segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Catalães

A propósito deste post e deste, e de outros que virão, e do Isa, e de tantas mais coisas, o Reboliço ficou todo contente quando descobriu que a Cotovia tem quase a sair o primeiro livro numa colecção de grande literatura catalã. Enhorabuena!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

FEVEREIRO

As nuvens são mais brancas, o céu mais puro.
Agora é tempo de morrer, que a vida se reforça.
O mundo, outra vez desperto perante o azul celeste,
pressente calidamente que deve ter um futuro
     - sempre o sonho que precede a força!
Os ramos da amendoeira sentem, sob a cortiça,
     um movimento suave e obscuro.

     O trevo já verdeja na ribeira.
Agora é tempo de morrer, que a morte não está em lado nenhum.
Tudo treme por não saber o que espera.
A neve soalheira resvala pela geada.
     As torrentes nutrem-se dela pouco a pouco.
Tudo é tíbio e anelante, como se avançasse o fogo
     da próxima Primavera.

Dourados meios-dias dos minguantes de Inverno!
Agora é tempo de morrer, que a vida começa.
Como um fogo invisível, maravilhoso, interno,
sob a terra nua palpita o grito eterno
     da larva, da raiz e da semente.
Era assim que os antigos, em jarras de rústica faiança,
guardavam o vinho de Falerno.
Fevereiro de 1937

(Màrius Torres, A Cidade Longínqua,
tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, OVNI, p. 33.)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A sexta descoberta

A editora OVNI, que de uma assentada põe em edição bilingue, em embalagens muito agradáveis (com uma ou outra pecha de edição, alas), dois autores catalães de Lleida, um ainda no activo e outro que teria feito cem anos a 30 de Agosto de 2010.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Os livros...

... são uns bichinhos irrequietos.

Trabalhar por prazer

(Hip-foto da paisagem que se avista do seu local de trabalho: Reboliço, back in business.)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"craters and crevices"

"That's what Shakespeare is: a vast, rugged mountain range with no Purgatorial terraces, no Garden of Eden at the summit, no celestial spheres hovering above - just the next peak and the next valley, up and down, across the ice and Arctic snow, through craters and crevices, across more ice and more snow, along forests and lakes, going and going and never getting there, wherever there may be."
(Robert Harrison, introdução a Entitled Opinions sobre King Lear,
com Stephen Orgel, transmitido a 19 de Janeiro de 2010.
Os programas podem ser descarregados na íntegra, gratuitamente.)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Flores no convento

(Hip-foto de pormenor das portadas do coro alto do Convento dos Cardaes, de onde as freiras assistiam à missa: Reboliço, a passar a pata pelo lacre e a sentir a diferença entre as flores da chinoiserie, o vermelho e o negro.)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Em se pondo a cismar numa coisa,...

... o Reboliço não a larga. O que não faz aos ossos que lhe atiram e despreza faz às ideias em se pondo a cismar. Cismou que o melhor modo de evitar o gerúndio é amá-lo, tratá-lo com justiça e usá-lo como se fosse rara jóia. Abominado, odiado, vilipendiado, o gerúndio é uma pedra não talhável: só acha lugar muito de quando em quando, se aparece um vazio particular, que a frase não consegue sofrer.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Noche transfigurada

Me voy para el conventillo a bailar una milonga -
me voy de farra mistonga, ya me esperan los chochamus.
Alli estan todos los fiolos que la farfala celean,
ya me esperan los gomias con ganas de milonguear.
No se si voy a llegar, si no me queda ni un cobre.
Algun culo va a sangrar, yo se que voy a llegar...
Y al salir ara al calle me encontre con cierto gil
que justo me vino a pedir a mi, a mi que estaba tan duro,
y para colmo me asalto y me rompio la nariz.
Asi termina la historia de una noche transtocada:
ni gomias ni farfala, ahora me voy a dormir -
pero antes de ir a la cama, me voy a arreglar la nariz.
(Daniel Melingo, milonga em lunfardo, aprendida aqui.)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Opúsculo derradeiro

O último dos Opúsculos da Dafne, o que encerra a colecção, está desembarcável desde hoje. Traz uma colaboração envenenadinha de yours truly. Aparece a público porque o autor de Autorismos, Pedro Baía, deve ser muito boa praça e ter uma paciência de santo. Por isso e porque o editor e responsável pela Dafne, o provocador André Tavares, persiste na vontade de pôr pessoas a conversar, mesmo se - e principalmente se - tiverem coisas contrárias a dizer umas às outras.

Palavras no convento


(Hip-fotos da legenda, com palavras de Maria Madalena a Cristo, a dizer-lhe que não é digna, num quadro por datar, numa das salas; e do sinal de canalização no pátio do claustro grande, com o artigo dito ao jeito do Brasil: Reboliço. Ouve dizer, à voluntária que guia a visita ao Convento dos Cardaes, que os visitantes são quase todos estrangeiros, que poucos portugueses, poucos lisboetas, conhecem os claustros, a capela, o coro-alto, o refeitório. O Reboliço, que já perdeu a conta às vezes que visitou o Convento, sorri e goza o passeio. É a primeira vez sempre que lá vai.)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Oh...

***

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Os dedos acastanhantes dos dias

O Reboliço pensa que gente como os pintores, os escritores, cantores e outras dores, não deveriam morrer nunca. Deixam cá tanto que fazer...

Os dedos cor-de-rosa da Dona Aurora

(Foto da aurora meridional há umas duas semanas: Carla Silvestre, coradita. O Reboliço olha para a chuva, para o plúmbeo baço que virou o céu, e vive de saudades.)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

"Ogni testo è contemporaneamente la partita giocata e le regole da giocare." (post dedicado)

E na xícara a fenda abre
um trilho para a terra dos mortos.
(W. H. Auden)

... como quando uma fenda atravessa uma xícara.
(R. M. Rilke)

Recebo de ti esta xícara
vermelha para beber nos meus dias
um a um
nas manhãs pálidas, as perlas
do longo colar da sede.
E se cair a partir-se, quebrado,
eu, de compaixão,
pensarei em repará-la,
para prosseguir os beijos ininterruptos.
E a cada vez que a asa
ou o rebordo se quebrem
voltarei a uni-los
até que o meu amor complete
a obra dura e lenta do mosaico.
~
Desce pelo declive
cândido da xícara
pelo interior côncavo
e luzente, como relâmpago,
a fenda,
negra, fixa,
sinal de um temporal
que continua a troar
sobre a paisagem sonora,
de esmalte.
(Valerio Magrelli, pp. 66 e 68 da edição bilingue. Tradução minha.
O título do post é uma frase do autor na entrevista ao Circolo Culturale Albatross.)

Que inveja tens tu às rosas?

(Hip-foto do primeiro jarro envergonhado atrás da rosa de pétalas a roçar a morte: Reboliço, a observar o despique. Lembra-lhe o cante do verso que soa "Qu'inveja ten' tu airrosas".)

Oh...

Sombras em retícula e zut!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Natureza morta e pendurada

(Hip-foto da casca de laranja, já comida ao sol da manhã, sobre a parede do quintal: Reboliço, regalado.) 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A promessa

Oh boy, oh boy, oh boy! O Reboliço não cabe em si de antecipação.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Temporariamente grátis

O Reboliço deitou-se tarde e feliz: o álbum novo de P. J. Harvey está escutável online, à borla até dia 15 deste mês, a partir da página da NPR.
(Já tem duas favoritas: "Bitter Branches" e "The Colour of the Earth", ou não fosse o Reboliço um canito dado às coisas da natureza.)

La Celestina

Mi hija, quédate conmigo un rato
¿Por qué andas arrastrando esa desdicha?
Espérame un momento y te desato
Pero, ¡qué enredo te has puesto, muchachita!

¡Qué amargos son los hechos que adivinas!
¡Qué oscura es la ronda de tu recuerdo!
Y en cuanto a tu corona de espinas:
Te queda bien, pero la pagarás muy caro.

Con tu mirada de fiera ofendida,
Con tu vendaja donde herida no hay,
Con tus gemidos de madre sufrida,
Espantarás a tu última esperanza.

Haz de tu puño algo cariñoso,
Y haz de tu adios un ¡Ay mi amor!
Y de tu ceño una sonrisita,
Y de tu fuga un ¡Ya voy! ¡Ya voy llegando!

Mi hija, ¡qué pena me da de verte!
Dejando olvidado a tu cuerpo
Muy lista, pobre boba, a dedicarte
A la eterna disección de un pecadillo.

Mujer desnúdate y estate quieta
A ti te busca la saeta,
Y es el hombre, al fin, como sangría
Que a veces da salud y a veces - mata.
Y es el hombre, al fin, como sangría
Que a veces da salud y a veces - mata.
(Versão de Lhasa de Sela a partir da personagem-vórtice da Tragicomedia de Calisto e Melibea)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

"orthographia sem ípsilon"

Até um cão tem o direito de pensar em definitivamente se negar a ingestão de suplementos literários em que aparecem frases de abertura como "Se há alguém o epíteto de 'escritora emocional' cabe bem é a Edna O'Brien" ou destaques, no mesmo artigo, que assinalam a publicação em Portugal do "primeiro e último romance de uma autora cuja carreira já vai em 50 anos" - a escrever o mesmo romance, com certeza. Irra!
(O título deste post é uma citação do fragmento 259 do Livro do Desassossego de Bernardo Soares.)

Biutiful

Uma das coisas de que mais gostei em Biutiful foi ver personagens a ganhar alma. Bea, Ige (Ige!), Ana, Liwei, Uxbal, Li: são nomes de gente. Não são nomes de gente de verdade, que o filme não é um documentário*; são nomes de entidades inteiras, personagens cheias, insufladas por actores impressionantemente dirigidos, enquadrados, fotografados, integrados na narrativa. Disso, de ver que o mesmo mar de tela é diferente consoante o olhar que o capta seja de um Oliveira (no Enigma de Colombo) ou de um Iñárritu (com o peixe de Gehry ao fundo), e de ver nele, no filme, o Ordet recontado aos contemporâneos. Já se sabe que uno ve en las películas lo que uno quiere ver en las películas.

*Ainda que possa ser confundido com documentários, por tratar de chapa aquilo que entra pelos olhos de quem hoje passa numa qualquer metrópole europeia, ou por adoptar maneirismos de câmara típicos de alguns documentários - mas o ponto não é esse, e por não ser esse o ponto não é um documentário.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Reboliço colecciona calendários (20)

(Foto do pano de louça sobre tijoleira: Reboliço, ao olhinho dos últimos raios de sol.)
- Reboliço, de onde é que vem o mel?
- Vem da garganta doída, do nariz entupido.
- Ah... Pensava que era das abelhas.
- Não, Luca. Não é, vês: dói-te a garganta, tens o focinho entupido, aparece o mel.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Tangerinas!

(Foto: Marcelo Jasmim. Fechados do lado de fora do moinho, o Reboliço foi à tangerina com a M. e o M. - o gosto que lhes deu colhê-las, mesmo sabendo que não se iriam comer todas, e descascar uma ou outra, trincar os gomos, cuspir os caroços! O pai bem lhe disse que não faz falta tirá-las da árvore, que se aguentam meses sem se estragarem e já não virá chuva que dê cabo delas. Mas então...)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Reboliço é um nefelibata (42)

nuvens noitiluzentes no espaço sideral. Nuvens noitiluzentes siderais.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O celeiro da casa Roca (post dedicado)

(Diz-lhe um bom crítico que não abuse dos adjectivos. Diz-lhe o bom senso que não use palavras para aquilo em que não são precisas. Teimoso, o Reboliço usa-as precisamente quando não fazem falta. Não conhece a contenção, nem em tempo de crise - ainda lhe há-de custar o pêlo, mas o gosto da língua com que se lambe não morre depressa. Ou, como diria Alan Shore a Denny Crane, também sem precisar de lho dizer, Live big, my friend. Live big.)
 
Há uns dias abalou para terras remotas e, quando deu por si, estava a uma mesa, toalha branca e três pedras cinzentas no centro encostadas umas às outras. Nada de tempo depois, no lugar das pedras apareceu, como se tivesse nascido ali de repente, uma oliveira anã: dos ramos dela penderam dez azeitonas caramelizadas, recheadas de anchova. O Reboliço colheu cada uma das duas que lhe calharam, mordeu-lhes a pele, virente pele, por baixo do caramelo - só doce o suficiente para ser tarrincado e se dar por ele -, apaladou o peixe escuro, foi engolindo devagar. Pensava que não era aquele um sítio para se lembrar da comida de casa: ali faziam coisas como gelificar, reduzir, emulsionar. E pur... as azeitonas, o primeiro sabor que lhe tocava na tabela do jantar, eram azeitonas conhecidas e boas.
Quando lhe puseram à frente uns rectângulos de lenho, retalhos de rede de pesca por cima a dar cama a espinhas de anchova (espinhas!) em polme de tempura de arroz, franziu o focinho. Que as comessem a Misha e a Pelota, que era lá isso de espinhas! Nada - foi-se o focinho desfranzindo, o faro aguçando, mais a curiosidade, não tardou a pegar no petisco e a deliciar-se. Ao seu lado, atrás de si, sempre aparecido não se sabia de onde, o sardo Davide, de serviço à mesa, falava, falava, falava... Contava de como aquela língua castelhana em que falava não era a sua, nem essa nem a catalã; que nem sequer o italiano era a sua língua - que a sua língua era o sardo. "E sabes, Reboliço, 'Sardenha' quer dizer 'a terra dos filhos das estrelas,'" contava, de olhos a brilhar como os astros do céu, enquanto trazia as magias dos Roca. Vestiu mesmo casaco de mágico, cartola e varinha, quando trouxe os bombons Bellini, de cava rosa com o tradicional licor de pêssego e pedacinhos de folha de ouro no topo: "Não percam tempo a admirar as esferas cor-de-rosa, que dentro de uns segundos elas desaparecerão, na vossa boca ou fora dela." Nhac!, fez o Reboliço, abrindo a boca e fechando os olhos. Nhac!, fez a bola de licores e bolhas da cava entre a língua, o céu, as paredes da boca toda. "Ofertas da casa," ia dizendo Davide. Pois sim, oferendas. Canções de sereias, silvos de serpentes.
Veio uma panela meio de louça meio de metal, com tampa que aberta mostrou um vapor de cheiro a nabo. Cheirava ao cozido de casa, mas trazia na parte de metal, sobre um reticulado miúdo, uma cestinha feita de massa de trigo, encerrada em brioche onde se escondia a trufa negra, presumida a fumegar. Não durou nada, nem o caldo de legumes e vitela que servira o vapor para amaciar a bola de farinha.
Já os risos iam altos, as maçãs dos rostos a encarnarem ideias amorosas, quando chegaram, dentro de colheres de cabo torcido, uns óvulos de amarelo-escuro que o sardo apresentou como tortilhas de caviar. O V., saído de dez dias de festival gastronómico e difícil de contentar, já se rendera às surpresas: forma, cor, cheiro, remoinhava tudo e tudo se entranhava nas papilas em muitos pensamentos de bondade e prazer. A G. posava para um retrato quase erótico, só olhos fechados e mais nada, e o Reboliço ganhava medo - como diabo se escreverá isto?
É que as palavras das conversas iam ficando escassas. Repetiam-se adjectivos, os temidos, os temíveis. Vinha com a tortilha de caviar um parfait de pombo com pinhões, xerez e pão de especiarias, vinha, a mais pedidos, o pastel folhado de azeitonas; vinham, dentro do vidro cortado ao meio de garrafas de Kripta, as ostras - estreia do M. nas ostras -, com a estranha folha que sabe ao marisco, mais batata verde, gengibre, tudo  coberto com cava, lá está, gelificadinha como manda a sapatilha gourmet e como ganhou o título de prato do ano em 2006. Veio um royal de chip de alcachofras com foie em azeite de alcachofra e redução, lá está, de sumo de clementina. O Reboliço viajava pelos sons das palavras não menos que pelos sabores, queria lá saber de escrever. O sardo falava, falava, falava, prestava-se aos retratos, amigável, pois não...
O linguado selvagem, a la brasa amb sabors del Mediterrani, foi prato de 2009. Os sabores do Mediterrâneo eram cinco emulsões que vinham em mancha no prato a ladear à esquerda o lombo do peixe. O sardo Davide ensinava que se comesse o linguado acompanhado de cada emulsão, partindo de baixo para cima, sempre a subir no prato e no céu da boca. Uma era de funcho e trazia dele uma minúscula folha fininha; a segunda era de bergamota e vinha enfeitada com uma pétala, pequenina, de flor de jasmim; a do meio era de laranja e no meio dela vinham pedacinhos da casca; a penúltima era de pinhão e lá trazia um pinhãozinho quebrado; a excelsa, de azeite de azeitona verde, tinha no meio uma lágrima caramelizada, uma esfera transparente, um caramelo, muito redondamente gelificado, de azeite. O Reboliço já não cabia em si e não era só de contente. Ficava-lhe curta a pele para tanto gosto.
Veio a seguir a escudella de bacalá. Foi prato do ano em 1998 e não se lhe notou nenhuma ruga. A escudela, que se refere ao recipiente pobre em que por tradição se preparava um caldo de carne e enchidos de porco, é como a cataplana: deixou de ser continente, passou a ser conteúdo. Dizia o sardo que o bacalhau nem sequer é grande invenção para a escudela: que nas casas mais remendadas da Catalunha a preparavam com o que houvesse, e se o que havia era o peixe da salga era esse que entrava na panela (por uma ordem certa, como ensina a tia de Concha em Pedra de Tartera). No Celler ajeitaram a coisa como se fosse à pobre: bacalhau e gnocchi de batata, pedacinhos da tripa do que nem é carne nem é peixe, mais uma emulsão, pois é, das espinhas do bicho (que fixação!, pensa o Reboliço, e faz uma reza à lembrança das gatas).
Fora do menu, escolhido pelo V. e pelo M., o bife tártaro com gelado de mostarda foi o pico da noite, no bom e no mau sentido - foi o que introduziu "excessivo" na lista, e não estragou a refeição porque veio pela cobiça do cliente mais do que pela ambição do cozinheiro. O Reboliço sonha ainda com a carnica em sangue, a ternura da sem nervos, a vermelha maravilha temperada: acompanhava de vários molhos e o sardo Davide lembrou o ritual de comer de baixo para cima, da parte mais próxima do prato até à que se virava para o centro da mesa. O primeiro, o molho béarnaise; a seguir, um de tomate temperado com especiarias e uma compota já não se lembra de que fruta; o outro, de praline de avelãs e passas recheadas de xerez oleroso; o último, de geladinhos de mostarda com as folhas da erva. Sobre a carne, apareciam uns pufes, coisa inchada de batata com sabores a cebolinho e a caril. Entre outros, que não escondiam nem por um segundo o gosto do bife. Mais carne veio depois, um cochinillo que o sardo descreveu como tendo sido cozido a baixa temperatura nos seus sucos, com melão e cebolinho. Tinha um perfume de carne fumada, a pele crocante e a capacidade de ficar na memória da língua até ao fim da vida de um cão.
Reboliço, Reboliço, que fartura... E os líquidos, para não embaçar? Houve líquidos - terminaram num chá de hortelã de agradecer a algum espírito da terra que faz crescer tais ervas. Começaram num cava das caves de Agustí Torelló Mata (a mesma marca do Kripta que inundou as ostras), foram por um Ferrer Bobet branco, néctar do Priorado, de 2007; o tinto era o Terra Remota de 2008 e para as sobremesas, para terminar em bom, o bom sardo Davide trouxe um luso Taylor Fladgate, Late Bottled Vintage, de 1995.
O Reboliço foi ficando tonto e não era só da bebida: bom nefelibata que é, serviram-lhe uma nuvem de limão, sonho de leite gelado com chantilly de limão, baunilha, manteiga de avelã e granizado de casca de limão. Nuvens de limão, nuvens de limão, nuvens de limão...
Antes dos bombons que fecharam e do chá, veio para a mesa aquilo a que o sardo chamou a desconstrução da baunilha: soube o Reboliço que os seus quatro sabores básicos são o caramelo, a regalessia (coisa que, em rebuçados licorices, abomina!), o cacau e as  azeitonas pretas. Foi uma baunilha doce e salgada ao mesmo tempo, que, apesar da barriguinha cheia, do satisfeito que estava, fez lembrar ao canito regalado o bonsai do início da noite e o fez querer que tudo começasse outra vez.

(Foto e hip-fotos: Reboliço. O Reboliço viajou com o apoio da G., da M. e do R., da  M. J. e do F.; ficou alojado com o apoio do I., do M., do H., da M. e da P.; assistiu a Pedra de Tartera, versão de Marc Rosich para o TNC, com o apoio do I. e do M.. Por isso tudo, por muito mais, está agradecido.)

O que estará...

... uma fotografia da exposição Weltliteratur a fazer na crónica de Eduardo Coelho sobre poesia de Leonardo Gandolfi? Aparece na página 23 da Ler de Fevereiro e, se tem indicação do autor (Pedro Loureiro), nada há que indique o porquê de ilustrar aquelas colunas de texto.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Oh...

Lá foi Milton Babbitt, a entoar música aos pinchinhos.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Livro novo


(Fotos da capa e da página de abertura de Moinhos e Azenhas de Portugal, de Fernando Galhano, edição da Secretaria de Estado da Cultura e da Associação Portuguesa dos Amigos dos Moinhos, Lisboa, 1978: Reboliço, agradecido à Dona Renata e à Feira da Ladra.)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Não me interrompam agora.

 (Auto-hip-foto: Reboliço, a ler.)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Nos braços do sono

Na manhã pequena, o zingarelho toca as músicas que quer. O Reboliço ergue as orelhas quando ainda está nos braços do sono e ouve, mesmo sem escutar, "Ich bin so lang nicht bei dir gew'st" - ou seria "Kraut und Rüben haben mich vertrieben, / Hätt' meine Mutter Fleisch gekocht / Wär' ich länger blieben"?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A quinta descoberta

Gerald Murnane (via Philip Tyndall, via André Dias). O título do seu segundo livro de "ficção verdadeira" é A Lifetime on Clouds. Escreve sobre imagens do seu pensamento. Nuvens e imagens no pensamento.

Céu limpo

(Foto de uma das muitas amendoeiras floridas no caminho do Alto do Relógio e das Várzeas da Goldra: Reboliço. Nesta, como noutras, vêem-se frutos do ano passado, ou mais antigos ainda - a marca do abandono que, de bocas assim rosadas ridentes ao sol, parecem negar.)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

- É como te digo, Luca: eu a gozar o prato do Ricky Gervais, a ver naquilo o renascer das "Celebrity Roasts" de boa memória youtubina, e afinal parece que houve actores que levaram a coisa a peito, até tomaram para si as críticas que se faziam às personagens. Amuaram.
- Não posso crer, Reboliço!... Está tudo doido.
- Diz que não o querem lá de novo nem nada.
- Outrageous!

O Reboliço é guloso

(Hip-foto do bolinho feito pela mãe com farinha Rodrigues, de um moinho de Turquel [zona de Alcobaça], sobre prato do Sr Fortuna: Reboliço, de faca na mão e a pensar que o azevinho aparece quando um canito quiser.)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Guts!

Depois de o Smithsonian ter retirado da exposição "Hide/Seek: Difference and Desire in American Portraiture" o vídeo de David Wojnarowicz "A Fire in My Belly"; depois de se levantarem vozes contra as vozes republicanas que tinham levado ao acto de censura, o Museum of Modern Art de Nova Iorque comprou a obra para a sua colecção permanente. Fogo no ventre - é assim que está certo.
Adenda: A questão vista desde a margem europeia da banheira atlântica.

Para quem anda saturado de nevoeiro

(Foto da amendoeira - remendada, nem é das mais opulentas - no jardim do Liceu de Faro: Reboliço, esta manhã. Vês como o céu tem estado? Azulzinho, um farrapo de nuvem quando muito, sol a fazer rebentar as flores.)

O Reboliço colecciona calendários (19)


(Fotos do calendário da Casa Romero, com lista de contactos de cinemas e teatros de Lisboa, quando os números de telefone tinham cinco ou seis dígitos: Reboliço, a passar a memória em revista.)

domingo, 16 de janeiro de 2011

sábado, 15 de janeiro de 2011

Paciência...

- e cara alegre!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Dust devil

(Fotos do espojinho que a 20 de Setembro de 1987 passou na aldeia, deixou casas destelhadas, as galinhas desorientadas por verem sumir-se as paredes dos galinheiros, oliveiras destroncadas e um novo nome para o Alves Delgado, que veio a chamar-se Astronauta desde que o tornado o fez voar de um quintal para o outro na rua de trás da avenida: Álvaro Nobre, actual presidente da Junta de Freguesia. Obrigada à tia M. e ao JM pelas informações.)
- "Astronauta"?, ri-se a Luca.
- "Astronauta", Luca. Aquilo foi o demónio e ele andou no espaço, sabes?)

sábado, 8 de janeiro de 2011

A terceira e a quarta descobertas

O Reboliço ri-se a bandeiras desfraldadas, despregadas, a fazer barulho de tecido forte enquanto flutuam ao vento e os relâmpagos acendem o escuro da rua: imagina Paul a fazer de Frodo Baggins, Ringo de Sam Gamgee, George de Gandalf, e John de Gollum. Houve cartazes e tudo. Recuperado o fôlego do riso, senta-se sossegado e hums.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Oh...

O seu nome tinha muitos desenhos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

7

Um pouco ao acaso ia seguindo
contando à sua roda os lugares vagos.
Tinha desaparecido o vento.
Nas margens via os juncos crescer e

as sagitárias.
No ar a roda dos pinheiros bicos-cruzados
cinzentos.
No mar cardumes de sardas brilham

à passagem das ondas.
Na falésia vê uma cobra e não conseguiu
matá-la.

O campo
distribui-se por prados e bosques.
Os dias passam tal como o ano passado.
(João Miguel Fernandes Jorge, Actus Tragicus, Lisboa, Presença, colecção Forma, 1979, p. 22)

Oh...

Lá vai um actor para as estrelas.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A segunda descoberta

O Reboliço fecha os olhos e viaja. Vai para lugares que têm peixes grandes, olhos a olhar para outros olhos, remédio de se estar perto de alguém. Vê criaturas em submarinos amarelos, submarinos cinza, enrugados, submarinos-tubarão. Dança, dança, dança, dança com gorillazzzzzzzz, adormecido e a sonhar com praias de plástico.

sábado, 1 de janeiro de 2011

O Reboliço é um nefelibata (41)

(Foto da nuvem à roda do palco da dança de começar o ano: Carla Brazão, a molhar os pés na ilha de Faro.)

A primeira descoberta

O Reboliço acorda cedo, espreguiça-se e fareja a casa toda, à espera de cheiros novos. Foi-se a chuva, o vento é pouco, o sol quase queima. Sai à rua e, sentado no poial - como os outros cães -, descobre os passeios de Vivian.