sábado, 5 de fevereiro de 2011

- Reboliço, de onde é que vem o mel?
- Vem da garganta doída, do nariz entupido.
- Ah... Pensava que era das abelhas.
- Não, Luca. Não é, vês: dói-te a garganta, tens o focinho entupido, aparece o mel.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Tangerinas!

(Foto: Marcelo Jasmim. Fechados do lado de fora do moinho, o Reboliço foi à tangerina com a M. e o M. - o gosto que lhes deu colhê-las, mesmo sabendo que não se iriam comer todas, e descascar uma ou outra, trincar os gomos, cuspir os caroços! O pai bem lhe disse que não faz falta tirá-las da árvore, que se aguentam meses sem se estragarem e já não virá chuva que dê cabo delas. Mas então...)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Reboliço é um nefelibata (42)

nuvens noitiluzentes no espaço sideral. Nuvens noitiluzentes siderais.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O celeiro da casa Roca (post dedicado)

(Diz-lhe um bom crítico que não abuse dos adjectivos. Diz-lhe o bom senso que não use palavras para aquilo em que não são precisas. Teimoso, o Reboliço usa-as precisamente quando não fazem falta. Não conhece a contenção, nem em tempo de crise - ainda lhe há-de custar o pêlo, mas o gosto da língua com que se lambe não morre depressa. Ou, como diria Alan Shore a Denny Crane, também sem precisar de lho dizer, Live big, my friend. Live big.)
 
Há uns dias abalou para terras remotas e, quando deu por si, estava a uma mesa, toalha branca e três pedras cinzentas no centro encostadas umas às outras. Nada de tempo depois, no lugar das pedras apareceu, como se tivesse nascido ali de repente, uma oliveira anã: dos ramos dela penderam dez azeitonas caramelizadas, recheadas de anchova. O Reboliço colheu cada uma das duas que lhe calharam, mordeu-lhes a pele, virente pele, por baixo do caramelo - só doce o suficiente para ser tarrincado e se dar por ele -, apaladou o peixe escuro, foi engolindo devagar. Pensava que não era aquele um sítio para se lembrar da comida de casa: ali faziam coisas como gelificar, reduzir, emulsionar. E pur... as azeitonas, o primeiro sabor que lhe tocava na tabela do jantar, eram azeitonas conhecidas e boas.
Quando lhe puseram à frente uns rectângulos de lenho, retalhos de rede de pesca por cima a dar cama a espinhas de anchova (espinhas!) em polme de tempura de arroz, franziu o focinho. Que as comessem a Misha e a Pelota, que era lá isso de espinhas! Nada - foi-se o focinho desfranzindo, o faro aguçando, mais a curiosidade, não tardou a pegar no petisco e a deliciar-se. Ao seu lado, atrás de si, sempre aparecido não se sabia de onde, o sardo Davide, de serviço à mesa, falava, falava, falava... Contava de como aquela língua castelhana em que falava não era a sua, nem essa nem a catalã; que nem sequer o italiano era a sua língua - que a sua língua era o sardo. "E sabes, Reboliço, 'Sardenha' quer dizer 'a terra dos filhos das estrelas,'" contava, de olhos a brilhar como os astros do céu, enquanto trazia as magias dos Roca. Vestiu mesmo casaco de mágico, cartola e varinha, quando trouxe os bombons Bellini, de cava rosa com o tradicional licor de pêssego e pedacinhos de folha de ouro no topo: "Não percam tempo a admirar as esferas cor-de-rosa, que dentro de uns segundos elas desaparecerão, na vossa boca ou fora dela." Nhac!, fez o Reboliço, abrindo a boca e fechando os olhos. Nhac!, fez a bola de licores e bolhas da cava entre a língua, o céu, as paredes da boca toda. "Ofertas da casa," ia dizendo Davide. Pois sim, oferendas. Canções de sereias, silvos de serpentes.
Veio uma panela meio de louça meio de metal, com tampa que aberta mostrou um vapor de cheiro a nabo. Cheirava ao cozido de casa, mas trazia na parte de metal, sobre um reticulado miúdo, uma cestinha feita de massa de trigo, encerrada em brioche onde se escondia a trufa negra, presumida a fumegar. Não durou nada, nem o caldo de legumes e vitela que servira o vapor para amaciar a bola de farinha.
Já os risos iam altos, as maçãs dos rostos a encarnarem ideias amorosas, quando chegaram, dentro de colheres de cabo torcido, uns óvulos de amarelo-escuro que o sardo apresentou como tortilhas de caviar. O V., saído de dez dias de festival gastronómico e difícil de contentar, já se rendera às surpresas: forma, cor, cheiro, remoinhava tudo e tudo se entranhava nas papilas em muitos pensamentos de bondade e prazer. A G. posava para um retrato quase erótico, só olhos fechados e mais nada, e o Reboliço ganhava medo - como diabo se escreverá isto?
É que as palavras das conversas iam ficando escassas. Repetiam-se adjectivos, os temidos, os temíveis. Vinha com a tortilha de caviar um parfait de pombo com pinhões, xerez e pão de especiarias, vinha, a mais pedidos, o pastel folhado de azeitonas; vinham, dentro do vidro cortado ao meio de garrafas de Kripta, as ostras - estreia do M. nas ostras -, com a estranha folha que sabe ao marisco, mais batata verde, gengibre, tudo  coberto com cava, lá está, gelificadinha como manda a sapatilha gourmet e como ganhou o título de prato do ano em 2006. Veio um royal de chip de alcachofras com foie em azeite de alcachofra e redução, lá está, de sumo de clementina. O Reboliço viajava pelos sons das palavras não menos que pelos sabores, queria lá saber de escrever. O sardo falava, falava, falava, prestava-se aos retratos, amigável, pois não...
O linguado selvagem, a la brasa amb sabors del Mediterrani, foi prato de 2009. Os sabores do Mediterrâneo eram cinco emulsões que vinham em mancha no prato a ladear à esquerda o lombo do peixe. O sardo Davide ensinava que se comesse o linguado acompanhado de cada emulsão, partindo de baixo para cima, sempre a subir no prato e no céu da boca. Uma era de funcho e trazia dele uma minúscula folha fininha; a segunda era de bergamota e vinha enfeitada com uma pétala, pequenina, de flor de jasmim; a do meio era de laranja e no meio dela vinham pedacinhos da casca; a penúltima era de pinhão e lá trazia um pinhãozinho quebrado; a excelsa, de azeite de azeitona verde, tinha no meio uma lágrima caramelizada, uma esfera transparente, um caramelo, muito redondamente gelificado, de azeite. O Reboliço já não cabia em si e não era só de contente. Ficava-lhe curta a pele para tanto gosto.
Veio a seguir a escudella de bacalá. Foi prato do ano em 1998 e não se lhe notou nenhuma ruga. A escudela, que se refere ao recipiente pobre em que por tradição se preparava um caldo de carne e enchidos de porco, é como a cataplana: deixou de ser continente, passou a ser conteúdo. Dizia o sardo que o bacalhau nem sequer é grande invenção para a escudela: que nas casas mais remendadas da Catalunha a preparavam com o que houvesse, e se o que havia era o peixe da salga era esse que entrava na panela (por uma ordem certa, como ensina a tia de Concha em Pedra de Tartera). No Celler ajeitaram a coisa como se fosse à pobre: bacalhau e gnocchi de batata, pedacinhos da tripa do que nem é carne nem é peixe, mais uma emulsão, pois é, das espinhas do bicho (que fixação!, pensa o Reboliço, e faz uma reza à lembrança das gatas).
Fora do menu, escolhido pelo V. e pelo M., o bife tártaro com gelado de mostarda foi o pico da noite, no bom e no mau sentido - foi o que introduziu "excessivo" na lista, e não estragou a refeição porque veio pela cobiça do cliente mais do que pela ambição do cozinheiro. O Reboliço sonha ainda com a carnica em sangue, a ternura da sem nervos, a vermelha maravilha temperada: acompanhava de vários molhos e o sardo Davide lembrou o ritual de comer de baixo para cima, da parte mais próxima do prato até à que se virava para o centro da mesa. O primeiro, o molho béarnaise; a seguir, um de tomate temperado com especiarias e uma compota já não se lembra de que fruta; o outro, de praline de avelãs e passas recheadas de xerez oleroso; o último, de geladinhos de mostarda com as folhas da erva. Sobre a carne, apareciam uns pufes, coisa inchada de batata com sabores a cebolinho e a caril. Entre outros, que não escondiam nem por um segundo o gosto do bife. Mais carne veio depois, um cochinillo que o sardo descreveu como tendo sido cozido a baixa temperatura nos seus sucos, com melão e cebolinho. Tinha um perfume de carne fumada, a pele crocante e a capacidade de ficar na memória da língua até ao fim da vida de um cão.
Reboliço, Reboliço, que fartura... E os líquidos, para não embaçar? Houve líquidos - terminaram num chá de hortelã de agradecer a algum espírito da terra que faz crescer tais ervas. Começaram num cava das caves de Agustí Torelló Mata (a mesma marca do Kripta que inundou as ostras), foram por um Ferrer Bobet branco, néctar do Priorado, de 2007; o tinto era o Terra Remota de 2008 e para as sobremesas, para terminar em bom, o bom sardo Davide trouxe um luso Taylor Fladgate, Late Bottled Vintage, de 1995.
O Reboliço foi ficando tonto e não era só da bebida: bom nefelibata que é, serviram-lhe uma nuvem de limão, sonho de leite gelado com chantilly de limão, baunilha, manteiga de avelã e granizado de casca de limão. Nuvens de limão, nuvens de limão, nuvens de limão...
Antes dos bombons que fecharam e do chá, veio para a mesa aquilo a que o sardo chamou a desconstrução da baunilha: soube o Reboliço que os seus quatro sabores básicos são o caramelo, a regalessia (coisa que, em rebuçados licorices, abomina!), o cacau e as  azeitonas pretas. Foi uma baunilha doce e salgada ao mesmo tempo, que, apesar da barriguinha cheia, do satisfeito que estava, fez lembrar ao canito regalado o bonsai do início da noite e o fez querer que tudo começasse outra vez.

(Foto e hip-fotos: Reboliço. O Reboliço viajou com o apoio da G., da M. e do R., da  M. J. e do F.; ficou alojado com o apoio do I., do M., do H., da M. e da P.; assistiu a Pedra de Tartera, versão de Marc Rosich para o TNC, com o apoio do I. e do M.. Por isso tudo, por muito mais, está agradecido.)

O que estará...

... uma fotografia da exposição Weltliteratur a fazer na crónica de Eduardo Coelho sobre poesia de Leonardo Gandolfi? Aparece na página 23 da Ler de Fevereiro e, se tem indicação do autor (Pedro Loureiro), nada há que indique o porquê de ilustrar aquelas colunas de texto.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Oh...

Lá foi Milton Babbitt, a entoar música aos pinchinhos.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Livro novo


(Fotos da capa e da página de abertura de Moinhos e Azenhas de Portugal, de Fernando Galhano, edição da Secretaria de Estado da Cultura e da Associação Portuguesa dos Amigos dos Moinhos, Lisboa, 1978: Reboliço, agradecido à Dona Renata e à Feira da Ladra.)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Não me interrompam agora.

 (Auto-hip-foto: Reboliço, a ler.)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Nos braços do sono

Na manhã pequena, o zingarelho toca as músicas que quer. O Reboliço ergue as orelhas quando ainda está nos braços do sono e ouve, mesmo sem escutar, "Ich bin so lang nicht bei dir gew'st" - ou seria "Kraut und Rüben haben mich vertrieben, / Hätt' meine Mutter Fleisch gekocht / Wär' ich länger blieben"?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A quinta descoberta

Gerald Murnane (via Philip Tyndall, via André Dias). O título do seu segundo livro de "ficção verdadeira" é A Lifetime on Clouds. Escreve sobre imagens do seu pensamento. Nuvens e imagens no pensamento.

Céu limpo

(Foto de uma das muitas amendoeiras floridas no caminho do Alto do Relógio e das Várzeas da Goldra: Reboliço. Nesta, como noutras, vêem-se frutos do ano passado, ou mais antigos ainda - a marca do abandono que, de bocas assim rosadas ridentes ao sol, parecem negar.)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

- É como te digo, Luca: eu a gozar o prato do Ricky Gervais, a ver naquilo o renascer das "Celebrity Roasts" de boa memória youtubina, e afinal parece que houve actores que levaram a coisa a peito, até tomaram para si as críticas que se faziam às personagens. Amuaram.
- Não posso crer, Reboliço!... Está tudo doido.
- Diz que não o querem lá de novo nem nada.
- Outrageous!

O Reboliço é guloso

(Hip-foto do bolinho feito pela mãe com farinha Rodrigues, de um moinho de Turquel [zona de Alcobaça], sobre prato do Sr Fortuna: Reboliço, de faca na mão e a pensar que o azevinho aparece quando um canito quiser.)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Guts!

Depois de o Smithsonian ter retirado da exposição "Hide/Seek: Difference and Desire in American Portraiture" o vídeo de David Wojnarowicz "A Fire in My Belly"; depois de se levantarem vozes contra as vozes republicanas que tinham levado ao acto de censura, o Museum of Modern Art de Nova Iorque comprou a obra para a sua colecção permanente. Fogo no ventre - é assim que está certo.
Adenda: A questão vista desde a margem europeia da banheira atlântica.

Para quem anda saturado de nevoeiro

(Foto da amendoeira - remendada, nem é das mais opulentas - no jardim do Liceu de Faro: Reboliço, esta manhã. Vês como o céu tem estado? Azulzinho, um farrapo de nuvem quando muito, sol a fazer rebentar as flores.)

O Reboliço colecciona calendários (19)


(Fotos do calendário da Casa Romero, com lista de contactos de cinemas e teatros de Lisboa, quando os números de telefone tinham cinco ou seis dígitos: Reboliço, a passar a memória em revista.)

domingo, 16 de janeiro de 2011

sábado, 15 de janeiro de 2011

Paciência...

- e cara alegre!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Dust devil

(Fotos do espojinho que a 20 de Setembro de 1987 passou na aldeia, deixou casas destelhadas, as galinhas desorientadas por verem sumir-se as paredes dos galinheiros, oliveiras destroncadas e um novo nome para o Alves Delgado, que veio a chamar-se Astronauta desde que o tornado o fez voar de um quintal para o outro na rua de trás da avenida: Álvaro Nobre, actual presidente da Junta de Freguesia. Obrigada à tia M. e ao JM pelas informações.)
- "Astronauta"?, ri-se a Luca.
- "Astronauta", Luca. Aquilo foi o demónio e ele andou no espaço, sabes?)

sábado, 8 de janeiro de 2011

A terceira e a quarta descobertas

O Reboliço ri-se a bandeiras desfraldadas, despregadas, a fazer barulho de tecido forte enquanto flutuam ao vento e os relâmpagos acendem o escuro da rua: imagina Paul a fazer de Frodo Baggins, Ringo de Sam Gamgee, George de Gandalf, e John de Gollum. Houve cartazes e tudo. Recuperado o fôlego do riso, senta-se sossegado e hums.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Oh...

O seu nome tinha muitos desenhos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

7

Um pouco ao acaso ia seguindo
contando à sua roda os lugares vagos.
Tinha desaparecido o vento.
Nas margens via os juncos crescer e

as sagitárias.
No ar a roda dos pinheiros bicos-cruzados
cinzentos.
No mar cardumes de sardas brilham

à passagem das ondas.
Na falésia vê uma cobra e não conseguiu
matá-la.

O campo
distribui-se por prados e bosques.
Os dias passam tal como o ano passado.
(João Miguel Fernandes Jorge, Actus Tragicus, Lisboa, Presença, colecção Forma, 1979, p. 22)

Oh...

Lá vai um actor para as estrelas.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A segunda descoberta

O Reboliço fecha os olhos e viaja. Vai para lugares que têm peixes grandes, olhos a olhar para outros olhos, remédio de se estar perto de alguém. Vê criaturas em submarinos amarelos, submarinos cinza, enrugados, submarinos-tubarão. Dança, dança, dança, dança com gorillazzzzzzzz, adormecido e a sonhar com praias de plástico.

sábado, 1 de janeiro de 2011

O Reboliço é um nefelibata (41)

(Foto da nuvem à roda do palco da dança de começar o ano: Carla Brazão, a molhar os pés na ilha de Faro.)

A primeira descoberta

O Reboliço acorda cedo, espreguiça-se e fareja a casa toda, à espera de cheiros novos. Foi-se a chuva, o vento é pouco, o sol quase queima. Sai à rua e, sentado no poial - como os outros cães -, descobre os passeios de Vivian.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

"os seus... segundos"

"anteontem dormimos (uma só noite) em casa dos __. ao acordar não sabia onde estava. foi um belo risveglio. e então pus-me a pensar que é mesmo bom quando acontece não se saber onde se está, no espaço, nem no tempo... não saber se se está em L. ou no moinho, se os pés estão para a cabeceira..., ainda nada está formatado na cabeça... aliás, nem se percebe muito bem em que corpo se está, é mesmo uma surpresa descobrir que há um corpo onde estar-se.
é só a presença.
isto é coisa para durar os seus nove, dez segundos... aquele tempo do prazer de sentir que as esferas dos olhos se transformam e passam de pensamento a coisa física. estão mergulhados dentro na cabeça, e depois saem para a cara, ao mesmo tempo que se abrem, como se nada tivesse acontecido. mesmo a tempo.
havia este arquitecto russo - melnikov - que tinha imaginado um dormitório para operários pensando o dormir como um morrer todos os dias, para se ressuscitar todas as manhãs. todos os dias nasço. é a passagem que é magnífica."
(O Reboliço lia isto enquanto ouvia a voz de Tom Waits lamentar um Eduardo e embalar uma Alice. O cantar do Tom Waits é assim também de não saber bem onde anda, de só querer andar, a madness with bliss.)

Neil Year wish

Aguenta-te. Vais ter que durar mais este ano.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

As velas do moinho

(Foto do tabuleiro de arroz de pato, com as rodelas de linguiça a fazer de velas de moinho, segundos antes de entrar no forno: Reboliço, a salivar. O pato foi prenda de Natal do vizinho, assim como a linguiça. A salsa foi da horta do moinho, as cebolas, o azeite. Beiços lambidos, barriguinha cheia, amigos satisfeitos - e vinho branco.)

domingo, 26 de dezembro de 2010

Paixão

O chão do quarto do avô é de uma tijoleira velha, muito esburacada e velha - é mais do que porosa. Tem a cor da terra e é mau de varrer que só visto. Mas é o chão do quarto do avô. Foi esse chão que pisei, um dia de muitos. Tinha chegado ao monte era já manhã avançada e estranhara não ver o avô a pé. (Quando entrei na cozinha, o Reboliço, deitado à lareira, só abanou a cauda um bocadinho.) Disse-me a avó que ele estava “ali para o quarto, hoje não se quer erguer.” “Posso ir lá vê-lo?” “Vai, vai lá que ele ainda está deitado.” Encontrei-o sentado na cama, cabisbaixo. Não sei se tinha os olhos fechados, mas todo o rosto olhava o chão, a tijoleira tão gasta. O cajado ainda estava encostado à cabeceira. Levantou a cabeça só o suficiente para me dar um sorriso pálido. “Então, avô? O que se passa hoje?” “Filha da minh’alma...”, começou, com a voz triste. “Às vezes entra-me uma paixão pelo organismo...” Foi quanto bastou para me fazer rir, ele olhar para mim, os olhos sorrirem-lhe e passarmos adiante. Para mais aquele dia.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Dia de Natal

O Reboliço está enroscado ao pé do lume – junto à base da lareira, a barra cor de sangue de boi. Dormita ao vuruvuvuruuuuuvuruuru hipnotizador do fumo a gastar o madeiro. Só não entra no sono profundo porque os troncos mais finos, o musgo seco e alguma carapaça de insecto estalam no meio da melodia das brasas. Do monte ao lado vem o cantar de um galo, temporão, a despedir-se da perua e dos gansos que, debaixo da mesa de pedra do quintal, aguardam embebedados a panela ou o tabuleiro.
De fora, o moinho fita tudo isto, indiferente aos dias que são, às pessoas que há e às que não estão. Já viveu quantos natais?, quantas festas? Agora tem no começo do socalco um letreiro branco com letras negras: “propriedade privada”. Isso, sim, é novidade e estranheza – coisa feita para enxotar algum casal a querer encostar o namoro à parede branca. É do moinho ou do Reboliço, a indiferença?
Atrás da nogueira (é jovem, mas tem já duas dúzias de ramadas cheias de folhas), o telhado da garagem anima-se com a bulha de três cães do vizinho, ao cheiro de rato ou coelho ali acoitado. Nem ouvem o “qu'é da rua!” a mandá-los para o outro monte. Latem, caçam, farejam, de caudas entusiasmadas e focinhos a brilhar.
(Hip-foto da panela de ferro ao fogo: Reboliço.)

“Quatro lumes tenho eu em casa,” diz a dona, ao telefone. O dono, sentado à mesa a olhar para o lume, cantarola: “Já lá vem nascendo o sol, lá das bandas do Algarve – ai, enganei-me, é a lua, que o sol não nasce tão tarde.”

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O Reboliço segue pela rua da Igreja acima, só ele na noite fresca a fazer soar as patinhas húmidas nas pedras da aldeia. Quando a rua se abre em largo e o largo se fecha em adro, vê a fogueira que os homens acenderam de manhã cedo, ainda um tronco imponente a aquecer-lhes as mãos, enquanto as mulheres assitem à missa. Da porta aberta ouve-se cantar:

"Entre as portas da Igreja
Está uma mulher cosendo:
Está cosendo a camisinha,
p'ró Deus-Menino em nascendo."

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Património protegido

O Reboliço pensa que há passadeiras com sorte.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

- Reboliço, tu já foste ao Louvre?
- Não, nunca fui. Já estive em Paris um par de vezes, mas faz-me espécie meter-me no meio de tanta gente.
- És um bocado tonto; eu cá gosto é de animação, de multidões.
- Assim serás tu, Luca. Eu cá é mais bolinhos em casa e chocolate quente. De preferência a olhar para os museus sentado de cauda quieta: visito o Louvre, o Prado, vejo o que andam a fazer no Metropolitan, no MoMA, que sei eu...
- Já percebi que sabes é pouco. Adeus, vou ver o museu do Poço Novo, que estão a crescer espargos ali naquele lado e agriões no outro, e quando lhes dá o sol aquilo é mais lindo que um Monet!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Uma noite bem dormida

(Foto do conjunto de lençolinhos de flanela, numa montra da cidade: Reboliço, a puxar os cavalos.) 

domingo, 19 de dezembro de 2010

O Reboliço é um nefelibata (40)

(Foto da "luz de milagres" do fim da tarde, visto do Palácio da Fonte da Pipa sobre o mar algarvio: Reboliço. Por hábito, pensa que os entardeceres mais bonitos acontecem em Outubro e em Janeiro. Este é dezembrino e foi milagreiro.)

sábado, 18 de dezembro de 2010

O Reboliço é um nefelibata (39)

Hoy vuelvo a la frontera -
Otra vez he de atravesar.
Es el viento que me manda,
Que me empuja a la frontera
Y que borra el camino
Que detrás desaparece - que detrás desaparece.

Me arrastro bajo el cielo
Y las nubes del invierno -
Es el viento que las manda
No hay nadie que las pare.
A veces combate despiadado,
A veces baile
Y a veces… nada - a veces baile y a veces nada.

Hoy cruzo la frontera -
Bajo el cielo,
Bajo el cielo.
Es el viento que me manda
Bajo el cielo de acero.
Soy el punto negro que anda
A las orillas de la suerte - a las orillas de la suerte.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O Reboliço é um sentimental

(Hip-foto da capa da melhor tradução para língua inglesa que conhece, da epopeia Kalevala: Reboliço, a fazer figas.)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Oh...

Saúde!

(O Reboliço anda ocupado.)
"Apesar, contudo, todavia, mas, porém,
As águas vão rolar, não vou chorar.
Se por acaso morrer do coração
É sinal que amei demais."

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Passarinhos e passarões passarão

O Reboliço gosta de se pôr à varanda, patas da frente sobre o parapeito, as de trás muito esticadas a dar-lhe altura, o focinho adiantado a cheirar o céu e as penas que vão ficando para trás do voo. Segue os movimentos aos pássaros, girando a cabeça e tentando não piscar os olhos quando o sol lhe dá de frente. Assim como gosta de lhes saber os nomes, os tamanhos, as famílias. Se possuísse fortuna, teria comprado um livrito de curiosidades como este. Como é pata-rapada, contenta-se, muito contente, com isto, isto e mais isto (obrigada, Maradona).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

- Luca, Luca, já viste o teu primo americano em chocolate?
- Hã? Quem?
- O Bo.
- Mostra-me lá.
- Boooh!

O Reboliço é um nefelibata (38)

(Foto da ave solitária no céu pós-pluvial desta manhã, sobre Faro: Carla Brazão, outra nefelibata. Mais nuvens dali, por aqui.)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A avenida no feriado

O Reboliço assoma-se à janela, a medo, por conta dos relâmpagos. Ver, vê muito pouco: mas o céu cinza-azulado, baixo como o tecto de uma cave, faz ressoar os barulhos à sua volta. Ouve a água no asfalto a saltar para um lado e para o outro dos pneus, quando passa um carro; ouve três ou quatro moços pequenos a jogar à bola nos intervalos das bátegas, aflitos por aproveitar cada minuto; ouve a missa na televisão da vizinha, a Dona Mimi que entoa os cânticos por cima do som da caixa e comove a desafinar. São sons muito limpos, muito claros, que os faz assim a água a brilhar no asfalto como o húmido no focinho de um cão e o baixo que o céu está.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Cantar nas obras

Além do ritmo temporariamente contagiante da cantiga dos Unit Four Plus Two, o Reboliço achou muito curioso ver as obras do que viria a ser o Barbican Centre, em Londres, como cenário de betão e barro.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Viajo porque preciso, volto porque te amo

Uma das coisas de que mais gosto em Viajo porque preciso, volto porque te amo é a voz do geólogo quando se exalta e foge do tom da estrada. É o que acontece à câmara: fora da estrada, soluça mas fica mais firme, sabe o que quer mostrar. Isso e as falhas tectónicas que se acumulam no caderno de viagem.

"Syntax was winning."

O Reboliço lê sobre as potencialidades da pesquisa electrónica aplicada à História e ao conhecimento da literatura e da cultura vitorianas. Pensava que não fosse tamanha novidade. Até os receios lhe parecem fora deste tempo; mas talvez, afinal, não seja assim.

sábado, 4 de dezembro de 2010

"L'angelo siammo noi"

(Foto da estrutura desenhada e arrumada no espaço por Carlo Scarpa, no início dos anos 50 do século passado, para exibir no Museu Regional de Palermo, no Palazzo Abatellis, o manto de lápis-lazuli de Antonello da Messina, a mão em recato e o olhar da Virgem que parece querer retardar a Anunciação: Reboliço, de um lado para o outro, de um lado para o outro.)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Parole palermitane




(Fotos de palavras sobre paredes, bancos e portadas no mais puro dos bairros palermitanos: Reboliço, a ler.)

Enquanto o Reboliço dormia,...

... o Castelo voltou a ser iluminado de bons espíritos, bailarinos e de graça!