quinta-feira, 31 de março de 2011

The bard...

... abides.

terça-feira, 29 de março de 2011

(Post de aniversário: as Cartas começaram faz hoje seis anos.)

O parapeito da janela da cozinha fica a menos de um metro do chão. (Um dos ladrilhos esteve muito tempo solto, fazia um clique reconfortante debaixo dos pés, como se dissesse "estás bem, é por aqui".) O parapeito é de madeira, de uma madeira que o vidro magnetizou e me puxava até si de cada vez que entrava na cozinha. Quando comecei a assomar, sem esforço nem banco, os olhos para lá do vidro, conseguia ver desde o mar, uma linha direita e iluminada mesmo nos dias de nuvens baixas. Durante alguns anos era só cortada por três ou quatro torres em Quarteira, outras duas ou três de Vilamoura, que se foram unindo umas às outras com mais torrezinhas pelo meio, até não se distinguir onde começavam e acabavam as duas vilas e ser completa a separação entre mar e terra. Daí para cá, também durante muito tempo, foi a massa suave de verde - que em Janeiro as amendoeiras branqueavam - e o maciço também doce do Cabeço de Câmara (lembro a voz da Sra Virgília a apontar e a ensinar-me o nome do cerro), que veio a ser traçado pela Via do Infante depois de meses de dinamite para deixar passar as luzes que nunca mais pararam de passar, para Barlavento e para Sotavento. De dia é ainda essa massa suave: hortas de árvores baixas, valadinhos de pedra; mas de noite há um pontilhado de luzes a denunciar as casas que foram cogumelando por ali. Daí para cá, o limite da cidade, que era vila, ficava no palácio da Fonte da Pipa, que hoje quase não se distingue das construções novas que alargaram Loulé. Daí para cá, já próximo, via-se a clarabóia de uma casa onde o pai ficara uns dias, ou uns meses, antes de nos mudarmos para este 6º andar. E, a dar sentido a tudo, como uma rosa dos ventos, estava a rotunda. Não era ainda esta fonte com figuras de ferro sobre uns arcos e a água - era uma larga moeda verde só com um poste de luz a sair-lhe do meio, onde os cães se passeavam sem donos nem dó da relva.
Para a esquerda da rotunda, para Sudeste, ficava uma loja de ferragens, escadotes, baldes e outras drogas, onde, no tempo deles, ainda aparece à porta uma caixa de dióspiros (fica o cenário da janela todo concentrado naquele laranja forte e maduríssimo), e por cima da loja a varanda do Ateneu; para cá, do lado Nordeste, ficam ocultas as portas e as lojas. A Noroeste é a esquina da Caixa Geral, mesmo antes do café e da esplanada da Havaneza Louletana; do lado oposto, o mercado, a praça. Entre a praça e a loja de ferragens está a frente de lojas mais visível da janela da cozinha: o estaminé do totobola (se a falhada memória não me falha, houve ali uma barbearia), a pastelaria Amendoal (das últimas a usar a rareante amêndoa algarvia) e a drogaria Liz, da Dona Liberdade e do Sr. Rodrigues, esses de memória boa, que desde há uns meses é uma sapataria deslavada, tem as portas mudadas em montras e a montra única mudada em sacrílega porta de entrada - pisa-se precisamente onde se levantava a pedra com o signo e o nome de Liz, que sustentava o vidro alto da montra.

(Aguarela de Loulé desde o parapeito da cozinha: João Soares, 1991. Da fase, como ele diz, aguarelal.)

As avenidas que confluem nesta rotunda têm os dois lados ligados, ao seu início, por passadeiras. Como são avenidas largas, as quatro passadeiras são duplas: a meio, têm todas uma pequena pausa de cimento entre canteiros de relva e flores. (Aos Sábados de manhã, quando a gente era muita a ir à praça, um polícia sinalizava as vezes de passarem carros e pessoas e inventava com o apito engarrafamentos de gente.) Eram esses intermédios passadeirais o palco preferido da Maria das Bananas, quantas vezes teimosa em cima da relva. Era cantora de muitas vozes, vozes de homem e vozes de mulher, que soava horas a fio conversas entre Deus e Álvaro Cunhal, entre Ramalho Eanes e Jesus Cristo, entre a fé e a euforia nacional. 
Quando me assomava, às primeiras horas da manhã, agarrada ao pão com doce ou à caneca de leite, já ela cantava. Cantava ou dizia, dialogava, trialogava, fazia dramas completos e para cada personagem havia uma voz diferente: todas potentes, lançadas desde seis andares abaixo, meio quarteirão de prédios, toda uma rua até à rotunda, donde subiam. Vinha de roupa garrida - nunca se viu com nada que não fosse vermelho rubro, verde forte, amarelo. Eram as cores da bandeira do país, quando não a própria bandeira a fazer-lhe de xaile. (Em panos dignos, que ainda não houvera o Euro nem havia a essa altura em Loulé lojas dos chineses.) Vinha de vermelho e verde e punha-se a cantar o dia inteiro. O meu jogo era, quando não a via do parapeito da janela, tentar adivinhar de onde cantava, por algum eco das casas que circundavam a rotunda. Ouvia-lhe a voz muito clara, possante, muito distintas as palavras trocadas entre os seus cantores de dentro, e ela muito distinta a dar-lhes voz. De perto, se passava por ela na ida ao pão, via brilharem-lhe os olhos pretos, que quase nunca fechava a cantar, via-lhe o buço forte a sombrear o sorriso que só sabia passar a risada, jamais à curva descendente do choro.
Nunca a vi como matéria fotografável. É certo que não andava - não se andava como hoje - de máquina fotográfica em riste. A turistama sim: vinha preparada, achava graça à figura, e snap-snap-snap. Mostraram-me há dias duas dessas fotografias. Aparece de bermudas, de turbante, cores garridas. Não a via talvez desde 1986, a data dessas imagens. Mas não se lhe vê nelas o que tenho aqui dentro, na memória: o crucifixo de madeira, a moldura ao peito, com o retrato que uns dias era Cunhal e outros Cristo.

(Adenda, em 2020, a partir de grata informação de João Romero Chagas Aleixo: a drogaria do Sr. José Rodrigues e da D. Liberdade abriu em janeiro de 1938 e foi a primeira casa comercial, na então vila de Loulé, a ter telefone - foi 7 
o seu primeiro número.)

sábado, 26 de março de 2011

Moinhos na poesia (33)

"GOSTO MUITO DE MOER"

Gosto muito de moer. Se pudesse, passava a vida a moer.
Vou moendo com entusiasmo.
Durante muito tempo não tive sequer moinho, uma família sem
moinho:
Huhh!
E então costumava dar-me com uma Garota, só para ver um moinho.
Moinho de nozes ou de carne, mas ela não me deixava usá-lo. Em casa
eu moía lápis, quer dizer, afiava-os, mas apesar de me dominar gastava
por dia um ou dois lápis. Mas isso não era nada, eram só
lápis, e não carne. O lápis não é carne.
Só lápis.
Moer lápis é um sucedâneo. Um substituto.
Como eu era infeliz, um escuteirinho triste.
Agora já tenho moinho.
Tenho vários, mesmo muitos. Ou seja, só tenho moinhos. Com
entusiasmo
vou moendo com eles ou posso moer.
Ou moí, mas já moí de tudo.
Huhh!
Esforcei-me por moer devagar, devagar mas como deve ser.
Agora vou moer moinhos.

(Endre Kukorelly, Um Jardim de Plantas Medicinais, Trad. colectiva [Abril de 1995] revista, completada e apresentada por Fernando Pinto do Amaral com a colaboração de Mária Démeter, Quetzal / Poetas em Mateus, 1997, p.20.)

quarta-feira, 23 de março de 2011

Oh...

La-la, La Liz!

segunda-feira, 21 de março de 2011

Bem-vinda

(Hip-foto de um paninho às flores: Reboliço, fresco.)

3.

Não sei que horas são no teu relógio.
No meu é cedo/tarde - está parado
vai fazer uns vinte anos. Não importa,
pois as coisas vão e vêm, e de novo

se levanta o mês de Março nesta era
da ironia, com seus truques estafados
e promessas desfolhantes. Juntamente,
tudo passa e tudo volta, mas diverso.

Só por isso, justamente, tem piada
estar aqui, abrir os olhos, conferir
ainda e sempre, na vitrina da manhã,
a produção da Primavera.
(José Miguel Silva, Erros Individuais, 2010, p. 13.)

domingo, 20 de março de 2011

CIANT DA LI CIAMPANIS (CANTO DOS SINOS)

Co la sera a si pièrt ta li fontanis
il me país al è colòur smarít.

Jo i soj lontàn, recuardi li so ranis,
la luna, il trist tintinulà dai gris.

A bat Rosari, pai pras al si scunís:
jo i soj muàrt al ciant da li ciampanis.

Forèst, al me dols svualà par il plan,
no ciapà pòura: jo i soj un spirt di amòur

che al so país al torna di lontàn.

Quando a noite se perde pelas fontes
a minha terra ganha mistura de cores.

Estou longe de lá, lembro-lhe as rãs,
a lua, o triste cri-cri dos grilos.

Toca para o Rosário, ecoa campos fora:
estou morto para o som dos sinos.

Forasteiro, o meu doce esvoaçar pelos campos
não temas: sou um espírito de amor

que à sua terra regressa de longe.

(Pier Paolo Pasolini, Roman Poems, City Lights Books, San Francisco, 1986, edição bilingue, tradução inglesa de Lawrence Ferlinghetti e Francesca Valente, p. 142. Versão portuguesa: AIS.)

quinta-feira, 17 de março de 2011



O chão que se pisa

O Reboliço ouve a alguém da Califórnia, nem sequer de uma cidade sobre a costa, dizer que comprou ontem os últimos 80 litros de água que havia à venda no WalMart. É capaz de ser fácil achá-los loucos, quando se pensa desde este lado do mundo, quando se pisa um chão que está quieto e se respira um ar aparentemente limpo. É capaz. O Reboliço vai seguindo duas pistas, entre as não oficiais, que lhe parecem bem informadas, sérias e to the point: a Kyung Lah, da CNN, que twitta desde o Japão, e a Xeni Jardin, do Boing-Boing, a escrever desde, precisamente, a Califórnia. Além de informarem em cima da hora, incansavelmente, pensam sobre o que escrevem, sobre o que lêem. Jardin reflecte, de 140 em 140 caracteres: (1) Concern is appropriate. Neither panic nor "this is trivial" are. (2) Just bcs it "reads good," strikes emotional spot you're hoping to have massaged, doesn't mean is accurate or written by a nuclear scientist. (3) Here's a bit of advice for those feeling empathy/helplessness: RTing+reblogging things frantically without checking sources? Not helpful.
(O Reboliço vai seguindo e vai sentindo uma mágoa profunda por ver que não há paz para se lamber feridas. Not enough peace for soaring.)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Versos a um cão

Que força pôde adstrita e embriões informes,
Tua garganta estúpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solidões enormes?!

Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar
Dos teus antepassados vermiformes.

Cão! - Alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais...

E irás assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da angustia hereditária dos teus pais!


Obrigada, Mulher!

terça-feira, 15 de março de 2011

A escrita a produzir pensamento

(Foto da página do Financial Times, com artigo sobre o Strunk & White e o mais recente Fish: Reboliço, agradecido.)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Livros caídos

O Reboliço lembra-se vagamente dos versos de uma cantilena que deve ter lido nos tempos da Escola Primária: "doía a lombada a um livro em rebuliço com os mais." Vêm-lhe à cabeça essas palavras e a ideia da dor dos livros caídos com o tremor de terra.
(Cartaz de James White para a campanha de ajuda ao Japão.)

domingo, 13 de março de 2011

Filme do Desassossego

Uma das coisas de que mais gosto em Filme do Desassossego é o modo como me faz pensar sobre a diferença entre ver um filme e ler um livro. O livro, mais ainda o do Desassossego, tem um tempo de leitura como que infinito e sem direcção: tenho-o na mão, leio um fragmento, outro mais à frente, outro anterior, uma parte apenas de um outro; releio quase no mesmo momento, volto ao começo da frase, gozo o ritmo dos sons que não se quiseram versos. Na sala de cinema, a direcção da fruição é uma: para diante no tempo. Por mais que a música sugira rondas, voltas ao início; por mais que o final na mesma taberna onde tudo começa permita que se feche o círculo do que não tem fim, não posso reler, voltar atrás, virar a página num segundo para confirmar uma palavra ou um eco.
Outra coisa de que gosto nele é a luz e as sombras trabalharem as cores da Lisboa em desassossego de maneira a dar bem a sentir o gesto que as palavras de Bernardo Soares tiveram em direcção às ruas, ao rio, à rotina da cidade. Ah, e a dicção perfeita da "Educação Sentimental" por Catarina Wallenstein. E a floresta musical, que repete as imagens de Constança Capdeville na clareira entre árvores, em Rosa de Areia.

sábado, 12 de março de 2011

Contributo para manifestações futuras

O Reboliço ouve cantar numa manifestação, transmitida pela televisão. Cantar não será bem o termo - tentar cantar, mas com alguma dificuldade de afinação e de conhecimento dos versos. Enfim, manifestantes na rua não precisam de saber ler pautas de música nem ter boa voz. A cantiguinha faz parte da literatura tradicional portuguesa, mas é possível que algumas pessoas nesta manifestação não sejam bem tradicionais. O Reboliço gosta de pensar que é tradicional, conhece esta letra e fica feliz se puder contribuir para a alegria comum.
Menina, estás à janela
com o teu cabelo à lua:
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua.

Sem levar uma prenda tua,
sem levar uma prenda dela.
Com o teu cabelo à lua,
menina, estás à janela.

Portugal: sol, sereia, moinho e moliceiro

(Desenho do cartaz da Trans World Airlines: David Klein. Obrigada, João!)

sexta-feira, 11 de março de 2011

- Quem, Tiaga?
- O Maru. O gato japonês da Internet. Está são e salvo.
- Bem, sobram-lhe seis vidas.
- Nem penses: com as réplicas do sismo, que por lá tem havido, apanhou tantos sustos que já está a gastar o crédito das reencarnações.
- É preciso é que se vá safando. É verdade que lá para o Japão não brincam, nisso dos tremores de terra.
- Ainda bem.

Tremores

O Reboliço lê sobre o terramoto no Japão enquanto lhe passam à frente as imagens a cores do que abalou San Francisco há mais de cem anos. Comove-se com a tragédia, comove-se com a maravilha da descoberta.

terça-feira, 8 de março de 2011

Pelo contrário

(Comecei a transcrever o poema de Pedro Costa; preferia tê-lo transcrito. Mas, uma vez mais, a pobreza e a indiferença com que nalguns jornais se publica fez-me hesitar, primeiro, ter depois dúvidas metodológicas só sanáveis através de perguntas ao autor - que não fiz - e, finalmente, decidir pela reprodução da imagem, que retirei do blogue do André Dias, que além do mais refere a pista relevante para entender a secção "2". Para se ler o poema, na falta da edição impressa, terá de se clicar sobre a dita imagem e fazer um esforço de abstracção de coisas como "palermiçe", "politico" ou "critico", para nem sequer falar da divisão de versos e da colocação das vírgulas. Mas isto sou só eu, que devo ser muito chata. Parece-me também que o poema fala - "Sensibilidade indisponível" - desta indiferença, desta grande pobreza.)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Moinho da Torre

O Reboliço está em pulgas: soube que o Moinho da Torre foi renovado e tem loja de artesanato e produtos biológicos, aberta a partir de hoje. Apesar da ventania, apetece-lhe ir ver o Entrudo desde Budens, ali para os lados de Vila do Bispo.

domingo, 6 de março de 2011

O Reboliço é um nefelibata (43)

(Hip-foto de um resto de relâmpago: Reboliço, atarantado a ver se apanhava um com o botão da máquina. Agarrou este bocadinho, a fuga da luz para trás das nuvens. Sábado à noitinha, de viagem  pela estrada de Mértola com o Cunhadão, a Mana e o pequeno Matias, a cerração da noite ia sendo interrompida, de 15 em 15 segundos, por um relâmpago. A trovoada circulava do mar para terra, da terra para o mar: zanzando, zanzando, rodando, rodando, rodando.)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Sinal de trânsito

(Foto do sinal de trânsito seiscentista, no começo da Rua do Salvador, em Alfama: Reboliço, como cavalo de cocheira para pedra com incisões a preto.)

quinta-feira, 3 de março de 2011

3

Estamos em Março, o nome
é riso. O riso, ar. Qualquer corpo
está cantado, habita
nossa casa, sua gente.
Água é o lugar. Estamos
limpos, digo.
Salvos, acrescentas.

As águas não esperam
os olhos devagar.
Pousamos as mãos.
Posso dizer a mim próprio
o mar que se confunde
com estas palavras, com o teu rosto?

Entretanto morremos.
Os barcos vão.
Mágicos é que nós somos.
(João Miguel Fernandes Jorge, Poemas Escolhidos [1971 / 1981],
Lisboa, Assírio e Alvim, 1982, p. 12.)

terça-feira, 1 de março de 2011

Oh...

Adeus, Ernestina.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Catalães

A propósito deste post e deste, e de outros que virão, e do Isa, e de tantas mais coisas, o Reboliço ficou todo contente quando descobriu que a Cotovia tem quase a sair o primeiro livro numa colecção de grande literatura catalã. Enhorabuena!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

FEVEREIRO

As nuvens são mais brancas, o céu mais puro.
Agora é tempo de morrer, que a vida se reforça.
O mundo, outra vez desperto perante o azul celeste,
pressente calidamente que deve ter um futuro
     - sempre o sonho que precede a força!
Os ramos da amendoeira sentem, sob a cortiça,
     um movimento suave e obscuro.

     O trevo já verdeja na ribeira.
Agora é tempo de morrer, que a morte não está em lado nenhum.
Tudo treme por não saber o que espera.
A neve soalheira resvala pela geada.
     As torrentes nutrem-se dela pouco a pouco.
Tudo é tíbio e anelante, como se avançasse o fogo
     da próxima Primavera.

Dourados meios-dias dos minguantes de Inverno!
Agora é tempo de morrer, que a vida começa.
Como um fogo invisível, maravilhoso, interno,
sob a terra nua palpita o grito eterno
     da larva, da raiz e da semente.
Era assim que os antigos, em jarras de rústica faiança,
guardavam o vinho de Falerno.
Fevereiro de 1937

(Màrius Torres, A Cidade Longínqua,
tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, OVNI, p. 33.)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A sexta descoberta

A editora OVNI, que de uma assentada põe em edição bilingue, em embalagens muito agradáveis (com uma ou outra pecha de edição, alas), dois autores catalães de Lleida, um ainda no activo e outro que teria feito cem anos a 30 de Agosto de 2010.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Os livros...

... são uns bichinhos irrequietos.

Trabalhar por prazer

(Hip-foto da paisagem que se avista do seu local de trabalho: Reboliço, back in business.)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"craters and crevices"

"That's what Shakespeare is: a vast, rugged mountain range with no Purgatorial terraces, no Garden of Eden at the summit, no celestial spheres hovering above - just the next peak and the next valley, up and down, across the ice and Arctic snow, through craters and crevices, across more ice and more snow, along forests and lakes, going and going and never getting there, wherever there may be."
(Robert Harrison, introdução a Entitled Opinions sobre King Lear,
com Stephen Orgel, transmitido a 19 de Janeiro de 2010.
Os programas podem ser descarregados na íntegra, gratuitamente.)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Flores no convento

(Hip-foto de pormenor das portadas do coro alto do Convento dos Cardaes, de onde as freiras assistiam à missa: Reboliço, a passar a pata pelo lacre e a sentir a diferença entre as flores da chinoiserie, o vermelho e o negro.)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Em se pondo a cismar numa coisa,...

... o Reboliço não a larga. O que não faz aos ossos que lhe atiram e despreza faz às ideias em se pondo a cismar. Cismou que o melhor modo de evitar o gerúndio é amá-lo, tratá-lo com justiça e usá-lo como se fosse rara jóia. Abominado, odiado, vilipendiado, o gerúndio é uma pedra não talhável: só acha lugar muito de quando em quando, se aparece um vazio particular, que a frase não consegue sofrer.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Noche transfigurada

Me voy para el conventillo a bailar una milonga -
me voy de farra mistonga, ya me esperan los chochamus.
Alli estan todos los fiolos que la farfala celean,
ya me esperan los gomias con ganas de milonguear.
No se si voy a llegar, si no me queda ni un cobre.
Algun culo va a sangrar, yo se que voy a llegar...
Y al salir ara al calle me encontre con cierto gil
que justo me vino a pedir a mi, a mi que estaba tan duro,
y para colmo me asalto y me rompio la nariz.
Asi termina la historia de una noche transtocada:
ni gomias ni farfala, ahora me voy a dormir -
pero antes de ir a la cama, me voy a arreglar la nariz.
(Daniel Melingo, milonga em lunfardo, aprendida aqui.)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Opúsculo derradeiro

O último dos Opúsculos da Dafne, o que encerra a colecção, está desembarcável desde hoje. Traz uma colaboração envenenadinha de yours truly. Aparece a público porque o autor de Autorismos, Pedro Baía, deve ser muito boa praça e ter uma paciência de santo. Por isso e porque o editor e responsável pela Dafne, o provocador André Tavares, persiste na vontade de pôr pessoas a conversar, mesmo se - e principalmente se - tiverem coisas contrárias a dizer umas às outras.

Palavras no convento


(Hip-fotos da legenda, com palavras de Maria Madalena a Cristo, a dizer-lhe que não é digna, num quadro por datar, numa das salas; e do sinal de canalização no pátio do claustro grande, com o artigo dito ao jeito do Brasil: Reboliço. Ouve dizer, à voluntária que guia a visita ao Convento dos Cardaes, que os visitantes são quase todos estrangeiros, que poucos portugueses, poucos lisboetas, conhecem os claustros, a capela, o coro-alto, o refeitório. O Reboliço, que já perdeu a conta às vezes que visitou o Convento, sorri e goza o passeio. É a primeira vez sempre que lá vai.)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Oh...

***

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Os dedos acastanhantes dos dias

O Reboliço pensa que gente como os pintores, os escritores, cantores e outras dores, não deveriam morrer nunca. Deixam cá tanto que fazer...

Os dedos cor-de-rosa da Dona Aurora

(Foto da aurora meridional há umas duas semanas: Carla Silvestre, coradita. O Reboliço olha para a chuva, para o plúmbeo baço que virou o céu, e vive de saudades.)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

"Ogni testo è contemporaneamente la partita giocata e le regole da giocare." (post dedicado)

E na xícara a fenda abre
um trilho para a terra dos mortos.
(W. H. Auden)

... como quando uma fenda atravessa uma xícara.
(R. M. Rilke)

Recebo de ti esta xícara
vermelha para beber nos meus dias
um a um
nas manhãs pálidas, as perlas
do longo colar da sede.
E se cair a partir-se, quebrado,
eu, de compaixão,
pensarei em repará-la,
para prosseguir os beijos ininterruptos.
E a cada vez que a asa
ou o rebordo se quebrem
voltarei a uni-los
até que o meu amor complete
a obra dura e lenta do mosaico.
~
Desce pelo declive
cândido da xícara
pelo interior côncavo
e luzente, como relâmpago,
a fenda,
negra, fixa,
sinal de um temporal
que continua a troar
sobre a paisagem sonora,
de esmalte.
(Valerio Magrelli, pp. 66 e 68 da edição bilingue. Tradução minha.
O título do post é uma frase do autor na entrevista ao Circolo Culturale Albatross.)

Que inveja tens tu às rosas?

(Hip-foto do primeiro jarro envergonhado atrás da rosa de pétalas a roçar a morte: Reboliço, a observar o despique. Lembra-lhe o cante do verso que soa "Qu'inveja ten' tu airrosas".)

Oh...

Sombras em retícula e zut!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Natureza morta e pendurada

(Hip-foto da casca de laranja, já comida ao sol da manhã, sobre a parede do quintal: Reboliço, regalado.) 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A promessa

Oh boy, oh boy, oh boy! O Reboliço não cabe em si de antecipação.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Temporariamente grátis

O Reboliço deitou-se tarde e feliz: o álbum novo de P. J. Harvey está escutável online, à borla até dia 15 deste mês, a partir da página da NPR.
(Já tem duas favoritas: "Bitter Branches" e "The Colour of the Earth", ou não fosse o Reboliço um canito dado às coisas da natureza.)

La Celestina

Mi hija, quédate conmigo un rato
¿Por qué andas arrastrando esa desdicha?
Espérame un momento y te desato
Pero, ¡qué enredo te has puesto, muchachita!

¡Qué amargos son los hechos que adivinas!
¡Qué oscura es la ronda de tu recuerdo!
Y en cuanto a tu corona de espinas:
Te queda bien, pero la pagarás muy caro.

Con tu mirada de fiera ofendida,
Con tu vendaja donde herida no hay,
Con tus gemidos de madre sufrida,
Espantarás a tu última esperanza.

Haz de tu puño algo cariñoso,
Y haz de tu adios un ¡Ay mi amor!
Y de tu ceño una sonrisita,
Y de tu fuga un ¡Ya voy! ¡Ya voy llegando!

Mi hija, ¡qué pena me da de verte!
Dejando olvidado a tu cuerpo
Muy lista, pobre boba, a dedicarte
A la eterna disección de un pecadillo.

Mujer desnúdate y estate quieta
A ti te busca la saeta,
Y es el hombre, al fin, como sangría
Que a veces da salud y a veces - mata.
Y es el hombre, al fin, como sangría
Que a veces da salud y a veces - mata.
(Versão de Lhasa de Sela a partir da personagem-vórtice da Tragicomedia de Calisto e Melibea)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

"orthographia sem ípsilon"

Até um cão tem o direito de pensar em definitivamente se negar a ingestão de suplementos literários em que aparecem frases de abertura como "Se há alguém o epíteto de 'escritora emocional' cabe bem é a Edna O'Brien" ou destaques, no mesmo artigo, que assinalam a publicação em Portugal do "primeiro e último romance de uma autora cuja carreira já vai em 50 anos" - a escrever o mesmo romance, com certeza. Irra!
(O título deste post é uma citação do fragmento 259 do Livro do Desassossego de Bernardo Soares.)

Biutiful

Uma das coisas de que mais gostei em Biutiful foi ver personagens a ganhar alma. Bea, Ige (Ige!), Ana, Liwei, Uxbal, Li: são nomes de gente. Não são nomes de gente de verdade, que o filme não é um documentário*; são nomes de entidades inteiras, personagens cheias, insufladas por actores impressionantemente dirigidos, enquadrados, fotografados, integrados na narrativa. Disso, de ver que o mesmo mar de tela é diferente consoante o olhar que o capta seja de um Oliveira (no Enigma de Colombo) ou de um Iñárritu (com o peixe de Gehry ao fundo), e de ver nele, no filme, o Ordet recontado aos contemporâneos. Já se sabe que uno ve en las películas lo que uno quiere ver en las películas.

*Ainda que possa ser confundido com documentários, por tratar de chapa aquilo que entra pelos olhos de quem hoje passa numa qualquer metrópole europeia, ou por adoptar maneirismos de câmara típicos de alguns documentários - mas o ponto não é esse, e por não ser esse o ponto não é um documentário.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Reboliço colecciona calendários (20)

(Foto do pano de louça sobre tijoleira: Reboliço, ao olhinho dos últimos raios de sol.)
- Reboliço, de onde é que vem o mel?
- Vem da garganta doída, do nariz entupido.
- Ah... Pensava que era das abelhas.
- Não, Luca. Não é, vês: dói-te a garganta, tens o focinho entupido, aparece o mel.