O Reboliço pensa em como gosta de ver nuvens que não se mexem, feitas de tintas de óleo sobre panos de tela. (Obrigada, Carla!)
terça-feira, 31 de maio de 2011
domingo, 29 de maio de 2011
Baleia
(Hip-foto da página com a ilustração que Aldemir Martins fez em 1963 para a novela Vidas Sêcas, de Graciliano Ramos: Reboliço, em homenagem à cachorra Baleia, esfaimada, seca daquele sol do sertão nordestino e fiel aos donos. Sacrificada sem compreender porquê, iria dar a um paraíso "todo cheio de preás, gordos, enormes.")
sábado, 28 de maio de 2011
sexta-feira, 27 de maio de 2011
A Poesia e a História
"Existe uma relação da tomada de Santarem, espécie de poema em prosa em que figura o proprio rei narrando as particularidades da empresa. Esta composição é, segundo cremos, obra de um monge de Alcobaça. Postoque não haja absoluta certeza de que ella seja um monumento contemporaneo, é ao menos quasi coeva. E ainda que pelo seu estylo fuja das condições de uma narrativa chan e simples, não nos é lícito omittir as circumstancias do successo ahi referidas, ao menos aquellas que não parece derivarem das fórmas poeticas que predominam nessa memória."
(No prefácio à 4ª edição, de 1875, do I tomo da sua Historia de Portugal - Desde o começo da monarchia até o fim do reinado de Affonso III, coisa que o ocupou entre 1846-1853, Alexandre Herculano defendia que "a poesia na sciencia é absurda". Daí os cuidados. Citado da 5ª edição, Lisboa, Bertrand, s.d., p. 362.)
quinta-feira, 26 de maio de 2011
quarta-feira, 25 de maio de 2011
terça-feira, 24 de maio de 2011
Happy birthday, Bob -
- thought you might like to see yourself in a new darkness.
(Como? Não eras tu? Ah, fiz confusão. Desculpa-me. Vê lá agora.)
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Messi na poesia: “Nem com Rede nem com Tridente”
“Neither With Net nor Trident”
The genius, the genius of
Football
In our modern-day life
Utterly
Unpredictable
He doesn’t know
What he’s going to do
So how the hell
Do the defenders
You cannot contain him
With a net
Or a trident
He’s got pace
He’s got power
He’s got vision
Technique!
And he’s got
Finishing power
His cup
Runneth over ...
Magnificent Messi
Wild man
He doth bestride the Earth
Like a Colossus
Football
In our modern-day life
Utterly
Unpredictable
He doesn’t know
What he’s going to do
So how the hell
Do the defenders
You cannot contain him
With a net
Or a trident
He’s got pace
He’s got power
He’s got vision
Technique!
And he’s got
Finishing power
His cup
Runneth over ...
Magnificent Messi
Wild man
He doth bestride the Earth
Like a Colossus
(Daqui. Post dedicado ao culé mais lindo do planeta do Reboliço, que para mais é Lleidatá apaixonado e belíssimo escrevente.)
Cessar-fogo
Ceasefire
I
Put in mind of his own father and moved to tears
Achilles took him by the hand and pushed the old king
Gently away, but Priam curled up at his feet and
Wept with him until their sadness filled the building.
II
Taking Hector’s corpse into his own hands Achilles
Made sure it was washed and, for the old king’s sake,
Laid out in uniform, ready for Priam to carry
Wrapped like a present home to Troy at daybreak.
III
When they had eaten together, it pleased them both
To stare at each other’s beauty as lovers might,
Achilles built like a god, Priam good-looking still
And full of conversation, who earlier had sighed:
IV
‘I get down on my knees and do what must be done
And kiss Achilles’ hand, the killer of my son.’
Cessar-fogo
I
I
Com o sentido no seu próprio pai, levado às lágrimas,
Aquiles conduziu-o pela mão e afastou o velho rei
Com delicadeza, mas Príamo enrolou-se-lhe aos pés
E chorou com ele até as duas tristezas inundarem o edifício.
II
Tomando nas mãos o corpo de Heitor, Aquiles
Assegurou-se de que fora lavado e, por amor ao velho rei,
Disposto de uniforme, pronto a que Príamo o levasse
Embrulhado como uma oferenda para Tróia, ao amanhecer.
III
Depois de terem comido juntos, deliciaram-se a
Admirar a beleza um do outro, como fariam amantes,
Aquiles de constituição divina, Príamo ainda bem parecido
E conversador, quando antes chorara:
IV
'Ajoelho-me e faço o que deve ser feito,
Beijo a mão de Aquiles, que matou meu filho.'
(Michael Longley, 1994, in The Ghost Orchid)
domingo, 22 de maio de 2011
Quando o segundo sol chegar, ficarão alinhadas as órbitas dos planetas e será inventado o tele-transporte. (Post dedicado aos meninos e meninas da PPGIS da UFSCar, à Laurinha e à Rosane.)
O Reboliço aterra na cidade da ria. A cidade brilhante da ria tem poucos ruídos e ouvem-se todos com nitidez, por não haver o drone das megalópoles. Mas fica-lhe no ouvido da cidade grande um telefone a tocar, de algum lugar por descobrir, e a voz de Cássia. Não tem explicação.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
domingo, 15 de maio de 2011
Com toda a palavra (3)
(Foto dos botões de madeira sobre fundo de madeira na exposição "Sob o Peso dos Meus Amores", Instituto Itaú Cultural: Reboliço, encantado.)
>
Fotos,
Leonilson,
Onde andei
Com toda a palavra (2)
(Hip-foto do aviso na banca de feira na pequenina Rua dos Bombeiros, Jardim Paulista: Reboliço, a conter-se.)
>
Fotos,
Onde andei
Des Hommes et des Dieux
Uma das coisas de que mais gosto em Des Hommes et des Dieux é que, mesmo ao fim de umas três ou quatro cenas com Lambert Wilson a fazer de frei Christian, não me convenço de que é mesmo ele e está mesmo a fazer de monge trapista. O problema não é o actor: vai tão bem que me custa a crer que não seja a personagem. Disso, dos passeios entre as oliveiras e de um Cristo de Mantegna encarnado pelo terrorista islâmico baleado, sobre uma maca, prestes a ser tratado pelo monge Luc.
sábado, 14 de maio de 2011
Também eu chego à cidade
Moi aussi...
Moi aussi
J’arrive à la ville
Pour y verser
Ma vie
Je monte la rue
Comme un géant
Ça c’est la ville
Et ça…
C’est ma vie
Moi aussi…
Moi aussi
J’arrive en fuyant
Je suis encore
Loin devant
Si la ville me cache
On ne me trouvera pas
Je ne sais pas qui
Je ne sais plus quoi
Moi aussi…
Moi aussi
J’arrive les mains vides
Au sud du nord
Au nord du sud
J’ai un passé
Mais je ne m’en sers pas
Le futur sera mieux
Tellement mieux que ça
Moi aussi…
Moi aussi
J’arrive à la ville
Pour y verser
Ma vie
Je monte la rue
Comme un géant
Ça c’est la ville
Et ça…
C’est ma vie
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Repousado
(Hip-foto do marreco à meia-sombra nos Jardins da Gulbenkian: Reboliço, no intervalo.)
>
Fotos,
Onde andei
Folgado!
(Hip-foto do bichano a ronhar nos jardins da Gulbenkian: Reboliço, do lado ingrato do vidro. O título do post é da Mulher do Lado.)
terça-feira, 10 de maio de 2011
Moinhos na poesia (35)
O Criador chama o moleiro à sua presença:
- Moleiro anda p’ró Céu!
- Senhor não tenho vagar:
Tenho o fole na moenga
Que está por maquiar.
O Criador:
- Então como fazes a maquia?
- Vem a mulher, tira o que quer,
Vem a Maria, tira a maquia,
Vem o patrão, tira o maquião,
Vem o criado, tira mais um bocado,
E ainda há-de dar p’ro vinho e p’ro tabaco
E p’ra ração do burro qu’anda fraco.
Este saco deita-se p’ra’quele canto
E se o dono demorar,
Tira-se outro tanto,
E não fora contas a Deus ter que dar,
Nem o fole vazio ao freguês ia parar.
Defunto o moleiro, bate às portas do Céu:
- Abre a porta ó S. Pedro!
Abre a porta, deixa-me entrar.
Diz-lhe o Santo: - Tu não entras
Sem o padre te confessar.
Por isso aqui fica à espera
Enquanto um vou procurar.
Volta o Santo afogueado,
Dizendo preocupado,
- Procurei bem procurado,
Em todo o céu, mais algum
Moleiros, ‘inda vi um,
Padres..., é que não vi nenhum!
- Moleiro anda p’ró Céu!
- Senhor não tenho vagar:
Tenho o fole na moenga
Que está por maquiar.
O Criador:
- Então como fazes a maquia?
- Vem a mulher, tira o que quer,
Vem a Maria, tira a maquia,
Vem o patrão, tira o maquião,
Vem o criado, tira mais um bocado,
E ainda há-de dar p’ro vinho e p’ro tabaco
E p’ra ração do burro qu’anda fraco.
Este saco deita-se p’ra’quele canto
E se o dono demorar,
Tira-se outro tanto,
E não fora contas a Deus ter que dar,
Nem o fole vazio ao freguês ia parar.
Defunto o moleiro, bate às portas do Céu:
- Abre a porta ó S. Pedro!
Abre a porta, deixa-me entrar.
Diz-lhe o Santo: - Tu não entras
Sem o padre te confessar.
Por isso aqui fica à espera
Enquanto um vou procurar.
Volta o Santo afogueado,
Dizendo preocupado,
- Procurei bem procurado,
Em todo o céu, mais algum
Moleiros, ‘inda vi um,
Padres..., é que não vi nenhum!
domingo, 8 de maio de 2011
Andamos a ler
- Luca, está lá um bocadinho sossegada, a ver se me concentro.
- Para quê? O que estás a fazer?
- Estou aqui a ver se respondo a umas perguntas sobre o que já li, o que estou a ler, coisas que não li, sei lá, é um mundo de perguntas. Foi a Sem-Se-Ver que me passou o desafio, e voltou a insistir hoje, enquanto aproveitávamos o fim da tarde no Jardim da Alameda. As perguntas não foi ela que as fez, são iguais para toda a gente. Deixa lá ver se respondo a tudo.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
9. Que livro estás a ler neste momento?
10. Indica dez amigos para o Meme Literário.
- Para quê? O que estás a fazer?
- Estou aqui a ver se respondo a umas perguntas sobre o que já li, o que estou a ler, coisas que não li, sei lá, é um mundo de perguntas. Foi a Sem-Se-Ver que me passou o desafio, e voltou a insistir hoje, enquanto aproveitávamos o fim da tarde no Jardim da Alameda. As perguntas não foi ela que as fez, são iguais para toda a gente. Deixa lá ver se respondo a tudo.
1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
O primeiro livro que li mais do que uma vez chama-se O Meu Pé de Laranja Lima. Da segunda vez li-o em voz alta. Depois disso já me apeteceu ler vários vezes repetidas, mas por defeito e boa fortuna profissional os repetidos são quase sempre peças de Shakespeare. Ou romances de Charles Dickens.
O primeiro livro que li mais do que uma vez chama-se O Meu Pé de Laranja Lima. Da segunda vez li-o em voz alta. Depois disso já me apeteceu ler vários vezes repetidas, mas por defeito e boa fortuna profissional os repetidos são quase sempre peças de Shakespeare. Ou romances de Charles Dickens.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
É capaz, mas não me lembro. Normalmente, se percebo que não o vou terminar, nem o começo. Mas já houve inúmeros de que li as primeiras frases e não quis continuar. (Lembro-me de um da Lídia Jorge que tinha "gruas" no título, ou "andaimes", qualquer coisa assim.)
3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Ler o mesmo livro para o resto da vida? Sei lá. Teria que ser muito divertido, que não deixasse de me divertir. Olha, as Cartas do Meu Moinho, de Alphonse Daudet, seria uma hipótese. Mas para sempre e sem poder ler mais nenhum, não sei - talvez nem o Dom Quixote evitasse que me aborrecesse. Quando não há mais o que ler, a literatura deve ser uma grande chatice.
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Não é só um, são imensos. Uma lista interminável daqueles que são considerados clássicos. Os Budenbrooks, por exemplo, ou o Guerra e Paz. Mas só me lembro disso porque aparece aqui uma pergunta assim. Não levo os dias a pensar "que pena não me apetecer mais vezes ler os Budenbrooks".
5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Esqueço-me muito dos pormenores dos livros que leio. Também por defeito e sorte da profissão, o epílogo de The Tempest, de Shakespeare, ou as últimas páginas do Heart of Darkness, de Joseph Conrad, tenho-os bem presentes na memória. E são ambos pedaços excepcionais de literatura. Mas há outros igualmente impressionantes (o fim do Sinais de Fogo de Jorge de Sena, ou o do Dom Casmurro, de Machado de Assis). Quando gosto muito de um livro, vou ficando com uma grande frustração à medida que o fim dele se aproxima, porque significa para mim que, de alguma maneira, se vai anunciando o final do prazer de descobrir aquele livro.
6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Lia o que apanhava: romances oitocentistas (portugueses e alguns franceses traduzidos), livros de educação infantil, enciclopédias médicas e manuais de enfermagem, livros da Enid Blyton, da Alice Vieira, do José Mauro de Vasconcelos... Era o que havia em casa e na biblioteca da escola. E havia uns folhetins velhos na mercearia do avô Martins, já não me recordo dos títulos, mas eram umas tragédias de chorar baba e ranho e eu lia com avidez as folhas envelhecidas.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Quando tive de ler A Sibila, no liceu, foi custoso. Devo ter desistido e recomeçado umas seis ou sete vezes. Mas tinha que ser, e acabei por lê-lo de uma ponta à outra e de gostar muito de o ler.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Não tenho nenhum livro preferido, ou às vezes tenho. Gosto muito dos livros quando os estou a ler, depois passam a ser livros que me impressionam e estimo de um modo diferente de "gostar de ler". Já houve livros que me deram imenso prazer ler e considero livros menores (os do T. C. Boyle, por exemplo, ou alguns do Paul Auster); dos grandes livros, por vezes não recordo bem o prazer de os ler além de me sentir feliz por os conhecer. Se os livros preferidos são livros que recomendasse, ainda assim faria a recomendação em função do objectivo da leitura de quem ma pedisse. Por outro lado, apetece-me muitas vezes que não tivesse havido na literatura escrita em português nada depois do Machado de Assis.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Não tenho nenhum livro preferido, ou às vezes tenho. Gosto muito dos livros quando os estou a ler, depois passam a ser livros que me impressionam e estimo de um modo diferente de "gostar de ler". Já houve livros que me deram imenso prazer ler e considero livros menores (os do T. C. Boyle, por exemplo, ou alguns do Paul Auster); dos grandes livros, por vezes não recordo bem o prazer de os ler além de me sentir feliz por os conhecer. Se os livros preferidos são livros que recomendasse, ainda assim faria a recomendação em função do objectivo da leitura de quem ma pedisse. Por outro lado, apetece-me muitas vezes que não tivesse havido na literatura escrita em português nada depois do Machado de Assis.
9. Que livro estás a ler neste momento?
Tenho sobre a mesa de cabeceira dois muito semelhantes, que ando a ler há mais de três quinze dias: The Ballad of Dorothy Wordsworth e Families and How To Survive Them.
10. Indica dez amigos para o Meme Literário.
Dez??? Vão cinco e é um pau: Adriana Nogueira, Ana Cristina Joaquim, Carla Quevedo, CF e Isaïes Fanlo,
sábado, 7 de maio de 2011
50 anos (post dedicado)
(Foto da inscrição na mó: Reboliço. Faz meio século que no moinho se juntaram outros moleiros ao avô, os filhos e amigos, e se mudou mais uma mó. A pedrinha nova, coisa para, em sendo calcário, pesar uma tonelada bem medida, implica a desmontagem das escadas para os dois andares e o atravessamento sobre o pau do mastro principal, junto ao tecto, de um baraço da grossura de um braço de homem forte. O baraço há-de passar pelo buraco da mó e, com os braços de fortes homens a empurrar as varas, do lado da rua, ajudar a içar a pedra para o piso intermédio. A colocação da pedra na horizontal, aprumada a fio e olho, são outros tantos quinhentos de rigor e testa franzida. Como em todos os trabalhos que exigem atenção e muita gente concentrada, fecha-se com festa e algazarra. Ou espumante e pizza.)
>
Aniversário,
Fotos,
Moinho,
Parabéns
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Três Primaveras, três!
(Hip-foto do pequeno Matias, pouco antes de completar três anos: Vasco Célio.
Parabéns, meu sobrinho!)
Parabéns, meu sobrinho!)
terça-feira, 3 de maio de 2011
A boa morte (2)
- Estás a ver, Luca, também se pode morrer como num filme de terror.
- Brrrrrrr!... Alguma vez viste filmes em que ela entra, Reboliço? O ataque da mulher de quantos metros? E O ataque das sanguessugas gigantes?
- Nem pensar!, que medo...
- Brrrrrrr!... Alguma vez viste filmes em que ela entra, Reboliço? O ataque da mulher de quantos metros? E O ataque das sanguessugas gigantes?
- Nem pensar!, que medo...
Numa rua de escadas de Lisboa
O Reboliço sobe a rua de escadas, de fôlego recobrado a cada degrau, devagar para não perder o dito. O dia tem um véu de névoa invisível: a chuvada em ameaça suspensa dá aos sons a redondeza que os faz claros, audíveis sem barreira nenhuma. Passa debaixo de uma janela aberta - o véu encerra a cidade, sufoca-a, tira-lhe o ar -, ouve uma voz jovem, de mulher aflita. "Olha, pá, tu se tirares um curso superior vais fazer é o que quiseres, pá. Mas se não tirares, ó pá, fazes o que houver p'ra fazer, 'tás a ver?"
Escapa-te, Reboliço, mora ali um bicho papão.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
sábado, 30 de abril de 2011
sexta-feira, 29 de abril de 2011
A boa morte
O Reboliço ouve alguém dizer que teme as mortes tolas e que desejaria uma morte belíssima, como a de Isadora Duncan. Pensa que a beleza da morte, como talvez a beleza seja do que for, está no olhar de quem a contempla. Quem olha para a morte de Duncan vê a dança, vê a beleza, que quer ver.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Fim de festas
(Hip-foto do topo do confessionário da igreja de São Marcos da Atabueira, no final da missa da festa do padroeiro: Reboliço, de cravo ao peito a lembrar-se de ter lido no Diário do Alentejo que "Beja não celebra o 25 de Abril", porque este ano até "coincide com a Páscoa". E onde já se viram tamanhas heresias, celebrações religiosas misturadas com coisas laicas!)
domingo, 24 de abril de 2011
sábado, 23 de abril de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
...
São sete e meia de uma tarde cinzenta a Norte e azul sobre o mar. O Reboliço acaba de descobrir, por um acaso de patinhas sobre as teclas, um atalho lindíssimo e absolutamente inútil: ALT + . para fazer reticências. Está encantado!
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Moinhos na poesia (34)
Porque nasci ao pé de quatro montes,
por onde as águas passam a cantar
as canções dos moinhos e das fontes,
ensinaram-me as águas a falar...
Eu sei a vossa língua, água das fontes...
Podeis falar comigo, águas do mar...
E ouço, à tarde, os longínquos horizontes
chorar uma saudade singular...
E, porque entendo bem aquelas mágoas
e compreendo os íntimos segredos
da voz do mar ou do rochedo mudo,
sinto-me irmão da luz, do ar, das águas,
sinto-me irmão dos íngremes penedos
e sinto que sou Deus, pois Deus é tudo...
por onde as águas passam a cantar
as canções dos moinhos e das fontes,
ensinaram-me as águas a falar...
Eu sei a vossa língua, água das fontes...
Podeis falar comigo, águas do mar...
E ouço, à tarde, os longínquos horizontes
chorar uma saudade singular...
E, porque entendo bem aquelas mágoas
e compreendo os íntimos segredos
da voz do mar ou do rochedo mudo,
sinto-me irmão da luz, do ar, das águas,
sinto-me irmão dos íngremes penedos
e sinto que sou Deus, pois Deus é tudo...
domingo, 17 de abril de 2011
(Perto de Colchester, c. 1833-35)
(John Constable, "Stanway Mill, near Colchester", c. 1833-35. Aguarela sobre lápis. 14 x 19.7 cm. The Samuel Courtauld Trust, The Courtauld Gallery, Londres.)
sábado, 16 de abril de 2011
O moinho na parede
(Foto da foto que Castanho Gomes fez do Moinho Grande lá para 1976, ou por aí: Carla Martins. Um dia há-de aparecer aqui uma reprodução mais fiel, se o negativo for achado - por agora, a imagem, grande, enfeita a parede da casa do moleiro. Naquela hora o moinho trabalhava, chegava alguém ou partia.)
sexta-feira, 15 de abril de 2011
[Documentário]
Os portugueses, os de cabelo castanho,
divididos
por comunidades de marinheiros e comerciantes
e populações agrícolas do interior.
Audazes os primeiros
tradicionais conservadores os segundos
são como o trigo e os animais
mal sabem o que é o mar ou o comércio.
Tal como as planícies férteis
alternam com a terra montanhosa
bravia.
Fazem debulhas como no Antigo Testamento
cavalos velhos ou mulas andam à roda
de uma eira circular
esperam a ajuda final do vento
e as chuvas.
Os portugueses, os de cabelo castanho.
(João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, na regra do jogo, Lisboa, 1982, p. 92.)
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Bolos e Rosas
(Foto do folar que a Rosa fez e lhe ofereceu: Reboliço, no dia em que fez e ofereceu o bolo de cenoura que outra Rosa lhe ensinou.)
terça-feira, 12 de abril de 2011
PASTELARIA
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
(Mário Cesariny, Nobilíssima Visão, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1975, 2ª. edição, que inclui "só os poemas escritos sob esse título em 1945-46, anos que correspondem a uma leitura do 'país real' topado pelo autor à saída da adolescência linda mas já desconfiada da terra em que assentara os seus projectos de poesia civil: lírica, inocente: dramática.", pp. 18-19.)
domingo, 10 de abril de 2011
"For No Apparent Reason"
(Hip-foto: Reboliço. Era manhãzinha e o Reboliço caminhou nas ruas inclinadas, cruzadas, da Mouraria; desceu ao Martim Moniz, a praça do que ajudou a ganhar Lisboa à mouraria, cruzou a praça para a Igreja de São Domingos ao Rossio, e entrou nela. Entre as paredes matinais, de luz sobre as colunas escavadas por um incêndio de 1959, ouviu, ainda sem ter ouvido, o ud, o alaúde de messieur Anouar Brahem, num cd que trouxera de empréstimo. Já fora da igreja, nas terras de outra presente mouraria, os sons, ouvidos, fizeram-no ver o mármore das magoadas paredes. Muito obrigada, Changuito!)
sábado, 9 de abril de 2011
(Para o Xana)
(Hip-foto hiper colorida do enésimo bolo de cenoura, decorado com três tulipas de verdade: Reboliço.) |
>
Fotos
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Contra a arquitectura
Foto: Reboliço. Franco La Cecla escreveu, o Mano traduziu e prefaciou, a Caleidoscópio editou, na colecção "Pensar Arquitectura". "Pensar Arquitectura" faz lembrar talk Aristotle.)
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Violet & Bobby
- Luca, anda ver!
- O que é, Reboliço?
- São falcões a chocar falcõezinhos.
- Mostra, deixa ver. Onde é que estão?
- Estão no topo da biblioteca Bobst, na praça Washington, em Nova Iorque. Cuidado, não empurres, olha que os assustas.
- Mas eles podem ver-nos, Reboliço?
- Claro que sim: isto é um vidrinho fino...
- O que é, Reboliço?
- São falcões a chocar falcõezinhos.
- Mostra, deixa ver. Onde é que estão?
- Estão no topo da biblioteca Bobst, na praça Washington, em Nova Iorque. Cuidado, não empurres, olha que os assustas.
- Mas eles podem ver-nos, Reboliço?
- Claro que sim: isto é um vidrinho fino...
Ode to the Diencephalon (Ode ao Diencéfalo)
(after A. T. W. Simeons)
How can you be quite so uncouth? After sharing
the same skull for all these millennia, surely
you should have discovered the cortical I is
a compulsive liar.
He has never learned you, it seems, about fig-leaves
or fire or ploughshares or vines or policemen,
that bolting or cringing can seldom earth a
citizen’s problems.
We are dared every day by guilty phobias,
nightmares of missing the bus or being laughed at,
but goose-flesh, the palpitations, the squitters
won’t flabbergast them.
When you could really help us, you don’t. If only,
whenever the trumpet cries men to battle,
you would flash to their muscles the urgent order
ACUTE LUMBAGO!
How can you be quite so uncouth? After sharing
the same skull for all these millennia, surely
you should have discovered the cortical I is
a compulsive liar.
He has never learned you, it seems, about fig-leaves
or fire or ploughshares or vines or policemen,
that bolting or cringing can seldom earth a
citizen’s problems.
We are dared every day by guilty phobias,
nightmares of missing the bus or being laughed at,
but goose-flesh, the palpitations, the squitters
won’t flabbergast them.
When you could really help us, you don’t. If only,
whenever the trumpet cries men to battle,
you would flash to their muscles the urgent order
ACUTE LUMBAGO!
(a partir de A. T. W. Simeons)
Como podes ser tão deselegante? Tantos
milénios a partilhar o mesmo crânio, terias
com certeza descoberto que o eu cortical é
um mentiroso compulsivo.
Nunca te fez saber, ao que parece, das folhas da figueira
ou do fogo ou dos arados ou das vinhas ou dos polícias,
que a trancar ou a recuar raramente enterram
os problemas de um cidadão.
Todos os dias nos incitam fobias culpadas,
pesadelos de perder o autocarro ou de se rirem de nós,
mas a pele de galinha, as palpitações, as cólicas,
nada disso as espantará.
Quando poderias de facto ajudar-nos, não ajudas. Se ao menos,
sempre que o trompete chame os homens à batalha,
lhes mandasses num flash a mensagem urgente de
LOMBALGIA AGUDA!
(W. H. Auden, 1972. Primeiro poema escolhido para celebrar o mês nacional da poesia, segundo The New York Review of Books. Tradução minha, muito claramente em progresso.)
domingo, 3 de abril de 2011
Para a Ju, que escreveu de uma praia.
(Hip-foto da flor de sabugueiro do moinho, acabada de cortar do ramo, pronta para ser secada e dar infusão reconfortante: Reboliço, cheio de sede.)
>
Fotos
quinta-feira, 31 de março de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
(Post de aniversário: as Cartas começaram faz hoje seis anos.)
O parapeito da janela da cozinha fica a menos de um metro do chão. (Um dos ladrilhos esteve muito tempo solto, fazia um clique reconfortante debaixo dos pés, como se dissesse "estás bem, é por aqui".) O parapeito é de madeira, de uma madeira que o vidro magnetizou e me puxava até si de cada vez que entrava na cozinha. Quando comecei a assomar, sem esforço nem banco, os olhos para lá do vidro, conseguia ver desde o mar, uma linha direita e iluminada mesmo nos dias de nuvens baixas. Durante alguns anos era só cortada por três ou quatro torres em Quarteira, outras duas ou três de Vilamoura, que se foram unindo umas às outras com mais torrezinhas pelo meio, até não se distinguir onde começavam e acabavam as duas vilas e ser completa a separação entre mar e terra. Daí para cá, também durante muito tempo, foi a massa suave de verde - que em Janeiro as amendoeiras branqueavam - e o maciço também doce do Cabeço de Câmara (lembro a voz da Sra Virgília a apontar e a ensinar-me o nome do cerro), que veio a ser traçado pela Via do Infante depois de meses de dinamite para deixar passar as luzes que nunca mais pararam de passar, para Barlavento e para Sotavento. De dia é ainda essa massa suave: hortas de árvores baixas, valadinhos de pedra; mas de noite há um pontilhado de luzes a denunciar as casas que foram cogumelando por ali. Daí para cá, o limite da cidade, que era vila, ficava no palácio da Fonte da Pipa, que hoje quase não se distingue das construções novas que alargaram Loulé. Daí para cá, já próximo, via-se a clarabóia de uma casa onde o pai ficara uns dias, ou uns meses, antes de nos mudarmos para este 6º andar. E, a dar sentido a tudo, como uma rosa dos ventos, estava a rotunda. Não era ainda esta fonte com figuras de ferro sobre uns arcos e a água - era uma larga moeda verde só com um poste de luz a sair-lhe do meio, onde os cães se passeavam sem donos nem dó da relva.
Para a esquerda da rotunda, para Sudeste, ficava uma loja de ferragens, escadotes, baldes e outras drogas, onde, no tempo deles, ainda aparece à porta uma caixa de dióspiros (fica o cenário da janela todo concentrado naquele laranja forte e maduríssimo), e por cima da loja a varanda do Ateneu; para cá, do lado Nordeste, ficam ocultas as portas e as lojas. A Noroeste é a esquina da Caixa Geral, mesmo antes do café e da esplanada da Havaneza Louletana; do lado oposto, o mercado, a praça. Entre a praça e a loja de ferragens está a frente de lojas mais visível da janela da cozinha: o estaminé do totobola (se a falhada memória não me falha, houve ali uma barbearia), a pastelaria Amendoal (das últimas a usar a rareante amêndoa algarvia) e a drogaria Liz, da Dona Liberdade e do Sr. Rodrigues, esses de memória boa, que desde há uns meses é uma sapataria deslavada, tem as portas mudadas em montras e a montra única mudada em sacrílega porta de entrada - pisa-se precisamente onde se levantava a pedra com o signo e o nome de Liz, que sustentava o vidro alto da montra.
(Aguarela de Loulé desde o parapeito da cozinha: João Soares, 1991. Da fase, como ele diz, aguarelal.)
As avenidas que confluem nesta rotunda têm os dois lados ligados, ao seu início, por passadeiras. Como são avenidas largas, as quatro passadeiras são duplas: a meio, têm todas uma pequena pausa de cimento entre canteiros de relva e flores. (Aos Sábados de manhã, quando a gente era muita a ir à praça, um polícia sinalizava as vezes de passarem carros e pessoas e inventava com o apito engarrafamentos de gente.) Eram esses intermédios passadeirais o palco preferido da Maria das Bananas, quantas vezes teimosa em cima da relva. Era cantora de muitas vozes, vozes de homem e vozes de mulher, que soava horas a fio conversas entre Deus e Álvaro Cunhal, entre Ramalho Eanes e Jesus Cristo, entre a fé e a euforia nacional.
Quando me assomava, às primeiras horas da manhã, agarrada ao pão com doce ou à caneca de leite, já ela cantava. Cantava ou dizia, dialogava, trialogava, fazia dramas completos e para cada personagem havia uma voz diferente: todas potentes, lançadas desde seis andares abaixo, meio quarteirão de prédios, toda uma rua até à rotunda, donde subiam. Vinha de roupa garrida - nunca se viu com nada que não fosse vermelho rubro, verde forte, amarelo. Eram as cores da bandeira do país, quando não a própria bandeira a fazer-lhe de xaile. (Em panos dignos, que ainda não houvera o Euro nem havia a essa altura em Loulé lojas dos chineses.) Vinha de vermelho e verde e punha-se a cantar o dia inteiro. O meu jogo era, quando não a via do parapeito da janela, tentar adivinhar de onde cantava, por algum eco das casas que circundavam a rotunda. Ouvia-lhe a voz muito clara, possante, muito distintas as palavras trocadas entre os seus cantores de dentro, e ela muito distinta a dar-lhes voz. De perto, se passava por ela na ida ao pão, via brilharem-lhe os olhos pretos, que quase nunca fechava a cantar, via-lhe o buço forte a sombrear o sorriso que só sabia passar a risada, jamais à curva descendente do choro.
Nunca a vi como matéria fotografável. É certo que não andava - não se andava como hoje - de máquina fotográfica em riste. A turistama sim: vinha preparada, achava graça à figura, e snap-snap-snap. Mostraram-me há dias duas dessas fotografias. Aparece de bermudas, de turbante, cores garridas. Não a via talvez desde 1986, a data dessas imagens. Mas não se lhe vê nelas o que tenho aqui dentro, na memória: o crucifixo de madeira, a moldura ao peito, com o retrato que uns dias era Cunhal e outros Cristo.
(Adenda, em 2020, a partir de grata informação de João Romero Chagas Aleixo: a drogaria do Sr. José Rodrigues e da D. Liberdade abriu em janeiro de 1938 e foi a primeira casa comercial, na então vila de Loulé, a ter telefone - foi 7 o seu primeiro número.)
(Adenda, em 2020, a partir de grata informação de João Romero Chagas Aleixo: a drogaria do Sr. José Rodrigues e da D. Liberdade abriu em janeiro de 1938 e foi a primeira casa comercial, na então vila de Loulé, a ter telefone - foi 7 o seu primeiro número.)
sábado, 26 de março de 2011
Moinhos na poesia (33)
"GOSTO MUITO DE MOER"
Gosto muito de moer. Se pudesse, passava a vida a moer.
Vou moendo com entusiasmo.
Durante muito tempo não tive sequer moinho, uma família sem
moinho:
Huhh!
E então costumava dar-me com uma Garota, só para ver um moinho.
Moinho de nozes ou de carne, mas ela não me deixava usá-lo. Em casa
eu moía lápis, quer dizer, afiava-os, mas apesar de me dominar gastava
por dia um ou dois lápis. Mas isso não era nada, eram só
lápis, e não carne. O lápis não é carne.
Só lápis.
Moer lápis é um sucedâneo. Um substituto.
Como eu era infeliz, um escuteirinho triste.
Agora já tenho moinho.
Tenho vários, mesmo muitos. Ou seja, só tenho moinhos. Com
entusiasmo
vou moendo com eles ou posso moer.
Ou moí, mas já moí de tudo.
Huhh!
Esforcei-me por moer devagar, devagar mas como deve ser.
Agora vou moer moinhos.
Gosto muito de moer. Se pudesse, passava a vida a moer.
Vou moendo com entusiasmo.
Durante muito tempo não tive sequer moinho, uma família sem
moinho:
Huhh!
E então costumava dar-me com uma Garota, só para ver um moinho.
Moinho de nozes ou de carne, mas ela não me deixava usá-lo. Em casa
eu moía lápis, quer dizer, afiava-os, mas apesar de me dominar gastava
por dia um ou dois lápis. Mas isso não era nada, eram só
lápis, e não carne. O lápis não é carne.
Só lápis.
Moer lápis é um sucedâneo. Um substituto.
Como eu era infeliz, um escuteirinho triste.
Agora já tenho moinho.
Tenho vários, mesmo muitos. Ou seja, só tenho moinhos. Com
entusiasmo
vou moendo com eles ou posso moer.
Ou moí, mas já moí de tudo.
Huhh!
Esforcei-me por moer devagar, devagar mas como deve ser.
Agora vou moer moinhos.
(Endre Kukorelly, Um Jardim de Plantas Medicinais, Trad. colectiva [Abril de 1995] revista, completada e apresentada por Fernando Pinto do Amaral com a colaboração de Mária Démeter, Quetzal / Poetas em Mateus, 1997, p.20.)
quarta-feira, 23 de março de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
3.
Não sei que horas são no teu relógio.
No meu é cedo/tarde - está parado
vai fazer uns vinte anos. Não importa,
pois as coisas vão e vêm, e de novo
se levanta o mês de Março nesta era
da ironia, com seus truques estafados
e promessas desfolhantes. Juntamente,
tudo passa e tudo volta, mas diverso.
Só por isso, justamente, tem piada
estar aqui, abrir os olhos, conferir
ainda e sempre, na vitrina da manhã,
a produção da Primavera.
No meu é cedo/tarde - está parado
vai fazer uns vinte anos. Não importa,
pois as coisas vão e vêm, e de novo
se levanta o mês de Março nesta era
da ironia, com seus truques estafados
e promessas desfolhantes. Juntamente,
tudo passa e tudo volta, mas diverso.
Só por isso, justamente, tem piada
estar aqui, abrir os olhos, conferir
ainda e sempre, na vitrina da manhã,
a produção da Primavera.
(José Miguel Silva, Erros Individuais, 2010, p. 13.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)






