantar do Tom Waits é assim também de não saber bem onde anda, de só querer andar, a madness with bliss.)

Neil Year wish

Aguenta-te. Vais ter que durar mais este ano.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

As velas do moinho

(Foto do tabuleiro de arroz de pato, com as rodelas de linguiça a fazer de velas de moinho, segundos antes de entrar no forno: Reboliço, a salivar. O pato foi prenda de Natal do vizinho, assim como a linguiça. A salsa foi da horta do moinho, as cebolas, o azeite. Beiços lambidos, barriguinha cheia, amigos satisfeitos - e vinho branco.)

domingo, 26 de dezembro de 2010

Paixão

O chão do quarto do avô é de uma tijoleira velha, muito esburacada e velha - é mais do que porosa. Tem a cor da terra e é mau de varrer que só visto. Mas é o chão do quarto do avô. Foi esse chão que pisei, um dia de muitos. Tinha chegado ao monte era já manhã avançada e estranhara não ver o avô a pé. (Quando entrei na cozinha, o Reboliço, deitado à lareira, só abanou a cauda um bocadinho.) Disse-me a avó que ele estava “ali para o quarto, hoje não se quer erguer.” “Posso ir lá vê-lo?” “Vai, vai lá que ele ainda está deitado.” Encontrei-o sentado na cama, cabisbaixo. Não sei se tinha os olhos fechados, mas todo o rosto olhava o chão, a tijoleira tão gasta. O cajado ainda estava encostado à cabeceira. Levantou a cabeça só o suficiente para me dar um sorriso pálido. “Então, avô? O que se passa hoje?” “Filha da minh’alma...”, começou, com a voz triste. “Às vezes entra-me uma paixão pelo organismo...” Foi quanto bastou para me fazer rir, ele olhar para mim, os olhos sorrirem-lhe e passarmos adiante. Para mais aquele dia.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Dia de Natal

O Reboliço está enroscado ao pé do lume – junto à base da lareira, a barra cor de sangue de boi. Dormita ao vuruvuvuruuuuuvuruuru hipnotizador do fumo a gastar o madeiro. Só não entra no sono profundo porque os troncos mais finos, o musgo seco e alguma carapaça de insecto estalam no meio da melodia das brasas. Do monte ao lado vem o cantar de um galo, temporão, a despedir-se da perua e dos gansos que, debaixo da mesa de pedra do quintal, aguardam embebedados a panela ou o tabuleiro.
De fora, o moinho fita tudo isto, indiferente aos dias que são, às pessoas que há e às que não estão. Já viveu quantos natais?, quantas festas? Agora tem no começo do socalco um letreiro branco com letras negras: “propriedade privada”. Isso, sim, é novidade e estranheza – coisa feita para enxotar algum casal a querer encostar o namoro à parede branca. É do moinho ou do Reboliço, a indiferença?
Atrás da nogueira (é jovem, mas tem já duas dúzias de ramadas cheias de folhas), o telhado da garagem anima-se com a bulha de três cães do vizinho, ao cheiro de rato ou coelho ali acoitado. Nem ouvem o “qu'é da rua!” a mandá-los para o outro monte. Latem, caçam, farejam, de caudas entusiasmadas e focinhos a brilhar.
(Hip-foto da panela de ferro ao fogo: Reboliço.)

“Quatro lumes tenho eu em casa,” diz a dona, ao telefone. O dono, sentado à mesa a olhar para o lume, cantarola: “Já lá vem nascendo o sol, lá das bandas do Algarve – ai, enganei-me, é a lua, que o sol não nasce tão tarde.”

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O Reboliço segue pela rua da Igreja acima, só ele na noite fresca a fazer soar as patinhas húmidas nas pedras da aldeia. Quando a rua se abre em largo e o largo se fecha em adro, vê a fogueira que os homens acenderam de manhã cedo, ainda um tronco imponente a aquecer-lhes as mãos, enquanto as mulheres assitem à missa. Da porta aberta ouve-se cantar:

"Entre as portas da Igreja
Está uma mulher cosendo:
Está cosendo a camisinha,
p'ró Deus-Menino em nascendo."

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Património protegido

O Reboliço pensa que há passadeiras com sorte.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

- Reboliço, tu já foste ao Louvre?
- Não, nunca fui. Já estive em Paris um par de vezes, mas faz-me espécie meter-me no meio de tanta gente.
- És um bocado tonto; eu cá gosto é de animação, de multidões.
- Assim serás tu, Luca. Eu cá é mais bolinhos em casa e chocolate quente. De preferência a olhar para os museus sentado de cauda quieta: visito o Louvre, o Prado, vejo o que andam a fazer no Metropolitan, no MoMA, que sei eu...
- Já percebi que sabes é pouco. Adeus, vou ver o museu do Poço Novo, que estão a crescer espargos ali naquele lado e agriões no outro, e quando lhes dá o sol aquilo é mais lindo que um Monet!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Uma noite bem dormida

(Foto do conjunto de lençolinhos de flanela, numa montra da cidade: Reboliço, a puxar os cavalos.) 

domingo, 19 de dezembro de 2010

O Reboliço é um nefelibata (40)

(Foto da "luz de milagres" do fim da tarde, visto do Palácio da Fonte da Pipa sobre o mar algarvio: Reboliço. Por hábito, pensa que os entardeceres mais bonitos acontecem em Outubro e em Janeiro. Este é dezembrino e foi milagreiro.)

sábado, 18 de dezembro de 2010

O Reboliço é um nefelibata (39)

Hoy vuelvo a la frontera -
Otra vez he de atravesar.
Es el viento que me manda,
Que me empuja a la frontera
Y que borra el camino
Que detrás desaparece - que detrás desaparece.

Me arrastro bajo el cielo
Y las nubes del invierno -
Es el viento que las manda
No hay nadie que las pare.
A veces combate despiadado,
A veces baile
Y a veces… nada - a veces baile y a veces nada.

Hoy cruzo la frontera -
Bajo el cielo,
Bajo el cielo.
Es el viento que me manda
Bajo el cielo de acero.
Soy el punto negro que anda
A las orillas de la suerte - a las orillas de la suerte.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O Reboliço é um sentimental

(Hip-foto da capa da melhor tradução para língua inglesa que conhece, da epopeia Kalevala: Reboliço, a fazer figas.)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Oh...

Saúde!

(O Reboliço anda ocupado.)
"Apesar, contudo, todavia, mas, porém,
As águas vão rolar, não vou chorar.
Se por acaso morrer do coração
É sinal que amei demais."

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Passarinhos e passarões passarão

O Reboliço gosta de se pôr à varanda, patas da frente sobre o parapeito, as de trás muito esticadas a dar-lhe altura, o focinho adiantado a cheirar o céu e as penas que vão ficando para trás do voo. Segue os movimentos aos pássaros, girando a cabeça e tentando não piscar os olhos quando o sol lhe dá de frente. Assim como gosta de lhes saber os nomes, os tamanhos, as famílias. Se possuísse fortuna, teria comprado um livrito de curiosidades como este. Como é pata-rapada, contenta-se, muito contente, com isto, isto e mais isto (obrigada, Maradona).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

- Luca, Luca, já viste o teu primo americano em chocolate?
- Hã? Quem?
- O Bo.
- Mostra-me lá.
- Boooh!

O Reboliço é um nefelibata (38)

(Foto da ave solitária no céu pós-pluvial desta manhã, sobre Faro: Carla Brazão, outra nefelibata. Mais nuvens dali, por aqui.)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A avenida no feriado

O Reboliço assoma-se à janela, a medo, por conta dos relâmpagos. Ver, vê muito pouco: mas o céu cinza-azulado, baixo como o tecto de uma cave, faz ressoar os barulhos à sua volta. Ouve a água no asfalto a saltar para um lado e para o outro dos pneus, quando passa um carro; ouve três ou quatro moços pequenos a jogar à bola nos intervalos das bátegas, aflitos por aproveitar cada minuto; ouve a missa na televisão da vizinha, a Dona Mimi que entoa os cânticos por cima do som da caixa e comove a desafinar. São sons muito limpos, muito claros, que os faz assim a água a brilhar no asfalto como o húmido no focinho de um cão e o baixo que o céu está.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Cantar nas obras

Além do ritmo temporariamente contagiante da cantiga dos Unit Four Plus Two, o Reboliço achou muito curioso ver as obras do que viria a ser o Barbican Centre, em Londres, como cenário de betão e barro.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Viajo porque preciso, volto porque te amo

Uma das coisas de que mais gosto em Viajo porque preciso, volto porque te amo é a voz do geólogo quando se exalta e foge do tom da estrada. É o que acontece à câmara: fora da estrada, soluça mas fica mais firme, sabe o que quer mostrar. Isso e as falhas tectónicas que se acumulam no caderno de viagem.

"Syntax was winning."

O Reboliço lê sobre as potencialidades da pesquisa electrónica aplicada à História e ao conhecimento da literatura e da cultura vitorianas. Pensava que não fosse tamanha novidade. Até os receios lhe parecem fora deste tempo; mas talvez, afinal, não seja assim.

sábado, 4 de dezembro de 2010

"L'angelo siammo noi"

(Foto da estrutura desenhada e arrumada no espaço por Carlo Scarpa, no início dos anos 50 do século passado, para exibir no Museu Regional de Palermo, no Palazzo Abatellis, o manto de lápis-lazuli de Antonello da Messina, a mão em recato e o olhar da Virgem que parece querer retardar a Anunciação: Reboliço, de um lado para o outro, de um lado para o outro.)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Parole palermitane




(Fotos de palavras sobre paredes, bancos e portadas no mais puro dos bairros palermitanos: Reboliço, a ler.)

Enquanto o Reboliço dormia,...

... o Castelo voltou a ser iluminado de bons espíritos, bailarinos e de graça!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Oh...

O Reboliço vai sentado num autocarro siciliano. Espreita por cima do ombro da senhora da frente, que lê o jornal, e vê, ao alto, a fotografia de um homem grande, de óculos redondos e barba branca cortada rente. É o adeus a Mario Monicelli, que se suicidou - um homem velho e doente que se lançou de uma janela. Livre, pensa o Reboliço. Indomesticável pelas paredes de um hospital, pelos muros de uma igreja, por lágrimas num funeral.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O Reboliço é um nefelibata (37)


Nuvens
Borreguinhas brancas,
numa azul colina.
Quando o vento pára,
nenhuma se arrima.
Quando o vento sopra,
vão devagarinho.
Borreguinhas brancas,
vão por que caminho?

(Poema mal-vertido para português pelo Reboliço: Christina Rossetti, lembrada aqui. Foto das borreguinhas brancas na colina azul que cobria a Casa da Música: Reboliço, a tiritar de frio.)

domingo, 21 de novembro de 2010

Pedaços de gente

O Reboliço anda arisco. Chega, toca, foge, raspa-se, bole, pouco descansa, num rebuliço que o deixa tonto. Mas, quando passa no largo da Sé, acalma-se com o silêncio e antecipa a visão que na praça a seguir se estende, de cima a baixo, pela parede do Museu Regional: grande, bonita, a mão do Otelo aponta uma pedra, uma das muitas que ele apanha nas areias das praias, entre os galhos das florestas, na beira das estradas onde mora.

(Foto do cartaz da exposição "Algarve Visionário Excêntrico Utópico": Cunhadão, que também anda por ali, depois de ter andado por outro lado.)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Let's Go, Girl!

Inspiradas pela boa loucura do Xana e de homoestéticos afins, a Mara e a Ursula duplicam-se, espelham-se, revelam-se, põem-se a andar no projecto Let's Go Girl. O Reboliço gosta muito das imagens, das frases, dos filmezinhos delas.
(Foto das neo-homeostéticas a correr sob as nuvens: Mara Barth e Ursula Mestre.)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Pré-marmelada

(Foto dos marmelos à espera do sacrifício: Reboliço, ao olhinho de sol pelas frestas da persiana.)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Três poetas brasileiros

VELHOS

Descendo a rua Mato Grosso
Em Higienópolis
Nesta manhã de segunda
Diviso no sentido contrário
O poeta Roberto Piva
Um dos mais importantes
Vivos
Deste país

Estou à direção de meu carro
E acabava de observar
Pelo contador de quilometragem
O número 85358
Me parece muito
Muitos quilômetros rodados
E me chamou a atenção pela simetria

Meu carro está ficando velho
Eu estou ficando velho
O Roberto Piva
De camiseta estiva branca e bermuda azul
Tem Alzheimer e caminha meio bambo
Pela calçada da rua Mato Grosso
Em Higienópolis

É um grande poeta
Um monumento municipal
Desta cidade que ele viu
Crescer da província ao estrelato
No Japão seria um Tesouro Nacional Vivo

Justamente, estava a caminho
Do Centro Cultural Tomie Ohtake
Em Pinheiros
E aqui estou agora

A Tomie Ohtake é nonagenária

Vim pegar no Setor de Documentação
Fotos nas quais apareço com o Saramago
No vernissage de sua exposição
Em Dezembro passado

O José está bem velho
Perdeu alguns centímetros desde a última vez que o vi
Conheço-o há 25 anos e não tenho
Fotos com ele

Quando o conheci ninguém queria saber muito dele
Mas ele escreve prosa de ficção
Muito boa
E hoje é o Nobel da língua
Portuguesa

O Robero Piva
Escreve poesia
Boa também
Mas ao contrário do número no painel
Do meu carro que está ficando velho
Não há simetria entre
Prosa e poesia

Nesta manhã de verão
Descia
Tropegamente
A rua Mato Grosso
Em Higienópolis

SP 2 II 09
(Horácio Costa, in Quando o meu generoso coração falhar, Arqueria, 2009, s. pp. 
Livrito cor de vinho-rosa trazido dentro de um envelope negro , nº 54 de 60 exemplares. No lugar do costume.)

sábado, 13 de novembro de 2010

"Insónia"

Suporto bem os dias cinzentos. O céu está baixo,
sim, e a distância que me separa
daqueles que amo é como daqui à Oceania,
na origem do arco-íris, no tempo da juventude,
mas tal como roubaram o sobretudo a quem morre de frio,
ou a tábua de salvação ao náufrago que se afoga,
roubaram aos insones a chave da tenebrosa fortaleza,
de cujas altas torres se avista a terra,
mesmo na obscuridade, quando o planeta se afunda sob os gritos
de sofrimento. Há tempos, há muito tempo, uma fresca
mão pousava na minha testa. Uma voz dizia: Dorme!
Havia alguém.
Pentti Holappa, in Poesia no Porto Santo, org. Pen-Club Português, edição-DRAC/Madeira, 2000; sem indicação de tradutor).

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um mar qualquer

(Foto da haste florida frente a um mar com vento: Reboliço, de zingarelho.)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Oh...

Ora adeus.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Em dia (2)

(Foto do postalinho de subscrição da melhor revista do universo do Reboliço: Reboliço, o próprio.)

O medo é como um sonho acordado

Como se a Terra corresse
Inteirinha atrás de mim,
O medo ronda-me os sentidos
Por baixo da minha pele.
Ao esgueirar-se viscoso,
Escorre pegajoso
E sai –
Pelos meus poros,
Pelos meus ais.

E penetra-me nos ossos
Ao derramar-se sedento
Nas entranhas sinuosas,
Entre as vísceras mordendo.
Salta, espalha-se no ar,
Vai e volta, delirante,
Tão delirante...

É como um sonho acordado
Esse vulto besuntado
A revolver-se no lodo,
No deslizar de uma larva,
Emergindo lá ao fundo.
Tenho medo, ó medo,
Leva tudo, é teu
Mas deixa-me ir.

Arrasta-me à côncava funda
Do grande lago da noite,
Cruzando as grades de fogo
Entre o Céu e o Inferno
Até à boca escancarada,
Esfaimada,
Atrás de mim,
Atrás de mim...

É como um sonho acordado
Esses olhos no escuro
Das carpideiras viúvas
Pelo pai assassinado,
Esventrado por seu filho
Que possuiu lascivo
A sua própria mãe
E sua amante.

Meu amor, quando eu morrer,
Ó linda,
Veste a mais garrida saia;
Se eu vou morrer no mar alto,
Ó linda,
Eu quero ver-te na praia.
Mas afasta-me essas vozes,
Linda.

Tens medo dos vivos
E dos mortos decepados
Pelos pés e pelas mãos
E pelo pescoço e pelos peitos
Até ao fio do lombo –
Como te tremem as carnes,
Fernão Mendes.
Fausto Bordalo Dias, "Como um Sonho Acordado", Por Este Rio Acima.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Em dia

No editorial de Julho/Agosto da Film Comment, Gavin Smith anuncia a questão "bloggers vs. old school critics". Nas suas palavras: "O modelo tradicional de crítica de cinema, que existe desde os anos setenta e que ainda orienta esta revista, tem sofrido uma erosão constante, quer de dentro quer de fora dessa crítica. Há forças económicas, culturais e tecnológicas que inexoravelmente, e mesmo à frente dos nossos olhos, dão novas formas à paisagem da crítica. Em vez de tentar lidar com isto, muitos dos críticos da velha guarda impressa - tirando os que já firmaram uma presença online, como Todd McCarthy, Jonathan Rosenbaum e Dave Kehr, sem esquecer Roger Ebert - ainda combatem uma guerra de retórica contra os virtuais." No miolo da Film Comment, quatro páginas no número de Julho/Agosto e outras tantas no de Setembro/Outubro, Paul Brunick reflecte sobre a peleja e chama a essa reflexão "The living and the dead". Com isto, todos ganham vida. É saudável ler sobre coisas que estão em mudança e sobre como essa mudança está a ser entendida. Entender, é isso que é saudável.
(Na edição online da revista, há o bónus de uma lista de blogues sobre cinema, compilada por Brunick.)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Para a Z., que hoje faz anos


Pago-te um café e contas-me a minha vida.

(Foto de "Murmúrios do Mar", de José Tolentino Mendonça in A Que Distância Deixaste o Coração, Lisboa, Assírio e Alvim, 1998: Reboliço, de roda do zingarelho que ganhou.)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

(O Reboliço saúda o regresso de quem sabe dizer: queimo.)



Mantê-la mantê-la a todo custo
eu ainda sei ler, minha mãe
eu ainda sei ler, meu pai
estou mantendo ainda
ainda tenho algumas horas no dia
ainda sonho em fazer canções
e mesmo quando me apaixono insanamente
e desejo fontes de juventude boca a boca
(na praça clóvis minha carteira foi batida)
e mesmo quando endoideço aos vôos flutuantes perseguida por
galgos que me brincam e acalantam minha insônia
forçada de doideira
(chega um pouco pra lá, meu amor, se afasta um pouco)
e mesmo quando as lentes se perdem (e as palavras)
ainda sei ler, meu pai
ainda sei ler, minha mãe
ainda sei dizer: queimo,
e não arder simplesmente
(Ana Cristina César, Antigos e soltos: poemas e prosas da pasta rosa, p. 330-331.)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

(Foto da parede derramada para dentro do copo de luz: Reboliço, com a máquina novazinha! Obrigada, Z., C., A. e E.)