domingo, 8 de maio de 2011

Andamos a ler

- Luca, está lá um bocadinho sossegada, a ver se me concentro.
- Para quê? O que estás a fazer?
- Estou aqui a ver se respondo a umas perguntas sobre o que já li, o que estou a ler, coisas que não li, sei lá, é um mundo de perguntas. Foi a Sem-Se-Ver que me passou o desafio, e voltou a insistir hoje, enquanto aproveitávamos o fim da tarde no Jardim da Alameda. As perguntas não foi ela que as fez, são iguais para toda a gente. Deixa lá ver se respondo a tudo.


1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
O primeiro livro que li mais do que uma vez chama-se O Meu Pé de Laranja Lima. Da segunda vez li-o em voz alta. Depois disso já me apeteceu ler vários vezes repetidas, mas por defeito e boa fortuna profissional os repetidos são quase sempre peças de Shakespeare. Ou romances de Charles Dickens.

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
É capaz, mas não me lembro. Normalmente, se percebo que não o vou terminar, nem o começo. Mas já houve inúmeros de que li as primeiras frases e não quis continuar. (Lembro-me de um da Lídia Jorge que tinha "gruas" no título, ou "andaimes", qualquer coisa assim.)

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Ler o mesmo livro para o resto da vida? Sei lá. Teria que ser muito divertido, que não deixasse de me divertir. Olha, as Cartas do Meu Moinho, de Alphonse Daudet, seria uma hipótese. Mas para sempre e sem poder ler mais nenhum, não sei - talvez nem o Dom Quixote evitasse que me aborrecesse. Quando não há mais o que ler, a literatura deve ser uma grande chatice.

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Não é só um, são imensos. Uma lista interminável daqueles que são considerados clássicos. Os Budenbrooks, por exemplo, ou o Guerra e Paz. Mas só me lembro disso porque aparece aqui uma pergunta assim. Não levo os dias a pensar "que pena não me apetecer mais vezes ler os Budenbrooks".

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Esqueço-me muito dos pormenores dos livros que leio. Também por defeito e sorte da profissão, o epílogo de The Tempest, de Shakespeare, ou as últimas páginas do Heart of Darkness, de Joseph Conrad, tenho-os bem presentes na memória. E são ambos pedaços excepcionais de literatura. Mas há outros igualmente impressionantes (o fim do Sinais de Fogo de Jorge de Sena, ou o do Dom Casmurro, de Machado de Assis). Quando gosto muito de um livro, vou ficando com uma grande frustração à medida que o fim dele se aproxima, porque significa para mim que, de alguma maneira, se vai anunciando o final do prazer de descobrir aquele livro.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Lia o que apanhava: romances oitocentistas (portugueses e alguns franceses traduzidos), livros de educação infantil, enciclopédias médicas e manuais de enfermagem, livros da Enid Blyton, da Alice Vieira, do José Mauro de Vasconcelos... Era o que havia em casa e na biblioteca da escola. E havia uns folhetins velhos na mercearia do avô Martins, já não me recordo dos títulos, mas eram umas tragédias de chorar baba e ranho e eu lia com avidez as folhas envelhecidas.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Quando tive de ler A Sibila, no liceu, foi custoso. Devo ter desistido e recomeçado umas seis ou sete vezes. Mas tinha que ser, e acabei por lê-lo de uma ponta à outra e de gostar muito de o ler.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Não tenho nenhum livro preferido, ou às vezes tenho. Gosto muito dos livros quando os estou a ler, depois passam a ser livros que me impressionam e estimo de um modo diferente de "gostar de ler". Já houve livros que me deram imenso prazer ler e considero livros menores (os do T. C. Boyle, por exemplo, ou alguns do Paul Auster); dos grandes livros, por vezes não recordo bem o prazer de os ler além de me sentir feliz por os conhecer. Se os livros preferidos são livros que recomendasse, ainda assim faria a recomendação em função do objectivo da leitura de quem ma pedisse. Por outro lado, apetece-me muitas vezes que não tivesse havido na literatura escrita em português nada depois do Machado de Assis.

9. Que livro estás a ler neste momento?
Tenho sobre a mesa de cabeceira dois muito semelhantes, que ando a ler há mais de três quinze dias: The Ballad of Dorothy Wordsworth e Families and How To Survive Them.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário.
Dez???  Vão cinco e é um pau: Adriana Nogueira, Ana Cristina Joaquim, Carla Quevedo, CF e Isaïes Fanlo,

sábado, 7 de maio de 2011

50 anos (post dedicado)

(Foto da inscrição na mó: Reboliço. Faz meio século que no moinho se juntaram outros moleiros ao avô, os filhos e amigos, e se mudou mais uma mó. A pedrinha nova, coisa para, em sendo calcário, pesar uma tonelada bem medida, implica a desmontagem das escadas para os dois andares e o atravessamento sobre o pau do mastro principal, junto ao tecto, de um baraço da grossura de um braço de homem forte. O baraço há-de passar pelo buraco da mó e, com os braços de fortes homens a empurrar as varas, do lado da rua, ajudar a içar a pedra para o piso intermédio. A colocação da pedra na horizontal, aprumada a fio e olho, são outros tantos quinhentos de rigor e testa franzida. Como em  todos os trabalhos que exigem atenção e muita gente concentrada, fecha-se com festa e algazarra. Ou espumante e pizza.)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Três Primaveras, três!

(Hip-foto do pequeno Matias, pouco antes de completar três anos: Vasco Célio.
Parabéns, meu sobrinho!)

terça-feira, 3 de maio de 2011

A boa morte (2)

- Estás a ver, Luca, também se pode morrer como num filme de terror.
- Brrrrrrr!... Alguma vez viste filmes em que ela entra, Reboliço? O ataque da mulher de quantos metros? E O ataque das sanguessugas gigantes?
- Nem pensar!, que medo...

Numa rua de escadas de Lisboa

O Reboliço sobe a rua de escadas, de fôlego recobrado a cada degrau, devagar para não perder o dito. O dia tem um véu de névoa invisível: a chuvada em ameaça suspensa dá aos sons a redondeza que os faz claros, audíveis sem barreira nenhuma. Passa debaixo de uma janela aberta - o véu encerra a cidade, sufoca-a, tira-lhe o ar -, ouve uma voz jovem, de mulher aflita. "Olha, pá, tu se tirares um curso superior vais fazer é o que quiseres, pá. Mas se não tirares, ó pá, fazes o que houver p'ra fazer, 'tás a ver?"
Escapa-te, Reboliço, mora ali um bicho papão.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A notícia é...

... a notícia.

sábado, 30 de abril de 2011

Jornadas Europeias dos Moinhos

(Os moinhos também vão em jornadas, pensa o Reboliço.)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A boa morte

O Reboliço ouve alguém dizer que teme as mortes tolas e que desejaria uma morte belíssima, como a de Isadora Duncan. Pensa que a beleza da morte, como talvez a beleza seja do que for, está no olhar de quem a contempla. Quem olha para a morte de Duncan vê a dança, vê a beleza, que quer ver.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Fim de festas

(Hip-foto do topo do confessionário da igreja de São Marcos da Atabueira, no final da missa da festa do padroeiro: Reboliço, de cravo ao peito a lembrar-se de ter lido no Diário do Alentejo que "Beja não celebra o 25 de Abril", porque este ano até "coincide com a Páscoa". E onde já se viram tamanhas heresias, celebrações religiosas misturadas com coisas laicas!)

domingo, 24 de abril de 2011

Semáforo


(Hip-fotos - nos formatos de lente Kaimal Mark II, Jimmy e John S, e de película Ina's 1969, Kodot XGrizzled e Blanko - do crivo remendado, pendurado junto à porta de trás do moinho: Reboliço, a brincar com o zingarelho.)

sábado, 23 de abril de 2011

"O que chove é oiro!"

(Hip-foto das folhas da figueira grande, com os figos já inchados: Reboliço, a sacudir a bendita.)

terça-feira, 19 de abril de 2011

...

São sete e meia de uma tarde cinzenta a Norte e azul sobre o mar. O Reboliço acaba de descobrir, por um acaso de patinhas sobre as teclas, um atalho lindíssimo e absolutamente inútil: ALT + . para fazer reticências. Está encantado!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

É o maior.

(Hip-foto do Sorna a gozar as ervas e o sol: Reboliço, fã.)

Moinhos na poesia (34)

Porque nasci ao pé de quatro montes,
por onde as águas passam a cantar
as canções dos moinhos e das fontes,
ensinaram-me as águas a falar...

Eu sei a vossa língua, água das fontes...
Podeis falar comigo, águas do mar...
E ouço, à tarde, os longínquos horizontes
chorar uma saudade singular...

E, porque entendo bem aquelas mágoas
e compreendo os íntimos segredos
da voz do mar ou do rochedo mudo,

sinto-me irmão da luz, do ar, das águas,
sinto-me irmão dos íngremes penedos
e sinto que sou Deus, pois Deus é tudo...

domingo, 17 de abril de 2011

(Perto de Colchester, c. 1833-35)


(John Constable, "Stanway Mill, near Colchester", c. 1833-35. Aguarela sobre lápis. 14 x 19.7 cm. The Samuel Courtauld Trust, The Courtauld Gallery, Londres.)

sábado, 16 de abril de 2011

O moinho na parede

(Foto da foto que Castanho Gomes fez do Moinho Grande lá para 1976, ou por aí: Carla Martins. Um dia há-de aparecer aqui uma reprodução mais fiel, se o negativo for achado - por agora, a imagem, grande, enfeita a parede da casa do moleiro. Naquela hora o moinho trabalhava, chegava alguém ou partia.)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

[Documentário]


Os portugueses, os de cabelo castanho,
divididos
por comunidades de marinheiros e comerciantes
e populações agrícolas do interior.

Audazes os primeiros
tradicionais conservadores os segundos
são como o trigo e os animais
mal sabem o que é o mar ou o comércio.

Tal como as planícies férteis
alternam com a terra montanhosa
bravia.

Fazem debulhas como no Antigo Testamento
cavalos velhos ou mulas andam à roda
de uma eira circular
esperam a ajuda final do vento
e as chuvas.

Os portugueses, os de cabelo castanho.

(João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, na regra do jogo, Lisboa, 1982, p. 92.)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Bolos e Rosas

(Foto do folar que a Rosa fez e lhe ofereceu: Reboliço, no dia em que fez e ofereceu o bolo de cenoura que outra Rosa lhe ensinou.)

terça-feira, 12 de abril de 2011

PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

(Mário Cesariny, Nobilíssima Visão, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1975, 2ª. edição, que inclui "só os poemas escritos sob esse título em 1945-46, anos que correspondem a uma leitura do 'país real' topado pelo autor à saída da adolescência linda mas já desconfiada da terra em que assentara os seus projectos de poesia civil: lírica, inocente: dramática.", pp. 18-19.)

domingo, 10 de abril de 2011

"For No Apparent Reason"

 (Hip-foto: Reboliço. Era manhãzinha e o Reboliço caminhou nas ruas inclinadas, cruzadas, da Mouraria; desceu ao Martim Moniz, a praça do que ajudou a ganhar Lisboa à mouraria, cruzou a praça para a Igreja de São Domingos ao Rossio, e entrou nela. Entre as paredes matinais, de luz sobre as colunas escavadas por um incêndio de 1959, ouviu, ainda sem ter ouvido, o ud, o alaúde de messieur Anouar Brahem, num cd que trouxera de empréstimo. Já fora da igreja, nas terras de outra presente mouraria, os sons, ouvidos, fizeram-no ver o mármore das magoadas paredes. Muito obrigada, Changuito!)

sábado, 9 de abril de 2011

(Para o Xana)


(Hip-foto hiper colorida do enésimo bolo de cenoura, decorado com três tulipas de verdade: Reboliço.)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Contra a arquitectura

Foto: Reboliço. Franco La Cecla escreveu, o Mano traduziu e prefaciou, a Caleidoscópio editou, na colecção "Pensar Arquitectura". "Pensar Arquitectura" faz lembrar talk Aristotle.)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Violet & Bobby

- Luca, anda ver!
- O que é, Reboliço?
- São falcões a chocar falcõezinhos.
- Mostra, deixa ver. Onde é que estão?
- Estão no topo da biblioteca Bobst, na praça Washington, em Nova Iorque. Cuidado, não empurres, olha que os assustas.
- Mas eles podem ver-nos, Reboliço?
- Claro que sim: isto é um vidrinho fino...

Ode to the Diencephalon (Ode ao Diencéfalo)

(after A. T. W. Simeons)
How can you be quite so uncouth? After sharing
the same skull for all these millennia, surely
you should have discovered the cortical I is
    a compulsive liar.

He has never learned you, it seems, about fig-leaves
or fire or ploughshares or vines or policemen,
that bolting or cringing can seldom earth a
    citizen’s problems.

We are dared every day by guilty phobias,
nightmares of missing the bus or being laughed at,
but goose-flesh, the palpitations, the squitters
    won’t flabbergast them.

When you could really help us, you don’t. If only,
whenever the trumpet cries men to battle,
you would flash to their muscles the urgent order
    ACUTE LUMBAGO!


(a partir de A. T. W. Simeons)
Como podes ser tão deselegante? Tantos
milénios a partilhar o mesmo crânio, terias
com certeza descoberto que o eu cortical é
um mentiroso compulsivo.

Nunca te fez saber, ao que parece, das folhas da figueira
ou do fogo ou dos arados ou das vinhas ou dos polícias,
que a trancar ou a recuar raramente enterram
os problemas de um cidadão.

Todos os dias nos incitam fobias culpadas,
pesadelos de perder o autocarro ou de se rirem de nós,
mas a pele de galinha, as palpitações, as cólicas,
nada disso as espantará.

Quando poderias de facto ajudar-nos, não ajudas. Se ao menos,
sempre que o trompete chame os homens à batalha,
lhes mandasses num flash a mensagem urgente de
LOMBALGIA AGUDA!

(W. H. Auden, 1972. Primeiro poema escolhido para celebrar o mês nacional da poesia, segundo The New York Review of Books. Tradução minha, muito claramente em progresso.)

domingo, 3 de abril de 2011

Para a Ju, que escreveu de uma praia.

(Hip-foto da flor de sabugueiro do moinho, acabada de cortar do ramo, pronta para ser secada e dar infusão reconfortante: Reboliço, cheio de sede.)

quinta-feira, 31 de março de 2011

The bard...

... abides.

terça-feira, 29 de março de 2011

(Post de aniversário: as Cartas começaram faz hoje seis anos.)

O parapeito da janela da cozinha fica a menos de um metro do chão. (Um dos ladrilhos esteve muito tempo solto, fazia um clique reconfortante debaixo dos pés, como se dissesse "estás bem, é por aqui".) O parapeito é de madeira, de uma madeira que o vidro magnetizou e me puxava até si de cada vez que entrava na cozinha. Quando comecei a assomar, sem esforço nem banco, os olhos para lá do vidro, conseguia ver desde o mar, uma linha direita e iluminada mesmo nos dias de nuvens baixas. Durante alguns anos era só cortada por três ou quatro torres em Quarteira, outras duas ou três de Vilamoura, que se foram unindo umas às outras com mais torrezinhas pelo meio, até não se distinguir onde começavam e acabavam as duas vilas e ser completa a separação entre mar e terra. Daí para cá, também durante muito tempo, foi a massa suave de verde - que em Janeiro as amendoeiras branqueavam - e o maciço também doce do Cabeço de Câmara (lembro a voz da Sra Virgília a apontar e a ensinar-me o nome do cerro), que veio a ser traçado pela Via do Infante depois de meses de dinamite para deixar passar as luzes que nunca mais pararam de passar, para Barlavento e para Sotavento. De dia é ainda essa massa suave: hortas de árvores baixas, valadinhos de pedra; mas de noite há um pontilhado de luzes a denunciar as casas que foram cogumelando por ali. Daí para cá, o limite da cidade, que era vila, ficava no palácio da Fonte da Pipa, que hoje quase não se distingue das construções novas que alargaram Loulé. Daí para cá, já próximo, via-se a clarabóia de uma casa onde o pai ficara uns dias, ou uns meses, antes de nos mudarmos para este 6º andar. E, a dar sentido a tudo, como uma rosa dos ventos, estava a rotunda. Não era ainda esta fonte com figuras de ferro sobre uns arcos e a água - era uma larga moeda verde só com um poste de luz a sair-lhe do meio, onde os cães se passeavam sem donos nem dó da relva.
Para a esquerda da rotunda, para Sudeste, ficava uma loja de ferragens, escadotes, baldes e outras drogas, onde, no tempo deles, ainda aparece à porta uma caixa de dióspiros (fica o cenário da janela todo concentrado naquele laranja forte e maduríssimo), e por cima da loja a varanda do Ateneu; para cá, do lado Nordeste, ficam ocultas as portas e as lojas. A Noroeste é a esquina da Caixa Geral, mesmo antes do café e da esplanada da Havaneza Louletana; do lado oposto, o mercado, a praça. Entre a praça e a loja de ferragens está a frente de lojas mais visível da janela da cozinha: o estaminé do totobola (se a falhada memória não me falha, houve ali uma barbearia), a pastelaria Amendoal (das últimas a usar a rareante amêndoa algarvia) e a drogaria Liz, da Dona Liberdade e do Sr. Rodrigues, esses de memória boa, que desde há uns meses é uma sapataria deslavada, tem as portas mudadas em montras e a montra única mudada em sacrílega porta de entrada - pisa-se precisamente onde se levantava a pedra com o signo e o nome de Liz, que sustentava o vidro alto da montra.

(Aguarela de Loulé desde o parapeito da cozinha: João Soares, 1991. Da fase, como ele diz, aguarelal.)

As avenidas que confluem nesta rotunda têm os dois lados ligados, ao seu início, por passadeiras. Como são avenidas largas, as quatro passadeiras são duplas: a meio, têm todas uma pequena pausa de cimento entre canteiros de relva e flores. (Aos Sábados de manhã, quando a gente era muita a ir à praça, um polícia sinalizava as vezes de passarem carros e pessoas e inventava com o apito engarrafamentos de gente.) Eram esses intermédios passadeirais o palco preferido da Maria das Bananas, quantas vezes teimosa em cima da relva. Era cantora de muitas vozes, vozes de homem e vozes de mulher, que soava horas a fio conversas entre Deus e Álvaro Cunhal, entre Ramalho Eanes e Jesus Cristo, entre a fé e a euforia nacional. 
Quando me assomava, às primeiras horas da manhã, agarrada ao pão com doce ou à caneca de leite, já ela cantava. Cantava ou dizia, dialogava, trialogava, fazia dramas completos e para cada personagem havia uma voz diferente: todas potentes, lançadas desde seis andares abaixo, meio quarteirão de prédios, toda uma rua até à rotunda, donde subiam. Vinha de roupa garrida - nunca se viu com nada que não fosse vermelho rubro, verde forte, amarelo. Eram as cores da bandeira do país, quando não a própria bandeira a fazer-lhe de xaile. (Em panos dignos, que ainda não houvera o Euro nem havia a essa altura em Loulé lojas dos chineses.) Vinha de vermelho e verde e punha-se a cantar o dia inteiro. O meu jogo era, quando não a via do parapeito da janela, tentar adivinhar de onde cantava, por algum eco das casas que circundavam a rotunda. Ouvia-lhe a voz muito clara, possante, muito distintas as palavras trocadas entre os seus cantores de dentro, e ela muito distinta a dar-lhes voz. De perto, se passava por ela na ida ao pão, via brilharem-lhe os olhos pretos, que quase nunca fechava a cantar, via-lhe o buço forte a sombrear o sorriso que só sabia passar a risada, jamais à curva descendente do choro.
Nunca a vi como matéria fotografável. É certo que não andava - não se andava como hoje - de máquina fotográfica em riste. A turistama sim: vinha preparada, achava graça à figura, e snap-snap-snap. Mostraram-me há dias duas dessas fotografias. Aparece de bermudas, de turbante, cores garridas. Não a via talvez desde 1986, a data dessas imagens. Mas não se lhe vê nelas o que tenho aqui dentro, na memória: o crucifixo de madeira, a moldura ao peito, com o retrato que uns dias era Cunhal e outros Cristo.

(Adenda, em 2020, a partir de grata informação de João Romero Chagas Aleixo: a drogaria do Sr. José Rodrigues e da D. Liberdade abriu em janeiro de 1938 e foi a primeira casa comercial, na então vila de Loulé, a ter telefone - foi 7 
o seu primeiro número.)

sábado, 26 de março de 2011

Moinhos na poesia (33)

"GOSTO MUITO DE MOER"

Gosto muito de moer. Se pudesse, passava a vida a moer.
Vou moendo com entusiasmo.
Durante muito tempo não tive sequer moinho, uma família sem
moinho:
Huhh!
E então costumava dar-me com uma Garota, só para ver um moinho.
Moinho de nozes ou de carne, mas ela não me deixava usá-lo. Em casa
eu moía lápis, quer dizer, afiava-os, mas apesar de me dominar gastava
por dia um ou dois lápis. Mas isso não era nada, eram só
lápis, e não carne. O lápis não é carne.
Só lápis.
Moer lápis é um sucedâneo. Um substituto.
Como eu era infeliz, um escuteirinho triste.
Agora já tenho moinho.
Tenho vários, mesmo muitos. Ou seja, só tenho moinhos. Com
entusiasmo
vou moendo com eles ou posso moer.
Ou moí, mas já moí de tudo.
Huhh!
Esforcei-me por moer devagar, devagar mas como deve ser.
Agora vou moer moinhos.

(Endre Kukorelly, Um Jardim de Plantas Medicinais, Trad. colectiva [Abril de 1995] revista, completada e apresentada por Fernando Pinto do Amaral com a colaboração de Mária Démeter, Quetzal / Poetas em Mateus, 1997, p.20.)

quarta-feira, 23 de março de 2011

Oh...

La-la, La Liz!

segunda-feira, 21 de março de 2011

Bem-vinda

(Hip-foto de um paninho às flores: Reboliço, fresco.)

3.

Não sei que horas são no teu relógio.
No meu é cedo/tarde - está parado
vai fazer uns vinte anos. Não importa,
pois as coisas vão e vêm, e de novo

se levanta o mês de Março nesta era
da ironia, com seus truques estafados
e promessas desfolhantes. Juntamente,
tudo passa e tudo volta, mas diverso.

Só por isso, justamente, tem piada
estar aqui, abrir os olhos, conferir
ainda e sempre, na vitrina da manhã,
a produção da Primavera.
(José Miguel Silva, Erros Individuais, 2010, p. 13.)

domingo, 20 de março de 2011

CIANT DA LI CIAMPANIS (CANTO DOS SINOS)

Co la sera a si pièrt ta li fontanis
il me país al è colòur smarít.

Jo i soj lontàn, recuardi li so ranis,
la luna, il trist tintinulà dai gris.

A bat Rosari, pai pras al si scunís:
jo i soj muàrt al ciant da li ciampanis.

Forèst, al me dols svualà par il plan,
no ciapà pòura: jo i soj un spirt di amòur

che al so país al torna di lontàn.

Quando a noite se perde pelas fontes
a minha terra ganha mistura de cores.

Estou longe de lá, lembro-lhe as rãs,
a lua, o triste cri-cri dos grilos.

Toca para o Rosário, ecoa campos fora:
estou morto para o som dos sinos.

Forasteiro, o meu doce esvoaçar pelos campos
não temas: sou um espírito de amor

que à sua terra regressa de longe.

(Pier Paolo Pasolini, Roman Poems, City Lights Books, San Francisco, 1986, edição bilingue, tradução inglesa de Lawrence Ferlinghetti e Francesca Valente, p. 142. Versão portuguesa: AIS.)

quinta-feira, 17 de março de 2011



O chão que se pisa

O Reboliço ouve a alguém da Califórnia, nem sequer de uma cidade sobre a costa, dizer que comprou ontem os últimos 80 litros de água que havia à venda no WalMart. É capaz de ser fácil achá-los loucos, quando se pensa desde este lado do mundo, quando se pisa um chão que está quieto e se respira um ar aparentemente limpo. É capaz. O Reboliço vai seguindo duas pistas, entre as não oficiais, que lhe parecem bem informadas, sérias e to the point: a Kyung Lah, da CNN, que twitta desde o Japão, e a Xeni Jardin, do Boing-Boing, a escrever desde, precisamente, a Califórnia. Além de informarem em cima da hora, incansavelmente, pensam sobre o que escrevem, sobre o que lêem. Jardin reflecte, de 140 em 140 caracteres: (1) Concern is appropriate. Neither panic nor "this is trivial" are. (2) Just bcs it "reads good," strikes emotional spot you're hoping to have massaged, doesn't mean is accurate or written by a nuclear scientist. (3) Here's a bit of advice for those feeling empathy/helplessness: RTing+reblogging things frantically without checking sources? Not helpful.
(O Reboliço vai seguindo e vai sentindo uma mágoa profunda por ver que não há paz para se lamber feridas. Not enough peace for soaring.)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Versos a um cão

Que força pôde adstrita e embriões informes,
Tua garganta estúpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solidões enormes?!

Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar
Dos teus antepassados vermiformes.

Cão! - Alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais...

E irás assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da angustia hereditária dos teus pais!


Obrigada, Mulher!

terça-feira, 15 de março de 2011

A escrita a produzir pensamento

(Foto da página do Financial Times, com artigo sobre o Strunk & White e o mais recente Fish: Reboliço, agradecido.)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Livros caídos

O Reboliço lembra-se vagamente dos versos de uma cantilena que deve ter lido nos tempos da Escola Primária: "doía a lombada a um livro em rebuliço com os mais." Vêm-lhe à cabeça essas palavras e a ideia da dor dos livros caídos com o tremor de terra.
(Cartaz de James White para a campanha de ajuda ao Japão.)

domingo, 13 de março de 2011

Filme do Desassossego

Uma das coisas de que mais gosto em Filme do Desassossego é o modo como me faz pensar sobre a diferença entre ver um filme e ler um livro. O livro, mais ainda o do Desassossego, tem um tempo de leitura como que infinito e sem direcção: tenho-o na mão, leio um fragmento, outro mais à frente, outro anterior, uma parte apenas de um outro; releio quase no mesmo momento, volto ao começo da frase, gozo o ritmo dos sons que não se quiseram versos. Na sala de cinema, a direcção da fruição é uma: para diante no tempo. Por mais que a música sugira rondas, voltas ao início; por mais que o final na mesma taberna onde tudo começa permita que se feche o círculo do que não tem fim, não posso reler, voltar atrás, virar a página num segundo para confirmar uma palavra ou um eco.
Outra coisa de que gosto nele é a luz e as sombras trabalharem as cores da Lisboa em desassossego de maneira a dar bem a sentir o gesto que as palavras de Bernardo Soares tiveram em direcção às ruas, ao rio, à rotina da cidade. Ah, e a dicção perfeita da "Educação Sentimental" por Catarina Wallenstein. E a floresta musical, que repete as imagens de Constança Capdeville na clareira entre árvores, em Rosa de Areia.

sábado, 12 de março de 2011

Contributo para manifestações futuras

O Reboliço ouve cantar numa manifestação, transmitida pela televisão. Cantar não será bem o termo - tentar cantar, mas com alguma dificuldade de afinação e de conhecimento dos versos. Enfim, manifestantes na rua não precisam de saber ler pautas de música nem ter boa voz. A cantiguinha faz parte da literatura tradicional portuguesa, mas é possível que algumas pessoas nesta manifestação não sejam bem tradicionais. O Reboliço gosta de pensar que é tradicional, conhece esta letra e fica feliz se puder contribuir para a alegria comum.
Menina, estás à janela
com o teu cabelo à lua:
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua.

Sem levar uma prenda tua,
sem levar uma prenda dela.
Com o teu cabelo à lua,
menina, estás à janela.

Portugal: sol, sereia, moinho e moliceiro

(Desenho do cartaz da Trans World Airlines: David Klein. Obrigada, João!)

sexta-feira, 11 de março de 2011

- Quem, Tiaga?
- O Maru. O gato japonês da Internet. Está são e salvo.
- Bem, sobram-lhe seis vidas.
- Nem penses: com as réplicas do sismo, que por lá tem havido, apanhou tantos sustos que já está a gastar o crédito das reencarnações.
- É preciso é que se vá safando. É verdade que lá para o Japão não brincam, nisso dos tremores de terra.
- Ainda bem.

Tremores

O Reboliço lê sobre o terramoto no Japão enquanto lhe passam à frente as imagens a cores do que abalou San Francisco há mais de cem anos. Comove-se com a tragédia, comove-se com a maravilha da descoberta.

terça-feira, 8 de março de 2011

Pelo contrário

(Comecei a transcrever o poema de Pedro Costa; preferia tê-lo transcrito. Mas, uma vez mais, a pobreza e a indiferença com que nalguns jornais se publica fez-me hesitar, primeiro, ter depois dúvidas metodológicas só sanáveis através de perguntas ao autor - que não fiz - e, finalmente, decidir pela reprodução da imagem, que retirei do blogue do André Dias, que além do mais refere a pista relevante para entender a secção "2". Para se ler o poema, na falta da edição impressa, terá de se clicar sobre a dita imagem e fazer um esforço de abstracção de coisas como "palermiçe", "politico" ou "critico", para nem sequer falar da divisão de versos e da colocação das vírgulas. Mas isto sou só eu, que devo ser muito chata. Parece-me também que o poema fala - "Sensibilidade indisponível" - desta indiferença, desta grande pobreza.)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Moinho da Torre

O Reboliço está em pulgas: soube que o Moinho da Torre foi renovado e tem loja de artesanato e produtos biológicos, aberta a partir de hoje. Apesar da ventania, apetece-lhe ir ver o Entrudo desde Budens, ali para os lados de Vila do Bispo.

domingo, 6 de março de 2011

O Reboliço é um nefelibata (43)

(Hip-foto de um resto de relâmpago: Reboliço, atarantado a ver se apanhava um com o botão da máquina. Agarrou este bocadinho, a fuga da luz para trás das nuvens. Sábado à noitinha, de viagem  pela estrada de Mértola com o Cunhadão, a Mana e o pequeno Matias, a cerração da noite ia sendo interrompida, de 15 em 15 segundos, por um relâmpago. A trovoada circulava do mar para terra, da terra para o mar: zanzando, zanzando, rodando, rodando, rodando.)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Sinal de trânsito

(Foto do sinal de trânsito seiscentista, no começo da Rua do Salvador, em Alfama: Reboliço, como cavalo de cocheira para pedra com incisões a preto.)

quinta-feira, 3 de março de 2011

3

Estamos em Março, o nome
é riso. O riso, ar. Qualquer corpo
está cantado, habita
nossa casa, sua gente.
Água é o lugar. Estamos
limpos, digo.
Salvos, acrescentas.

As águas não esperam
os olhos devagar.
Pousamos as mãos.
Posso dizer a mim próprio
o mar que se confunde
com estas palavras, com o teu rosto?

Entretanto morremos.
Os barcos vão.
Mágicos é que nós somos.
(João Miguel Fernandes Jorge, Poemas Escolhidos [1971 / 1981],
Lisboa, Assírio e Alvim, 1982, p. 12.)

terça-feira, 1 de março de 2011

Oh...

Adeus, Ernestina.